{"id":80759,"date":"2026-03-31T16:08:34","date_gmt":"2026-03-31T19:08:34","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cobrasma-lucrou-milhoes-ao-apoiar-ditadura-e-reprimir-movimentos-sociais\/"},"modified":"2026-03-31T16:08:34","modified_gmt":"2026-03-31T19:08:34","slug":"cobrasma-lucrou-milhoes-ao-apoiar-ditadura-e-reprimir-movimentos-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cobrasma-lucrou-milhoes-ao-apoiar-ditadura-e-reprimir-movimentos-sociais\/","title":{"rendered":"Cobrasma lucrou milh\u00f5es ao apoiar ditadura e reprimir movimentos sociais"},"content":{"rendered":"<p>Gigante da ind\u00fastria de base durante a ditadura, a Cobrasma (Companhia Brasileira de Materiais Ferrovi\u00e1rios S.A.), carro-chefe do conglomerado gerido pela fam\u00edlia Vidigal, teve um papel mais robusto na parceria entre empres\u00e1rios e militares antes e depois do golpe de 1964. Relat\u00f3rios aos quais a<strong> Ag\u00eancia P\u00fablica <\/strong>teve acesso revelam que dirigentes da empresa tiveram participa\u00e7\u00e3o ativa na conspira\u00e7\u00e3o que resultou no golpe, nos epis\u00f3dios que levaram ao endurecimento do regime militar. Mais tarde, j\u00e1 nos anos de chumbo, um de seus conselheiros colaborou com o \u201ccaixinha\u201d que bancou a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes (OBAN), a a\u00e7\u00e3o mais forte dos \u00f3rg\u00e3os militares e policiais na repress\u00e3o que dizimou as organiza\u00e7\u00f5es da esquerda armada.\u00a0<\/p>\n<p>Os documentos fazem parte do projeto<em>\u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a Ditadura\u201d<\/em>, um trabalho de pesquisa que envolveu 55 pesquisadores e foi conduzido pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo, atrav\u00e9s do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF\/Unifesp), em parceria com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A pesquisa resgata o papel da Cobrasma na greve dos metal\u00fargicos de Osasco, em julho de 1968, um movimento contra o arrocho salarial e a favor da democracia. Alinhada aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, a empresa deu um car\u00e1ter de subvers\u00e3o ao movimento, abrindo caminho para que se usasse a Lei de Seguran\u00e7a Nacional na cassa\u00e7\u00e3o de sindicalistas, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, tortura e banimento de l\u00edderes da greve. O epis\u00f3dio \u00e9 considerado um dos ensaios para, cinco meses depois, a ado\u00e7\u00e3o das medidas de exce\u00e7\u00e3o que viriam com o AI-5 [Ato Institucional n\u00ba 5 emitido em 13 de dezembro de 1968], que deu in\u00edcio ao per\u00edodo mais violento da ditadura.<\/p>\n<figure>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure><figcaption><em>Pris\u00f5es e repress\u00e3o de grevistas em Osasco<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>De acordo com os relat\u00f3rios da pesquisa, um dos principais acionistas da Cobrasma, Gast\u00e3o Eduardo de Bueno Vidigal, fundador do Banco Mercantil de S\u00e3o Paulo, membro do Conselho Consultivo da empresa e irm\u00e3o do ent\u00e3o controlador da organiza\u00e7\u00e3o, Lu\u00eds Eul\u00e1lio Bueno Vidigal encabe\u00e7ou um grupo de banqueiros que financiou a OBAN cuja sede, no Para\u00edso, Zona Sul da capital paulista, se transformou no maior centro de tortura e execu\u00e7\u00e3o do per\u00edodo.\u00a0<\/p>\n<p>O levantamento sustenta que o apoio material e financeiro dado ao golpe facilitou os neg\u00f3cios do grupo Cobrasma com o governo federal, ao longo da ditadura de 21 anos. Conforme a pesquisa, a empresa, que fornecia 100% de sua produ\u00e7\u00e3o ao governo, teve acesso a financiamentos p\u00fablicos altos com juros negativos e a garantia de espa\u00e7o para crescimento. Em seu auge, a Cobrasma faturou mais de U$ 200 milh\u00f5es por ano e empregou quase sete mil metal\u00fargicos.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Repress\u00e3o na greve dos metal\u00fargicos<\/strong><\/h3>\n<p>Durante a greve ocorrida entre os dias 16 e 18 de julho de 1968 \u2013 quando os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a fecharam a cidade de Osasco, invadiram a empresa, sindicatos e at\u00e9 a Igreja Matriz da cidade para sufocar o movimento <strong>\u2014<\/strong>, a Cobrasma criou uma narrativa artificial, classificando a greve como um movimento subversivo que poderia abalar a ditadura. Segundo os relat\u00f3rios, houve pesada repress\u00e3o contra os l\u00edderes sindicais, entre eles estava o ent\u00e3o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metal\u00fargicos de Osasco, Jos\u00e9 Ibrahim, j\u00e1 falecido. Demitido e vivendo na clandestinidade, Ibrahim seria \u201cempurrado\u201d pelo regime para a luta armada. Preso e torturado, foi banido do pa\u00eds junto com militantes de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda trocados pela liberta\u00e7\u00e3o do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, sequestrado e libertado em setembro de 1969.\u00a0<\/p>\n<p>Outro alvo da repress\u00e3o, o padre franc\u00eas Pierre Joseph Wauthier, oper\u00e1rio metal\u00fargico da Braseixos, empresa do mesmo grupo, foi expulso do pa\u00eds em agosto de 1968, um m\u00eas depois do movimento grevista do qual foi acusado de ter sido um dos l\u00edderes. Uma senten\u00e7a do Conselho Permanente da Justi\u00e7a Militar, de 22 de dezembro de 1971, informa que outros dois sindicalistas, Roque Aparecido da Silva e Manoel Dias do Nascimento, tamb\u00e9m foram banidos.\u00a0<\/p>\n<p>O pesquisador Murilo Leal Pereira Neto, um dos coordenadores da pesquisa que revela rela\u00e7\u00f5es entre empresas e a ditadura, lembra que uma greve de metal\u00fargicos com as mesmas reivindica\u00e7\u00f5es havia ocorrido tr\u00eas meses antes do movimento em Osasco, em Contagem, Minas Gerais, e foi resolvida pacificamente numa negocia\u00e7\u00e3o entre trabalhadores e empres\u00e1rios. Ele diz que dirigentes da Cobrasma e da Braseixos se aliaram aos agentes da ditadura com a finalidade de criminalizar o movimento, difundindo uma vers\u00e3o falsa de que os metal\u00fargicos n\u00e3o teriam apresentado reivindica\u00e7\u00e3o salarial, a origem da greve era desconhecida pela maioria de seus participantes e estava \u201cdominada por agentes subversivos com intencionalidades pol\u00edticas de desestabiliza\u00e7\u00e3o social e governamental\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Em 1968, Osasco foi o endere\u00e7o do primeiro n\u00facleo do sindicalismo aguerrido na Grande S\u00e3o Paulo, que se transformou em s\u00edmbolo de luta e resist\u00eancia. Nessa \u00e9poca, a Cobrasma aprofundou seu alinhamento repressivo contra organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e o nascente sindicalismo de trabalhadores da metalurgia, que acabou sendo sufocado pelo regime militar. Um dos pol\u00edticos ligados ao regime, o governador paulista Abreu Sodr\u00e9, declarou \u00e0 \u00e9poca que a dire\u00e7\u00e3o da Cobrasma pediu medidas duras contra os grevistas.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEvidentemente eles foram ao governo pedindo medidas violentas, e o nosso governo tomou as que devia tomar. E acabou! O direito de pedirem provid\u00eancias \u00e9 total, mas a forma de atuar quem dita \u00e9 o governo\u201d, disse Sodr\u00e9 numa das entrevistas dadas na ocasi\u00e3o e resgatada pela pesquisa da Caaf\/Unifesp.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Estudantes apoiam greve de Osasco<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O relat\u00f3rio destaca que a narrativa de que a greve dos metal\u00fargicos em Osasco havia sido dominada por agentes subversivos para causar \u201cdesestabiliza\u00e7\u00e3o social e governamental\u201d serviu como justificativa para o uso de for\u00e7a. \u201cDois dias ap\u00f3s o in\u00edcio da greve, em 18 de junho de 1968, a Cobrasma e Braseixos comunicaram formalmente ao DOPS [Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social] uma lista que nominava 16 oper\u00e1rios envolvidos na greve. A empresa acusou ocupantes grevistas da f\u00e1brica de fazerem ref\u00e9ns entre os trabalhadores administrativos e o movimento acabou sendo descrito como uma greve ilegal de ocupa\u00e7\u00e3o violenta da f\u00e1brica com deten\u00e7\u00e3o criminosa de ref\u00e9ns, vers\u00e3o contestada \u00e0 \u00e9poca por autoridades como o cardeal D. Paulo Evaristo Arns e o ministro do Superior Tribunal Militar (STM), general Pery Bevilacqua e pelo movimento sindical em geral\u201d, diz o relat\u00f3rio. A pesquisa sustenta que a criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento foi um ato consciente da diretoria da Cobrasma para descolar a luta por direitos do trabalho e de sal\u00e1rio.<\/p>\n<figure><figcaption><em>\u2018Listas sujas\u2019 da Cobrasma eram enviadas ao DOPS<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em outro trecho, os pesquisadores assinalam que as a\u00e7\u00f5es da empresa deixaram claro um arranjo no qual \u201cos limites entre o sistema policial-militar e as fun\u00e7\u00f5es empresariais produtivas e administrativas foram violados, configurando-se um dispositivo de controle social e repress\u00e3o pol\u00edtica eficaz\u201d. Os pesquisadores resgataram uma declara\u00e7\u00e3o de 1968 do ex-presidente e, \u00e0 \u00e9poca da greve, ministro do STM (Superior Tribunal Militar), general Ernesto Geisel, afirmando durante reuni\u00e3o do Alto Comando do Ex\u00e9rcito que \u201cOsasco \u00e9 o Vietn\u00e3 brasileiro\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Embora na \u00e9poca tenha sido falado de 600 pris\u00f5es de grevistas, a pesquisa documentou 92 casos, dos quais 31 foram indiciados e, destes, 22 acabaram denunciados e julgados na Lei de Seguran\u00e7a Nacional, num processo que s\u00f3 se encerrou quatro anos depois no STM. A pris\u00e3o e expuls\u00e3o do padre oper\u00e1rio Pierre Wauthier, que era tamb\u00e9m coordenador da \u201cMiss\u00e3o Oper\u00e1ria S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo\u201d, e o tratamento dado aos grevistas provocou pesadas cr\u00edticas da igreja cat\u00f3lica.\u00a0<\/p>\n<p>Os relatos ouvidos pelos pesquisadores apontam que, j\u00e1 nessa \u00e9poca, opositores presos, como o padre e outro dirigente sindical, Jos\u00e9 do Campos Barreto, foram barbaramente torturados, al\u00e9m de sofrerem press\u00e3o psicol\u00f3gica, numa clara viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos. Outros, como o oper\u00e1rio, poeta e ator In\u00e1cio Rangel, o ent\u00e3o inspetor de qualidade da Cobrasma, Jo\u00e3o Joaquim da Silva e Pedro Tintino da Silva foram sumariamente demitidos, amargando anos de dificuldades em decorr\u00eancia do carimbo de indesej\u00e1veis subversivos em suas fichas.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em><em>Grevistas em Osasco<\/em><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A pesquisa afirma que a empresa n\u00e3o s\u00f3 passou nomes das lideran\u00e7as \u00e0 pol\u00edcia, como tamb\u00e9m facilitou a invas\u00e3o da f\u00e1brica e incentivou as pris\u00f5es em massa executadas com arbitr\u00e1rias invas\u00f5es no Sindicato dos Metal\u00fargicos, na Igreja Matriz de Osasco ou nas ruas. A pesquisa cita seis tipos de condutas violadoras de direitos humanos e trabalhistas por parte da Cobrasma: \u201ccolabora\u00e7\u00e3o material e financeira com a ditadura\u201d, \u201ccontrole social e persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aos trabalhadores\u201d, \u201ccolabora\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a interna com os \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o\u201d, \u201ccriminaliza\u00e7\u00e3o da greve, demiss\u00f5es injustas e viola\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas\u201d.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h3><strong>Listas sujas<\/strong><\/h3>\n<p>Os relat\u00f3rios da Unifesp apontam que a Cobrasma mantinha estreitas rela\u00e7\u00f5es com os \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o do regime militar, enviando para o crivo do DOPS as chamadas \u201clistas sujas\u201d, atrav\u00e9s das quais, delatava funcion\u00e1rios suspeitos de atividades subversivas, ao mesmo tempo em que submetia nomes de candidatos a emprego ao crivo do \u00f3rg\u00e3o policial que, \u00e0 \u00e9poca, era mero ap\u00eandice da pol\u00edcia pol\u00edtica da ditadura. A empresa tamb\u00e9m franqueava seus arquivos e depend\u00eancia \u00e0 pol\u00edcia. Em fun\u00e7\u00e3o desse alinhamento, 40 oper\u00e1rios foram demitidos e pelo menos 25 metal\u00fargicos, que eram dirigentes sindicais, tiveram os mandatos cassados <strong>\u2014<\/strong> 16 deles estavam listados em comunicado da empresa enviado ao DOPS.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Vista a\u00e9rea da Cobrasma em 1948<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1969, por interm\u00e9dio de seu bra\u00e7o financeiro, o Banco Mercantil de S\u00e3o Paulo, a fam\u00edlia Vidigal encabe\u00e7aria a lista de empres\u00e1rios que colaboraram com o \u201ccaixinha que financiou a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes (OBAN), a a\u00e7\u00e3o articulada de repress\u00e3o que transformou o quadril\u00e1tero onde funciona atualmente o 36\u00ba Distrito Policial de S\u00e3o Paulo, entre as ruas Tut\u00f3ia e Tom\u00e1s Carvalhal, no bairro Paraiso, num dos maiores centros de tortura e execu\u00e7\u00e3o de militantes de esquerda presos. O relat\u00f3rio frisa que Gast\u00e3o Eduardo de Bueno Vidigal, fundador do Banco Mercantil de S\u00e3o Paulo, e o ex-ministro da Fazenda, Delfim Neto, organizaram reuni\u00f5es para capta\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00f5es \u2018volunt\u00e1rias\u2019 de empres\u00e1rios, citando como refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica os livros <em>No Centro da Engrenagem.<\/em> <em>Os interrogat\u00f3rios na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes e no Doi em S\u00e3o Paulo. 1969-1975, <\/em>da pesquisadora Mariana Joffily, e <em>Ditadura Escancarada<\/em>, do jornalista Elio Gaspari.\u00a0<\/p>\n<p>Criada em junho de 1969, a OBAN, que foi dirigida pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e teria sido respons\u00e1vel por cerca de 50 mortes e desaparecimentos, contou com expressiva colabora\u00e7\u00e3o financeira da elite industrial paulista reunida em torno da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (FIESP), que deu suporte \u00e0 ditadura e que, assim como a Cobrasma, obteve vantagens econ\u00f4micas como contrapartida. O jornalista Elio Gaspari relata em seu livro que Gast\u00e3o Vidigal ajudou a organizar um encontro de 15 banqueiros. Cada um deles aceitou contribuir com US$ 110 mil, o que, somado, representaria U$ 1,650 milh\u00e3o ou algo em torno de R$ 8,5 milh\u00f5es em valores atuais.<\/p>\n<h3><strong>Fam\u00edlia Vidigal<\/strong><\/h3>\n<p>Os relat\u00f3rios apontam tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o de membros da Fam\u00edlia Vidigal em organiza\u00e7\u00f5es de direita respons\u00e1veis por a\u00e7\u00f5es de apoio material e financeiro a ditadura: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (IBAD), o Grupo Permanente de Mobiliza\u00e7\u00e3o Industrial (GPMI) da FIESP, e a American Chamber of Commerce. Lu\u00eds Eul\u00e1lio Bueno Vidigal Filho, que estava na Cobrasma na greve de 1968,\u00a0 assumiria, a partir de 1973, a vice-presid\u00eancia do GPMI (Grupo Permanente de Mobiliza\u00e7\u00e3o Industrial), encarregado de fomentar formas de colabora\u00e7\u00e3o material de empresas e o governo militar na produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de insumos para a defesa interna. Uma d\u00e9cada depois, se tornaria presidente da FIESP.\u00a0<\/p>\n<p>Sob o comando de Lu\u00eds Eul\u00e1lio, a FIESP continuou apoiando a ditadura..\u201cEst\u00e1 chegando a hora da gera\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios surgidos depois de 64. N\u00f3s, jovens empres\u00e1rios, somos todos frutos da Revolu\u00e7\u00e3o de 64\u201d, disse Lu\u00eds Eul\u00e1lio, segundo o relat\u00f3rio, durante a campanha para assumir a entidade. Ele chegou a submeter \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, general Jo\u00e3o Batista Figueiredo, o programa da chapa que encabe\u00e7ava em 1979. \u201cInimigo se liquida, com o advers\u00e1rio se compete. E os comunistas s\u00e3o todos inimigos\u201d, disse Lu\u00eds Eul\u00e1lio.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Lu\u00eds Eul\u00e1lio Bueno Vidigal em depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade de Osasco<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os relat\u00f3rios da Unifesp assinalam que a dire\u00e7\u00e3o da Cobrasma colaborou tamb\u00e9m na fabrica\u00e7\u00e3o de carros blindados de combate para serem usados em manifesta\u00e7\u00f5es de rua, caso houvesse rea\u00e7\u00e3o armada contra o golpe que derrubou Jo\u00e3o Goulart. Como n\u00e3o houve resist\u00eancia, os ve\u00edculos, produzidos fora das especifica\u00e7\u00f5es legais, acabaram sendo destinados \u00e0 antiga For\u00e7a P\u00fablica, hoje Pol\u00edcia Militar paulista.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Confraria golpista<\/strong><\/h3>\n<p>O v\u00ednculo mais tenebroso da FIESP com a repress\u00e3o seria exercido, no entanto, pelo empres\u00e1rio de origem dinamarquesa, Henning Albert Boilesen, fundador e presidente do Centro de Integra\u00e7\u00e3o Empresa Escola (CIEE), da entidade, e presidente da Ultragaz e tamb\u00e9m um dos coletores das contribui\u00e7\u00f5es financeiras \u00e0 OBAN. Ele frequentava os por\u00f5es da ditadura e chegou a presentear os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o com um aparelho de tortura importado. Em retalia\u00e7\u00e3o, Boilesen foi executado a tiros por um comando guerrilheiro no dia 15 de abril de 1971, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A intimidade entre o Grupo Vidigal com personagens ligados \u00e0 repress\u00e3o, segundo documentos encontrados pelos pesquisadores, aparece tamb\u00e9m no setor de recursos humanos da Cobrasma. O m\u00e9dico-legista Harry Shibata, acusado de falsificar laudos periciais usados para dar fachada de legalidade a mortes sob tortura, foi funcion\u00e1rio da Cobrasma no mesmo per\u00edodo em que dirigiu o Instituto M\u00e9dico Legal (IML) de S\u00e3o Paulo, cujo v\u00ednculo \u201cempregat\u00edcio\u201d s\u00f3 se desfez quando ele foi exonerado da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Shibata integrou a Comiss\u00e3o Interna de Preven\u00e7\u00e3o de Acidentes (CIPA) da Cobrasma, onde permaneceu de 1974 a 1983, acumulando, a partir de 1976, a fun\u00e7\u00e3o de diretor do IML de S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do legista tem dois fatos intrigantes. O primeiro: \u00e9 ele quem assina o laudo falso \u201catestando\u201d que o jornalista Vladimir Herzog, assassinado durante sess\u00e3o de tortura, se \u201csuicidou\u201d na carceragem da OBAN, em 1975, o que significa que j\u00e1 trabalhava para o IML antes de assumir a dire\u00e7\u00e3o. \u201cJ\u00e1 funcion\u00e1rio da empresa [Cobrasma], (Shibata) se liga ao IML, onde realiza atividades junto aos setores da repress\u00e3o, e tem sua sa\u00edda efetivada da empresa junto com a data de exonera\u00e7\u00e3o do IML\u201d, diz um dos trechos do relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A pesquisa traz \u00e0 tona tamb\u00e9m as hist\u00f3rias de um general da reserva que constava na folha de pagamento da Braseixos, Henrique Osvaldo da Silva Loureiro e do pesquisador, superintendente e conselheiro do Instituto de Pesquisas Tecnol\u00f3gicas (IPT), o engenheiro Alberto Pereira de Castro, ligado a mais famosa emin\u00eancia parda do regime militar, o general Golbery do Couto e Silva, o criador do IPES e ministro da Casa Civil nos governos Ernesto Geisel e Jo\u00e3o Figueiredo. Num informe do Centro de Informa\u00e7\u00f5es da Aeron\u00e1utica (CISA) encontrado pelos pesquisadores, Castro aparece como um informante do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), tamb\u00e9m criado por Golbery, com fun\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas tanto de superintendente da Cobrasma como do IPES. A pesquisa afirma que o cientista fazia parte do chamado \u201cn\u00facleo duro do golpismo\u201d, no qual a Cobrasma e a fam\u00edlia Vidigal, ativa no IPES, atuariam \u201cirmanados como ponta de lan\u00e7a das articula\u00e7\u00f5es para o golpe de 1964\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A confraria golpista reunia em torno do IPES, outros dois personagens decisivos para os plano empresarial-militar: Luiz Antonio Gama e Silva, ministro da Justi\u00e7a do governo Costa e Silva, e Alfredo Buzaid, ministro da Justi\u00e7a do governo Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici, ambos com la\u00e7os estreitos com Lu\u00eds Eul\u00e1lio de Bueno Vidigal quando este ainda era superintendente e presidente da Cobrasma. Entre outros servi\u00e7os prestados \u00e0 ditadura, Gama e Silva foi autor da Lei de Seguran\u00e7a Nacional e dos dois mais importantes atos institucionais da ditadura, o AI-1 (Ato Institucional-1), que abriu a temporada de ca\u00e7a a opositores, e o mais terr\u00edvel deles, o AI-5.<\/p>\n<h3><strong>Rela\u00e7\u00f5es lucrativas<\/strong><\/h3>\n<p>A via de m\u00e3o dupla aberta na ditadura, segundo o relat\u00f3rio da pesquisa, rendeu dividendos fabulosos para a Cobrasma. Ao mesmo tempo em que se transformou em desaguadouro natural das press\u00f5es do governo para que respondesse ao chamado de aumento da produ\u00e7\u00e3o, a empresa tinha acesso a fartos recursos governamentais via Banco do Brasil, Caixa Econ\u00f4mica Federal, BNDE \u2013 Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico (hoje BNDES). Segundo os relat\u00f3rios, Cobrasma recebeu incentivos fiscais do Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI) para investir na \u00e9poca 60 milh\u00f5es de cruzeiros na amplia\u00e7\u00e3o de sua capacidade produtiva, nas \u00e1reas de equipamentos para o setor petroqu\u00edmico e de vag\u00f5es sider\u00fargicos. O Grupo Vidigal recebeu aporte de recursos de institui\u00e7\u00f5es financeiras p\u00fablicas, dos quais 40% eram origin\u00e1rios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico. A Cobrasma ficou com 80% dos recursos. S\u00f3 na implementa\u00e7\u00e3o do Complexo Sumar\u00e9-Hortol\u00e2ndia, a empresa teria investido, cerca de US$ 2 bilh\u00f5es \u00e0 \u00e9poca. 40% desse volume teriam sa\u00eddo do BNDES.<\/p>\n<figure><figcaption><em><em>Visita de autoridades \u00e0 sede da Cobrasma em 1971<\/em><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0\u201cQuantia t\u00e3o alta a juros t\u00e3o baixos, significou compromisso perene com o regime civil-militar. Tais \u2018amarra\u00e7\u00f5es\u2019 geravam compromissos outros, mesmo que alguns nos subterr\u00e2neos do regime\u201d, destaca o relat\u00f3rio. A decad\u00eancia da Cobrasma, n\u00e3o por acaso, tem in\u00edcio com o avan\u00e7o do processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o, que derrota o regime militar em 1985. \u201cConcretamente o encerramento do per\u00edodo formalmente ditatorial foi p\u00e9ssimo para a empresa, pois perdeu acesso privilegiado ao fundo p\u00fablico e \u00e0s pol\u00edticas governamentais direcionadas\u201d, diz o pesquisador Murilo Leal Pereira Neto. Embora sua raz\u00e3o social continue ativa, a Cobrasma encerrou atividades em 1998, com uma d\u00edvida de R$ 600 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Procurado, o empres\u00e1rio Lu\u00eds Eul\u00e1lio Bueno Vidigal Filho n\u00e3o retornou o pedido de entrevista. Numa das \u00faltimas ocasi\u00f5es em que apareceu em p\u00fablico, em 2014, ele prestou depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade de Osasco, no qual negou que tenha colaborado com a pol\u00edcia durante a greve ou na repress\u00e3o \u00e0 esquerda armada.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sindicalistas-criticam-privatizacao-de-distribuidora-com-reajustes-abusivos-do-diesel\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Escolhajpg-scaled-e1773344544688-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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