{"id":80760,"date":"2026-03-31T16:08:35","date_gmt":"2026-03-31T19:08:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/grupo-dono-do-arroz-tio-joao-teria-metralhado-de-helicoptero-casa-de-posseiros-na-ditadura\/"},"modified":"2026-03-31T16:08:35","modified_gmt":"2026-03-31T19:08:35","slug":"grupo-dono-do-arroz-tio-joao-teria-metralhado-de-helicoptero-casa-de-posseiros-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/grupo-dono-do-arroz-tio-joao-teria-metralhado-de-helicoptero-casa-de-posseiros-na-ditadura\/","title":{"rendered":"Grupo dono do Arroz Tio Jo\u00e3o teria metralhado de helic\u00f3ptero casa de posseiros na ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Era in\u00edcio dos anos 1980, governo do general Jo\u00e3o Figueiredo, o \u00faltimo presidente da ditadura militar. Naquele momento, a press\u00e3o pela reabertura pol\u00edtica no Brasil se intensificava ao passo que a persegui\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia cresciam exponencialmente em Viseu, Norte do Par\u00e1. A repress\u00e3o no munic\u00edpio, distante 320 quil\u00f4metros de Bel\u00e9m, capital do estado, se concentrava principalmente na antiga Gleba Cidapar \u2014 regi\u00e3o com vilas, garimpos e uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 10 mil pessoas. Foi onde Raimundo* passou a maior parte da vida e convivia com o medo da fam\u00edlia em meio \u00e0 disputa por terras.<\/p>\n<p>Ele conta que uma guerra desleal se instalou entre 1983 e 1985. De um lado, colonos e posseiros e do outro, a estrutura da Josapar \u2014 Grupo Joaquim Oliveira S.A Participa\u00e7\u00f5es, dono de marcas conhecidas do p\u00fablico como arroz Tio Jo\u00e3o e feij\u00e3o Meu Biju. \u00c0 \u00e9poca, a empresa atuava na Gleba Cidapar como acionista de pelo menos sete empreendimentos, os principais eram a Propar\u00e1 (Companhia Agropastoril Industrial Mineral do Par\u00e1) e a Agro-Pastoril Grupi\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cOs pistoleiros da Cidapar dentro de um avi\u00e3o atiraram na casa, sobre a casa do seu Silva. Primeiro atiraram sobre a casa do seu Silva e se defendeu se jogando dentro de um po\u00e7o e outro amigo dele entrou dentro de um oco de pau\u201d, narrou Raimundo, frisando que ele e a fam\u00edlia tamb\u00e9m fugiram dos tiros. \u201cDepois que eles atiraram sobre a casa do seu Silva de metralhadora, eles se deslocaram pra casa do meu pai, pra nossa casa, que era bem pr\u00f3xima ali na Barraca da Farinha. E l\u00e1 eles desferiram alguns tiros sobre n\u00f3s, sobre mim, sobre meu irm\u00e3o, minha irm\u00e3 e minha m\u00e3e\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Raimundo refere-se ao grupo Josapar como \u201cCidapar\u201d pelo fato de o nome ter se popularizado entre os moradores ao fazer refer\u00eancia \u00e0 empresa que atuava na regi\u00e3o at\u00e9 1968, quando declarou fal\u00eancia e o BDI (Banco Denasa de Investimentos) assumiu os ativos do empreendimento. Em 1980, o banco aliou-se \u00e0 Josapar e juntos criaram as empresas que passaram a operar na gleba.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio descrito por Raimundo, ocorreu quando ele tinha pouco mais de seis anos de idade. Era uma crian\u00e7a que, apesar de t\u00e3o nova, pescava junto com os irm\u00e3os e a m\u00e3e para ter comida na mesa. O pai, sindicalista, se dedicava exclusivamente \u00e0 representa\u00e7\u00e3o dos moradores e viajava com frequ\u00eancia \u00e0 capital paraense denunciando os conflitos.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEles atiraram de pistola. O avi\u00e3o \u2018tava\u2019 t\u00e3o baixo que dava pra ver as m\u00e3os deles atirando sobre a gente. A gente via a \u2018l\u00edngua de fogo\u2019 atirando sobre n\u00f3s. Dali minha m\u00e3e mostrou pra eles uma enxada e eles sobrevoaram, sa\u00edram. Papai j\u00e1 \u2018tava\u2019 na tribuna [da Assembleia Legislativa do Par\u00e1] pra fazer a den\u00fancia. Foi ligado pra l\u00e1 e foi relatado esse fato. E l\u00e1 eles disseram que os colonos tinham uma arma diferente, mas era uma enxada que foi apontada para o helic\u00f3ptero\u201d, lembrou.\u00a0<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es da Josapar visavam a apropria\u00e7\u00e3o irregular de terras com a expuls\u00e3o \u2014 a maioria das vezes violenta \u2014 dos propriet\u00e1rios, segundo material obtido com exclusividade pela <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> e que faz parte do projeto <em>\u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a Ditadura\u201d<\/em>, um amplo trabalho de pesquisa que envolveu 55 pesquisadores e foi conduzido pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo, atrav\u00e9s do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF\/Unifesp) em parceria com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ainda segundo as fontes ouvidas pela Unifesp, os interesses econ\u00f4micos da Josapar na regi\u00e3o visavam minera\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o de madeira e produ\u00e7\u00e3o de cer\u00e2mica. O material analisado pela reportagem ainda traz evid\u00eancias de graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos por meio da alian\u00e7a entre for\u00e7as de seguran\u00e7a da ditadura militar e a Josapar, uma das maiores empresas \u2014 como ela se apresenta em seu site oficial \u2014 do setor de alimentos do Brasil e que exporta produtos para mais de 40 pa\u00edses.\u00a0<\/p>\n<p>Os documentos analisados pela Unifesp mostram forte rela\u00e7\u00e3o entre o grupo Josapar, o Banco Denasa e o regime militar. Entre os nomes influentes no Governo Federal, estava o general Ant\u00f4nio Carlos Muricy, chefe do Departamento Geral de Pessoal do Ex\u00e9rcito, entre 1966 e 1969, e chefe do Estado-Maior do Ex\u00e9rcito, de 1969 a 1970. O militar fez parte do Conselho Administrativo do Banco Denasa justamente no per\u00edodo de conflitos na Gleba Cidapar.\u00a0<\/p>\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m identificaram uma rela\u00e7\u00e3o com M\u00e1rio David Andreazza, ministro dos Transportes, de 1967 a 1974, e ministro do Interior, entre 1979 e 1985. O filho dele, Mario Gualberto Andreazza, foi mencionado num documento analisado pela Unifesp como presidente do Conselho Administrativo do Banco Denasa na d\u00e9cada de 1980. A\u00e7\u00f5es do ex-ministro, segundo os pesquisadores, levaram \u00e0 concess\u00e3o de pelo menos 30 alvar\u00e1s de pesquisa mineral a empresas do grupo Josapar.<\/p>\n<h3><strong>Terror na ca\u00e7ada a Quintino<\/strong><\/h3>\n<p>O nome mais citado pelas fontes an\u00f4nimas que participaram do levantamento da Unifesp sobre o auge da viol\u00eancia na Gleba \u00e9 James Vita Lopes \u2014 ex-funcion\u00e1rio do cons\u00f3rcio Josapar-Denasa encarregado de chefiar a \u201cguarda de seguran\u00e7a\u201d composta por pistoleiros que teriam invadido casas, destru\u00eddo planta\u00e7\u00f5es, agredido e assassinado moradores. James tinha boa rela\u00e7\u00e3o com militares, inclusive com o DOPS (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social) \u2014 \u00f3rg\u00e3o de intelig\u00eancia do regime militar.<\/p>\n<p>Em novembro de 1983, James assinou um termo de declara\u00e7\u00e3o ao DOPS afirmando ser gerente do complexo residencial das empresas instaladas \u00e0s margens da BR-316, \u00e1rea onde a Josapar se instalou. Na declara\u00e7\u00e3o, ele negava a viol\u00eancia contra os moradores, mas admitia ter transitado em diversas propriedades com um grupo de funcion\u00e1rios na busca por Quintino, l\u00edder da resist\u00eancia armada dos posseiros.\u00a0<\/p>\n<p>A press\u00e3o para encontrar Quintino \u201cvivo ou morto\u201d, numa ca\u00e7ada iniciada em meados de 1983, envolveu setores da seguran\u00e7a p\u00fablica, pistoleiros, empres\u00e1rios e fazendeiros.\u00a0 \u201cA\u00ed a coisa tomou um rumo meio ignorado, tomou um rumo meio incontrol\u00e1vel, a\u00ed era matan\u00e7a mesmo\u201d, disse uma das testemunhas.\u00a0<\/p>\n<p>A Josapar reconhece que James era seu agente de seguran\u00e7a em um documento enviado, em 5 agosto de 1984, ao comandante da 8\u00aa Brigada de Infantaria de Selva, em Pelotas (RS). A empresa citava o conflito de terra e dizia ser atacada pela \u201cimprensa tendenciosa\u201d. Alegava ainda que seu funcion\u00e1rio \u201cjamais extrapolou suas fun\u00e7\u00f5es na propriedade\u201d, o que contradiz os registros e depoimentos.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Josapar reconheceu que James era seu agente de seguran\u00e7a em documento enviado ao ex\u00e9rcito<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cEm diferentes momentos da repress\u00e3o a gente vai enxergar uma articula\u00e7\u00e3o de pistoleiros, de grandes fazendeiros e grandes empres\u00e1rios com a pr\u00f3pria pol\u00edcia, com agentes do DOPS. A partir de 1983, o conflito vai atingir uma propor\u00e7\u00e3o muito grande\u201d, explica Alessandra Gasparotto, integrante da pesquisa da Unifesp e professora do Departamento do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).<\/p>\n<h3><strong>Uma for\u00e7a para-militar<\/strong><\/h3>\n<p>Amea\u00e7as de mortes passaram a fazer parte da rotina dos posseiros diante da \u201cfor\u00e7a para-militar\u201d comandada pelo \u201ccapit\u00e3o\u201d James \u2014 assim descrevia o deputado Paulo Fonteneles (PMDB), segundo a reportagem publicada pelo jornal <em>O Liberal<\/em>, em 6 de dezembro de 1983. O parlamentar chegou a\u00a0propor uma mobiliza\u00e7\u00e3o da Assembleia Legislativa do Par\u00e1 para verificar <em>in loco<\/em> as den\u00fancias na \u00e1rea. Ele dizia que o grupo de seguran\u00e7a privada usava metralhadoras, carabinas e uniformes verdes semelhantes aos do Ex\u00e9rcito.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Reportagem publicada pelo jornal O Liberal relatou amea\u00e7as feitas pelo \u201ccapit\u00e3o\u201d James aos posseiros<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Entre as pessoas amea\u00e7adas, estava Luis Lima Gaspar, delegado sindical do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Viseu \u2014 noticiava a <em>Prov\u00edncia do Par\u00e1<\/em>, em 30 de dezembro de 1983. As amea\u00e7as partiam dos pistoleiros contratados pela Propar\u00e1, que usavam helic\u00f3pteros para sobrevoar as terras e coagir a popula\u00e7\u00e3o, registrou o peri\u00f3dico.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Reportagem da Prov\u00edncia do Par\u00e1 denunciou amea\u00e7as de morte sofridas pelos posseiros de Viseu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Um relat\u00f3rio produzido por lavradores, em dezembro de 1984, pede \u00e0s autoridades uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cafli\u00e7\u00e3o\u201d vivida pelas fam\u00edlias. O documento denunciava que direitos estavam sendo retirados pelo \u201cpoder do dinheiro e da corrup\u00e7\u00e3o\u201d e descreve sucessivas invas\u00f5es a casas, amea\u00e7as e agress\u00f5es na regi\u00e3o da Gleba durante a ca\u00e7ada a Quintino. \u201cSenhoras de 8 dias de resguardo dormiram na mata junto com seus filhos, outros se amontoaram nas casas e simplesmente choravam\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s torturar diversos posseiros buscando o paradeiro de Quintino, o grupo armado teria chegado a um barraco onde a lideran\u00e7a estava escondida. Quintino teria escapado do cerco; \u201cpor\u00e9m, sua companheira (Ant\u00f4nia) foi crivada de balas assim. (\u2026) At\u00e9 hoje os corpos est\u00e3o insepultos, os urubus est\u00e3o comendo\u201d, detalhou outro depoimento coletado pela Unifesp. Ao final, um apelo: \u201cExigimos justi\u00e7a para todos os lavradores mortos e pedimos esclarecimentos dos desaparecidos e liberdade para os presos\u201d.\u00a0<\/p>\n<figure><\/figure>\n<figure><figcaption><em>Relat\u00f3rio aponta ataque \u00e0 resid\u00eancias, torturas, assassinatos e pedido por justi\u00e7a para todos os lavradores mortos e desaparecidos<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi denunciada pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) em uma nota divulgada pelo Centro de Direitos Humanos\/Grupo A\u00e7\u00e3o Justi\u00e7a e Paz. \u201c10 mil fam\u00edlias de posseiros pedem apoio\u201d, dizia a entidade. Afirmava ainda que a \u00e1rea em lit\u00edgio abrangia mais de 340 mil hectares e citava mortes em decorr\u00eancia das a\u00e7\u00f5es de um \u201cex\u00e9rcito\u201d de \u201cpistoleiros contratados pela Propar\u00e1-Grupi\u00e1, as duas mais fortes do Grupo Joaquim Oliveira\u201d.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Nota divulgada pelo Centro de Direitos Humanos\/Grupo A\u00e7\u00e3o Justi\u00e7a aponta conflito de terra entre fam\u00edlias e pistoleiros<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Um capit\u00e3o da PM\/PA chegou a produzir, em julho de 1984, um relat\u00f3rio sobre a viol\u00eancia na Gleba, reunindo relatos e den\u00fancias dos moradores. Entre os epis\u00f3dios descritos pelo militar, est\u00e1 o de uma mulher gr\u00e1vida de tr\u00eas meses que teria sofrido um aborto ap\u00f3s ter a casa invadida por um grupo armado durante a busca por Quintino. \u201cEm consequ\u00eancia do impacto sofrido [pela invas\u00e3o da casa] e ainda visualizando o estado de Ben\u00e9 200 [colono conhecido na regi\u00e3o] sendo espancado em frente a sua morada, n\u00e3o resistiu vindo a abortar no dia seguinte\u201d.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Relat\u00f3rio sobre a viol\u00eancia na Gleba reuniu relatos e den\u00fancias dos moradores<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>As campanhas e den\u00fancias contra as a\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia levaram a Josapar a demitir James Vita Lopes ainda em 1984. Contudo, o grupo de seguran\u00e7a continuou ativo, segundo a apura\u00e7\u00e3o dos pesquisadores da Unifesp.<\/p>\n<p>Alguns registros tamb\u00e9m sugerem apoio da Josapar no suporte material a tropas policiais que atuavam de forma ostensiva na regi\u00e3o entre o final de 1984 e in\u00edcio de 1985. A legenda de uma foto, publicada em novembro de 1984 pelo jornal <em>O Liberal<\/em>, por exemplo, comentava que at\u00e9 alimentos a empresa fornecia aos militares.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Josapar teria ajudado no suporte material a tropas policiais que atuavam de forma ostensiva na regi\u00e3o, segundo relat\u00f3rio<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Fim da ca\u00e7ada e o medo<\/strong><\/h3>\n<p>A ca\u00e7ada por Quintino encerrou em janeiro de 1985, quando ele teria sido baleado pelas costas com tiros de fuzil, conforme os relatos obtidos com exclusividade pela Unifesp. Ap\u00f3s o assassinato, um panfleto distribu\u00eddo por moradores anunciava: \u201cmais um irm\u00e3o se foi\u201d; e acrescentava: \u201cQuintino da Silva Oliveira, chamado pelos fazendeiros de \u2018bandido\u2019 e tido como filho e defensor da terra foi barbaramente assassinado por uma tropa da Pol\u00edcia Militar do Par\u00e1 acompanhada de pistoleiros pagos pelos latifundi\u00e1rios da regi\u00e3o\u201d. Segundo o informe, testemunhas garantiam que o grupo n\u00e3o havia dado chance para Quintino se apresentar, \u201ccomo ele realmente pretendia\u201d.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Panfleto distribu\u00eddo por moradores anunciava assassinato de Quintino<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A Josapar, segundo a pesquisa da Unifesp, tentava com frequ\u00eancia atribuir os conflitos a quest\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas, al\u00e9m de negar todos os atos e viol\u00eancia. O grupo produziu, em agosto de 1984, um relat\u00f3rio intitulado \u201cConflito de terras forjado para encobrir os verdadeiros objetivos\u201d. A Josapar alegava que a disputa armada n\u00e3o existia e que as not\u00edcias sobre ela eram uma \u201ccortina de fuma\u00e7a\u201d criada para encobrir outro interesse: as jazidas de ouro. A empresa afirmava existir o financiamento de \u201csubversivos\u201d que estariam sendo \u201cacobertados por diferentes bandeiras\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m tentativas de associar a resist\u00eancia na Gleba Cidapar com a Guerrilha do Araguaia \u2014 movimento revolucion\u00e1rio contra a ditadura no Brasil \u2014 e outros grupos pol\u00edticos do pa\u00eds. \u201cA todo momento a empresa tenta vincular os posseiros que lutavam pela terra com a subvers\u00e3o, com organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, com o comunismo. Tem outros documentos em que a Propar\u00e1, que \u00e9 a principal empresa do grupo, diz assim: \u2018o SNI [Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es] est\u00e1 sendo informado de tudo que acontece na regi\u00e3o\u2019. E a\u00ed mais uma vez eles reafirmam que a grande quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um conflito de terras, \u00e9 a luta subversiva\u201d, explicou Alessandra Gasparotto, pesquisadora da Unifesp.\u00a0<\/p>\n<p>O material descrito nesta reportagem faz parte de um relat\u00f3rio que ser\u00e1 enviado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e deve servir de base para a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o a v\u00edtimas da ditadura militar. \u201cUm dos objetivos era reunir elementos, ind\u00edcios e provas para que o MP pudesse abrir a\u00e7\u00f5es judiciais, inqu\u00e9ritos ou procedimentos administrativos contra essas empresas\u201d, diz Edson Teles, coordenador do projeto <em>\u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a Ditadura\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A<strong> P\u00fablica<\/strong> entrou em contato com o Grupo Josapar via assessoria para que comentasse o conte\u00fado publicado, mas n\u00e3o obteve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da reportagem.\u00a0<\/p>\n<p>Embora d\u00e9cadas tenham se passado desde os conflitos, os traumas permanecem. Com quase 40 anos, Raimundo, mencionado no in\u00edcio da reportagem, disse ter se formado em direito para continuar a luta iniciada pelo pai, falecido em fevereiro de 2018. A m\u00e3e de Raimundo, por outro lado, convive com as sequelas das cenas que presenciou. \u201cEla \u00e9 assustada, com tudo ela se assusta. Medo! A gente vivia 24h sob press\u00e3o\u201d.\u00a0<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/condenacao-de-bolsonaro-e-seus-generais-e-uma-vitoria-na-luta-contra-o-fascismo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/P3-_-generais-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Condena\u00e7\u00e3o de Bolsonaro e seus generais \u00e9 uma vit\u00f3...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/banco-central-emite-ordem-de-bloqueio-das-contas-de-carla-zambelli\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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