{"id":80761,"date":"2026-03-31T16:08:35","date_gmt":"2026-03-31T19:08:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/racismo-perseguicao-e-assassinatos-nas-instalacoes-da-csn-nos-anos-da-ditadura\/"},"modified":"2026-03-31T16:08:35","modified_gmt":"2026-03-31T19:08:35","slug":"racismo-perseguicao-e-assassinatos-nas-instalacoes-da-csn-nos-anos-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/racismo-perseguicao-e-assassinatos-nas-instalacoes-da-csn-nos-anos-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Racismo, persegui\u00e7\u00e3o e assassinatos nas instala\u00e7\u00f5es da CSN nos anos da ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Eram 6 horas da manh\u00e3 do dia 1\u00b0 de abril de 1964, quando Jo\u00e3o Alves dos Santos Lima Neto, presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos, chegou na entrada da Usina Presidente Vargas, um complexo sider\u00fargico instalado na regi\u00e3o sul do Rio de Janeiro. Poucas horas antes, os militares haviam declarado o golpe de estado no Pa\u00eds. Lima Neto, com o apoio de algumas lideran\u00e7as oper\u00e1rias, se mobiliza para somar resist\u00eancia \u00e0 tomada de poder. O plano era reunir os trabalhadores da usina e decretar greve geral na principal unidade de produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o do Brasil, uma cidade industrial erguida em Volta Redonda e conhecida como Companhia Sider\u00fargica Nacional (CSN), \u00e0 \u00e9poca, uma estatal.<\/p>\n<p>O piquete teve in\u00edcio na porta do complexo, mas imediatamente foi repreendido com a chegada de militares do 1\u00b0 Batalh\u00e3o de Infantaria Blindada do Ex\u00e9rcito (1\u00b0BIB). Dentro da usina, por\u00e9m, a mobiliza\u00e7\u00e3o continuou, mesmo com medidas tomadas pela diretoria da CSN para dificultar a comunica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, fosse por telefone e ou r\u00e1dio. Dois setores da usina pararam. A resposta veio em seguida. E foi violenta.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Greve dos trabalhadores metalu\u0301rgicos da Companhia Sideru\u0301rgica Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao detectar as paralisa\u00e7\u00f5es, a presid\u00eancia da CSN ordenou que diretores e chefes de se\u00e7\u00e3o levantassem os dados de cada um dos envolvidos nos atos \u201cnocivos ao interesse do pa\u00eds\u201d e da empresa. Foi elaborada, ent\u00e3o, uma lista com nome, matr\u00edcula, remunera\u00e7\u00e3o e tempo de servi\u00e7o de cada um. Em poucas horas, Volta Redonda foi cercada pelo batalh\u00e3o do Ex\u00e9rcito e o Sindicato dos Metal\u00fargicos foi invadido pelos militares.<\/p>\n<p>Antes do meio-dia, j\u00e1 havia ocorrido a pris\u00e3o de dirigentes e militantes sindicais, al\u00e9m de alguns membros da pr\u00f3pria CSN que foram apontados como traidores. O sindicalista Lima Neto foi o primeiro preso da ditadura militar no sul fluminense, detido no interior da usina.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, um Inqu\u00e9rito Policial Militar foi instaurado para apurar as \u201catividades subversivas\u201d na estatal, investiga\u00e7\u00e3o que se apoiou na lista de funcion\u00e1rios que a pr\u00f3pria CSN tratou de fazer. O inqu\u00e9rito culminou em dezenas de interrogat\u00f3rios e na demiss\u00e3o da maioria dos indiciados. Ao todo, 58 trabalhadores foram presos em seus locais de trabalho, sindicatos e at\u00e9 mesmo em suas casas.<\/p>\n<p>Encaminhados para as unidades do 1\u00b0 BIB e da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), esses funcion\u00e1rios permaneceriam na cadeia pelo prazo de um a seis meses, sem direito a qualquer tipo de comunica\u00e7\u00e3o nos primeiros dias.<\/p>\n<p>Quando o inqu\u00e9rito militar foi arquivado, meses depois, os empregados acabaram liberados sem condena\u00e7\u00f5es, por \u201caus\u00eancia de tipifica\u00e7\u00e3o penal e de materialidade\u201d. As puni\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o cessaram. Muitos foram perseguidos administrativamente pela empresa, com demiss\u00e3o sum\u00e1ria ou aposentadoria compuls\u00f3ria. Houve ainda casos de despejo das fam\u00edlias oper\u00e1rias que viviam em resid\u00eancias oferecidas pela CSN, em decis\u00f5es que foram tomadas antes mesmo da conclus\u00e3o do inqu\u00e9rito.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Greve dos trabalhadores metalu\u0301rgicos da Companhia Sideru\u0301rgica Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os atos de barb\u00e1rie que os militares e diretores da CSN promoveram naquelas semanas de abril e maio de 1964 com sindicalistas e funcion\u00e1rios da sider\u00fargica s\u00e3o apenas o prel\u00fadio de um roteiro marcado por epis\u00f3dios de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, viol\u00eancia e racismo que atravessaram d\u00e9cadas. Duas viola\u00e7\u00f5es mais graves que viriam a ocorrer nos anos seguintes contra trabalhadores da sider\u00fargica envolveriam pr\u00e1tica de torturas e assassinato de funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A CSN foi questionada pela <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> sobre cada uma das informa\u00e7\u00f5es contidas nesta reportagem. Por meio de nota, a empresa informou que os fatos narrados est\u00e3o restritos ao per\u00edodo em que a empresa era uma estatal federal. <\/p>\n<p>\u201cA CSN repudia qualquer tipo de viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos, pautando sempre sua atua\u00e7\u00e3o por meio da \u00e9tica, respeito e direitos constitucionais. \u00c9 importante destacar que os apontamentos citados s\u00e3o anteriores a 1993. Portanto, precedem a privatiza\u00e7\u00e3o da empresa, n\u00e3o tendo a companhia nenhuma inger\u00eancia, na sua organiza\u00e7\u00e3o atual, sobre qualquer eventual acontecimento \u00e0 \u00e9poca\u201d, declarou.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Instala\u00e7\u00f5es atuais da CSN<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3>Hist\u00f3rico violento<\/h3>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o violenta da Companhia Sider\u00fargica Nacional passa pela pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o da estatal, quando a regi\u00e3o de Volta Redonda ainda era uma zona rural do sul fluminense. Os detalhes deste per\u00edodo e das rela\u00e7\u00f5es umbilicais que a CSN manteve com a ditadura militar foram apurados no projeto \u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a Ditadura\u201d, um trabalho de pesquisa que envolveu 55 pesquisadores e foi conduzido pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo, atrav\u00e9s do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF\/Unifesp) em parceria com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O levantamento de documentos, relatos e dados obtidos pela <strong>P\u00fablica<\/strong> com os pesquisadores revela que a CSN tem suas origens cravadas no espectro militar. Criada em 30 de janeiro de 1941 pelo ent\u00e3o presidente Get\u00falio Vargas, a Companhia Sider\u00fargica Nacional foi parte central do \u201cprojeto nacional-desenvolvimentista\u201d, quando o mundo vivia sobre o terror da 2\u00aa Guerra Mundial.<\/p>\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, sequer existia o munic\u00edpio de Volta Redonda, uma \u00e1rea que era tomada por pequenos trabalhadores rurais. Em pouco tempo, por\u00e9m, com a chegada da estatal, o complexo sider\u00fargico transformaria o cen\u00e1rio, alterando a paisagem e o modo de vida. O distrito agr\u00edcola assumiria uma identidade industrial, at\u00e9 que, em 1954, Volta Redonda se emanciparia como munic\u00edpio.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Complexo Industrial de Volta Redonda<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre a CSN e as For\u00e7as Armadas se estabeleceu desde o in\u00edcio da estatal. Em tempos de guerra, a CSN foi considerada uma opera\u00e7\u00e3o de \u201cinteresse militar\u201d. Na pr\u00e1tica, isso significava, por exemplo, que nenhum trabalhador podia se ausentar por mais de oito dias do trabalho, sob pena de ser considerado um desertor. Ser empregado da empresa significava servir \u00e0s For\u00e7as Armadas e colaborar na defesa da p\u00e1tria, como apontam os pesquisadores. <\/p>\n<p>A justificativa do \u201cestado de guerra\u201d e da atividade de \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d tamb\u00e9m inclu\u00eda a exig\u00eancia de jornadas de trabalho de 10 horas di\u00e1rias e a suspens\u00e3o do direito de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es apontam diversos epis\u00f3dios de atua\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel da empresa ao golpe de 1964, garantindo que a a\u00e7\u00e3o militar fosse bem-sucedida no sul fluminense. Esse envolvimento incluiu, at\u00e9 mesmo, a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cPlano de Seguran\u00e7a da Usina\u201d, ainda em mar\u00e7o de 1964, nas v\u00e9speras do golpe. O plano, que foi engendrado com participa\u00e7\u00e3o do Comando Militar da regi\u00e3o, tra\u00e7ava medidas para uma eventual rea\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, com instru\u00e7\u00f5es claras a supervisores e chefes de departamentos, em casos de \u201cperturba\u00e7\u00e3o da ordem\u201d.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o conjunta ganharia contornos nos anos seguintes e, mais objetivamente, a partir de 1977, quando o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), criado pelos militares para monitorar informa\u00e7\u00f5es e contrainforma\u00e7\u00f5es no Brasil e exterior, passou a ter um de seus \u201cbra\u00e7os\u201d operando continuamente no interior do complexo sider\u00fargico.<\/p>\n<p>A chamada \u201cAssessoria de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00f5es\u201d da estatal, conforme levantamento dos pesquisadores, \u201catuou em estreita proximidade com o bra\u00e7o armado do Estado na repress\u00e3o \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es e greves protagonizadas pelos oper\u00e1rios da CSN ao longo das tr\u00eas d\u00e9cadas em que perdurou a ditadura militar\u201d.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Boletim da CSN para que diretores e chefes listem funciona\u0301rios considerados subversivos<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m da assessoria de seguran\u00e7a, havia ainda o Departamento de Seguran\u00e7a da Usina, cada qual com a sua tarefa. Enquanto a assessoria cuidava da \u201cintelig\u00eancia\u201d, o departamento tocava a \u201copera\u00e7\u00e3o de campo\u201d de interesse da empresa e dos militares.<\/p>\n<p>\u201cMesmo antes da ditadura, existia um departamento dentro da usina que fazia esse monitoramento, controle e repress\u00e3o dos trabalhadores\u201d, diz a pesquisadora Alejandra Estevez, que coordenou o trabalho. \u201cTemos uma s\u00e9rie de comprova\u00e7\u00f5es desses abusos, das viola\u00e7\u00f5es graves aos direitos humanos.\u201d<\/p>\n<figure><figcaption><em>Lista de funciona\u0301rios demitidos e aposentados imediatamente apo\u0301s Golpe de 1964<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3>11 tipos de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos<\/h3>\n<p>Os documentos reunidos e analisados pelos pesquisadores identificaram e classificaram 11 tipos de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos praticadas direta ou indiretamente pela CSN. Duas viola\u00e7\u00f5es mais graves praticadas contra trabalhadores da sider\u00fargica se configuram como crimes de lesa humanidade: pr\u00e1tica de torturas de trabalhadores e assassinato de funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Foram identificadas, ainda, viola\u00e7\u00f5es de direitos, como, por exemplo, produ\u00e7\u00e3o e fornecimento de informa\u00e7\u00f5es por parte da CSN para execu\u00e7\u00e3o de processos repressivos; pris\u00f5es arbitr\u00e1rias de lideran\u00e7as sindicais e trabalhadores; repress\u00e3o a greves; demiss\u00f5es em massa; cassa\u00e7\u00e3o dos direitos pol\u00edticos de membros das diretorias sindicais; invas\u00e3o ao sindicato e depreda\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio coletivo; despejos for\u00e7ados das fam\u00edlias de oper\u00e1rios demitidos; adoecimento ou mortes causadas pelo benzenismo; e crimes ambientais.<\/p>\n<p>\u201cA Companhia Sider\u00fargica Nacional teve papel ativo no processo repressivo na regi\u00e3o sul fluminense, em comprovada articula\u00e7\u00e3o com o Comando Militar da regi\u00e3o, na figura do 1\u00b0 BIB (1964-1973) e da AMAN e, posteriormente, do 22\u00b0 Batalh\u00e3o de Infantaria Motorizado (1973-1993)\u201d, afirmam os pesquisadores. <\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o da CSN em apoio \u00e0s a\u00e7\u00f5es repressivas dos militares est\u00e1 presente em tr\u00eas contextos hist\u00f3ricos: o golpe de 1964; a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00ba 5, em 1968; e o ciclo de greves oper\u00e1rias nos anos 1980. Embora a ditadura militar tenha acabado oficialmente em 1985, resta comprovado que muitas viola\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 se estenderam por todo o regime militar, como prosseguiram nos anos seguintes, mesmo ap\u00f3s o restabelecimento formal da ordem democr\u00e1tica.<\/p>\n<h3>Mortes e terror<\/h3>\n<p>In\u00fameras greves de funcion\u00e1rios marcaram a hist\u00f3ria da CSN durante sua gest\u00e3o estatal, seguindo assim at\u00e9 o ano de 1993, quando a empresa seria, ent\u00e3o, privatizada pelo ent\u00e3o presidente Itamar Franco. Pris\u00f5es e demiss\u00f5es se deram em diversas ocasi\u00f5es neste per\u00edodo, mas nada se compara ao ocorrido em novembro de 1988, pouco mais de um m\u00eas ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, os trabalhadores da usina entraram em greve para reivindicar reposi\u00e7\u00e3o salarial e redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, al\u00e9m da readmiss\u00e3o dos demitidos nas greves anteriores. A paralisa\u00e7\u00e3o da CSN ocorria simultaneamente a muitas outras espalhadas pelo pa\u00eds e que, naquele momento, mobilizavam cerca de um milh\u00e3o de trabalhadores, em diferentes setores e Estados.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Greve dos trabalhadores da Companhia Sideru\u0301rgica Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para o governo Sarney, garantir a derrota da greve da CSN, em especial, daria um recado direto aos demais movimentos que se formavam. O governo, ent\u00e3o, resolveu agir da forma como estava acostumado nas \u00faltimas d\u00e9cadas. A trag\u00e9dia se configurou.<\/p>\n<p>A greve na sider\u00fargica duraria 17 dias, mas a ocupa\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria foi encerrada no terceiro dia, ap\u00f3s cortarem o fornecimento de \u00e1gua, energia el\u00e9trica e comida para a usina. Ent\u00e3o, no dia 9 de novembro de 1988, tropas do Ex\u00e9rcito receberam ordem para invadir a planta da CSN e expulsar os grevistas. Os militares faziam uso de muni\u00e7\u00e3o letal. Tr\u00eas trabalhadores foram assassinados no local. Walmir Freitas Monteiro e William Fernandes Leite foram atingidos por balas de fuzil. Carlos Augusto Barroso teve o cr\u00e2nio esmagado a pancadas.<\/p>\n<p>Diante da brutalidade, os trabalhadores deixaram a usina, mas mantiveram a greve, em protesto. J\u00e1 os militares permaneceram no interior da CSN pelos dias seguintes.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Ato de reinaugurac\u0327a\u0303o do monumento greve da CSN<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A viol\u00eancia desmedida n\u00e3o intimidou os representantes do governo, chefes militares e diretores da estatal, que, conforme apontam os registros hist\u00f3ricos, buscaram defender suas a\u00e7\u00f5es e atribu\u00edram a responsabilidade pelas mortes ao movimento sindical, que foi retratado como uma \u201cguerrilha urbana\u201d liderada por \u201carruaceiros profissionais\u201d. Ningu\u00e9m foi punido.<\/p>\n<p>Quase seis meses depois, no dia 1\u00ba de maio de 1989, foi erguido um memorial projetado por Oscar Niemeyer na Pra\u00e7a Juarez Antunes, em Volta Redonda, em homenagem aos tr\u00eas oper\u00e1rios mortos na greve de 1988. Na madrugada do dia seguinte, uma bomba seria explodida no local, destruindo parte do monumento.<\/p>\n<p>Foram coletados diversos ind\u00edcios e restos de explosivos apontando que o atentado poderia ter origem em material do Ex\u00e9rcito, mas diversas obstru\u00e7\u00f5es de acesso a dados e informa\u00e7\u00f5es com os militares dificultaram a identifica\u00e7\u00e3o efetiva da proced\u00eancia dos explosivos.<\/p>\n<p>Oscar Niemeyer foi chamado para restaurar a parte do memorial que foi destru\u00edda, mas prop\u00f4s que o monumento fosse conservado nas condi\u00e7\u00f5es em que se encontrava, para ser um lugar n\u00e3o s\u00f3 de homenagem aos trabalhadores brutalmente assassinados no interior da CSN, mas de mem\u00f3ria sobre o autoritarismo de Estado durante os anos repressivos.<\/p>\n<p>Diversos trabalhadores e sindicalistas estiveram no local naquela data, para homenagear os trabalhadores. Entre estes estava uma nova lideran\u00e7a que ganhava espa\u00e7o na ind\u00fastria metal\u00fargica de S\u00e3o Paulo, um cidad\u00e3o chamado Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. O monumento segue no local at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Cerim\u00f4nia de restaura\u00e7\u00e3o da parte do memorial que foi destru\u00edda<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3>Racismo institucional<\/h3>\n<p>Em abril de 1991, o di\u00e1rio \u201cMaioria Falante\u201d, um jornal local do Rio que circulava na regi\u00e3o sul fluminense estampou a seguinte manchete: \u2018\u2018CSN: Exterm\u00ednio de Negros\u2019\u2019. A reportagem denunciava a concentra\u00e7\u00e3o de trabalhadores negros pela estatal em atividades de baixa qualifica\u00e7\u00e3o, exaustivas e danosas \u00e0 sa\u00fade, como as rotinas expostas \u00e0 fornos e coqueria para a produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7o.<\/p>\n<p>A den\u00fancia procedia. Nos anos seguintes, a maioria desses trabalhadores viria a ser v\u00edtima do chamado \u201cbenzenismo\u201d. Ao absorverem part\u00edculas t\u00f3xicas em ambientes insalubres, os trabalhadores ficavam sujeitos a quadros de sonol\u00eancia, tonturas, n\u00e1useas, taquicardia, dificuldade respirat\u00f3ria, tremores e convuls\u00f5es. Em quadros mais agudos, a doen\u00e7a pode resultar em perda da consci\u00eancia e morte.<\/p>\n<p>Apesar de sua gravidade, o benzenismo s\u00f3 foi reconhecido pelo Minist\u00e9rio do Trabalho como doen\u00e7a do trabalho em 1985. Foi quando muitos trabalhadores, ao tomarem consci\u00eancia do que tinham vivido por anos, decidiram processar a CSN. No in\u00edcio dos anos 1990, a estimativa \u00e9 de que mais de 500 oper\u00e1rios da empresa sofriam com o benzenismo.<\/p>\n<p>Os pesquisadores levantaram dados sobre esses processos trabalhistas e conclu\u00edram que 69% das v\u00edtimas s\u00e3o negros e que 21% dos atingidos s\u00e3o brancos. Entre os demais, 5% n\u00e3o apresentaram documentos com foto. Em outros 5% dos casos n\u00e3o foi poss\u00edvel fazer a identifica\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>\u201cUma das demandas em an\u00e1lise, no \u00e2mbito das indeniza\u00e7\u00f5es, \u00e9 para que seja criada uma pol\u00edtica p\u00fablica para as pessoas atingidas pelo benzeno em Volta Redonda\u201d, diz o pesquisador Leonardo  \u00c2ngelo, doutor em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) que participou do trabalho. \u201cA gente tende a naturalizar muito as viol\u00eancias contra corpos negros. E essa quest\u00e3o da doen\u00e7a \u00e9 s\u00f3 mais uma das viol\u00eancias contra a popula\u00e7\u00e3o negra. Um dos nossos desafios \u00e9 n\u00e3o naturalizar isso, n\u00e3o aceitar.\u201d <\/p>\n<h3>Clubes e lazer? S\u00f3 para brancos<\/h3>\n<p>Se por um lado havia presen\u00e7a massiva dos negros em postos de trabalho de maior risco, por outro n\u00e3o se via afrodescendentes nos clubes sociais do complexo industrial da CSN. Depoimentos orais coletados pelos pesquisadores revelam que, nos anos 1960, a presen\u00e7a de negros era praticamente proibida nestes locais, apesar de n\u00e3o haver documentos formais para impedir o acesso.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Clube Palmares, criado pelos trabalhadores negros<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi justamente em resposta a esse bloqueio racista que os trabalhadores negros da CSN se organizaram e montaram, em 1965, o \u201cClube Palmares\u201d. A refer\u00eancia ao nome mais conhecido dos quilombos era uma rea\u00e7\u00e3o direta \u00e0 exclus\u00e3o promovida pela empresa, que promoveu um processo de racializa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os sociais durante o per\u00edodo militar.<\/p>\n<p>O Clube Palmares segue at\u00e9 hoje com as portas abertas, sob o comando de Edson Daniel Jo\u00e3o. Em sua p\u00e1gina na internet, uma frase de apresenta\u00e7\u00e3o do clube revisita as suas origens, para que n\u00e3o se esque\u00e7a: \u201cA cria\u00e7\u00e3o do clube deveu-se \u00e0s restri\u00e7\u00f5es impostas pela sociedade da \u00e9poca, n\u00e3o admitindo negros nos quadros de associados dos clubes mais tradicionais da cidade\u201d. <\/p>\n<p>Hoje, para al\u00e9m da recrea\u00e7\u00e3o, o espa\u00e7o serve \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o social. \u201cO clube tem como objetivo principal, desde o in\u00edcio de sua funda\u00e7\u00e3o, a integra\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra na sociedade brasileira atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o social e cultural, buscando atingi-la promovendo atividades culturais num espa\u00e7o pr\u00f3prio, atrav\u00e9s de palestras, cerim\u00f4nias comemorativas, encontros festivos e debates pol\u00edticos\u201d.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Festa no Clube Palmares<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Leonardo \u00c2ngelo, que participou da pesquisa, diz que h\u00e1 uma demanda para que a CSN indenize todos os trabalhadores atingidos pelo benzenismo, bem como para que a empresa promova a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o junto ao Clube Palmares. \u201cH\u00e1 um pleito para a cria\u00e7\u00e3o de um Museu dos Direitos Humanos, que inclua esse recorte racializado\u201d, comentou.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Atriz Zeze\u0301 Motta em visita ao Clube Palmares<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3>Restri\u00e7\u00f5es \u00e0 verdade<\/h3>\n<p>A hist\u00f3ria sobre a atua\u00e7\u00e3o da CSN durante a ditadura militar ainda n\u00e3o foi contada em seus detalhes e isso deve, em boa medida, \u00e0s restri\u00e7\u00f5es de acesso a documentos que ainda hoje, 30 anos ap\u00f3s a sua privatiza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o impostas pela pr\u00f3pria empresa.<\/p>\n<p>A coordenadora da pesquisa Alejandra Estevez afirma que o acervo de documentos produzido pela Companhia Sider\u00fargica Nacional, material que tem valor central para a investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de ser explorado de forma sistem\u00e1tica e exaustiva, porque essa documenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob a guarda da companhia, \u201cque vem restringindo sistematicamente o acesso de pesquisadores interessados\u201d. A pesquisa realizada pelo grupo incluiu um longo processo de solicita\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o, com a media\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, mas os pedidos foram negados pela empresa, sob alega\u00e7\u00e3o de sigilo industrial. Apenas nos \u00faltimos meses da pesquisa foi dado acesso a uma parte do acervo \u2013 documentos relativos a uma subsidi\u00e1ria da CSN que cuidava de seu patrim\u00f4nio imobili\u00e1rio \u2013 e, ainda assim, isso s\u00f3 ocorreu sob a vigil\u00e2ncia ativa da arquivista respons\u00e1vel por um dos arquivos da empresa e um funcion\u00e1rio respons\u00e1vel pelo monitoramento da consulta. <\/p>\n<p>A <strong>P\u00fablica<\/strong> questionou por que a companhia n\u00e3o disponibilizou o acesso a todo acervo hist\u00f3rico, conforme solicita\u00e7\u00e3o dos pesquisadores. N\u00e3o houve nenhum posicionamento sobre o assunto. Desde 2017, h\u00e1 uma A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica movida pelo MPF e que est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o, determinando a transfer\u00eancia do todo o acervo da empresa para o Arquivo Nacional, mas ainda n\u00e3o houve desfecho sobre esse processo. <\/p>\n<h3>\u00c0 espera de repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e indeniza\u00e7\u00f5es<\/h3>\n<p>Um dos desdobramentos pr\u00e1ticos do levantamento realizado \u00e9, al\u00e9m da elucida\u00e7\u00e3o dos fatos, a busca por repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que envolvem a atua\u00e7\u00e3o da CSN como parte do poder repressor do Estado. A identifica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores atingidos traz elementos que podem embasar novos processos junto \u00e0 Comiss\u00e3o de Anistia, para que se fa\u00e7a justi\u00e7a, ainda que tardia. A identifica\u00e7\u00e3o de culpados tamb\u00e9m auxilia na devida responsabiliza\u00e7\u00e3o dos principais atores daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p><!-- mostRead -->Mais que repara\u00e7\u00f5es individuais e indeniza\u00e7\u00f5es, h\u00e1 aquelas de car\u00e1ter coletivo, j\u00e1 que os danos causados atingiram o conjunto da classe trabalhadora e dos cidad\u00e3os da regi\u00e3o sul fluminense. O que se busca neste momento, diz Alejandra Estevez, s\u00e3o esses mecanismos de repara\u00e7\u00e3o que ajudem na consolida\u00e7\u00e3o dos direitos dos trabalhadores e dos habitantes de Volta Redonda e Barra Mansa.<\/p>\n<p>\u201cOs objetivos da pesquisa passam pela judicializa\u00e7\u00e3o de parte desses casos, dentro daquilo que o MPF julgar importante para que seja judicializado\u201d, diz a pesquisadora. \u201cUma das medidas de repara\u00e7\u00e3o avaliadas, por exemplo, prev\u00ea que o local que era utilizado pelo antigo Batalh\u00e3o de Infantaria Blindada do Ex\u00e9rcito passe a abrigar o Museu do Trabalho e dos Direitos Humanos. <\/p>\n<p>O material in\u00e9dito descrito nesta reportagem far\u00e1 parte de um relat\u00f3rio que ser\u00e1 enviado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e deve servir de base para a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o a v\u00edtimas da ditadura militar. \u201cUm dos objetivos era reunir elementos, ind\u00edcios e provas para que o MP pudesse abrir a\u00e7\u00f5es judiciais, inqu\u00e9ritos ou procedimentos administrativos contra essas empresas\u201d, diz Edson Teles, coordenador do projeto \u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a Ditadura\u201d. \u00c9 uma tentativa de ressignificar as mem\u00f3rias, de pensar e consolidar os princ\u00edpios democr\u00e1ticos dentro dessa institui\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mostra-grande-otelo-exibe-filmes-finalistas-em-oito-estados\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ainda-estou-aqui-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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