{"id":80762,"date":"2026-03-31T16:08:36","date_gmt":"2026-03-31T19:08:36","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/produtora-de-cobre-paranapanema-teria-mantido-indigenas-em-semi-escravidao-na-ditadura\/"},"modified":"2026-03-31T16:08:36","modified_gmt":"2026-03-31T19:08:36","slug":"produtora-de-cobre-paranapanema-teria-mantido-indigenas-em-semi-escravidao-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/produtora-de-cobre-paranapanema-teria-mantido-indigenas-em-semi-escravidao-na-ditadura\/","title":{"rendered":"Produtora de cobre Paranapanema teria mantido ind\u00edgenas em \u201csemi-escravid\u00e3o\u201d na ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Jornadas de trabalho excessivas, sal\u00e1rio incerto e nenhum sinal da carteira de trabalho. Era nessas condi\u00e7\u00f5es que ind\u00edgenas de diferentes etnias, de regi\u00f5es isoladas do Amazonas, trabalharam durante a constru\u00e7\u00e3o de uma pista de pouso da Paranapanema, grupo econ\u00f4mico de extra\u00e7\u00e3o mineral, fundi\u00e7\u00e3o de cobre e outras \u00e1reas. A obra ocorreu no in\u00edcio dos anos 1980, quando a empresa intensificava a explora\u00e7\u00e3o de povos da floresta em projetos que abrangiam a maioria dos estados do Norte do Brasil, conforme apurou a <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<p>Cabiam aos ind\u00edgenas os trabalhos bra\u00e7ais. Usavam fac\u00f5es para abrir caminho na mata e coletar esp\u00e9cies nativas com grande potencial econ\u00f4mico, a exemplo do pau-rosa, utilizado em \u00f3leos medicinais a perfumes. \u201cMeia, bota, rede, mosquiteiro. A gente ganhou isso, cada m\u00eas a gente recebia isso. Mas sal\u00e1rio mesmo a gente n\u00e3o recebeu\u201d, contou um ind\u00edgena do povo Tukano, localizados no Alto Rio Negro, noroeste do Amazonas, segundo relatos obtidos pela <strong>P\u00fablica<\/strong> com exclusividade.\u00a0<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas recebiam pagamentos bem menores que os demais trabalhadores \u2013 na maioria das vezes, os contratos eram verbais e sem especifica\u00e7\u00f5es sobre o cronograma das atividades. Um dos entrevistados descreve o momento em que um Tenharim, etnia que habita o sul do Amazonas e comp\u00f5e o conjunto de povos Kagwahiva, recebeu um brinquedo como \u00fanico pagamento ap\u00f3s ter questionado Pedro Camargo, ex-funcion\u00e1rio da Paranapanema apontado como o encarregado pela contrata\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho dos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u201cPerguntaram a Pedro Camargo, um dos chefes da Paranapanema que coordenava os trabalhos da turma de \u00edndios Tenharim: \u2018O que n\u00f3s vamos ganhar?\u2019. Ele respondeu que iria lev\u00e1-los at\u00e9 Porto Velho, em Rond\u00f4nia, mas acabou, ao final, trazendo apenas uma caixa cheia de bonecas para crian\u00e7as\u201d, diz um trecho do parecer elaborado em 2013 pelo analista em antropologia e perito do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) Walter Coutinho.\u00a0<\/p>\n<p>Pedro Camargo tinha autoriza\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), atrav\u00e9s da 1\u00aa Delegacia Regional de Manaus, para contratar os ind\u00edgenas no interior do Amazonas. Um of\u00edcio enviado pela Funai, em 8 de mar\u00e7o de 1972, detalha que os contratos de \u201c\u00edndios aculturados\u201d deveriam obedecer \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o e que todos tinham direito a um sal\u00e1rio-m\u00ednimo, assist\u00eancia m\u00e9dica e alimenta\u00e7\u00e3o \u2013 diferentemente do que foi aplicado na pr\u00e1tica, segundo testemunhas.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Of\u00edcio enviado pela Funai, em 8 de mar\u00e7o de 1972, sobre a contrata\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas para trabalharem na constru\u00e7\u00e3o da Transamaz\u00f4nica<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O ex-funcion\u00e1rio \u00e9 citado no relat\u00f3rio produzido por um odont\u00f3logo da Funai durante uma fiscaliza\u00e7\u00e3o volante, em 30 de julho de 1973, como o respons\u00e1vel por iniciar a \u201cm\u00f3rbida catequese\u201d dos Tenharim \u201catrav\u00e9s de aguardente\u201d. O texto descreve que ind\u00edgenas teriam sido facilmente atra\u00eddos pelas sobras de comida dos oper\u00e1rios. \u201cSem ter para onde fugir, os Tenharim se submeteram ao regime de escravid\u00e3o\u201d, escreveu o servidor. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Outro trecho do mesmo relat\u00f3rio, intitulado \u201cSurge a Transamaz\u00f4nica e com ela outro oportunista\u201d, cita a Paranapanema como \u201ca construtora que abre a selva virgem onde est\u00e3o situados os Tenharim\u201d. Ressalta ainda que, pela curiosidade, falta de alimentos e de acesso \u00e0 sa\u00fade, os ind\u00edgenas \u201cprocuraram contato com os brancos\u201d e a partir disso contra\u00edram doen\u00e7as e \u201cv\u00edcios\u201d como\u00a0 a depend\u00eancia em bebidas alco\u00f3licas. Al\u00e9m disso, alguns Tenharim teriam sido remunerados apenas com utens\u00edlios de cozinha.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 mais de um ano doam pau-rosa e em troca, at\u00e9 o momento, n\u00e3o receberam nenhum pagamento; quer em dinheiro, quer em materiais essenciais \u00e0 sua sobreviv\u00eancia. Suas roupas, digo, redes, continuam as mesmas esfarrapadas de antigamente. Suas roupas s\u00e3o as mesmas [de] quando ali chegaram. Algumas panelas de que s\u00e3o possuidores s\u00e3o as que ganharam quando trabalharam no acampamento de extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio\u201d, descreveu o odont\u00f3logo.<\/p>\n<p>As den\u00fancias descritas nesta reportagem fazem parte do acervo ao qual a <strong>P\u00fablica<\/strong> teve acesso e que constituem o projeto \u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a ditadura\u201d, levantamento que envolveu 55 pesquisadores e foi conduzido pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), atrav\u00e9s do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf) em parceria com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo (MPSP).\u00a0<\/p>\n<h3>Regime de \u201csemi-escravid\u00e3o\u201d<\/h3>\n<p>A Paranapanema \u00e9 uma empresa de transforma\u00e7\u00e3o de metais, em especial o cobre, com mais de 2.000 funcion\u00e1rios e unidades em S\u00e3o Paulo, Bahia e Esp\u00edrito Santo. Na d\u00e9cada de 1980, chegou a ser respons\u00e1vel por mais de 70% da produ\u00e7\u00e3o nacional de estanho, mas come\u00e7ou a contrair d\u00edvidas a partir de 1990. Em 2017, conseguiu renegociar 84% de seus d\u00e9bitos, mas entrou em recupera\u00e7\u00e3o judicial cinco anos depois. A companhia disse \u00e0 \u00e9poca que o processo era necess\u00e1rio para, entre outras a\u00e7\u00f5es, restabelecer o equil\u00edbrio econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, a Paranapanema foi contratada por governos da ditadura militar para, entre outros projetos, a constru\u00e7\u00e3o do \u00faltimo trecho da BR-230, a rodovia Transamaz\u00f4nica, no Amazonas.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Trecho de of\u00edcio sobre a constru\u00e7\u00e3o da rodovia relata aproxima\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas com \u201cos brancos\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A abertura de estradas foi essencial para a empresa extrair e escoar o min\u00e9rio encontrado em terras ind\u00edgenas por meio de suas subsidi\u00e1rias, segundo os documentos revisados pela reportagem.\u00a0<\/p>\n<p>Documentos da \u00e9poca apontam que, durante a constru\u00e7\u00e3o da Transamaz\u00f4nica, a Paranapanema construiu uma pista secund\u00e1ria, de aproximadamente 40 km, que dava acesso aos dep\u00f3sitos de cassiterita, um min\u00e9rio de estanho muito usado pela ind\u00fastria, dentro de terras Tenharim do Igarap\u00e9 Preto, no munic\u00edpio Novo Aripuan\u00e3 (AM).<\/p>\n<p>Para isso, a empresa teria se associado a um grileiro violento da regi\u00e3o amaz\u00f4nica conhecido como Pl\u00ednio Sebasti\u00e3o, tamb\u00e9m mencionado no relat\u00f3rio produzido pelo odont\u00f3logo da Funai durante a fiscaliza\u00e7\u00e3o volante de 30 de julho de 1973. O documento classifica o territ\u00f3rio Tenharim como rico em estanho e adverte que a explora\u00e7\u00e3o do subsolo era feita por Pl\u00ednio e mais duas pessoas.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cTemos absoluta certeza que estes homens n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o para usarem os Tenharim em regime de semi-escravid\u00e3o [<em>o que chamamos hoje de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o<\/em>], trabalhando no feitio de seus acampamentos a troco de alguma migalhas\u201d, escreveu o servidor da Funai.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m ind\u00edcios de que a terra estava sendo grilada. Em novembro de 1969, um relat\u00f3rio confidencial do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI ) apontava \u201cproblema na legitimidade dos documentos apresentados\u201d por Pl\u00ednio em rela\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo de posse de um seringal em Igarap\u00e9 Preto, no munic\u00edpio Novo Aripuan\u00e3 (AM). O SNI argumentava ter \u201cfundadas raz\u00f5es\u201d para crer numa \u201corigem suspeita\u201d do registro. Tr\u00eas anos depois, Pl\u00ednio transferiu seus direitos de posse \u00e0 Minera\u00e7\u00e3o Angelim, de propriedade dos ent\u00e3o donos da Paranapanema, Octavio Lacombe e Jos\u00e9 Carlos de Ara\u00fajo. Hoje \u00e9 uma empresa de capital aberto e tem entre seus acionistas a Caixa Econ\u00f4mica Federal e a multinacional Minera\u00e7\u00e3o Buritirama S.A.<\/p>\n<figure><figcaption><em>C\u00f3pia do registro do im\u00f3vel em Igarap\u00e9 Preto<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O site da empresa reconhece a rela\u00e7\u00e3o com Pl\u00ednio ao longo da hist\u00f3ria. As datas, contudo, divergem. A Paranapanema comenta que, em 1969, houve a descoberta de min\u00e9rio de estanho na regi\u00e3o amaz\u00f4nica e a compra de \u201c\u00e1reas de garimpo de cassiterita de Igarap\u00e9 Preto e S\u00e3o Francisco de Pl\u00ednio Sebasti\u00e3o Xavier Benfica\u201d.<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas mais vulner\u00e1veis e analfabetos teriam sido ainda mais explorados. Um dos casos foi narrado por Eliezer*, da etnia Tukano, que trabalhou durante tr\u00eas meses como seguran\u00e7a e operador de motosserra em obras executadas pela Paranapanema na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>\u201cEles [cerca de 20 ind\u00edgenas] s\u00f3 levaram uma bateia, que \u00e9 aquele material para tirar o ouro. S\u00f3 ganharam uma bateia cada um e a cuia, que tamb\u00e9m serve para testar se tem ouro ou n\u00e3o. S\u00f3 pagaram aquilo ali. Depois de tr\u00eas meses voc\u00ea ganhando uma bateia, que hoje custa em torno de R$ 300. Ou seja, uma grama de ouro, que hoje uma grama de ouro deve custar em torno de 300 ou um pouquinho mais. Ent\u00e3o, isso \u00e9 violar o direito do trabalhador\u201d, relatou.<\/p>\n<h3><strong>Waimiri-Atroari<\/strong><\/h3>\n<p>O relat\u00f3rio da Unifesp conta ainda como, em 1971, o governo federal criou uma reserva Waimiri-Atroari, na mina Pitinga, interior do Amazonas. Por\u00e9m, em 1981, o presidente Jo\u00e3o Figueiredo anulou o ato, tornando o territ\u00f3rio somente uma \u00e1rea interditada. De l\u00e1 foram retirados 526,8 mil hectares de terras entregues \u00e0 Paranapanema.<\/p>\n<p>Outro material obtido pelos pesquisadores inclui desenhos coletados em uma terra Waimiri-Atroari, onde a Minera\u00e7\u00e3o Taboca S.A., fundada pelo grupo Paranapanema, em 1969, extra\u00eda cassiterita.\u00a0<\/p>\n<p>Relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade do Amazonas, apontam para um genoc\u00eddio de Waimiri-atroari durante a constru\u00e7\u00e3o da rodovia BR-174, que liga Manaus e Boa Vista. De 1972 a 1982, o n\u00famero de ind\u00edgenas dessa etnia teria ca\u00eddo de 3 mil para 332 ind\u00edgenas. Hoje, s\u00e3o 2 mil, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).<\/p>\n<p>Agress\u00f5es e massacres teriam ocorrido em meio \u00e0 coniv\u00eancia da Funai, \u00e0 \u00e9poca vinculada ao Minist\u00e9rio do Interior, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela abertura de estradas durante a ditadura militar.<\/p>\n<p>A realidade desse povo foi denunciada pelo jornal <em>Porantim<\/em>, em junho de 1987, numa reportagem que classificava como \u201cdesastre\u201d a polui\u00e7\u00e3o de rios com mais de 700 mil metros c\u00fabicos de res\u00edduos qu\u00edmicos despejados durante opera\u00e7\u00f5es da Paranapanema \u2014 tendo os Waimiri-atroari como v\u00edtimas diretas.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m de conviver com danos imediatos \u00e0 sa\u00fade, noticiava o <em>Porantim<\/em>, os Waimiri-atroari enfrentavam a invas\u00e3o de 561 mil hectares por parte da Paranapanema \u2014 atua\u00e7\u00e3o autorizada pelo \u00faltimo presidente militar, o general Jo\u00e3o Figueiredo. O genoc\u00eddio desse e de outros povos levou o Brasil a ser denunciado, em 1980, no IV Tribunal Russell em Roterd\u00e3, na Holanda. Em 2012, o MPF (Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal) instaurou um inqu\u00e9rito civil p\u00fablico para que o Estado indenize os povos que foram massacrados durante a constru\u00e7\u00e3o da BR-174.<\/p>\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio da Unifesp, a obra da BR-174 foi assumida pelo 6\u00ba Batalh\u00e3o de Engenharia de Constru\u00e7\u00e3o e, durante o projeto, os Waimiri-atroari teriam sido reprimidos com armas pesadas e poss\u00edveis agentes qu\u00edmicos, caso do Napalm, produto utilizado pelos EUA contra vietnamitas na Guerra do Vietn\u00e3.\u00a0<\/p>\n<div data-effect=\"slide\">\n<div>\n<ul>\n<li>\n<figure><figcaption>Desenho feito por ind\u00edgenas e coletado pelo te\u00f3logo e indigenista Egydio Schwade nas terras. O texto diz:  \u201cTaboca chegou, Tikiria sumiu. Por qu\u00ea?\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Outro desenho feito por ind\u00edgenas Waimiri-atroari faz refer\u00eancia a militares do Ex\u00e9rcito que trabalhavam num trecho da BR-174. Nela se v\u00ea um homem atirando com uma arma fogo em um ind\u00edgena, que revida disparando flechas<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Para Gilberto Marques, professor da Universidade Federal do Par\u00e1 (Ufpa) e integrante da pesquisa Caaf\/Unifesp, as hist\u00f3rias se encaixam num contexto \u201cde crimes do ponto de vista da etnia em si, da hist\u00f3ria e da cultura\u201d. Em entrevista \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong>, ele afirmou que a Paranapanema teria at\u00e9 estimulado a dissemina\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool \u201ccomo forma de criar a depend\u00eancia e ter dom\u00ednio mais forte\u201d sobre os ind\u00edgenas.<\/p>\n<h3>Canil usado em tortura<\/h3>\n<p>Relatos e documentos obtidos pela <strong>P\u00fablica<\/strong> trazem evid\u00eancias de casos de tortura a povos n\u00e3o ind\u00edgenas por meio da guarda patrimonial Sacop\u00e3, uma for\u00e7a paramilitar fundada por tr\u00eas oficiais do Ex\u00e9rcito que controlava o fluxo de pessoas nas \u00e1reas onde a Paranapanema atuava.\u00a0<\/p>\n<p>A Sacop\u00e3 era encarregada de duas principais fun\u00e7\u00f5es, segundo relatos de testemunhas aos quais os pesquisadores da Unifesp tiveram acesso: disciplinar os trabalhadores e afastar e reprimir os ind\u00edgenas.\u00a0<\/p>\n<p>Os guardas monitoravam a forma\u00e7\u00e3o de grupos e aglomera\u00e7\u00f5es para reprimir manifesta\u00e7\u00f5es e articula\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias aos interesses da Paranapanema. Num cen\u00e1rio de amea\u00e7as e torturas, at\u00e9 um canil constru\u00eddo para abrigar c\u00e3es da ra\u00e7a pastor-alem\u00e3o teria se transformado em espa\u00e7o de agress\u00e3o, segundo narrou um dos pedreiros que trabalhou na constru\u00e7\u00e3o do local.<\/p>\n<p>\u201cSoubemos de um caso em que os guardas chegaram a tirar a unha de um cidad\u00e3o. Ele precisava falar algo e, como n\u00e3o falou, arrancaram as unhas dele. N\u00e3o tenho ideia do que ele fez de errado para receber esta puni\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o justifica eles tomarem tal atitude\u201d, relatou. \u201cEm 1986, presenciei um guarda-chefe dando pernada na boca de outro guarda. Falei para o guarda-chefe deixar em paz, mas mesmo assim eles pegaram e bateram no cabra.\u201d\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Canil que teria sido usado na tortura <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3>Danos e repara\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Os danos socioambientais provocados pela Paranapanema englobam a destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas, aspectos culturais e lingu\u00edsticos dos povos ind\u00edgenas locais, al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o desenfreada, detalha o relat\u00f3rio final da Unifesp.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA empresa foi embora e deixou s\u00f3 uma extensa \u00e1rea transformada em areia, estragando os castanhais e seringueiras\u201d, disse um membro da Aldeia Igarap\u00e9 Preto. A explora\u00e7\u00e3o na \u00e1rea foi autorizada em 27 de outubro de 1977, quando o presidente Ernesto Geisel assinou o decreto concedendo \u00e0 Paranapanema o direito de lavrar cassiterita em Novo Aripuan\u00e3, onde a aldeia est\u00e1 situada.\u00a0<\/p>\n<p>A <strong>P\u00fablica<\/strong> questionou a Paranapanema sobre os pontos abordados na reportagem. Em nota, a empresa disse n\u00e3o compactuar com atos violentos e ilegais. E completou: \u201cas pol\u00edticas e controles da companhia co\u00edbem fortemente infra\u00e7\u00f5es \u00e0s leis brasileiras e internacionais. A Paranapanema, que se encontra em recupera\u00e7\u00e3o judicial, refor\u00e7a que a defesa dos direitos humanos \u00e9 realizada por meio de toda a cadeia de valor da empresa, incluindo empregados, fornecedores e demais p\u00fablicos de interesse\u201d.<\/p>\n<p>O acervo da Paranapanema com documentos e testemunhos faz parte de um relat\u00f3rio in\u00e9dito que ser\u00e1 enviado ao MPF e que pretende servir de base para a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o a v\u00edtimas da repress\u00e3o na ditadura militar.\u00a0<\/p>\n<p>Omiss\u00f5es governamentais tamb\u00e9m devem ser apuradas, explicou o pesquisador Gilberto Marques.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA aus\u00eancia do Estado tamb\u00e9m \u00e9 uma tomada de posi\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele. Na medida em que o Estado deveria estar ali para diminuir a desigualdade entre dois povos desiguais, mas n\u00e3o o faz, est\u00e1 \u201ctomando uma posi\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do mais forte\u201d.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/previsao-do-tempo-para-o-dia-dos-namorados-12-de-junho\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/casal_gay-scaled-e1781107737843-2048x1154-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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