{"id":80764,"date":"2026-03-31T16:08:38","date_gmt":"2026-03-31T19:08:38","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/itaipu-na-ditadura-mais-de-100-operarios-mortos-e-43-mil-acidentes-na-construcao\/"},"modified":"2026-03-31T16:08:38","modified_gmt":"2026-03-31T19:08:38","slug":"itaipu-na-ditadura-mais-de-100-operarios-mortos-e-43-mil-acidentes-na-construcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/itaipu-na-ditadura-mais-de-100-operarios-mortos-e-43-mil-acidentes-na-construcao\/","title":{"rendered":"Itaipu na ditadura: mais de 100 oper\u00e1rios mortos e 43 mil acidentes na constru\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Lygia Jobim tinha 29 anos e estava gr\u00e1vida de tr\u00eas meses quando recebeu a not\u00edcia de que seu pai tinha desaparecido. Era in\u00edcio de tarde de uma quinta-feira, dia 22 de mar\u00e7o de 1979. O embaixador Jos\u00e9 Jobim tinha sa\u00eddo de sua casa, no bairro de Cosme Velho, na zona sul do Rio, para visitar um amigo jornalista. O diplomata se preparava para escrever um livro sobre as negociatas que permearam a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Itaipu, na fronteira entre o Brasil e Paraguai.<\/p>\n<p>Jobim n\u00e3o voltou para casa. A fam\u00edlia, preocupada com o sumi\u00e7o, acionou a pol\u00edcia. \u201cForam duas noites assim. Eu fui com meu marido at\u00e9 a casa de minha m\u00e3e. L\u00e1 pelas tantas, me deitei na cama dela, nos deitamos n\u00f3s duas. E eu senti um frio descomunal. Minha m\u00e3e se levantou, pegou um cobertor e me agasalhou, uma sensa\u00e7\u00e3o de terror\u201d, disse Lygia Jobim, em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia<\/strong> <strong>P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<p>As buscas n\u00e3o evitaram a trag\u00e9dia. Dois dias depois, \u00e0s 7 horas da manh\u00e3 de 24 de mar\u00e7o, o corpo do diplomata Jos\u00e9 Jobim foi encontrado por um gari que trabalhava pr\u00f3ximo \u00e0 ponte da Joatinga, na Barra da Tijuca. Jobim pendia em uma corda amarrada ao galho de uma \u00e1rvore. Suas pernas, curvadas, tocavam o solo, numa simula\u00e7\u00e3o grotesca de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Naquele dia, o marido de Lygia, \u00canio Silveira, foi ao local para identificar o corpo. Ele ouviu do delegado e do diretor do Instituto de Criminal\u00edstica que todas as evid\u00eancias apontavam que Jobim tinha morrido, na realidade, em outro local e ap\u00f3s ter sofrido viol\u00eancia f\u00edsica, sendo pendurado ali, depois, para insinuar a situa\u00e7\u00e3o de enforcamento.<\/p>\n<p>Uma semana antes da morte, Jos\u00e9 Jobim esteve em Bras\u00edlia em uma cerim\u00f4nia para participar da transmiss\u00e3o de cargo entre embaixadores e da posse do militar Jo\u00e3o Figueiredo, que acabara de assumir a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Naquela ocasi\u00e3o, Jobim comentou com os convidados sobre o livro que preparava a respeito de Itaipu. Conhecedor do projeto em profundidade, o diplomata era dono de um vasto acervo de documentos sigilosos com potencial de implodir os esquemas que marcaram as obras daquela que foi, por anos, a maior hidrel\u00e9trica do mundo.<\/p>\n<p>Ao comentar publicamente sobre o tema do livro, Jos\u00e9 Jobim chegou a ser alertado por pessoas pr\u00f3ximas para que tivesse cuidado, porque parte daqueles que pretendia denunciar estava ali, ao seu lado, naquela mesma recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Passados 44 anos do assassinato, Lygia ainda n\u00e3o sabe quem matou seu pai nem quem mandou mat\u00e1-lo. A certid\u00e3o de \u00f3bito, que foi feita nove dias ap\u00f3s o corpo ter sido encontrado, classificou a <em>causa mortis<\/em> como \u201cindefinida\u201d, porque dependia de \u201cresultados dos exames complementares\u201d. Em 1985, \u00faltimo ano da ditadura militar, a Justi\u00e7a do Rio pediu o arquivamento do caso, diante da \u201cvis\u00edvel inutilidade da continua\u00e7\u00e3o das in\u00f3cuas idas e vindas do presente inqu\u00e9rito\u201d.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Lygia Jobim, filha do diplomata assassinado, busca respostas at\u00e9 hoje<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ap\u00f3s investiga\u00e7\u00f5es, coleta de testemunhos e depoimentos tomados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, entre 2011 e 2014, a morte de Jobim foi inclu\u00edda na rela\u00e7\u00e3o de pessoas assassinadas pela ditadura. Em 2018, a Comiss\u00e3o Especial de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos (CEMDP) retificou seu atestado de \u00f3bito, esclarecendo que o diplomata, com 69 anos, foi v\u00edtima de um \u201ccrime de Estado\u201d, consumado por \u201cmotiva\u00e7\u00e3o exclusivamente pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Mais de quatro d\u00e9cadas depois, ao ser questionada pela <strong>P\u00fablica<\/strong> sobre como se sente a respeito do assunto, Lygia Jobim reflete em sil\u00eancio por alguns segundos, at\u00e9 formular uma resposta. \u201cO que eu sinto, 44 anos depois, depende do dia. Tem dias em que volto ao momento em que isso aconteceu. E a\u00ed vem um sentimento de horror\u201d, diz ela. \u201cO que fizeram com ele \u00e9 uma coisa inenarr\u00e1vel, e isso n\u00e3o se apaga. O tempo n\u00e3o apaga isso. Persigo at\u00e9 hoje a autoria do crime, quem fez e, sobretudo, quem mandou fazer, quem deu a ordem. Eu quero o nome de quem disse \u2018mata\u2019. Eu quero esse nome. Eu vou conseguir.\u201d<\/p>\n<p>O crime cometido contra a fam\u00edlia Jobim transpassa o hist\u00f3rico de viol\u00eancia, persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, afronta a direitos humanos e mortes que marcou os anos de constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Itaipu, a usina binacional que teve in\u00edcio em 1975 e seria conclu\u00edda nove anos depois, em 1984.<\/p>\n<p>Projeto desenvolvimentista da ditadura, Itaipu fez parte dos quatro grandes empreendimentos nacionais que os militares projetaram como s\u00edmbolo de poder nacional, ao lado da constru\u00e7\u00e3o da ponte Rio-Niter\u00f3i, da abertura da Transamaz\u00f4nica (BR-231) e das usinas nucleares de Angra.<\/p>\n<p>Os acontecimentos que marcaram os canteiros de obra da usina naqueles anos foram analisados por seis historiadores, durante 18 meses. O levantamento faz parte do projeto \u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a ditadura\u201d, trabalho de pesquisa sobre a atua\u00e7\u00e3o de dez empresas estatais e privadas nos anos de chumbo. Os estudos foram conduzidos pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), atrav\u00e9s do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf), em parceria com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo (MPSP).<\/p>\n<p>A partir dos relat\u00f3rios, aos quais a <strong>P\u00fablica<\/strong> teve acesso com exclusividade, a reportagem avan\u00e7ou sobre os casos, buscando informa\u00e7\u00f5es e depoimentos in\u00e9ditos para revelar lacunas de um per\u00edodo marcado pela barb\u00e1rie da ditadura.<\/p>\n<p>Cada uma das informa\u00e7\u00f5es contidas nesta reportagem foi repassada previamente \u00e0 Itaipu, para que a estatal se posicionasse. Hoje, a hidrel\u00e9trica \u00e9 controlada pela estatal Empresa Brasileira de Participa\u00e7\u00f5es em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar), vinculada ao Minist\u00e9rio de Minas e Energia. Suas respostas e explica\u00e7\u00f5es, na \u00edntegra, est\u00e3o inseridas ao longo desta reportagem.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Documentos ligam hidrel\u00e9trica a viola\u00e7\u00f5es no regime de exce\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Mortes e acidentes aos milhares<\/strong><\/h3>\n<p>Itaipu foi, por anos, a maior hidrel\u00e9trica do mundo, com seus 14 mil megawatts de pot\u00eancia instalada. Manteve esse posto por d\u00e9cadas, at\u00e9 perder a posi\u00e7\u00e3o para a usina de Tr\u00eas Gargantas, na China, inaugurada em 2003. Seus n\u00fameros superlativos incluem a mobiliza\u00e7\u00e3o trabalhista. Documentos das construtoras da hidrel\u00e9trica mostram que, por seus canteiros de obra, passaram mais de 100 mil trabalhadores ao longo de toda a constru\u00e7\u00e3o. No auge dos servi\u00e7os de engenharia, em 1978, chegou a reunir 32 mil trabalhadores. Maior do que muitos munic\u00edpios brasileiros, a usina somava 11 vilas habitacionais no Brasil e no Paraguai. \u00c9 nessa cidade tempor\u00e1ria que os militares exerceram todo tipo de opress\u00e3o, com ostensivo aparato de vigil\u00e2ncia e monitoramento sobre a vida, o trabalho, o lazer e as atividades sindicais e pol\u00edticas dos oper\u00e1rios, quando estas existiam.<\/p>\n<p>Com a imposi\u00e7\u00e3o de jornadas di\u00e1rias de trabalho que chegavam, muitas vezes, a 16 horas ininterruptas, aliadas \u00e0 precariedade da infraestrutura de seguran\u00e7a, Itaipu se converteu num sem-fim de acidentes, muitos fatais. \u201cO que chamava a nossa aten\u00e7\u00e3o era o excesso de acidente de trabalho. N\u00e3o havia respeito nenhum. Caiu e morreu? Enterra. Era sim, a toda hora\u201d, disse Ant\u00f4nio Fernandes Neto, 71 anos, em entrevista \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<p>Fernandes Neto conta que viu muitas trag\u00e9dias de perto, porque era t\u00e9cnico em seguran\u00e7a do trabalho de Itaipu. \u00c0 \u00e9poca, sua equipe chegou a reunir documentos e relatos sobre mortes e acidentes ocorridos na obra. O acervo de dados apontava que at\u00e9 800 pessoas teriam morrido nas obras. Todos os documentos, por\u00e9m, diz ele, foram perdidos em dois inc\u00eandios \u201cacidentais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cT\u00ednhamos duas c\u00f3pias desses arquivos, uma que ficava na \u00e1rea administrativa e outra que guard\u00e1vamos numa sala, em outro pr\u00e9dio, ao lado do local do Corpo de Bombeiros. Primeiro, pegou fogo no material da sala administrativa. Depois, houve outro inc\u00eandio naquela sala. Voc\u00ea v\u00ea que coincid\u00eancia, pegar fogo nos dois arquivos? Eram os m\u00e9todos da ditadura\u201d, diz. \u201cN\u00e3o foram situa\u00e7\u00f5es acidentais. Eu trabalhei neste levantamento e cruzamento dos dados. Aquilo foi um desrespeito total, foi um absurdo.\u201d<\/p>\n<p>Muitos acidentes ocorreram no tr\u00e2nsito de ve\u00edculos no canteiro de obras e no lan\u00e7amento de concretagem. Registros mostram que, em apenas um acidente com um guindaste sobre trilhos do tipo \u201cPeiner\u201d, por exemplo, cinco oper\u00e1rios morreram de uma vez.<\/p>\n<p>A <strong>P\u00fablica<\/strong> questionou Itaipu sobre o n\u00famero de acidentes e mortos em suas obras, al\u00e9m dos inc\u00eandios que acabaram com os documentos e que s\u00e3o mencionados por seu ex-t\u00e9cnico em seguran\u00e7a do trabalho. A empresa informou que n\u00e3o tem conhecimento sobre os inc\u00eandios, mas detalhou seus n\u00fameros oficiais a respeito das atrocidades.<\/p>\n<p>Segundo a estatal, \u201cas estimativas indicam que, de 1978 a 1984, aconteceram 43.530 acidentes de trabalho no canteiro de obras da usina, considerando brasileiros e paraguaios\u201d. Sobre o n\u00famero de mortes, Itaipu afirma que, dentro do total de acidentes, 106 foram fatais.<\/p>\n<p>\u201cItaipu tem constru\u00eddo uma vers\u00e3o harm\u00f4nica das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, com o apagamento da mem\u00f3ria dos trabalhadores, produzindo uma hist\u00f3ria oficial, como a do \u2018barrageiro de a\u00e7o\u2019\u201d, diz Carla Silva, pesquisadora da Universidade Estadual do Oeste do Paran\u00e1 (Unioeste) e coordenadora do trabalho de pesquisa relacionado \u00e0 hidrel\u00e9trica. \u201cO que vemos, na realidade, \u00e9 que, muitas vezes, h\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de quem a construiu, daqueles que sofreram acidentes ou que morreram na obra.\u201d<\/p>\n<p>Em sua defesa, a binacional informou \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong> que \u201cfoi pioneira ao estabelecer, ainda em 1975, os Atos Normativos para a Sa\u00fade e Seguran\u00e7a dos Trabalhadores\u201d e que \u201cnaquela \u00e9poca, n\u00e3o havia regulamenta\u00e7\u00e3o sobre o tema no Brasil e no Paraguai\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a empresa, foi a partir do \u201caproveitamento e da amplia\u00e7\u00e3o de documentos surgidos na Itaipu\u201d, como os atos normativos, que o Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego aprovou a Portaria 3.214, de 8 de agosto de 1978, instituindo as \u201cNormas Regulamentadoras (NRs), s\u00e9rie de regras voltadas para a preven\u00e7\u00e3o de acidentes e doen\u00e7as nas empresas brasileiras\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Listas sujas de funcion\u00e1rios<\/strong><\/h3>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o sobre os trabalhadores que seriam contratados para atuar na obra n\u00e3o se limitava a uma leitura curricular de sua experi\u00eancia profissional. A vigil\u00e2ncia sobre a vida pregressa dos funcion\u00e1rios ficava a crit\u00e9rio das Assessorias Especiais de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00f5es (AESIs), departamentos da usina que tinham militares em posi\u00e7\u00e3o de comando e estavam diretamente ligados ao governo.<\/p>\n<p>Os dados eram compartilhados com a Divis\u00e3o de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio das Minas e Energia e com a pasta do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional (CSN), \u00f3rg\u00e3o marcado por sua atua\u00e7\u00e3o no per\u00edodo do golpe militar. Agentes do CSN tinham presen\u00e7a constante nos canteiros da obra.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cComo projeto da ditadura, Itaipu tinha os militares nestas miss\u00f5es. Eram \u00f3rg\u00e3os que faziam o controle dos funcion\u00e1rios, as listas sujas daqueles que podiam ou n\u00e3o ser contratados\u201d, diz a pesquisadora Carla Silva.<\/p>\n<p>As AESIs existiram tanto do lado brasileiro quanto do paraguaio, e tinham processo militarizado de funcionamento. A troca de informa\u00e7\u00f5es entre cada \u00e1rea impedia que um trabalhador que fosse demitido numa opera\u00e7\u00e3o viesse a buscar trabalho em outra empreiteira, por exemplo. O mesmo tipo de controle era aplicado em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores estrangeiros, fazendo com que uma ficha de trabalho fosse transformada em ficha de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Modelo de ficha de um trabalhador estrangeiro<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos anos 1980, durante os movimentos grevistas que se espalharam pelo pa\u00eds, as obras de Itaipu seriam, ent\u00e3o, visitadas por blindados. Em 1987, durante uma paralisa\u00e7\u00e3o na fase em que a usina estava prestes a entregar energia, tanques de guerra chegaram a ser deslocados para o interior da hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<h3><strong>Ind\u00edgenas Av\u00e1-Guarani v\u00edtimas de Itaipu<\/strong><\/h3>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de Itaipu interrompeu o fluxo do rio Paran\u00e1, numa \u00e1rea antes conhecida como Sete Quedas, um conjunto de cachoeiras que tinha forte apelo tur\u00edstico na regi\u00e3o. Tudo ficou debaixo d\u2019\u00e1gua, com o fechamento da represa erguida entre Foz do Igua\u00e7u e Ciudad del Este. \u00c0 \u00e9poca, tratava-se da maior represa do mundo, com uma \u00e1rea de 1.350 km\u00b2, sendo 780 km\u00b2 do lado brasileiro e 570 km\u00b2 em territ\u00f3rio paraguaio.<\/p>\n<p>Essa imensid\u00e3o de \u00e1gua alterou completamente a regi\u00e3o e a vida de milhares de pessoas que, at\u00e9 hoje, sofrem os impactos ambientais e questionam o processo de desapropria\u00e7\u00e3o feito pela estatal militar. Dados da \u00e9poca indicam que a constru\u00e7\u00e3o levou ao deslocamento de aproximadamente 40 mil pessoas, envolvendo diretamente nove munic\u00edpios do oeste do Paran\u00e1. Estima-se que cerca de 8.500 propriedades foram atingidas, mas os dados n\u00e3o s\u00e3o precisos.<\/p>\n<p>Uma das popula\u00e7\u00f5es locais mais atingidas, de acordo com os pesquisadores, foram os ind\u00edgenas, o povo Av\u00e1-Guarani que vive no entorno do rio Paran\u00e1, v\u00edtima de deslocamentos for\u00e7ados e de etnoc\u00eddio, segundo sua pr\u00f3pria vis\u00e3o.<\/p>\n<p>As pesquisas mostram que, embora o tratado de constru\u00e7\u00e3o da usina tenha sido assinado em 1973, milhares de pessoas n\u00e3o sabiam, em 1983, que destino teriam na vida. \u201cN\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o inferirmos que os problemas humanos e sociais foram deixados para o \u00faltimo momento, levando \u00e0 exaust\u00e3o a capacidade de resist\u00eancia e mobiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o atingida\u201d, afirmam os pesquisadores no relat\u00f3rio. \u201cO problema vai muito al\u00e9m do limite econ\u00f4mico. N\u00e3o \u00e9 por falta de recursos financeiros que essa demora e aparente desorganiza\u00e7\u00e3o ocorreu. H\u00e1 um descaso que redunda em deslocamentos for\u00e7ados no \u00faltimo prazo dispon\u00edvel para libera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea que seria atingida pelo reservat\u00f3rio. A situa\u00e7\u00e3o segue em paralelo com a popula\u00e7\u00e3o dos av\u00e1-guaranis.\u201d<\/p>\n<figure><figcaption><em>Assinatura do Tratado de Itaipu pelos presidentes Me\u0301dici e Stroessner<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma das medidas tomadas \u00e0 \u00e9poca para retirar as pessoas da regi\u00e3o passou pelo projeto de coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Itaipu bancou a visita de colonos ao Acre. Uma das \u00e1reas oferecidas era um assentamento organizado para os atingidos em outra barragem, a da hidrel\u00e9trica de Sobradinho, na Bahia, que nem mesmo aqueles atingidos aceitaram ocupar, devido \u00e0 dist\u00e2ncia e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es inapropriadas.<\/p>\n<p>As pesquisas revelam que a primeira posi\u00e7\u00e3o da binacional foi rejeitar a presen\u00e7a dos povos ind\u00edgenas, como se n\u00e3o houvesse povos origin\u00e1rios na regi\u00e3o, insistindo na tese do \u201cvazio demogr\u00e1fico\u201d. Depois, houve a tentativa de \u201cnormatizar\u201d, atrav\u00e9s de profissionais contratados, quem podia ou n\u00e3o ser considerado aut\u00f3ctone, ou seja, que se origina da regi\u00e3o onde \u00e9 encontrado, dentro daquilo que, \u00e0 \u00e9poca, se estabelecia como \u201cpadr\u00f5es antropol\u00f3gicos de indianidade\u201d.<\/p>\n<p>Outra iniciativa foi separar ind\u00edgenas \u201cbrasileiros\u201d dos \u201cparaguaios\u201d, apesar de ser de pleno conhecimento que os ind\u00edgenas se movimentavam em torno do rio Paran\u00e1, sem limites claros de fronteiras entre os pa\u00edses, em suas rela\u00e7\u00f5es sociais e familiares. H\u00e1 questionamentos, ainda, sobre expropria\u00e7\u00f5es de fam\u00edlias de pescadores e pequenos agricultores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAs expropria\u00e7\u00f5es dos ind\u00edgenas foram feitas de forma irregular e permanecem em aberto at\u00e9 hoje.\u201d \u00c9 uma luta dos av\u00e1s-guaranis, que exigem o devido tratamento como povo origin\u00e1rio e sua repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Questionada pela<strong> P\u00fablica <\/strong>sobre o tema, a estatal declarou que, neste momento, est\u00e1 em fase de estrutura\u00e7\u00e3o um grupo de trabalho para retomar as discuss\u00f5es sobre os impactos causados. Esse grupo ser\u00e1 constitu\u00eddo por representantes da pr\u00f3pria Itaipu Binacional, do Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas, Funai, Casa Civil, Advocacia-Geral da Uni\u00e3o e lideran\u00e7as ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se de um grupo para debater eventual repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e temas afeitos \u00e0s quest\u00f5es do povo av\u00e1-guarani na regi\u00e3o\u201d, informou a binacional.<\/p>\n<h3><strong>Mortos e desaparecidos<\/strong><\/h3>\n<p>A trucul\u00eancia militar ostentada no processo de constru\u00e7\u00e3o de Itaipu deixou como legado epis\u00f3dios tr\u00e1gicos como o oper\u00e1rio Francisco Nunes Marques, que era funcion\u00e1rio da empresa Adolpho Lindenberg, uma das construtoras da hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>Registros mostram que, no dia 28 de abril de 1975, Marques, ap\u00f3s ter sido despedido, foi impedido de entrar na fila para apanhar sua marmita de jantar. Ao reclamar do bloqueio, foi agredido a pauladas por quatro funcion\u00e1rios da empresa e, por fim, acabou baleado. O oper\u00e1rio chegou a ser conduzido ao Hospital S\u00e3o Vicente de Paula, mas morreu.<\/p>\n<p>Outro cap\u00edtulo sombrio diz respeito ao m\u00e9dico paraguaio Agust\u00edn Goibur\u00fa, que esteve sob constante vigil\u00e2ncia das AESIs de Itaipu. Goibur\u00fa consta, at\u00e9 hoje, como um dos desaparecidos pol\u00edticos da ditadura de Alfredo Stroessner, a ditadura militar paraguaia, que durou de 1954 a 1989. Segundo os pesquisadores, Goibur\u00fa foi alvo de forte monitoramento no ano de 1976, tendo o comando Itaipu recebido informa\u00e7\u00f5es constantes de sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o referente a Itaipu aponta para a conex\u00e3o da estatal com \u00f3rg\u00e3os repressivos do Cone Sul atuaram no \u00e2mbito da Opera\u00e7\u00e3o Condor, em a\u00e7\u00f5es secretas internacionais.<\/p>\n<p>Alian\u00e7a de ditaduras militares que governavam os principais pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, a Opera\u00e7\u00e3o Condor realizava troca de informa\u00e7\u00f5es sigilosas com o prop\u00f3sito de perseguir pessoas contr\u00e1rias aos regimes ou ligadas ao comunismo.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 documentos que relatam uma suposta \u2018infiltra\u00e7\u00e3o comunista\u2019 nos diversos setores das atividades. Havia um monitoramento cruzado, com interc\u00e2mbio sistem\u00e1tico de informa\u00e7\u00f5es. Empregados tinham que saber fazer cifragem e decifragem de documentos\u201d, diz a pesquisadora Jussaramar da Silva.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Documento de Itaipu sobre \u2018infiltrac\u0327a\u0303o comunista\u2019<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Bloqueio de informa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>Os relatos colhidos pelos pesquisadores apontam a atua\u00e7\u00e3o direta da estatal Itaipu\u00a0no \u00e2mbito da ditadura, mas as restri\u00e7\u00f5es de acesso a documentos impostas at\u00e9 hoje aos pesquisadores prejudicaram o resultado do trabalho, impossibilitando que se tenha uma vis\u00e3o mais horizontal do que se passou na constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica naqueles anos.<\/p>\n<p>Carla Silva, pesquisadora e coordenadora do trabalho, afirma que foram apresentados v\u00e1rios pedidos de acesso ao acervo completo de informa\u00e7\u00f5es, mas que foram negados pela estatal. Em uma resposta enviada aos pesquisadores para rejeitar o pedido, Itaipu declarou que um dos membros do grupo j\u00e1 tinha solicitado informa\u00e7\u00f5es no passado e que, por isso, n\u00e3o liberaria o acesso novamente.<\/p>\n<p>\u201cUsaram isso como justificativa, mas isso n\u00e3o tem nenhum fundamento\u201d, diz Carla. \u201cN\u00e3o tivemos acesso a todo o material de Itaipu. Por mais que tenhamos solicitado, foram indeferidos os nossos pedidos de informa\u00e7\u00f5es. Sabemos que a estatal tem a documenta\u00e7\u00e3o organizada, mas n\u00e3o fomos atendidos.\u201d<\/p>\n<p>Dadas as limita\u00e7\u00f5es impostas pela empresa, os pesquisadores passaram a recorrer a todas as bases de dados oficiais poss\u00edveis e conseguiram, ainda assim, reunir e analisar cerca de 10 mil documentos. \u201cFoi mais f\u00e1cil pesquisar na Argentina e Paraguai do que em Itaipu. Fomos ao centro de documenta\u00e7\u00e3o que pertence ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a do Paraguai, o \u2018Arquivo do Terror\u2019, que guarda documentos da Opera\u00e7\u00e3o Condor. Encontramos muita coisa.\u201d<\/p>\n<p>A <strong>P\u00fablica<\/strong> questionou por que Itaipu n\u00e3o garantiu acesso irrestrito ao material solicitado e encaminhou \u00e0 estatal o pr\u00f3prio indeferimento. Em nota, a hidrel\u00e9trica n\u00e3o explicou a negativa e declarou que \u201ca atual gest\u00e3o da Itaipu Binacional (margem brasileira) tem interesse em esclarecer quaisquer quest\u00f5es de interesse p\u00fablico que envolvam a empresa\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a empresa, \u00e9 mantido um canal aberto na internet para receber e analisar pedidos de informa\u00e7\u00e3o, \u201ccom o compromisso de responder no menor prazo poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>O acervo sobre Itaipu com documentos e testemunhos faz parte de um relat\u00f3rio in\u00e9dito da Unifesp\/Caaf que ser\u00e1 enviado ao MPF e que pretende servir de base para a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o a v\u00edtimas da repress\u00e3o na ditadura militar.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em aberto<\/strong><\/h3>\n<p>Quem visita hoje a usina de Itaipu se depara com uma hist\u00f3ria de vit\u00f3rias e for\u00e7a contada por homens desbravadores que tiveram a sua imagem sintetizada na imagem do \u201cHomem de A\u00e7o\u201d, uma escultura de duas toneladas, constru\u00edda pelos oper\u00e1rios da hidrel\u00e9trica com peda\u00e7os de sucata de maquin\u00e1rios, nos anos 1980.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores e milhares de atingidos pela obra, por\u00e9m, a imagem do barrageiro \u201cNic\u00e3o\u201d, como a escultura passaria a ser conhecida, n\u00e3o conta toda a hist\u00f3ria do que se passou no local, e isso precisa ser reparado, tanto por meio de indeniza\u00e7\u00f5es quanto por meio de repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. A cria\u00e7\u00e3o de um centro de mem\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o da usina de Itaipu \u2013 que expresse as viola\u00e7\u00f5es cometidas contra os trabalhadores e popula\u00e7\u00f5es expropriadas \u2013 \u00e9 uma dessas demandas.<\/p>\n<p><!-- mostRead -->Atos para omitir hist\u00f3rias sempre rondaram a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica. A filha do diplomata Jos\u00e9 Jobim, assassinado no Rio de Janeiro uma semana depois de ter dito que iria escrever sobre as irregularidades cometidas na constru\u00e7\u00e3o da usina, contou \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong> que, dias depois da morte do pai, os documentos que Jos\u00e9 Jobim guardava sobre o tema desapareceram de sua casa.<\/p>\n<p>\u201cO material estava numa mala, que foi colocada no s\u00f3t\u00e3o da casa, no bairro de Laranjeiras, no Rio. Tempos depois, quando abrimos a mala, vimos que parte da documenta\u00e7\u00e3o tinha desaparecido. O material estava dentro de um envelope escrito \u2018documenta\u00e7\u00e3o sobre Itaipu\u2019. Esse envelope estava vazio\u201d, disse. \u201cMeu pai tinha come\u00e7ado a rascunhar as mem\u00f3rias. O cap\u00edtulo Itaipu e Paraguai desapareceram.\u201d<\/p>\n<p>Por alguns anos, exatamente no dia do anivers\u00e1rio da morte de Jos\u00e9 Jobim, um telefonema an\u00f4nimo tocava na casa da fam\u00edlia. \u201cMinha m\u00e3e recebia uma liga\u00e7\u00e3o, mandando a gente parar de investigar. Isso aconteceu durante cinco, seis anos. Minha m\u00e3e respondia, com toda calma, que a gente pararia quando descobrisse a verdade.\u201d<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Lygia Jobim morreu em 2006 sem saber toda a verdade. Ela segue investigando o caso at\u00e9 hoje.\u00a0<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-e-noticia-no-jornal-tvt-news-primeira-edicao-23-04-2026\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jornal_tvt_news-14-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O que \u00e9 not\u00edcia no Jornal TVT News Primeira Edi\u00e7\u00e3o...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nota-de-pesar-renato-rabelo-um-gigante-na-luta-pelo-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/15fev2026-renato-rabelo-morre-aos-83-anos-1771181455166_v2_900x506jpg-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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