{"id":80766,"date":"2026-03-31T16:08:39","date_gmt":"2026-03-31T19:08:39","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/documentos-indicam-que-alianca-da-folha-com-a-ditadura-foi-mais-forte-do-que-jornal-admite\/"},"modified":"2026-03-31T16:08:39","modified_gmt":"2026-03-31T19:08:39","slug":"documentos-indicam-que-alianca-da-folha-com-a-ditadura-foi-mais-forte-do-que-jornal-admite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/documentos-indicam-que-alianca-da-folha-com-a-ditadura-foi-mais-forte-do-que-jornal-admite\/","title":{"rendered":"Documentos indicam que alian\u00e7a da Folha com a ditadura foi mais forte do que jornal admite"},"content":{"rendered":"<p>Documentos e testemunhos obtidos pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf), ligado a Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e analisados com exclusividade pela <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> indicam que a colabora\u00e7\u00e3o da Folha de S. Paulo com a ditadura foi mais profunda do que se sabia.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, o grupo Folha teria emprestado carros de distribui\u00e7\u00e3o de jornais para que agentes da repress\u00e3o os usassem para disfar\u00e7ar opera\u00e7\u00f5es do regime nas ruas e que teriam resultado em pris\u00f5es, assassinatos e desaparecimento de militantes da esquerda armada. Um dos testemunhos mais importantes obtidos pela Unifesp\/Caaf foi uma entrevista dada aos pesquisadores pelo ex-agente de informa\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, Marival Chaves do Canto, que atuou no DOI-CODI (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es e Informa\u00e7\u00f5es e Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna) do Ex\u00e9rcito, em Bras\u00edlia. <\/p>\n<p>Ele afirma que os carros eram usados como cobertura de <em>pontos<\/em> (encontros) entre militantes da esquerda armada que na maioria das vezes eram presos, torturados e assassinados: \u201cEra um contato feito dentro da dire\u00e7\u00e3o. Essa dire\u00e7\u00e3o escalava um carro para tal lugar, tal hora, para estar ali naquele local. Ali, entrava-se em contato com pessoas, dirigentes da opera\u00e7\u00e3o, posicionava o carro no local mais adequado e, a partir da\u00ed, o processo se desenvolvia. Para que n\u00e3o houvesse testemunha, o motorista era dispensado\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>A pesquisa aprofunda tamb\u00e9m a compreens\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas do Grupo Folha no per\u00edodo mais agudo dos anos de chumbo com policiais que perseguiam a esquerda e, ao mesmo tempo, de acordo com testemunho colhido na pesquisa, estavam contratados pelo jornal, ora como rep\u00f3rteres e redatores ou prestando servi\u00e7os de seguran\u00e7a \u00e0 empresa. Entre eles estavam dois delegados do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (DOPS), os irm\u00e3os Robert e Edward Quass, al\u00e9m do\u00a0nome mais forte da repress\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds, S\u00e9rgio Fleury, o delegado que chefiou o \u201cesquadr\u00e3o da morte\u201d e depois recebeu carta branca do regime militar para torturar e matar oponentes pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O nome de Fleury surgiu num depoimento de outro investigador do DOPS, Messias Ayrton Scatena, em 1973, que tamb\u00e9m trabalhou como jornalista do grupo e acabou sendo processado na auditoria militar paulista por ter vazado informa\u00e7\u00f5es sigilosas para a namorada, uma jornalista que trabalhava na mesma empresa. Scatena diz em depoimento que Roberto Quass era do servi\u00e7o secreto do DOPS e, junto com o irm\u00e3o, chefiava os \u201cservi\u00e7os de seguran\u00e7a de toda a empresa Folha de S. Paulo\u201d. Scatena faz a afirma\u00e7\u00e3o no mesmo trecho que relata que \u201coutro delegado, Dr. S\u00e9rgio Fleury tamb\u00e9m participa dos mesmos servi\u00e7os e mais especificamente relativamente a subvers\u00e3o e terrorismo\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> teve acesso \u00e0 \u00edntegra das declara\u00e7\u00f5es de Marival. Ex-sargento que por 17 anos, entre 1968 e 1985, conheceu por dentro as engrenagens da ditadura, ele contradiz a principal vers\u00e3o dos antigos donos da Folha, Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, que sempre negaram ter dado apoio material \u00e0 repress\u00e3o. <\/p>\n<p>Perguntado pelos pesquisadores se o empr\u00e9stimo dos carros poderia ter ocorrido sem o conhecimento dos dois principais dirigentes da Folha, o ex-agente foi taxativo: \u201cEm hip\u00f3tese nenhuma. (\u2026) \u00c9 uma atividade super arriscada. (\u2026) J\u00e1 pensou surgir na imprensa, como isso ia depor contra o nome da empresa, se acontecesse um neg\u00f3cio desses sem a anu\u00eancia dos dirigentes, do seu Frias e outras pessoas da dire\u00e7\u00e3o da Folha? Em hip\u00f3tese alguma\u201d, sustentou Marival. \u201cAlgu\u00e9m estava apoiando porque queria a perpetua\u00e7\u00e3o do regime (\u2026), consequentemente estava levando algum tipo de vantagem econ\u00f4mico-financeira\u201d, afirmou. Aos pesquisadores da Unifesp\/Caaf, pelo menos outros 12 entrevistados, entre jornalistas, ex-agentes de repress\u00e3o e ex-presos pol\u00edticos, confirmam, em diferentes abordagens, o uso dos carros.<\/p>\n<figure>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure><figcaption><em>Ve\u00edculos da Folha que teriam participado da repress\u00e3o foram incendiados pela ALN <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Emboscada com caminh\u00e3o da Folha\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>Segundo relatos, o epis\u00f3dio mais emblem\u00e1tico ocorreu no dia 23 de setembro de 1971 em frente ao n\u00famero 2.358, da Rua Jo\u00e3o Moura, Sumarezinho, Zona Oeste da capital paulista, quando tr\u00eas guerrilheiros da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN) foram atra\u00eddos para uma cilada e acabaram surpreendidos por policiais que repentinamente teriam saltado de dentro de uma camioneta ba\u00fa da frota da Folha. Sobrevivente da emboscada, a militante Ana Maria Nacinovic Corr\u00eaa, ent\u00e3o com 25 anos, assassinada dez meses depois, contou a dirigentes da ALN, que o grupo guerrilheiro, como havia feito em outras ocasi\u00f5es para se apossar de armas de policiais descuidados, cercou um jipe do Ex\u00e9rcito aparentemente quebrado e com apenas um soldado vigiando, sem dar import\u00e2ncia para um pequeno caminh\u00e3o da Folha que estaria estacionado pr\u00f3ximo. <\/p>\n<p>Assim que renderam o soldado, que portava displicentemente uma arma longa (fuzil ou metralhadora), os militantes da ALN teriam sido surpreendidos pelos agentes. Eles teriam descido atirando, ferindo tr\u00eas militantes da organiza\u00e7\u00e3o que constam nas listas de desaparecidos pol\u00edticos: Ant\u00f4nio S\u00e9rgio de Matos, Eduardo Ant\u00f4nio da Fonseca e Manoel Jos\u00e9 Nunes Mendes de Abreu. A pesquisa da Unifesp acrescenta ao epis\u00f3dio o depoimento que Suzana Lisboa, ex-militante da ALN, ex-integrante da Comiss\u00e3o Especial de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos e vi\u00fava de um ex-militante da mesma organiza\u00e7\u00e3o, Luiz Eurico Tejera Lisboa, morto pela pol\u00edcia em 1972, deu \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade em 2014. \u201c(\u2026) um carro ba\u00fa [\u2026] da Folha de S\u00e3o Paulo. Esse \u00e9 um dos momentos em que h\u00e1 participa\u00e7\u00e3o direta da empresa \u201cFolha de S\u00e3o Paulo\u201d no assassinato de militantes da ALN. Na \u00e9poca eu convivia aqui em S\u00e3o Paulo e ouvia essa informa\u00e7\u00e3o de dirigentes da ALN\u201d, afirma ela.<\/p>\n<p>Marival diz que com poucos recursos oficiais \u00e0 \u00e9poca, os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o buscavam apoio material de empresas. As camionetas ba\u00fa da Folha eram pr\u00e1ticas porque as portas abriam toda a parte traseira, permitindo mobilidade aos agentes. \u201cA Folha participava, dava colabora\u00e7\u00e3o \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de rua, especialmente aquelas (\u2026) de cobertura de <em>pontos<\/em>, onde as pessoas que entravam morriam\u201d, afirma o ex-agente, lembrando de apenas um dos epis\u00f3dios que teve sobrevivente. \u201c(\u2026) houve um caso, por exemplo, no restaurante Varela, na Mooca (\u2026) de Ant\u00f4nio Carlos Bicalho Lana. Ele conseguiu romper o cerco com uma metralhadora, a tiros etc. Mas a maioria morreu\u201d, relata. <\/p>\n<p>Na emboscada, em 16 de julho de 1972, morreram Ana Maria Nacinovic, Iuri Xavier Pereira e Marcos Nonato da Fonseca. Lana seria assassinado em S\u00e3o Vicente, litoral Sul de S\u00e3o Paulo, em outro cerco, em 30 de novembro de 1973 junto com a tamb\u00e9m militante da ALN S\u00f4nia Angel Jones, nora da estilista Zuzu Angel, morta em acidente misterioso enquanto procurava pelo paradeiro do filho, Stuart Angel Jones, tamb\u00e9m executado.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o de que carros da Folha foram usados nas opera\u00e7\u00f5es policiais surgiu depois que a ALN investigou caminh\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o da Ultragaz, que tamb\u00e9m se envolveu no apoio ao regime militar. A den\u00fancia partiu de uma militante da organiza\u00e7\u00e3o que, presa em 1970, viu que outro empres\u00e1rio, o dinamarqu\u00eas Henning Albert Boilesen, integrante do GPMI (Grupo Permanente de Mobiliza\u00e7\u00e3o Industrial) criado pela Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (FIESP) para fornecer insumos e equipamentos \u00e0 ditadura, era presen\u00e7a frequente na sede da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes (OBAN), centro de tortura no Bairro Para\u00edso, Zona Sul da capital paulista. <\/p>\n<p>S\u00f4nia Hip\u00f3lito Lichtsztejn contou \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong> que percebeu tratar-se do mesmo homem que vira v\u00e1rias vezes andando de uma sala a outra, assistindo sess\u00f5es de tortura e dando ordens como se estivesse fiscalizando as atividades policiais na Oban quando deixou a pris\u00e3o, sob condicional, em julho de 1970. \u201cEstava em casa, folheando uma revista quando vi uma foto dele numa reportagem. Levei um susto. Mostrei a revista a outra amiga e ela confirmou\u201d, conta S\u00f4nia, que alertou seu contato mais pr\u00f3ximo na ALN. Ela mesma participou do levantamento, que demorou meses at\u00e9 que o empres\u00e1rio fosse plenamente identificado e executado numa a\u00e7\u00e3o da ALN e Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes (MRT) no dia 15 de abril de 1971 na Alameda Casa Branca, Jardins, a poucas quadras da casa do empres\u00e1rio, na Rua Estados Unidos. Ela relata que n\u00e3o participou do \u201cjusti\u00e7amento\u201d.\u00a0<\/p>\n<figure>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure><figcaption><em>Henning <em>Albert<\/em><\/em> <em>Boilesen, da Ultragaz, foi morto a tiros em S\u00e3o Paulo: empres\u00e1rio defendia ajuda financeira e log\u00edstica ao aparato da repress\u00e3o pol\u00edtica<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O levantamento da ALN apontou que Boilesen apoiava ostensivamente a pol\u00edcia com equipamentos, dinheiro arrecadado de outros empres\u00e1rios, era presen\u00e7a ass\u00eddua nos por\u00f5es e cedia para a pol\u00edcia os caminh\u00f5es da empresa Ultragaz, de distribui\u00e7\u00e3o de g\u00e1s na cidade. Esse detalhe levou a ALN a confirmar atrav\u00e9s de checagens e pelo relato de militantes presos ou sobreviventes, que os carros da Folha tamb\u00e9m teriam sido usados como disfarce em circunst\u00e2ncias parecidas. Boilesen e Frias de Oliveira entraram na mira da organiza\u00e7\u00e3o no mesmo per\u00edodo. \u201cO Frias ficou com medo, mas n\u00e3o seria assassinado. O plano era sequestr\u00e1-lo e troc\u00e1-lo por companheiros presos\u201d, contou \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong> o jornalista e ex-preso pol\u00edtico, Ivan Seixas, que pertencia ao MRT e hoje \u00e9 ativista dos direitos humanos. <\/p>\n<p>Em duas a\u00e7\u00f5es distintas, uma em 21 de setembro de 1971 e a outra no dia 26 do m\u00eas seguinte, com o objetivo de denunciar os donos da Folha, a ALN incendiou tr\u00eas camionetas do jornal. Num comunicado publicado no peri\u00f3dico <em>Venceremos<\/em>, da organiza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m acusou a Folha de entregar ao CODI uma \u201clista suja\u201d com nomes de funcion\u00e1rios suspeitos de subvers\u00e3o demitidos.\u00a0<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o da Folha foi um editorial com o t\u00edtulo de \u201cBanditismo\u201d, publicado na primeira p\u00e1gina, escrito e assinado de forma in\u00e9dita pelo pr\u00f3prio Frias, afirmando que as amea\u00e7as n\u00e3o alterariam \u201ca linha de conduta\u201d do jornal e argumentando que o pa\u00eds tinha \u201cum governo s\u00e9rio, respons\u00e1vel e com indiscut\u00edvel apoio popular\u201d.\u00a0Quando o segundo carro foi destru\u00eddo, o dono da Folha afirmou que as a\u00e7\u00f5es da ALN seriam rea\u00e7\u00f5es \u00e0 \u201cfirme e consciente posi\u00e7\u00e3o\u201d do jornal na \u201cveemente condena\u00e7\u00e3o do terrorismo\u201d. A ALN refor\u00e7aria as amea\u00e7as, alertando que seu \u201cjusti\u00e7amento\u201d era uma quest\u00e3o de tempo. Frias mudou-se, ent\u00e3o, com toda a fam\u00edlia para o pr\u00e9dio da Folha, na Bar\u00e3o de Limeira, e teria passado a contar com um aparato de seguran\u00e7a do pr\u00f3prio Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (DOPS), o que refor\u00e7aria a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima do jornal com policiais iniciada bem antes das amea\u00e7as.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Editorial in\u00e9dito assinado por \u201cseu Frias\u201d, dono do jornal, foi publicado na primeira p\u00e1gina em 1971<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os pesquisadores da Unifesp\/Caaf entrevistaram outras tr\u00eas testemunhas que viram os carros da Folha em diferentes a\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o nas ruas. Ivan Seixas, que foi preso aos 16 anos, junto com o seu pai, Joaquim Alencar Seixas, contou ter estranhado a presen\u00e7a de carros de distribui\u00e7\u00e3o de jornal da Folha estacionados na rua em frente \u00e0 OBAN, na Rua Tut\u00f3ia. \u201cCarro de transporte de jornal parado na frente de uma delegacia? Tem alguma coisa errada. E a reincid\u00eancia foi muito grande. Depois, v\u00e1rios companheiros relataram que foram at\u00e9 transportados por carros da Folha\u201d, disse ele. Relato semelhante foi feito pelo jornalista Francisco Carlos de Andrade, que afirmou ter visto carros do jornal enfileirados no p\u00e1tio da OBAN. O ex-deputado Adriano Diogo, detido junto com sua mulher, Arlete, contou aos pesquisadores que um carro da Folha ficou estacionado pr\u00f3ximo \u00e0 sua casa v\u00e1rias horas antes da invas\u00e3o da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Na dire\u00e7\u00e3o de jornalismo do grupo, embora o assunto fosse inc\u00f4modo, a maioria sabia da colabora\u00e7\u00e3o, indicam documentos e depoimentos. \u201c(\u2026). A Folha ajudava a fazer isso materialmente, n\u00e3o era ideologicamente. A hist\u00f3ria n\u00e3o pode ignorar isso, embora a Folha negue. [\u2026] a Folha apoiou os atos mais escabrosos [da ditadura], mais desumanos. Nada retirar\u00e1 esse car\u00e1ter essencial do papel da Folha\u201d, disse o jornalista Jorge Okubaro que, como secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o da Folha da Tarde, participava das reuni\u00f5es de pauta di\u00e1rias. A vers\u00e3o \u00e9 confirmada por outros tr\u00eas jornalistas, Ant\u00f4nio Carlos Fon, Wianey Pinheiro, \u00e0 \u00e9poca rep\u00f3rter da Folha e presidente do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo, e Jos\u00e9 Luiz Proen\u00e7a, assim como dois agentes dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, os delegados Cl\u00e1udio Guerra e Carlos Alberto Augusto, este conhecido como <em>Carteira Preta<\/em> e <em>Carlinhos Metralha<\/em>. Carteira foi homem de confian\u00e7a do delegado S\u00e9rgio Fleury.<\/p>\n<p>Em entrevista aos pesquisadores, o policial valoriza o trabalho realizado pelo Grupo Folha e defende que os dirigentes sejam recompensados por conta de seus pr\u00e9stimos \u00e0 ditadura: \u201cTodo mundo que ajudou na repress\u00e3o tem que ser indenizado (\u2026) Sem sombra de d\u00favidas. E com muito dinheiro. Porque o que est\u00e3o fazendo com ele aqui agora, est\u00e3o querendo denegrir a empresa dele (\u2026) Tem que ser indenizado sim. E com muito dinheiro, tem que levantar o jornal\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Coordenadora da pesquisa, a jornalista Ana Paula Goulart, historiadora e professora de comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), frisa que n\u00e3o tem nenhuma d\u00favida que o Grupo Folha emprestou seus ve\u00edculos \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de ca\u00e7ada aos militantes de esquerda e diz que embora Caldeira tenha sido respons\u00e1vel pela frota de ve\u00edculos do jornal e personagem t\u00e3o pr\u00f3ximo ao regime militar que acabou sendo indicado prefeito bi\u00f4nico de Santos, no litoral Sul de S\u00e3o Paulo, a pesquisa aponta que a responsabilidade \u00e9 dos dois s\u00f3cios. \u201cTentam jogar para o Caldeira, mas os dois sabiam o que cada um fazia. O Caldeira n\u00e3o tomaria uma decis\u00e3o dessa sem a anu\u00eancia dos Frias\u201d, conclui.<\/p>\n<p>A pesquisadora sustenta, tamb\u00e9m, que a colabora\u00e7\u00e3o acabou sendo atestada de forma contundente pelo filho do dono do grupo, o ex-diretor de reda\u00e7\u00e3o da Folha, Otavio Frias Filho, conhecido no meio jornal\u00edstico como Otavinho, num depoimento para a biografia do pai ao jornalista Engel Paschoal, autor de <em>A trajet\u00f3ria de Octavio Frias de Oliveira<\/em>, publicado em 2007 pela editora do jornal, a Publifolha, trecho resgatado pela pesquisa. \u201c<em>Depois de conversar com o meu pai (e) at\u00e9 com gente que teve liga\u00e7\u00f5es com a guerrilha naquela \u00e9poca<\/em>, <em>eu diria que sim: os caminh\u00f5es de transporte da Folha foram usados por equipes do DOI-Codi para fazer campana e at\u00e9 prender guerrilheiros, ou supostos guerrilheiros\u201d, <\/em>disse Otavinho, conforme consta na p\u00e1gina 157 da obra. <\/p>\n<p>Os \u201csupostos guerrilheiros\u201d deve-se, naturalmente, \u00e0 recusa de Frias pai em reconhecer o car\u00e1ter pol\u00edtico das a\u00e7\u00f5es armadas de oponentes do regime, como o empres\u00e1rio deixou claro num editorial de 30 de junho de 1972, com o provocador t\u00edtulo \u201cPresos Pol\u00edticos?\u201d. Nele, critica seu concorrente, o jornal O Estado de S. Paulo, por defender tratamento especial a \u201ccriminosos\u201d que \u201cmais n\u00e3o s\u00e3o que assaltantes de bancos, sequestradores, ladr\u00f5es, incendi\u00e1rios e assassinos\u201d. A declara\u00e7\u00e3o de Otavinho, que morreu em 2018, \u00e9 a \u00fanica da fam\u00edlia Frias reconhecendo a colabora\u00e7\u00e3o. Seu pai, Frias de Oliveira, faleceu em 2007 sem nunca ter admitido a cess\u00e3o dos carros. Numa reportagem do pr\u00f3prio jornal por ocasi\u00e3o dos 100 anos da Folha, em 2021, foi reproduzida uma entrevista antiga de Frias de Oliveira em que havia afirmado que \u201cse isso ocorreu\u201d, foi \u00e0 sua revelia, e negou ter colaborado com os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Declara\u00e7\u00e3o de Ot\u00e1vio Filho reconhecendo a colabora\u00e7\u00e3o com a ditadura em 2007 <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Atrelamento da linha editorial \u00e0 ditadura<\/strong><\/h3>\n<p>A pesquisa \u00e9 parte do projeto \u201cA responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a ditadura\u201d, que al\u00e9m da Folha incluiu outras nove empresas e envolveu, no total, 55 pesquisadores selecionados atrav\u00e9s de edital pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), da Unifesp, em parceria com Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo, material que foi obtido com exclusividade pela <strong>P\u00fablica<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>No caso da Folha, a pesquisa durou quase dois anos, ao longo dos quais, entre jornalistas, militantes pol\u00edticos, ex-agentes e empres\u00e1rios, foram entrevistadas mais de 40 pessoas, al\u00e9m de terem ocorrido buscas em arquivos p\u00fablicos, bibliografia e em jornais. Boa parte das informa\u00e7\u00f5es sobre a colabora\u00e7\u00e3o da Folha com a repress\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima da reda\u00e7\u00e3o do jornal com policiais constam no livro <em>C\u00e3es de Guarda \u2013 jornalistas e censores, do AI-5 \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1988<\/em>, da Boitempo editorial, publicado em 2004 pela pesquisadora Beatriz Kushnir, que contou parte desta hist\u00f3ria, tamb\u00e9m listado na bibliografia da pesquisa da Unifesp\/Caaf. As informa\u00e7\u00f5es coletadas pela pesquisa da Unifesp refor\u00e7am as presen\u00e7as de Frias e Carlos Caldeira na conspira\u00e7\u00e3o para o golpe, no apoio material \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica, no atrelamento da linha editorial \u00e0 ditadura por um longo per\u00edodo.\u00a0Demonstram ainda que os neg\u00f3cios de Frias e Caldeira cresceram no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Documentos encontrados no Arquivo Nacional, aos quais a <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> teve acesso, indicam que Octavio Frias de Oliveira mantinha rela\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas com as entidades que conspiraram pelo golpe de 1964 e depois apoiaram sem restri\u00e7\u00f5es a ditadura. Trata-se de um recibo de contribui\u00e7\u00e3o de Frias ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), entidade que conspirou pelo golpe e atuou na manuten\u00e7\u00e3o do regime militar, em valores da \u00e9poca, de Cr$ 12.000 [em valores atuais, pelo IGP-DI, R$ 207 mil], com data de 16 de julho de 1967, e de um outro papel em que o dono da Folha \u00e9 identificado como \u201cS\u00f3cio do IPES\u201d no per\u00edodo \u201cpr\u00e9-64\u201d. Ao jornalista Oscar Pilagallo, autor do livro <em>Hist\u00f3ria da Imprensa paulista: jornalismo e poder de D. Pedro I a Dilma<\/em>, Frias n\u00e3o negou a rela\u00e7\u00e3o com a entidade golpista, mas argumentou que havia participado apenas de uma \u00fanica reuni\u00e3o com outros <em>ipesianos<\/em> na casa do banqueiro Jos\u00e9 Adolpho da Silva Gordo, do Banco de Investimento do Brasil.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Recibo de contribui\u00e7\u00e3o de Frias ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<figure><figcaption><em>Documento em que o dono da Folha, \u201cseu Frias\u201d, \u00e9 identificado como \u201cS\u00f3cio do IPES\u201d <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Numa an\u00e1lise \u00e0s edi\u00e7\u00f5es da Folha de S.Paulo anteriores ao golpe, os pesquisadores debru\u00e7aram-se sobre um material para contextualizar o per\u00edodo: um suplemento de 44 p\u00e1ginas, intitulado <strong><em>64 \u2013 Brasil continua, <\/em><\/strong>publicado como encarte do jornal exatamente no dia do golpe, 31 de mar\u00e7o de 1964, cujo conte\u00fado, afirma a pesquisadora Ana Paula Goulart \u201c\u00e9 repleto de an\u00fancios e textos opinativos que evidenciam um claro protagonismo exercido pela <em>Folha<\/em> nas articula\u00e7\u00f5es golpistas e a forte sintonia pol\u00edtico-ideol\u00f3gica do grupo com o empresariado local, nacional e internacional\u201d.\u00a0<\/p>\n<figure>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure><figcaption><em>Suplemento de 44 p\u00e1ginas<strong> <\/strong>publicado como encarte do jornal no dia do golpe, 31 de mar\u00e7o de 1964<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A pesquisa destaca que, nos dez primeiros anos do regime, o jornalismo da<em> Folha <\/em>tamb\u00e9m produziu significativas campanhas conclamando a popula\u00e7\u00e3o a \u201cseguir com otimismo os preceitos da assim chamada \u2018revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u2019 e assumiu um papel ativo no que foi denominado de \u2018ca\u00e7a aos terroristas\u2019\u201d. A oposi\u00e7\u00e3o armada, segundo o jornal, \u201camea\u00e7ava a soberania nacional e deveria ser combatida a partir de um esfor\u00e7o coletivo\u201d. Na ocasi\u00e3o das comemora\u00e7\u00f5es de 50 anos da empresa, em 1971, a <em>Folha<\/em> afirmava se manter \u201cprofundamente identificada\u201d com os rumos da na\u00e7\u00e3o, ao acompanhar \u201cos esfor\u00e7os da Revolu\u00e7\u00e3o de 64 para a reconstru\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Segundo os pesquisadores, Jornal assumiu um papel ativo na \u2018ca\u00e7a aos terroristas\u2019<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>A manchete antecipada de um assassinato\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>Todos os jornais do grupo seguiram a linha editorial da Folha de apoio \u00e0 ditadura. Mas nenhum teria chegado ao n\u00edvel da Folha da Tarde em colabora\u00e7\u00e3o e subservi\u00eancia ao regime militar, segundo depoimentos de jornalistas que trabalhavam no ve\u00edculo consultados pela <strong>P\u00fablica<\/strong>. No dia 17 de abril de 1971, em sua manchete o jornal noticiou em letras garrafais: \u201cMorto o assassino do industrial Boilesen\u201d. O texto da chamada informava que no dia anterior, os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a interna, \u201cagindo com rapidez identificaram no dia anterior\u201d Joaquim Seixas como um dos participantes da execu\u00e7\u00e3o de Boilesen, ocorrida dois dias antes. <\/p>\n<p>A not\u00edcia informava que, cercado pela pol\u00edcia, Seixas reagiu e acabou sendo morto no tiroteio com a pol\u00edcia. O problema \u00e9 que no dia anterior v\u00e1rios presos viram Joaquim e Ivan, ent\u00e3o com 16 anos, serem retirados do interior de uma viatura, espancados j\u00e1 no p\u00e1tio da Oban e depois torturados. O jornal come\u00e7ou a circular na manh\u00e3 do dia 17, mas Seixas s\u00f3 morreria em consequ\u00eancia de choques e espancamentos por volta das 19h do mesmo dia 17. \u00c0 <strong>P\u00fablica<\/strong>, Ivan Seixas conta que viu, de dentro de uma viatura, a manchete num exemplar pregado \u00e0 parede de uma banca de jornal em frente ao bar em que os policiais pararam para tomar caf\u00e9 no retorno de uma simula\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio fuzilamento. \u201cQuanto cheguei de volta \u00e0 Oban, vi meu pai sentado na <em>cadeira do drag\u00e3o<\/em> [assento de choque el\u00e9trico] sendo torturado, mas vivo\u201d, conta o jornalista. A Folha da Tarde, segundo ele, pesava a m\u00e3o contra a esquerda, mas ele faz quest\u00e3o de lembrar que outros jornais tamb\u00e9m publicavam falsas not\u00edcias produzidas pela pol\u00edcia.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em> Folha da Tarde noticiou em letras garrafais um assassinato que ainda n\u00e3o havia ocorrido<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>As pesquisas indicam que a Folha da Tarde se tornou no per\u00edodo o ve\u00edculo mais pr\u00f3ximo dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, publicando em profus\u00e3o, sem o menor filtro, vers\u00f5es oficiais que interessavam \u00e0 pol\u00edcia pol\u00edtica. Isso ocorreu tamb\u00e9m com outros presos, como no caso envolvendo Eduardo Collen Leite, o Bacuri, da mesma ALN, detido em 21 de agosto de 1970 no Rio e levado para S\u00e3o Paulo, onde a equipe do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury o matou em 8 de dezembro, depois de um longo calv\u00e1rio de torturas. <\/p>\n<p>A manchete de 9 de dezembro de 1970 n\u00e3o deixava d\u00favidas sobre a posi\u00e7\u00e3o da Folha da Tarde. <em>\u201cTerror: Metralhado e morto outro fasc\u00ednora\u201d.<\/em> Linha de frente da esquerda armada, o militante havia participado do sequestro de embaixadores que seriam trocados pela liberta\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos, entre os quais estava sua mulher, Denise Crispim, gr\u00e1vida. A mat\u00e9ria informou que o \u201cbandoleiro\u201d morrera num confronto com a pol\u00edcia em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, no litoral Sul de S\u00e3o Paulo, embora seus companheiros de c\u00e1rcere tenham protestado com gritos e muito barulho nas ferragens das grades quando ele foi retirado da cela em estado f\u00edsico deplor\u00e1vel no dia 27 de outubro, dois dias depois de mais uma falsa not\u00edcia de que teria fugido. A Folha da Tarde se superava a cada edi\u00e7\u00e3o na adjetiva\u00e7\u00e3o, denominando militantes pol\u00edticos de \u201cfac\u00ednoras\u201d, \u201cassassinos\u201d, \u201cman\u00edacos\u201d e \u201cloucos\u201d. <\/p>\n<figure><figcaption><em>Folha da Tarde chamava militantes pol\u00edticos de \u201cfac\u00ednoras\u201d, \u201cassassinos\u201d, \u201cman\u00edacos\u201d e \u201cloucos\u201d <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Por mais que a fam\u00edlia Frias tenha tentado separar a Folha da Tarde da linha que viria a ser adotada pela Folha a partir de 1974, a pesquisa mostra que, resguardada as peculiaridades de cada ve\u00edculo, \u201chavia uma dire\u00e7\u00e3o editorial uniforme no interior do conglomerado jornal\u00edstico liderado pelos empres\u00e1rios Octavio Frias e Carlos Caldeira\u201d no per\u00edodo. Al\u00e9m disso, o nome de Frias de Oliveira se destacava como diretor-presidente no cabe\u00e7alho da primeira p\u00e1gina da Folha da Tarde.<\/p>\n<h3><strong>Policiais jornalistas na Folha<\/strong><\/h3>\n<p>Um dos m\u00e9ritos da pesquisa da Unifesp foi reunir informa\u00e7\u00f5es que estavam soltas em livros, jornais e testemunhas da \u00e9poca para demonstrar que os jornais do grupo estavam infestados de policiais atuando como jornalistas nas reda\u00e7\u00f5es, ao menos 11, identificados pelos pesquisadores. O diretor da Folha da Tarde, no per\u00edodo, foi o jornalista Ant\u00f4nio Aggio J\u00fanior que era, ao mesmo tempo, funcion\u00e1rio da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica e, mais tarde, mas ainda no per\u00edodo repressivo, assessor de imprensa do delegado e ex-senador Romeu Tuma, bra\u00e7o direito de Fleury na \u00e1rea de informa\u00e7\u00e3o do DOPS. Quando deixou a Pol\u00edcia Civil para construir carreira e perfil novos na Pol\u00edcia Federal, Tuma era diretor do departamento. <\/p>\n<figure><figcaption><em>Delegado S\u00e9rgio Fleury teria atuado na seguran\u00e7a da Folha ao lado dos irm\u00e3os Quass<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo a pesquisa, Aggio tamb\u00e9m teria se utilizado de um carro de reportagem da Folha para camuflar a entrada de conspiradores num quartel \u00e0s v\u00e9speras do golpe de 1964. Rep\u00f3rter da Folha \u00e0 \u00e9poca, ele teria usado aparelho de telex da sucursal da Folha no Rio para passar mensagens cifradas como senha do levante do II Ex\u00e9rcito em S\u00e3o Paulo, seguindo instru\u00e7\u00f5es do coronel Ant\u00f4nio Lepiane, chefe do Estado Maior da 2\u00aa Companhia do Ex\u00e9rcito em S\u00e3o Paulo, que era seu padrinho e foi o comandante da OBAN quando esta foi criada, em 1969, no in\u00edcio do governo Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici.<\/p>\n<p>Aggio assumiu a dire\u00e7\u00e3o de reda\u00e7\u00e3o da Folha da Tarde em 1969 imprimindo uma mudan\u00e7a radical na linha editorial. Sa\u00edam de cena jornalistas progressistas, como Jorge Miranda Jord\u00e3o e o frade dominicano Carlos Alberto Lib\u00e2nio Christo, o Frei Beto, ao mesmo tempo em que a reda\u00e7\u00e3o contratava dois delegados, Carlos Ant\u00f4nio Guimar\u00e3es Sequeira, agente do DEOPS, e Ant\u00f4nio Bim, os investigadores Carlos Dias Torres e Horley Antonio Destro, e um major da PM paulista, Edson Corr\u00eaa, que chamava a aten\u00e7\u00e3o por circular pela reda\u00e7\u00e3o com uma pistola autom\u00e1tica \u00e0 mostra como se estivesse numa opera\u00e7\u00e3o de rua. <\/p>\n<p><!-- mostRead -->A linha do jornal, que antes cobria segmentos como o movimento estudantil, passou a ser de apoio irrestrito \u00e0 ditadura militar e \u00e0s for\u00e7as de repress\u00e3o. A combina\u00e7\u00e3o de comando e linha editorial levou o jornalista Claudio Abramo, ex-diretor da Folha, em seu livro de mem\u00f3rias, <em>A Regra do Jogo<\/em>, de 1988, a qualificar a Folha da Tarde como \u201co jornal mais s\u00f3rdido do pa\u00eds\u201d. Mais bem humorado, o jornalista Carlos Brickmann, que assumiu a reda\u00e7\u00e3o ao lado de Adilson Laranjeiras em substitui\u00e7\u00e3o ao grupo de Aggio, escreveu em tom de fina ironia que a grande conquista do novo comando foi ter conseguido \u201creduzir a tiragem do jornal\u201d, uma alus\u00e3o a express\u00e3o \u201ctiras\u201d, como eram chamados os policiais da \u00e9poca. Era tamb\u00e9m jocosamente qualificado como alus\u00e3o \u201co jornal de maior tiragem\u201d, como registraria Beatriz Kushnir em <em>C\u00e3es de Guarda<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre pol\u00edcia e jornalista n\u00e3o era, entretanto, exclusividade da Folha da Tarde. Outro peri\u00f3dico do grupo, o Not\u00edcias Populares, o sensacionalista NP, campe\u00e3o de vendas em banca no per\u00edodo, era dirigido por Jean Mell\u00e9, anticomunista de carteirinha e not\u00f3rio entusiasta das For\u00e7as Armadas. Waldemar Ferreira de Paula, assistente de Jean Mell\u00e9, era policial. Armando Gomide, que substituiu Mell\u00e9 depois da sua morte, em mar\u00e7o de 1970, era policial e ligado ao Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o (SNI). <\/p>\n<p>Sobre ele, segundo a pesquisa, pesava a suspeita dos pr\u00f3prios colegas de que \u201cnas horas vagas\u201d trabalhasse como agente secreto e informante dos militares. No Departamento de Interior, Correspondentes e Sucursais (Dics) do Grupo Folha o diretor era Paulo Nunes, que se dizia agente da PF. Na Ag\u00eancia Folha, que substituiu o Dics, o comando foi entregue em junho de 1972 a Luiz Carlos Rocha Pinto, delegado da Pol\u00edcia Civil paulista contratado como jornalista, tornando-se no per\u00edodo o principal interlocutor entre a empresa e a censura. Depois de dez anos na Ag\u00eancia Folhas (departamento cujo nome depois perderia o \u201cs\u201d), Rocha Pinto foi transferido para o departamento de circula\u00e7\u00e3o, desligando-se do jornal s\u00f3 em 1995. Em 2005, ou seja, dez anos depois, ele continuava recebendo o mesmo sal\u00e1rio, mas sem trabalhar. A pesquisa registra que a quem perguntava como conseguira tal privil\u00e9gio, a resposta era lac\u00f4nica: \u201csou her\u00f3i de guerra\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0A partir da retalia\u00e7\u00e3o da ALN, com sua inclus\u00e3o na lista de \u201cjusti\u00e7\u00e1veis\u201d, Frias mudou-se para o 6\u00ba andar do pr\u00e9dio que abrigava os jornais, na Alameda Bar\u00e3o de Limeira, Campos El\u00edseos, regi\u00e3o central da capital e, segundo vers\u00e3o difundida pela Folha, conforme a pesquisa, passaria a contar com prote\u00e7\u00e3o de dois delegados do DOPS, os irm\u00e3os Robert e Edward Quass. <\/p>\n<p>A pesquisa mostra, no entanto, que a rela\u00e7\u00e3o dos Quass com a Folha seria bem anterior \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dos carros pela ALN: Robert havia sido contratado em janeiro de 1961, antes, portanto de Frias comprar a empresa, mas n\u00e3o apenas como datil\u00f3grafo e recepcionista de notici\u00e1rios como informou o jornal. <\/p>\n<p>Num comunicado interno encontrado nos arquivos do DOPS, o respons\u00e1vel pelo setor de transporte da Folha relata o furto de um dos ve\u00edculos do grupo se referindo a Quass como auditor da empresa. Outros dois membros da fam\u00edlia, Joseph Quass e Joseph Quass Filho, respectivamente, auxiliar de auditoria e auxiliar de escrit\u00f3rio, ambos ligados diretamente \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da Folha, haviam sido contratados em 1971 e 1970. Ainda de acordo com a pesquisa, os delegados<em> <\/em>passariam a fazer a seguran\u00e7a da fam\u00edlia, cuidando, entre outras tarefas, da escolta dos dois filhos de Frias nas idas e voltas \u00e0 escola, Otavinho e o atual diretor do grupo, Lu\u00eds Frias. Contratado como chefe de seguran\u00e7a patrimonial da Folha, Edward passou a cuidar de todo o patrim\u00f4nio do grupo e tinha uma sala dentro do jornal.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Comunicado interno do jornal sobre o furto de um dos ve\u00edculos do grupo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A pesquisadora Ana Paula Goulart anota no relat\u00f3rio: \u201cA presen\u00e7a de tais indiv\u00edduos atesta uma problem\u00e1tica rela\u00e7\u00e3o de proximidade entre o Grupo Folha e agentes que cumpriam fun\u00e7\u00f5es significativas na engrenagem repressiva da ditadura. A amea\u00e7a a Octavio Frias de Oliveira poderia justificar uma aten\u00e7\u00e3o especial por parte da Secretaria de Seguran\u00e7a do Estado de S\u00e3o Paulo, mas n\u00e3o explicava a contrata\u00e7\u00e3o, com v\u00ednculo trabalhista e remunera\u00e7\u00e3o direta, de delegados do DEOPS para atuarem como funcion\u00e1rios da empresa jornal\u00edstica\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O nome de outro agente, Messias Ayrton Scatena, carcereiro do DEOPS e jornalista que come\u00e7ou no grupo pelo jornal \u00daltima Hora surgiria num rumoroso caso que tramitou no Superior Tribunal Militar (STM), em 1973. Acusado de vazar informa\u00e7\u00f5es sigilosas de opera\u00e7\u00f5es contra a subvers\u00e3o para sua namorada, a tamb\u00e9m jornalista do grupo Helena Miranda de Figueiredo, Scatena chegou a ser preso. Em seu depoimento ele afirmou que al\u00e9m de trabalhar no Grupo Folha, \u201cparticipava de servi\u00e7os de repress\u00e3o, combate a subvers\u00e3o e terrorismo\u201d, tendo atuado entre cinco a dez dilig\u00eancias no per\u00edodo de tr\u00eas anos em que exerceu o cargo na delegacia\u201d. O policial-jornalista dizia possuir, \u00e0quele momento, uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com Octavio Frias de Oliveira e os membros de sua fam\u00edlia, uma vez que ficou encarregado de trabalhar como seu motorista pessoal, al\u00e9m de atuar como seguran\u00e7a de seus filhos. Disse tamb\u00e9m que os diretores do jornal depositavam nele \u201cgrande confian\u00e7a\u201d, ao ponto de ter sido liberado da fun\u00e7\u00e3o de jornalista da empresa \u201cpara se dedicar integralmente \u00e0 seguran\u00e7a da fam\u00edlia [\u2026] sem preju\u00edzo dos vencimentos\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com o documento, a contrata\u00e7\u00e3o de Scatena foi recomendada pelo seu chefe, o delegado Edward Quass. \u00c9 nesse depoimento, nas p\u00e1ginas 130 e 131 da a\u00e7\u00e3o penal 829\/73 aberta pela justi\u00e7a militar, que ele cita o nome do delegado S\u00e9rgio Fleury, afirmando que ele tamb\u00e9m atuava na seguran\u00e7a da Folha ao lado dos irm\u00e3os Quass. O que se sabia era que Fleury tinha sido visto algumas vezes na Folha, mas a justificativa \u00e9 que era convidado de Aggio para algum evento festivo.<\/p>\n<p>A aten\u00e7\u00e3o de Frias aos militares ficaria clara tamb\u00e9m quando este, segundo a pesquisa, a pedido de um major de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do II Ex\u00e9rcito, que falava em nome do general Ernani Ayrosa da Silva, fundador da Oban, contratou como jornalista da Folha da Tarde um ex-militante da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), R\u00f4mulo Fontes, que durante os 18 meses em que permaneceu preso, entre 1979 e 1971, se tornou um dos arrependidos de participar da luta armada, prestando depoimentos contra a esquerda divulgados pela ditadura. Fontes conseguiu o emprego e depois confirmaria: \u201cEntrei para a Folha <em>manu militari<\/em>\u201d, conforme cita\u00e7\u00e3o no livro de Pilagallo.<\/p>\n<h3><strong>Licen\u00e7a na pris\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>A pesquisa aponta persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e viola\u00e7\u00e3o aos direitos trabalhistas contra jornalistas que trabalhavam no Grupo Folha e foram presos sob a acusa\u00e7\u00e3o de participarem de organiza\u00e7\u00f5es da luta armada. O caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 o da jornalista Rose Nogueira, que trabalhava como rep\u00f3rter da Folha da Tarde e, ao ser detida em casa no dia 4 de novembro de 1969, estava de licen\u00e7a maternidade 34 dias depois de um complicado parto em que deu \u00e0 luz seu primeiro filho. <\/p>\n<p>Ela s\u00f3 descobriria anos depois que a demiss\u00e3o por justa causa, escrita \u00e0 m\u00e3o em sua ficha funcional, tinha sido por \u201cabandono de emprego\u201d, uma justificativa duplamente falsa, conforme relataria na entrevista concedida em maio de 2022 aos pesquisadores da Unifesp. \u201cFoi uma das maiores dores da minha vida, ver que a Folha me deu abandono de emprego enquanto eu estava presa! Quem preso vai trabalhar no jornal? Quem, na licen\u00e7a maternidade vai? Eu estava com as duas coisas: licen\u00e7a maternidade e pris\u00e3o. Eu senti como uma puni\u00e7\u00e3o. A Folha me machucou muito. Eu j\u00e1 estava sendo punida. A Folha fica a duas quadras do DOPS. Algu\u00e9m poderia ter ido l\u00e1 saber se era verdade. Eles me ignoraram e publicaram o que a pol\u00edcia mandou\u201d, disse ela. <\/p>\n<p>A mat\u00e9ria da Folha da Tarde relacionava Rose e seu ex-marido, Lu\u00eds Roberto Clauset, como pessoas pr\u00f3ximas ao l\u00edder da ALN, Carlos Marighella, que havia sido executado pela pol\u00edcia no mesmo dia em S\u00e3o Paulo e, em ocasi\u00f5es anteriores, se refugiara na casa da jornalista. Ela n\u00e3o participava da luta armada, mas nunca negou que deu apoio log\u00edstico a Marighella. Ficou nove meses presa e, no final, acabou absolvida. Havia, no entanto, algo mais grave. \u201cA Folha falseou a data do nascimento do meu filho. Meu filho nasceu em 30 de setembro de 1969. A Folha escreve (no ato de demiss\u00e3o) que meu filho nasceu em 9 de agosto (\u2026) para me dar o abandono de emprego no come\u00e7o de dezembro\u201d, disse.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Reportagem do jornal associou Rose e seu ex-marido ao l\u00edder da ALN, Carlos Marighella<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em outros casos, como o de Jos\u00e9 Maria Domingues dos Santos, que tamb\u00e9m trabalhava na Folha da Tarde e era acusado de liga\u00e7\u00f5es com a ALN, preso tamb\u00e9m em 04 de novembro de 1969, o jornal igualmente \u201cantecipou\u201d a data da demiss\u00e3o para o dia anterior para descaracterizar o v\u00ednculo com a empresa. A mat\u00e9ria sobre a pris\u00e3o de Rose e Jos\u00e9 Maria informava no t\u00edtulo que \u201cContra a subvers\u00e3o, pol\u00edcia arma jogo de paci\u00eancia\u201d. A empresa sabia que as pris\u00f5es tinham motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ainda assim carimbou as demiss\u00f5es em suas fichas funcionais como \u201cabandono\u201d e \u201cdispensado\u201d, sem maiores explica\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>No per\u00edodo, em 05 de novembro, foi preso o fot\u00f3grafo Carlos Penafiel, que trabalhava na Folha da Tarde, o que n\u00e3o evitou o tratamento policialesco da not\u00edcia sobre sua deten\u00e7\u00e3o: \u201cTerror: pris\u00e3o preventiva para jornalista implicado\u201d, dizia o t\u00edtulo da mat\u00e9ria, que tamb\u00e9m citava Rose e Luis Roberto como integrantes da ALN pr\u00f3ximos a Marighella. Outros dois jornalistas da Ag\u00eancia Folha, S\u00e9rgio Gomes da Silva e Jos\u00e9 Vidal Pola Gal\u00e9, presos em outubro de 1975 por liga\u00e7\u00f5es com o PCB, tamb\u00e9m amargaram meses de pris\u00e3o, e tiveram seus nomes citados numa mat\u00e9ria de duas p\u00e1ginas de 23 de dezembro, com o t\u00edtulo \u201cDOPS arrasa bando do nazismo vermelho\u201d onde o jornal divulgava uma lista de \u201ccomunistas\u201d com idade, nome dos pais, data de nascimento, estado civil e endere\u00e7o residencial completo dos suspeitos. S\u00f3 que ignorava que trabalhavam no jornal ou no grupo.\u00a0<\/p>\n<p>Preso entre 05 de outubro de 1975 e 05 de abril de 1976, S\u00e9rgio seria demitido em janeiro tamb\u00e9m por abandono de emprego enquanto esteve encarcerado. Solto, tentou reaver o emprego, mas diz ter sofrido ass\u00e9dio moral do ent\u00e3o diretor da Ag\u00eancia, o delegado Luiz Carlos Rocha Pinto, e press\u00e3o do diretor do departamento pessoal do grupo, Ant\u00f4nio Pison, para que se demitisse. Os pesquisadores tamb\u00e9m apontam persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Folha na demiss\u00e3o de um grande n\u00famero de jornalistas que participaram da greve de maio de 1979 por melhores sal\u00e1rios. O SNI, que monitorou o movimento, informou que dos 128 demitidos de v\u00e1rios ve\u00edculos, 43 eram do Grupo Folha, enquanto o Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo sustentou que na verdade teriam sido 64.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Folha e o \u201cmilagre\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>A trajet\u00f3ria do grupo mostra, segundo os pesquisadores, que o apoio \u00e0 ditadura teria proporcionado expans\u00e3o e crescimento da Folha j\u00e1 no chamado milagre econ\u00f4mico, entre 1968 e 1973, per\u00edodo em que o jornal estaria mergulhado na mais intensa fase de colabora\u00e7\u00e3o com os militares. No final desse ciclo a Folha iniciava um t\u00edmido distanciamento para, em meados da d\u00e9cada 1980, sob o comando do filho do dono, Otavinho, implantar o Projeto Folha, marcado por mudan\u00e7as internas e uma guinada forte na linha editorial.<\/p>\n<p>Em 1984, o jornal engajou-se na linha de frente da campanha pelas Diretas-J\u00e1, estrat\u00e9gia que lhe rendeu o papel de protagonista e porta-voz dos anseios pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. N\u00e3o foi uma transi\u00e7\u00e3o sem ru\u00eddo: no dia 1\u00ba de setembro de 1977, um texto considerado ofensivo \u00e0 imagem de Duque de Caxias, publicado pelo colunista Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria for\u00e7ou Oct\u00e1vio Frias de Oliveira, pressionado pelo ent\u00e3o chefe da Casa Militar do governo, general Hugo Abreu, a pedir que seu ent\u00e3o diretor de reda\u00e7\u00e3o, o jornalista Cl\u00e1udio Abramo, se demitisse para serenar uma das poucas crises registradas at\u00e9 ent\u00e3o entre o jornal e a ditadura. <\/p>\n<p>O texto, \u201cHer\u00f3i. Morto. N\u00f3s.\u201d, comparava um sargento que morreu ao se jogar num po\u00e7o de ariranha para salvar um menino a uma est\u00e1tua de Duque de Caxias, na qual populares urinavam, o que foi considerado uma ofensa pun\u00edvel com a pris\u00e3o do jornalista e de fechamento do jornal caso a coluna continuasse sendo publicada em branco. Frias de Oliveira cedeu e, segundo anotam os pesquisadores, \u201cdecidiu afastar o chefe da reda\u00e7\u00e3o Cl\u00e1udio Abramo e tirar o seu pr\u00f3prio nome do cabe\u00e7alho do jornal\u201d. Abramo foi substitu\u00eddo por Boris Casoy, escolhido por seu bom tr\u00e2nsito na \u00e1rea militar \u00e0 \u00e9poca, conforme admite o pr\u00f3prio jornalista na entrevista aos pesquisadores.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Coluna \u201cHer\u00f3i.Morto.N\u00f3s\u201d de Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria (no canto direito da imagem)<\/em> <\/figcaption><\/figure>\n<p>O relat\u00f3rio da Unifesp destaca que o jornal chegou ao fim da ditadura com identidade reformulada, o que permitiu que se tornasse o ve\u00edculo impresso de maior circula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, alcan\u00e7ando um recorde de tiragem com mais de 1,5 milh\u00e3o de exemplares. \u201cN\u00e3o se trata apenas de uma hist\u00f3ria de sucesso empresarial. Seu crescimento esteve estrategicamente ligado aos interesses do regime\u201d, diz Ana Paula Goulart. Em 1974, entre o encerramento do governo M\u00e9dici e in\u00edcio do mandato de Geisel, Frias de Oliveira foi chamado pelo general Golbery do Couto e Silva, emin\u00eancia parda nos dois governos, para discutir o processo de distens\u00e3o e, \u00e9 claro, o crescimento da Folha diante de seu principal concorrente, o Estad\u00e3o, algo que interessava ao regime. <\/p>\n<p>Naquele momento o lucro l\u00edquido da Folha havia dobrado em rela\u00e7\u00e3o a 1973, e nos anos seguintes, at\u00e9 1977, triplicaria, saltando, em valores da \u00e9poca, de Cr$ 47.564.807 para Cr$ 210.844.987, conforme balan\u00e7os acessados pelos pesquisadores. Em valores atuais, pelo IGP-DI, o montante do lucro de 1977 equivale a mais de R$ 330 milh\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>O material sobre a Folha com documentos e testemunhos faz parte de um relat\u00f3rio enviado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e que pretende servir de base para a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o a v\u00edtimas da repress\u00e3o na ditadura militar. \u201cUm dos objetivos era reunir elementos, ind\u00edcios e provas para que o MP pudesse abrir a\u00e7\u00f5es judiciais, inqu\u00e9ritos ou procedimentos administrativos contra essas empresas\u201d, diz Edson Teles, coordenador do projeto pela Unifesp\/Caaf.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Resposta publicada pela Folha sobre a trajet\u00f3ria do grupo na ditadura no \u00faltimo domingo, 2 de julho<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Outro lado<\/strong><\/h3>\n<p>Procurado pela <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> no dia 23 de junho, o superintendente do Grupo Folha, Carlos Ponce de Leon n\u00e3o quis dar entrevista. Pediu, atrav\u00e9s de sua secret\u00e1ria, que as perguntas fossem enviadas. As respostas chegaram apenas na tarde de sexta, 30 de junho. Dois dias depois, a Folha publicou \u201cDocumento abordar\u00e1 trajet\u00f3ria do Grupo Folha na ditadura\u201d, em duas p\u00e1ginas do caderno \u201cIlustrada Ilustr\u00edssima\u201d do domingo, 2 de julho.\u00a0<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria da Folha antecipou a posi\u00e7\u00e3o do jornal em \u201cresposta\u201d a esta reportagem que ainda n\u00e3o havia sido publicada, procedimento estranho ao pr\u00f3prio manual da Folha e que n\u00e3o explica os questionamentos sobre os principais pontos da pesquisa da Unifesp abordados pela reportagem.<\/p>\n<p>Eis a \u00edntegra da nota do Grupo Folha encaminhada \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong>:\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cOs temas das perguntas enviadas, que versam sobre um per\u00edodo j\u00e1 distanciado no tempo, deram ensejo a indaga\u00e7\u00f5es parecidas no passado e hoje s\u00e3o objeto de uma investiga\u00e7\u00e3o de historiadores, sob os ausp\u00edcios do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, para a qual a Folha tem colaborado, franqueando aos pesquisadores amplo acesso \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o remanescente que esteja em seu poder. Foram tamb\u00e9m objeto de extensa apura\u00e7\u00e3o empregada pelo pr\u00f3prio jornal, cujos resultados t\u00eam sido publicados em suas p\u00e1ginas e em livros nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Embasado numa dessas apura\u00e7\u00f5es, por exemplo, o ent\u00e3o diretor de Reda\u00e7\u00e3o, Otavio Frias Filho, respondeu em 2018 ao blog do jornalista Fernando Morais sobre a acusa\u00e7\u00e3o de que carros do jornal teriam sido utilizados pelo aparato de repress\u00e3o da ditadura.<\/em><\/p>\n<p><em>Escreveu ent\u00e3o: \u201cEm 2011, solicitei que uma pesquisa exaustiva fosse realizada para esclarecer o epis\u00f3dio. Seus resultados constam do livro \u2018Folha Explica a Folha\u2019 (2012; p\u00e1gs. 49 a 61), da jornalista Ana Estela de Sousa Pinto.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o foram encontrados registros que comprovem essa utiliza\u00e7\u00e3o nem nos arquivos da ditadura, nem nos jornais clandestinos mantidos pela luta armada na \u00e9poca. A acusa\u00e7\u00e3o se baseia no depoimento de dois militantes presos que afirmaram ter visto ve\u00edculos do jornal no pr\u00e9dio do DOI-Codi (Vila Mariana, SP). Os atentados terroristas contra ve\u00edculos da Folha, praticados pelo grupo ALN, ocorreram quatro dias depois da morte pela repress\u00e3o do guerrilheiro Carlos Lamarca no interior da Bahia, sugerindo que o motivo do ataque foi a cobertura, bastante hostil, que a Folha da Tarde fez daquele fato.<\/em><\/p>\n<p><em>A Folha sempre afirmou que, se a cess\u00e3o de ve\u00edculos ocorreu, foi de forma epis\u00f3dica e sem conhecimento nem autoriza\u00e7\u00e3o de sua dire\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>A Folha manter\u00e1 a mesma disposi\u00e7\u00e3o de publicar tudo o que saiba sobre essa \u00e9poca.<\/em><\/p>\n<p><em>GRUPO FOLHA\u201d<\/em><\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-origem-do-dia-dos-namorados\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/triumph_of_galatea_detail_-_angels-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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