{"id":80853,"date":"2026-04-01T00:00:17","date_gmt":"2026-04-01T03:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-algoritimo-contra-a-resistencia-afro\/"},"modified":"2026-04-01T00:00:17","modified_gmt":"2026-04-01T03:00:17","slug":"o-algoritimo-contra-a-resistencia-afro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-algoritimo-contra-a-resistencia-afro\/","title":{"rendered":"O algor\u00edtimo contra a resist\u00eancia afro"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1440\" height=\"900\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/paul-gilroy-eivind-senneset.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/paul-gilroy-eivind-senneset.png 1440w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/30184624\/paul-gilroy-eivind-senneset-300x188.png 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/30184624\/paul-gilroy-eivind-senneset-768x480.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px\"><figcaption>Foto: Eivind Senneset<br \/><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Paul Gilroy (CBE, FBA) \u00e9 professor de Humanidades na University College London (UCL) e Diretor Fundador do <em>Sarah Parker Remond Centre for the Study of Racism and Racialisation<\/em>. Sua trajet\u00f3ria intelectual atravessa Yale, a LSE, Goldsmiths e o <em>Centre for Contemporary Cultural Studies<\/em> de Birmingham, consolidando-o como um dos cr\u00edticos culturais e te\u00f3ricos da di\u00e1spora de maior envergadura no pensamento contempor\u00e2neo. Em 2019, recebeu o Pr\u00eamio Holberg \u2014 a mais importante distin\u00e7\u00e3o internacional em humanidades, ci\u00eancias sociais, direito e teologia, concedida anualmente pela Universidade de Bergen, na Noruega. \u00c9 autor de <em>O Atl\u00e2ntico Negro: Modernidade e Dupla Consci\u00eancia<\/em> (1993), obra que acumula aproximadamente 48.000 cita\u00e7\u00f5es mundialmente e que, desde sua tradu\u00e7\u00e3o brasileira em 2001, tornou-se refer\u00eancia incontorn\u00e1vel nos debates sobre di\u00e1spora e contracultura da modernidade. Seu percurso inclui ainda <em>There Ain\u2019t No Black in the Union Jack<\/em> (1987), <em>Entre Campos<\/em> (<em>Against Race<\/em>, 2000) e <em>Depois do Imp\u00e9rio<\/em> (2004).<\/p>\n<p>Nesta interlocu\u00e7\u00e3o, Gilroy emite um diagn\u00f3stico que n\u00e3o poupa nem seus pr\u00f3prios conceitos: o \u201cAtl\u00e2ntico Negro\u201d terminou. A maquinaria algor\u00edtmica e a monetiza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o tornaram o comportamento humano previs\u00edvel pela primeira vez, dissolvendo a fluidez insurgente que o conceito procurava mapear. A perda da centralidade da m\u00fasica nas culturas diasp\u00f3ricas e o avan\u00e7o de um absolutismo \u00e9tnico complacente, sobretudo nas universidades do mundo superdesenvolvido, exigem para ele n\u00e3o uma atualiza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas uma ruptura \u2014 em dire\u00e7\u00e3o ao \u201chumanismo feito \u00e0 medida do mundo\u201d que Aim\u00e9 C\u00e9saire enunciou no rescaldo de 1945 e que permanece, segundo Gilroy, amplamente impensado.<\/p>\n<p>A entrevista ganha uma resson\u00e2ncia imprevista com o momento em que circula. Em 25 de mar\u00e7o de 2026 \u2014 cinco dias antes desta publica\u00e7\u00e3o \u2014, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 123 votos a favor, resolu\u00e7\u00e3o declarando o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade, exigindo dos estados-membros repara\u00e7\u00f5es formais, pedido de desculpas e medidas de restitui\u00e7\u00e3o. O Reino Unido absteve-se. \u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o ler essa absten\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do que Gilroy diz nesta entrevista sobre um pa\u00eds \u201cmergulhado nas patologias do dom\u00ednio\u201d e incapaz de aceitar \u201cas perdas e danos resultantes da longa fase do poder colonial e imperial\u201d. O que a resolu\u00e7\u00e3o da ONU tenta instituir em linguagem diplom\u00e1tica \u2014 o acerto de contas tardio com a hierarquia racial \u2014, Gilroy enuncia aqui como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de qualquer repara\u00e7\u00e3o real. A dist\u00e2ncia entre os dois registros diz, ela mesma, algo sobre o estado do mundo.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta-4-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta-4-1.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em 2026, \u00e0 medida que as fronteiras digitais e a vigil\u00e2ncia algor\u00edtmica reconfiguram cada vez mais o \u201cAtl\u00e2ntico Negro\u201d, como podemos preservar a natureza fluida e insurgente das culturas diasp\u00f3ricas contra a datifica\u00e7\u00e3o da identidade racial?<\/strong><\/p>\n<p>Tentei escrever um pouco sobre isso recentemente, mas nada foi traduzido para o portugu\u00eas. Suspeito que a inflex\u00e3o contempor\u00e2nea mais \u00fatil do Atl\u00e2ntico Negro seja hist\u00f3rica. Em outras palavras, ele acabou. O poder das m\u00eddias de linha do tempo, a monetiza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e a maquinaria algor\u00edtmica \u2014 que tornou o comportamento humano previs\u00edvel pela primeira vez \u2014 puseram fim a ele. Preocupo-me tamb\u00e9m com a perda da m\u00fasica em nossas culturas. As intera\u00e7\u00f5es em tempo real que se aglutinavam em torno do som organizado n\u00e3o est\u00e3o mais no centro das coisas como outrora. As pessoas ouvem m\u00fasica sozinhas, com fones de ouvido e em seus carros. O som corp\u00f3reo e grave do surdo \u00e9 aud\u00edvel com menos frequ\u00eancia. Portanto, talvez n\u00e3o possamos preservar essa fluidez e insurg\u00eancia? Talvez estejamos exigindo demais da arte e da m\u00fasica se lhes atribuirmos esta miss\u00e3o adicional?<\/p>\n<p><strong>Seu conceito de \u201cconvivialidade\u201d oferece uma alternativa radical \u00e0 atual era de polariza\u00e7\u00e3o; como o Sul Global pode promover esta \u00e9tica de coexist\u00eancia em um mundo onde o <em>lawfare<\/em> e a agress\u00e3o judicial est\u00e3o sendo usados para fragmentar a solidariedade social?<\/strong><\/p>\n<p>Uma nova agenda foi estabelecida pelo trabalho cr\u00edtico realizado no Sul Global, onde o fim da ordem colonial da Europa iniciou um novo tempo e novas possibilidades democr\u00e1ticas que ainda est\u00e3o sendo disputadas.<\/p>\n<p>Esse trabalho cr\u00edtico remoto n\u00e3o est\u00e1 sendo empreendido apenas em benef\u00edcio do Sul Global. Durante a \u00faltima d\u00e9cada, a Gr\u00e3-Bretanha \u2014 t\u00edpica dos pa\u00edses superdesenvolvidos \u2014 esteve mergulhada em conflitos pol\u00edticos precipitados pelo ressurgimento do fascismo e do ultranacionalismo, por mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas estupendas e pelas associa\u00e7\u00f5es cada vez mais estreitas com os Estados Unidos que se seguiram ao abandono divisivo da ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>A estagna\u00e7\u00e3o resultante desses processos profanos impacta destrutivamente a forma e a vibra\u00e7\u00e3o da l\u00edngua que falamos e escrevemos, bem como seu papel na pr\u00e1tica cultural org\u00e2nica de partilhar significados e de nos compreendermos. A crise que atinge nossas universidades e dizima as humanidades, em particular, aumenta esses problemas.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Na esfera da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, eles foram agravados pelo crescimento exponencial do analfabetismo funcional e pelo recuo da cultura impressa. O mundo superdesenvolvido necessita urgentemente dos frutos do trabalho que leitores e cr\u00edticos remotos est\u00e3o realizando sobre suas literaturas e culturas.<\/p>\n<p>Essas contribui\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias podem fortalecer a cultura da repara\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo lentamente montada. No caso da Gr\u00e3-Bretanha, isso pode permitir que nosso pa\u00eds se reintegre ao mundo livre das patologias do dom\u00ednio e mitigue os efeitos da desigualdade e da injusti\u00e7a aceleradas.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o pode at\u00e9 ajudar o Reino Unido a aceitar as perdas e danos resultantes da longa fase do poder colonial e imperial, bem como os novos problemas que surgem com o impacto crescente da espolia\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ela atingiu em meio a uma disseminada hemorragia de esperan\u00e7a e consolidou um niilismo onipresente que est\u00e1 emaranhado com a teoria racial voltada para as condi\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escalada da emerg\u00eancia clim\u00e1tica, como a escala \u201cplanet\u00e1ria\u201d da crise exige um novo arcabou\u00e7o decolonial que transcenda as no\u00e7\u00f5es tradicionais de justi\u00e7a ambiental centradas no Ocidente?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 medida que o s\u00e9culo XX, o s\u00e9culo da \u201clinha de cor\u201d, tomava forma, o pol\u00edmata panafricanista W.E.B. Du Bois articulou a hist\u00f3ria da resist\u00eancia anticolonial como uma proje\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria da democracia da qual qualquer vest\u00edgio da ordem racial deveria ser extirpado.<\/p>\n<p>Ele e seus interlocutores radicais situaram o humanismo antirracista transcendente no centro de uma perspectiva filos\u00f3fica que falava dos territ\u00f3rios circum-atl\u00e2nticos para o mundo inteiro.<\/p>\n<p>Seus projetos eram orientados pelo futuro e pelas necessidades das \u201cna\u00e7\u00f5es mais escuras\u201d, transmitidas por movimentos pol\u00edticos que eram frequentemente hostis tanto ao poder colonial quanto \u00e0s for\u00e7as nacionalistas que se opunham a ele. Essa forma distinta de repensar a humanidade, a \u00e9tica, a liberdade e o conhecimento sofreu muta\u00e7\u00f5es graduais. Hoje, ela permanece presente, mas \u00e9 residual e frequentemente descartada como sentimental e pouco sofisticada. Ela tem sido atacada por v\u00e1rios anti, p\u00f3s e trans-humanismos.<\/p>\n<p>O desprezo por ela emana em grande parte dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, uma sociedade de colonialismo de povoamento bem-sucedida onde a hierarquia racial \u00e9 rotineiramente considerada permanente e intrat\u00e1vel.<\/p>\n<p>A sof\u00edstica escol\u00e1stica e o niilismo acad\u00eamico intensificam o descarte do humanismo antirracista agon\u00edstico. Encontramos vers\u00f5es simplistas, por\u00e9m tenazes, da ideia de que a abordagem mais sofisticada do humanismo e de suas ambiguidades as compreende n\u00e3o como aporia, ou recursos potenciais para combater o capitalismo e a supremacia branca, mas como a causa prim\u00e1ria do racismo.<\/p>\n<p>Apelos por reconhecimento humano e direitos s\u00e3o, ent\u00e3o, descartados como del\u00edrios perigosos. Decepciona-me que a hostilidade paranoica a todos os tipos de humanismo tenha sido mais ruidosa atr\u00e1s dos muros dos campi. Universidades nos pa\u00edses superdesenvolvidos s\u00e3o vulner\u00e1veis ao conforto da moda do fatalismo e da docilidade, da resigna\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica e do absolutismo \u00e9tnico complacente. Enquanto isso, as sedu\u00e7\u00f5es neofascistas do ultranacionalismo ressurgente \u2014 com as quais elas guardam certa semelhan\u00e7a familiar \u2014 representam um perigo crescente.<\/p>\n<p>O que Aim\u00e9 C\u00e9saire descreveu no rescaldo da Segunda Guerra Mundial como um \u201chumanismo feito \u00e0 medida do mundo\u201d permanece amplamente impensado, n\u00e3o elaborado. O potencial transformador do seu impacto anticolonial planet\u00e1rio ainda est\u00e1 fermentando em lutas contra o extrativismo e o nomos racial: a consolida\u00e7\u00e3o espacial da lei, do poder e da soberania colonial.<\/p>\n<p>Uma reconfigura\u00e7\u00e3o do humanismo est\u00e1 pendente no movimento para vivificar os direitos humanos e estend\u00ea-los significativamente aos palestinos e outras v\u00edtimas da guerra genocida e maqu\u00ednica. Sua persist\u00eancia n\u00e3o apenas ilumina o novo arranjo intelectual e pol\u00edtico exigido pelos efeitos da espolia\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, como tamb\u00e9m pode ajudar a proteger as humanidades acad\u00eamicas do ataque que enfrentam em universidades de todo o mundo.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor avalia a atual \u201cviol\u00eancia epist\u00eamica\u201d contida no ressurgimento de pol\u00edticas nacionalistas e isolacionistas no Reino Unido e na Europa, e como isso impacta o interc\u00e2mbio intelectual com o Sul Global?<\/strong><\/p>\n<p>Essa viol\u00eancia \u00e9 \u201cepist\u00eamica\u201d? Eu diria que seu impacto prim\u00e1rio nada tem a ver com suas epistemologias impl\u00edcitas ou expl\u00edcitas. Sejamos diretos. Muito deste jarg\u00e3o in\u00fatil resulta da autoridade erroneamente investida no mundo da teoria dos Estados Unidos, que \u00e9 exportado para todos os outros pa\u00edses. Houve muito o que aprender com ele, mas nem sempre ressoa com as necessidades locais ou prioridades.<\/p>\n<p><strong>Num mundo definido pela \u201ceconomia da aten\u00e7\u00e3o\u201d e pelo espet\u00e1culo digital, como pode a tradi\u00e7\u00e3o da cultura expressiva negra \u2014 particularmente a m\u00fasica \u2014 permanecer um local de resist\u00eancia pol\u00edtica aut\u00eantica em vez de uma mera mercadoria para o consumo global?<\/strong><\/p>\n<p>Temos que lutar por e com os criadores de nossas culturas. Quero viver num mundo onde m\u00fasicos e artistas possam se sustentar com os frutos de sua criatividade. Temos que garantir que qualquer coisa produzida por \u201cIA\u201d n\u00e3o possa ser protegida por direitos autorais.<\/p>\n<p>Apenas seres humanos deveriam poder deter direitos autorais. Em nossa cidade, lutamos para manter espa\u00e7os de lazer onde a m\u00fasica possa viver sua vida rebelde \u201ctradicional\u201d sem o peso da criminaliza\u00e7\u00e3o e da vigil\u00e2ncia. Como disse acima, minha impress\u00e3o \u00e9 que a autoridade moral da m\u00fasica popular negra diminuiu.<\/p>\n<p>Alguns trabalhos combativos e empolgantes constru\u00edram novos p\u00fablicos e ligaram a m\u00fasica negra do Reino Unido \u00e0 vida cultural da \u00c1frica p\u00f3s e neocolonial. Isso demonstra que as vozes pol\u00edticas ainda s\u00e3o aud\u00edveis, assim como nos res\u00edduos do Hip Hop afro-americano, mas essas vozes tornaram-se abafadas.<\/p>\n<p>Artistas radicais mant\u00eam boas inten\u00e7\u00f5es, mas a maioria deles n\u00e3o aspira mais a uma cr\u00edtica filos\u00f3fica extensiva do mundo como ele se apresenta: de forma racializada. Eles est\u00e3o resignados com o mundo nessa configura\u00e7\u00e3o e querem faz\u00ea-lo funcionar para eles. As raz\u00f5es para essa mudan\u00e7a gradual s\u00e3o complexas.<\/p>\n<p>A m\u00fasica foi trazida plenamente para este mundo. Seu car\u00e1ter profano eclipsou seus elementos sagrados e seculares. Isso significa que ela raramente oferece vislumbres acolhedores de futuros alternativos ou fornece aos usu\u00e1rios meios de transcend\u00eancia. O que parece importar mais do que qualquer outra coisa \u00e9 triunfar, vencer e n\u00e3o ser um perdedor, aqui e agora.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que nem o fazer m\u00fasica em tempo real nem o uso de produtos musicais mercantilizados est\u00e3o t\u00e3o produtivamente alinhados com movimentos pol\u00edticos e lutas antirracistas como estavam h\u00e1 quarenta anos, quando as conex\u00f5es entre a est\u00e9tica insurgente e a pol\u00edtica do som podiam ser dadas como certas e entusiasticamente lidas como um estado permanente de coisas, em vez de uma associa\u00e7\u00e3o passageira e inteiramente contingente. Essas conex\u00f5es, em grande parte latentes, ainda podem ser rastreadas, inclusive atrav\u00e9s dos circuitos planet\u00e1rios expandidos do \u201c<em>soft power<\/em>\u201d e do \u201ccomplexo militar de entretenimento\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, onde elas sobrevivem, parecem vestigiais. Vers\u00f5es vern\u00e1culas do neoliberalismo est\u00e3o agora operantes, mesmo dentro das batalhas cont\u00ednuas sobre a hierarquia e a desigualdade racial.<\/p>\n<p>Elas especificam que a vontade dos indiv\u00edduos \u00e9 considerada decisiva, enquanto prioridades e argumentos econ\u00f4micos sempre superam asser\u00e7\u00f5es de outros tipos de valor. Todos sabemos que os aspectos auditivos da cultura pol\u00edtica foram, gradual mas firmemente, suplantados ou corrompidos pela domin\u00e2ncia de formas visuais espetaculares.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o transmitidas e mediadas atrav\u00e9s de tecnologias estupidificantes adaptadas \u00e0s telas, baseadas na elimina\u00e7\u00e3o de todas as fronteiras entre publicidade e entretenimento. O prazer visual excessivo atraiu muitos para a rede viciante do capitalismo de vigil\u00e2ncia, onde a m\u00fasica fornece acompanhamento para outras variedades inertes de \u201cconte\u00fado\u201d gen\u00e9rico.<\/p>\n<p>Essas mudan\u00e7as tamb\u00e9m afinam-se com uma sujei\u00e7\u00e3o neoliberal que projeta a liberdade essencialmente como uma quest\u00e3o econ\u00f4mica e reduz a autonomia negra aos v\u00e1rios problemas e processos de \u201cempoderamento\u201d pessoal e de grupo, todos calculados dentro da estrutura fornecida pela ordem pol\u00edtica e econ\u00f4mica existente.<\/p>\n<p><strong>Como pode o Sul Global alcan\u00e7ar a \u201csoberania narrativa\u201d hoje, garantindo que nossas hist\u00f3rias sejam contadas atrav\u00e9s de nossas pr\u00f3prias vozes, ignorando a media\u00e7\u00e3o tradicional das institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e culturais do Norte?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei a resposta para esta pergunta. Todos estamos sofrendo com uma mudan\u00e7a hist\u00f3rico-mundial nas conven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, legais e morais. O tipo de repara\u00e7\u00e3o que necessitamos s\u00f3 pode chegar atrav\u00e9s de um acerto de contas tardio com o dano resultante da hierarquia racial.<\/p>\n<p>Esse confronto n\u00e3o pode ser evitado. Um humanismo reencantado entregar\u00e1 suas capacidades metam\u00f3rficas apenas quando os m\u00faltiplos erros cometidos em nome da ordem racial tiverem sido repudiados. Com essa possibilidade como meu horizonte, prefiro, como voc\u00ea notou, promover a convivialidade, o habitar em comum sob um teto compartilhado e outras respostas cooperativas \u00e0s prova\u00e7\u00f5es da alteridade. Essas habilidades devem ser cultivadas prefigurativamente como um recurso \u00e9tico, uma orienta\u00e7\u00e3o de que minha amiga Ruthie Wilson Gilmore fala atrav\u00e9s de sua ideia de \u201cvida em ensaio\u201d, bem como uma t\u00e9cnica pol\u00edtica dirigida a uma democracia distante, multifacetada e ainda n\u00e3o existente, que repousar\u00e1 sobre as funda\u00e7\u00f5es do que Enrique Dussel chamou de \u201cpluriversalidade anal\u00f3gica\u201d.<\/p>\n<p>Esses resultados tornam-se diariamente menos prov\u00e1veis pelo anti-intelectualismo profundamente enraizado e pelo analfabetismo funcional proliferante, dois velhos inimigos que adquiriram novos f\u00f4legos de vida psicopol\u00edtica como partes da onipresente cultura da nega\u00e7\u00e3o que marca o div\u00f3rcio do capitalismo da democracia.<\/p>\n<p>Eles sustentam a mistifica\u00e7\u00e3o e o fatalismo que elevam a repulsa ao genoc\u00eddio e a preocupa\u00e7\u00e3o com os efeitos da crise clim\u00e1tica, igualmente, para fora do campo da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e os desviam para os terrenos conjugados da ansiedade e da in\u00e9rcia.<\/p>\n<p>Os fatalistas aceitam que n\u00e3o h\u00e1 nada que possa ser feito sobre os horrores em nosso futuro comum. Eles sentem-se ansiosos, mas nada fazem. Haver\u00e1 debate sobre a responsabilidade e a \u00e9tica de proceder com base no pior cen\u00e1rio e no princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o, mas devemos resistir \u00e0 sabedoria extravagante das estrat\u00e9gias que promovem a palia\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Essas respostas abandonam o dilema da democracia agon\u00edstica e tentam, em vez disso, fazer uma virtude privada e reconfortante da acomoda\u00e7\u00e3o e da resigna\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as fascistas que est\u00e3o afiando as garras para n\u00f3s.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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