{"id":80856,"date":"2026-04-01T00:00:24","date_gmt":"2026-04-01T03:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/data-centers-gulosos-e-beberroes\/"},"modified":"2026-04-01T00:00:24","modified_gmt":"2026-04-01T03:00:24","slug":"data-centers-gulosos-e-beberroes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/data-centers-gulosos-e-beberroes\/","title":{"rendered":"Data centers, gulosos e beberr\u00f5es"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1060\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/photo_5069047109029399490_w-2048x1448.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/30191902\/photo_5069047109029399490_w-1500x1060.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/30191902\/photo_5069047109029399490_w-300x212.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/30191902\/photo_5069047109029399490_w-768x543.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/30191902\/photo_5069047109029399490_w-1536x1086.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/photo_5069047109029399490_w-2048x1448.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cA IA precisa do seu corpo. A IA n\u00e3o consegue tocar na grama. Voc\u00ea consegue. Receba quando os agentes de IA precisarem de algu\u00e9m no mundo real\u201d<br \/>-slogan do site RentAHuman<\/p>\n<p>Quanta comida e quanta \u00e1gua ao dia voc\u00ea precisa para viver? Por mais que as respostas possam variar, dependendo de suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas pessoais, do ambiente em que est\u00e1 e das atividades que precisa fazer, pode-se dizer que h\u00e1 uma m\u00e9dia ponder\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pensando na comida como fonte de energia (uma simplifica\u00e7\u00e3o que destoa do que n\u00f3s agroecologistas acreditamos, mas que ajuda a dar uma ideia), daria para falar em cerca de 3 mil calorias. Para facilitar, vamos considerar que a m\u00e9dia necess\u00e1ria ao consumo humano di\u00e1rio de \u00e1gua, somente para se beber, seja em torno de 2 litros, valor muito disseminado em guias de orienta\u00e7\u00e3o nutricional.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta-4-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta-4-2.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Pronto. \u00c9 poss\u00edvel pactuarmos que, com essa disponibilidade garantida, voc\u00ea n\u00e3o vai morrer, certo? Mas o caso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil de solucionar, e h\u00e1 outras quest\u00f5es embutidas nessa pergunta inicial que ainda exigem respostas. Uma delas \u00e9: em nossa sociedade altamente urbanizada, industrializada e globalizada, o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer para que voc\u00ea tenha, diariamente, acesso \u00e0 essa comida que come e \u00e0 essa bebida que bebe?<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a porca torce o rabo! Se, como descrevemos acima, j\u00e1 h\u00e1 uma consider\u00e1vel varia\u00e7\u00e3o natural das necessidades de cada pessoa, as varia\u00e7\u00f5es relativas \u00e0s respostas desta \u00faltima pergunta s\u00e3o muito maiores. Para tentar quantificar esses valores, surgiram as \u201ccalculadoras\u201d das <u>pegadas ecol\u00f3gicas e h\u00eddricas de produtos<\/u>. Com base nelas, \u00e9 poss\u00edvel estipular aproximadamente quanto cada tipo de produto impacta o ambiente, ao ser consumido, e se esse padr\u00e3o de consumo \u00e9 ou n\u00e3o vi\u00e1vel a longo prazo.<\/p>\n<p>Os c\u00e1lculos tentam levar em conta todos os processos realizados para que uma pessoa tenha, por exemplo, um quilo de arroz em sua despensa ou uma lata de refrigerante em sua geladeira. S\u00e3o aproxima\u00e7\u00f5es que permitem ter uma consci\u00eancia maior sobre os impactos do nosso consumo alimentar no planeta, visando estimular uma sele\u00e7\u00e3o menos danosa do ponto de vista socioambiental.<\/p>\n<p>Eles podem ser estendidos a todas as necessidades humanas, como vestimenta, moradia, higiene, etc. Com base nessas informa\u00e7\u00f5es, podemos tra\u00e7ar m\u00e9dias entre diferentes popula\u00e7\u00f5es, perceber desigualdades, elaborar programas para promover mais equil\u00edbrio e planos para tentar n\u00e3o inviabilizar nosso futuro, caso esse consumo se mostre insustent\u00e1vel, o que \u00e9 cada vez mais constatado.<\/p>\n<h3><strong>Gulosos e beberr\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>E o que esses dados est\u00e3o dizendo \u00e9 que existe uma minoria populacional planet\u00e1ria que suga quantidades gigantescas de energia, mat\u00e9ria e \u00e1gua, enquanto uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial ainda n\u00e3o consegue obter nem o b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Para dar uma ideia desse abismo, <u>a Oxfam elaborou um relat\u00f3rio<\/u> que mostra que, nos primeiros 10 dias de 2026, o 1% mais rico do mundo j\u00e1 teria emitido todo o carbono que poderia emitir no ano (tomando como base o estabelecido pelo Acordo de Paris e a meta de n\u00e3o ultrapassar os 1,5 C\u00b0), se n\u00e3o se apossasse das cotas de emiss\u00e3o que s\u00e3o necess\u00e1rias \u00e0s outras pessoas para viver \u2013 ou entrasse nas reservas das futuras gera\u00e7\u00f5es. E traz um dado chocante: os 50 maiores bilion\u00e1rios emitem, em apenas uma hora e meia, mais carbono do que o emitido em toda a vida por algu\u00e9m que possui um n\u00edvel m\u00e9dio de consumo.<\/p>\n<p>Essa voracidade injustific\u00e1vel, decorrente de um cotidiano de luxo em que jatinhos e iates s\u00e3o itens colecion\u00e1veis, acentua a degrada\u00e7\u00e3o dos nossos ecossistemas, fonte de tudo o que precisamos para sustentar nossa sociedade. A organiza\u00e7\u00e3o estima, ainda, que as emiss\u00f5es oriundas dos h\u00e1bitos de consumo do 1% mais rico, entre 1990 e 2030, v\u00e3o causar preju\u00edzos econ\u00f4micos em torno de US$44 trilh\u00f5es. O significado desse valor exorbitante, em termos de impactos reais na vida da gente, \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para os nossos mais torturantes pesadelos.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Sendo assim, vale ou n\u00e3o vale descobrir quem s\u00e3o esses sanguessugas, para que possamos exigir mudan\u00e7as? Para surpresa de quem vive em outro planeta, vamos encontrar entre eles os magnatas das Big Techs. Das <u>10 maiores fortunas mapeadas este ano<\/u> pela Revista Forbes, 7 s\u00e3o de donos de empresas do setor. Multi bilion\u00e1rios que controlam Amazon, Meta, Spacex, Google e mais meia d\u00fazia de corpora\u00e7\u00f5es, com seus tent\u00e1culos espalhados pelos quatro cantos do mundo, det\u00eam mais poder do que governos de pa\u00edses, e mobilizam uma grana que est\u00e1 al\u00e9m da compreens\u00e3o da rapa de terr\u00e1queos. Grana que se destina a bolsos bem espec\u00edficos, diga-se n\u00e3o de passagem.<\/p>\n<p>E eis que, em meio a essa lamban\u00e7a, as gigantes tecnol\u00f3gicas nos presentearam com a multiplica\u00e7\u00e3o dos tais programas generativos de Intelig\u00eancia Artificial (conceito questionado por neurocientistas de peso, como <u>Miguel Nicolelis<\/u>). Note que, em ingl\u00eas, o termo usado \u00e9 Artificial Intelligence, o que gera a sigla AI. Para mim, uma sigla perfeita para expressar o que sinto em rela\u00e7\u00e3o ao que ela est\u00e1 se tornando: algo que nos machuca profundamente e faz com que eu me manifeste aqui como quem sente uma esp\u00e9cie de dor.<\/p>\n<p>Os motivos dessa apreens\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com as pegadas de consumo de recursos sobre as quais falamos. Mas n\u00e3o param por a\u00ed; ultrapassam a materialidade, atingem o que poder\u00edamos chamar de alma humana \u2013 nossa forma de apreender a realidade, senti-la, interpret\u00e1-la e agir dentro dela -, alterando o que conhecemos por capacidade cognitiva e influenciando drasticamente os relacionamentos sociais que mantemos.<\/p>\n<h3><strong>Big Water and Big Food para Big Techs<\/strong><\/h3>\n<p>Mas vamos \u00e0 esfera material primeiro: se os n\u00edveis de abuso energ\u00e9tico e h\u00eddrico por parte da humanidade j\u00e1 eram alarmantes (lembrando da imensa desigualdade entre setores da popula\u00e7\u00e3o), agora eles est\u00e3o crescendo aceleradamente com a multiplica\u00e7\u00e3o das IAs generativas, aquelas capazes de \u201ctomar\u201d decis\u00f5es sozinhas e \u201ccriar\u201d imagens, v\u00eddeos, m\u00fasicas e sabe-se l\u00e1 mais o que deus (ou o capeta) imaginar.<\/p>\n<p>Elas apenas passam uma ilus\u00e3o de serem algo imaterial, por agirem aparentemente para n\u00f3s no mundo virtual. S\u00f3 que, na realidade, s\u00e3o de uma voracidade assustadora de coisas bem reais e \u00e9 preciso olhar para sua \u201ccorporalidade\u201d. Para que elas sigam funcionando, \u00e9 necess\u00e1rio criar imensos edif\u00edcios capazes de abrigar os supercomputadores respons\u00e1veis por armazenar e processar \u2013 durante quase 24 horas e todos os dias do ano \u2013 volumes avassaladores de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Chamados de data centers ou centros de dados, cada um desses espa\u00e7os \u00e9 mantido atrav\u00e9s do consumo de uma quantidade de energia que pode <u>equivaler ao de v\u00e1rias cidades<\/u>. E, muitas vezes, podem usar quantias tamb\u00e9m monumentais de \u00e1gua, algo necess\u00e1rio para resfriar os seus equipamentos, j\u00e1 que geram muito calor ao funcionarem quase ininterruptamente. S\u00e3o verdadeiros monstros insaci\u00e1veis, cuja fome e sede tendem a aumentar exponencialmente com o aumento do uso das IAs generativas ao redor do planeta.<\/p>\n<p>Uma dessas mega centrais de dados do Google consumiu \u2013 sozinha e em apenas um ano de funcionamento (o ano de 2024) \u2013 <u>3,8 bilh\u00f5es de litros de \u00e1gua<\/u>! E a previs\u00e3o \u00e9 de que, at\u00e9 2028, ou seja, daqui a dois anos, os data centers dos EUA somados quadrupliquem seu consumo, avaliado em mais de 60 bilh\u00f5es de litros (dados de 2023), somente para resfriamento. Atualmente, cada monstro desses pode consumir mais do que 25% do total destinado ao abastecimento de sua localidade. E preste aten\u00e7\u00e3o: estamos falando de \u00e1gua pot\u00e1vel, o que anda faltando cada vez mais no mundo.<\/p>\n<p>Para ter uma ideia da dimens\u00e3o desse volume, observe que a m\u00e9dia de consumo anual de algu\u00e9m que mora no Brasil \u00e9 de cerca de 44 mil litros de \u00e1gua, sendo que 33 milh\u00f5es n\u00e3o t\u00eam acesso regular a ela. A situa\u00e7\u00e3o em locais do planeta menos abastecidos \u00e9 ainda mais dram\u00e1tica, com estimativa de que 2 bilh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, sendo que, ao menos durante um m\u00eas por ano, <u>metade da popula\u00e7\u00e3o mundial<\/u> vivencia a escassez severa. A desertifica\u00e7\u00e3o avan\u00e7a e o cultivo de v\u00e1rios tipos de alimento j\u00e1 sofre os impactos da transforma\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e ambiental, colocando em cheque nossa Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional.<\/p>\n<p>Dentro de um cen\u00e1rio de colapso do clima, que estamos vivenciando h\u00e1 alguns anos, a chegada de novos e monstruosos sugadores de \u00e1gua certamente j\u00e1 seria motivo de alerta. Mas, neste in\u00edcio de 2026, a ONU decretou que entramos em um est\u00e1gio de <u>fal\u00eancia h\u00eddrica mundial<\/u>, o que implica em uma condi\u00e7\u00e3o permanente de escassez, derivada do desbalan\u00e7o agudo entre o que retiramos e o que a natureza consegue repor. Com mais esse baque, \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 para sentirmos uma pontada dolorida no peito, ao constatar o quanto agentes de IA est\u00e3o tomando (nos dois sentidos da palavra) nossas \u00e1guas?<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo antes dos data centers iniciarem essa bebedeira intermin\u00e1vel, eles j\u00e1 causam impactos materiais pungentes na sociedade, pois essas m\u00e1quinas vorazes s\u00e3o feitas de elementos extra\u00eddos da natureza, sendo muitos deles constitu\u00eddos de minerais de dif\u00edcil obten\u00e7\u00e3o. Pa\u00edses do sul global, onde a regula\u00e7\u00e3o e a fiscaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais fr\u00e1geis, sempre foram alvos certeiros de empresas exploradoras, muitas delas transnacionais.<\/p>\n<p>Como denunciam as comunidades atingidas e os movimentos ativistas espalhados pelo territ\u00f3rio brasileiro, as cadeias da minera\u00e7\u00e3o hidro-intensiva drenam nossas \u00e1guas, poluem o ambiente, contaminam as pessoas, destroem ecossistemas e descumprem frequentemente o que determinam as leis, entre elas a Pol\u00edtica Nacional de Recursos H\u00eddricos.<\/p>\n<p>Como exemplo de produtos extra\u00eddos por essas cadeias, podemos mencionar os minerais cr\u00edticos, sem os quais n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel produzir as traquitanas ultra tecnol\u00f3gicas que comp\u00f5em celulares, placas solares, carros el\u00e9tricos, turbinas e\u00f3licas etc. O debate \u00e9 urgente, j\u00e1 que a press\u00e3o para explor\u00e1-los, por parte do atual <u>governo dos EUA<\/u> e seus conglomerados tecnol\u00f3gicos, \u00e1vidos por devorar suas reservas, vem aumentando. A atitude estapaf\u00fardia do governo de Goi\u00e1s, ao fazer um acordo com os gringos para a explora\u00e7\u00e3o das reservas do estado e desconsiderar que esta \u00e9 uma prerrogativa federal, revela a urg\u00eancia de encarar a quest\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Devoradores de entranhas<\/strong><\/h3>\n<p>O verbo devorar n\u00e3o \u00e9 usado de forma gratuita quando falamos do uso de materiais necess\u00e1rios para produzir GPUs, as Unidades de Processamento Gr\u00e1fico que as Big Techs utilizam para nos oferecer seus servi\u00e7os. Eles s\u00e3o microprocessadores que realizam simultaneamente milh\u00f5es de c\u00e1lculos matem\u00e1ticos e constituem a base para o treino e a execu\u00e7\u00e3o dos modelos de IA.<\/p>\n<p>Os chips dessas engenhocas precisam ser trocados frequentemente, conforme perdem desempenho frente ao avan\u00e7o tecnol\u00f3gico. Da\u00ed a voracidade de governos e corpora\u00e7\u00f5es para abocanhar reservas de minerais cr\u00edticos, lan\u00e7ando-se em uma corrida fren\u00e9tica pela disputa do protagonismo no desenvolvimento de modelos mais e mais \u201cinteligentes\u201d, como se cada minuto e cada mil\u00edmetro desse percurso fossem imprescind\u00edveis para a defini\u00e7\u00e3o do futuro humano. E aqui estamos falando, para variar, do futuro do poder e do dinheiro, s\u00f3 o que importa para essa turma.<\/p>\n<p>No artigo \u201cDas terras raras \u00e0s terras \u00e1ridas\u201d, publicado no <u>Outras Palavras<\/u> e no <u>GGN<\/u>, procurei expor o dilema de explorar ou n\u00e3o as reservas nacionais desses minerais, j\u00e1 que uma parte delas est\u00e1 em territ\u00f3rios em que a vida ainda \u00e9 f\u00e9rtil, e que essa fertilidade seria seriamente comprometida, j\u00e1 que os m\u00e9todos normalmente usados agridem o ambiente. Fertilidade que \u00e9, ela sim, cada vez mais rara, como mostra o avan\u00e7o brutal da degrada\u00e7\u00e3o do solo, principalmente nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1frica, alvos de um colonialismo explorat\u00f3rio sem fim.<\/p>\n<p>Mesmo que essa explora\u00e7\u00e3o fosse feita de modo considerado ambientalmente seguro (o que seria quase um milagre), \u00e9 imposs\u00edvel que ela n\u00e3o gere impactos danosos na vida de comunidades tradicionais locais, algumas delas formadas por ind\u00edgenas isolados. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que ela escancare as portas para a entrada da dita \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d (no que esta tem de pior) em regi\u00f5es que precisam ser protegidas e que j\u00e1 sofrem press\u00f5es por parte do Agroneg\u00f3cio e de corpora\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>E nem precisamos nos restringir \u00e0s terras raras ou a minerais de nome esquisito, quando falamos da gula do setor tecnol\u00f3gico que est\u00e1 envolvido com a Intelig\u00eancia Artificial. O nosso bom e velho cobre, presente nos fios que conduzem a energia el\u00e9trica at\u00e9 nossas casas, tem sofrido um ass\u00e9dio jamais visto. Por ser fundamental nessa ind\u00fastria, ele teve sua extra\u00e7\u00e3o turbinada e pode chegar ao pico produtivo bem antes do que era imaginado. Um <u>relat\u00f3rio feito pela S&amp;P Global Energy<\/u> estima que, at\u00e9 2040, teremos um d\u00e9ficit de 10 milh\u00f5es de toneladas m\u00e9tricas no setor, mesmo com o aumento da reciclagem de sua sucata.<\/p>\n<p>O vice-presidente para assuntos geopol\u00edticos da empresa autora do levantamento declarou: \u201cO cobre \u00e9 a art\u00e9ria que conecta m\u00e1quinas f\u00edsicas, intelig\u00eancia digital, mobilidade, infraestrutura, comunica\u00e7\u00e3o e sistemas de seguran\u00e7a\u201d. Trata-se de algo bem s\u00f3lido para um setor que diz que opera atrav\u00e9s da tal nuvem, n\u00e3o \u00e9? E ele continua: \u201ca disponibilidade futura de cobre tornou-se uma quest\u00e3o de import\u00e2ncia estrat\u00e9gica.\u201d Ele quer dizer que vir\u00e1 mais press\u00e3o sobre os territ\u00f3rios ricos no elemento, como o Chile e o Peru. E consequentemente, teremos mais impactos sociais e ambientais.<\/p>\n<p>Devorar mais ainda nossas montanhas e nossos subsolos, impactando \u00e1reas biodiversas, para abastecer a demanda por estruturas insaci\u00e1veis, como os data centers monumentais que sustentam os agentes de IA, pode ser um tiro no cora\u00e7\u00e3o de nossos biomas, j\u00e1 em estado de agonia. E vale lembrar que, sem a floresta amaz\u00f4nica e o cerrado suficientemente preservados, o ciclo da \u00e1gua no territ\u00f3rio brasileiro, j\u00e1 t\u00e3o fragilizado, entra em colapso. Em tempos de fal\u00eancia h\u00eddrica, \u00e9 tudo o que n\u00e3o precisamos.<\/p>\n<p>Refor\u00e7o que estamos falando de \u00e1gua e de materiais reais, formados no ventre da terra em bilh\u00f5es de anos, sendo extra\u00eddos para alimentar a rede crescente de agentes virtuais que est\u00e1 substituindo os seres humanos, dotados de carne, osso e intelig\u00eancia real (este \u00faltimo item pode ser algo discut\u00edvel, quando se trata dos tecno-sociopatas que nos dominam pol\u00edtica e financeiramente) em fun\u00e7\u00f5es cada vez mais diversificadas e complexas.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que data centers que mant\u00e9m a internet e as redes sociais j\u00e1 povoam e sobrecarregam o mundo e o pa\u00eds h\u00e1 d\u00e9cadas, mas os novos data centers, sustentadores da massa de programas de IA generativa que nos inundou nos \u00faltimos tempos, s\u00e3o muito mais vorazes. E n\u00e3o apenas de mat\u00e9ria, mas principalmente de energia.<\/p>\n<h3><strong>E d\u00e1-lhe energ\u00e9ticos<\/strong><\/h3>\n<p>Sabe aquelas pessoas que encaram grandes maratonas, correndo por dist\u00e2ncias que ligam cidades, e precisam repor intensamente as calorias gastas? Os computadores agigantados que sustentam a IA est\u00e3o em estado de ultra consumo energ\u00e9tico o tempo todo. E, diferentemente de esportistas humanos, suas corridas n\u00e3o t\u00eam um ponto fixo de descanso ou de chegada, o que n\u00e3o permite estabelecer um teto para seus gastos de energia.<\/p>\n<p>De fato, eles poderiam aumentar seu consumo indefinidamente, se n\u00e3o estivessem em um planeta j\u00e1 sufocado pela demanda de energia imposta por uma minoria populacional que pensa com o bolso \u2013 e que, h\u00e1 muitas d\u00e9cadas, deglute sem modera\u00e7\u00e3o todos os combust\u00edveis f\u00f3sseis, como petr\u00f3leo e g\u00e1s natural, que conseguem abocanhar, para viabilizar atividades que geram seu enriquecimento pessoal.<\/p>\n<p>Por falar em combust\u00edveis n\u00e3o renov\u00e1veis, eles seguem sendo a base energ\u00e9tica das Big Techs. Apesar do discurso para boi dormir sobre economia verde, os planos delas mostram que o g\u00e1s natural ainda ser\u00e1, nos pr\u00f3ximos tempos, a fonte de cerca de 75% da energia usada nos centros de dados dos EUA, como mostra um <u>levantamento recentemente feito pela CleanView<\/u>. Segundo o relat\u00f3rio, essas empresas preveem que as renov\u00e1veis s\u00f3 v\u00e3o se massificar depois de 2028. E de previs\u00f5es feitas por corpora\u00e7\u00f5es o inferno est\u00e1 cheio.<\/p>\n<p>Um exemplo disso \u00e9 um complexo de data centers da xAI, instalado na regi\u00e3o que liga o Tennessee ao Mississipi, e batizado com o nome nada criativo de Colossus por supostamente abrigar o \u201cmaior supercomputador de IA do mundo\u201d. Uma parte do complexo, localizada em Southaven, tem usado turbinas a g\u00e1s sem licen\u00e7a da Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do pa\u00eds. Nada surpreendente vindo de algu\u00e9m que se acha acima da lei, como Elon Musk.<\/p>\n<p>Mesmo se olharmos para outra ala do complexo, que n\u00e3o estaria, como \u00e9 o caso da ala movida a g\u00e1s, envolvida no envenenamento do ar e na intoxica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o (\u201ccoincidentemente\u201d, de maioria negra), tamb\u00e9m n\u00e3o encontraremos refresco. Ela \u00e9 movida a vento e, seja dia ou seja noite, inferniza os e as habitantes com seu barulho \u2013 o que gera problemas de sono, de sa\u00fade mental e de audi\u00e7\u00e3o (algo que se repete ao redor do planeta em outras comunidades vizinhas de \u201cfazendas monocultoras de vento\u201d e passou a ser chamado de <u>s\u00edndrome da turbina e\u00f3lica<\/u>). E toda essa perturba\u00e7\u00e3o \u00e9 feita no local para dar de mamar ao Grok, o chatbot da xAI.<\/p>\n<p>Voltando aqui para o nosso Brasil, segundo o <u>Data Center Map<\/u> , j\u00e1 existem mais de 200 centros de dados voltados \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o da internet e das redes sociais, embora n\u00e3o existam dados oficiais que confirmem esse n\u00famero. E sabemos da exist\u00eancia de projetos para implanta\u00e7\u00e3o de novos e mais potentes desses centros, destinados a atender \u00e0s demandas de IA, em meio \u00e0 chuva de benef\u00edcios fiscais oferecidos pelo governo. Isso significa que exigir\u00e3o mais espa\u00e7o a ser ocupado e maior consumo de recursos materiais e energ\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Lugares como Eldorado do Sul (RS), Maring\u00e1 (PR) e Uberl\u00e2ndia (MG) <u>j\u00e1 t\u00eam planos<\/u> em andamento, sempre acompanhados de falsas promessas e controv\u00e9rsias legais. Se n\u00e3o houver uma for\u00e7a social que contrabalance o lobby das Big Techs, os pr\u00f3ximos centros dedicados \u00e0s IAs devem brotar aos montes, j\u00e1 que o pr\u00f3prio ministro da economia, Dario Durigan, foi \u201chead\u201d de pol\u00edticas p\u00fablicas da Meta no Brasil, antes de integrar a equipe de Haddad no atual minist\u00e9rio. E quanto maior a proximidade com lobistas, mais e mais desses centros poder\u00e3o atormentar povoados \u2013 e mais abacaxis cascudos a rede de ativistas em defesa da soberania ter\u00e1 que descascar.<\/p>\n<p>Podemos dar uma espiada no processo de implanta\u00e7\u00e3o de um mega data center do TikTok em Caucaia, no Cear\u00e1. Ele prev\u00ea um investimento de 200 bilh\u00f5es de reais, dever\u00e1 ocupar um terreno de 700.000 m\u00b2, e se vende como ecol\u00f3gico por anunciar o uso majorit\u00e1rio de energia e\u00f3lica. Mas j\u00e1 est\u00e1 sendo acusado, como os citados acima, de burlar as exig\u00eancias na obten\u00e7\u00e3o do licenciamento ambiental e assobiar quanto ao <u>consumo massivo de energia e de \u00e1gua<\/u>, em um local marcado por inseguran\u00e7a h\u00eddrica. Caso a obra se livre das pend\u00eancias e vingue mesmo, tome videozinho fake feito por TikTokers inundando o c\u00e9rebro do povo!<\/p>\n<p>Sobre os impactos de parques e\u00f3licos e solares no pa\u00eds, capturados por especuladores financeiros, recomendo o artigo <u>A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d nas m\u00e3os dos rentistas<\/u>, publicado no Outras Palavras. Expuls\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es locais, aumento de tarifas, destrui\u00e7\u00e3o da natureza e piora no fornecimento s\u00e3o alguns dos presentes recebidos dos capitalistas verdes. O mesmo ocorre quando se trata de fazendas de energia solar. \u00c9 hora de quem cr\u00ea que a tecnologia resolver\u00e1 os problemas que ela mesma criou dar uma bambeada em sua f\u00e9.<\/p>\n<h3><strong>Emburrecimento em massa<\/strong><\/h3>\n<p>E sabemos que tecnocrentes n\u00e3o faltam! A expectativa de que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico nos brinde com um mecanismo que realmente funciona como a intelig\u00eancia humana tem nutrido um mercado que movimenta somas financeiras inintelig\u00edveis e que parecem infinitas para quem vive com um sal\u00e1rio que, antes mesmo de acabar o m\u00eas, se mostra bem finito.<\/p>\n<p>Como exposto por analistas econ\u00f4micos, h\u00e1 o risco do <u>estouro de uma bolha<\/u>, j\u00e1 que as Big Techs criaram um c\u00edrculo vicioso de investimentos entre si, respons\u00e1vel por sustentar as bolsas em n\u00edveis pra l\u00e1 de inflados. Al\u00e9m disso, segundo dizem os neurocientistas, as m\u00e1quinas, por mais desenvolvidas que possam ser, jamais v\u00e3o adquirir as capacidades inerentes aos seres vivos, incluindo os seres humanos.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 ocorrendo, e j\u00e1 conta com um conjunto s\u00f3lido de evid\u00eancias, \u00e9 que n\u00f3s, pessoas reais e vivas, estamos sofrendo modifica\u00e7\u00f5es no modo como nos relacionamos em sociedade e com o ambiente. E essas mudan\u00e7as est\u00e3o diretamente vinculadas \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o do uso de redes virtuais e, mais recentemente, de agentes de IA \u2013 os tais chatbots, como o chatGPT.<\/p>\n<p>Desde o final de 2022, quando ele foi lan\u00e7ado, transforma\u00e7\u00f5es sens\u00edveis v\u00eam ocorrendo e sendo observadas, inclusive em nossas mentes. Tanto que j\u00e1 se considera a hip\u00f3tese de existir a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o declarada, por parte das Big Techs, de querer aproximar a \u201cintelig\u00eancia\u201d artificial da intelig\u00eancia humana, algo sabidamente inimit\u00e1vel, promovendo o rebaixamento desta \u00faltima. De fato, do ponto de vista delas, nos emburrecer pode ser uma \u00f3tima t\u00e1tica para nos manipular ainda mais, aprofundando nossa depend\u00eancia de seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Um exemplo de altera\u00e7\u00e3o cognitiva pode ser encontrado no setor da aprendizagem. O planejamento das aulas e a realiza\u00e7\u00e3o de tarefas propostas pelos cursos passaram a ser feitas, cada vez mais, atrav\u00e9s de instru\u00e7\u00f5es a agentes artificiais. Os efeitos da terceiriza\u00e7\u00e3o desses trabalhos para as tais m\u00e1quinas \u201cpensantes\u201d j\u00e1 est\u00e3o se mostrando desastrosos.<\/p>\n<p>Uma <u>pesquisa feita pelo Massachusetts Institute of Technology<\/u> (MIT) trouxe um alerta sobre redu\u00e7\u00e3o da atividade cerebral e enfraquecimento da mem\u00f3ria. Um grupo de estudantes, instru\u00eddo a usar IA para \u201cescrever\u201d um determinado texto, n\u00e3o lembrava mais nada do que estava escrito momentos depois de sua reda\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio de quem redigiu sem uso de chatbots. Podemos imaginar o grau de comprometimento do processo de aprendizagem, se a capacidade de buscar, analisar e memorizar conte\u00fados \u00e9 dissolvida em meio ao automatismo de mandar um chatbot fazer todo o trabalho.<\/p>\n<p>Subindo no n\u00edvel acad\u00eamico, uma onda crescente de artigos redigidos atrav\u00e9s do uso de IA est\u00e1 inundando o setor cient\u00edfico com <u>textos de baixa qualidade<\/u>, repetitivos e repletos de falhas, j\u00e1 que esses programas costumam ter alucina\u00e7\u00f5es, ou seja, passam a responder com informa\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias e inver\u00eddicas quando n\u00e3o encontram as respostas corretas. A sobrecarga para analisar esse material tende a abrir lacunas na sele\u00e7\u00e3o do que realmente tem pertin\u00eancia. \u00c9 uma porrada de impacto ainda n\u00e3o dimensionado em nossa trajet\u00f3ria de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por mera curiosidade que foi criada uma <u>Biblioteca de Danos em IA<\/u>. Ela re\u00fane \u201ccasos concretos de impactos negativos causados por sistemas de intelig\u00eancia artificial\u2026 (relacionados a) direitos fundamentais, trabalho, meio ambiente, democracia, seguran\u00e7a p\u00fablica, crian\u00e7as e adolescentes ou direitos autorais\u201d. Parte do princ\u00edpio de que \u201cos riscos da IA j\u00e1 se materializam hoje, deixando de ser hip\u00f3teses futuras e tornando-se problemas reais que exigem respostas regulat\u00f3rias\u201d. Um de seus objetivos \u00e9 subsidiar o debate relativo ao <u>PL 2338\/2023<\/u>, que tramita no congresso, em meio a um cabo de guerra entre corpora\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es sociais de dentro e de fora do pa\u00eds.<\/p>\n<h3><strong>Doses generosas de cinismo<\/strong><\/h3>\n<p>Retomando a reflex\u00e3o do in\u00edcio deste artigo, referente \u00e0s necessidades materiais para a exist\u00eancia de um ser humano, vale trazer aqui a <u>p\u00e9rola cuspida por Sam Altman<\/u>, CEO da OpenAI. Segundo ele, as cr\u00edticas ao gasto monumental de recursos, que agentes de IA exigem para serem desenvolvidos, treinados e usados, desconsideram o quanto se gasta para \u201cproduzir\u201d (express\u00e3o minha, mas que foi o que ele quis dizer) um\/a profissional de carne, osso e c\u00e9rebro para fazer o trabalho que eles poderiam fazer.<\/p>\n<p>Nem vamos perder tempo esmiu\u00e7ando o quanto ele demonstra considerar as pessoas somente coisas a serem usadas, n\u00e3o muito diferentes das engenhocas eletr\u00f4nicas que sua empresa manipula. Sabemos que n\u00e3o somos redut\u00edveis \u00e0 nossa capacidade produtiva e nem podemos ser tratados\/as como simples produtos nos quais se faz investimentos (embora seja exatamente isso que as Big Techs querem que sejamos). Vamos apenas relembrar certas obviedades.<\/p>\n<p>Tendo as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para viver e respeitando limites pessoais, os seres humanos podem fazer tarefas das mais simples \u00e0s mais complexas sem ter que aumentar muito o consumo de recursos para manter seu metabolismo. Ou seja, se eu estiver bem nutrida e hidratada, com sa\u00fade f\u00edsica e psicoemocional, posso lavar um prato, 5 pratos ou 10 pratos, sem ingerir alimentos ou \u00e1gua a mais para isso. Tamb\u00e9m posso escrever um artigo com 100, 500 ou mil palavras e meu consumo metab\u00f3lico di\u00e1rio n\u00e3o sofrer\u00e1 altera\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis. J\u00e1 a m\u00e1quina\u2026<\/p>\n<p>Cada palavra da resposta de um chatbot implica em um gasto extra de energia. Assim, ter\u00edamos que lidar com a chegada de uma multid\u00e3o crescente de rob\u00f4s, sendo que cada um deles consome mais e mais conforme executa as tarefas que delegamos a ele, n\u00e3o tendo um teto como limite \u2013 algo que n\u00e3o ocorre com seres humanos, quando pensamos em termos da alimenta\u00e7\u00e3o e da hidrata\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias para que algu\u00e9m viva e trabalhe. Como j\u00e1 tem muita gente de verdade sem acesso \u00e0 \u00e1gua e comida, sabemos onde a fome e a sede v\u00e3o pegar ainda mais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ao substituirmos pessoas de verdade por agentes de IA, as pessoas que foram substitu\u00eddas v\u00e3o ter que seguir (e t\u00eam todo o direito a isso) comendo e bebendo, independentemente de realizarem trabalho considerado produtivo pelo mundo corporativo. Ent\u00e3o, de todo modo, ter\u00edamos que manter seu abastecimento \u2013 lembrando que a popula\u00e7\u00e3o humana ainda est\u00e1 crescendo, o que ampliar\u00e1 as quantidades envolvidas nessa miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o que j\u00e1 pareceria um arranjo surreal, com \u201cintelig\u00eancias\u201d artificiais bebendo a \u00e1gua que deveria ser bebida por pessoas de verdade (ap\u00f3s tomarem seus empregos), ainda pode ganhar mais camadas de sandice. \u00c9 que, al\u00e9m de ser dispensada de seu trabalho porque se tornou obsoleta em tarefas \u201cpensantes\u201d, uma pessoa pode ser alugada por um agente de IA para fazer tarefas que exigem um corpo real. Esse mercado j\u00e1 est\u00e1 se formando, como podemos ver com a cria\u00e7\u00e3o da plataforma <u>RentAHuman.ai<\/u> \u2013 e h\u00e1 casos bizarros.<\/p>\n<p>O que voc\u00ea acha de virar fechador de porta de autom\u00f3veis que n\u00e3o s\u00e3o dirigidos por motoristas humanos? A cada fechada de porta de um t\u00e1xi aut\u00f4nomo da Waiymo, <u>voc\u00ea ganharia de 11 d\u00f3lares a 24 d\u00f3lares<\/u>, algo j\u00e1 em funcionamento em cidades como Atlanta e Los Angeles, nos EUA. Ou empregar seus talentos pessoais para levantar rob\u00f4s de entrega que tombaram devido a algum contratempo no percurso? Seria esse o destino dos atuais entregadores humanos, t\u00e3o atarantados para conseguir comer com o pagamento \u00ednfimo que recebem de vampiros como o Ifood, caso percam seus postos para entregadores rob\u00f3ticos, supostamente aut\u00f4nomos?<\/p>\n<p>Em uma rasteira trai\u00e7oeira e desconcertante, esse poderia ser, at\u00e9 mesmo, o destino de quem trabalha em TI, j\u00e1 que h\u00e1 empresas do setor que andam despedindo em massa seus programadores, conforme agentes n\u00e3o humanos passam a fazer o que eles faziam.<\/p>\n<h3><strong>Acelerar o colapso civilizat\u00f3rio<\/strong><\/h3>\n<p>Um dos sinais de que a expans\u00e3o das IAs provoca uma forte interfer\u00eancia no acesso a materiais bem concretos \u00e9 o aumento dos pre\u00e7os dos computadores. Quem quiser adquirir um equipamento novo ter\u00e1 que desembolsar um dindin mais gordo daqui para a frente. A <u>disparada dos valores<\/u> ocorre porque a pipoca\u00e7\u00e3o de data centers \u2013 e de tudo que envolve seu funcionamento \u2013 j\u00e1 gerou uma demanda por determinados minerais que \u00e9 dif\u00edcil de atender, inflacionando o mercado.<\/p>\n<p>No capetalismo, quem tem mais grana sempre tem prioridade quando algo est\u00e1 escasso. Entre atender as Big Techs ou atender algu\u00e9m como eu ou voc\u00ea, qual ser\u00e1 a escolha de quem produz e vende computadores? \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que deixa expl\u00edcita a enrascada em que estamos nos metendo. Trata-se do aprofundamento do abismo entre as classes sociais.<\/p>\n<p>De um lado, empresas e pessoas que fazem parte das classes financeiramente abastecidas v\u00e3o ter acesso \u00e0s \u201cmaravilhas\u201d proporcionadas pela IA, se livrando at\u00e9 de muitos\/as de seus\/suas empregados\/as de carne e osso. De outro, uma massa de gente desempregada ou precarizada vai ter mais dificuldade para comprar o celular ou o computador que permite o contato com chatbots ou com os servi\u00e7os cada vez mais variados e sofisticados que as Big Techs oferecem e empurram para cima da sociedade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de intensificar desigualdades e sugar o que chamam de recursos naturais, contribuindo para o aumento da fome e da sede no mundo, essa corrida tecnol\u00f3gica desembestada anda de m\u00e3os atadas com as guerras e conflitos b\u00e9licos. Garantir a obten\u00e7\u00e3o de quantidades crescentes de materiais indispens\u00e1veis ao setor implica, muitas vezes, em invadir territ\u00f3rios, pressionar l\u00edderes locais e usar diversos tipos de viol\u00eancia, incluindo a f\u00edsica. \u00c9 um processo que gera mais um circuito vicioso.<\/p>\n<p>Hoje, para participar de guerras, \u00e9 preciso ter intelig\u00eancia artificial de ponta, capaz de detectar e atingir alvos com precis\u00e3o. Ent\u00e3o, mais desses materiais s\u00e3o consumidos e mais necess\u00e1ria se torna a obten\u00e7\u00e3o de novos materiais, o que impulsiona novas guerras. A atual guerra de Israel e EUA contra o Ir\u00e3 (que fechou o estreito de Ormuz), al\u00e9m de catapultar o pre\u00e7o do petr\u00f3leo, <u>tamb\u00e9m amea\u00e7a o fornecimento do g\u00e1s h\u00e9lio<\/u>, indispens\u00e1vel para a manuten\u00e7\u00e3o de data centers e a fabrica\u00e7\u00e3o de semicondutores. O Catar, que produz um ter\u00e7o do que \u00e9 mundialmente consumido, interrompeu a produ\u00e7\u00e3o de sua estatal, depois de sofrer ataques iranianos.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que tamb\u00e9m existem (e poderia haver muito mais) os efeitos ben\u00e9ficos desse super desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Podemos usar IA para auxiliar procedimentos m\u00e9dicos, como an\u00e1lise de exames; descobrir e testar novos rem\u00e9dios e vacinas; monitorar ecossistemas e fazer c\u00e1lculos complexos em estudos das mais variadas \u00e1reas, inclusive como subs\u00eddio para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 sobre os tipos de uso que v\u00e3o predominar e quem vai ter o controle deles. E dar uma olhada em quem tem o poder para tomar essas decis\u00f5es nos d\u00e1 uma perspectiva bem desastrosa. Voc\u00ea acredita que pessoas como Elon Musk, Sam Altman, Bill Gates ou Mark Zuckerberg v\u00e3o ter algum pudor ao direcionar seus produtos e servi\u00e7os para o que for mais lucrativo e aumente ainda mais o seu poder? Demonstra\u00e7\u00f5es de que confiar neles \u00e9 uma barca furada n\u00e3o faltam.<\/p>\n<p>Recentemente, a Microsoft <u>cortou 97,6% da capacidade<\/u> de armazenamento de dados da Fiocruz, mesmo tendo recebido mais de 28 milh\u00f5es da institui\u00e7\u00e3o, de 2012 at\u00e9 hoje. Nem precisamos dizer o impacto negativo dessa medida para a pesquisa p\u00fablica na \u00e1rea de sa\u00fade no Brasil. Institui\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios pa\u00edses tamb\u00e9m t\u00eam experimentado o drama de n\u00e3o terem soberania. E casos de ass\u00e9dio, infra\u00e7\u00f5es legais, omiss\u00e3o e distor\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es podem ser encontrados \u00e0s pencas na trajet\u00f3ria dos imperadores do mundo digital. Se depender deles, iremos meter contudo o p\u00e9 no acelerador do fim do mundo, contanto que se safem enquanto viverem.<\/p>\n<p>Cabe a n\u00f3s, enquanto sociedade, lutar para que seja poss\u00edvel p\u00f4r o p\u00e9 no freio desse ve\u00edculo \u2013 que finge ser um robot\u00e1xi n\u00e3o control\u00e1vel por n\u00f3s, meros passageiros\/as, mas possui motoristas muito reais e totalmente ecocidas, acelerando rumo ao abismo. Regular as Big Techs, controladoras dos programas de IA que se espalham sem se intimidar com fronteiras, \u00e9 quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Nos EUA, ber\u00e7o dessas empresas e pa\u00eds cuja popula\u00e7\u00e3o que vive em situa\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel j\u00e1 viu suas contas de energia e \u00e1gua dispararem, ap\u00f3s a chegada de data centers em suas cidades, a rea\u00e7\u00e3o est\u00e1 ganhando corpo.<\/p>\n<h3><strong>Natureza em primeiro lugar<\/strong><\/h3>\n<p>O movimento <u>Humans First<\/u> (Humanos em primeiro lugar) se prop\u00f5e a unir cidad\u00e3s e cidad\u00e3os estadunidenses no enfrentamento do futuro indigesto que o Vale do Sil\u00edcio vem empurrando goela abaixo do povo. A iniciativa busca evitar que pessoas reais sejam massivamente substitu\u00eddas por agentes artificiais, processo que est\u00e1 em curso e tem contribu\u00eddo para tirar o p\u00e3o da mesa das fam\u00edlias de quem perdeu o emprego.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer a import\u00e2ncia de a\u00e7\u00f5es como o Humans First para provocar o questionamento sobre como o modo autorit\u00e1rio e irrespons\u00e1vel usado pela IA e seus vorazes centros de dados vem atropelando nossa hist\u00f3ria. No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio ampliar essa luta para envolver o que n\u00e3o \u00e9 humano, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 m\u00e1quina.<\/p>\n<p>O descolamento, que o sistema tecnol\u00f3gico corporativo tenta criar entre a nossa exist\u00eancia \u2013 enquanto mat\u00e9ria e pulsa\u00e7\u00e3o vital \u2013 e a exist\u00eancia da teia planet\u00e1ria que sustenta a vida, \u00e9 o caminho mais r\u00e1pido para o precip\u00edcio. Como vimos, as estruturas materiais que sustentam essa rede virtual exigem muita comida, sob a forma de min\u00e9rios arrancados do ventre da terra, e muita \u00e1gua, elemento que est\u00e1 cada vez mais escasso para consumo humano.<\/p>\n<p>E, mais do que tudo, exigem uma quantidade de energia que parece ilimit\u00e1vel, a ser gerada a partir de fontes que impactam profundamente nossas comunidades e o destino da nossa civiliza\u00e7\u00e3o. O petr\u00f3leo e o g\u00e1s n\u00e3o s\u00e3o renov\u00e1veis e est\u00e3o na g\u00eanese da emerg\u00eancia clim\u00e1tica. As usinas hidrel\u00e9tricas, solares e e\u00f3licas, embora sejam renov\u00e1veis, dependem de transforma\u00e7\u00f5es ambientais e sociais cr\u00edticas. Seus impactos interferem no equil\u00edbrio estabelecido entre as comunidades e os territ\u00f3rios que habitam. A energia nuclear, cuja gera\u00e7\u00e3o recrudesceu nos \u00faltimos anos com a intensifica\u00e7\u00e3o dos conflitos b\u00e9licos, e est\u00e1 nos planos da <u>Meta e da Microsoft<\/u>, traz riscos incalcul\u00e1veis.<\/p>\n<p>Se a chegada da suposta Intelig\u00eancia Artificial se apresenta como definitiva, \u00e9 hora de lembrar que, sem \u00e1gua, sem energia e sem alimentos, n\u00e3o h\u00e1 sociedade, por mais ultra tecnol\u00f3gica que ela se proponha a ser. Vamos deixar as Big Techs decidirem quem vai ter acesso \u00e0s facilidades sem fim prometidas por seus agentes sugadores de recursos, enquanto uma massa crescente de seres vivos vai sentir a dor de ter a barriga vazia e a garganta seca?<\/p>\n<p>Controlar a insaciabilidade das Big Techs \u00e9 um desafio existencial para nossa sobreviv\u00eancia. A luta \u00e9 entre o que possu\u00edmos de mais visceral (e nenhuma m\u00e1quina ou programa jamais possuir\u00e1 nada semelhante) e a sanha por riquezas e poder de uma minoria de tecnocratas capaz de vampirizar o planeta at\u00e9 que seu sangue se esgote, enquanto multiplica os bilh\u00f5es virtuais que acumulam em seus fundos duvidosos.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia da vida \u00e9 ancestral e \u00e9, tamb\u00e9m, maturada em bilh\u00f5es, mas em bilh\u00f5es de anos, e n\u00e3o de d\u00f3lares ou na velocidade cada vez mais fren\u00e9tica com que hoje os chatbots respondem \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es que recebem, muitas vezes, de outros agentes inumanos e n\u00e3o naturais. Buscar uma forma de conflu\u00eancia entre a pulsa\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria e a tecnologia, equilibrando o que \u00e9 anal\u00f3gico com o que \u00e9 digital, \u00e9 o desafio que n\u00f3s, ativistas por respeito \u00e0 M\u00e3e Terra e por justi\u00e7a social, teremos que encarar.<\/p>\n<p>Como disse a chamada de um artigo recente, publicado pelo MIT Technology Review Brasil, sobre o avan\u00e7o da IA: \u201c<u>Data centers s\u00e3o incr\u00edveis; todos os odeiam<\/u>\u201d. Se, como diz o autor, encontramos esse consenso, nos resta lutar para que esses monstros gulosos e beberr\u00f5es sejam alvo de muito debate, antes que se instalem em nossos territ\u00f3rios. Talvez pud\u00e9ssemos come\u00e7ar instalando alguns na vizinhan\u00e7a das moradias da elite high tech. Quem sabe, para n\u00e3o incomodar vizinhos t\u00e3o ilustres, eles se tornam um pouco mais palat\u00e1veis.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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