{"id":81012,"date":"2026-04-01T16:00:00","date_gmt":"2026-04-01T19:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ditadura-policia-de-sp-tinha-orcamento-de-r-84-milhoes-para-montar-aparato-repressivo\/"},"modified":"2026-04-01T16:00:00","modified_gmt":"2026-04-01T19:00:00","slug":"ditadura-policia-de-sp-tinha-orcamento-de-r-84-milhoes-para-montar-aparato-repressivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ditadura-policia-de-sp-tinha-orcamento-de-r-84-milhoes-para-montar-aparato-repressivo\/","title":{"rendered":"Ditadura: Pol\u00edcia de SP tinha or\u00e7amento de R$ 84 milh\u00f5es para montar aparato repressivo"},"content":{"rendered":"<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>Quanto custa montar um aparato repressivo? Em setembro de 1969, a For\u00e7a P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo encaminhou ao governador do Estado um or\u00e7amento para a constitui\u00e7\u00e3o de um \u201cPlano de Mobiliza\u00e7\u00e3o Anti-Insurrecional\u201d no valor total de 7.253.100 cruzeiros novos, a moeda da \u00e9poca, pouco depois da constitui\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, a Oban.<\/p>\n<p>Criada em julho de 1969, na esteira do Ato Institucional n\u00ba 5, de 13 de dezembro de 1968, a Oban era um \u00f3rg\u00e3o semiclandestino e supostamente n\u00e3o possu\u00eda verba oficial para operar. Nos prim\u00f3rdios, funcionou nas depend\u00eancias do 2\u00ba Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito, na rua Tom\u00e1s Carvalhal, Vila Mariana, cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Mas a quantidade de presos aumentou, assim como a quantidade de pessoas envolvidas no \u00f3rg\u00e3o, e foi necess\u00e1rio mudar de local. Foi quando o governador Abreu Sodr\u00e9 cedeu parte das depend\u00eancias nos fundos da 36\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia que ficava na rua Tutoia, onde passou a funcionar efetivamente. Para ajudar, o prefeito da cidade \u00e0 \u00e9poca, Paulo Maluf, mandou que fossem instalados postes de ilumina\u00e7\u00e3o e asfaltou uma \u00e1rea pr\u00f3xima ao distrito policial, na avenida Sargento Mario Kozel Filho, cujo nome foi dado em 13 de agosto de 1969. Na mesma \u00e9poca, a prefeitura gastou 140 mil cruzeiros novos em uma constru\u00e7\u00e3o para isolar o Quartel General do II Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p><span>\u201cHavia uma corrida para reorganizar a repress\u00e3o e a For\u00e7a P\u00fablica, sugere este documento, que parece buscar os recursos para se transformar na Pol\u00edcia Militar\u201d<\/span>, avalia Marcelo Godoy, autor do <em>A Casa da Vov\u00f3 <\/em>\u2013 uma biografia do DOI-Codi (2014). Ao propor um or\u00e7amento para sua atua\u00e7\u00e3o como \u201cfor\u00e7a anti-insurrecional\u201d, a For\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo inseria-se no debate sobre a seguran\u00e7a p\u00fablica imaginada pelo regime militar. As datas e valores corroboram a ideia que o investimento do Estado nesse Plano foi aproveitado na estrutura da Oban\/DOI-Codi, mas n\u00e3o se conhece comprova\u00e7\u00e3o documental desse fato.<\/p>\n<p>Ligada ao II Ex\u00e9rcito, a Oban ganhou o nome de DOI-Codi (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es e Informa\u00e7\u00f5es \u2013 Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna) em 1970, quando o sistema passou a ser institucionalizado, antes de se espalhar pelo pa\u00eds. Ainda em 1969, a For\u00e7a P\u00fablica do Estado foi transformada pelo governo ditatorial na Pol\u00edcia Militar como parte da reorganiza\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o pol\u00edtica e tamb\u00e9m para crimes comuns. A essa altura, a for\u00e7a da guerrilha armada j\u00e1 n\u00e3o era segredo: em 13 de agosto de 1969, a revista <em>Veja <\/em>colocara em sua capa o t\u00edtulo \u201cOs terroristas \u2013 Quem s\u00e3o? Onde est\u00e3o? O que querem?\u201d<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p><span>O valor do or\u00e7amento elaborado pela For\u00e7a P\u00fablica, atualizado at\u00e9 novembro de 2025 pelo IGP-DI (FGV), alcan\u00e7a a casa de R$ 83,8 milh\u00f5es.<\/span> A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, a indeniza\u00e7\u00e3o para v\u00edtimas da ditadura militar no Brasil \u2013 mortos e desaparecidos pol\u00edticos \u2013 \u00e9 calculada com base em crit\u00e9rios estabelecidos por lei. Esse valor m\u00e1ximo hoje \u00e9 de R$ 100 mil \u2013 ou seja, o or\u00e7amento para cria\u00e7\u00e3o de um aparato de repress\u00e3o tal qual planejado seria suficiente para indenizar 838 v\u00edtimas da ditadura no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m um valor maior do que o previsto para o policiamento motorizado do Estado, de acordo com o pr\u00f3prio autor do documento. <span>Para o policiamento, estariam previstos, em 1969, 5.617.862 cruzeiros novos \u2013 mas o recurso teria sido totalmente cortado.<\/span><\/p>\n<h2><strong>Os militares que assinaram o or\u00e7amento<\/strong><\/h2>\n<p>Localizado no Arquivo do Estado de S\u00e3o Paulo por pesquisadores que subsidiaram os trabalhos da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, o or\u00e7amento foi encaminhado ao ent\u00e3o governador Roberto Abreu Sodr\u00e9 em 9 de setembro de 1969 (pouco mais de tr\u00eas semanas ap\u00f3s a reportagem da <em>Veja<\/em>) pelo General Olavo Viana Moog (que atualmente d\u00e1 nome a uma escola estadual no Jardim Celeste, na zona oeste de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>Na primeira p\u00e1gina dele, uma anota\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3o pede \u201cmuita aten\u00e7\u00e3o a esse pedido\u201d, seguida da assinatura de Moog e antecedida pela defini\u00e7\u00e3o, essa a m\u00e1quina, de \u201creservado\u201d. Moog ocupou o cargo de secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a de S\u00e3o Paulo entre agosto de 1969 e mar\u00e7o de 1970. Depois, foi um dos respons\u00e1veis pela repress\u00e3o aos guerrilheiros do PC do B na Guerrilha do Araguaia, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>A proposta de reequipamento da For\u00e7a P\u00fablica foi aprovada pelo coronel Conf\u00facio Danton de Paula Avelino, de acordo com o despacho n\u00ba 23-607\/F4. O comandante geral da corpora\u00e7\u00e3o determinou ainda a elabora\u00e7\u00e3o de lista de pre\u00e7os para custeio das despesas apontadas no relat\u00f3rio, no que foi prontamente atendido, de acordo com o of\u00edcio n\u00ba 1-047-S01, pelo chefe do Servi\u00e7o de Finan\u00e7as da For\u00e7a P\u00fablica, major Eleuses Dias Peixoto.<\/p>\n<p>\u201cDocumentos administrativos t\u00eam muito a contar sobre a forma de funcionamento dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. <span>Cada vez mais, a busca em arquivos n\u00e3o convencionais traz informa\u00e7\u00f5es que, associadas a documentos da Oban\/DOI-Codi, elucidam d\u00favidas e lacunas\u201d<\/span>, avalia a historiadora Deborah Neves,\u00a0 coordenadora do GT Memorial DOI-Codi e pesquisadora da Unifesp, autora da tese <em>Construindo o Poder; ditadura e obras p\u00fablicas em S\u00e3o Paulo<\/em> (1965-1978). Ela tamb\u00e9m \u00e9 autora do livro \u201c<em>A persist\u00eancia do passado<\/em>: patrim\u00f4nio e memoriais da ditadura em S\u00e3o Paulo e Buenos Aires\u201d.<\/p>\n<figure><figcaption>Ato P\u00fablico de Mem\u00f3ria \u201cDOI-Codi 50 anos do golpe\u201d, em 2014.<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cFoi assim durante o estudo de tombamento que identificamos na Procuradoria do Patrim\u00f4nio Imobili\u00e1rio o processo que tratou da cess\u00e3o do terreno da Rua Tom\u00e1s de Carvalhal firmada entre o Governo do Estado de S\u00e3o Paulo e o II Ex\u00e9rcito, al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei que viabilizou a constru\u00e7\u00e3o do muro do Quartel por parte da Prefeitura de S\u00e3o Paulo. Esses documentos provam a articula\u00e7\u00e3o no uso do or\u00e7amento dos diferentes entes federativos para atuar na repress\u00e3o\u201d, diz Neves.<\/p>\n<p>O or\u00e7amento feito pelo major Eleuses Dias Peixoto tem um pre\u00e2mbulo, um plano de mobiliza\u00e7\u00e3o contra as for\u00e7as anti-insurrecionais assinado pelo coronel Jo\u00e3o \u00c1ureo Campanha que detalha as necessidades materiais e de organiza\u00e7\u00e3o de uma For\u00e7a Anti-Insurrecional.<\/p>\n<p>Neste texto, Campanha avalia que \u201ca For\u00e7a P\u00fablica n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de concentrar seus efetivos, a n\u00e3o ser que prejudique os servi\u00e7os policiais. Entretanto, as unidades do Ex\u00e9rcito Brasileiro, que est\u00e3o, estrategicamente, localizadas no Estado, possuem a necess\u00e1ria concentra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d. No desenho feito pelo coronel, \u201ca solu\u00e7\u00e3o consequente ser\u00e1 coordenar os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a da corpora\u00e7\u00e3o com as unidades do Ex\u00e9rcito Brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>O coronel prev\u00ea ainda que toda opera\u00e7\u00e3o que supere o \u00e2mbito regional deve ser coordenada pelo Estado Maior da For\u00e7a P\u00fablica e que \u201cdispositivos especiais dever\u00e3o ser montados visando surpreender o inimigo em suas atividades\u201d \u2013 para Campanha, toda a\u00e7\u00e3o policial deve ser \u201cofensiva\u201d, \u201cseja no combate \u00e0 delinqu\u00eancia comum, seja contra dispositivos de insurrei\u00e7\u00e3o armada\u201d.<\/p>\n<p>Para Marcelo Godoy, o fortalecimento da repress\u00e3o exigia alguma acomoda\u00e7\u00e3o entre a Pol\u00edcia Civil, a For\u00e7a P\u00fablica e o Ex\u00e9rcito. A elabora\u00e7\u00e3o deste documento pela For\u00e7a P\u00fablica mostra uma disposi\u00e7\u00e3o deste grupo policial com a ideia de colaborar fortemente na repress\u00e3o pol\u00edtica e, assim, colocar-se tamb\u00e9m numa posi\u00e7\u00e3o de disputar os recursos para se reequipar e se expandir. De acordo com o livro <em>A Casa da Vov\u00f3<\/em>, <span>a Pol\u00edcia Militar, criada a partir da For\u00e7a P\u00fablica, \u201cforneceu ao longo dos anos 70% do pessoal\u201d do DOI-Codi, que atuou em \u201ctodos os setores da unidade<\/span>\u201d.<\/p>\n<p>Antes de chegar a Moog, o relat\u00f3rio de Campanha e o or\u00e7amento de Peixoto foram entregues e aprovados pelo ent\u00e3o coronel Conf\u00facio Danton de Paula Avelino.<\/p>\n<h2><strong>A contribui\u00e7\u00e3o de banqueiros e empres\u00e1rios<\/strong><\/h2>\n<p>O custo da compra de equipamentos coincide com um n\u00famero igualmente relevante para o per\u00edodo: o valor supostamente arrecadado por banqueiros e empres\u00e1rios durante encontro realizado no Clube S\u00e3o Paulo, no casar\u00e3o que pertenceu \u00e0 Dona Veridiana da Silva Prado, na Rua Dona Veridiana, em Higien\u00f3polis, na mesma \u00e9poca.<\/p>\n<p>O jornalista Elio Gaspari afirma, em seu livro <em>A ditadura escancarada <\/em>(2002), que \u201ca reestrutura\u00e7\u00e3o da PE [Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito] paulista e a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante foram socorridas por uma \u2018caixinha\u2019 a que compareceu o empresariado paulista\u201d no segundo semestre de 1969. Gaspari se baseou em documentos dos arquivos de Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, entre outros, al\u00e9m de s\u00e9rie de entrevistas concedidas pelo ex-governador de SP Paulo Egydio Martins (1988), o empres\u00e1rio Paulo Sawaya (1990) e o banqueiro Gast\u00e3o Vidigal (1995).<\/p>\n<p>Golbery foi general do Ex\u00e9rcito e um dos principais ide\u00f3logos da ditadura militar no Brasil. Esteve \u00e0 frente do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), criado em 1961 com o objetivo de defender a iniciativa privada e, principalmente, conspirar politicamente contra governos nacionalistas considerados de esquerda. Ele esteve \u00e0 frente do SNI durante sua cria\u00e7\u00e3o em 1964 e manteve enorme influ\u00eancia entre 1960 e 1970, tendo ocupado a Casa Civil do governo do presidente Ernesto Geisel (1975-1979).<\/p>\n<p>Ainda segundo Gaspari, <span>o recolhimento de contribui\u00e7\u00f5es para financiar o que chamavam de luta contra a subvers\u00e3o foi feita dentro do clube dos banqueiros (oficialmente o nome era Clube S\u00e3o Paulo, um lugar de reuni\u00f5es da aristocracia e empresariado paulista)<\/span>, que pertencia a Gast\u00e3o Vidigal, dono do Banco Mercantil de S\u00e3o Paulo, e irm\u00e3o de Lu\u00eds Eul\u00e1lio Bueno Vidigal, dirigente da Cobrasma, onde, em 1968, uma grande greve metal\u00fargica foi reprimida com ajuda de blindados do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Na cita\u00e7\u00e3o de Gaspari, sobre a reuni\u00e3o no palacete, \u00e9 informado ainda que o ministro Antonio Delfim Netto apresentou aos empres\u00e1rios o problema da falta de verbas para a estrutura\u00e7\u00e3o ao combate \u00e0 repress\u00e3o em S\u00e3o Paulo. Eles ent\u00e3o assumiram o compromisso de pagar os gastos. Foi Gast\u00e3o Vidigal quem \u201cmencionou a cifra (\u2018500 milh\u00f5es\u2019), mas n\u00e3o se mostrou seguro a seu respeito. Lembra-se, contudo, que \u2018era muito dinheiro\u2019\u201d.<\/p>\n<p><span>Um encontro especial no segundo semestre de 1969 contou com a presen\u00e7a de donos de pelo menos 15 grandes institui\u00e7\u00f5es financeiras.<\/span> De acordo com o jornalista, Vidigal havia fixado em 500 mil cruzeiros novos a contribui\u00e7\u00e3o aos benemerentes presentes nesse encontro no Clube S\u00e3o Paulo. Aqui, \u00e9 relevante fazer a conta: 500.000 x 15 = 7.500.000, ou apenas 246.900 cruzeiros novos a mais do que o indicado no or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Apesar desta coincid\u00eancia de n\u00famero, Godoy avalia que o or\u00e7amento da For\u00e7a P\u00fablica n\u00e3o deve ter sido feito para a constitui\u00e7\u00e3o da Oban, embora fa\u00e7a parte do contexto de transforma\u00e7\u00f5es no aparato repressivo da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Outros pesquisadores tamb\u00e9m registram as reuni\u00f5es de empres\u00e1rios na Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp) e os encontros no Clube S\u00e3o Paulo. Ren\u00e9 Dreifuss, em <em>1964: A conquista do Estado. A\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe<\/em> (1981) tamb\u00e9m conta a hist\u00f3ria do financiamento da Oban. Os almo\u00e7os no palacete da Dona Veridiana, feitos s\u00f3 para homens convidados por Gast\u00e3o Vidigal eram frequentes, praticamente semanais. Discutia-se pol\u00edtica e economia. Foi numa dessas reuni\u00f5es que primeiro se passou o chap\u00e9u para o aparelhamento da Oban, segundo ele.<\/p>\n<p>Dreifuss tamb\u00e9m registra a presen\u00e7a de Delfim Netto e de 15 outros s\u00f3cios num almo\u00e7o entre agosto e setembro de 1969. Gast\u00e3o Vidigal e Delfim, ent\u00e3o ministro da Fazenda, teriam pedido a ajuda financeira para montar a Oban.<\/p>\n<p>O or\u00e7amento, neste caso, pode ter sido feito antes ou depois dela, ou seja, pode ter sido montado em torno do valor arrecadado (na hip\u00f3tese de se inserir numa disputa pelos recursos) ou, num outro sentido, ter orientado o valor das doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2><strong>Pr\u00e1tica recorrente de financiamento, segundo os relatos<\/strong><\/h2>\n<p>Os comensais j\u00e1 estavam acostumados com tal tipo de solicita\u00e7\u00e3o. Meses antes j\u00e1 haviam participado, e contribu\u00eddo, com outra \u2018caixinha\u2019, para ampliar o efetivo da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito na capital.<\/p>\n<p>Tal ajuda financeira foi assim descrita pelo general Ernani Ayrosa da Silva, que chefiou o Estado-Maior do II Ex\u00e9rcito, em S\u00e3o Paulo, de maio de 1969 a janeiro de 1971, de acordo com descri\u00e7\u00e3o feita pelo ex-comandante do DOI-Codi, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra, no livro <em>A verdade sufocada<\/em> (2007):<\/p>\n<p>\u201cPor uma solicita\u00e7\u00e3o do general Canavarro ao Ministro, antes de atingirmos um m\u00eas de Comando, j\u00e1 receb\u00edamos autoriza\u00e7\u00e3o para ampliar o efetivo da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito, de Companhia para Batalh\u00e3o. Somente um \u00f3bice ir\u00edamos enfrentar: n\u00e3o receber\u00edamos nenhuma ajuda em recursos para a transforma\u00e7\u00e3o do quartel e melhoria das prec\u00e1rias instala\u00e7\u00f5es. N\u00e3o nos intimidamos com a realidade. Surge aqui com muito vigor a presen\u00e7a infinitamente grande de uma pessoa que j\u00e1 convivia conosco e que de pronto assumiu o encargo de coordenar os recursos para a amplia\u00e7\u00e3o do quartel que abrigava 200 homens para 960 policiais\u201d, afirma Ustra no livro, referindo-se ao general Canavarro.<\/p>\n<p>Outro jornalista, Sebasti\u00e3o Pereira da Costa, no livro <em>N\u00e3o ver\u00e1s nenhum pa\u00eds como este: um relato cronol\u00f3gico da viol\u00eancia e do arb\u00edtrio<\/em>, avan\u00e7a mais um pouco no debate sobre a atualiza\u00e7\u00e3o do material e equipamento do aparelho repressivo, atrav\u00e9s do provimento de capitais privados para a reestrutura\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es militares e policiais contra o inimigo interno.<\/p>\n<p>Costa indaga, justamente, acerca da proveni\u00eancia do financiamento e da coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e de agentes privados com a Oban: \u201cE onde conseguir os recursos para tocar essa m\u00e1quina monstruosa, visto que era um \u00f3rg\u00e3o paramilitar e extraoficial? F\u00e1cil. Assim como os perdigueiros farejam perdiz a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, h\u00e1 gente que fareja dinheiro. Corre daqui e dali, alguns telefonemas. Pronto\u201d.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Pereira da Costa d\u00e1 nomes: <span>\u201co grupo Ultra, por seu diretor, Henry Boilesen, a General Motors, a Ford, a Mercedes e a Brown-Boveri e empres\u00e1rios nacionais, contatados por Fuad Lutfalla, se disp\u00f5em a bancar os custos da Oban, que se instala, provisoriamente, nas depend\u00eancias do 36\u00ba Distrito Policial, na rua Tutoia, bairro do Para\u00edso, em S\u00e3o Paulo\u201d<\/span>. Boilesen frequentava as sess\u00f5es de tortura na Tutoia e foi morto por um comando da Alian\u00e7a Libertadora Nacional em abril de 1971.<\/p>\n<p>Conforme registro de pesquisa de Ren\u00e9 Armand Dreifuss, desde os tempos da conspira\u00e7\u00e3o das classes propriet\u00e1rias e dominantes aglutinadas no complexo Ipes, em S\u00e3o Paulo, o grupo Fuad Lutfalla dispunha dos servi\u00e7os jur\u00eddicos do advogado Alfredo Buzaid, al\u00e9m de se vincular, familiar e economicamente, ao pol\u00edtico Paulo Salim Maluf, casado com Sylvia Lutfalla Maluf.<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico Moniz Bandeira, no livro\u00a0 <em>Cart\u00e9is e desnacionaliza\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia brasileira<\/em> (1975) destaca um artigo do jornalista Manfred von Conta, do <em>S\u00fcddeutsche Zeitung<\/em>, de Munique, Alemanha, que informa que\u00a0 \u201cas iniciativas de setores radicais do regime e do industrial Henning Boilesen, do Grupo Ultra, se deveram \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o, em 1969, dessas contribui\u00e7\u00f5es financeiras, para a forma\u00e7\u00e3o de um fundo destinado a subvencionar a repress\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Boilesen atuava, tamb\u00e9m, como membro do Conselho Orientador do Ipes S\u00e3o Paulo, ao lado de outras figuras do empresariado paulista ligado ao regime militar.\u00a0 Em sua obra, Ren\u00e9 Armand Dreifuss acrescenta que \u201cinclu\u00eda-se entre os respons\u00e1veis pela consolida\u00e7\u00e3o de um esquema de apoio financeiro para o aparelho repressivo da pol\u00edcia e das For\u00e7as Armadas. <span>H. Boilesen reuniu um grupo de empres\u00e1rios que contribu\u00edam financeiramente e forneciam equipamentos para as organiza\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. Esse apoio mostrava uma outra dimens\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o entre empres\u00e1rios e militares\u201d<\/span>. O Ipes S\u00e3o Paulo teve entre seus fundadores Jo\u00e3o Baptista Leopoldo Figueiredo, que era primo do ex-presidente general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo.<\/p>\n<p>Segundo o jornalista Elio Gaspari, no j\u00e1 citado <em>A ditadura escancarada<\/em>,\u00a0 embora desde 1964 fosse semeada \u201ca associa\u00e7\u00e3o entre interesses empresariais e os da seguran\u00e7a\u201d, esta rela\u00e7\u00e3o colaborativa e solidariedade pol\u00edtica, econ\u00f4mica e militar, de fato, \u201cfloresceu em julho de 1969\u201d. \u201cA Fiesp atirou com um manifesto em que denunciou o \u2018vandalismo\u2019 das \u2018falanges da subvers\u00e3o e do genoc\u00eddio\u2019. O presidente da Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio, Jos\u00e9 Papa Jr., garantiu sua solidariedade \u00e0s For\u00e7as Armadas, \u2018que se cobriram de gl\u00f3rias nas trincheiras e nos c\u00e9us da Europa\u2019 [\u2026] Chegou o momento de dizer basta!, acrescentou o presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio, Jess\u00e9 Pinto Freire. O governador Abreu Sodr\u00e9 advertiu: \u2018N\u00e3o h\u00e1 lugar para fracos ou covardes na presente situa\u00e7\u00e3o: ou se est\u00e1 a favor da ordem que constr\u00f3i ou pela desordem que destr\u00f3i\u2019\u201d. O texto ainda apresenta mais detalhes da colabora\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios paulistas para com a repress\u00e3o promovida pela ditadura. Importante citar que j\u00e1 naquela \u00e9poca a federa\u00e7\u00e3o dos industriais mantinha uma diretoria formada por militares.<\/p>\n<p>No filme <em>Cidad\u00e3o Boilesen<\/em>, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz uma avalia\u00e7\u00e3o do significado da contribui\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios para a repress\u00e3o. \u201cIsso foi importante politicamente para o regime, porque solidarizaram-se setores empresariais com o regime: \u2018voc\u00eas tamb\u00e9m est\u00e3o com a m\u00e3o aqui\u2019. N\u00e3o \u00e9 por causa do dinheiro em si, dinheiro, o governo tinha, foi um apoio pol\u00edtico, selado atrav\u00e9s do dinheiro\u201d.<\/p>\n<h2><strong>Inimigos internos: quem eram os alvos da opera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<figure><figcaption>Diagrama apresenta o que os militares chamavam de \u201cMecanismo da Subvers\u00e3o\u201d; nele est\u00e3o \u2018pot\u00eancias estrangeiras\u2019, \u2018agente locais\u2019, \u2018sistema de seguran\u00e7a\u2019, \u2018sistema econ\u00f4mico\u2019, \u2018estrutura psico-social\u2019 e \u2018sistema pol\u00edtico\u2019<\/figcaption><\/figure>\n<p>O documento da For\u00e7a P\u00fablica apresenta um desenho de como deveria ser o combate \u00e0 esquerda e afirma haver a necessidade de renovar os equipamentos e materiais utilizados na luta contra os \u201cinimigos internos\u201d. A pol\u00edcia, segundo o Plano Pol\u00edtico e Militar de Seguran\u00e7a Interna, estava defasada e n\u00e3o possu\u00eda os equipamentos necess\u00e1rios para combater os supostos subversivos.<\/p>\n<p><span>A lista de compras presente no or\u00e7amento possui diversos itens, que v\u00e3o desde ve\u00edculos at\u00e9 linhas telef\u00f4nicas<\/span> e outros itens que foram incorporados por militares no combate aos opositores do golpe militar. O objetivo era comprar 100 viaturas para a R\u00e1dio Patrulha; 10 carros de transporte de presos e recupera\u00e7\u00e3o de 60 viaturas. Para as opera\u00e7\u00f5es anti-insurrecionais seriam compradas 8 caminhonetes para transporte de materiais, 8 furg\u00f5es e 5 peruas. J\u00e1 para as opera\u00e7\u00f5es de surpresa e assalto seriam necess\u00e1rios 10 caminh\u00f5es 4 x 4 para transporte de tropa, 50 geradores port\u00e1teis e respectivos conjuntos de ilumina\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m pede a aquisi\u00e7\u00e3o de 54 arm\u00e1rios de a\u00e7o, com chave de segredo, para guardar armas.<\/p>\n<p><span>O neg\u00f3cio incluiria ainda obras de instala\u00e7\u00e3o de um Centro de Opera\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es, 300 transceptores VHF m\u00f3vel, 100 r\u00e1dios HT e 50 linhas telef\u00f4nicas da Companhia Telef\u00f4nica Brasileira<\/span>; combust\u00edvel, lubrificantes e manuten\u00e7\u00e3o de viaturas durante per\u00edodo de quatro meses e refor\u00e7o de alimenta\u00e7\u00e3o dos agentes. Nessa \u00e9poca, n\u00e3o havia um centro de recep\u00e7\u00e3o de chamados policiais (como funciona hoje o n\u00famero 190), e essa quest\u00e3o parecia ser urgente para a For\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>Todos esses ve\u00edculos listados \u2013 perua, viaturas b\u00e1sicas, furg\u00f5es, camionete, picape, caminh\u00f5es de transporte de tropas e de carga \u2013 tinham como fabricantes e fornecedores General Motors, Volkswagen, Ford, Scania, Mercedes Benz, Chrysler e FNM. S\u00e3o empresas que tiveram seus nomes atrelados \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o para com a repress\u00e3o militar aos opositores da ditadura e lideran\u00e7as de trabalhadores e de organiza\u00e7\u00f5es civis, al\u00e9m, claro, de constar no relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV).<\/p>\n<p>Segundo destaca o jornalista Marcelo Godoy no seu livro, <span>para equipar o Ex\u00e9rcito no combate \u00e0 subvers\u00e3o, montadoras de ve\u00edculos, como Volkswagen, GM e Ford, enviaram carros \u00e0 Oban.<\/span> Al\u00e9m das fabricantes de ve\u00edculos, destaca o rep\u00f3rter, outras empresas colaboraram para o funcionamento da Oban\/DOI-Codi. \u201cA Supergel mandava comida congelada, que se transformava nas quentinhas do DOI, e a Ultragaz emprestava-lhe caminh\u00f5es\u201d.<\/p>\n<div data-initially-open=\"true\" data-click-to-close=\"true\" data-auto-close=\"true\" data-scroll=\"false\" data-scroll-offset=\"0\">\n<h2 role=\"button\"><strong>Or\u00e7amento foi localizado em pesquisas para a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV)<\/strong><\/h2>\n<div>\n<p>O or\u00e7amento da For\u00e7a P\u00fablica para a a\u00e7\u00e3o anti-insurrecional est\u00e1 detalhado no livro <em>Repress\u00e3o sociedade an\u00f4nima \u2013 Banqueiros, fabricantes de ve\u00edculos e metal\u00fargicas na repress\u00e3o aos trabalhadores na ditadura militar<\/em>, de Eduardo Reina e Maria Ang\u00e9lica Ferrasoli, que ser\u00e1 lan\u00e7ado pela Alameda Casa Editorial no in\u00edcio de 2026.<\/p>\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o foi localizada pela equipe de pesquisadores coordenada por Joana Monteleone e Haroldo Ceravolo Sereza em 2013, num trabalho para subsidiar a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Em 2016, eles, junto com Rodolfo Machado, V\u00edtor Sion e Felipe Amorim, lan\u00e7aram o livro <em>\u00c0 espera da verdade<\/em> \u2013 hist\u00f3rias de civis que fizeram a ditadura militar, tamb\u00e9m publicado pela Alameda.<\/p>\n<p>Havia, por parte dos pesquisadores, alguma d\u00favida se a pe\u00e7a tinha tido uso ou n\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o da Oban, o que ainda permanece como uma d\u00favida. O cruzamento com os valores declarados por testemunhas, feito recentemente pelos jornalistas Eduardo Reina e Maria Ang\u00e9lica Ferrasoli, por outro lado, deu a certeza de que o or\u00e7amento em alguma medida foi relevante no contexto, podendo ter sido resultado ou um dos fatores ligados \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o repressiva do per\u00edodo.<\/p>\n<p>A leitura do documento permite inferir, tamb\u00e9m, que o desenho institucional do DOI-Codi, combinando a participa\u00e7\u00e3o de militares do Ex\u00e9rcito e policiais civis e militares de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m estava ligado ao contexto em que o documento foi produzido.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/escala-10x1-superintendencia-do-trabalho-zaffari-e-sindec-assinam-proposta-para-melhores-condicoes-de-trabalho\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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