{"id":81064,"date":"2026-04-01T14:18:31","date_gmt":"2026-04-01T17:18:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/licoes-de-darwin-para-o-planejamento-urbano\/"},"modified":"2026-04-01T14:18:31","modified_gmt":"2026-04-01T17:18:31","slug":"licoes-de-darwin-para-o-planejamento-urbano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/licoes-de-darwin-para-o-planejamento-urbano\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es de Darwin para o planejamento urbano"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"387\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/lugar-do-cotidiano.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/lugar-do-cotidiano.jpg 600w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/01141257\/lugar-do-cotidiano-300x194.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\"><figcaption>Foto: Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este \u00e9 um cap\u00edtulo de<em> Fit\u00f3polis<\/em>, novo livro de Stefano Mancuso publicado pela Ubu, parceira de Outras Palavras. <strong>Quem contribui com nosso jornalismo<\/strong> tem desconto de 20% em todos os livros da editora <\/p>\n<div>\n<figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>O estudo das cidades como organismos vivos sujeitos \u00e0s regras da vida e da evolu\u00e7\u00e3o remonta pelo menos \u00e0 segunda metade do s\u00e9culo XIX, quando Patrick Geddes, um bot\u00e2nico escoc\u00eas nascido em 1854 e um dos pais fundadores do urbanismo, come\u00e7ou a teorizar que as cidades e seu planejamento deveriam ser tratados em termos evolutivos. Era inevit\u00e1vel que isso acontecesse. Geddes n\u00e3o poderia ter passado ileso ao fasc\u00ednio revolucion\u00e1rio da teoria da evolu\u00e7\u00e3o. Os anos de sua juventude, na verdade, s\u00e3o os anos em que a teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin (A origem das esp\u00e9cies foi publicada pela primeira vez em 24 de novembro de 1859) muda literalmente o mundo ao explicar n\u00e3o s\u00f3 a origem e a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies como ao fornecer uma nova chave de leitura para toda a realidade. Al\u00e9m disso, de 1874 a 1879, Geddes estudou em Londres com o influente fil\u00f3sofo e bi\u00f3logo Thomas Huxley, um dos mais fervorosos defensores do evolucionismo, \u2013 a ponto de se apelidado de \u201cbuldogue de Darwin\u201d \u2013, e sobre o qual Darwin escreveu com entusiasmo em sua autobiografia: \u201cSua intelig\u00eancia \u00e9 r\u00e1pida como um rel\u00e2mpago e afiada como uma navalha. Ele \u00e9 o melhor orador que conhe\u00e7o e as coisas que escreve nunca s\u00e3o banais. Pela sua conversa, ningu\u00e9m suspeitaria que ele pudesse lidar com seus oponentes de forma t\u00e3o incisiva e decisiva. \u00c9 um grande amigo, sempre pronto a enfrentar qualquer tipo de problema por mim. [\u2026] Um homem maravilhoso, que sempre trabalhou pelo bem da humanidade\u201d.<em>[<\/em><em>1<\/em><em>]<\/em> Era imposs\u00edvel sair da escola de Huxley sem uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o evolucionista.<\/p>\n<p>Patrick Geddes participa da revolu\u00e7\u00e3o darwiniana e abra\u00e7a plenamente suas conclus\u00f5es, incluindo a nova luz que ela lan\u00e7a sobre todos os campos do conhecimento humano. Tudo parece perfeitamente projetado para descrever de maneira in\u00e9dita at\u00e9 mesmo algo t\u00e3o antigo quanto uma cidade, s\u00f3 falta algu\u00e9m que traduza as descobertas de Darwin para o planejamento urbano. Esse algu\u00e9m acabou sendo o pr\u00f3prio Geddes, que em seu livro Cidades em evolu\u00e7\u00e3o, de 1915, elabora a ideia de que a cidade deve ser concebida n\u00e3o como um conjunto de estruturas inorg\u00e2nicas montadas pelo homem, mas como um organismo cujo desenvolvimento \u00e9 determinado pelo meio em que ele vive e que, por sua vez, exerce influ\u00eancia direta no ambiente a seu redor. Uma cidade que \u00e9 \u201csemelhante \u00e0 ramifica\u00e7\u00e3o de um grande recife de coral \u2014 ambos t\u00eam um esqueleto de pedra do qual emergem p\u00f3lipos vivos. Vamos cham\u00e1-la, se preferirem, de madr\u00e9pora humana\u201d.<em>[<\/em><em>2<\/em><em>]<\/em> Hoje a analogia entre as cidades e os seres vivos pode parecer bastante familiar, mas na \u00e9poca foi uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o. Geddes, com sua abordagem evolucionista, tornou-se o int\u00e9rprete de uma nova forma de conceber o planejamento urbano \u2014 uma atividade integrada capaz de compreender as necessidades de uma cidade viva.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta-4-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta-4-8.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cAs cidades s\u00e3o organismos vivos; elas nascem, desenvolvem-se, desintegram-se e morrem. [\u2026] Em seu sentido acad\u00eamico e tradicional, o planejamento urbano se tornou obsoleto. Ele deve ser substitu\u00eddo pela biologia urbana\u201d, declarou o arquiteto e urbanista Jos\u00e9 Lu\u00eds Sert em 1942 durante o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna.<em>[<\/em><em>3<\/em><em>]<\/em> Mas embora saibamos que o estudo e a compreens\u00e3o do metabolismo e do catabolismo das cidades trariam consequ\u00eancias decisivas para o meio ambiente e proporcionariam enormes melhorias no \u00e2mbito de sua efici\u00eancia, a vis\u00e3o de Geddes, embora apresentasse todos os requisitos para mudar o planejamento urbano moderno, n\u00e3o vingou.<\/p>\n<p>Parte da responsabilidade por essa revolu\u00e7\u00e3o fracassada deve ser atribu\u00edda ao pr\u00f3prio Geddes, cuja interpreta\u00e7\u00e3o original da evolu\u00e7\u00e3o poderia, na \u00e9poca em que ele a escreveu, ser considerada n\u00e3o alinhada de todo \u00e0 ortodoxia darwiniana. Mas eram apenas detalhes; a maior parte das ideias sobre a evolu\u00e7\u00e3o que ele sugeria aplicar \u00e0 teoria do planejamento urbano era, na verdade, perfeitamente coerente com a teoria darwiniana. Ele estava convencido de que o homem \u00e9 parte da evolu\u00e7\u00e3o e todos seus comportamentos foram moldados por sua hist\u00f3ria evolutiva; que as cidades s\u00e3o como organismos complexos cujos comportamentos adaptativos evoluem e se adaptam ao ambiente de forma realmente aut\u00f4noma, em grande medida alheia ao controle de seus projetistas; que o espa\u00e7o urbano influencia e pode atuar na evolu\u00e7\u00e3o social e cultural de seus habitantes. Entretanto, o que infringia a ortodoxia era sua \u00eanfase na import\u00e2ncia da coopera\u00e7\u00e3o no desenvolvimento das cidades, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luta pela exist\u00eancia, ent\u00e3o considerada um dos impulsos fundamentais da evolu\u00e7\u00e3o, o \u00fanico darwinianamente aceit\u00e1vel. Nunca lhe perdoaram que, enquanto aluno de Huxley \u2014 o principal divulgador da ideia de que a vida n\u00e3o passa de uma luta cont\u00ednua \u00e0 qual apenas alguns sobrevivem \u2013, ousasse ter uma concep\u00e7\u00e3o t\u00e3o heterodoxa da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter em mente que, para Thomas Huxley, o conceito de luta pela exist\u00eancia, do qual Darwin se vale de forma sobretudo metaf\u00f3rica, representa a verdadeira e tang\u00edvel contrapartida natural do \u201cestado de cont\u00ednua inimizade\u201d descrito por Hobbes no Leviat\u00e3, que induz os homens a viver \u201cna situa\u00e7\u00e3o e postura dos gladiadores, com armas em riste e os olhos fixos uns nos outros\u201d.<em>[<\/em><em>4<\/em><em>]<\/em> Devemos a Huxley a difus\u00e3o da imagem do gladiador mais pr\u00f3xima de uma ideia de evolu\u00e7\u00e3o conforme a qual, fora das \u201crela\u00e7\u00f5es familiares limitadas e tempor\u00e1rias, a guerra hobbesiana de todos contra todos\u201d constitui \u201co modelo normal da exist\u00eancia\u201d;<em>[<\/em><em>5<\/em><em>]<\/em> uma posi\u00e7\u00e3o que foi muito popular e prontamente adotada e difundida pelos chamados darwinistas sociais. Em breve, a imagem da vida como uma arena de gladiadores decididos a massacrar uns aos outros se tornaria a representa\u00e7\u00e3o banal e err\u00f4nea pela qual a teoria da evolu\u00e7\u00e3o seria conhecida entre o grande p\u00fablico. Essa vis\u00e3o produziria, e infelizmente continua a produzir, enormes danos, tendo sido criticada publicamente, na \u00e9poca de Geddes, apenas por pouqu\u00edssimos intelectuais.<\/p>\n<p>Um desses personagens, relevante para nossa hist\u00f3ria porque ligado a Patrick Geddes por sentimentos de estima e amizade m\u00fatua,<em>[<\/em><em>6<\/em><em>]<\/em> \u00e9 \u00c9lis\u00e9e Reclus, ge\u00f3grafo franc\u00eas muito conhecido e autor, entre 1876 e 1894, de uma monumental Nouvelle G\u00e9ographie universelle. Cr\u00edtico feroz dos darwinistas sociais e de sua vis\u00e3o gladiat\u00f3ria da vida, escreveu que \u201celes dizem isso com uma esp\u00e9cie de raiva, como se ver sangue os incitasse a matar\u201d.<em>[<\/em><em>7<\/em><em>]<\/em> Sua ideia de evolu\u00e7\u00e3o, plenamente compartilhada com Patrick Geddes, \u00e9 muito diferente. Ele n\u00e3o enfatiza a evolu\u00e7\u00e3o do mais apto atrav\u00e9s da luta individual com unhas e dentes, mas o valor da solidariedade, gra\u00e7as \u00e0 qual assistimos \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de for\u00e7as espont\u00e2neas e coordenadas que levam ao progresso. Nas palavras de Reclus, a lei da luta cega e brutal pela exist\u00eancia, t\u00e3o exaltada pelos adoradores do sucesso, est\u00e1 subordinada a uma segunda lei, a do agrupamento de individualidades fr\u00e1geis em organismos cada vez mais desenvolvidos, que aprendem a se defender das for\u00e7as inimigas, a reconhecer e at\u00e9 mesmo criar recursos do pr\u00f3prio ambiente. Sabemos que, se nossos descendentes atingirem seu elevado destino de ci\u00eancia e liberdade, isso ser\u00e1 devido ao encontro cada vez mais \u00edntimo, \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o incessante, \u00e0 ajuda m\u00fatua a partir da qual a fraternidade cresce gradualmente.<em>[<\/em><em>8<\/em><em>]<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 a esse tipo de evolu\u00e7\u00e3o que Geddes se refere com sua concep\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria da cidade. Uma evolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o age atrav\u00e9s da luta total de todos contra todos, mas que retira sua for\u00e7a fundamental da coopera\u00e7\u00e3o entre seus habitantes.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o que sabemos ser respaldada por s\u00f3lidas evid\u00eancias cient\u00edficas a partir das importantes pesquisas da bi\u00f3loga Lynn Margulis.<em>[<\/em><em>9<\/em><em>]<\/em> De fato, a coopera\u00e7\u00e3o, o apoio m\u00fatuo ou, como dizemos hoje, a simbiose, \u00e9 verdadeiramente um dos principais motores da evolu\u00e7\u00e3o, cuja a\u00e7\u00e3o afeta indiferentemente os indiv\u00edduos, as comunidades e at\u00e9 o desenvolvimento das cidades.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da amizade com Reclus, Geddes foi beneficiado pela proximidade com Kropotkin, a quem conhecia pessoalmente e estimava, e que desempenhou um papel decisivo sobre suas considera\u00e7\u00f5es a respeito da coopera\u00e7\u00e3o como fator de evolu\u00e7\u00e3o. Em 1902, o pr\u00edncipe russo Piotr Aleksei\u00e9vitch Kropotkin, fil\u00f3sofo, cientista, um dos pais do pensamento anarquista, e sobretudo grande bi\u00f3logo evolucionista contr\u00e1rio \u00e0s teses simplistas de Huxley, publicou um volume decisivo intitulado Ajuda m\u00fatua: um fator de evolu\u00e7\u00e3o, cujo in\u00edcio diz:<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg 729w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/06\/01180420\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Dois aspectos da vida animal me impressionaram particularmente durante as viagens que fiz quando jovem \u00e0 Sib\u00e9ria Oriental e ao norte da Manch\u00faria. O primeiro foi a extrema dureza da luta pela sobreviv\u00eancia que quase todas as esp\u00e9cies animais tinham que enfrentar contra uma natureza inclemente; a enorme destrui\u00e7\u00e3o da vida ocorrida periodicamente por causas naturais; e a consequente escassez de vida no vasto territ\u00f3rio que tive a oportunidade de observar. O outro aspecto era n\u00e3o ter conseguido encontrar, mesmo procurando incessantemente, at\u00e9 naqueles poucos lugares onde havia muita vida animal, aquela tal luta feroz pelos meios de subsist\u00eancia entre animais pertencentes \u00e0 mesma esp\u00e9cie, que a maioria dos darwinistas (mas nem sempre o pr\u00f3prio Darwin) considerou a caracter\u00edstica dominante da luta pela vida e o principal fator da evolu\u00e7\u00e3o.<em>[<\/em><em>10<\/em><em>]<\/em><\/p>\n<p>Em seu livro, Kropotkin defende uma tese sugestiva fundamental para a teoria urbana. Explica que, em suas in\u00fameras viagens a algumas das \u00e1reas mais in\u00f3spitas do planeta, quase nunca encontrou entre as popula\u00e7\u00f5es vegetais, animais e humanas dessas \u00e1reas comportamentos que pudessem ser descritos como competitivos ou, em geral, parecidos com aquela ideia de uma arena onde sobrevive o mais tem\u00edvel.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, o que lhe parecia evidente era que havia uma atitude generalizada e consciente de apoio m\u00fatuo e que em ambientes extremos, como na Sib\u00e9ria, a \u00fanica possibilidade de sobreviv\u00eancia de qualquer organismo vivo era por meio da colabora\u00e7\u00e3o plena e incondicional com todos os outros indiv\u00edduos da esp\u00e9cie e, muitas vezes, tamb\u00e9m com aqueles de outras esp\u00e9cies. Certamente n\u00e3o era por meio da competi\u00e7\u00e3o. Kropotkin tamb\u00e9m escreve que, pelo que viu em suas viagens, a competi\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos s\u00f3 pode existir quando ocorrem concomitantemente dois fatores muito importantes: um ambiente favor\u00e1vel e est\u00e1vel combinado a uma riqueza de recursos. Quando um desses requisitos n\u00e3o \u00e9 atendido, a coopera\u00e7\u00e3o, ou melhor, a ajuda m\u00fatua, \u00e9 de longe o sistema mais eficiente e, portanto, prefer\u00edvel pela evolu\u00e7\u00e3o, para garantir a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Trata-se de uma intui\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria que parece ir contra o senso comum. \u00c9 justamente em condi\u00e7\u00e3o de escassez de recursos que imaginar\u00edamos a maior competi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de abund\u00e2ncia. Quantas vezes pensamos que homens ou animais que lutam com ferocidade para garantir os poucos recursos dispon\u00edveis s\u00e3o a representa\u00e7\u00e3o clara da necessidade de competir para sobreviver? A \u00e9tica do gladiador, conforme a qual apenas um permanece vivo: o mais forte. Kropotkin, gra\u00e7as a suas observa\u00e7\u00f5es oportunas e \u00e0 mir\u00edade de exemplos bem documentados, fornece pela primeira vez evid\u00eancias cient\u00edficas para respaldar a ideia de que a coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a motriz fundamental da evolu\u00e7\u00e3o. Uma intui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o s\u00f3 sabemos ser verdadeira, mas que numa \u00e9poca como a nossa, caracterizada por um ambiente inst\u00e1vel (como o que resulta do aquecimento global) e pelo decl\u00ednio dos recursos, assume uma relev\u00e2ncia ainda mais excepcional para a forma como n\u00f3s imaginamos e constru\u00edmos nossas cidades.<\/p>\n<p>Podemos, portanto, afirmar com seguran\u00e7a que a \u00eanfase na sinergia e a coopera\u00e7\u00e3o que Geddes sublinha em seus escritos sobre a cidade s\u00e3o totalmente corroboradas pelo conhecimento cient\u00edfico atual. Desse ponto de vista, sua observ\u00e2ncia dos preceitos da evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 salva. No entanto, onde a ortodoxia vacila um pouco, a ponto de ser incompat\u00edvel com o ensinamento darwiniano, \u00e9 quando Geddes sugere que a evolu\u00e7\u00e3o urbana deve ser imaginada como um desdobramento gradual de um tipo de programa de desenvolvimento inerente \u00e0 pr\u00f3pria cidade. Na verdade, a evolu\u00e7\u00e3o darwiniana nega essa ideia. N\u00e3o h\u00e1 uma finalidade para a evolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 um modelo a ser alcan\u00e7ado, tampouco um aumento de complexidade, como \u00e0s vezes se diz. N\u00e3o existe isso. A evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser prevista, pois a mudan\u00e7a pode ocorrer em qualquer dire\u00e7\u00e3o. A \u00fanica certeza que podemos ter \u00e9 que ela continuar\u00e1 trabalhando incansavelmente, adaptando esp\u00e9cies, assim como cidades, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de um ambiente mut\u00e1vel.<\/p>\n<p>Uma das ideias principais da teoria da evolu\u00e7\u00e3o que Geddes n\u00e3o entende, ou talvez n\u00e3o aceite, \u00e9 que uma combina\u00e7\u00e3o de pequenas mudan\u00e7as, muitas vezes completamente desconectadas entre si, pode levar a uma grande mudan\u00e7a. Essa \u00e9 uma das percep\u00e7\u00f5es mais poderosas de Darwin. Pequenas mudan\u00e7as aleat\u00f3rias podem acarretar o surgimento de uma nova ordem. A evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece por meio de convuls\u00f5es, mas por pequenas mudan\u00e7as graduais. Aqui reside uma das li\u00e7\u00f5es mais valiosas para os urbanistas: o destino de uma cidade n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 nas m\u00e3os de um escrit\u00f3rio de arquitetura ou da administra\u00e7\u00e3o, mas nas a\u00e7\u00f5es de seus cidad\u00e3os, que com seus atos e escolhas cotidianas no m\u00e9dio e longo prazo modificam sempre e de forma impercept\u00edvel sua estrutura. A partir desse ponto de vista, o trabalho daqueles que s\u00e3o chamados a imaginar o futuro das nossas cidades deve levar em conta a for\u00e7a inexor\u00e1vel da evolu\u00e7\u00e3o. Quanto um arquiteto poderia aprender lendo A varia\u00e7\u00e3o das plantas e animais domesticados, de Charles Darwin! E no entanto parece que muitos urbanistas continuam entre os \u00faltimos criacionistas, os \u00faltimos que ainda acreditam no poder criativo do projeto.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 Charles Darwin, The Autobiography of Charles Darwin (1809\u20131882): With Original Omissions Restored. New York City: W. W. Norton &amp; Company, 1993, pp. 106\u201307.<\/p>\n<p>2 Patrick Geddes, Cities in Evolution. London: Ernest Benn Limited, 1968, p. 26.<\/p>\n<p>3 Apud \u201cBiology of Cities\u201d. Time, 30 nov. 1942.<\/p>\n<p>4 Thomas Hobbes, Leviat\u00e3, trad. Gabriel Marques e Renan Birro. Petr\u00f3polis: Vozes, 2020, p. 121.Birro. Petr\u00f3polis: Vozes, 2020, p. 121.<\/p>\n<p>5 Thomas Huxley, \u201cThe Struggle for Existence in Human Society\u201d,<\/p>\n<p>6 in Evolution and Ethics, and Other Essays. London: MacMillan &amp; Co., 1894, p. 204.<\/p>\n<p>7 Si\u00e2n Reynolds, \u201cFrench Connections: The Scientific, Academic and Political Networks of Patrick Geddes in France (1870s\u20131900)\u201d, in David Bates e V\u00e9ronique Gazeau (orgs.), Liens personnels, r\u00e9seaux,<\/p>\n<p>solidarit\u00e9s en France et dans les \u00eeles Britanniques (xie -xxe si\u00e8cle). Paris: \u00c9ditions de la Sorbonne, 2006.<\/p>\n<p>8 \u00c9lis\u00e9e Reclus, \u201cPages de sociologie pr\u00e9historique\u201d. L\u2019Humanit\u00e9 Nou- velle, 1898, p. 138.<\/p>\n<p>9 Id., pref\u00e1cio a L\u00e9on Metchnikoff, La civilisation et les grands fleuves historiques. Paris: Hachette, 1889, pp. xxvii\u2013xxviii.<\/p>\n<p>10 Lynn Margulis, \u201cSymbiosis and Evolution\u201d. Scientiflc American,<\/p>\n<p>v. 225, n. 2, 1971, pp. 48\u201357.<\/p>\n<p>11 Piotr A. Kropotkin, Mutual Aid: A Factor of Evolution. Montreal: Black Rose Books, 1989, p. 35.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Seriam os planejadores urbanos \u201ccriacionistas\u201d quando despreza a intelig\u00eancia coletiva e as transforma\u00e7\u00f5es cotidianas no territ\u00f3rio? Leia cap\u00edtulo de <i>Fit\u00f3polis<\/i><\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/licoes-de-darwin-para-o-planejamento-urbano\/\">Li\u00e7\u00f5es de Darwin para o planejamento urbano<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":81065,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[42920,42921,42922,30105,42923,5872,42924],"tags":[],"class_list":["post-81064","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-charles-darwin","category-fitopolis","category-kropotkin","category-outras-cidades","category-patrick-geddes","category-planejamento-urbano","category-transformacoes-cotidianas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81064"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81064\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}