{"id":81083,"date":"2026-04-01T19:04:05","date_gmt":"2026-04-01T22:04:05","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eis-a-nova-ordem-energetica-mundial\/"},"modified":"2026-04-01T19:04:05","modified_gmt":"2026-04-01T22:04:05","slug":"eis-a-nova-ordem-energetica-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eis-a-nova-ordem-energetica-mundial\/","title":{"rendered":"Eis a Nova Ordem Energ\u00e9tica Mundial"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1246\" height=\"785\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/photo_5073814982289460314_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/photo_5073814982289460314_y.jpg 1246w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/01183217\/photo_5073814982289460314_y-300x189.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/01183217\/photo_5073814982289460314_y-768x484.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1246px) 100vw, 1246px\"><figcaption>Foto: AFP via Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Nils Gilman <\/strong>| Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, n\u00e3o compareceu ao F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial em Davos, na Su\u00ed\u00e7a, em janeiro, para oferecer esperan\u00e7a. Esteve l\u00e1 para decretar uma morte. A ordem internacional liberal \u2014 aquela elaborada arquitetura de institui\u00e7\u00f5es, normas e bens p\u00fablicos garantidos pelos EUA, constru\u00edda ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial \u2014 havia chegado ao fim, anunciou ele, e a ruptura era irrevers\u00edvel. Mas o elogio f\u00fanebre de Carney, por mais s\u00f3brio e preciso que fosse, subestimou a profundidade da ruptura.<\/p>\n<p>O presidente dos EUA, Donald Trump, n\u00e3o est\u00e1 simplesmente encerrando um conjunto de acordos diplom\u00e1ticos ou uma configura\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de rela\u00e7\u00f5es entre grandes pot\u00eancias. Ele est\u00e1 comandando o fim do modelo de civiliza\u00e7\u00e3o industrial movido a combust\u00edveis f\u00f3sseis que tornou a ordem liberal poss\u00edvel, lucrativa e, por um tempo, politicamente sustent\u00e1vel. Trump n\u00e3o iniciou o decl\u00ednio da hegemonia metab\u00f3lica global dos combust\u00edveis f\u00f3sseis; o fen\u00f4meno foi instigado pela manifesta instabilidade causada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e por impedimentos rivais ao acesso ao petr\u00f3leo, como a guerra entre EUA e Israel contra o Ir\u00e3. Mas o presidente assegurou uma disputa acirrada, em vez de uma transi\u00e7\u00e3o tranquila, para substitu\u00ed-lo.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta--10.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta--10.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o da ordem internacional liberal, portanto, n\u00e3o ser\u00e1 negociada em Genebra nem julgada em Haia. Ela ser\u00e1 determinada por quem controla os fluxos de energia, os dep\u00f3sitos minerais e os sistemas tecnol\u00f3gicos dos quais toda a vida moderna depende atualmente.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma guerra fria ecol\u00f3gica, e difere de sua antecessora em aspectos que importam muito. A Guerra Fria original foi uma disputa entre o capitalismo liberal e o comunismo sovi\u00e9tico \u2014 entre duas teorias sobre como as sociedades humanas deveriam se desenvolver economicamente e se organizar politicamente. A nova guerra fria \u00e9 uma disputa entre metabolismos concorrentes.<\/p>\n<p>De um lado, a Entente Verde: a China e um bloco eletroestatal emergente, que apostou seu futuro industrial em pain\u00e9is solares, baterias e vastas cadeias de suprimento de minerais que os alimentam. Do outro, o Eixo dos Petroestados: os Estados Unidos sob Trump, a R\u00fassia e as monarquias do Golfo, que apostaram seu poder e sobreviv\u00eancia fiscal na extens\u00e3o da era dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e na instrumentaliza\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia energ\u00e9tica contra aqueles que desejam p\u00f4r fim a ela.<\/p>\n<p>A ideologia ainda importa nas margens \u2014 mas ela atravessa esses blocos em vez de defini-los. Assim como durante a Guerra Fria, o vencedor nessa luta pode muito bem ser determinado n\u00e3o tanto pelas a\u00e7\u00f5es das superpot\u00eancias em si, mas pelas escolhas das na\u00e7\u00f5es presas entre elas: o que Carney chamou de pot\u00eancias m\u00e9dias.<\/p>\n<p><strong>O <\/strong><strong>eixo dos petroestados <\/strong>\u00e9 uma coaliz\u00e3o reacion\u00e1ria \u2014 liderada de modo not\u00e1vel pelos Estados Unidos, em alian\u00e7a t\u00e1cita com outros grandes estados produtores de petr\u00f3leo e g\u00e1s, como a R\u00fassia e as monarquias do Golfo \u2014 cujos modelos econ\u00f4micos e narrativas civilizacionais est\u00e3o inextricavelmente ligados aos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Para esses governantes, o petr\u00f3leo e o g\u00e1s s\u00e3o mais do que <em>commodities<\/em>; s\u00e3o a prova da virilidade nacional, o combust\u00edvel para um tipo espec\u00edfico de restaura\u00e7\u00e3o tradicionalista e a alavanca que podem usar para minar a ordem liberal que todos detestam.<\/p>\n<p>Ao retornar ao cargo, Trump efetivamente decidiu hastear a bandeira branca na competi\u00e7\u00e3o global pela lideran\u00e7a em tecnologia verde, revogando subs\u00eddios para as ind\u00fastrias do futuro. \u00c9 verdade que, em vez de admitir a derrota de forma direta, partiu para o ataque ret\u00f3rico. Sua Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional para 2025 descarta as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como uma ideologia \u201cdesastrosa\u201d e fala de \u201cdom\u00ednio energ\u00e9tico\u201d nacional como um contraponto ao fraco (e com conota\u00e7\u00f5es femininas) globalismo verde. Ecoando ansiedades de g\u00eanero semelhantes, o presidente russo Vladimir Putin argumenta que as receitas do petr\u00f3leo podem financiar a busca da R\u00fassia por uma civiliza\u00e7\u00e3o ortodoxa \u00fanica e autossuficiente, que resista \u00e0 \u201cdecad\u00eancia ocidental\u201d. E para o pr\u00edncipe herdeiro Mohammed bin Salman, a riqueza petrol\u00edfera da Ar\u00e1bia Saudita promete transformar o reino des\u00e9rtico em um centro global de alta tecnologia, mantendo a lideran\u00e7a entre o mundo isl\u00e2mico. Em suma, embora difiram em tipo de regime, os tr\u00eas s\u00e3o unidos por uma vis\u00e3o compartilhada de \u201csoberania f\u00f3ssil\u201d que v\u00ea a transi\u00e7\u00e3o verde como um cavalo de Troia para uma vis\u00e3o de mundo regulat\u00f3ria que amea\u00e7a suas formas espec\u00edficas de poder centralizado e identidade nacional masculinista.<\/p>\n<p>Para garantir que a demanda global por combust\u00edveis f\u00f3sseis permane\u00e7a aquecida, os Estados Unidos est\u00e3o alavancando as vantagens de sua posi\u00e7\u00e3o dominante. Ao contr\u00e1rio da Entente Verde, que precisa construir uma infraestrutura de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e consumo de energia completamente nova a partir do zero, o Eixo dos Petroestados est\u00e1 adotando uma postura defensiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infraestrutura \u2014 uma posi\u00e7\u00e3o estrategicamente mais f\u00e1cil. O pa\u00eds utiliza seu poderio financeiro e militar para proteger as cadeias de suprimento de combust\u00edveis f\u00f3sseis existentes \u2014 com Trump amea\u00e7ando, em meio \u00e0 guerra contra o Ir\u00e3, \u201ctomar o controle\u201d do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petr\u00f3leo do Golfo P\u00e9rsico \u2014 e incentivando as na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento a consolidarem seus modelos de desenvolvimento com usinas termel\u00e9tricas a carv\u00e3o e g\u00e1s e infraestrutura de combust\u00e3o interna.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Sob o governo Trump, a Corpora\u00e7\u00e3o Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (IDFC), que no per\u00edodo do ex-presidente Joe Biden havia sido impedida de financiar projetos de combust\u00edveis f\u00f3sseis no exterior, redirecionou seus empr\u00e9stimos para infraestrutura de carv\u00e3o, g\u00e1s e petr\u00f3leo em pa\u00edses em desenvolvimento, subsidiando, na pr\u00e1tica, a exporta\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia metab\u00f3lica com a pr\u00f3pria infraestrutura. Ap\u00f3s a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, que levou as na\u00e7\u00f5es europeias a buscarem fontes alternativas de g\u00e1s, Trump pressionou os aliados europeus a comprarem mais g\u00e1s natural liquefeito (GNL) dos EUA como condi\u00e7\u00e3o para a manuten\u00e7\u00e3o das garantias de seguran\u00e7a. Esses contratos, geralmente com dura\u00e7\u00e3o de 15 a 20 anos, s\u00e3o compromissos t\u00e3o vinculativos quanto qualquer investimento em infraestrutura. Os Estados Unidos, portanto, visam criar uma depend\u00eancia metab\u00f3lica de longo prazo.<\/p>\n<p>Dentro desse bloco, a Ar\u00e1bia Saudita atua como fornecedora de equil\u00edbrio, n\u00e3o apenas por sua influ\u00eancia diplom\u00e1tica, mas tamb\u00e9m pela fria matem\u00e1tica da geologia de extra\u00e7\u00e3o. A vis\u00e3o de longo prazo da Casa de Saud \u00e9 a de ser a \u00faltima produtora de combust\u00edveis f\u00f3sseis a permanecer de p\u00e9, mesmo com as mudan\u00e7as globais. O custo da extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no Golfo \u00e9 o mais baixo do mundo, raramente ultrapassando US$ 10 por barril \u2014 muito abaixo do custo do fraturamento hidr\u00e1ulico em xisto nos Estados Unidos (cerca de US$ 62 por barril, segundo o Federal Reserve dos EUA) ou na R\u00fassia (onde os po\u00e7os mais baratos custam de US$ 25 a US$ 40 por barril para operar). Isso significa que os sauditas podem sobreviver a guerras de pre\u00e7os que levariam seus aliados \u00e0 fal\u00eancia. Ao manter a capacidade de inundar o mercado e derrubar os pre\u00e7os, Riad pode, simultaneamente, punir os pa\u00edses em transi\u00e7\u00e3o e garantir que os combust\u00edveis f\u00f3sseis continuem sendo o caminho de menor resist\u00eancia para as economias em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as ressaltam que, assim como Berlim-Roma-T\u00f3quio na d\u00e9cada de 1930, essa nova alian\u00e7a entre petroestados \u00e9 um casamento por conveni\u00eancia, e n\u00e3o um bloco monol\u00edtico. Embora Moscou, Riad e Washington estejam alinhados no desejo de manter o consumo global de combust\u00edveis f\u00f3sseis e de disseminar desinforma\u00e7\u00e3o sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas para atingir esse objetivo, eles tamb\u00e9m competem em pre\u00e7o no mercado global de petr\u00f3leo. Muitas diferen\u00e7as geopol\u00edticas continuam a dividi-los: os Estados Unidos e a R\u00fassia permanecem em desacordo sobre a Ucr\u00e2nia, e a R\u00fassia e a Ar\u00e1bia Saudita continuam a apoiar lados opostos em guerras regionais, do Ir\u00e3 ao Sud\u00e3o e \u00e0 S\u00edria.<\/p>\n<p>Em oposi\u00e7\u00e3o aos petroestados estar\u00e1 a Entente Verde, dominada pela China. Enquanto os Estados Unidos e seus novos aliados se refugiam em combust\u00edveis f\u00f3sseis, Beijing se posiciona para dominar o emergente sistema energ\u00e9tico p\u00f3s-carbono.<\/p>\n<p>Nascida de uma ambi\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica para garantir a legitimidade do regime e liderar as ind\u00fastrias do futuro, a China domina todos os elos da cadeia de valor da ind\u00fastria verde: segundo a Ag\u00eancia Internacional de Energia, controla mais de 90% do processamento global de terras raras e 94% da produ\u00e7\u00e3o de \u00edm\u00e3s permanentes (essenciais para motores de ve\u00edculos el\u00e9tricos e turbinas e\u00f3licas); sua participa\u00e7\u00e3o na fabrica\u00e7\u00e3o de pain\u00e9is solares ultrapassa 80%; e produz mais de 70% de todas as baterias para ve\u00edculos el\u00e9tricos, al\u00e9m de responder por mais de 70% da produ\u00e7\u00e3o global desses ve\u00edculos. Nove d\u00e9cimos do crescimento do investimento chin\u00eas em 2025 foram destinados ao setor de energia verde. O pa\u00eds tamb\u00e9m desvinculou esse crescimento da demanda ocidental: cerca de 47% das exporta\u00e7\u00f5es chinesas de tecnologia verde agora se destinam a mercados emergentes, tornando-o um parceiro indispens\u00e1vel para pa\u00edses do Sul Global, da \u00c1frica \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Em suma, alavancando seu Estado desenvolvimentista centralizador, a China passou, em menos de uma gera\u00e7\u00e3o, de maior vil\u00e3 ambiental do mundo \u00e0 hegemonia em tecnologia verde.<\/p>\n<p>Aqueles que se inclinam para a Entente Verde frequentemente veem a moderniza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica como um imperativo para sustentar a habitabilidade do planeta. Mas n\u00e3o se trata apenas de ambientalismo. As tecnologias verdes possuem vantagens termodin\u00e2micas fundamentais sobre os combust\u00edveis f\u00f3sseis, que sofrem com perdas de energia dispendiosas durante a extra\u00e7\u00e3o, o refino e o transporte. Para a maioria dos usos terrestres, os ve\u00edculos el\u00e9tricos, por serem mais simples de fabricar e manter, j\u00e1 s\u00e3o funcionalmente superiores aos motores de combust\u00e3o interna. Da mesma forma, o custo marginal da produ\u00e7\u00e3o de energia verde j\u00e1 \u00e9 menor do que o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, mesmo se ignorarmos as externalidades ambientais. At\u00e9 mesmo os c\u00e9ticos quanto \u00e0 probabilidade de uma transi\u00e7\u00e3o verde r\u00e1pida, como V\u00e1clav Smil, reconhecem que a tecnologia verde est\u00e1 se destacando na produ\u00e7\u00e3o e no transporte de energia.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia, tendo sofrido com sua depend\u00eancia do g\u00e1s natural russo e agora enfrentando uma depend\u00eancia paralela dos Estados Unidos beligerantes (que por acaso tamb\u00e9m t\u00eam dezenas de milhares de soldados estacionados em solo europeu), tem um forte incentivo estrat\u00e9gico para aderir \u00e0 Entente Verde. A l\u00f3gica por tr\u00e1s desse alinhamento seria pragm\u00e1tica: a Europa oferece mercados pr\u00f3speros, enquanto a China fornece a for\u00e7a industrial. O mesmo se aplica a pa\u00edses como a \u00cdndia e o Jap\u00e3o, respectivamente a quarta e a quinta maiores economias do mundo, que dependem de importa\u00e7\u00f5es para a maior parte de seu petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>O problema, claro, \u00e9 que aderir a esse bloco n\u00e3o \u00e9 um simples acordo comercial; significa, na pr\u00e1tica, entrar em um sistema hier\u00e1rquico liderado por Beijing. Como a China garantiu uma enorme (talvez at\u00e9 insuper\u00e1vel) vantagem tanto na gera\u00e7\u00e3o de energia limpa quanto em sistemas de transporte, qualquer pa\u00eds que busque se tornar mais sustent\u00e1vel \u00e9 essencialmente for\u00e7ado a adotar equipamentos e padr\u00f5es chineses. Dessa perspectiva, a Entente Verde pode representar o surgimento do que Joel Wainwright e Geoff Mann denominaram \u201cLeviat\u00e3 Clim\u00e1tico\u201d: um sistema global onde a emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u00e9 usada como pretexto para uma nova forma de dom\u00ednio, em que o tributo \u00e9 pago com depend\u00eancia tecnol\u00f3gica e risco de press\u00e3o pol\u00edtica por parte de um regime n\u00e3o liberal e nacionalista.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da ordem internacional liberal para a nova guerra fria ecoideol\u00f3gica imp\u00f5e um c\u00e1lculo estrat\u00e9gico brutal aos pa\u00edses apanhados entre os dois blocos. O que Carney chamou de pot\u00eancias m\u00e9dias \u2014 um grupo diverso que vai desde na\u00e7\u00f5es ricas e consolidadas como Canad\u00e1, Fran\u00e7a e Jap\u00e3o a gigantes emergentes como Brasil, \u00cdndia e Indon\u00e9sia \u2014 enfrenta um dilema iliberal: escolher entre a depend\u00eancia de um bloco de petroestados militarmente agressivos, cujo conjunto tecnol\u00f3gico preferido praticamente garante a ru\u00edna ecol\u00f3gica do planeta, e a submiss\u00e3o ao Leviat\u00e3 em ascens\u00e3o em Pequim.<\/p>\n<p>Se a Guerra Fria original foi, em grande medida, uma disputa pelos \u201ccora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d do mundo p\u00f3s-colonial em torno de modelos concorrentes de desenvolvimento econ\u00f4mico, esta nova era ser\u00e1 uma disputa pelas almas metab\u00f3licas das pot\u00eancias m\u00e9dias \u2014 os alicerces infraestruturais e energ\u00e9ticos sobre os quais seus futuros ser\u00e3o constru\u00eddos. E, diferentemente da lealdade ideol\u00f3gica, a infraestrutura energ\u00e9tica \u00e9 complexa. Uma vez que um pa\u00eds constr\u00f3i sua rede el\u00e9trica em torno do g\u00e1s natural, uma vez que povoa suas estradas com motores de combust\u00e3o interna, uma vez que vincula sua base industrial a insumos petroqu\u00edmicos, reverter o curso torna-se extraordinariamente caro. O mesmo ocorre se um pa\u00eds optar pelo caminho do eletroestado. Os l\u00edderes de ambos os blocos entendem isso e ambos est\u00e3o usando essa estrat\u00e9gia como arma.<\/p>\n<p>O Eixo dos Petroestados utilizar\u00e1 a energia como alavanca em duas dire\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas. Internamente, os Estados Unidos e os produtores do Golfo usar\u00e3o combust\u00edveis f\u00f3sseis baratos e facilmente dispon\u00edveis como ferramenta de clientelismo, oferecendo aos pa\u00edses em desenvolvimento acesso r\u00e1pido e acess\u00edvel \u00e0 energia em troca de um v\u00ednculo de longo prazo com a infraestrutura. A Ar\u00e1bia Saudita poder\u00e1 inundar os mercados globais de petr\u00f3leo \u00e0 vontade, derrubando os pre\u00e7os precisamente quando as alternativas verdes se tornarem competitivas em termos de custo, minando assim a viabilidade do investimento em eletrifica\u00e7\u00e3o em economias sens\u00edveis a pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Externamente, os pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo usar\u00e3o a energia como instrumento de coer\u00e7\u00e3o contra a pr\u00f3pria Entente Verde, amea\u00e7ando cortar o fornecimento, manipular pre\u00e7os ou desestabilizar economias em transi\u00e7\u00e3o dependentes de combust\u00edveis f\u00f3sseis que ainda n\u00e3o conclu\u00edram sua mudan\u00e7a para energias renov\u00e1veis. A Europa, ainda dependente de GNL mesmo ap\u00f3s o rompimento com a R\u00fassia, permanece extremamente vulner\u00e1vel a esse tipo de press\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a Entente Verde aproveitar\u00e1 seu dom\u00ednio em equipamentos de energia limpa com igual delibera\u00e7\u00e3o. O controle sobre pain\u00e9is solares, baterias de \u00edon-l\u00edtio, cadeias de suprimentos de ve\u00edculos el\u00e9tricos e processamento de terras raras confere a Pequim influ\u00eancia infraestrutural sobre qualquer na\u00e7\u00e3o que busque modernizar seu metabolismo energ\u00e9tico. A vantagem aqui reside menos na queda de pre\u00e7os e mais em padr\u00f5es, compatibilidade e depend\u00eancia. Um pa\u00eds que constr\u00f3i sua rede el\u00e9trica com inversores chineses, que utiliza ve\u00edculos el\u00e9tricos chineses em suas estradas e que utiliza sistemas de gest\u00e3o digital chineses para seus dados energ\u00e9ticos, efetivamente aderiu \u00e0 Entente, quer tenha tido essa inten\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora os porta-vozes do regime neguem, a China tamb\u00e9m usar\u00e1 o acesso a financiamento verde e transfer\u00eancias de tecnologia como moeda diplom\u00e1tica, recompensando o alinhamento e negando coopera\u00e7\u00e3o \u00e0queles que se mostram muito alinhados com o Eixo. Al\u00e9m disso, para pa\u00edses como Alemanha, Jap\u00e3o e Coreia do Sul, trocar a hegemonia petrol\u00edfera dos EUA pela hegemonia el\u00e9trica chinesa n\u00e3o s\u00f3 entra em conflito com compromissos ideol\u00f3gicos e \u00e9ticos de longa data com a democracia e os direitos humanos, como tamb\u00e9m amea\u00e7a enfraquecer suas bases industriais j\u00e1 fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o crucial para as pot\u00eancias m\u00e9dias \u00e9 se a independ\u00eancia genu\u00edna ainda \u00e9 poss\u00edvel ou se a f\u00edsica da infraestrutura energ\u00e9tica acabar\u00e1 por for\u00e7ar uma escolha. A interoperabilidade das redes, os sistemas de compensa\u00e7\u00e3o financeira, as redes de fornecimento de equipamentos e o aprofundamento dos investimentos em capital humano incentivar\u00e3o o compromisso em um sentido ou outro. A intensifica\u00e7\u00e3o da press\u00e3o geopol\u00edtica aumentar\u00e1 o custo de se manter em ambos os lados \u2014 mas tamb\u00e9m o incentivo para que essas pot\u00eancias criem espa\u00e7o entre os dois blocos. Podemos chamar isso de um novo movimento n\u00e3o alinhado.<\/p>\n<p>O Movimento dos N\u00e3o-Alinhados (MNA) original nasceu da Confer\u00eancia Afro-Asi\u00e1tica em Bandung, Indon\u00e9sia, em 1955, e foi formalmente estabelecido em Belgrado, Iugosl\u00e1via, em 1961. Era liderado por um quinteto lend\u00e1rio: Gamal Abdel Nasser, do Egito; Kwame Nkrumah, de Gana; Jawaharlal Nehru, da \u00cdndia; Sukarno, da Indon\u00e9sia; e Josip Broz Tito, da Iugosl\u00e1via. Esses l\u00edderes buscavam um \u201ccaminho do meio\u201d para os estados que haviam acabado de se libertar das amarras do colonialismo e se recusavam a ser arrastados para a loucura bin\u00e1ria da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Um dos principais objetivos do NAM era promover a coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica entre os estados p\u00f3s-coloniais como alternativa \u00e0 depend\u00eancia econ\u00f4mica da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ou dos Estados Unidos. Sua miss\u00e3o era tanto psicol\u00f3gica quanto pol\u00edtica: uma reivindica\u00e7\u00e3o de dignidade, autodetermina\u00e7\u00e3o e o que Julius Nyerere, da Tanz\u00e2nia, chamou de \u201cneutralidade positiva\u201d, que impediria que seus territ\u00f3rios se tornassem meros palcos de guerras por procura\u00e7\u00e3o entre superpot\u00eancias.<\/p>\n<p>Enquanto o NAM original visava manter a autonomia ideol\u00f3gica e econ\u00f4mica, \u00e0 parte da divis\u00e3o da Guerra Fria entre americanos e sovi\u00e9ticos, o novo agrupamento se concentrar\u00e1 mais no n\u00e3o alinhamento infraestrutural. Diferentemente do NAM original, liderado por estados p\u00f3s-coloniais empobrecidos, as pot\u00eancias m\u00e9dias atuais possuem significativa capacidade diplom\u00e1tica, militar e econ\u00f4mica. Elas t\u00eam os recursos para formar acordos diplom\u00e1ticos plurilaterais que podem contornar institui\u00e7\u00f5es tradicionais e decadentes, como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, as Na\u00e7\u00f5es Unidas ou a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio. Um acordo de energia verde e com\u00e9rcio entre Chile, Nova Zel\u00e2ndia e Singapura, ou um pacto de produtores de minerais entre Brasil e \u00cdndia, n\u00e3o requer a aprova\u00e7\u00e3o de uma grande pot\u00eancia nem responde a um \u00e1rbitro hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>A especificidade material da transi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m proporciona a algumas pot\u00eancias m\u00e9dias formas de influ\u00eancia que n\u00e3o estavam dispon\u00edveis durante a primeira Guerra Fria. Como o modelo eletroestatal requer vastas quantidades de minerais cr\u00edticos \u2014 l\u00edtio, cobalto, terras raras, etc. \u2014 os pa\u00edses ricos nesses recursos tornaram-se um trunfo estrat\u00e9gico crucial. Estados como o Brasil, a Indon\u00e9sia e o Cazaquist\u00e3o, todos bem dotados tanto de hidrocarbonetos quanto de minerais relevantes para tecnologias verdes, est\u00e3o implementando com sucesso pol\u00edticas de multialinhamento para atrair investimentos de ambos os blocos, jogando Pequim e Washington um contra o outro para maximizar sua pr\u00f3pria autonomia nacional.<\/p>\n<p>As estrat\u00e9gias que as pot\u00eancias m\u00e9dias est\u00e3o adotando em rela\u00e7\u00e3o a outro dom\u00ednio da rivalidade geoestrat\u00e9gica entre EUA e China \u2013 a saber, intelig\u00eancia artificial e outras formas de computa\u00e7\u00e3o \u2013 fornecem uma pista sobre como o desalinhamento infraestrutural pode se apresentar. Em vez de aceitar um pacote pr\u00e9-fabricado de qualquer uma das superpot\u00eancias, muitas pot\u00eancias m\u00e9dias est\u00e3o buscando uma terceira via. O Vietn\u00e3, por exemplo, est\u00e1 desenvolvendo suas pr\u00f3prias inst\u00e2ncias de IA em vez de se comprometer exclusivamente com hardware americano ou chin\u00eas. Na \u00c1frica, empreendedores est\u00e3o se dedicando \u00e0 \u201csutura algor\u00edtmica\u201d, combinando hardware chin\u00eas com software ocidental para criar solu\u00e7\u00f5es locais que nenhuma das superpot\u00eancias controla totalmente. A \u00cdndia tamb\u00e9m est\u00e1 desenvolvendo seu pr\u00f3prio modelo de soberania em IA.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das especificidades materiais da infraestrutura, o que torna este novo movimento de n\u00e3o alinhamento estruturalmente diferente do seu antecessor n\u00e3o \u00e9 apenas a maior capacidade dos seus membros constituintes, mas sim a sua vontade coletiva de tratar as institui\u00e7\u00f5es multilaterais de forma instrumental, em vez de reverente. Enquanto o Movimento dos N\u00e3o Alinhados original operava em grande parte atrav\u00e9s do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2014 fazendo lobby, apresentando peti\u00e7\u00f5es e aprovando resolu\u00e7\u00f5es em f\u00f3runs controlados, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pelas grandes pot\u00eancias \u2014, as pot\u00eancias m\u00e9dias de hoje est\u00e3o construindo arquiteturas paralelas. A expans\u00e3o dos BRICS, o crescente peso diplom\u00e1tico da Associa\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es do Sudeste Asi\u00e1tico e a prolifera\u00e7\u00e3o de bancos regionais de desenvolvimento refletem um instinto partilhado: o de que a ordem existente, baseada em regras, foi concebida por e para uma configura\u00e7\u00e3o de poder espec\u00edfica que j\u00e1 n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Essas na\u00e7\u00f5es n\u00e3o buscam tanto derrubar o sistema, mas sim contorn\u00e1-lo, construindo acordos bilaterais de swap cambial, pactos regionais de cadeia de suprimentos e acordos de compartilhamento de tecnologia que reduzem sua exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia de qualquer superpot\u00eancia. Em \u00faltima an\u00e1lise, a escolha das pot\u00eancias m\u00e9dias se resume ao tipo de modernidade que desejam adotar. O novo movimento provavelmente n\u00e3o ter\u00e1 um secretariado formal ou uma carta de funda\u00e7\u00e3o; sua coer\u00eancia depender\u00e1 de fatores externos que emergem n\u00e3o da solidariedade ideol\u00f3gica, mas do interesse pragm\u00e1tico comum em preservar a capacidade de escolha.<\/p>\n<p>Mas, tal como no NAM original, as pot\u00eancias m\u00e9dias tamb\u00e9m enfrentam profundas divis\u00f5es internas, divididas entre os produtores de petr\u00f3leo que beneficiam dos pre\u00e7os elevados e os pa\u00edses em transi\u00e7\u00e3o que anseiam desesperadamente por seguran\u00e7a energ\u00e9tica. Esta linha divis\u00f3ria poder\u00e1 revelar-se a maior vulnerabilidade do novo movimento. O NAM original fragmentou-se repetidamente precisamente ao longo deste tipo de linhas de interesse material \u2014 entre exportadores de mat\u00e9rias-primas e economias industriais, entre na\u00e7\u00f5es que procuram investimento estrangeiro e aquelas que procuram a substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es \u2014 e a configura\u00e7\u00e3o atual acarreta tens\u00f5es an\u00e1logas.<\/p>\n<p>Angola ou Nig\u00e9ria, cujas receitas estatais continuam fortemente dependentes das exporta\u00e7\u00f5es de hidrocarbonetos, t\u00eam incentivos fundamentalmente diferentes de Bangladesh ou Qu\u00eania, cujas trajet\u00f3rias de desenvolvimento dependem de eletricidade acess\u00edvel e confi\u00e1vel e cujas popula\u00e7\u00f5es est\u00e3o extremamente expostas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O primeiro tem todos os incentivos para se alinhar discretamente com o bloco petroestatal, prolongando a era dos combust\u00edveis f\u00f3sseis que garante sua sobreviv\u00eancia fiscal. O segundo precisa da tecnologia e do financiamento do bloco eletroestatal, mesmo que se ressinta da depend\u00eancia que isso acarreta.<\/p>\n<p>Essas n\u00e3o s\u00e3o diverg\u00eancias que podem ser disfar\u00e7adas com comunicados diplom\u00e1ticos. Elas refletem interesses materiais genuinamente incompat\u00edveis, e qualquer nova coaliz\u00e3o de pa\u00edses n\u00e3o alinhados ser\u00e1 obrigada a gerenci\u00e1-las continuamente, sob o risco de sofrer o tipo de incoer\u00eancia interna que acabou por corroer sua antecessora. O resultado mais prov\u00e1vel \u00e9 um cen\u00e1rio fragmentado de coaliz\u00f5es focadas em quest\u00f5es espec\u00edficas: na\u00e7\u00f5es se agrupando em torno de interesses comuns em pre\u00e7os de minerais, financiamento clim\u00e1tico ou acesso \u00e0 tecnologia, sem jamais se consolidarem completamente em um terceiro polo coerente.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, a escolha das pot\u00eancias m\u00e9dias se resume ao tipo de modernidade que desejam adotar. O bloco petroestatal oferece uma vis\u00e3o retr\u00f3grada e intensiva em carbono, na qual os fracos e os pequenos s\u00e3o firmemente subordinados aos fortes e aos grandes \u2014 um mundo onde a abund\u00e2ncia de energia \u00e9 instrumentalizada como clientelismo, onde o petr\u00f3leo barato compra lealdade e onde a depend\u00eancia infraestrutural de milhares de contratos de fornecimento gradualmente inviabiliza o futuro.<\/p>\n<p>A ades\u00e3o a uma Entente Verde liderada pela China oferece algo formalmente mais progressista: um modelo p\u00f3s-carbono voltado para o futuro, que leva a s\u00e9rio as limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de um planeta em aquecimento. Mas tamb\u00e9m carrega uma sombra \u2014 a potencial subordina\u00e7\u00e3o da soberania metab\u00f3lica nacional a uma arquitetura de cadeia de suprimentos centrada em Beijing. Trata-se de um abismo estrat\u00e9gico: alinhar-se com o passado agressivo e decadente ou com o futuro eficiente e neocentralizador.<\/p>\n<p>O que torna este momento historicamente singular \u00e9 que a escolha n\u00e3o \u00e9 primordialmente ideol\u00f3gica. A Guerra Fria original foi, em sua ess\u00eancia, uma disputa entre teorias concorrentes sobre como as sociedades humanas deveriam se organizar \u2014 democracia versus comunismo, mercados versus planejamento, liberdade individual versus mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva. A nova Guerra Fria transcende todas essas categorias. Petroestados autorit\u00e1rios e nominalmente democr\u00e1ticos convivem confortavelmente no mesmo bloco. A centraliza\u00e7\u00e3o verde da China e o liberalismo clim\u00e1tico da Europa competem dentro da mesma Entente potencial. O eixo organizador n\u00e3o \u00e9 a filosofia pol\u00edtica, mas o metabolismo f\u00edsico \u2014 quem controla a energia, os minerais e a tecnologia dos quais a modernidade depende.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o novo movimento n\u00e3o alinhado, se conseguir se consolidar, ser\u00e1 t\u00e3o diferente de seu antecessor. N\u00e3o ser\u00e1 impulsionado pela solidariedade da era de Bandung ou pela ideologia terceiro-mundista, mas sim pelo pragmatismo g\u00e9lido de clubes plurilaterais de compra de minerais e pela integra\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Seu maior trunfo \u00e9 a pr\u00f3pria materialidade da transi\u00e7\u00e3o: o l\u00edtio sob os salares argentinos, o projeto de n\u00edquel-cobalto de Kalgoorlie na Austr\u00e1lia e as terras raras distribu\u00eddas pela Indon\u00e9sia e Cazaquist\u00e3o conferem \u00e0s pot\u00eancias m\u00e9dias uma forma de influ\u00eancia que o Movimento N\u00e3o Alinhado p\u00f3s-colonial jamais possuiu. Sua maior vulnerabilidade, como o grupo original descobriu \u00e0s suas custas, \u00e9 a fratura interna \u2014 a tens\u00e3o irreconcili\u00e1vel entre os produtores de petr\u00f3leo, cuja sobreviv\u00eancia fiscal depende da prolonga\u00e7\u00e3o da era dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, e os pa\u00edses em transi\u00e7\u00e3o, cujo futuro de desenvolvimento depende do seu fim.<\/p>\n<p>O elogio de Carney \u00e0 velha ordem em Davos n\u00e3o foi um lamento. Foi o reconhecimento de que a ordem internacional liberal baseada em regras \u2014 aquela agrad\u00e1vel fic\u00e7\u00e3o de normas jur\u00eddicas e defer\u00eancia institucional \u2014 j\u00e1 havia sido destru\u00edda e que a quest\u00e3o n\u00e3o era mais como restaur\u00e1-la, mas como sobreviver \u00e0 sua aus\u00eancia. As pot\u00eancias m\u00e9dias s\u00e3o o cadinho onde a resposta ser\u00e1 forjada. Seu sucesso depende de sua capacidade de converter sua riqueza mineral, peso demogr\u00e1fico e habilidade diplom\u00e1tica arduamente conquistada em uma genu\u00edna terceira via \u2014 que rejeite tanto o suic\u00eddio ecol\u00f3gico planet\u00e1rio do clientelismo do Eixo dos Petroestados quanto a depend\u00eancia infraestrutural da Entente Verde.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Eis a Nova Ordem Energ\u00e9tica Mundial appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ira-desafia-israel-anunciando-filho-de-khamenei-como-novo-aiatola-afirma-internacionalista\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ir\u00e3 desafia Israel anunciando filho de Khamenei co...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/exposicao-na-assembleia-gaucha-denuncia-feminicidios-em-meio-a-alta-de-casos-no-estado\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Exposi\u00e7\u00e3o na Assembleia ga\u00facha denuncia feminic\u00eddi...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/impeachment-de-trump-relator-da-onu-denuncia-agressao-ilegal-na-venezuela\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Impeachment de Trump: relator da ONU denuncia \u201cagr...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quarta-feira-de-cinzas-e-feriado-em-fevereiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/banco-e1771425512413-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Quarta-feira de cinzas \u00e9 feriado em fevereiro?<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esbo\u00e7am-se dois blocos. EUA lideram o dos f\u00f3sseis, da guerra e da virilidade opressora. Op\u00f5e-se a China \u2013 que optou por energia limpa, disp\u00f5e-se a difundir seu uso e tamb\u00e9m n\u00e3o abre m\u00e3o de exercer hegemonia. H\u00e1 espa\u00e7o para n\u00e3o-alinhados?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/eis-a-nova-ordem-energetica-mundial\/\">Eis a Nova Ordem Energ\u00e9tica Mundial<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":81084,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[8019,5511,292,154,7218,1023,37799,2281,9,5700,8719,1103,238,38405,553,337],"tags":[],"class_list":["post-81083","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antropoceno","category-capa","category-china","category-crise-climatica","category-desenvolvimento-sustentavel","category-donald-trump","category-economia-fossil","category-energias-limpas","category-eua","category-geopolitica-guerra","category-guerra-no-ira","category-nova-rota-da-seda","category-oriente-medio","category-petrodolares","category-transicao-energetica","category-xi-jinping"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81083","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81083"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81083\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}