{"id":8116,"date":"2024-12-11T14:38:26","date_gmt":"2024-12-11T17:38:26","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor\/"},"modified":"2024-12-11T14:38:26","modified_gmt":"2024-12-11T17:38:26","slug":"diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor\/","title":{"rendered":"\u2018Diretas J\u00e1\u2019 na Unesp: h\u00e1 40 anos, universidade se mobilizava pela escolha do reitor"},"content":{"rendered":"<p>Passava do meio-dia de quinta-feira 24 de maio de 1984 quando mais de 100 estudantes desembarcaram na esta\u00e7\u00e3o S\u00e9 do metr\u00f4, no centro de S\u00e3o Paulo, carregando colch\u00f5es e mochilas. Divididos em trios espalhados pela pra\u00e7a, eles observavam o vaiv\u00e9m dos pesados port\u00f5es do n\u00famero 108, na esquina da rua Benjamin Constant. Era o endere\u00e7o da reitoria da <strong>Unesp<\/strong>.<\/p>\n<p>Quando as portas se abriram por um instante para um entregador, os alunos aproveitaram a deixa, avan\u00e7aram, passaram pelo porteiro e subiram at\u00e9 o s\u00e9timo andar, bradando \u201cUnesp unida jamais ser\u00e1 vencida\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOcupamos\u201d, lembra Domingos Carnesecca Neto, 67, \u00e0 \u00e9poca estudante de economia do c\u00e2mpus de Araraquara. Assim que se instalaram no edif\u00edcio, os alunos dispararam mensagens de telex para todos os c\u00e2mpus e reda\u00e7\u00f5es de jornal, informando que a reitoria estava ocupada: eles exigiam elei\u00e7\u00f5es diretas na universidade.<\/p>\n<p>Um dos lemas era \u201c<strong>diretas urgentes para reitor e presidente<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEra <strong>tempo de democracia<\/strong> e abertura pol\u00edtica com ares de liberdade e contesta\u00e7\u00e3o\u201d, define Gilberto Moreira Mello, 63, que estudava medicina no c\u00e2mpus de Botucatu. No boom da campanha das Diretas J\u00e1, nos c\u00e2mpus tamb\u00e9m se discutia como democratizar as universidades, conta ele, hoje m\u00e9dico radicado em Santos. Discuss\u00f5es assim aconteceram na Ufscar, na Unicamp e na PUC-SP, mas foi na Unesp que a causa tomou corpo.<\/p>\n<p>Os dias que os estudantes passaram ocupando a reitoria foram intensos: organizaram assembleias e atividades culturais, confeccionaram faixas para pendurar no pr\u00e9dio, fizeram faxina, conversavam sobre Diretas J\u00e1 e DCE Livre, cozinharam a pr\u00f3pria comida utilizando ingredientes de cestas cedidas pela Arquidiocese de S\u00e3o Paulo e levaram jornalistas para um \u201ctour\u201d pelas instala\u00e7\u00f5es para mostrar que estava tudo em ordem, pois n\u00e3o queriam ser acusados de baderna. \u201cFoi uma Rep\u00fablica de estudantes, com \u2018R\u2019 mai\u00fasculo\u201d, diz Solange T\u00f3la, 61, ent\u00e3o estudante de agronomia de Botucatu, que tamb\u00e9m participou da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Perto dali fica a Faculdade de Direito da USP, no Largo S\u00e3o Francisco. O jornalista Eug\u00eanio Bucci, ent\u00e3o presidente do centro acad\u00eamico 11 de Agosto, foi \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o prestar solidariedade aos estudantes unespianos e ofereceu apoio jur\u00eddico da famosa \u201cSan Fran\u201d. O movimento tamb\u00e9m atraiu aten\u00e7\u00f5es de artistas e pol\u00edticos \u2013 entre eles, Eduardo Suplicy (PT) e Jos\u00e9 Geno\u00edno (PT). At\u00e9 o vice-governador, Orestes Qu\u00e9rcia (MDB), foi visitar o endere\u00e7o, num sinal de apoio extra-oficial do governo paulista e disse \u201cParab\u00e9ns\u201d aos estudantes, relata T\u00e9rcio Loureiro Redondo, 66, ent\u00e3o integrante do centro acad\u00eamico de Botucatu. Franco Montoro (MDB), um dos articuladores das Diretas J\u00e1, era quem ocupava o Pal\u00e1cio dos Bandeirantes. Estava nas m\u00e3os dele o destino da reitoria.<\/p>\n<figure><figcaption>\u00c0 esquerda, ato da campanha Diretas-J\u00e1 para presidente em S\u00e3o Paulo. Direita: ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria da Unesp em 1984.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na \u00e9poca, o Brasil ainda estava sob a <a href=\"https:\/\/tvtnews.com.br\/ditadura-certidoes-de-obito-de-vitimas-deve-constar-causa-real\/\">ditadura militar<\/a> \u2014 ent\u00e3o, um movimento estudantil t\u00e3o ousado p\u00f4s o governo Montoro, democraticamente eleito, na berlinda. O escolhido para destravar a parte mais vis\u00edvel do imbr\u00f3glio foi Michel Temer (MDB), ent\u00e3o secret\u00e1rio de seguran\u00e7a p\u00fablica. Quando Temer bateu \u00e0 porta da reitoria, o estudante Domingos Carnesecca Neto saiu para encontr\u00e1-lo no meio-fio. Temer pediu uma desocupa\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, e disse que Montoro se comprometera a realizar uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d na Unesp. Neto levou a proposta \u00e0 assembleia e, no fim da tarde de 30 de maio de 1984, ap\u00f3s seis dias de perman\u00eancia, os 100 estudantes deixaram o pr\u00e9dio, com \u201cmochilas nas costas, faixas de protesto estendidas e muito choro\u201d, conforme reportou o Estad\u00e3o. \u00a0<\/p>\n<p>Uma das faixas que ficou marcada na ocupa\u00e7\u00e3o, pendurada no alto do pr\u00e9dio, dizia: \u201cA Unesp \u00e9 nossa\u201d.<\/p>\n<figure><figcaption>No centro, Domingos Carnesecca Neto, que quando estudante foi um dos l\u00edderes da ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi a primeira vez que um movimento conseguiu congregar os diferentes c\u00e2mpus \u2013 na \u00e9poca, a universidade tinha 15 unidades, 44 cursos e 63 habilita\u00e7\u00f5es. \u201cFoi um movimento muito org\u00e2nico, com alunos, docentes e servidores\u201d, diz Jo\u00e3o Castilho, 61, que era presidente do centro acad\u00eamico de Botucatu e representante discente do Conselho Universit\u00e1rio na reitoria, \u00e0 \u00e9poca chamado de \u201cJhonny\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSempre \u00e9 bom lembrar essa hist\u00f3ria, afinal, mem\u00f3ria \u00e9 o que faz a gente ser o que a gente \u00e9. Cada vez que a gente conversa, a gente constr\u00f3i mem\u00f3ria. E, se a gente n\u00e3o conta com documentos, a mem\u00f3ria muitas vezes vira lenda\u201d, pondera ele, hoje um especialista de Alzheimer radicado em Sinop (MT).<\/p>\n<p>Entre 1983 e 1984, o movimento que agitou a Unesp teve altos e baixos, impasses e reviravoltas, que foram registrados na imprensa e nos boletins publicados nos c\u00e2mpus. Muitos deles est\u00e3o preservados no acervo do Cedem (Centro de Documenta\u00e7\u00e3o e Mem\u00f3ria), instalado justamente na antiga reitoria, na S\u00e9, e do Centro de Mem\u00f3ria da FMB (Faculdade de Medicina de Botucatu). Em fins de 1983, o Jornal do Campus da FMB, em uma \u201cedi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d feita \u00e0 m\u00e3o, cravava em uma manchete: \u201cUnesp escolhe seu reitor: William Saad Hossne\u201d.<\/p>\n<h2>Um clima de democracia<\/h2>\n<p>Em 1982, ocorreram as primeiras elei\u00e7\u00f5es diretas para o cargo de governador desde 1966. Nos tr\u00eas maiores col\u00e9gios eleitorais do pa\u00eds, SP, RJ e MG, os eleitos foram candidatos de oposi\u00e7\u00e3o ao governo militar. Foi nesse clima que a oposi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a acalentar o sonho de elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente em 1985, o ano que marcaria, em definitivo, o retorno do poder \u00e0s m\u00e3os dos civis. Manifesta\u00e7\u00f5es pedindo voto popular se espalharam pelo pa\u00eds, escalando ao Congresso Nacional com a Proposta de Emenda Constitucional 05\/83, apresentada pelo parlamentar Dante de Oliveira, que estipulava o voto direto para as elei\u00e7\u00f5es em 1985.<\/p>\n<p>Entre a primeira manifesta\u00e7\u00e3o do movimento das Diretas J\u00e1, no interior de Pernambuco, e os atos hist\u00f3ricos que reuniram milhares de manifestantes nos centros das principais capitais, o pa\u00eds foi tomado por um clima de democracia e luta por liberdade.<\/p>\n<p>Em 1983, o clima contagiou o campus de\u00a0 Assis: docentes do ILHPA (Instituto de Letras, Hist\u00f3ria e Psicologia de Assis) discutiam a possibilidade de que a elei\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo diretor da unidade se desse por meio do voto direto, e compartilharam essa vis\u00e3o com a comunidade por meio de um boletim informativo.<\/p>\n<p>\u201cEra um crit\u00e9rio, diga-se de passagem, ainda in\u00e9dito nas universidades, mas inteiramente afinado com as necessidades liberalizantes de um pa\u00eds ainda em camisa de for\u00e7a\u201d, disse Jo\u00e3o Francisco\u00a0Tidei Lima, que era docente do curso de hist\u00f3ria na unidade, em depoimento publicado no livro\u00a0<em>Tenho algo a dizer<\/em>, projeto do Cedem e do OEDH (Observat\u00f3rio de Educa\u00e7\u00e3o em Direitos Humanos), publicado pela editora Cultura Acad\u00eamica, em 2014, que coletou as mem\u00f3rias de unespianos relativas ao per\u00edodo da ditadura militar.<\/p>\n<p>\u00a0Em medos de junho de 1983, ocorreu a vota\u00e7\u00e3o para diretor do ILHPA, conduzida com apoio da Associa\u00e7\u00e3o de Docentes da Unesp (Adunesp). O mais votado foi o docente Ant\u00f4nio Quelce Salgado, chefe do Departamento de Psicologia do ILHPA, com 26,6% dos votos. Em 5\u00ba ficou o ent\u00e3o diretor, Fernando Mendon\u00e7a, com apenas 8%. Na \u00e9poca, os diretores eram apontados pelo reitor. Armando Oct\u00e1vio Ramos ignorou a vota\u00e7\u00e3o e apontou Fernando Mendon\u00e7a para novo mandato. O n\u00facleo da Adunesp, ent\u00e3o, emitiu uma nota repudiando a escolha e clamando pela mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade.<\/p>\n<p>Assis viveu, a partir da\u00ed, dias barulhentos: alunos e docentes fizeram manifesta\u00e7\u00f5es no campus e na cidade, inclusive nas f\u00e9rias de julho, o assunto foi levado \u00e0 c\u00e2mara, a imprensa passou a cobrir a hist\u00f3ria, o diret\u00f3rio acad\u00eamico ocupou a diretoria. Uma das formas de protesto consistia em bater um bumbo sem parar no pr\u00e9dio onde ficava o Diretor. \u201cN\u00f3s tivemos o bumbo enorme tocando durante seis meses, dia e noite no campus: Bum! Bum! Bum!\u201d, disse Ulysses Telles Guariba Netto (1940-2017) em relato ao livro\u00a0<em>Tenho algo a dizer<\/em>.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a n\u00e3o conseguia sequer entrar na diretoria, o que repercutiu do interior \u00e0 capital (o\u00a0<em>Estad\u00e3o<\/em>\u00a0definiu a ocupa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita como \u201cdelinqu\u00eancia universit\u00e1ria\u201d). Na volta \u00e0s aulas no dia 1\u00ba de agosto de 1983, o diretor acionou a Pol\u00edcia Militar para conter os bumbos e as can\u00e7\u00f5es \u2013 entre elas, versos de Chico Buarque que ficaram famosos na ditadura: \u201cApesar de voc\u00ea, amanh\u00e3 h\u00e1 de ser outro dia\u201d.<\/p>\n<p>Manifestantes deitaram e ficaram esperando serem carregados para fora pela PM, um a um. Com o tempo, a ocupa\u00e7\u00e3o de mais de 60 dias foi se enfraquecendo e, em uma assembleia j\u00e1 diminuta, decidiu-se desocupar e entregar a chave da diretoria ao governador Franco Montoro (PMDB), junto de um abacaxi. \u201cEra um s\u00edmbolo da situa\u00e7\u00e3o: o governador dizia \u2018estamos do lado de voc\u00eas, mas n\u00e3o podemos fazer nada\u2019. Era um abacaxi\u201d, lembra Jos\u00e9 Sterza Justo, 71. \u201cEu era um jovem professor, primeiro no campus de Mar\u00edlia, depois no de Assis. N\u00e3o tinha internet, mal tinha telefone, mas tinha muita garra.\u201d<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade acad\u00eamica em Assis foi recebida com mensagens de apoio por parte da UNE (Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes) e da Andes (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Docentes de Ensino Superior). Tamb\u00e9m criou o clima pol\u00edtico para que docentes ligados \u00e0 Adunesp decidissem arriscar um passo mais ousado: chamar uma mobiliza\u00e7\u00e3o geral da universidade pela elei\u00e7\u00e3o direta para o cargo de reitor.<\/p>\n<figure><figcaption>Acima, William Saad Hossne, o docente do c\u00e2mpus de Botucatu que esteve no epicentro do movimento das diretas para a reitoria<\/figcaption><\/figure>\n<h2>De Assis a Saad<\/h2>\n<p>William Saad Hossne (1927-2016) estava no epicentro do movimento das diretas para reitoria da Unesp. Foi um dos fundadores da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas e Biol\u00f3gicas de Botucatu (que posteriormente seria incorporada \u00e0 Unesp como FMB), diretor cient\u00edfico da Fapesp e reitor da Ufscar entre 1979 e 1983. Era, segundo alunos e amigos que conviveram com ele na \u00e9poca, um cirurgi\u00e3o carism\u00e1tico de perfil progressista e, acima de tudo, um democrata.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Luiz Caldas J\u00fanior, 73, diz que a avalia\u00e7\u00e3o era que Saad era o candidato \u201cideal\u201d, pois era o candidato \u201cposs\u00edvel\u201d: \u201cQuer\u00edamos de fato mudar a Unesp. Quer\u00edamos realmente vencer. Isso n\u00e3o aconteceria com um candidato \u2018de protesto\u2019 ou muito \u2018militante\u2019\u201d. Caldas conta que uma vez viajou para fazer campanha para Saad em um dos c\u00e2mpus da Unesp e encontraria o ent\u00e3o senador Fernando Henrique Cardoso, que lhe interrompeu: \u201cL\u00e1 por 1950 e bolinha, enquanto estava fazendo meu doutorado, precisava aprender estat\u00edstica e foi me indicado um cara que entendia de estat\u00edstica: era Saad\u201d.<\/p>\n<p>No livro\u00a0<em>Tenho algo a dizer<\/em>, Saad conta que, quando era reitor da Ufscar, a comunidade universit\u00e1ria expressou o desejo de eleger o reitor seguinte por voto direto. Citava-se a Lei 6733, de 1979, que dizia que todos os dirigentes de funda\u00e7\u00f5es seriam nomeados por indica\u00e7\u00e3o direta do Presidente da Rep\u00fablica, sem mandato. Como todas as universidades federais ap\u00f3s 1961 foram abertas como funda\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o os reitores n\u00e3o seriam mais indicados pelo Conselho Universit\u00e1rio. Assim, a comunidade fez a consulta e Saad saiu vencedor. \u201cO governador n\u00e3o me escolheu, deixou o vice, a Ufscar entrou em greve\u201d, Saad conta no livro. No fim, fez um acordo para revogar a Lei 6733, que deu fim \u00e0 greve, e deixou o cargo. Anos depois, foi procurado para ser candidato \u00e0 reitoria da Unesp.<\/p>\n<p>No seu relato, Saad atribui ao ent\u00e3o reitor da Unesp Armando Oct\u00e1vio Ramos, que fora vice-reitor entre 1976 e 1980 e cujo mandato reitoral iniciado em 1980 se estenderia at\u00e9 1984, o desejo de continuar no cargo ap\u00f3s o fim do mandato, embora isso fosse vedado por lei, e que queria demonstrar \u00e0 comunidade que tinha poder junto ao governador para obter esta nova nomea\u00e7\u00e3o. Foi neste contexto que surgiu a sua candidatura. \u201cFui procurado para ser candidato. (\u2026) N\u00e3o queria ser candidato. De qualquer forma, acabei inscrito pela comunidade e pelas associa\u00e7\u00f5es de docentes, a de Botucatu e a da Unesp.\u201d<\/p>\n<p>A Adunesp organizou a consulta. Foram institu\u00eddas diferentes candidaturas com nomes relevantes da Unesp que inclu\u00edram, al\u00e9m de Saad, o pr\u00f3prio Ant\u00f4nio Quelce Salgado e Nilo Od\u00e1lia, ex-presidente da Adunesp e ex-diretor do campus de Araraquara. Os candidatos percorreram as unidades conversando com a comunidade, apresentando propostas, distribuindo material eleitoral e debatendo. \u201cEra emocionante ser convidado pelas unidades e, diante de um audit\u00f3rio lotado, contar a hist\u00f3ria da universidade, respondendo perguntas, interagindo com a comunidade\u201d, relatou Saad.<\/p>\n<figure><figcaption>Protestos de estudantes no c\u00e2mpus de Assis e a resposta da repress\u00e3o policial (no alto \u00e0 direita)<\/figcaption><\/figure>\n<p>No fim de 1983, alunos, docentes e servidores puderam se manifestar na consulta organizada pela Adunesp. Saad, do campus de Botucatu, teve mais de 7,3 mil votos; Nilo Od\u00e1lia, ex-presidente da Adunesp e ex-diretor do campus de Araraquara, 3,7 mil. No entanto, o Conselho Universit\u00e1rio, controlado pelo reitor, deu de ombros para o pleito. Informou que n\u00e3o tinha valor, e que organizaria, pela primeira vez, sua pr\u00f3pria consulta junto a comunidade. Esta, sim, teria o poder leg\u00edtimo de indicar nomes para compor a lista que era tradicionalmente apresentada ao governador para que ele apontasse o novo reitor.<\/p>\n<p>Foi feita uma nova consulta, nos conformes de uma recente resolu\u00e7\u00e3o (36\/83), uma surpresa: novamente Saad ficou em 1\u00ba lugar, com 2,8 mil votos. Nilo Od\u00e1lia mais uma vez ocupou a segunda posi\u00e7\u00e3o, com 1,5 mil. O ent\u00e3o reitor Armando Oct\u00e1vio Ramos havia inclu\u00eddo o pr\u00f3prio nome, sendo que a regulamenta\u00e7\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o da lista \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o permitia candidaturas a reelei\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, alcan\u00e7ou 545 votos. Jos\u00e9 Fonseca, de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, teve 330, Jos\u00e9 Trindade, de Botucatu, 297, e Wilson Abr\u00e3o Saad, de Araraquara, 103.<\/p>\n<p>Entretanto, em fevereiro de 1984, quando o Col\u00e9gio Eleitoral se reuniu para elaborar a lista a ser encaminhada ao governador para a escolha do novo reitor, a ordem foi toda embaralhada: um Saad liderava, mas n\u00e3o era William, era Wilson. E, no fim, a lista de fato endere\u00e7ada ao governo ficou ainda mais confusa: em ordem, ficaram Fonseca (S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos), Trindade (Botucatu), Raphael Lia Rolfsen (vice-reitor \u00e0 \u00e9poca), Ramos (reitor), Saad (Wilson, n\u00e3o William) e Wanderley Melo (Jaboticabal).<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entendeu nada. Ao mesmo tempo, todo mundo entendeu tudo. Composto majoritariamente por acad\u00eamicos alinhados \u00e0 reitoria, o Col\u00e9gio Eleitoral n\u00e3o queria ouvir a comunidade unespiana, e simplesmente limou os dois candidatos mais votados Willian Hossne Saad e Nilo Od\u00e1lia. Embora a universidade tivesse de mandar uma lista tr\u00edplice, o conselho optou por mandar uma s\u00eaxtupla, tirando da cartola os nomes de Rolfsen e Ramos.<\/p>\n<h2>As diretas est\u00e3o no ar<\/h2>\n<p>Mas o clima pol\u00edtico j\u00e1 tinha mudado. Em 1984, enquanto as Diretas J\u00e1 agitavam o pa\u00eds, n\u00e3o demorou para que protestos pipocassem no estado contra a lista s\u00eaxtupla de candidatos a reitor enviada pelo Col\u00e9gio Eleitoral ao governador Franco Montoro. Delega\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios c\u00e2mpus (entre eles Araraquara, Ara\u00e7atuba, Assis, Botucatu, Guaratinguet\u00e1, Jaboticabal, Mar\u00edlia, Presidente Prudente, Rio Claro e S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto) foram de \u00f4nibus ao Pal\u00e1cio dos Bandeirantes para contestar a lista com Ramos e sem Saad. Montoro discursou ao fim do encontro, comprometendo-se a \u201cresolver\u201d o impasse.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Em mar\u00e7o de 1984, acabou o mandato do reitor Ramos. Sem que houvesse uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista, assumiu o vice, Rolfsen. No m\u00eas seguinte, acabou o mandato de Rolfsen, assumiu o pr\u00f3-reitor Manuel Nunes Dias, do campus de Franca. Nunes era diretor da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP, antes de se integrar \u00e0 Unesp. Na USP, teria perseguido estudantes e, na Unesp, comp\u00f4s a sindic\u00e2ncia que quis punir alunos de Assis, conforme relatos no livro\u00a0<em>Tenho algo a dizer<\/em>.<\/p>\n<p>Nunes tampouco foi aceito. Pouco tempo depois, em uma assembleia na Fatec (Faculdade de Tecnologia de S\u00e3o Paulo), estudantes decidiram ocupar a reitoria na S\u00e9, o que mobilizou imprensa, intelectuais e pol\u00edticos nas discuss\u00f5es sobre uma universidade mais democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Caberia agora a Montoro encontrar a melhor via para conduzir a Unesp, da forma mais tranquila poss\u00edvel, em sua pr\u00f3pria transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O segundo e \u00faltimo epis\u00f3dio da reportagem sobre o processo de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica na Unesp foi publicada na quinta-feira, dia 5 de dezembro,\u00a0<a href=\"https:\/\/jornal.unesp.br\/2024\/12\/05\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizou-em-campanha-pioneira-para-reivindicar-democratizacao-do-processo-de-escolha-do-reitor-parte-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">e pode ser lida neste link<\/a>.<\/p>\n<p><em>Por Juliana Sayuri, para o <a href=\"https:\/\/jornal.unesp.br\/2024\/11\/28\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizou-em-campanha-pioneira-para-reivindicar-democratizacao-do-processo-de-escolha-do-reitor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Jornal da Unesp<\/a><\/em><\/p>\n<p>The post <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/tvtnews.com.br\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor\/\">\u2018Diretas J\u00e1\u2019 na Unesp: h\u00e1 40 anos, universidade se mobilizava pela escolha do reitor<\/a> appeared first on <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/tvtnews.com.br\/\">TVT News<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/raquel-rolnik-denuncia-politica-de-guerra-do-governo-tarcisio-na-remocao-de-familias-da-favela-do-moinho\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Divididos em trios espalhados pela pra\u00e7a, eles observavam o vaiv\u00e9m dos pesados port\u00f5es do n\u00famero 108, na esquina da rua Benjamin Constant. 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