{"id":81301,"date":"2026-04-03T08:00:00","date_gmt":"2026-04-03T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/enquanto-casos-aumentam-no-mundo-america-do-sul-avanca-no-combate-a-dengue\/"},"modified":"2026-04-03T08:00:00","modified_gmt":"2026-04-03T11:00:00","slug":"enquanto-casos-aumentam-no-mundo-america-do-sul-avanca-no-combate-a-dengue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/enquanto-casos-aumentam-no-mundo-america-do-sul-avanca-no-combate-a-dengue\/","title":{"rendered":"Enquanto casos aumentam no mundo, Am\u00e9rica do Sul avan\u00e7a no combate \u00e0 dengue"},"content":{"rendered":"<p>A primeira paciente chegou h\u00e1 pouco mais de dois anos. Janeiro deveria ser um m\u00eas tranquilo no Hospital Santa Rosa, no bairro de classe m\u00e9dia Pueblo Libre, em Lima, no Peru. A paciente, uma mulher na casa dos 20 anos, havia viajado 430 quil\u00f4metros com a m\u00e3e at\u00e9 a cidade.<\/p>\n<p>Ela tinha febre alta e uma dor abdominal insuport\u00e1vel, que ela temia ser resultado de um aborto recente que havia dado errado. Os m\u00e9dicos fizeram radiografias e encontraram sangue na cavidade abdominal. Em uma tentativa desesperada de estancar a hemorragia, decidiram remover seu \u00fatero.<\/p>\n<p>Mas a hemorragia continuou. Os m\u00e9dicos pediram todos os exames poss\u00edveis. Apenas um deu positivo, e era algo que a maioria deles nunca havia visto. A paciente n\u00e3o estava com complica\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 gravidez ou ao aborto. <span>Ela estava na fase mais grave da dengue, doen\u00e7a rara em Lima naquela \u00e9poca, devido ao clima temperado da cidade.<\/span><\/p>\n<p>Em outro ano, o caso teria sido um ponto fora da curva. Afinal, a paciente n\u00e3o era da cidade e vinha de uma \u00e1rea pouco povoada da Amaz\u00f4nia peruana, onde doen\u00e7as transmitidas por mosquitos, como a dengue, s\u00e3o riscos constantes.<\/p>\n<p><span>Mas, dessa vez, era o in\u00edcio de uma epidemia.<\/span><\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b5ab0\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b5ab0\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Entrada da sala de emerg\u00eancia do hospital Santa Rosa, no bairro de Pueblo Libre, em Lima. O hospital enfrentou um surto sem precedentes de dengue em 2024.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A dengue j\u00e1 foi um risco nas Am\u00e9ricas, mas campanhas de pulveriza\u00e7\u00e3o com o uso de pesticidas aparentemente erradicaram a doen\u00e7a em meados do s\u00e9culo XX. O Peru declarou o <em>Aedes aegypti <\/em>erradicado em 1958. Mas, com um surto em 1990, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar, no pa\u00eds e em todo o mundo.<\/p>\n<p>Agora, o n\u00famero de casos de dengue registrados no mundo vem crescendo h\u00e1 d\u00e9cadas, <span>passando de 500 mil reportados \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) em 2000 para mais de 5 milh\u00f5es em 2019.<\/span><\/p>\n<p>Embora a melhoria na notifica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as explique parte desse aumento, especialistas atribuem o crescimento principalmente \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o \u2014 que cria condi\u00e7\u00f5es ideais para o <em>Aedes<\/em> se reproduzir e aumenta a densidade demogr\u00e1fica para picar mais pessoas \u2014 e \u00e0 explos\u00e3o das viagens a\u00e9reas, que permite que a doen\u00e7a escape de zonas end\u00eamicas. <span>Como resultado, a dengue \u00e9 hoje a doen\u00e7a mais comum e de crescimento mais r\u00e1pido a ser transmitida por mosquitos no mundo.<\/span><\/p>\n<p>Mas algo mais aconteceu nos \u00faltimos anos. Em 2023, o n\u00famero global de casos se aproximou de 7 milh\u00f5es, salto de 40% em um ano. E mesmo esse novo recorde foi superado em 2024, quando 14 milh\u00f5es de casos de dengue e 9 mil mortes foram registrados no mundo, a maioria nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 diferente de anos anteriores, quando a dengue existia, mas a gente n\u00e3o via tanto\u201d, diz Luciano Andrade Moreira, engenheiro agr\u00f4nomo e entomologista brasileiro. Em 2024, 17 cidades do Brasil declararam estado de emerg\u00eancia. Hospitais ficaram superlotados.<\/p>\n<p>No hospital Santa Rosa, em Lima, a cirurgi\u00e3 Yolanda S\u00e1nchez lembra que os primeiros pacientes com dengue \u201cchegaram como uma onda\u201d. Assim que a jovem que, sem saber, se tornou a paciente zero e recebeu alta, seu leito foi imediatamente ocupado por outro paciente com dengue, e depois por outro. <span>Alguns corredores ficaram t\u00e3o lotados de pacientes que os funcion\u00e1rios tinham dificuldade para atravessar a multid\u00e3o.<\/span> Os doentes ocuparam todas as salas dispon\u00edveis, se espalharam pela rua e se aglomeraram perto do port\u00e3o de ferro na entrada.<\/p>\n<p>No auge do surto, em fevereiro e mar\u00e7o de 2024, o Santa Rosa atendia entre 40 e 60 pacientes com dengue por dia, n\u00famero sem precedentes para uma unidade que havia recebido apenas 13 pacientes desse tipo em todo o ano de 2022. Os doentes pareciam uma amostra aleat\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o peruana: jovens, idosos, pessoas com doen\u00e7as cr\u00f4nicas e outras perfeitamente saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando uma mulher com menos de 60 anos, sem comorbidades, deu entrada no hospital e morreu menos de 24 horas depois, um m\u00e9dico chamado <span>Solomon Durand percebeu que o Santa Rosa precisaria se adaptar se quisesse sobreviver \u00e0 epidemia.<\/span> Durand, epidemiologista, havia chegado recentemente ao Santa Rosa ap\u00f3s passar 15 anos em um hospital em Iquitos, cidade amaz\u00f4nica no norte do pa\u00eds h\u00e1 muito tempo considerada um foco de doen\u00e7as transmitidas por mosquitos. Ele era o \u00fanico m\u00e9dico do Santa Rosa que j\u00e1 havia trabalhado durante surtos de dengue, e sabia o que fazer.<\/p>\n<p>Durand montou uma tenda no estacionamento dos fundos do hospital para avaliar rapidamente os novos pacientes. Aqueles com dengue grave eram transferidos para a unidade de terapia intensiva. Todos os demais eram encaminhados para diferentes alas do hospital, tratados e liberados o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Durand acompanhava os prontu\u00e1rios dos pacientes internados. O que lhe chamou aten\u00e7\u00e3o foi a proximidade do surto. Cada vez mais pacientes vinham de distritos ao redor do hospital. Esses bairros n\u00e3o sofriam com a superlota\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias prec\u00e1rias que geralmente favorecem a dissemina\u00e7\u00e3o da dengue em \u00e1reas urbanas. \u201cIsso chamou nossa aten\u00e7\u00e3o\u201d, contou Durand. Ele sabia que algo mais havia mudado.<\/p>\n<figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b5f99\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b5f99\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b6237\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b6237\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure><figcaption>Entrada de um quarto no Hospital Santa Rosa, em Lima. Perto dali, uma funcion\u00e1ria transporta suprimentos entre os quartos. No auge do surto de dengue em 2024, a unidade chegou a atender at\u00e9 60 novos pacientes por dia.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Entrada de um quarto no Hospital Santa Rosa, em Lima. Perto dali, uma funcion\u00e1ria transporta suprimentos entre os quartos. No auge do surto de dengue em 2024, a unidade chegou a atender at\u00e9 60 novos pacientes por dia.<\/p>\n<p>A pista seguinte surgiu quando o surto se estendeu durante um ver\u00e3o excepcionalmente quente e avan\u00e7ou pelo outono. Um ano antes, o fen\u00f4meno clim\u00e1tico El Ni\u00f1o havia se desenvolvido nas regi\u00f5es tropicais do Pac\u00edfico, alterando os padr\u00f5es de chuva e elevando as temperaturas m\u00e9dias em todo o mundo pelos 12 meses seguintes.<\/p>\n<p>Durand percebeu os efeitos do El Ni\u00f1o em Lima. Antes e depois da chegada da primeira paciente com dengue, chuvas muito intensas haviam inundado a cidade, que normalmente vive em um estado quase permanente de seca, levando o governo peruano a declarar estado de emerg\u00eancia. As chuvas deram lugar a um sol de ver\u00e3o implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cNaquele ano houve mais sol em Lima\u201d, lembrou Durand. \u201cO ver\u00e3o durou mais.\u201d Foi o ano mais quente do pa\u00eds em mais de seis d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><span>Durand come\u00e7ou a se perguntar se o fator desconhecido que impulsionava o surto era a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b6c26\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b6c26\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Ap\u00f3s monitorar os prontu\u00e1rios de pacientes com dengue internados no Santa Rosa, Solomon Durand come\u00e7ou a se perguntar se as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas poderiam ser um fator que impulsionou o surto.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Condi\u00e7\u00f5es mais quentes atuam como um acelerador da dengue. O aumento das temperaturas n\u00e3o apenas favorece o desenvolvimento dos mosquitos <em>Aedes aegypti<\/em> e do mosquito-tigre-asi\u00e1tico, que transmitem a doen\u00e7a, como tamb\u00e9m acelera a replica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da dengue dentro desses insetos. <span>Nos \u00faltimos anos, pesquisadores t\u00eam buscado isolar o efeito do aquecimento global sobre a dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p>Em setembro de 2025, cientistas da Universidade de Washington mostraram que, nos 21 pa\u00edses da \u00c1sia e das Am\u00e9ricas com maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 dengue, 18% dos casos entre 1995 e 2014 n\u00e3o teriam ocorrido na aus\u00eancia de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causadas pelo ser humano. Trata-se da <span>primeira evid\u00eancia cient\u00edfica direta que liga o aquecimento global \u00e0 expans\u00e3o da dengue no mundo<\/span>, confirmando a suspeita que Durand teve mais de um ano antes, quando percebeu a propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a em um ambiente antes considerado in\u00f3spito.<\/p>\n<p>O problema tende a piorar. At\u00e9 meados do s\u00e9culo, descobriram os autores do estudo, <span>as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas poder\u00e3o levar a um aumento adicional de 50% nos casos nos pa\u00edses analisados.<\/span> E isso se novas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa ficarem suficientemente baixas para limitar o aquecimento a menos de 2 graus Celsius.<\/p>\n<p>Mais de 30 anos de pesquisas e esfor\u00e7os para encontrar uma vacina que proteja simultaneamente contra os quatro sorotipos da dengue em circula\u00e7\u00e3o produziram sucesso limitado. O Brasil aprovou uma vacina de dose \u00fanica. Mais de um milh\u00e3o de doses est\u00e3o sendo distribu\u00eddas em cidades-piloto.<\/p>\n<p><span>Enquanto isso, cerca de metade da popula\u00e7\u00e3o mundial tem risco de contrair dengue.<\/span><\/p>\n<p>Em Lima, a epidemia de 2024 atingiu 40 dos 43 distritos da cidade ao mesmo tempo. Mas, gra\u00e7as \u00e0 rapidez de racioc\u00ednio de Durand e \u00e0 sua experi\u00eancia anterior, apenas quatro dos quase 2 mil pacientes diagnosticados no Santa Rosa morreram. Mesmo depois de a crise finalmente diminuir em junho, o m\u00e9dico continuou estudando o que havia acontecido, publicando posteriormente um artigo sobre o surto em uma revista de ci\u00eancias da sa\u00fade.\u00a0<\/p>\n<p>Em toda a Am\u00e9rica do Sul, pesquisadores e departamentos de sa\u00fade p\u00fablica trabalham intensamente para dar esse tipo de alerta. A estrat\u00e9gia, que vem sendo desenvolvida h\u00e1 anos, tem duas vertentes.\u00a0<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 o uso de intelig\u00eancia artificial para prever surtos com meses de anteced\u00eancia. A outra recorre \u00e0 natureza para impedir a dissemina\u00e7\u00e3o da dengue desde o in\u00edcio: a libera\u00e7\u00e3o de centenas de milh\u00f5es de mosquitos infectados com uma bact\u00e9ria que bloqueia a transmiss\u00e3o da dengue, para que se reproduzam com os mosquitos selvagens, reduzindo a transmiss\u00e3o da doen\u00e7a no processo.<\/p>\n<p>Diferentemente das campanhas reativas de pulveriza\u00e7\u00e3o de pesticidas que definiram o controle de doen\u00e7as transmitidas por vetores ao longo do s\u00e9culo XX, <span>esses programas buscam uma coopera\u00e7\u00e3o mais deliberada com os ecossistemas existentes.<\/span> Mas tamb\u00e9m enfrentam desafios log\u00edsticos e pol\u00edticos significativos, exigindo que autoridades p\u00fablicas invistam recursos em programas cujos resultados n\u00e3o ser\u00e3o evidentes por anos.\u00a0<\/p>\n<p>Mas \u00e0 medida que a dengue muda de perfil, autoridades de sa\u00fade em pa\u00edses como Peru e Brasil come\u00e7aram n\u00e3o apenas a reconhecer o valor dessa abordagem, mas a exigi-la.<\/p>\n<h2>A experi\u00eancia do Brasil\u00a0<\/h2>\n<p>Nos arredores de Curitiba, um pr\u00e9dio baixo no campus universit\u00e1rio do Instituto de Tecnologia do Paran\u00e1 abriga milh\u00f5es de Aedes aegypti. Os ovos desses mosquitos, infectados com a bact\u00e9ria <em>Wolbachia<\/em>, ser\u00e3o enviados para cidades de todo o pa\u00eds, onde ser\u00e3o incubados e liberados para se reproduzirem com mosquitos selvagens.<\/p>\n<p>Luciano Andrade Moreira conheceu a Wolbachia na Austr\u00e1lia, quando visitou o pesquisador Scott O\u2019Neill, em Queensland, em 2008. A hip\u00f3tese de O\u2019Neill era que a bact\u00e9ria reduziria o tempo de vida dos mosquitos e isso lhes daria menos tempo para transmitir doen\u00e7as.\u00a0<\/p>\n<p>Moreira chegou \u00e0 Austr\u00e1lia a tempo de ver O\u2019Neill fazer uma descoberta surpreendente: a bact\u00e9ria fazia algo ainda mais poderoso, pois impedia que o v\u00edrus da dengue se replicasse dentro dos insetos. <span>A <em>Wolbachia<\/em> cria um ambiente hostil para o v\u00edrus da dengue no intestino do mosquito ao ativar o sistema imunol\u00f3gico do inseto para combater a doen\u00e7a<\/span>, competir com o v\u00edrus por recursos celulares e literalmente expulsar a dengue das c\u00e9lulas.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b7110\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b7110\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Dezenas de milhares de ovos de mosquito na sede da empresa Wolbito<br \/><\/figcaption><\/figure>\n<p>Agora, quase duas d\u00e9cadas depois, na f\u00e1brica de mosquitos em Curitiba, chamada Wolbito do Brasil, filas de grandes m\u00e1quinas armazenam tubos com ovos de mosquito. Quando eclodem e se transformam em pupas, os insetos recebem uma mistura de \u00e1gua e prote\u00edna em p\u00f3.<\/p>\n<p>Em seguida, as pupas s\u00e3o levadas para uma sala, onde s\u00e3o lavadas entre duas placas de vidro: as pupas menores, os machos, saem primeiro pela parte inferior da m\u00e1quina, seguidas pelas f\u00eameas maiores. Todas as f\u00eameas que botam ovos e um em cada tr\u00eas machos seguem para outra sala, quente e \u00famida, onde s\u00e3o colocados em compartimentos de malha e alimentados com sangue quente de cavalo e \u00e1gua com a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Essas gaiolas de malha s\u00e3o a etapa final de um processo de cria\u00e7\u00e3o de mosquitos que, at\u00e9 esse ponto, foi realizado quase inteiramente por m\u00e1quinas, supervisionadas de perto pelos cerca de 70 funcion\u00e1rios da f\u00e1brica. Depois que as f\u00eameas depositam seus ovos em tiras de papel branco no fundo das gaiolas, os trabalhadores levam as gaiolas para uma sala refrigerada, onde os mosquitos finalmente encontram seu fim.<\/p>\n<p>S\u00e3o cerca de 1 milh\u00e3o de ovos coletados por gaiola, o que significa 100 milh\u00f5es produzidos por semana. Desde que a f\u00e1brica come\u00e7ou a operar em meados de 2025, seis cidades no Brasil come\u00e7aram a espalhar mosquitos que combatem a dengue em seus bairros, al\u00e9m das 10 cidades que j\u00e1 recebiam ovos produzidos manualmente por Moreira e outros funcion\u00e1rios que trabalharam arduamente para popularizar o m\u00e9todo Wolbachia antes de o processo ser automatizado, em 2025.<\/p>\n<figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b7495\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b7495\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b770b\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b770b\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure><figcaption>Funcion\u00e1ria do Departamento de Sa\u00fade P\u00fablica de Joinville mostra um recipiente com mosquitos que combatem a dengue. A cidade est\u00e1 em uma campanha para introduzir a bact\u00e9ria <em>Wolbachia<\/em> na popula\u00e7\u00e3o de mosquitos selvagens.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Joinville (SC) \u00e9 uma dessas cidades. Em uma manh\u00e3 de meio de semana, funcion\u00e1rios do Departamento de Sa\u00fade local e da Wolbito se reuniram em um centro de distribui\u00e7\u00e3o para carregar um carro com recipientes de mosquitos. Os mosquitos haviam eclodido de sacos de pellets. Cada pellet cont\u00e9m ovos e uma mistura para alimenta\u00e7\u00e3o. Nas cidades participantes, os pellets s\u00e3o inseridos na \u00e1gua e os insetos nascem.<\/p>\n<p>Enquanto o carro sa\u00eda do centro de distribui\u00e7\u00e3o e percorria lentamente Joinville \u00e0s 7h da manh\u00e3, a agente de sa\u00fade L\u00facia Jordan abaixou a janela e segurou um recipiente aberto no ar, sacudindo-o algumas vezes com for\u00e7a para liberar os mosquitos. Ela repetiu o gesto v\u00e1rias vezes enquanto o carro fazia lentas curvas pelos bairros da cidade.\u00a0\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cf9db9b7a8b\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cf9db9b7a8b\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Agentes de sa\u00fade p\u00fablica liberam mosquitos infectados com Wolbachia em uma manh\u00e3 de meio de semana em Joinville. Campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o p\u00fablica alertaram os moradores sobre essas libera\u00e7\u00f5es.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Niter\u00f3i (RJ) foi um das primeiras cidades do Brasil a ser totalmente protegida pelo m\u00e9todo. As libera\u00e7\u00f5es ocorreram entre 2017 e 2019. Os casos de dengue ca\u00edram quase 90% em toda a cidade ap\u00f3s o tratamento, em compara\u00e7\u00e3o com a m\u00e9dia dos 10 anos anteriores a 2017. Durante o surto hist\u00f3rico de dengue em 2024, quando muitas cidades brasileiras registraram n\u00fameros recordes de casos, Niter\u00f3i contabilizou menos de 2 mil, cerca de um quarto da m\u00e9dia anterior ao tratamento.<\/p>\n<p><span>\u201cN\u00e3o \u00e9 comum lidar com um projeto para liberar mosquitos quando toda a nossa hist\u00f3ria de preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as foi justamente lutar contra eles\u201d<\/span>, disse Ana Eppinghaus, coordenadora de vigil\u00e2ncia em sa\u00fade da Funda\u00e7\u00e3o Municipal de Sa\u00fade de Niter\u00f3i, na \u00e9poca. \u201cAceitamos o desafio.\u201d<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima d\u00e9cada, Luciano Andrade Moreira pretende proteger metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira usando a <em>Wolbachia<\/em>.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo pioneiro de Scott O\u2019Neill na Austr\u00e1lia j\u00e1 \u00e9 utilizado por 15 pa\u00edses, e evid\u00eancias de v\u00e1rias regi\u00f5es mostram que a incid\u00eancia de dengue cai drasticamente depois que os mosquitos com Wolbachia se estabelecem. O n\u00famero de casos diminuiu em todas as cidades do Brasil onde a Wolbachia se consolidou. Moreira diz que seu maior problema agora \u00e9 produzir mosquitos r\u00e1pido o suficiente para atender \u00e0 demanda.<\/p>\n<p>Mesmo com os avan\u00e7os, as novas tecnologias de combate aos mosquitos n\u00e3o s\u00e3o 100% \u00e0 prova de falhas de implementa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 interesses particulares. S\u00e9rie de reportagens da P\u00fablica mostrou que em S\u00e3o Paulo, um empres\u00e1rio conseguiu lucrar com armadilhas usando sua influ\u00eancia com a prefeitura, e falhas na manuten\u00e7\u00e3o dos produtos os transformaram em verdadeiros criadouros de mosquitos.<\/p>\n<p>Alguns pol\u00edticos tamb\u00e9m continuam relutantes em se comprometer com o programa dos mosquitos com Wolbachia, especialmente quando Moreira diz que <span>os resultados podem levar um ano ou mais para aparecer<\/span>. \u201cNosso programa n\u00e3o \u00e9 como um spray que mata todos os mosquitos e resolve o problema\u201d, disse ele.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/geral\/2025\/09\/operacao-avanca-sobre-lacos-do-pcc-com-venda-de-combustiveis-e-fintechs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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