{"id":81582,"date":"2026-04-06T15:25:04","date_gmt":"2026-04-06T18:25:04","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/antifascismo-socialismo\/"},"modified":"2026-04-06T15:25:04","modified_gmt":"2026-04-06T18:25:04","slug":"antifascismo-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/antifascismo-socialismo\/","title":{"rendered":"Antifascismo &amp; socialismo"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos de guerra e ascens\u00e3o da extrema-direita, coexistem nas esquerdas v\u00e1rias atitudes. Uma delas \u00e9 se limitar a contrapor fascismo <em>versus<\/em> democracia. Um dos problemas desta op\u00e7\u00e3o \u00e9 que, ao aceitar preservar o capitalismo em geral e o neoliberalismo em particular, mant\u00eam-se vivas as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a continuidade e\/ou para o ressurgimento do fascismo. Esse \u00e9 um dos motivos que devem nos levar a articular a luta pela democracia com a luta pelo socialismo: o antifascismo consequente n\u00e3o \u00e9 apenas antineoliberal, \u00e9 tamb\u00e9m anticapitalista. Mas nesse caso cabem v\u00e1rias perguntas, como por exemplo: por quais caminhos o socialismo poder\u00e1 triunfar no conjunto do mundo? Que lugar ocupa, nesses caminhos, a derrota do capitalismo nos Estados Unidos, na Europa Ocidental e no Jap\u00e3o? E que lugar ocupam, nesse \u201cmapa do caminho\u201d, a \u00c1frica, a Am\u00e9rica Latina e o Brasil?<\/p>\n<p>Obviamente, as quest\u00f5es formuladas anteriormente s\u00f3 poder\u00e3o ser respondidas com absoluta certeza pelas gera\u00e7\u00f5es futuras. Hoje, o que podemos apresentar \u00e9 uma \u201chip\u00f3tese de trabalho\u201d, a saber: uma vez que as revolu\u00e7\u00f5es socialistas ocorridas at\u00e9 agora, na periferia do capitalismo, n\u00e3o se demonstraram fatais para o capitalismo, decorre que a sobreviv\u00eancia do capitalismo nos pa\u00edses centrais constitui uma vari\u00e1vel fundamental da resili\u00eancia do sistema como um todo.<\/p>\n<p>O capitalismo viveu uma imensa crise na primeira metade do s\u00e9culo XX. O conflito intercapitalista existente de 1914 a 1945 criou um ambiente catastr\u00f3fico, relacionado ao qual ocorreram as duas grandes revolu\u00e7\u00f5es socialistas vitoriosas, a forma\u00e7\u00e3o de um \u201ccampo socialista\u201d, a descoloniza\u00e7\u00e3o, o desenvolvimentismo e o chamado \u201cestado de bem-estar social\u201d. Se estes processos resultantes da crise do capitalismo, por um lado, o amea\u00e7aram e levaram \u00e0 sua supera\u00e7\u00e3o parcial em algumas regi\u00f5es do planeta, por outro lado, o levaram a produzir respostas que, ao fim e ao cabo, prolongaram sua exist\u00eancia. No plano geopol\u00edtico, uma das respostas principais foi subordinar os conflitos intercapitalistas ao objetivo comum de derrotar seu inimigo principal: a URSS enquanto inimiga geopol\u00edtica e a classe trabalhadora de todos os pa\u00edses enquanto \u201cinimiga interna\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<h4><strong><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/FPA-INTERNACIONAL-N1-MAR-2026-REDES.pdf\">Baixe o especial INTERNACIONAL n\u00ba 1 \u2013 Mar\u00e7o de 2026<\/a><\/strong><\/h4>\n<\/p>\n<p>Esta pol\u00edtica teve \u00eaxito, ao menos no fundamental: nas quatro d\u00e9cadas que separam a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular da China (1949) da dissolu\u00e7\u00e3o da URSS (1991), o que predominou n\u00e3o foi a expans\u00e3o do socialismo, mas a sua conten\u00e7\u00e3o. A \u00faltima grande revolu\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX, ocorrida em 1979 no Ir\u00e3, n\u00e3o foi socialista. E, a partir de 1989, come\u00e7ou o desmanche do campo socialista liderado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, abrindo um imenso espa\u00e7o para a expans\u00e3o dos neg\u00f3cios capitalistas no Leste Europeu e, a partir de 1991, tamb\u00e9m no territ\u00f3rio da extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. No mesmo per\u00edodo, aconteceu a expans\u00e3o dos neg\u00f3cios capitalistas no territ\u00f3rio regulado pelo socialismo chin\u00eas, assim como nos espa\u00e7os abertos pela crise dos \u201cprojetos\u201d desenvolvimentistas, anticoloniais e social-democratas. Como resultado disso \u2013 depois de um s\u00e9culo e meio de intensa luta pelo socialismo \u2013 em 2001, o capitalismo se encontrava mais universalizado e mais poderoso do que era em 1848, quando foi lan\u00e7ado o Manifesto Comunista.<\/p>\n<p><em>The game is over<\/em>? N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Paradoxalmente, o fato de o mundo ser mais capitalista hoje do que era no passado contribuiu para ampliar imensamente as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo. O fato de a classe trabalhadora e de o socialismo serem mais fracos que antes tem levado o capitalismo a desprezar todos os \u201cprotocolos de seguran\u00e7a\u201d. Como resultado, os tempos que vivemos hoje recordam os que antecederam a \u00e9poca de crises e guerras intercapitalistas ocorridas de 1914 a 1945. Cabe perguntar: al\u00e9m de tempos de crise e de guerra, ser\u00e3o tamb\u00e9m tempos de revolu\u00e7\u00e3o? Revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas na periferia, mas tamb\u00e9m nos pa\u00edses capitalistas centrais? N\u00e3o apenas revolu\u00e7\u00f5es derrotadas, mas tamb\u00e9m revolu\u00e7\u00f5es vitoriosas?<\/p>\n<p>A primeira e a segunda quest\u00f5es dependem, em primeiro lugar, do pr\u00f3prio capitalismo e dos capitalistas. Isto porque \u00e9 o agravamento das condi\u00e7\u00f5es objetivas e o comportamento das classes dominantes que empurram as sociedades para o caminho da revolu\u00e7\u00e3o. A esse respeito, o que podemos dizer \u00e9 que vivemos um per\u00edodo de instabilidade e deteriora\u00e7\u00e3o crescentes, decorrente da luta incessante pela eleva\u00e7\u00e3o da taxa de lucro, dos conflitos intercapitalistas, do decl\u00ednio da pot\u00eancia hegem\u00f4nica, da ascens\u00e3o de outra pot\u00eancia, da crescente multipolaridade, da polariza\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, tudo isto combinado \u00e0 cat\u00e1strofe clim\u00e1tica e \u00e0 \u201camea\u00e7a existencial\u201d da rob\u00f3tica e da IA contra a classe trabalhadora. Um contexto, portanto, prop\u00edcio a que ocorram grandes conflitos, rupturas e inclusive revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Apontar esta tend\u00eancia n\u00e3o garante que ela se materialize. Por exemplo: \u00e9 verdade que a crise \u00e9 profunda nos Estados Unidos, na Europa e no Jap\u00e3o, mas, ao final, pode seguir prevalecendo uma \u201csa\u00edda pela direita\u201d. Afinal, se nesse contexto a esquerda \u201cerra na m\u00e3o\u201d, poder\u00e1 seguir predominando, em amplos setores das classes trabalhadoras, uma ades\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de extrema-direita. Nesse caso, a crise sist\u00eamica pode resultar n\u00e3o em reformas estruturais ou em um novo ciclo de revolu\u00e7\u00f5es socialistas vitoriosas; pode resultar, ao contr\u00e1rio, em guerras e contrarrevolu\u00e7\u00f5es preventivas que levem \u00e0 continuidade do capitalismo; ou mesmo em um cen\u00e1rio apocal\u00edptico do tipo \u201cdestrui\u00e7\u00e3o das classes em luta\u201d.<\/p>\n<p>E o que temos visto, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 que parte importante da esquerda est\u00e1 com dificuldades imensas de atuar no presente tempo de crises &amp; guerras. Como em outras vezes na hist\u00f3ria, as \u201ccondi\u00e7\u00f5es objetivas\u201d parecem melhores do que as \u201ccondi\u00e7\u00f5es subjetivas\u201d. Al\u00e9m disso, a tend\u00eancia \u00e9 que as revolu\u00e7\u00f5es sigam sendo mais prov\u00e1veis na periferia do que no centro do capitalismo, n\u00e3o apenas porque os mecanismos de conten\u00e7\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das classes dominantes s\u00e3o menores na periferia do mundo; mas tamb\u00e9m porque as classes trabalhadoras e as esquerdas t\u00eam mais radicalidade. Mas, como demonstram os acontecimentos recentes na Palestina ou na Am\u00e9rica Latina e Caribe, mesmo na periferia, as dificuldades s\u00e3o imensas e, \u00e0s vezes, parecem intranspon\u00edveis.<\/p>\n<p>Portanto, a dial\u00e9tica entre fatores objetivos e subjetivos \u2013 ou seja, a pol\u00edtica com p mai\u00fasculo \u2013 pode levar a outros cen\u00e1rios, por exemplo:<\/p>\n<p>*a sobreviv\u00eancia da humanidade tal como a conhecemos pode ser posta em quest\u00e3o, pela cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, pela guerra ou por algum outro desfecho dist\u00f3pico;<\/p>\n<p>*o capitalismo pode achar maneiras de continuar sobrevivendo \u00e0s suas crises e aos que lutam por sua supera\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>*o socialismo pode se estabelecer em alguns pa\u00edses e regi\u00f5es do mundo, mas sem conseguir avan\u00e7ar al\u00e9m da\u00ed devido \u00e0 exist\u00eancia de um capitalismo poderoso em outras regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>Isso tudo posto, o que deveria fazer a esquerda brasileira?<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, as tentativas feitas pela esquerda ou pelos somente progressistas no sentido de mudar a sociedade brasileira e o lugar do Brasil no mundo terminaram em derrotas relativas. Nossa independ\u00eancia pol\u00edtica frente a Portugal n\u00e3o superou a depend\u00eancia frente \u00e0 Inglaterra e, depois, aos Estados Unidos. A escravid\u00e3o foi \u201cabolida\u201d, mas as marcas da escravid\u00e3o seguem entre n\u00f3s. A Rep\u00fablica nasceu atravessada pelos militares e controlada pelo latif\u00fandio. A industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi acompanhada de reforma agr\u00e1ria, nem tampouco de um \u201cestado de bem-estar social\u201d. A redemocratiza\u00e7\u00e3o foi contempor\u00e2nea do neoliberalismo. E os governos de esquerda n\u00e3o implementaram, at\u00e9 agora, reformas estruturais.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a industrializa\u00e7\u00e3o capitalista do Brasil, no passado, foi feita geralmente apesar de e muitas vezes contra setores expressivos da classe dominante. Hoje, quando necessitamos de uma industrializa\u00e7\u00e3o de novo tipo, n\u00e3o se pode nem se deve esperar nada dos capitalistas: ou o Estado assume o protagonismo, ou seguiremos sendo uma subpot\u00eancia prim\u00e1rio-exportadora, marcada pelo rentismo e pela depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Se depender da classe dominante, especialmente de suas fra\u00e7\u00f5es financeira, do agroneg\u00f3cio, da minera\u00e7\u00e3o e das transnacionais, nosso pa\u00eds continuar\u00e1 como sempre foi: depend\u00eancia profunda, desigualdade abissal, democracia limitada, desenvolvimento parcial. A classe dominante n\u00e3o apenas lucra com o <em>status quo<\/em>, como sabe que perderia muito caso nosso pa\u00eds superasse a depend\u00eancia e a desigualdade, caso se tornasse realmente democr\u00e1tico e desenvolvido. Fa\u00e7amos as contas: para mudar o lugar do Brasil no mundo, \u00e9 preciso enfrentar o imperialismo; para enfrentar o imperialismo, \u00e9 preciso contar com o apoio das classes trabalhadoras; para contar com as classes trabalhadoras, \u00e9 preciso distribuir em alguma medida a propriedade, a riqueza e o poder; ao fazer isso, a classe dominante perderia mais do que aceitando a posi\u00e7\u00e3o subalterna que hoje ocupa no mundo.<\/p>\n<p>Por tudo isso, uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural do Brasil depende essencialmente da classe trabalhadora se tornar classe dirigente e dominante. Ou seja, se tivermos poder suficiente para mudar as estruturas da sociedade brasileira. Acontece que uma sociedade onde a classe trabalhadora detenha tal quantidade de poder ter\u00e1 se transformado em uma sociedade socialista. Pois a ess\u00eancia do socialismo \u00e9 o controle do poder pelos que vivem do seu pr\u00f3prio trabalho. Noutras palavras: um Brasil soberano, democr\u00e1tico, com altos n\u00edveis de bem-estar e desenvolvimento ser\u00e1 tamb\u00e9m um pa\u00eds socialista.<\/p>\n<p>Como aconteceu no passado (em 1822 e nos anos 1930, por exemplo), \u00e9 nos momentos de crise mundial que aumenta a possibilidade de o Brasil fazer transforma\u00e7\u00f5es internas e mudar o seu lugar no mundo. A atual crise sist\u00eamica, em particular a disputa entre EUA e China, abre uma \u201cjanela\u201d que o Brasil pode e deve aproveitar para mudar sua sociedade e seu lugar no mundo. Essa \u201cjanela\u201d n\u00e3o ficar\u00e1 aberta para sempre. Se n\u00e3o aproveitarmos a oportunidade, n\u00e3o importa quem venha no futuro a hegemonizar o mundo, seguiremos dependentes. E nossa depend\u00eancia seguir\u00e1 produzindo desigualdade, a desigualdade seguir\u00e1 constrangendo as liberdades democr\u00e1ticas, o conjunto da obra seguir\u00e1 limitando nosso desenvolvimento. Por outro lado, caso tenhamos \u00eaxito na luta em favor dos objetivos hist\u00f3ricos das classes trabalhadoras, isto alterar\u00e1 significativamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mundial entre socialismo e capitalismo.<\/p>\n<p>Alguns setores da esquerda brasileira parecem acreditar que \u201cpoder\u201d \u00e9 igual a \u201cgoverno\u201d. Mas a experi\u00eancia que tivemos desde 1980, especialmente a partir de 2003, particularmente em 2016, mas tamb\u00e9m analisando nossa situa\u00e7\u00e3o a partir de 2023, demonstra sem margem \u00e0 d\u00favida que governos t\u00eam poder, mas n\u00e3o concentram todo o poder.<\/p>\n<p>O poder segue nas m\u00e3os da classe capitalista, advindo do controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o, do controle da maior parte das institui\u00e7\u00f5es de Estado (inclusive onde o governo est\u00e1 nas m\u00e3os da esquerda), do controle de uma rede de institui\u00e7\u00f5es privadas, do apoio internacional e, tamb\u00e9m, da for\u00e7a da in\u00e9rcia, do \u201csempre foi assim e sempre ser\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Para que as classes trabalhadoras venham algum dia a deter o poder, \u00e9 preciso, em primeiro lugar, ampliar a propriedade coletiva, estatal, p\u00fablica dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Fazer a reforma agr\u00e1ria e urbana. Impor limites ao poder dos capitalistas sobre suas empresas e, tamb\u00e9m, sobre seus recursos financeiros. O sistema financeiro, em particular, precisa estar sob controle do Estado, n\u00e3o de um oligop\u00f3lio privado. S\u00f3 desta forma poderemos industrializar o pa\u00eds, uma industrializa\u00e7\u00e3o de novo tipo, que nos converta em uma das grandes \u201coficinas e laborat\u00f3rios\u201d do mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, em segundo lugar, ampliar a presen\u00e7a da classe trabalhadora nas institui\u00e7\u00f5es de Estado. Mas, com base nas regras atuais, n\u00e3o h\u00e1 como ampliar suficientemente nossa presen\u00e7a na chamada institucionalidade; para isso, \u00e9 preciso construir uma nova institucionalidade, um Estado de novo tipo. N\u00e3o apenas uma reforma eleitoral ou pol\u00edtica, mas uma profunda \u201creforma revolucion\u00e1ria\u201d do Estado. Sem isso, as classes trabalhadoras nunca ter\u00e3o o controle dos Parlamentos, dos Executivos, do Judici\u00e1rio, das For\u00e7as Armadas e das Pol\u00edcias, muito menos de \u201cag\u00eancias\u201d como o Banco Central.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ainda, construir uma rede de institui\u00e7\u00f5es privadas comprometidas com o trabalho na sua luta contra o capital: meios de comunica\u00e7\u00e3o, cultura, esportes e educa\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o da humanidade, n\u00e3o a servi\u00e7o dos capitalistas. Acima de tudo, \u00e9 preciso fortalecer as organiza\u00e7\u00f5es t\u00edpicas das pr\u00f3prias classes trabalhadoras: os sindicatos, os movimentos, os partidos de esquerda. Sem auto-organiza\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras, n\u00e3o se conquistar\u00e1 o espa\u00e7o poss\u00edvel de conquistar na atual institucionalidade, nem se criar\u00e1 uma nova institucionalidade, nem se manter\u00e1 sob controle a nova institucionalidade que vier a ser criada.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, tamb\u00e9m, construir uma rede de apoio internacional, particularmente na Am\u00e9rica Latina e Caribe. Quanto mais ocupado estiver o imperialismo, mais dif\u00edcil ser\u00e1 para ele concentrar toda a sua energia contra uma determinada sociedade. A derrota imposta \u00e0 Venezuela e o cerco contra Cuba est\u00e3o relacionadas ao enfraquecimento da integra\u00e7\u00e3o regional.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 preciso contrapor \u00e0 in\u00e9rcia do \u201csempre foi assim e sempre ser\u00e1\u201d uma cultura de massas estruturada em torno da ideia de que outro mundo \u00e9 poss\u00edvel, urgente e necess\u00e1rio. N\u00e3o haver\u00e1 socialismo, nem transforma\u00e7\u00e3o estrutural, sem que haja um <em>elan<\/em> revolucion\u00e1rio em uma parte importante da classe trabalhadora. Isso implica em difundir valores democr\u00e1ticos, populares, ambientais, nacionais, integracionistas, internacionalistas, feministas, laicos, contr\u00e1rios a todo tipo de racismo, intoler\u00e2ncia e preconceito. Criar uma cultura c\u00edvica socialista de massas \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para combater a ideologia fascista e as teologias neoliberais.<\/p>\n<p>Embora muitas vezes n\u00e3o pare\u00e7a ser assim, uma das principais caracter\u00edsticas do ser humano \u00e9 pensar antes de agir, ou seja, prefigurar na sua mente os atos que vai realizar. Isso que vale para um ser humano individual tamb\u00e9m vale para as organiza\u00e7\u00f5es e para as grandes massas, ainda que nestes casos o processo seja mais complexo e envolva outras vari\u00e1veis. Para que se construa na pr\u00e1tica uma nova sociedade, \u00e9 preciso que dezenas de milh\u00f5es de pessoas pensem e sonhem a respeito disso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por coincid\u00eancia que a extrema-direita emerge com for\u00e7a nos momentos de profunda crise do capitalismo quando parte das classes trabalhadoras est\u00e3o despertando para a necessidade de \u201cvirar o mundo de ponta-cabe\u00e7a\u201d. Nesse ambiente, a extrema-direita busca se apropriar da insatisfa\u00e7\u00e3o que os trabalhadores t\u00eam contra o \u201csistema\u201d e tenta converter esta insatisfa\u00e7\u00e3o em raiva contra outros trabalhadores (as v\u00edtimas geralmente s\u00e3o os migrantes, os negros e negras, as mulheres, os lgbt\u2019s, os trabalhadores de esquerda).<\/p>\n<p>Se a esquerda n\u00e3o disputar a insatisfa\u00e7\u00e3o e a raiva que nossas classes trabalhadoras t\u00eam do \u201csistema\u201d, se a esquerda n\u00e3o for a campe\u00e3 da luta contra o <em>status quo,<\/em> se a esquerda abrir m\u00e3o de defender a revolu\u00e7\u00e3o, a ruptura, as reformas estruturais, abriremos caminho para o crescimento da extrema-direita. E n\u00e3o se trata, apenas, de uma quest\u00e3o circunscrita \u00e0 batalha cultural, ideol\u00f3gica, de vis\u00f5es de mundo. Trata-se de algo com efeitos pol\u00edticos imediatos. Afinal, os objetivos estrat\u00e9gicos da extrema-direita e de boa parte da direita tradicional brasileiras s\u00e3o funcionais ao imperialismo estadunidense, europeu e japon\u00eas, \u00e0 medida que perpetuam nossa condi\u00e7\u00e3o prim\u00e1rio-exportadora e submetida ao capital financeiro.<\/p>\n<p>Por tudo que foi dito anteriormente, vivemos no momento mais prop\u00edcio para fazer mudan\u00e7as estruturais no Brasil e para mudar o lugar do Brasil. Quando o capitalismo funciona bem, a chance de mudan\u00e7as radicais \u00e9 muito menor. Se e quando esta \u201cjanela de oportunidade\u201d fechar, as chances de uma mudan\u00e7a estrutural no Brasil se reduzir\u00e3o brutalmente por um tempo mais ou menos longo. Ali\u00e1s, a depender das condi\u00e7\u00f5es em que a \u201cjanela\u201d se feche, nossas condi\u00e7\u00f5es podem se tornar relativamente piores do que as atuais; por exemplo, se uma derrota mundo afora obrigar os Estados Unidos a concentrar sobre <em>Nuestra Am\u00e9rica<\/em> toda a for\u00e7a hoje espalhada pelos quatro cantos do planeta.<\/p>\n<p>Portanto, um dos grandes desafios da classe trabalhadora brasileira \u00e9 aproveitar a atual \u201cjanela\u201d hist\u00f3rica, reunindo a vontade e as for\u00e7as necess\u00e1rias para come\u00e7ar a solucionar nossas contradi\u00e7\u00f5es estruturais atrav\u00e9s de medidas como a ado\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de desenvolvimento acelerado, com industrializa\u00e7\u00e3o e alta tecnologia; a prote\u00e7\u00e3o efetiva da nossa soberania pol\u00edtica e material; a democratiza\u00e7\u00e3o profunda do conjunto dos ambientes e institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas; e a amplia\u00e7\u00e3o em escala geom\u00e9trica do bem estar da maioria da popula\u00e7\u00e3o. De conjunto, estas medidas podem fazer o Brasil se tornar um dos polos do mundo, dando uma enorme contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas para a maioria das gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras do povo brasileiro, mas tamb\u00e9m para a luta pelo socialismo em escala mundial.<\/p>\n<p>O companheiro David Capistrano Filho, no seu \u00faltimo discurso p\u00fablico, feito em 2000, disse que n\u00e3o cabe pensar em \u201clongo prazo\u201d nas quest\u00f5es de sa\u00fade, \u00e9 preciso ter pressa, pois, do contr\u00e1rio, as pessoas morrem. Pois bem: podemos dizer que a sa\u00fade do mundo e da humanidade tamb\u00e9m exige pressa. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 eterno. Mas se a humanidade n\u00e3o acabar com o capitalismo, o capitalismo seguir\u00e1 acabando com a humanidade; vide a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, a fome, as guerras, a pandemia de sofrimento mental, assim como o uso capitalista da rob\u00f3tica e da chamada Intelig\u00eancia Artificial, sem falar no fascismo.<\/p>\n<p>Acontece que grande parte da esquerda est\u00e1 tomada pelo pessimismo da vontade, em parte, por descren\u00e7a em nossas possibilidades coletivas. Para mudar essa atitude, devemos mais uma vez mobilizar a nosso favor o otimismo da raz\u00e3o, num certo sentido invertendo o famoso racioc\u00ednio do grande comunista Antonio Gramsci acerca do \u201cotimismo da vontade\u201d e do \u201cpessimismo da raz\u00e3o\u201d. Ou, numa vers\u00e3o livre da famosa m\u00fasica <em>Primavera nos Dentes<\/em>, \u201cquem tem consci\u00eancia para ter coragem, quem tem a for\u00e7a de saber que existe, no centro da pr\u00f3pria engrenagem inventa a contramola que resiste\u201d.<\/p>\n<p><strong>Valter Pomar<\/strong>  \u2013 Diretor de Coopera\u00e7\u00e3o Internacional da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo e Professor da Universidade Federal do ABC<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-federal-reconhece-estado-de-calamidade-em-baia-da-traicao-pb-devido-a-erosao-costeira\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Governo federal reconhece estado de calamidade em ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/3a-jornada-da-natureza-semeando-vida-para-enfrentar-a-crise-ambiental\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">3\u00aa Jornada da Natureza: semeando vida para enfrent...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fim-do-foro-e-golpe-centrao-manipula-bolsonaristas-para-manter-a-farra-das-emendas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fim do foro \u00e9 golpe: Centr\u00e3o manipula bolsonarista...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/parlamentares-pedem-prisao-de-flavio-bolsonaro-e-abertura-de-cpi-apos-revelacao-sobre-relacao-com-banco-master\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Parlamentares pedem pris\u00e3o de Fl\u00e1vio Bolsonaro e a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de guerra e ascens\u00e3o da extrema-direita, coexistem nas esquerdas v\u00e1rias atitudes. 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