{"id":82274,"date":"2026-04-09T16:13:15","date_gmt":"2026-04-09T19:13:15","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ocidente-cognitivo-o-privilegio-do-absurdo\/"},"modified":"2026-04-09T16:13:15","modified_gmt":"2026-04-09T19:13:15","slug":"ocidente-cognitivo-o-privilegio-do-absurdo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ocidente-cognitivo-o-privilegio-do-absurdo\/","title":{"rendered":"Ocidente cognitivo, o \u201cprivil\u00e9gio do absurdo\u201d"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1022\" height=\"1500\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WEB_JB_MASP_10800_01-scaled.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/09160716\/WEB_JB_MASP_10800_01-1022x1500.jpg 1022w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/09160716\/WEB_JB_MASP_10800_01-204x300.jpg 204w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/09160716\/WEB_JB_MASP_10800_01-768x1127.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/09160716\/WEB_JB_MASP_10800_01-1047x1536.jpg 1047w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/09160716\/WEB_JB_MASP_10800_01-1396x2048.jpg 1396w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/WEB_JB_MASP_10800_01-scaled.jpg 1745w\" sizes=\"auto, (max-width: 1022px) 100vw, 1022px\"><figcaption>Artista: Fl\u00e1vio Cerqueira, obra aborda as dores ainda persistentes decorrentes de pr\u00e1ticas coloniais<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201c<em>Penso nas coisas que poderiam ter sido e n\u00e3o foram. O tratado sobre mitologia sax\u00f4nica que <\/em><em>Beda<\/em><em> n\u00e3o escreveu.<\/em> <em>A obra inconceb\u00edvel que Dante talvez vislumbrou,<\/em> <em>ap\u00f3s a corre\u00e7\u00e3o do \u00faltimo verso da Com\u00e9dia.<\/em> <em>A hist\u00f3ria sem duas tardes: a da <\/em><em>Cruz<\/em><em> e a da Cicuta.\u201d<\/em> Luis Borges<\/p>\n<p>\u201c<em>Vendo-se em um mundo que n\u00e3o entendem<\/em>, <em>os seres humanos sempre criar\u00e3o mundos imagin\u00e1rios<\/em> <em>que tamb\u00e9m ser\u00e3o inintelig\u00edveis.\u201d<\/em> John Gray, sobre os versos de Borges<\/p>\n<p>Se h\u00e1 algo que possamos afirmar com alguma assertividade acerca do desajustado mundo humano \u00e9 que, diferentemente do que ocorre com os outros animais, ele aparenta n\u00e3o ter nenhuma coer\u00eancia (consist\u00eancia interna) e correspond\u00eancia (consist\u00eancia externa) com o imperscrut\u00e1vel mundo real. Tudo o mais que j\u00e1 se afirmou para al\u00e9m disso parece, portanto, pertencer ao campo da especula\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o significa dizer que n\u00e3o devemos continuar investigando as causas da aparentemente irremedi\u00e1vel insensatez que caracteriza o comportamento do <em>Homo sapiens<\/em> moderno, protagonista do inesgot\u00e1vel palco de guerras, massacres, destrui\u00e7\u00f5es e genoc\u00eddios que fez da trag\u00e9dia o sentido da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-16.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-16.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa perturbadora incongru\u00eancia, inata \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana moderna, j\u00e1 havia sido identificada por grandes pensadores, como \u00e9 o caso do pai da psican\u00e1lise, Sigmund Freud (1856-1939). Tentando desvendar os perenes e inarred\u00e1veis conflitos da psiqu\u00ea humana, Freud percebeu que h\u00e1 uma tens\u00e3o entre o que ele chama de \u201cprinc\u00edpio do prazer\u201d e o \u201cprinc\u00edpio da realidade\u201d, o permanente conflito interno decorrente de um insol\u00favel confronto entre o Eu e o que se situa \u201cfora\u201d dele, entre o mundo interior e o mundo exterior. Para Freud, \u201ceste princ\u00edpio (do prazer) domina o desempenho do aparelho ps\u00edquico desde o come\u00e7o; n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas quanto a sua adequa\u00e7\u00e3o, mas seu programa est\u00e1 em desacordo com o mundo inteiro, tanto o macrocosmo como o microcosmo.\u201d<\/p>\n<p>Num mundo em que o conflito e, por consequ\u00eancia, o medo de ser exclu\u00eddo ou (no caso dos conflitos humanos mais agudos) eliminado pelo outro se torna a regra, n\u00e3o h\u00e1 como conceber que um processo civilizador esteja realmente em curso e, assim, possamos vislumbrar um futuro reconhec\u00edvel para a humanidade. Da\u00ed talvez resulte o fato das necessidades humanas de seguran\u00e7a e liberdade, bem como o desejo obsessivo de ludibriar a morte, terem ganhado, desde tempos imemoriais, tanta centralidade na conviv\u00eancia humana. Num mundo em que o outro, incluindo-se a Natureza (com a qual dever\u00edamos estar integrados, e n\u00e3o dela apartados), \u00e9 um obst\u00e1culo ou amea\u00e7a, o animal humano est\u00e1 sempre buscando os meios de domina\u00e7\u00e3o e controle ao seu alcance para garantir sua autopreserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que \u00e9 mais contradit\u00f3rio nessa incongru\u00eancia inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, que aparenta ser a quest\u00e3o primordial da inquieta\u00e7\u00e3o humana, \u00e9 que ela constitui o \u00e2mago e a raz\u00e3o de existir da pr\u00f3pria filosofia e das religi\u00f5es, sobretudo as monote\u00edstas, as quais, para tentar garantir algum n\u00edvel de seguran\u00e7a e liberdade para as sociedades, sempre desnorteadas por interesses conflitantes, criaram a teologia e a teleologia para contornar e atenuar a conflituosa convivencialidade entre os homens e dar algum significado ao incompreens\u00edvel mundo humano.<\/p>\n<p>Inequivocamente desconectada da complexidade do mundo real, esta aparenta ser a \u00fanica l\u00f3gica que governa o desajustado, conflituoso e autodestrutivo mundo dos homens, bem sintetizada nas palavras de Thomas Hobbes (1588-1679), um dos nomes mais influentes do entendimento humano: \u201co <strong>privil\u00e9gio do absurdo<\/strong>, ao qual nenhum ser vivo est\u00e1 sujeito, exceto o homem. E entre os homens aqueles que professam a filosofia s\u00e3o de todos os que lhe est\u00e3o mais sujeitos.\u201d Hobbes era um materialista pragm\u00e1tico que, apesar de n\u00e3o ver outra forma de conten\u00e7\u00e3o da agressividade humana (supostamente inerente ao nosso \u201cestado de natureza\u201d) que n\u00e3o fosse pela via do controle a cargo do <em>Leviat\u00e3<\/em> \u2013 o poder do Estado soberano absoluto, parecia ter plena consci\u00eancia de que o invento humano chamado <em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> n\u00e3o \u00e9 algo natural.<\/p>\n<p>Escapar dessa desesperan\u00e7osa percep\u00e7\u00e3o acerca da condi\u00e7\u00e3o humana, que para muitos est\u00e1 traduzida na vis\u00e3o hobbesiana da \u201cguerra de todos contra todos\u201d, talvez esteja a sa\u00edda para a humanidade conseguir atravessar este incognosc\u00edvel s\u00e9culo XXI. Incognosc\u00edvel porque n\u00e3o h\u00e1 como vislumbrar como sairemos dele, haja vista as tr\u00eas impossibilidades civilizat\u00f3rias que ele carrega: 1) a acelera\u00e7\u00e3o descontrolada das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, rumo ao colapso ambiental; 2) o fen\u00f4meno da mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida, agora hiperturbinada por predadores digitais; 3) a vertigem de uma potencial imin\u00eancia de conflito geopol\u00edtico nuclear global.<\/p>\n<p>O que parece refor\u00e7ar assustadoramente esse drama existencial \u00e9 que, do ponto de vista cognitivo, o <em>Homo sapiens<\/em> moderno limitou-se e condicionou-se a duas estrat\u00e9gias ps\u00edquicas de compreens\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o com a sua conflituosa condi\u00e7\u00e3o. De um lado, abra\u00e7ou a teologia, a percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma <em>Entidade<\/em> transcendente no controle da realidade; e, do outro, fundou a teleologia, a cren\u00e7a de que a <em>Raz\u00e3o<\/em> \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a capaz de proporcionar e garantir um desejado progresso civilizat\u00f3rio. Estrat\u00e9gias que se fizeram necess\u00e1rias desde a sua c\u00e9lebre expuls\u00e3o do Jardim do \u00c9den. Nos 2.500 anos em que esses dois condicionamentos cognitivos operaram em complementaridade, sempre convergindo na ideia de que o universo e a exist\u00eancia humana possuem um prop\u00f3sito intencional e final\u00edstico, supostamente governado por uma intelig\u00eancia superior ou plano divino, o m\u00e1ximo que se alcan\u00e7ou foi atenuar a inquieta\u00e7\u00e3o humana diante de um mundo recorrentemente e crescentemente intrat\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que \u00e9 poss\u00edvel, agora, ao animal humano fazer, j\u00e1 que, diante das tr\u00eas impossibilidades civilizat\u00f3rias mencionadas acima, seu mundo est\u00e1 inequivocamente imbricado numa agonia terminal?<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-2.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/02\/31191312\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ao que a Hist\u00f3ria demonstra, precisamos, portanto, vislumbrar entendimentos para al\u00e9m das abstra\u00e7\u00f5es greco-judaicas que forjaram o projeto civilizador do Ocidente, como parecem sugerir as duas ep\u00edgrafes que iniciam este texto, nas quais o escritor brit\u00e2nico John Gray sintetiza, em um dos seus enigm\u00e1ticos ensaios (<em>O sil\u00eancio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos<\/em> \u2013 Record, 2017), a condi\u00e7\u00e3o humana a partir de um dos muitos versos nost\u00e1lgicos do genial poeta argentino Luis Borges (1899-1986). Refletindo sobre o desejo de Borges de que n\u00e3o houvessem as \u201cduas tardes\u201d, Jesus na cruz e S\u00f3crates bebendo cicuta \u2013 que, como se sabe, moldaram toda a conflituosa hist\u00f3ria do Ocidente \u2013, Gray conclui que, tal como o am\u00e1lgama ficcional resultante da intera\u00e7\u00e3o entre essas duas personalidades fundantes da cogni\u00e7\u00e3o ocidental, s\u00e3o os mitos criados pelos humanos que, para o bem ou o mal, definem o seu modo de viver:<\/p>\n<p>\u201c<em>Aparentemente contrastantes, essas duas mortes transmitem a mesma seguran\u00e7a. Jesus \u00e9 uma encarna\u00e7\u00e3o de Deus, um Ser eterno, ao passo que S\u00f3crates (tal como representado por Plat\u00e3o) tem acesso a um reino de formas eternas. Suas vidas s\u00e3o exemplos de logos \u2013 um princ\u00edpio de ordem \u2013 em a\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 verdade que, sem essas duas tardes, a hist\u00f3ria certamente teria sido diferente. Mas a vida continuaria governada por fic\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Independentemente dos eventos que ajudaram a germinar e a forjar a longu\u00edssima hist\u00f3ria do Ocidente, o fato \u00e9 que parece haver uma for\u00e7a maior a conduzir e conservar o mundo humano como ele sempre se apresentou, condicionando-o irremediavelmente \u00e0 l\u00f3gica do conflito interno, que alimenta e amplifica as inesgot\u00e1veis guerras, massacres e destrui\u00e7\u00f5es j\u00e1 registrados pela Hist\u00f3ria. Parece haver, portanto, uma esp\u00e9cie de <em>Ocidente cognitivo<\/em> que, guiado por mitos que operam na contram\u00e3o da complexidade do mundo real, dominou e ainda domina o pensamento humano para al\u00e9m da sua sociabilidade animal. Por isso, talvez valha a pena investigar as ra\u00edzes desse <em>Ocidente ps\u00edquico<\/em>.<\/p>\n<h3><em><strong>Ocidente cognitivo \u2013 <\/strong><\/em><strong>a origem da excentricidade do mundo humano<\/strong><\/h3>\n<p>At\u00e9 onde se avan\u00e7ou nos estudos de antropologia cultural, a ontologia humana (compreendendo o <em>Homo sapiens<\/em> e seus antecessores \u2013 taxionomicamente chamados de <em>Hominini<\/em>) se deu num processo em que todos os aspectos da vida dos primatas homin\u00eddeos foram condicionados culturalmente, ou seja, contextualmente. Assim, as mais remotas culturas humanas, desde a pr\u00e9-hist\u00f3ria, cada uma com seus valores, cren\u00e7as, costumes, linguagens, pr\u00e1ticas, s\u00edmbolos etc, constituem redes consensuais de a\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es que, conservadas de forma transgeracional, engendraram uma multiplicidade de modos de vida, acoplados a diferentes contextos sociais e ambientais.<\/p>\n<p>No entanto, do ponto de vista das ci\u00eancias sociais, o reconhecimento dessa diversidade de modos de vida s\u00f3 foi poss\u00edvel no final do s\u00e9culo XIX, em raz\u00e3o do que se chamou de relativismo cultural \u2013 o entendimento de que n\u00e3o h\u00e1 uma cultura \u201csuperior\u201d ou \u201cinferior\u201d, \u201cmelhor\u201d ou \u201cpior\u201d. Quem articulou inicialmente essa ideia foi o antrop\u00f3logo Franz Boas, em 1887. Dizia ele: \u201ca civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo absoluto; \u00e9 relativa, e nossas ideias e concep\u00e7\u00f5es s\u00f3 s\u00e3o verdadeiras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Esse relativismo cultural significou um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 abordagem da evolu\u00e7\u00e3o unilinear vigente \u00e0 \u00e9poca, que colocava a Cultura Ocidental no \u00e1pice da evolu\u00e7\u00e3o das sociedades humanas. Ou seja, contrariando e interrompendo o fluxo ontol\u00f3gico dessa diversidade cultural inerente ao viver humano, o longu\u00edssimo processo de forma\u00e7\u00e3o do que hoje se conhece por Cultura Ocidental, bem como sua hegemonia conquistada sobretudo na esteira da globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo financeiro ocorrida no final do s\u00e9culo XX, forjou-se a partir de um determinismo metaf\u00edsico e hist\u00f3rico, e n\u00e3o mais contextualmente, estando em congru\u00eancia com os ciclos naturais \u2013 os processos complexos que regem a teia da vida.<\/p>\n<p>Segundo soci\u00f3logo alem\u00e3o Norbert Elias (1897-1990), \u201ca ideia de civiliza\u00e7\u00e3o expressa a consci\u00eancia que o Ocidente tem de si mesmo\u201d. Elias foi talvez um dos que melhor identificou, por meio de um abrangente estudo condensado em dois volumes (<em>O processo civilizador<\/em>, 1939), os mecanismos de \u201ccontrole social\u201d e de \u201cautocontrole\u201d que induziram o comportamento humano e forjaram o longo processo civilizador. Esse processo civilizador constitui a marcha expansiva e irrefre\u00e1vel dos ideais do Ocidente, oriundos dos ideais greco-judaicos e seus suced\u00e2neos romano-crist\u00e3os \u2013 em especial o mito do progresso \u2013 que emergiram nas cercanias do Mediterr\u00e2neo por volta de doze s\u00e9culos antes de Cristo.<\/p>\n<p>Mas o Ocidente \u00e9 uma ideia que, embora consolidada culturalmente somente por volta do s\u00e9culo XV, quando a Europa come\u00e7ou a se definir em oposi\u00e7\u00e3o ao resto do mundo, espelha a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de <em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> e de <em>Hist\u00f3ria<\/em>. Para al\u00e9m do seu significado geogr\u00e1fico e temporal, a ideia de Ocidente carrega na sua ess\u00eancia um componente cognitivo que \u00e9 o enquadramento da condi\u00e7\u00e3o humana \u00e0s dimens\u00f5es teol\u00f3gica e teleol\u00f3gica, abstra\u00e7\u00f5es criadas pelo homem para lidar com as insuport\u00e1veis conting\u00eancias da sua conflituosa realidade que, segundo evid\u00eancias da antropologia e da arqueologia, vem predominando desde os \u00faltimos seis ou sete mil anos.<\/p>\n<p>Este talvez seja o principal elemento formador da no\u00e7\u00e3o de <em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, ou do chamado homem dito civilizado. Portanto, investigar como esse enquadramento doutrin\u00e1rio foi forjado talvez forne\u00e7a as pistas para entendermos como chegamos \u00e0s agonias que definem o tempo presente e quais s\u00e3o as poss\u00edveis brechas para escaparmos do crescente e aparentemente insol\u00favel conflito humano que arrastou toda a humanidade para o abismo existencial que est\u00e1 bem \u00e0 nossa frente. Essa psiqu\u00ea ocidental pode constituir-se, nessa perspectiva, como a principal fonte que alimenta aquilo que o antrop\u00f3logo Alexei Yurchak chamou de hipernormaliza\u00e7\u00e3o, uma psiqu\u00ea coletiva irrefletida que normaliza o mundo humano como ele se apresenta, sempre conflituoso e autodestrutivo, tornando invis\u00edvel e silenciosa a nossa ru\u00edna enquanto esp\u00e9cie animal.<\/p>\n<p>Parece haver, nessa perspectiva, um <em>Ocidente ps\u00edquico<\/em>, principal condutor da hist\u00f3ria da humanidade, que, funcionando sob a l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o e da apropria\u00e7\u00e3o de realidades que s\u00e3o inerentemente incontrol\u00e1veis, constitui-se como elemento comum a todas as grandes civiliza\u00e7\u00f5es e culturas que se desenvolveram nos \u00faltimos seis mil\u00eanios. Ele n\u00e3o \u00e9, portanto, uma exclusividade do que se entende hoje por Mundo Ocidental. Esteve tamb\u00e9m presente nas civiliza\u00e7\u00f5es antigas, incluindo-se as do lado oriental, estudadas pelos historiadores e arque\u00f3logos, como \u00e9 o caso das que foram identificadas pelo historiador brit\u00e2nico Arnold Toynbee, registradas na sua grande obra <em>Um Estudo de Hist\u00f3ria<\/em> (1934 a 1961). Est\u00e1 hoje presente naquelas que foram recentemente propostas no <em>Choque de Civiliza\u00e7\u00f5es<\/em> (1993), do cientista pol\u00edtico Samuel Huntington.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o mais razo\u00e1vel sobre qual teria sido o gatilho para que esse fen\u00f4meno cultural chamado Ocidente, hoje globalizado, por meio do qual os mitos associados a ideia de domina\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o se sedimentassem na psiqu\u00ea humana, pode ter sido causado pelas invas\u00f5es patrocinadas pelos povos pastores guerreiros indo-europeus ou arianos, patriarcais, vindos das estepes euroasi\u00e1ticas, ocorridas entre sete e seis mil anos atr\u00e1s, a chamada hip\u00f3tese kurgan, que teriam mudado radicalmente o padr\u00e3o cultural at\u00e9 ent\u00e3o predominante dos povos pr\u00e9-patriarcais (povos de culturas matr\u00edsticas) que habitavam a Europa Antiga. Essa hip\u00f3tese foi levantada pela arque\u00f3loga lituana Marija Gimbutas (1921-1994) e est\u00e1 registrada nos seus \u00faltimos livros: <em>The Goddesses and Gods of Old Europe<\/em> (1974), <em>The Language of the Goddesses<\/em> (1989) e <em>The Civilization of the Goddess<\/em> (1991).<\/p>\n<p>Conforme se depreende hoje das descobertas na antropologia, arqueologia, lingu\u00edstica e outros ramos afins, existiram culturas pr\u00e9-patriarcais que, cada qual operando ao seu modo e contexto, encontravam melhores condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e liberdade na vida comunal que levavam, baseada numa coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o hier\u00e1rquica. Gimbutas apresentou seu estudo sobre a cultura kurgan em 1956, no qual ela combinava pesquisas de arqueologia e lingu\u00edstica com o objetivo de colher evid\u00eancias no estudo dos povos de l\u00edngua proto-indo-europeia. Ela mapeou tr\u00eas ondas migrat\u00f3rias desses povos kurgan que devastaram popula\u00e7\u00f5es inteiras e causaram um enorme choque cultural na Europa Antiga: Primeira Onda, de 4300-4200 a.C.; Segunda Onda, de 3400-3200 a.C.; e Terceira Onda, de 3000-2800 a.C. \u201cGra\u00e7as ao n\u00famero crescente de data\u00e7\u00f5es com radiocarbono, hoje \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar as v\u00e1rias ondas migrat\u00f3rias dos pastoralistas da estepe ou povo kurgo, as quais varreram a Europa pr\u00e9-hist\u00f3rica\u201d, afirmava Gimbutas.<\/p>\n<p>Um dos estudos mais aprofundados sobre este longo processo de ruptura cultural est\u00e1 registrado no livro <em>O C\u00e1lice e a Espada: nossa hist\u00f3ria, nosso futuro<\/em> (1\u00aa edi\u00e7\u00e3o em 1987, prefaciado pelo neurobi\u00f3logo chileno Humberto Maturana), da soci\u00f3loga austr\u00edaca Riane Eisler, no qual ela aborda n\u00e3o s\u00f3 o trabalho de Gimbutas mas de outros renomados arque\u00f3logos como o brit\u00e2nico James Mellaart (1925-2012), que chamou essas ondas kurgan de \u201cpadr\u00e3o desintegrador\u201d. O <em>Ocidente cognitivo<\/em> trata-se, portanto, de um processo milenar de conserva\u00e7\u00e3o cultural, que, gradualmente, foi apagando nossas ancestralidades. Abordei esse assunto com mais aprofundamento em dois textos intitulados <em>Pistas para entender a agonia patriarcal<\/em> e <em>Como nasceu e germinou a civiliza\u00e7\u00e3o patriarcal<\/em>.<\/p>\n<p>A cogni\u00e7\u00e3o ocidental \u00e9, provavelmente, resultante dessa preval\u00eancia milenar da <em>Cultura Patriarcal<\/em>, que deu origem \u00e0s tr\u00eas ordens pol\u00edticas que tentaram (e continuam tentando) em v\u00e3o superar o conflituoso mundo humano. S\u00e3o elas: a militar, a religiosa e a comercial, sobre as quais abordei recentemente no texto <em>Mercado, a \u00faltima parada do Ocidente patriarcal?<\/em>. A partir delas, generais, sacerdotes e mercadores se reversaram no poder e sempre dominaram o destino dos povos e civiliza\u00e7\u00f5es. A psiqu\u00ea ocidental est\u00e1 condicionada a estas tr\u00eas ordens pol\u00edticas, que, n\u00e3o por acaso, abarcam os tr\u00eas temas mais vastos do conhecimento e quase todos os aspectos da experi\u00eancia humana (sobretudo da cultura ocidental hegem\u00f4nica), j\u00e1 registrados: a guerra, o monote\u00edsmo e a atividade comercial. Se retirarmos essas tr\u00eas express\u00f5es culturais do cotidiano das sociedades, que sempre foi guiado por uma cosmovis\u00e3o patriarcal e ocidentalizado em todas as suas dimens\u00f5es, suas vidas, sobretudo as das autoridades constitu\u00eddas, se tornariam um enorme vazio de sentido e de significado.<\/p>\n<p>A simbiose entre essas tr\u00eas ordens pol\u00edticas define o Ocidente e sua disson\u00e2ncia cognitiva, pois s\u00e3o elas que comp\u00f5em o realismo pol\u00edtico identificado por Maquiavel, Hobbes, Clausewitz e outros, sobre o qual parece n\u00e3o haver sa\u00edda, condenando a humanidade \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o. Trata-se, portanto, de um aprisionamento cognitivo fundado nas dimens\u00f5es teol\u00f3gica e teleol\u00f3gica da compreens\u00e3o de mundo que forjou o Ocidente: a ideia de que for\u00e7as do Bem e do Mal sempre governaram o conflituoso mundo dos homens e de que um <em>logos<\/em> guiado pela <em>Raz\u00e3o<\/em> caminha inexoravelmente para super\u00e1-lo. Constituem, desse modo, abstra\u00e7\u00f5es humanas frontalmente desconectadas do mundo real, haja vista os dist\u00farbios de escala planet\u00e1ria a que chegamos na atualidade.<\/p>\n<p>O mundo ocidental, que conduziu a humanidade e forjou a civiliza\u00e7\u00e3o tal como a conhecemos hoje, \u00e9 resultante de um longu\u00edssimo percurso que est\u00e1 assentado nessas tr\u00eas principais ordens pol\u00edticas, intimamente imbricadas e interdependentes, que se mesclaram e se refor\u00e7aram mutuamente ao longo dos \u00faltimos seis mil anos da sangrenta e m\u00f3rbida hist\u00f3ria humana. Isso explica, por exemplo, porque a cogni\u00e7\u00e3o ocidental nunca comportou a coexist\u00eancia de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es dentro de uma conforma\u00e7\u00e3o multipolar (com predomin\u00e2ncia militar, religiosa, econ\u00f4mica e cultural, simult\u00e2neas) por muito tempo, sobretudo se essas na\u00e7\u00f5es estiverem operando fora dos padr\u00f5es teol\u00f3gicos e teleol\u00f3gicos que configuram a psiqu\u00ea ocidental.<\/p>\n<p>A humanidade est\u00e1, portanto, aprisionada num grande impasse cognitivo, que o bi\u00f3logo e antrop\u00f3logo ingl\u00eas Gregory Bateson (1904-1980), autor do conceito de cismog\u00eanese (o termo significa \u201ccria\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o\u201d, tend\u00eancia a um padr\u00e3o de comportamento em que indiv\u00edduos se definem em contraposi\u00e7\u00e3o uns aos outros), expressou da seguinte forma: \u201ca fonte de todos os problemas de hoje \u00e9 o hiato entre como pensamos e como a natureza funciona\u201d. Resumindo, eis o cerne do nosso problema antropol\u00f3gico: a vida matr\u00edstica pr\u00e9-patriarcal, cooperativa e n\u00e3o hier\u00e1rquica, est\u00e1 no DNA da nossa esp\u00e9cie, conflitando por mil\u00eanios com o desvio patriarcal desencadeado pelo ide\u00e1rio guerreiro e dominador kurgan, e mantido, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, por sacerdotes, generais e mercadores.<\/p>\n<p>Inclusive, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que essa condi\u00e7\u00e3o matr\u00edstica origin\u00e1ria se faz presente no ser humano em geral, seja ele um crist\u00e3o, mu\u00e7ulmano, hindu, ateu, liberal, conservador ou qualquer outra matiz \u00e9tnica-pol\u00edtica-religiosa (ali\u00e1s, todas essas divis\u00f5es s\u00e3o desdobramento do longo e nefasto percurso da <em>Cultura Patriarcal<\/em> milenar). Apesar do neoliberalismo ter nos empurrado para a atual era do individualismo narc\u00edsico, essa condi\u00e7\u00e3o matr\u00edstica ainda se expressa naturalmente nas mais variadas comunidades. Pessoas comuns, independentemente de estarem contaminadas pelo ide\u00e1rio patriarcal, manifestam seus afetos em suas intera\u00e7\u00f5es cotidianas sempre valorizando mais o cuidado com o outro e com o seu meio ambiente. Esse comportamento \u00e9 observado, por exemplo, sempre que h\u00e1 grandes cat\u00e1strofes assolando a vida de muitas pessoas. No \u00edntimo, todos queremos, apreciamos e estamos sempre buscando uma conviv\u00eancia pac\u00edfica, por\u00e9m somos constantemente confrontados, influenciados e moldados pelos mitos e fic\u00e7\u00f5es patriarcais de apropria\u00e7\u00e3o da realidade que movem as engrenagens de poder institu\u00eddas, nos \u00e2mbitos religioso, militar e econ\u00f4mico que condicionam as sociedades.<\/p>\n<p>Portanto, reconhecer que o <em>Homo sapiens<\/em> moderno, aquele forjado a partir do fen\u00f4meno antropol\u00f3gico que al\u00e7ou a <em>Cultura Patriarcal<\/em> como sua condi\u00e7\u00e3o predominante, est\u00e1 preso a um desvio comportamental radical provocado por circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas muito peculiares (as migra\u00e7\u00f5es invasoras dos povos guerreiros indo-europeus), talvez esteja a sa\u00edda para escaparmos desse <em>Ocidente cognitivo<\/em> que, neste conturbado s\u00e9culo XXI, vem flertando com a possibilidade de um colapso civilizat\u00f3rio global.<\/p>\n<h3><strong>O paroxismo clim\u00e1tico e geopol\u00edtico \u2013 est\u00e1gio ag\u00f4nico do <\/strong><em><strong>Ocidente cognitivo<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>O atual sistema-mundo capitalista sedimentou-se ap\u00f3s as agruras da Segunda Guerra Mundial, por meio de eventos geopol\u00edticos definidores da ordem global atlanticista que prevaleceu nos \u00faltimos 80 anos, como a Confer\u00eancia do Atl\u00e2ntico (agosto de 1941), os acordos de Bretton Woods (julho de 1944), a cria\u00e7\u00e3o da ONU (outubro de 1945) e da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte \u2013 OTAN (abril de 1949). Embora esse sistema-mundo tenha dado \u00e0 humanidade uma sensa\u00e7\u00e3o de comunidade de seguran\u00e7a, sob a tutela estadunidense, proporcionando o longo per\u00edodo de estabilidade interestatal conhecido por ordem internacional liberal baseada em regras (OBR ou OIL), contraditoriamente sempre se sustentou na instabilidade, produzindo e se retroalimentando de crises recorrentes e progressivas.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, tem sido consenso entre muitos analistas geopol\u00edticos a ideia de que essa ordem mundial baseada em regras, que teve seu primeiro grande sobressalto na <u>crise do <\/u><u><em>subprime<\/em><\/u><u> de 2007<\/u>, amplificou-se com a crise econ\u00f4mica da Covid-19 em 2020, deteriorou-se com a guerra na Ucr\u00e2nia e o genoc\u00eddio em Gaza, parece ter ru\u00eddo completamente em 2025 com a segunda chegada do magnata Donald Trump \u00e0 presid\u00eancia dos EUA, principal patrocinador, junto com o belicista Benjamin Netanyahu, da convuls\u00e3o global gerada pelo ataque ao Ir\u00e3, agora em 2026.<\/p>\n<p>O Ocidente atlanticista, liderado pelos EUA, est\u00e1 inequivocamente em decesso acelerado, mas o <em>Ocidente cognitivo<\/em> ainda est\u00e1 em franca ascens\u00e3o. Quem o incorpora hoje, aliando-se psiquicamente aos ideais iluministas, s\u00e3o as autocracias em ascens\u00e3o (incluindo-se a estadunidense), guiadas pelos ideais nacionalistas, conservadores, xen\u00f3fobos e mercadol\u00f3gicos capitaneados pela ultradireita.<\/p>\n<p>A instabilidade geopol\u00edtica da\u00ed gerada tem como desdobramento a percep\u00e7\u00e3o de que uma nova \u201cordem global multipolar\u201d estaria em andamento. Mas a Hist\u00f3ria, que no fundo constitui um espelho da evolu\u00e7\u00e3o e da hegemonia desse <em>Ocidente cognitivo<\/em>, nos ensina que o pr\u00f3prio conceito de ordem global pressup\u00f5e a exist\u00eancia de um imp\u00e9rio ou de uma na\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos. Foi assim ao longo de toda a Era Crist\u00e3 (e secular), come\u00e7ando pelo Imp\u00e9rio Romano (27-395 d.C.), seguido dos imp\u00e9rios Bizantino (395-1453), Romano-Germ\u00e2nico (800-1806), Brit\u00e2nico (1583\u20131783) e agora o decadente imperialismo Americano (1803-2001).<\/p>\n<p>No entanto, contrariando o fluxo da hist\u00f3ria milenar patriarcal, parece n\u00e3o haver nenhum candidato ao posto de policial do mundo. Nem mesmo a crescente exuber\u00e2ncia econ\u00f4mica da China ou a proemin\u00eancia militar da R\u00fassia, embora estas representem as sombras residuais desse <em>Ocidente cognitivo<\/em>, que inequivocamente est\u00e1 em seu \u00faltimo est\u00e1gio, conseguiria galgar tal intento, face \u00e0s atuais circunst\u00e2ncias de esgotamento civilizat\u00f3rio e de policrise global terminal que a humanidade enfrenta.<\/p>\n<p>O imperialismo vigente hoje \u00e9 difuso e impercept\u00edvel, e seu principal agente se chama <em>Mercado<\/em>. Na\u00e7\u00f5es de dimens\u00f5es continentais como China, R\u00fassia e \u00cdndia, bem como muitas outras na\u00e7\u00f5es que orbitam na esfera de influ\u00eancia desses <em>novos Leviat\u00e3s<\/em>, como \u00e9 o caso do Ir\u00e3, Paquist\u00e3o, Coreia do Norte, tamb\u00e9m assumiram as duas principais din\u00e2micas cognitivas geopol\u00edticas do Ocidente: o mercado expansionista termo-f\u00f3ssil e a l\u00f3gica do armamento (sobretudo o nuclear), como forma de superar suas limita\u00e7\u00f5es e assegurar suas soberanias hobbesianas. \u00c9 a ascens\u00e3o dessas novas pot\u00eancias regionais conflitantes que hoje comp\u00f5e as sombras desse <em>Ocidente cognitivo<\/em> terminal, pois n\u00e3o disp\u00f5em mais de recursos naturais a serem predados, nem de uma arena terrestre segura para se digladiar sem arrastar toda a humanidade para o abismo, haja vista o poder de autodestrui\u00e7\u00e3o total assegurada por seus artefatos nucleares.<\/p>\n<p>Alguns desdobramentos decorrentes da <em>Grande Acelera\u00e7\u00e3o<\/em> desencadeada desde a d\u00e9cada de 1950 comportam alguns ineditismos na hist\u00f3ria da humanidade que refor\u00e7am a tese de que o que estamos vivenciando n\u00e3o \u00e9 somente uma mudan\u00e7a na ordem global, e sim uma encruzilhada civilizat\u00f3ria, de cunho antropol\u00f3gico, que provavelmente caminhar\u00e1 no fio da navalha entre o colapso socioambiental, podendo ser amplificado por guerras ou uma conflagra\u00e7\u00e3o nuclear global (o que enceraria prematuramente a aventura humana), e uma, hoje improv\u00e1vel, ruptura civilizat\u00f3ria sobre a qual ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar qual seria sua g\u00eanese, din\u00e2mica e implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, uma nova conforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica global nunca se constituiu como um pacto de boas inten\u00e7\u00f5es para manuten\u00e7\u00e3o de um sistema de governo pac\u00edfico entre os homens, mas sim um fen\u00f4meno emergente resultante de for\u00e7as geopol\u00edticas e geoecon\u00f4micas que operam silenciosamente, sempre sob a \u00e9gide da <em>Cultura Patriarcal<\/em> milenar. No entanto, pelo menos tr\u00eas principais marcos temporais parecem evidenciar que esse <em>Ocidente cognitivo<\/em> esbarrou em seus limites l\u00f3gicos e que, portanto, estamos imersos num impasse civilizat\u00f3rio cujo desfecho ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever. S\u00e3o eles:<\/p>\n<p><strong>1) 1945, a insanidade do armamento nuclear:<\/strong> o desenvolvimento de artefatos b\u00e9licos a partir de rea\u00e7\u00f5es nucleares de fiss\u00e3o ou fus\u00e3o, iniciado no contexto da Segunda Guerra Mundial com o Projeto Manhattan e aplicado sobre Hiroshima e Nagasaki, levou a l\u00f3gica hobbesiana ao seu paroxismo: pela primeira vez, uma guerra entre na\u00e7\u00f5es teria o poder de destrui\u00e7\u00e3o de aniquilar a vida na Terra. Sabemos que os muitos acidentes em usinas nucleares j\u00e1 ocorridos, como foi o caso da catastr\u00f3fica trag\u00e9dia de Chernobil em 1986, mostram que, mesmo aqueles pa\u00edses com grande capacidade de gerenciamento e mitiga\u00e7\u00e3o de desastres, como ocorreu em Fukushima em 2011, a ideia de seguran\u00e7a nuclear global num mundo governado por disputas ideol\u00f3gicas, \u00e9tnicas, religiosas e comerciais conflitantes, cujas ra\u00edzes muitas vezes envolvem desaven\u00e7as milenares, \u00e9 uma quimera.<\/p>\n<p>Apesar do empenho diplom\u00e1tico entre na\u00e7\u00f5es para lidar com crises nucleares \u2013 como ocorreu nos emblem\u00e1ticos casos da crise dos m\u00edsseis cubanos em 1962 e do exerc\u00edcio de lan\u00e7amento nuclear Able Archer da OTAN em 1983 \u2013, mediante a cria\u00e7\u00e3o de protocolos de desarmamento, o mundo hoje nunca esteve t\u00e3o suscet\u00edvel quanto \u00e0 real possibilidade de uma conflagra\u00e7\u00e3o nuclear em escala global. 1945 inaugura, portanto, o primeiro limite do <em>Ocidente cognitivo<\/em>: o de que a l\u00f3gica da guerra entre as grandes pot\u00eancias militares est\u00e1 esgotada. O que constata esse limite \u00e9 o fato de que, nos \u00faltimos 80 anos, nenhuma na\u00e7\u00e3o dotada de meios nucleares ousou utiliz\u00e1-los contra seus inimigos.<\/p>\n<p><strong>2) 1971, a ultrapassagem da biocapacidade da Terra:<\/strong> por conta dessa estabilidade interestatal ocorrida no p\u00f3s-Segunda Guerra, em boa medida garantida pela inova\u00e7\u00e3o do artefato nuclear inaugurado em 1945, deflagrou-se o processo de crescimento demoecon\u00f4mico ilimitado respons\u00e1vel pelo fen\u00f4meno da Grande Acelera\u00e7\u00e3o desenvolvimentista iniciada com os Trinta Anos Gloriosos (1945-1975) \u2013 que permitiram o Estado de bem-estar social americano, europeu e japon\u00eas (1947-1973). Foi a partir desse avan\u00e7o geoecon\u00f4mico exponencial que a capacidade dos ecossistemas de produzir materiais biol\u00f3gicos renov\u00e1veis e absorver res\u00edduos gerados pelo homem, medida em hectares globais (GHa), foi ultrapassada em 1971. Desde essa \u00e9poca, a humanidade vem consumindo mais recursos do que o planeta consegue regenerar, resultando num crescente e incontrol\u00e1vel d\u00e9ficit ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Essa Grande Acelera\u00e7\u00e3o ganha mais impulso ainda com o ingresso dos Quatro Tigres Asi\u00e1ticos \u2013 Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan (entre 1960-1990) e, especialmente, do Imp\u00e9rio do Meio (a partir de 2000) na din\u00e2mica de <em>Mercado<\/em>, o principal sustent\u00e1culo do <em>Ocidente cognitivo<\/em> na contemporaneidade. E nesse j\u00e1 ag\u00f4nico e decisivo dec\u00eanio em que nos encontramos, a \u00cdndia, um pa\u00eds continental com 1,5 bilh\u00e3o de habitantes, est\u00e1 em acelerado desenvolvimento para ser tamb\u00e9m inclu\u00edda no padr\u00e3o de consumo ocidental. O ano de 1971 representa, assim, a ultrapassagem do segundo limite do <em>Ocidente cognitivo<\/em>, pois, desde este ano, estamos consumindo uma Terra que n\u00e3o existe, acelerando perigosamente o processo de colapso ambiental que j\u00e1 se encontra beirando a irreversibilidade.<\/p>\n<p><strong>3) O limiar temporal da irreversibilidade:<\/strong> estamos agora bem pr\u00f3ximos do limiar da irreversibilidade, as chamadas fronteiras planet\u00e1rias ou tipping points (pontos de n\u00e3o retorno) da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, os limites cr\u00edticos do sistema terrestre para a habitabilidade do planeta, cujo marco temporal de mitiga\u00e7\u00e3o, segundo a comunidade cient\u00edfica, provavelmente se dar\u00e1 nesta d\u00e9cada. Se esses limites forem ultrapassados, o sistema clim\u00e1tico sofrer\u00e1 altera\u00e7\u00f5es severas, abruptas e autoperpetuadas, tornando sua revers\u00e3o ao estado original imposs\u00edvel, pelo menos na escala de tempo humana. Com o aquecimento global, em curso h\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas, ultrapassarmos em 2024 a meta de 1,5\u00b0C acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais, estabelecida no Acordo de Paris, o que nos aproxima perigosamente desses pontos de irreversibilidade.<\/p>\n<p>O consenso cient\u00edfico \u00e9 o de que o que for feito ou n\u00e3o para mitigar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas at\u00e9 2030 definir\u00e1 o futuro da humanidade. Esse consenso est\u00e1 inequivocamente dissecado no livro-dossi\u00ea <em>O dec\u00eanio decisivo: propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia<\/em> (Editora Elefante, 2023), do pesquisador da Unicamp, Luiz Marques, que vem acompanhando sistematicamente os estudos e alertas de renomados cientistas do clima, como \u00e9 o caso do respeitado climatologista australiano Will Steffen (1947-2023), falecido recentemente, para quem \u201cestamos numa bifurca\u00e7\u00e3o. N\u00e3o teremos outra d\u00e9cada para hesitar como fizemos na d\u00e9cada passada.\u201d Segundo o cientista sueco Johan Rockstr\u00f6m, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Clim\u00e1tico (PIK), sediado na Alemanha, \u201cde acordo com a evid\u00eancia que temos hoje, minha conclus\u00e3o \u00e9 de que o que fizermos entre 2020 e 2030 ser\u00e1 decisivo para o futuro da humanidade na Terra.\u201d<\/p>\n<p>Sim, provavelmente inauguraremos por volta de 2030 uma nova fase hist\u00f3rica de elevad\u00edssimos riscos planet\u00e1rios (e, at\u00e9 mesmo, existenciais), j\u00e1 reconhecida pela pr\u00f3pria comunidade cient\u00edfica, que, considerando os riscos implicados tanto do desenvolvimento nuclear iniciado em 1945 quanto da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica em andamento, passou a estabelecer um marco de t\u00e9rmino civilizat\u00f3rio simbolizado pelo Rel\u00f3gio do Ju\u00edzo Final. Segundo esse instrumento escatol\u00f3gico criado em 1947 pelo Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago, a humanidade est\u00e1, considerando-se os par\u00e2metros de destrui\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica perpetrada at\u00e9 o ano de 2025, a apenas 85 segundos da meia-noite, ponto mais cr\u00edtico registrado na sua longa s\u00e9rie hist\u00f3rica (1947-2025).<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas marcos temporais anunciam a falta de f\u00f4lego da <em>Cultura Patriarcal<\/em> milenar que forjou o <em>Ocidente cognitivo<\/em> ao qual o <em>Homo sapiens<\/em> moderno ficou irremediavelmente condicionado, desencadeando o longo e impercept\u00edvel processo antropog\u00eanico de autodestrui\u00e7\u00e3o autoinfligida. Ap\u00f3s 2030, a humanidade provavelmente experimentar\u00e1 um mundo irreconhec\u00edvel, sob a conflu\u00eancia da agudiza\u00e7\u00e3o de muitas realidades severamente dist\u00f3picas: clima cada vez mais hostil aos seres humanos, regimes autorit\u00e1rios vigilantes operando exclusivamente sob a l\u00f3gica predat\u00f3ria do <em>Mercado<\/em> e, como consequ\u00eancia, comportamentos ps\u00edquicos cada vez mais depressivos e sociop\u00e1ticos. Essa conjun\u00e7\u00e3o de realidades dist\u00f3picas refor\u00e7a aquilo que o fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo Edgar Morin vem denunciando h\u00e1 tempos, a percep\u00e7\u00e3o de que, ao longo da Hist\u00f3ria, a humanidade sempre esteve amea\u00e7ada por duas barb\u00e1ries interligadas, que se refor\u00e7aram mutuamente no nosso chamado processo civilizador:<\/p>\n<p>\u201c<em>Estamos amea\u00e7ados, cada vez mais, por duas barb\u00e1ries. A primeira barb\u00e1rie a gente conhece, vem desde os prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria, que \u00e9 a crueldade, a domina\u00e7\u00e3o, a subservi\u00eancia, a tortura, tudo isso. A segunda barb\u00e1rie, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma barb\u00e1rie fria e gelada, a do c\u00e1lculo econ\u00f4mico. Porque quando existe um pensamento fundado exclusivamente em contas, n\u00e3o se v\u00ea mais os seres humanos.\u201d<\/em><\/p>\n<p>A barb\u00e1rie hist\u00f3rica \u00e9 conhecida desde os prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria humana. Est\u00e1 associada ao padr\u00e3o cultural estabelecido desde as migra\u00e7\u00f5es invasoras indo-europeias, gerando domina\u00e7\u00e3o, hierarquia, guerra, fanatismo e a normaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia como elemento constituinte do processo civilizador. A barb\u00e1rie da t\u00e9cnica \u00e9 subproduto da barb\u00e1rie hist\u00f3rica, constitui a barb\u00e1rie moderna. Ela surge do pensamento fundado apenas na l\u00f3gica puramente econ\u00f4mica, racional e burocr\u00e1tica, que ignora os aspectos humanos e afetivos. Essa barb\u00e1rie desumaniza o humano ao trat\u00e1-lo como n\u00fameros ou mercadorias. A civiliza\u00e7\u00e3o atual \u00e9 um paradoxo onde a t\u00e9cnica e a efici\u00eancia (segunda barb\u00e1rie) muitas vezes potencializam a viol\u00eancia e a exclus\u00e3o promovidas pelas engrenagens de domina\u00e7\u00e3o (primeira barb\u00e1rie).<\/p>\n<p>A agudiza\u00e7\u00e3o da cogni\u00e7\u00e3o ocidental, neste s\u00e9culo XXI, face aos limites l\u00f3gicos por ela ignorados \u2013 o colapso clim\u00e1tico em curso e a conflagra\u00e7\u00e3o nuclear iminente \u2013, representa tamb\u00e9m uma transi\u00e7\u00e3o de \u00e9poca demasiadamente perturbadora, pois as potencialidades humanas que poder\u00e3o emergir ainda s\u00e3o totalmente incertas. Como essa cogni\u00e7\u00e3o sempre constituiu a \u00fanica l\u00f3gica do mundo humano durante seis mil\u00eanios, a consuma\u00e7\u00e3o do seu prov\u00e1vel esgotamento nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas nos coloca diante do imponder\u00e1vel: o mundo humano se esgotar\u00e1 junto, ou ser\u00e1 capaz de restaurar sua cogni\u00e7\u00e3o ancestral?<\/p>\n<h3><strong>\u00c9 poss\u00edvel escapar do \u201cprivil\u00e9gio do absurdo\u201d que afaga a psiqu\u00ea ocidental?<\/strong><\/h3>\n<p>Talvez seja premonit\u00f3rio o fato dos \u00faltimos seis mil\u00eanios de predomin\u00e2ncia da <em>Cultura Patriarcal<\/em> terem se desdobrado na palavra-s\u00edntese \u201cOcidente\u201d, cujo significado est\u00e1 ligado \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cqueda\u201d. Ocidente representa o \u201cocaso\u201d, oriundo do latim <em>occasus<\/em>, que significa p\u00f4r do sol, aquilo que nunca deixa de decair, num processo aparentemente infind\u00e1vel, mas que culminar\u00e1 inevitavelmente com a sua morte. Essa percep\u00e7\u00e3o do Ocidente foi recentemente apresentada pelo fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben: \u201cO Ocidente existe e se governa apenas no tempo de seu fim e de seu decl\u00ednio ass\u00edduo e, como seu Deus, est\u00e1 inexoravelmente em processo de morte.\u201d<\/p>\n<p>Afirmar que esse <em>Ocidente cognitivo<\/em> \u2013 que imp\u00f4s \u00e0 subjetividade humana um \u00fanico modo de viver hierarquizado, fragmentado, competitivo, excludente e predat\u00f3rio, provavelmente despertado seis mil anos atr\u00e1s, com as invas\u00f5es patrocinadas pelos povos pastores guerreiros kurgan \u2013 sempre constituir\u00e1 a normalidade da vida dos humanos s\u00f3 se sustenta enquanto houver recursos naturais a serem consumidos e armas a serem usadas para eliminar o outro cujos desdobramentos n\u00e3o resultem numa autodestrui\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria. Mas essas duas l\u00f3gicas predat\u00f3rias e ecocidas, conforme comprova a pr\u00f3pria comunidade cient\u00edfica, j\u00e1 est\u00e3o operando bem acima dos limites geof\u00edsicos. Se \u00e9 que a humanidade ainda tem alguma margem de viabilidade, a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 se seria poss\u00edvel escapar desse buraco negro ps\u00edquico infligido pelo longu\u00edssimo processo de conserva\u00e7\u00e3o da <em>Cultura Patriarcal<\/em>.<\/p>\n<p>A principal caracter\u00edstica desse padr\u00e3o patriarcal milenar que configura e condiciona o modo de viver do <em>Homo sapiens<\/em> moderno, desde tempos imemoriais, \u00e9 a sua capacidade autopreserva\u00e7\u00e3o. Uma cosmovis\u00e3o resulta de um processo recursivo entre observador e objeto observado, em que a percep\u00e7\u00e3o da realidade produz e se retroalimenta da realidade percebida, o que o neurobi\u00f3logo Humberto Maturana chamava de processo de conserva\u00e7\u00e3o de uma cultura estabelecida, isto \u00e9, de um modo de viver predominante. Esse condicionamento cognitivo parece ter muito a ver com o <em>insight<\/em> mais importante do fil\u00f3sofo Arthur Schopenhauer (1788-1860): \u201co mundo \u00e9 a minha representa\u00e7\u00e3o\u201d, que Maturana traduziu nos seguintes termos:<\/p>\n<p>\u201c<em>Uma cultura \u00e9, constitutivamente, um sistema conservador fechado, que gera seus membros \u00e0 medida que eles a realizam por meio de sua participa\u00e7\u00e3o nas conversa\u00e7\u00f5es que a constituem e a definem. (\u2026)<\/em><\/p>\n<p><em>Ao crescer como membro de uma cultura, cresce-se imerso de modo natural e como algo que se aceita como pr\u00f3prio e espontaneamente desejado. Isso ocorre numa rede de conversa\u00e7\u00f5es que implicam um emocionar que especifica, operacionalmente, o conjunto de premissas que fundamenta as distintas argumenta\u00e7\u00f5es racionais dessa cultura. Para os membros da comunidade que a vivem, uma cultura \u00e9 um \u00e2mbito de verdades evidentes. Elas n\u00e3o requerem justifica\u00e7\u00e3o e seu fundamento n\u00e3o se v\u00ea nem se investiga, a menos que no futuro dessa comunidade surja um conflito cultural que leve a tal reflex\u00e3o. Esta \u00faltima \u00e9 a nossa situa\u00e7\u00e3o atual.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Foi por meio desse enlace cognitivo que o <em>Homo sapiens<\/em> ocidentalizado antropomorfizou a sua pr\u00f3pria ontologia, sob o condicionamento da cosmovis\u00e3o patriarcal desencadeada, provavelmente, a partir das migra\u00e7\u00f5es invasoras Kurgan. Desde que a <em>Cultura Patriarcal<\/em> se instalou, os seres humanos t\u00eam sido movidos por um impulso de apropria\u00e7\u00e3o, controle e dom\u00ednio de uma realidade cada vez mais intrat\u00e1vel. Como diz o escritor John Gray, \u201cnegar a realidade para preservar uma vis\u00e3o de mundo n\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica limitada aos cultos. A disson\u00e2ncia cognitiva \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o humana normal.\u201d<\/p>\n<p>Recentemente, o fil\u00f3sofo italiano Franco Berardi (Bifo) sintetizou bem como esse <em>Ocidente cognitivo<\/em> est\u00e1 enraizado na cultura humana e o quanto \u00e9 dif\u00edcil super\u00e1-lo:<\/p>\n<p>\u201c<em>A distopia predomina no imagin\u00e1rio contempor\u00e2neo, na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e na cinematogr\u00e1fica. As cat\u00e1strofes que tomam conta das geleiras e florestas, mares e cidades talvez pudessem ser controladas, embora seja dif\u00edcil que os danos causados a esses ecossistemas possam ser revertidos. Mas o colapso da mente coletiva torna improv\u00e1vel que possamos sair com vida. O fato de se continuar investindo na guerra, enquanto se produz o aquecimento, a degrada\u00e7\u00e3o e a acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos, \u00e9 um sinal ineg\u00e1vel de um colapso mental. Devemos, portanto, nos ocupar deste fato para compreender em que ponto estamos na par\u00e1bola descendente destinada a conduzir a humanidade \u00e0 sua extin\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Portanto, o colapso ambiental em acelerado curso desde os anos 1970, o atual flerte geopol\u00edtico com uma conflagra\u00e7\u00e3o nuclear global e as amea\u00e7as da incontrol\u00e1vel disrup\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica em curso n\u00e3o s\u00e3o um acidente hist\u00f3rico ou um mero evento contingente, mas o coroamento final desse modelo civilizat\u00f3rio milenar oriundo do fen\u00f4meno antropol\u00f3gico chamado <em>Cultura Patriarcal<\/em>. Fomos t\u00e3o eficientes em dominar e explorar, que desestabilizamos a base da vida na Terra.<\/p>\n<p>A agonia da geopol\u00edtica atual \u00e9 apenas o desdobramento dessa longa escalada antropoc\u00eantrica, hoje refletida no p\u00e2nico que a ascens\u00e3o global da ultradireita representa, cujo projeto \u00e9 enterrar de vez a possibilidade de uma conviv\u00eancia democr\u00e1tica, transformar o planeta num imenso <em>Mercado<\/em> e submeter o que ainda resta de vida social \u00e0 vigil\u00e2ncia dos algoritmos. S\u00e3o estes os novos <em>Leviat\u00e3s<\/em> que sustentam a continuidade da din\u00e2mica patriarcal milenar, que continuam refor\u00e7ando e exacerbando o atual sistema-mundo capitalista expansivo e predat\u00f3rio, e que, desse modo, est\u00e3o minando a complexidade dos processos que regem e sustentam a vida no nosso planeta, da qual somos parte integrante e dependemos para viver.<\/p>\n<p>A humanidade est\u00e1 vivenciando nos dias atuais o colapso resultante de um longu\u00edssimo desvio antropol\u00f3gico. Um colapso paradoxalmente impercept\u00edvel e enganosamente confort\u00e1vel a uma \u00ednfima minoria que comp\u00f5e a elite dominante, os autocratas \u2013 generais, sacerdotes e mercadores \u2013 que precisam da manuten\u00e7\u00e3o e potencializa\u00e7\u00e3o desse <em>Ocidente cognitivo<\/em> para conservar seus privil\u00e9gios e desejos de apropria\u00e7\u00e3o. Trata-se, portanto, do paradoxo da hipernormaliza\u00e7\u00e3o da ru\u00edna civilizat\u00f3ria muito bem identificado pelo soci\u00f3logo Gil-Manuel Hern\u00e1ndez i Mart\u00ed: \u201cao impor a fic\u00e7\u00e3o de que o sistema \u00e9 est\u00e1vel, os poderes dominantes que vivem dele n\u00e3o o salvam, mas agravam seu colapso\u201d.<\/p>\n<p>Esse mundo humano em acelerada decomposi\u00e7\u00e3o decorre, portanto, de uma sucess\u00e3o de desdobramentos do problema raiz antropol\u00f3gico da <em>Cultura Patriarcal<\/em> milenar que pariu esse <em>Ocidente cognitivo<\/em> ao qual ficamos irremediavelmente condicionados. Estamos agora diante de um impasse existencial que se imp\u00f5em face \u00e0 atual policrise terminal. \u00c9 poss\u00edvel ao animal humano retornar \u00e0 sua ancestralidade? Restaurar a sua condi\u00e7\u00e3o matr\u00edstica origin\u00e1ria, em congru\u00eancia com a complexidade do mundo real? Ainda h\u00e1 tempo para fazer tamanha transi\u00e7\u00e3o cultural?<\/p>\n<p>O quanto do que cada um de n\u00f3s estiver disposto a renunciar \u00e0s ilus\u00f5es desse <em>Ocidente cognitivo<\/em> decidir\u00e1 o que prevalecer\u00e1 nesse insond\u00e1vel s\u00e9culo XXI: a insensatez do colapso socioambiental ou uma ruptura civilizat\u00f3ria restauradora. E talvez a ren\u00fancia a esse <em>Ocidente cognitivo<\/em> \u2013 ilusoriamente confort\u00e1vel ao 1% que integra as elites dominantes, miseravelmente aviltante ao restante da humanidade e ao nosso degradado sistema Terra, e inequivocamente autodestrutivo \u2013 esteja em tentar ver o mundo a partir do que prop\u00f5em os labirintos po\u00e9ticos de Luiz Borges, sem as duas tardes: a da <em>Cruz<\/em> e a da <em>Cicuta<\/em>, os dois principais mitos que asseguraram o \u201cprivil\u00e9gio do absurdo\u201d do inebriante processo civilizador que afaga as mentes ocidentais.<\/p>\n<p>\u201c<em>Todos n\u00f3s saboreamos o mal do Ocidente.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Emil Cioran<\/p>\n<p><em>NOTA<\/em>: este texto contou com uma proveitosa leitura cr\u00edtica do articulista Ruben Bauer Naveira, colaborador do <em>Outras Palavras<\/em>, a quem agrade\u00e7o.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Ocidente cognitivo, o \u201cprivil\u00e9gio do absurdo\u201d appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ataque-ao-mais-medicos-brasil-nao-se-curvara-a-quem-persegue-a-ciencia-avisa-padilha\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ataque ao Mais M\u00e9dicos: Brasil n\u00e3o se curvar\u00e1 a qu...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/china-vai-lutar-ate-o-final-afirma-porta-voz-sobre-a-guerra-tarifaria\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u201cChina vai lutar at\u00e9 o final\u201d, afirma porta-voz so...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/china-condena-possivel-ampliacao-do-bloqueio-a-cuba-e-fala-em-trabalho-conjunto-nao-esta-sozinha\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">China condena poss\u00edvel amplia\u00e7\u00e3o do bloqueio a Cub...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bolsonaro-foi-quem-cochichou-no-ouvido-de-carluxo-o-ataque-aos-ratos-bolsonaristas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Bolsonaro foi quem cochichou no ouvido de Carluxo ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma <i>psiqu\u00ea<\/i> coletiva foi forjada ao longo de mil\u00eanios. Tentou apagar as complexidades da vida e riquezas culturais. Sua base \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o voraz, hoje vista na crise clim\u00e1tica, risco nuclear e mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida. Ainda h\u00e1 tempos para uma ruptura civilizat\u00f3ria?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/ocidente-cognitivo-o-privilegio-do-absurdo\/\">Ocidente cognitivo, o \u201cprivil\u00e9gio do absurdo\u201d<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":82275,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6497,45773,2687,1115,45774,45775,45776,15076],"tags":[],"class_list":["post-82274","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ancestralidade","category-condicao-humana","category-crise-civilizatoria","category-imperialismo","category-ocidente-cognitivo","category-psique","category-relativismo-cultural","category-territorios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82274"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82274\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}