{"id":83711,"date":"2026-04-17T18:57:18","date_gmt":"2026-04-17T21:57:18","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fascismo-a-brasileira-e-o-pobre-de-direita\/"},"modified":"2026-04-17T18:57:18","modified_gmt":"2026-04-17T21:57:18","slug":"fascismo-a-brasileira-e-o-pobre-de-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fascismo-a-brasileira-e-o-pobre-de-direita\/","title":{"rendered":"Fascismo \u00e0 brasileira e o pobre de direita"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"650\" height=\"350\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pobre-do-pobre-de-direita.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pobre-do-pobre-de-direita.png 650w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/17185626\/pobre-do-pobre-de-direita-300x162.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\"><figcaption>Imagem: Cameron, Verney Lovett, 1844-1894; Oliver, Daniel, 1830-1916<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo alem\u00e3o Theodor Adorno integrou uma equipe multidisciplinar que nos anos 1940 pesquisou a personalidade autorit\u00e1ria e o fascismo junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o norte-americana. Atrav\u00e9s de question\u00e1rios, entrevistas cl\u00ednicas e testes projetivos, a pesquisa produziu a chamada \u201cescala F\u201d, um indicador emp\u00edrico destinado a quantificar a vulnerabilidade do cidad\u00e3o comum a discursos e pr\u00e1ticas fascistas. Adorno estudou o fen\u00f4meno fascista atrav\u00e9s de conceitos originados da psican\u00e1lise freudiana, priorizando a centralidade do car\u00e1ter emocionalmente projetivo da hostilidade dirigida contra popula\u00e7\u00f5es socialmente marginalizadas. Um conceito da psican\u00e1lise freudiana assume grande import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o da agressividade fascista: o \u201cestranho\u201d.<\/p>\n<p> \u201cEstranho\u201d \u00e9 a palavra em l\u00edngua portuguesa que mais se aproxima do conceito freudiano denominado <em>unheimlich<\/em>, que significa \u201cestranho\u201d, \u201cestrangeiro\u201d, \u201cassustador\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cpr\u00f3ximo\u201d e \u201cfamiliar\u201d. A express\u00e3o <em>unheimlich <\/em>sintetiza sentimentos pr\u00f3prios a uma estranheza que assusta, incomoda, mas que \u00e9 ao mesmo tempo \u00edntima e familiar ao sujeito. A s\u00edndrome agressiva que \u00e9 pr\u00f3pria ao fascismo envolve a projetividade emocional associada ao <em>unheimlich<\/em>, e isso significa que as qualidades negativas que s\u00e3o projetadas nas v\u00edtimas (inferioridade, malignidade, perversidade, promiscuidade, periculosidade, etc.) representam estranheza, mas tamb\u00e9m profunda familiaridade, pois pertencem \u00e0 pr\u00f3pria estrutura emocional dos agentes do preconceito. Uma frase de Freud, citada por, Adorno, ilustra a ambiguidade do fen\u00f4meno: \u201co que repele por sua estranheza \u00e9, na verdade, demasiado familiar\u201d<sup>1<\/sup> A relev\u00e2ncia do cruzamento entre a pesquisa sobre o fascismo realizada nos anos 1940 pelos te\u00f3ricos da Escola de Frankfurt e o conceito sociol\u00f3gico do pobre de direita, elaborado pelo pesquisador Jess\u00e9 Souza, torna-se evidente quando consideramos que um ser humano somente se torna consciente de si e de seu pr\u00f3prio valor por meio de seu reconhecimento por outros. A identidade pessoal n\u00e3o \u00e9 uma propriedade puramente interna do sujeito, mas o resultado de processos de reconhecimento rec\u00edproco, que tornam sua pr\u00f3pria autoestima dependente de media\u00e7\u00f5es intersubjetivas.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter ambivalente da proje\u00e7\u00e3o emocional envolvida na s\u00edndrome fascista \u00e9 muito esclarecedor sobre a natureza patol\u00f3gica da personalidade autorit\u00e1ria. Ela mobiliza conte\u00fados reprimidos de seu pr\u00f3prio interior para justificar, antes de mais nada para si pr\u00f3pria, a segrega\u00e7\u00e3o agressiva e perseguidora voltada contra minorias no registro \u00e9tnico, de g\u00eanero, de religi\u00e3o e de nacionalidade. Em outras palavras, o racismo, o sexismo e outros preconceitos envolvidos na s\u00edndrome fascista, s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es perversas da diferen\u00e7a social, que encobrem os pr\u00f3prios conte\u00fados emocionais reprimidos do sujeito agressor. O preconceito atua como um mecanismo emocional de defesa do indiv\u00edduo contra suas pr\u00f3prias dificuldades e desejos que parecem amea\u00e7adores. A estigmatiza\u00e7\u00e3o obsessiva da diferen\u00e7a oculta, portanto, a incapacidade de aceita\u00e7\u00e3o e de elabora\u00e7\u00e3o de uma grande parte de si mesmo, que \u00e9 condenada a permanecer estranha, embora seja insuportavelmente \u00edntima e familiar.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-33.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-33.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O fascismo \u00e9 um del\u00edrio social de enfrentamento muito dif\u00edcil, pois sua percep\u00e7\u00e3o \u00e9 encoberta pelo pr\u00f3prio padr\u00e3o de normalidade da sociedade de massas. Para muitas pessoas, \u00e9 \u201cnormal\u201d ser moralista, racista, machista, homof\u00f3bico, discriminar a religi\u00e3o alheia, etc. \u00c9 um del\u00edrio que se identifica com a normalidade, o que dificulta justamente que ele possa ser compreendido como problema a ser superado. Notadamente em sociedades culturalmente autorit\u00e1rias e precariamente democr\u00e1ticas, como \u00e9 o caso do Brasil, \u00e9 normal ser fascista. A quest\u00e3o nevr\u00e1lgica do fascismo como del\u00edrio social n\u00e3o est\u00e1 somente na segrega\u00e7\u00e3o social que ele produz, mas tamb\u00e9m em proporcionar a satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades de reconhecimento social que s\u00e3o altamente relevantes para a identidade psicol\u00f3gica e autoestima dos sujeitos. Quando se estuda os motivos que levam \u00e0 ades\u00e3o ao fascismo, \u00e9 preciso considerar que as rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas de reconhecimento m\u00fatuo s\u00e3o fundamentais para a forma\u00e7\u00e3o da identidade das pessoas. Em outras palavras: ningu\u00e9m se constitui plenamente como sujeito isoladamente, mas mediante o reconhecimento do outro. Esse \u00e9 o v\u00ednculo entre a pesquisa sobre o fascismo realizada pela Escola de Frankfurt nos anos 1940 e a an\u00e1lise do fen\u00f4meno social do pobre de direita realizada pelo soci\u00f3logo Jess\u00e9 Souza nos dias atuais.<\/p>\n<p>Jess\u00e9 Souza analisa o fen\u00f4meno aparentemente paradoxal de uma parcela das classes populares apoiarem e votarem em candidatos de direita e extrema-direita mesmo que esse voto contrarie seus interesses econ\u00f4micos imediatos, pois esses mesmos pol\u00edticos, uma vez eleitos, promovem a\u00e7\u00f5es que favorecem pautas neoliberais concentradoras de renda. Para o soci\u00f3logo, o apoio \u00e0 direita e \u00e0 extrema direita entre popula\u00e7\u00f5es economicamente pobres se explica porque a \u00eanfase em um discurso moralista oferece dignidade, status e valida\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica a pessoas cotidianamente humilhadas e exclu\u00eddas, que n\u00e3o se reconhecem no discurso das esquerdas. Isso ocorre porque os partidos de esquerda, historicamente concentrados em quest\u00f5es econ\u00f4micas ou identit\u00e1rias, se desconectaram da experi\u00eancia cotidiana de pessoas economicamente desfavorecidas que s\u00e3o afetadas profundamente por feridas morais, relacionadas a necessidades de reconhecimento social.<\/p>\n<p> O v\u00ednculo entre a atmosfera agressiva do fascismo e o fen\u00f4meno pol\u00edtico do pobre de direita foi antecipado por Adorno, pois este exp\u00f4s a manipula\u00e7\u00e3o fascista exercida pelos l\u00edderes de massas como um acontecimento que envolve o apoio popular a objetivos completamente incompat\u00edveis com seu pr\u00f3prio autointeresse racional. Jess\u00e9 Souza chama aten\u00e7\u00e3o para a dimens\u00e3o simb\u00f3lica e moral da pol\u00edtica entre os pobres, na medida em que valores relacionados a honra, reconhecimento, vergonha e respeito t\u00eam enorme import\u00e2ncia para a forma\u00e7\u00e3o da prefer\u00eancia pol\u00edtica. Da mesma forma, Adorno abordou os diversos tipos de preconceito como formas de compensa\u00e7\u00e3o narc\u00edsica para a humilha\u00e7\u00e3o cotidiana. A \u201cvingan\u00e7a dos bastardos\u201d, denomina\u00e7\u00e3o empregada pelo soci\u00f3logo brasileiro para designar o apoio das camadas populares \u00e0 direita e \u00e0 extrema direita, se alimenta de fortes necessidades de reconhecimento social que s\u00e3o suficientes para tornar quase irrelevante a quest\u00e3o infraestrutural da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Adorno explicita a rela\u00e7\u00e3o de grande proximidade entre o fascismo e o pobre de direita: \u201co ganho narc\u00edsico fornecido pela propaganda fascista \u00e9 \u00f3bvio. Ela sugere continuamente que o seguidor, simplesmente por pertencer ao <em>in-group<\/em>, \u00e9 melhor, superior e mais puro que aqueles que s\u00e3o exclu\u00eddos\u201d<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>O tema adquire contornos tr\u00e1gicos a partir de uma interroga\u00e7\u00e3o proposta por Jess\u00e9 Souza no \u00faltimo cap\u00edtulo de seu livro: por que parte significativa dos pobres negros, especialmente os que se identificam como evang\u00e9licos, apoiaram a direita e a extrema direita no Brasil, mesmo quando essa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contraria seus interesses materiais imediatos? A resposta a essa pergunta remete ao fen\u00f4meno social do \u201cnegro evang\u00e9lico\u201d, que o soci\u00f3logo brasileiro analisa a partir da condi\u00e7\u00e3o do negro pobre no Brasil como sendo marcada n\u00e3o s\u00f3 por pobreza, mas por humilha\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de reconhecimento. Contrariando a hip\u00f3tese antropol\u00f3gica mais imediata, associada ao reconhecimento \u00e9tnico, e ao pertencimento comunit\u00e1rio marcado pela valoriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, pol\u00edtica e social da diferen\u00e7a, grande parte da popula\u00e7\u00e3o negra pobre encontra no moralismo evang\u00e9lico formas compensat\u00f3rias de reconhecimento intersubjetivo.<\/p>\n<p> A filia\u00e7\u00e3o religiosa evang\u00e9lica surge como um meio de resgate simb\u00f3lico, pois a igreja oferece la\u00e7os de comunidade, valor, presen\u00e7a, e um discurso moral que permite ao indiv\u00edduo negro pobre se sentir como \u201chomem de bem\u201d, \u201cgente de valor\u201d. Jess\u00e9 Sousa analisa o fen\u00f4meno do embranquecimento simb\u00f3lico, pelo qual o negro evang\u00e9lico adota a moralidade branca e conservadora para se sentir socialmente reconhecido. Por meio de um moralismo ostensivo contra as minorias sociais, o negro evang\u00e9lico se posiciona como \u201cpobre, honesto, decente e trabalhador\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o ao \u201cbandido\u201d, ao \u201cmaconheiro\u201d, ao \u201cgay\u201d, \u00e0 \u201cfeminista\u201d, etc<sup>3<\/sup>. Esse esquema simb\u00f3lico refor\u00e7a uma identifica\u00e7\u00e3o com a ordem conservadora que \u00e9 compat\u00edvel com o rep\u00fadio a pol\u00edticas sociais voltadas para minorias, e tamb\u00e9m \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o racial, que s\u00e3o encaradas como \u201cprivil\u00e9gios inadmiss\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Embora a tese de Jess\u00e9 Souza n\u00e3o seja constru\u00edda a partir de dados quantitativos sistem\u00e1ticos, mas de acordo com uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica baseada em elementos culturais e hist\u00f3ricos relativos \u00e0 consci\u00eancia pol\u00edtica das classes populares, ela \u00e9 respaldada por evid\u00eancias emp\u00edricas. De acordo com estimativas extra\u00eddas de dados do IBGE e de pesquisas eleitorais do Instituto Datafolha relativas ao segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022, uma parcela expressiva do eleitorado popular votou no candidato representativo da direita e extrema direita. Considerando como pobres as fam\u00edlias que disp\u00f5em de at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos mensais, no segundo turno das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, 25% dos brasileiros pobres votaram na direita, o que significa que 1 em cada quatro brasileiros pobres se enquadra na tipologia apresentada pelo autor. Al\u00e9m disso, tais estimativas apontam que 5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 pobre, negra, evang\u00e9lica e votou em Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Mesmo que a maioria da popula\u00e7\u00e3o pobre e\/ou negra no Brasil realize escolhas eleitorais identificadas com candidaturas de esquerda, a parcela que endossa a tese de Jess\u00e9 Souza \u00e9 digna de muita preocupa\u00e7\u00e3o, em virtude dos aspectos fascistas que s\u00e3o subjacentes a esse fen\u00f4meno social. O voto do pobre de direita n\u00e3o \u00e9 o resultado de uma reflex\u00e3o cuidadosa, e por esse motivo ele n\u00e3o reflete uma escolha pol\u00edtica e ideol\u00f3gica consciente. Em virtude do ressentimento social nele implicado, o voto do pobre de direita reflete uma atitude desesperada de reconhecimento social por parte de seres humanos cotidianamente humilhados e profundamente frustrados. O car\u00e1ter emocionalmente projetivo associado ao estranho (<em>unheimlich<\/em>freudiano) evidencia aspectos reprimidos da pr\u00f3pria personalidade, que em vez de serem elaborados, s\u00e3o escoados sob a forma de preconceitos e comportamentos agressivos voltados contra as minorias sociais.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/728x90_banner_sobcomuns-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/728x90_banner_sobcomuns-1.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2024\/06\/31200612\/728x90_banner_sobcomuns-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ainda que os indiv\u00edduos em quest\u00e3o demonstrem capacidade de racionalizar suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e de encobrir os m\u00faltiplos preconceitos sociais nelas implicados, n\u00e3o se deve subestimar o papel desempenhado pela disson\u00e2ncia cognitiva enquanto mecanismo ps\u00edquico respons\u00e1vel por obscurecer dimens\u00f5es essenciais da realidade social e pol\u00edtica. Quando sujeitos afetivamente predispostos ao preconceito veem suas convic\u00e7\u00f5es confrontadas por dados objetivos da realidade, eles procuram preservar tais cren\u00e7as profundamente enraizadas. Por esse motivo, recorrem com frequ\u00eancia a processos de sele\u00e7\u00e3o enviesada das informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, privilegiando apenas aquelas que confirmam suas disposi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias e descartando ou desqualificando evid\u00eancias dissonantes. Ent\u00e3o, torna-se poss\u00edvel afirmar que fascismo, circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o (<em>fake news<\/em>) e din\u00e2micas de disson\u00e2ncia cognitiva constituem elementos estruturalmente interligados.<\/p>\n<p>O enfrentamento do fascismo exige, como condi\u00e7\u00e3o fundamental, o exerc\u00edcio da autorreflex\u00e3o, direcionada para a estrutura ps\u00edquica e as disposi\u00e7\u00f5es subjetivas do pr\u00f3prio agente persecut\u00f3rio. Nesse sentido, a supera\u00e7\u00e3o do preconceito pressup\u00f5e que o indiv\u00edduo reconhe\u00e7a e aceite que a origem do problema n\u00e3o se encontra no mundo exterior ou nas caracter\u00edsticas das v\u00edtimas, mas em sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o subjetiva. Mas \u00e9 precisamente a necessidade desse deslocamento que torna o preconceito particularmente resistente \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o. O fascismo engendra, simultaneamente, mecanismos de defesa ps\u00edquica que bloqueiam ou dificultam processos de autorreflex\u00e3o, os quais seriam indispens\u00e1veis para sua supera\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, a pr\u00f3pria din\u00e2mica fascista produz barreiras internas que impedem o sujeito de confrontar criticamente suas disposi\u00e7\u00f5es emocionais e seus impulsos projetivos, consolidando a implica\u00e7\u00e3o mais nefasta da viol\u00eancia fascista, que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o e perpetua\u00e7\u00e3o da incapacidade de espelhamento de si mesmo no Outro.<\/p>\n<p>Hegel foi o fil\u00f3sofo que originariamente postulou o reconhecimento intersubjetivo como a meta mais elevada a ser alcan\u00e7ada pelo esp\u00edrito. Em sua perspectiva, \u00e9 indissoci\u00e1vel do desenvolvimento do esp\u00edrito na hist\u00f3ria que o desejo de reconhecimento seja deslocado da busca mon\u00f3tona e incessante de riquezas materiais e objetos mundanos, e assuma que sua meta maior e mais verdadeira \u00e9 de natureza espiritual. Mas esse reconhecimento genu\u00edno \u00e9 sistematicamente travado pelos processos de coisifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, que s\u00e3o sociais, e afetam tanto as popula\u00e7\u00f5es economicamente pobres, quanto a classe m\u00e9dia e as elites. Entre estas, a persegui\u00e7\u00e3o insana de reconhecimento, mediante ostenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou status social, n\u00e3o \u00e9 menos prec\u00e1ria para o esp\u00edrito do que a valida\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica almejada pelo cidad\u00e3o de baixa renda. O que h\u00e1 de tr\u00e1gico na quest\u00e3o em pauta \u00e9 que a exclus\u00e3o econ\u00f4mica e social, em vez de engendrar consci\u00eancia politica, compaix\u00e3o e reconhecimento entre os oprimidos, acaba se convertendo em ferida moral que se torna terreno f\u00e9rtil para a barb\u00e1rie fascista.<\/p>\n<p>O reconhecimento de um esp\u00edrito por outro constitui um horizonte metaf\u00edsico e \u00e9tico, sendo a \u00fanica maneira pela qual \u00e9 poss\u00edvel revestir a vida de sentido existencial. Na sociedade capitalista, essa meta espiritual \u00e9 sistematicamente frustrada, pois os seres humanos buscam reconhecimento por meio de formas simb\u00f3licas de prest\u00edgio social e de ostenta\u00e7\u00e3o de riqueza material, que s\u00e3o artif\u00edcios prec\u00e1rios, pois mant\u00eam o esp\u00edrito carente de formas aut\u00eanticas de reconhecimento. O desejo de reconhecimento pressup\u00f5e a aceita\u00e7\u00e3o do Outro como diferen\u00e7a radical, para que todo tipo de estranheza no registro cultural, religioso, de nacionalidade ou de g\u00eanero possa ser superada. Dessa forma, tanto as modalidades hegem\u00f4nicas de reconhecimento praticadas pelas elites econ\u00f4micas, quanto o pertencimento simb\u00f3lico almejado pelo pobre de direita est\u00e3o fadados ao fracasso. O insucesso na realiza\u00e7\u00e3o do reconhecimento implica o enfraquecimento das puls\u00f5es de vida, pois quando as rela\u00e7\u00f5es entre sujeitos s\u00e3o mediadas exclusivamente pelo c\u00e1lculo utilit\u00e1rio, o resultado \u00e9 a dissemina\u00e7\u00e3o de \u00f3dio e frieza. No tocante ao tema espec\u00edfico do pobre de direita, quando a busca por pertencimento simb\u00f3lico se alimenta da hostiliza\u00e7\u00e3o ostensiva dos \u201canormais\u201d que s\u00e3o a bola da vez do fascismo \u00e0 brasileira, temos a sedimenta\u00e7\u00e3o da recusa sistem\u00e1tica da mais nobre realiza\u00e7\u00e3o \u00e9tica de um ser humano, que \u00e9 o reconhecimento genu\u00edno da humanidade do Outro.<\/p>\n<hr>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<ol>\n<li> Adorno, T.W. e Horkheimer, M. <em>Dial\u00e9tica<\/em><em>do<\/em><em>esclarecimento<\/em>. Rio de Janeiro, Zahar, 1985, p. 170.<\/li>\n<li> Adorno, T.W. <em>Ensaios<\/em><em>sobre<\/em><em>psicologia<\/em><em>social<\/em><em>e<\/em><em>psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora Unesp, 2015, p. 177<\/li>\n<li> Souza, J. <em>O<\/em><em>pobre<\/em><em>de<\/em><em>direita:<\/em><em>a<\/em><em>vingan\u00e7a<\/em><em>dos<\/em><em>bastardos<\/em>. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o brasileira, 2024, p. 190.<\/li>\n<\/ol>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Fascismo \u00e0 brasileira e o pobre de direita appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/senadores-celebram-maior-crescimento-do-pib-brasileiro-desde-2021\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Senadores celebram maior crescimento do PIB brasil...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/encerramento-do-inquerito-das-fake-news-esta-em-pauta-diz-fachin\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Encerramento do inqu\u00e9rito das fake news est\u00e1 em pa...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/de-baku-a-belem-conheca-os-caminhos-da-cop30\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-1600-e8411d51d2a0f3a90ba966dd50dfc317-e1762379132262-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">De Baku a Bel\u00e9m: conhe\u00e7a os caminhos da COP30<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/africa-seriam-os-chineses-novos-imperialistas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/250901-Ferrovia-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u00c1frica: seriam os chineses novos imperialistas?<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que muitos marginalizados votam contra seus pr\u00f3prios interesses? H\u00e1 uma complexa estrutura ps\u00edquica que se sobrep\u00f5e \u00e0 consci\u00eancia pol\u00edtica. E a ultradireita aproveita-se deste bloqueio da autorreflex\u00e3o. Uma an\u00e1lise a partir de Adorno, Freud e Jess\u00e9 de Souza<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/fascismo-a-brasileira-e-o-pobre-de-direita\/\">Fascismo \u00e0 brasileira e o pobre de direita<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":83712,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[46267,6007,423,1819,6713,34717,48772,24381],"tags":[],"class_list":["post-83711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-consciencia-politica","category-crise-brasileira","category-extrema-direita","category-fascismo","category-hegel","category-jesse-souza","category-populacao-pobre","category-theodor-adorno"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83711\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}