{"id":83949,"date":"2026-04-21T04:00:00","date_gmt":"2026-04-21T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mundo-atinge-recorde-de-bilionarios-bolha-vai-afetar-mais-vulneraveis-diz-especialista\/"},"modified":"2026-04-21T04:00:00","modified_gmt":"2026-04-21T07:00:00","slug":"mundo-atinge-recorde-de-bilionarios-bolha-vai-afetar-mais-vulneraveis-diz-especialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mundo-atinge-recorde-de-bilionarios-bolha-vai-afetar-mais-vulneraveis-diz-especialista\/","title":{"rendered":"Mundo atinge recorde de bilion\u00e1rios: \u201cBolha vai afetar mais vulner\u00e1veis\u201d, diz especialista"},"content":{"rendered":"<p>Os ricos est\u00e3o cada vez mais ricos. O aviso feito com humor por um grupo de ax\u00e9 music em 1999 dominou as r\u00e1dios brasileiras numa \u00e9poca em que a tradicional lista de super-ricos da revista Forbes trazia menos de 500 bilion\u00e1rios, que, juntos, n\u00e3o somavam sequer 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares. <span>No levantamento de 2026, lan\u00e7ado em mar\u00e7o, a Forbes j\u00e1 lista 3.428 bilion\u00e1rios, sete vezes mais do que na \u00e9poca do hit carnavalesco de \u201cAs Meninas\u201d, e os integrantes da lista somam um patrim\u00f4nio de 20 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, o equivalente ao PIB da China<\/span> ou a oito vezes a economia do Brasil.<\/p>\n<p>A lista ganhou 400 novos nomes em um ano, \u00e9 liderada pelo magnata Elon Musk, que caminha para se tornar o primeiro trilion\u00e1rio da hist\u00f3ria, e conta com 71 nomes brasileiros, 16 a mais do que em 2025. <span>Juntos, apenas os brasileiros listados concentram uma riqueza superior a R$ 1,5 trilh\u00e3o.<\/span> A lista completa de bilion\u00e1rios brasileiros pode ser conferida no fim do texto.<\/p>\n<p>O mais rico bilion\u00e1rio de origem brasileira segue sendo Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, que acumula 35,9 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (R$ 185,6 bilh\u00f5es). O segundo lugar na vers\u00e3o nacional da revista coube \u00e0 herdeira do Banco Safra, Vicky Safra, grega naturalizada brasileira, que acumula 27,1 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (R$ 140,1 bilh\u00f5es), um montante maior do que o or\u00e7amento do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo para todo o ano de 2026. Na lista internacional, diferentemente dos anos anteriores, ela passou a ser contabilizada pela Gr\u00e9cia.<\/p>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div data-id=\"5\"><\/div>\n<div data-id=\"6\"><\/div>\n<div data-id=\"7\"><\/div>\n<div data-id=\"8\"><\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div data-id=\"5\"><\/div>\n<div data-id=\"6\"><\/div>\n<div data-id=\"7\"><\/div>\n<div data-id=\"8\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p>Professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Antonio David Cattani dedicou parte da carreira acad\u00eamica a estudar os super-ricos \u2013 algo raro na \u00e1rea da ci\u00eancia social, em que a pobreza costuma ser um tema mais recorrente. Em entrevista \u00e0<strong> Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>, o autor dos livros \u201cA Riqueza Desmistificada\u201d (2013) \u201cRicos, Podres de Ricos\u201d (2017) e \u201cCar\u00ed$$imos Ricos\u201d (2019) vai na contram\u00e3o do \u201ctom apolog\u00e9tico\u201d que a lista da Forbes costuma ganhar nas manchetes e descreve o avan\u00e7o da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza como incompat\u00edvel com o regime democr\u00e1tico e \u201cnefasto\u201d para a economia.<\/p>\n<p>\u201c<span>[Os bilion\u00e1rios] conseguem manipular as elei\u00e7\u00f5es, os governos, e escapar de todos os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses \u00faltimos anos. Isso, com o tempo, \u00e9 um caminho para o desastre<\/span>, que infelizmente vai afetar mais as pessoas vulner\u00e1veis, assalariados, aposentados e pequenos empres\u00e1rios. Esse deve ser o alerta que o jornalismo, a universidade, os intelectuais, os sindicalistas t\u00eam que levantar: n\u00e3o se caminha para uma situa\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio. Pelo contr\u00e1rio, estamos caminhando de forma acelerada para a beira de um precip\u00edcio\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, parte da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza est\u00e1 ligada a \u201cuma dimens\u00e3o especulativa\u201d, com empresas com valores de mercado artificialmente muito maiores do que sua capacidade produtiva. \u201cPor isso, h\u00e1 centenas de analistas de v\u00e1rias \u00e1reas e tend\u00eancias ideol\u00f3gicas dizendo que vai estourar uma bolha, que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade da economia, [com a possibilidade de] termos a repeti\u00e7\u00e3o de uma crise como a de 2008 ou como a de 1929. A grande quest\u00e3o \u00e9 que ningu\u00e9m sabe quando\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Confira os principais destaques da entrevista.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p><strong>Estamos perto de ter o primeiro trilion\u00e1rio da hist\u00f3ria e a lista da Forbes chegou a 3.428 bilion\u00e1rios. Por que h\u00e1 <\/strong><strong>cada vez mais<\/strong><strong> bilion\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um processo internacional que vem se acentuando desde os anos 1980. Milion\u00e1rios sempre existiram, mas o que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 essa prolifera\u00e7\u00e3o de figuras desconhecidas, com neg\u00f3cios que a gente nem sabia que permitiam uma acumula\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande de riqueza. O que \u00e9 importante \u00e9 o aumento exponencial da riqueza e a velocidade desse processo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, os bilion\u00e1rios americanos e ingleses levavam anos para construir os seus imp\u00e9rios. [Hoje,] os processos especulativos e as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas fazem com que, em quest\u00e3o de meses, um jovem de 30 anos vire bilion\u00e1rio.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns 10 anos, o pessoal que faz essa revista [Forbes], a edi\u00e7\u00e3o original americana, colocou uma nota metodol\u00f3gica que \u00e9 muito interessante. A nota dizia que, apesar de todos os recursos que a pr\u00f3pria Forbes tem, eles n\u00e3o conseguiam identificar muitos dos ricos, porque h\u00e1 uma parte que n\u00e3o tem interesse na divulga\u00e7\u00e3o. Outros t\u00eam, \u00e9 uma quest\u00e3o de prest\u00edgio, \u00e0s vezes at\u00e9 como uma estrat\u00e9gia de mercado, de ostentar a riqueza.<\/p>\n<p>Mas o pessoal da Forbes assumia que existe um outro universo, quase paralelo, de ricos que t\u00eam o maior interesse em passar despercebidos. <span>[A lista] j\u00e1 surpreende pela quantidade, pelo volume de riqueza, mas n\u00f3s temos que considerar que existem muito mais.<\/span><\/p>\n<p><strong>Um apontamento que aparece em <\/strong><strong>alguns textos<\/strong><strong> \u00e9 de que o processo de aumento da quantidade e dos recursos dos bilion\u00e1rios tem a ver com uma <\/strong><strong>financeiriza\u00e7\u00e3o da economia<\/strong><strong>. \u00c9 por a\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca existe uma causa \u00fanica. S\u00e3o v\u00e1rios processos. Eu diria que uma parte dessa nova riqueza est\u00e1 ligada \u00e0s inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, \u00e1reas de neg\u00f3cios que antes eram inimagin\u00e1veis, n\u00e3o tinham nem sentido, e [hoje] propiciam essa acumula\u00e7\u00e3o de riqueza. Outro aspecto, normalmente associado, \u00e9 a quest\u00e3o da financeiriza\u00e7\u00e3o. Esses multimilion\u00e1rios n\u00e3o s\u00f3 extraem recursos e rendimentos de atividades f\u00edsicas, servi\u00e7os, ind\u00fastria, mas tamb\u00e9m com uma dimens\u00e3o especulativa na \u00e1rea financeira.<\/p>\n<p>Se pensarmos em algumas das fortunas do Vale do Sil\u00edcio nos Estados Unidos, o rendimento que as empresas propiciam n\u00e3o corresponde ao seu valor de mercado. Por exemplo, um servi\u00e7o de inform\u00e1tica, uma inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, que renda, digamos, 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, mas que tem seu valor de mercado, das a\u00e7\u00f5es negociadas em bolsa, podendo chegar a US$ 1 bilh\u00e3o ou at\u00e9 a US$ 10 bilh\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 uma correspond\u00eancia entre esse valor nominal que circula e a base concreta de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o ou gera\u00e7\u00e3o de algum produto industrial. \u00c9 especulativo. Vende as a\u00e7\u00f5es, negocia, faz uma fus\u00e3o, etc., mas \u00e9 uma esp\u00e9cie de castelo de cartas que n\u00e3o tem fundamento s\u00f3lido.<\/p>\n<p><span>Por isso, h\u00e1 centenas de analistas de v\u00e1rias \u00e1reas e tend\u00eancias ideol\u00f3gicas dizendo que vai estourar uma bolha que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade da economia, [com a possibilidade de] termos a repeti\u00e7\u00e3o de uma crise como a de 2008 ou como a de 1929.<\/span> A grande quest\u00e3o \u00e9 que ningu\u00e9m sabe quando.<\/p>\n<p>A [explos\u00e3o dessa] bolha vai afetar os mais vulner\u00e1veis. Alguns grandes quebrar\u00e3o, perder\u00e3o parte do seu patrim\u00f4nio, mas os verdadeiramente ricos, nas Big Techs, no setor financeiro, t\u00eam um leque de investimentos que garantem que, mesmo com uma crise, uma guerra, eles continuem mantendo seu patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p><strong>O notici\u00e1rio brasileiro nos \u00faltimos meses s\u00f3 fala de Banco Master e Daniel Vorcaro. A despeito de n\u00e3o constar na lista de bilion\u00e1rios da Forbes, as informa\u00e7\u00f5es que temos \u00e9 de que ele tinha um patrim\u00f4nio vultoso, na casa dos bilh\u00f5es, e que utilizava esse poder econ\u00f4mico para se blindar e influenciar o poder pol\u00edtico. Paralelamente, vemos nos EUA os donos das Big Techs, que t\u00eam patrim\u00f4nios na casa das dezenas e centenas de bilh\u00f5es, com uma rela\u00e7\u00e3o umbilical com o governo Trump. Essa concentra\u00e7\u00e3o de riqueza \u00e9 compat\u00edvel com o regime democr\u00e1tico?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, absolutamente n\u00e3o. Isso levanta a quest\u00e3o mais grave quando se trata de analisar a riqueza concentrada. <span>O princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o dessa din\u00e2mica mais recente do capitalismo \u00e9 de uma gan\u00e2ncia sem fim. Mesmo que contribuam para uma pol\u00edtica suicida<\/span>, para a amplia\u00e7\u00e3o da bolha especulativa que vai explodir, esse pessoal n\u00e3o tem freios.<\/p>\n<p>Imagina algu\u00e9m que tenha um bilh\u00e3o, que esse um bilh\u00e3o renda, n\u00e3o sei, 100 milh\u00f5es. Humanamente \u00e9 imposs\u00edvel aproveitar uma riqueza nesse volume. Ele pode ter 30 casas, meia d\u00fazia de jatinhos, mas humanamente ele n\u00e3o vai poder visitar todas as suas casas, comer tudo que tem de imagin\u00e1vel e de car\u00edssimo no mundo. Mesmo assim, eles continuam querendo mais. Agora vai ser um iate um pouquinho maior, depois vai ser uma casa em Aspen, um castelo no sul da Fran\u00e7a, uma fazenda maior, que vai render mais ainda. \u00c9 uma gan\u00e2ncia sem limite.<\/p>\n<p>E, para manter essa din\u00e2mica, eles precisam, sim, de um respaldo pol\u00edtico, de comprar impunidade em face aos crimes que eles cometem, de influenciar governos, ministros, deputados para que n\u00e3o haja tributa\u00e7\u00e3o justa, que n\u00e3o haja controle. E essa dimens\u00e3o \u00e9 nitidamente criminosa, n\u00e3o tem outra palavra. Pode-se dizer que est\u00e3o gerando emprego e renda, mas \u00e9 uma dimens\u00e3o incontrol\u00e1vel. Eles tentam escapar dos controles e vai chegando a uma coisa amplamente destrutiva.<\/p>\n<p>Se a gente ouvir as declara\u00e7\u00f5es desses grandes da Big Techs, \u00e9 uma coisa assim\u2026 <span>s\u00e3o criminosos, assumidamente criminosos. Eles querem ampliar o seu poder \u00e0s custas de uma desumaniza\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de trabalhadores, de pessoas sem recursos. \u00c9 uma coisa insaci\u00e1vel<\/span>, eles querem mais e mais \u2013 como sempre foi no sistema capitalista, mas agora est\u00e1 chegando a uma dimens\u00e3o, n\u00e3o vou dizer autodestrutiva, porque eles v\u00e3o se safar, mas destrutiva da civiliza\u00e7\u00e3o, da natureza, da cultura.<\/p>\n<p>A cultura est\u00e1 sendo bestificada para que n\u00e3o haja movimentos mais contestadores. E o que assusta \u00e9 a velocidade. O que levava d\u00e9cadas agora acontece em meses.<\/p>\n<p><strong>Nesse cen\u00e1rio, em que algumas figuras conseguem direcionar a inova\u00e7\u00e3o, a tecnologia e a pr\u00f3pria agenda p\u00fablica, \u00e9 poss\u00edvel termos uma sociedade justa?<\/strong><\/p>\n<p>Eu tenho uma frase em um livro que diz exatamente isso. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 necess\u00e1rio\u201d. Mesmo que pare\u00e7a imposs\u00edvel, combater esse tipo de din\u00e2mica e de comportamento empresarial \u00e9 uma necessidade de sobreviv\u00eancia. Existem mecanismos muito simples, que come\u00e7am a iniciar uma mudan\u00e7a, como o trabalho que voc\u00ea est\u00e1 fazendo, que n\u00e3o \u00e9 o trabalho jornal\u00edstico deslumbrado, que falsifica. A primeira solu\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, um trabalho de esclarecimento.<\/p>\n<p>A outra quest\u00e3o \u00e9 mais t\u00e9cnica. Cerca de 10 anos atr\u00e1s foi criado o Instituto de Justi\u00e7a Fiscal \u2013 e inclusive tem figuras proeminentes, que t\u00eam participado do debate p\u00fablico, e que trabalham com uma perspectiva bem p\u00e9 no ch\u00e3o, que \u00e9 \u201cvamos taxar a riqueza\u201d. O que acontece? <span>A maioria dessas empresas, desses multimilion\u00e1rios, tem assessorias fiscais para evitar o pagamento de imposto na propor\u00e7\u00e3o que eles teriam o dever de contribuir. Um assalariado que ganha R$ 10 mil paga proporcionalmente muit\u00edssimo mais.<\/span><\/p>\n<p>\u201cAh, mas j\u00e1 houve a tributa\u00e7\u00e3o na empresa\u201d. N\u00e3o interessa. A riqueza sobre a qual n\u00f3s estamos falando \u00e9 uma que as pessoas recebem. Imagine algu\u00e9m recebendo R$ 1 bilh\u00e3o por ano de rendimentos que s\u00e3o isentos. Um \u00fanico indiv\u00edduo recebendo 1 bilh\u00e3o. Qual \u00e9 o or\u00e7amento a\u00ed da <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>? Voc\u00eas com um bilh\u00e3o, o que daria para fazer?<\/p>\n<p><strong>A gente falou um pouco dos efeitos na pr\u00f3pria democracia, na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa, mas em <\/strong><strong>uma entrevista<\/strong><strong> que o senhor deu para a BBC, anos atr\u00e1s, outros efeitos s\u00e3o citados, como na pr\u00f3pria economia\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Esse tipo de concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 nefasta para a economia. Primeiro, h\u00e1 o aspecto negativo de pessoas recebendo uma mis\u00e9ria, quando poderiam ter um padr\u00e3o de vida melhor, j\u00e1 que quem produz a riqueza a est\u00e1 transferindo de forma coletiva para indiv\u00edduos que t\u00eam essa capacidade de se apropriar do trabalho coletivo. Mas a economia como um todo est\u00e1 ficando disfuncional com essa despropor\u00e7\u00e3o de poder, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um poder democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>[Os bilion\u00e1rios] conseguem manipular as elei\u00e7\u00f5es, os governos, e escapar de todos os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses \u00faltimos anos. Isso, com o tempo, \u00e9 um caminho para o desastre, que infelizmente vai afetar mais as pessoas vulner\u00e1veis, assalariados, aposentados e pequenos empres\u00e1rios. Esse deve ser o alerta que o jornalismo, a universidade, os intelectuais, os sindicalistas t\u00eam que levantar: n\u00e3o se caminha para uma situa\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio. Pelo contr\u00e1rio, estamos caminhando de forma acelerada para a beira de um precip\u00edcio.<\/p>\n<p><strong>D\u00e1 para relacionar essa concentra\u00e7\u00e3o de riqueza ao \u201csentimento\u201d da popula\u00e7\u00e3o global? Em outras palavras, o avan\u00e7o de ideias extremistas, muitas vezes reacion\u00e1rias, tem alguma rela\u00e7\u00e3o com essa din\u00e2mica, uma certa percep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o d\u00e1 pra vencer na vida enquanto os ricos \u201cficam cada vez mais ricos\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>O meu \u00faltimo ensaio acad\u00eamico se chama \u201cA S\u00edndrome do Mal\u201d. Ele trata n\u00e3o tanto sobre a quest\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza ou o papel dos bilion\u00e1rios mas dessa volta de um\u2026 volta n\u00e3o, de um reacionarismo que sempre esteve presente e que agora pode ser mobilizado e potencializado pelas grandes fortunas.<\/p>\n<p>Por exemplo, o V\u00e9io da Havan. Ele [Luciano Hang] usa o seu poder tanto para ampliar a sua empresa, quanto para fortificar uma imagem reacion\u00e1ria, fascista. O foco [do ensaio] \u00e9 nesse sentimento de parte da popula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um sentimento autorit\u00e1rio, s\u00e3o cren\u00e7as obscurantistas, discriminat\u00f3rias, elitistas. Isso sempre existiu, mas por que aparece agora? Porque tem apoio. O troglodita do vizinho, do parente, os bolsonaristas j\u00e1 estavam ali, s\u00f3 precisaram de uma certa mobiliza\u00e7\u00e3o. E essa mobiliza\u00e7\u00e3o vem, em parte, dessas figuras que controlam o poder econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>Quando a Forbes levou ao ar a lista de bilion\u00e1rios brasileiros em 2025, <\/strong><strong>a publica\u00e7\u00e3o<\/strong><strong> disse o seguinte: \u201ca chegada de novos nomes na lista de bilion\u00e1rios deve ser especialmente comemorada, mostra a renova\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios, a circula\u00e7\u00e3o de capital (\u2026), mostra que a economia brasileira ainda oferece oportunidades a quem se disp\u00f5e a explor\u00e1-las\u201d. H\u00e1 essa imagem de bilion\u00e1rios que chegaram l\u00e1 gra\u00e7as ao seu esfor\u00e7o, ao seu trabalho. Na pr\u00e1tica, \u00e9 por a\u00ed? Qual \u00e9 o perfil dos bilion\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p>Parte do fen\u00f4meno \u00e9, sim, de gente inovadora, que teve uma sacada em algum neg\u00f3cio. Isso existe. Agora, o que n\u00e3o aparece [destacado na publica\u00e7\u00e3o] da Forbes \u00e9 a quest\u00e3o da heran\u00e7a, de uma s\u00e9rie de personagens que j\u00e1 s\u00e3o a segunda ou a terceira gera\u00e7\u00e3o, que o av\u00f4 era milion\u00e1rio e o pai era bilion\u00e1rio. Eles podem ter a capacidade de administrar isso e ampliar seus neg\u00f3cios, ou simplesmente usufruir do bom e do melhor sem fazer for\u00e7a. Eles s\u00f3 t\u00eam que ter os seus ajudantes, servi\u00e7os de planejamento tribut\u00e1rio, administradores, advogados e etc.<\/p>\n<p>Eu acho que \u00e9 importante mostrar que o quadro apolog\u00e9tico que apresentam as revistas e o car\u00e1ter deslumbrado de parte da grande imprensa \u00e9 completamente equivocado. \u201cEles conseguiram, todo mundo consegue\u201d ou \u201cficou bilion\u00e1rio por esfor\u00e7o pr\u00f3prio\u201d. <span>\u00c9 uma coisa de culpabilizar os pobres pela sua pobreza e valorizar os ricos pela sua riqueza. O quadro \u00e9 bem mais complicado, de rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7a e de poder.<\/span><\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Bill Gates, inventou uma maravilha, mas depois, o crescimento s\u00f3 foi poss\u00edvel porque ele destruiu parte da concorr\u00eancia. Parte das inova\u00e7\u00f5es da Microsoft foram conseguidas com golpes de for\u00e7a, comprando ou destruindo concorrentes, construindo praticamente um monop\u00f3lio.<\/p>\n<p>A partir de um volume fant\u00e1stico de riqueza, n\u00e3o existe mais livre concorr\u00eancia, mas simplesmente situa\u00e7\u00f5es de poder que, com o tempo, como no caso da Microsoft, se revelam ineficientes para a economia. Poderia haver a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de forma bem mais barata, mais racional, se n\u00e3o houvesse esse monop\u00f3lio.<\/p>\n<p><strong>Quando o governo brasileiro trouxe a proposta de isentar o imposto de renda para quem paga at\u00e9 5 mil e estabelecer uma tributa\u00e7\u00e3o m\u00ednima para os super-ricos, quem era contr\u00e1rio se apoiou na tese de que os ricos iriam levar seu dinheiro para outros pa\u00edses. H\u00e1, em n\u00edvel global, <\/strong><strong>uma discuss\u00e3o<\/strong><strong> sobre um imposto que evite esses subterf\u00fagios. Como fazer com que isso aconte\u00e7a frente a multibilion\u00e1rios que utilizam poder econ\u00f4mico e influ\u00eancia pol\u00edtica contra a proposta? H\u00e1 uma perspectiva de frear essa din\u00e2mica de ricos cada vez mais ricos ou essa \u00e9 uma tend\u00eancia que se mostra irrevers\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Nada \u00e9 irrevers\u00edvel quando se fala da humanidade. Foi uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e, com muita luta, poder\u00e1 ser mudada. Agora, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de que [a taxa\u00e7\u00e3o provocaria] a transfer\u00eancia de patrim\u00f4nios e empresas para outros pa\u00edses, isso \u00e9 um engodo completo, eles n\u00e3o conseguem fazer isso. \u00c9 o mesmo discurso na Fran\u00e7a, na Su\u00ed\u00e7a, nos Estados Unidos. \u201cAh, se tiver tributa\u00e7\u00e3o, vamos embora\u201d. N\u00e3o v\u00e3o embora.<\/p>\n<p>Vamos pegar o caso do agroneg\u00f3cio brasileiro. Esses empres\u00e1rios v\u00e3o para onde? Para o Texas? N\u00e3o, v\u00e3o continuar aqui. Eles podem estar morando em Miami, mas o <em>locus <\/em>da sua atividade \u00e9 sempre nacional. Ele pode tentar transferir parte do dinheiro para outros lugares, mas eles n\u00e3o v\u00e3o sair. Isso \u00e9 simplesmente para amea\u00e7ar. \u201cAh, faremos isso e a economia vai desandar\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o vai.<\/p>\n<p>Tem que taxar. Ningu\u00e9m est\u00e1 propondo a guilhotina para esse pessoal. Est\u00e3o simplesmente propondo que paguem impostos, como todos os outros pagam, que contribuem para o bem comum, para a infraestrutura do pa\u00eds. Normalmente quando se fala em imposto, se pensa muito em imposto de renda, em IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados], etc. Mas tem um imposto muito importante, que \u00e9 o de transmiss\u00e3o [de heran\u00e7as], e que o Brasil tem uma das taxas mais baixas do mundo.<\/p>\n<p><span>Imagina, um multimilion\u00e1rio deixa uma fortuna de a\u00e7\u00f5es, propriedades, transmite para os seus herdeiros e n\u00e3o paga nada? S\u00f3 no Brasil. No Jap\u00e3o, na Su\u00e9cia, na Finl\u00e2ndia e nos pr\u00f3prios Estados Unidos, o imposto de sucess\u00e3o \u00e9 considerado justo<\/span> e, dependendo do pa\u00eds, vai de 20%, 30%, at\u00e9 40%. Claro, [os super-ricos] conseguem contornar em partes, mas n\u00e3o tem como escapar desse imposto. O herdeiro recebeu alguns bilh\u00f5es, vai pagar alguns milh\u00f5es, mas paga. Aqui no Brasil, a transmiss\u00e3o \u00e9 praticamente isenta. Mesmo que a pessoa pague a taxa\u00e7\u00e3o oficial, ela \u00e9 muito baixa, de 6, 7, 8%, at\u00e9 menos, a depender do estado.<\/p>\n<p>[Para fazer frente \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de riqueza] \u00e9 preciso coisas bem objetivas, mas que n\u00e3o passam no Congresso, porque quem tem alguns bilh\u00f5es tem alguns prepostos no Congresso que barram esse tipo de taxa\u00e7\u00e3o m\u00ednima \u2013 que \u00e9 considerada comum, normal e justa em pa\u00edses que eles mesmos admiram como os Estados Unidos e a Inglaterra. N\u00e3o \u00e9 nada de outro mundo, s\u00e3o medidas bem prosaicas, mas que s\u00e3o necess\u00e1rias para avan\u00e7armos um pouquinho em termos de justi\u00e7a social.<\/p>\n<h2><strong>Confira o levantamento completo dos bilion\u00e1rios listados pela Forbes no Brasil<\/strong><\/h2>\n<div data-src=\"visualisation\/28249557\"><\/div>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/entenda-passo-a-passo-o-julgamento-de-bolsonaro-e-aliados-no-stf\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/stf-julgamento-nucleo4_Foto-Rosinei-Coutinho_STF-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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