{"id":8419,"date":"2024-12-14T14:59:05","date_gmt":"2024-12-14T17:59:05","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor-parte-2\/"},"modified":"2024-12-14T14:59:05","modified_gmt":"2024-12-14T17:59:05","slug":"diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor-parte-2\/","title":{"rendered":"\u2018Diretas J\u00e1\u2019 na Unesp: h\u00e1 40 anos, universidade se mobilizava pela escolha do reitor \u2013 parte 2"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA <strong>Unesp<\/strong> \u00e9 nossa\u201d, dizia a faixa destacada no alto da reitoria ocupada na pra\u00e7a da S\u00e9, no centro de S\u00e3o Paulo, em 1984. Na \u00e9poca, n\u00e3o era uma afirma\u00e7\u00e3o qualquer. Isso porque a universidade foi fundada em 1976, sob o signo da <a href=\"https:\/\/tvtnews.com.br\/ditadura-certidoes-de-obito-de-vitimas-deve-constar-causa-real\/\">ditadura militar<\/a>.<\/p>\n<p>Nasceu de uma canetada do governador Paulo Egydio (1928-2021), que decidiu reunir os antigos \u201cinstitutos isolados\u201d e nomeou como primeiro reitor Luiz Ferreira Martins (1935-2021), ent\u00e3o coordenador da Cesesp (Coordenadoria do Ensino Superior do Estado de S\u00e3o Paulo). Tamb\u00e9m foi uma canetada que definiu o nome que a nova universidade carregaria: J\u00falio de Mesquita Filho (1892-1969), jornalista, da fam\u00edlia que fundou o jornal\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por acaso: a homenagem foi um afago ao\u00a0<em>Estad\u00e3o<\/em>, que publicou diversos editoriais contra os institutos isolados, conta Ulysses Telles Guariba Netto (1940-2017), no livro\u00a0<em>Tenho algo a dizer<\/em>, projeto realizado pelo Cedem e pelo OEDH (Observat\u00f3rio de Educa\u00e7\u00e3o em Direitos Humanos), publicado em 2014.<\/p>\n<p>Martins remanejou docentes e rearranjou cursos, fechou disciplinas e departamentos. Um conselho provis\u00f3rio, composto pelos diretores das diversas unidades, elaborou o estatuto da universidade, sem di\u00e1logo com os segmentos acad\u00eamicos. Eram tempos nebulosos, marcados pelo autoritarismo.<\/p>\n<p>Contando com a confian\u00e7a do governador do Estado (que entre 1966 e 1982 era eleito por via indireta, a fim de poupar o governo federal de lidar com opositores), o reitor indicava os diretores das unidades e dava o tom. Professores e alunos podiam ser suspensos, demitidos ou desligados, de acordo com seu engajamento nos movimentos de docentes e discentes, e nas quest\u00f5es universit\u00e1rias. \u00c0s vezes, sequer eram comunicados do motivo pelo qual recebiam a puni\u00e7\u00e3o. A atitude arbitr\u00e1ria estabelecia exemplos a fim de desencorajar iniciativas de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apenas seis meses depois do surgimento da Unesp, foi fundada a Associa\u00e7\u00e3o de Docentes da Unesp, a Adunesp, primeira institui\u00e7\u00e3o de docentes de ensino superior do pa\u00eds. Seu primeiro presidente foi Waldemar Saffioti (1922-1999), docente do Instituto de Qu\u00edmica, do c\u00e2mpus de Araraquara. Um \u201cDom Quixote\u201d, segundo a defini\u00e7\u00e3o prestada pelo amigo Telmo Arraes \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade da Unesp, cujo relat\u00f3rio final foi organizado pela historiadora Anna Maria Martinez Corr\u00eaa, do c\u00e2mpus de Assis, e publicado em 2014. Saffioti e outros viajaram para diversos c\u00e2mpus para mobilizar docentes que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinham representatividade no Conselho Universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o era importante, dado o hist\u00f3rico conflituoso de relacionamento entre as autoridades militares e as universidades. Ap\u00f3s o in\u00edcio do regime militar, faculdades foram invadidas por agentes da repress\u00e3o, reitorias foram alvo de interven\u00e7\u00f5es, estudantes foram perseguidos e presos, professores, expurgados.<\/p>\n<p><strong>Passado de engajamento<\/strong><\/p>\n<p>E, nos antigos institutos isolados, antes do surgimento da Unesp, professores e estudantes j\u00e1 estavam engajados na resist\u00eancia \u00e0 ditadura. A Faculdade de Filosofia de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, por exemplo, foi invadida pela pol\u00edcia j\u00e1 no dia 1\u00ba de abril de 1964, o dia do golpe. Pris\u00f5es ocorreram em Araraquara, Assis e Rio Claro, entre outras unidades. Professores e estudantes eram considerados \u201cinimigos da ordem\u201d, afirma a soci\u00f3loga Maria Ribeiro do Valle, do c\u00e2mpus de Araraquara, no livro\u00a0<em>Tenho algo a dizer<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cDiferentemente da USP ou da Unicamp, a Unesp n\u00e3o trazia\u00a0<em>uma<\/em>\u00a0<em>hist\u00f3ria<\/em>, mas\u00a0<em>mais de 10 hist\u00f3rias<\/em>. E os c\u00e2mpus de Assis, Araraquara, Botucatu e outros j\u00e1 vinham de uma trajet\u00f3ria pr\u00f3pria de luta muito forte\u201d, diz Solange T\u00f3la, 61, ent\u00e3o estudante de agronomia de Botucatu, que tamb\u00e9m participou da ocupa\u00e7\u00e3o. \u201cA jovem FCMBB [Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas e Biol\u00f3gicas de Botucatu] j\u00e1 nasceu para resistir\u201d, diz Jos\u00e9 Roberto Tozoni Reis, 76, que foi presidente do diret\u00f3rio acad\u00eamico entre 1968 e 1969, e depois integrou o movimento docente, sendo tesoureiro de 1984 a 1987.<\/p>\n<figure><figcaption>Em sentido hor\u00e1rio, Milton Lahuerta e Ant\u00f4nio Luiz Caldas Junior (fotos antigas e atuais), Solange T\u00f3la, Adail Rollo, Gilberto Moreira Mello e Marco Aur\u00e9lio Nogueira (fotos atuais); no centro, abaixo, William Saad e Reinaldo Ayer (foto antiga)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Efetivamente, estudantes da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas e Biol\u00f3gicas de Botucatu ganharam as manchetes de jornais do estado no ano de 1967 quando conduziram a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Andarilho\u201d, uma marcha de 256 km que saiu do interior at\u00e9 a capital paulista, passando e panfletando pelas cidades de Conchas, Laranjal Paulista, Tiet\u00ea e Itu at\u00e9 o trevo de Jundia\u00ed.<\/p>\n<p>\u201cTodo mundo de avental, chap\u00e9u e pirulito na m\u00e3o, reivindicando verbas para o hospital\u201d, disse Roberto Sogayar, professor em\u00e9rito do Instituto de Bioci\u00eancias falecido em 2024, no livro\u00a0<em>Faculdade de Medicina de Botucatu: 60 anos em 60 depoimentos<\/em>, organizado por Martha Morais e Maria Cristina Pereira Lima e publicado em 2023.<\/p>\n<p>Em 1968, lembra Tozoni, no Congresso da UNE (Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes), em Ibi\u00fana, a palavra de ordem era \u201cocupar todas as universidades\u201d alvo de repress\u00e3o. Assis e Botucatu estavam nessa \u201cvanguarda\u201d, diz.<\/p>\n<p>Foi nessa \u00e9poca que foi feito um congresso que reuniu alunos, docentes e servidores dos institutos isolados, em Assis, onde se prop\u00f4s se formar uma \u201cUdesp\u201d: Universidade Democr\u00e1tica de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<figure><figcaption>Docentes, estudantes e residentes fizeram protestos pr\u00f3-Saad no c\u00e2mpus de Botucatu<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Professores encararam tropa de choque<\/strong><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de 21 de maio de 1981, o governador Paulo Maluf (PDS) visitou o c\u00e2mpus de Botucatu. Entregaria equipamentos de laborat\u00f3rio de US$ 25 milh\u00f5es, adquiridos por um conv\u00eanio do governo federal com a Alemanha (\u00e0 \u00e9poca, a oriental, comunista) \u2013 isto \u00e9, n\u00e3o era uma conquista de Maluf. Cerca de 400 estudantes fizeram um protesto pac\u00edfico no c\u00e2mpus, que terminou tumultuado por guarda-costas do governador \u00e0 paisana. Alunos contra-atacaram com uma \u201cchuva de torr\u00f5es de terra\u201d, relata Ant\u00f4nio Luiz Caldas J\u00fanior, 73.<\/p>\n<p>Um dos agredidos com peda\u00e7os de pau pelos seguran\u00e7as de Maluf foi Adail Rollo, 68, que era presidente do Centro Acad\u00eamico Piraj\u00e1 da Silva- CAPS e aluno do quinto ano de medicina na \u00e9poca. \u201cO c\u00e2mpus era muito mobilizado. Faz\u00edamos murais e xerox do\u00a0<em>Pasquim<\/em>\u00a0e da\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0para espalhar. Faz\u00edamos festas, shows proclamando poesias e cantando Elis Regina e Milton Nascimento, para arrecadar fundos para alugar \u00f4nibus para as caravanas de estudantes e professores para S\u00e3o Paulo\u201d, conta. \u201cTinha uma articula\u00e7\u00e3o forte entre estudantes e docentes. Uma vez, num dos protestos, professores entraram na frente da tropa de choque para proteger os alunos\u201d, diz ele, hoje professor na Unicamp.<\/p>\n<p>\u201cNo c\u00e2mpus, eu me formei como m\u00e9dico e me formei politicamente tamb\u00e9m. Viver em uma cidade pequena me abriu os olhos para um mundo maior do que eu conhecia\u201d, afirma T\u00e9rcio Loureiro Redondo, 66, uma das lideran\u00e7as do movimento estudantil, hoje professor na USP.<\/p>\n<p>No c\u00e2mpus de Assis, onde ocorreu uma longa ocupa\u00e7\u00e3o pedindo elei\u00e7\u00f5es diretas para diretoria, em 1983, estudantes e docentes fizeram uma universidade \u201calternativa\u201d: \u201cQualquer aluno podia frequentar qualquer disciplina de qualquer docente. Tinha atividades ao ar livre, no bosque e na quadra. Ocupamos tudo. Assumimos o restaurante universit\u00e1rio, cozinhamos com o que era arrecadado na cidade. Alunos tamb\u00e9m podiam oferecer cursos, tudo aberto. Mas, como toda iniciativa arrojada, n\u00e3o durou tanto tempo\u201d, lembra Jos\u00e9 Sterza Justo, 71. Foram cerca de 60 dias.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, estudantes costumavam alugar \u00f4nibus ou pegar carona, inclusive de caminh\u00f5es, para ir encontrar unespianos de outras unidades. Entre 1983 e 1984, quando estourou a campanha para elei\u00e7\u00f5es diretas para reitoria [<a href=\"https:\/\/jornal.unesp.br\/2024\/11\/28\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizou-em-campanha-pioneira-para-reivindicar-democratizacao-do-processo-de-escolha-do-reitor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">leia mais<\/a>], os encontros se tornaram mais frequentes \u2013 pr\u00e9-internet, eram marcados por telefone, telex e carta, com informes e boletins feitos artesanalmente. Na ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria na pra\u00e7a da S\u00e9, no centro da capital paulista, em 1984, quase todos os 15 c\u00e2mpus estavam representados.<\/p>\n<p>Eles protestavam porque embora William Saad Hossne (1927-2016), do c\u00e2mpus de Botucatu, fosse o candidato mais votado para reitor nas duas consultas realizadas junto \u00e0 comunidade universit\u00e1ria, sequer teve seu nome inclu\u00eddo na primeira lista do Conselho Universit\u00e1rio encaminhada ao governador Franco Montoro (MDB). O Conselho Universit\u00e1rio era composto por indicados da reitoria, apenas com diretores, sem participa\u00e7\u00e3o de professores e alunos. O impasse envolvendo a escolha do reitor da Unesp em 1984 durou meses.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p><strong>De Saad \u00e0 S\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>No fim de julho de 1984, Montoro negociou com os estudantes o fim da ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, comprometendo-se a encontrar uma sa\u00edda para o impasse. Nomeou ent\u00e3o Jorge Nagle, docente do c\u00e2mpus de Araraquara, como reitor tempor\u00e1rio. E, em janeiro de 1985, o Col\u00e9gio Eleitoral mandou uma nova lista ao governador, desta vez indicando os candidatos em ordem, o que conferia mais prest\u00edgio ao primeiro nome listado, facilitando sua escolha pelo governador.<\/p>\n<p>Quando a lista foi divulgada, por\u00e9m, nova surpresa: em primeiro lugar estava o nome do pr\u00f3prio reitor tempor\u00e1rio em exerc\u00edcio, Jorge Nagle. Saad era o segundo. Completavam as indica\u00e7\u00f5es os nomes de Trindade, Paulo Landim, Gilberto Filippo e Nilo Od\u00e1lia.<\/p>\n<p>Entre idas e vindas, a movimenta\u00e7\u00e3o pela democratiza\u00e7\u00e3o do processo de escolha do reitor da Unesp resultou na nomea\u00e7\u00e3o de Jorge Nagle. Saad, tantas vezes indicado, nunca foi escolhido pelo governador. Alguns interpretaram a escolha de Montoro como uma derrota do movimento. Para outros, Nagle apareceu como a melhor alternativa para que se efetivasse uma transi\u00e7\u00e3o na universidade.<\/p>\n<p>Nagle, de acordo com Ant\u00f4nio Luiz Caldas J\u00fanior, docente aposentado da FMB, se encaixou \u201centre o desej\u00e1vel e o poss\u00edvel\u201d. \u201cFez uma gest\u00e3o democr\u00e1tica e arejada \u2013 e as discuss\u00f5es levantadas na Unesp serviram de modelo para outras universidades. Fez o que era poss\u00edvel na \u00e9poca. S\u00f3 ficou uma injusti\u00e7a: Saad faleceu e nunca foi empossado como reitor. Hoje, h\u00e1 diplomas p\u00f3stumos e professores incorporados, como atos de justi\u00e7a pelo que ocorreu na ditadura. O Conselho Universit\u00e1rio podia dar o t\u00edtulo de reitor p\u00f3stumo a Saad, um ato simb\u00f3lico.\u201d<\/p>\n<p>Nagle, diz o cientista pol\u00edtico Marco Aur\u00e9lio Nogueira, 74, docente aposentado da Faculdade de Ci\u00eancias e Letras, c\u00e2mpus de Araraquara, era um \u201coutsider\u201d, pois n\u00e3o era um acad\u00eamico \u201cativista\u201d; ao mesmo tempo, tinha um perfil conciliador, capaz de dialogar com o Conselho Universit\u00e1rio para promover as mudan\u00e7as que eram esperadas \u00e0 \u00e9poca. \u201cN\u00e3o tinha outro caminho a n\u00e3o ser o do realismo pol\u00edtico\u201d, diz Nogueira, que estava num p\u00f3s-doutorado na It\u00e1lia e, ao voltar, assumiu a assessoria de Nagle, entre 1986 e 1988. Depois, foi um dos idealizadores da editora da Unesp.<\/p>\n<p>Nogueira, Nagle e Nilo Od\u00e1lia eram \u201cpesos pesados\u201d nas discuss\u00f5es sobre educa\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, pondera Milton Lahuerta, 70, do c\u00e2mpus de Araraquara. \u201cNagle assumiu uma reitoria que n\u00e3o tinha editora, n\u00e3o tinha jornal, n\u00e3o tinha outras se\u00e7\u00f5es importantes, e construiu institucionalmente a reitoria do zero\u201d, diz.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>\u201cEnfim, a vida da qual nos orgulhamos foi uma sucess\u00e3o de revezes, de derrotas. Sempre pretendemos mais do que consegu\u00edamos fazer, mas acredito que a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade pautada por justi\u00e7a social e democracia \u00e9 realizada assim mesmo. Propomos muito, n\u00e3o conseguimos, mas se avan\u00e7a e se constr\u00f3i\u201d, diz Luiz Rocha, professor da Faculdade de Ci\u00eancias e Letras do c\u00e2mpus de Assis desde 1983, no livro\u00a0<em>Tenho algo a dizer<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s a sucess\u00e3o, o novo estatuto<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos seguintes, diversos congressos e simp\u00f3sios internos foram organizados para debater, democraticamente, a cria\u00e7\u00e3o de um novo estatuto para a universidade. \u201cUma pr\u00e1tica que passou a ser adotada em quase toda a Unesp, por ocasi\u00e3o da elei\u00e7\u00e3o de novos diretores, foi a de promover consultas para a escolha dos candidatos e abrir discuss\u00f5es a respeito dos projetos a serem desenvolvidos. O tema da democratiza\u00e7\u00e3o da universidade era um alerta para as proposi\u00e7\u00f5es correntes\u201d, contextualiza Anna Maria Martinez Corr\u00eaa, no relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o da Verdade da Unesp.<\/p>\n<p>Ao fim da gest\u00e3o de Nagle, em 1988, a Unesp caminhou para um novo cap\u00edtulo. Procedeu-se ent\u00e3o a um processo de escolha de reitor ancorado na vontade da comunidade universit\u00e1ria. At\u00e9 l\u00e1, a quest\u00e3o foi alvo de atos diversos, inclusive marchas rumo ao Pal\u00e1cio dos Bandeirantes, com acampamento de manifestantes no Parque do Ibirapuera.<\/p>\n<p>Foi escolhido Paulo Landim, 86, do Instituto de Geoci\u00eancias e Ci\u00eancias Exatas, c\u00e2mpus de Rio Claro, o primeiro reitor eleito pela universidade e hoje professor em\u00e9rito instalado em Botucatu. Landim levou a cabo a aprova\u00e7\u00e3o do novo estatuto para a universidade, em 1989, que est\u00e1 em vigor at\u00e9 hoje. O artigo 30 diz que a reitoria \u00e9 nomeada pelo governo a partir de listas tr\u00edplices elaboradas pelo Col\u00e9gio Eleitoral \u201ca partir do resultado de consulta pr\u00e9via \u00e0 comunidade universit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p><strong>O legado da primeira consulta para reitor<\/strong><\/p>\n<p>Para Justo, professor da Faculdade de Ci\u00eancias e Letras do c\u00e2mpus de Assis, uma das consequ\u00eancias do movimento que procurou democratizar o processo de consulta para reitor na universidade foi a mudan\u00e7a nas \u201crela\u00e7\u00f5es de poder entre uma antiga casta de catedr\u00e1ticos e os jovens professores mais democratas\u201d. \u201cFoi uma luta que valeu ser vivida naquele momento. Temos uma Unesp mais democr\u00e1tica, mas que pode melhorar mais.\u201d<\/p>\n<p>Para Reis, professor do c\u00e2mpus de Botucatu, as expectativas tamb\u00e9m eram altas. \u201cEsperava que o processo continuasse e que n\u00e3o haveria retrocesso porque conseguimos fazer elei\u00e7\u00e3o direta para todos os quadros de dirigentes em todos os c\u00e2mpus e aumentamos bastante a participa\u00e7\u00e3o de docentes, estudantes e servidores nos \u00f3rg\u00e3os colegiados\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cNo entanto, com o passar do tempo, as mudan\u00e7as se acomodaram e se tornaram pr\u00e1ticas burocr\u00e1ticas, enquanto a mentalidade dos sujeitos acad\u00eamicos se transformava. A supervaloriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e acad\u00eamica fundamentada no produtivismo estimulou o individualismo e a competitividade. Os docentes, em particular, passaram a pensar muito mais em suas carreiras individuais do que no desenvolvimento coletivo da ci\u00eancia e da universidade.\u201d<\/p>\n<figure><figcaption>\u2018O movimento por elei\u00e7\u00f5es diretas para a reitoria foi o momento mais importante da hist\u00f3ria da Unesp\u2019, diz Paulo Landim (ao centro)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cO movimento entre os anos de 1983 e 1984 politizou a universidade\u201d, diz Reinaldo Ayer, 79, pupilo de Saad \u00e0 \u00e9poca e hoje professor na USP. Muitos acad\u00eamicos que participaram do movimento depois se engajaram no processo de constru\u00e7\u00e3o do novo estatuto da Unesp. Ayer cita, por exemplo, uma assembleia realizada no c\u00e2mpus de Jaboticabal com alunos, professores, servidores e diversas lideran\u00e7as, entre elas Nagle e Landim, para discutir o documento.<\/p>\n<p>Para Landim, as diretas foram \u201co momento mais importante da hist\u00f3ria da Unesp\u201d: \u201cFoi quando deixamos de ser \u2018institutos isolados\u2019 e realmente nos tornamos uma comunidade acad\u00eamica, uma universidade\u201d.<\/p>\n<p>Reitor desde 2021, Pasqual Barretti cursava resid\u00eancia no Hospital das Cl\u00ednicas da FMB no ano de 1984, por isso n\u00e3o pode se juntar \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria. \u201cOs residentes n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de fazer greves ou ocupa\u00e7\u00f5es porque a imensa maioria dos professores da FMB estava muito engajada\u201d, lembra. Mesmo assim, participou de assembleias e reuni\u00f5es.<\/p>\n<p>Barretti considera que o movimento de 1984 moldou a identidade da Unesp. \u201cSe o movimento n\u00e3o tivesse ocorrido e gerado desdobramentos, n\u00e3o ter\u00edamos legitimidade para alcan\u00e7ar a autonomia or\u00e7ament\u00e1ria e financeira de que desfrutamos hoje\u201d, diz. Ele atribui \u00e0 combina\u00e7\u00e3o destes dois elementos, a escolha para reitor e a autonomia universit\u00e1ria para gest\u00e3o de seus recursos (que foi estabelecida no \u00e2mbito estadual por decreto em 1989) a continuidade e a consolida\u00e7\u00e3o da Unesp.<\/p>\n<p>\u201cSem essas duas coisas, acho que a Unesp n\u00e3o teria sobrevivido\u201d, diz. \u201cEram 13 c\u00e2mpus diferentes que foram reunidos para dar origem a uma universidade num processo sem muita discuss\u00e3o, e sob uma gest\u00e3o autorit\u00e1ria\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Para Barretti, sem a consolida\u00e7\u00e3o do processo de consulta \u00e0 universidade para a elei\u00e7\u00e3o do reitor, e todo o ambiente democr\u00e1tico que esta consulta pressup\u00f5e, n\u00e3o teria surgido uma integra\u00e7\u00e3o real entre as diversas unidades. \u201cCada c\u00e2mpus ia querer montar sua \u2018universidadezinha\u2019 particular,\u00a0 assegurar seu espa\u00e7o e brigar sozinho\u201d, diz. \u201cO legado daquele movimento, que ocorreu 40 anos atr\u00e1s, \u00e9 este ambiente democr\u00e1tico que se instaurou em nossa universidade. Sem este ambiente, n\u00e3o ter\u00edamos podido construir a Unesp tal como ela \u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<figure>\n<div>\n<blockquote data-secret=\"h5Yucrwr7Q\"><p><a href=\"https:\/\/tvtnews.com.br\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor\/\">\u2018Diretas J\u00e1\u2019 na Unesp: h\u00e1 40 anos, universidade se mobilizava pela escolha do reitor<\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p><em>Por Juliana Sayuri, para o\u00a0<a href=\"https:\/\/jornal.unesp.br\/2024\/12\/05\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizou-em-campanha-pioneira-para-reivindicar-democratizacao-do-processo-de-escolha-do-reitor-parte-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Jornal da Unesp<\/a><\/em><\/p>\n<p>The post <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/tvtnews.com.br\/diretas-ja-na-unesp-ha-40-anos-universidade-se-mobilizava-pela-escolha-do-reitor-parte-2\/\">\u2018Diretas J\u00e1\u2019 na Unesp: h\u00e1 40 anos, universidade se mobilizava pela escolha do reitor \u2013 parte 2<\/a> appeared first on <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/tvtnews.com.br\/\">TVT News<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/milei-restringe-imigracao-e-permanencia-de-estrangeiros-na-argentina\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Na \u00e9poca, n\u00e3o era uma afirma\u00e7\u00e3o qualquer. Isso porque a universidade foi fundada em 1976, sob o signo da ditadura militar. Nasceu de uma canetada do governador Paulo Egydio (1928-2021), que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-8419","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8419"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8419\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}