{"id":84479,"date":"2026-04-23T14:55:25","date_gmt":"2026-04-23T17:55:25","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-o-brasil-paralelo-ataca-a-educacao\/"},"modified":"2026-04-23T14:55:25","modified_gmt":"2026-04-23T17:55:25","slug":"como-o-brasil-paralelo-ataca-a-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-o-brasil-paralelo-ataca-a-educacao\/","title":{"rendered":"Como o Brasil Paralelo ataca a educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"613\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/473668841_910859144364248_3081003036517847877_n-1024x613-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/473668841_910859144364248_3081003036517847877_n-1024x613-1.jpg 1024w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/23145247\/473668841_910859144364248_3081003036517847877_n-1024x613-1-300x180.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/23145247\/473668841_910859144364248_3081003036517847877_n-1024x613-1-768x460.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>EMEI Patr\u00edcia Galv\u00e3o \u2014 Reprodu\u00e7\u00e3o: Di\u00e1rio de Not\u00edcias Mar\u00edlia<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Durante d\u00e9cadas, a educa\u00e7\u00e3o ocupou um lugar relativamente consensual no debate p\u00fablico brasileiro. Divergia-se sobre m\u00e9todos, investimentos ou pol\u00edticas educacionais, mas raramente se questionava sua legitimidade social. Discutia-se como melhorar a escola p\u00fablica, ampliar o acesso, valorizar professores e garantir o direito constitucional \u00e0 educa\u00e7\u00e3o assegurado em 1988. A educa\u00e7\u00e3o era vista como problema nacional, mas nunca como amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio mudou profundamente na \u00faltima d\u00e9cada. No Brasil e em diversas partes do mundo, a educa\u00e7\u00e3o deixou de ser um campo de pol\u00edticas p\u00fablicas e passou a ocupar o centro das chamadas guerras culturais. O que antes mobilizava debates sobre financiamento, acesso e qualidade passou a ser atravessado por acusa\u00e7\u00f5es moralistas, teorias da conspira\u00e7\u00e3o e campanhas sistem\u00e1ticas de deslegitima\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es formativas.<\/p>\n<p>Escolas e universidades passaram a ser retratadas como espa\u00e7os de doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, dissemina\u00e7\u00e3o da chamada \u201cideologia de g\u00eanero\u201d e forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda. Nesse ambiente, consolidou-se nas redes sociais discursos segundo os quais a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o seria um direito social, mas um perigo para a fam\u00edlia, para a religi\u00e3o e para a ordem social tradicional.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/14--28.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/14--28.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 nesse contexto que emerge a produtora audiovisual Brasil Paralelo, que rapidamente se transformou em uma das principais articuladoras simb\u00f3licas da nova extrema direita brasileira. Com alta qualidade t\u00e9cnica e ampla circula\u00e7\u00e3o digital, seus conte\u00fados combinam document\u00e1rios, cursos e entrevistas que reconstroem acontecimentos hist\u00f3ricos e sociais a partir de uma perspectiva marcada pelo revisionismo hist\u00f3rico, pelo negacionismo cient\u00edfico e pela cr\u00edtica sistem\u00e1tica ao pensamento progressista.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, a produtora voltou ao centro do debate p\u00fablico ao divulgar o document\u00e1rio \u201cPedagogia do Abandono\u201d, gravado em uma unidade da rede municipal de ensino da cidade de S\u00e3o Paulo. O material apresenta a escola p\u00fablica como espa\u00e7o de manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica infantil, sugerindo que crian\u00e7as seriam introduzidas a uma \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, cujo objetivo seria atacar os valores familiares sob influ\u00eancia de educadores e pol\u00edticas pedag\u00f3gicas inspiradas, sobretudo, no pensamento de Paulo Freire.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio inaugural do document\u00e1rio \u201c<em>Pedagogia do Abandono\u201d disponibilizado na internet<\/em> n\u00e3o funciona apenas como apresenta\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica. Ele opera como s\u00edntese do fen\u00f4meno que atravessa o debate educacional contempor\u00e2neo: a transforma\u00e7\u00e3o da escola em amea\u00e7a pol\u00edtica e moral.<\/p>\n<p>Desde os primeiros minutos, a narrativa \u00e9 organizada para produzir aten\u00e7\u00e3o constante e mobiliza\u00e7\u00e3o emocional. O roteiro constr\u00f3i seu discurso por meio de argumentos de autoridade com especialistas, dados e pesquisas citados de forma fragmentada, combinados a uma montagem marcada pelo suspense. A sucess\u00e3o r\u00e1pida de entrevistas, cortes visuais e mudan\u00e7as de cen\u00e1rio cria a sensa\u00e7\u00e3o de que o espectador est\u00e1 diante de uma revela\u00e7\u00e3o progressiva, como se tivesse acesso a uma verdade ocultada pelas institui\u00e7\u00f5es oficiais.<\/p>\n<p>A trilha sonora quase impercept\u00edvel, a altern\u00e2ncia entre imagens jornal\u00edsticas, registros escolares descontextualizados e depoimentos cuidadosamente selecionados produzem um efeito familiar \u00e0s t\u00e9cnicas contempor\u00e2neas de propaganda pol\u00edtica, pois n\u00e3o se busca demonstrar os argumentos, mas provocar sensa\u00e7\u00f5es. O excesso de informa\u00e7\u00f5es substitui a argumenta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. Diante do bombardeio imag\u00e9tico, o espectador n\u00e3o \u00e9 convidado a refletir, mas a reagir.<\/p>\n<p>O ponto de partida do epis\u00f3dio parece, \u00e0 primeira vista, inofensivo: a obrigatoriedade da escolariza\u00e7\u00e3o na primeira inf\u00e2ncia. Parte-se de um consenso amplamente aceito da import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o nos primeiros anos de vida, para, em seguida, deslocar o debate. Experi\u00eancias internacionais, especialmente o caso canadense, s\u00e3o associadas rapidamente a imagens de viol\u00eancia escolar, conflitos juvenis e desorganiza\u00e7\u00e3o social. Estudos s\u00e3o mencionados sem contextualiza\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, seguidos por cenas que insinuam rela\u00e7\u00f5es causais entre escolariza\u00e7\u00e3o precoce e problemas complexos como gravidez na adolesc\u00eancia, uso de drogas ou comportamentos considerados desviantes.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o discursiva \u00e9 sutil: n\u00e3o se afirma diretamente que a escola produz tais fen\u00f4menos, mas constr\u00f3i-se um ambiente narrativo no qual essa conclus\u00e3o parece inevit\u00e1vel. Assim surgem as perguntas que estruturam o document\u00e1rio:<em>o que as escolas est\u00e3o imprimindo nas mentes das crian\u00e7as? O que acontece quando o Estado ocupa o espa\u00e7o da fam\u00edlia?<\/em> Embora as perguntas sejam apresentadas como parte de uma investiga\u00e7\u00e3o neutra, elas j\u00e1 carregam pressupostos e valores que delimitam antecipadamente as respostas poss\u00edveis.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Gradualmente, o debate sobre educa\u00e7\u00e3o infantil converte-se em den\u00fancia das formas de dom\u00ednio pol\u00edtico. O Estado passa a aparecer como agente interessado em controlar a inf\u00e2ncia, enquanto a escola \u00e9 apresentada como aparelho ideol\u00f3gico respons\u00e1vel pela manipula\u00e7\u00e3o moral das novas gera\u00e7\u00f5es. Paralelamente, o document\u00e1rio refor\u00e7a uma concep\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de fam\u00edlia, marcada pela centralidade do cuidado materno exclusivo e pela naturaliza\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is sociais rigidamente definidos.<\/p>\n<p>Nesse enquadramento, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica deixa de ser institui\u00e7\u00e3o social complexa e transforma-se em amea\u00e7a civilizacional. A recorrente refer\u00eancia a uma suposta \u201cpol\u00edtica de g\u00eanero\u201d funciona como elemento agregador do medo: a escola seria o espa\u00e7o privilegiado de um projeto estatal destinado \u00e0 relativiza\u00e7\u00e3o da verdade, do bem e do belo. A conclus\u00e3o impl\u00edcita \u00e9 direta: o sistema educacional \u00e9 um dos pilares da destrui\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A efic\u00e1cia desse modelo reside menos na veracidade dos argumentos e mais na administra\u00e7\u00e3o do medo. Imagens selecionadas, narrativas alarmistas e simplifica\u00e7\u00f5es extremas transformam problemas sociais complexos em amea\u00e7as imediatas e personalizadas. O medo converte-se, assim, em tecnologia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a escola p\u00fablica torna-se alvo privilegiado. Em vez de espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o intelectual e conviv\u00eancia democr\u00e1tica, ela passa a ser apresentada como perigo f\u00edsico, moral e cultural. Pais e respons\u00e1veis s\u00e3o convocados n\u00e3o a enfrentar desigualdades estruturais ou a precariza\u00e7\u00e3o educacional, mas a proteger seus filhos da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pedagogia do abandono revela, portanto, algo mais profundo do que um desacordo pedag\u00f3gico: evidencia a emerg\u00eancia de uma pedagogia do medo, na qual a desconfian\u00e7a substitui o debate p\u00fablico e a educa\u00e7\u00e3o deixa de ser direito social para tornar-se inimigo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Este document\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia isolada. O epis\u00f3dio inaugural estabelece o tom mais amplo que se articula a outras produ\u00e7\u00f5es da mesma produtora, como <em>P\u00e1tria Educadora<\/em> e <em>Unitopia<\/em>, nas quais a educa\u00e7\u00e3o aparece reiteradamente como espa\u00e7o de disputa civilizacional.<\/p>\n<h3><strong>A pedagogia do medo<\/strong><\/h3>\n<p>Para compreender esse fen\u00f4meno, \u00e9 \u00fatil recorrer \u00e0s an\u00e1lises de Theodor W. Adorno sobre propaganda e psicologia social. Ao investigar os mecanismos de mobiliza\u00e7\u00e3o do fascismo no s\u00e9culo XX, Adorno demonstrou que a propaganda autorit\u00e1ria n\u00e3o busca convencer racionalmente, mas produzir identifica\u00e7\u00e3o emocional. Ela opera atrav\u00e9s do medo, da simplifica\u00e7\u00e3o extrema dos problemas sociais e da cria\u00e7\u00e3o de um inimigo comum capaz de unificar seguidores.<\/p>\n<p>A efic\u00e1cia desse modelo reside menos na veracidade dos argumentos do que na organiza\u00e7\u00e3o dos afetos. Imagens cuidadosamente selecionadas, trilhas sonoras dram\u00e1ticas, recortes visuais espec\u00edficos e narrativas alarmistas produzem uma sensa\u00e7\u00e3o permanente de amea\u00e7a. O objetivo n\u00e3o \u00e9 informar, mas mobilizar.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a escola p\u00fablica torna-se alvo privilegiado. Ao inv\u00e9s de ser apresentada como espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o intelectual e social, ela \u00e9 convertida em s\u00edmbolo de perigo f\u00edsico e moral. O medo passa a funcionar como tecnologia pol\u00edtica, pois pais, m\u00e3es e respons\u00e1veis s\u00e3o convocados a proteger seus filhos n\u00e3o das desigualdades sociais ou da precariza\u00e7\u00e3o educacional, mas da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Por que o combate a Paulo Freire?<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o educador brasileiro Paulo Freire apare\u00e7a como figura central nesses ataques. Neste contexto, Freire tornou-se menos um autor pedag\u00f3gico e mais um s\u00edmbolo pol\u00edtico dos ataques da extrema direita.<\/p>\n<p>Sua concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o parte da ideia de que ensinar n\u00e3o significa apenas transmitir conte\u00fado como propunha a educa\u00e7\u00e3o tradicional, mas, sobretudo, possibilitar a leitura cr\u00edtica e a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. A educa\u00e7\u00e3o, nesse sentido, constitui processo de conscientiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e transforma\u00e7\u00e3o social: permite que sujeitos compreendam as estruturas sociais que moldam suas vidas e reconhe\u00e7am possibilidades para a a\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o destas.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa dimens\u00e3o emancipadora que provoca os ecos da rea\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria. Quando a educa\u00e7\u00e3o estimula reflex\u00e3o, di\u00e1logo e autonomia intelectual, ela deixa de refor\u00e7ar o imobilismo das hierarquias tradicionais e passa a question\u00e1-las. Combater Freire, portanto, n\u00e3o \u00e9 discutir m\u00e9todos pedag\u00f3gicos, mas \u00e9 disputar o tipo de sujeito que a sociedade deseja formar. Portanto, a cr\u00edtica dirigida ao educador revela menos um debate educacional e mais uma disputa sobre a pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n<h3><strong>O curr\u00edculo como campo de disputas<\/strong><\/h3>\n<p>O fen\u00f4meno educacional e curricular como campo de tens\u00f5es n\u00e3o se restringe ao Brasil. O pesquisador Michael W. Apple demonstra que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, consolidou-se internacionalmente uma coaliz\u00e3o conservadora empenhada em redefinir o papel da escola. Essa alian\u00e7a re\u00fane interesses de mercado, movimentos religiosos, grupos pol\u00edticos ultraconservadores e agendas neoliberais que buscam controlar curr\u00edculos, materiais did\u00e1ticos e pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a educa\u00e7\u00e3o torna-se campo estrat\u00e9gico de disputa cultural. N\u00e3o se trata apenas de melhorar resultados escolares, mas de decidir quais conhecimentos s\u00e3o leg\u00edtimos, quais hist\u00f3rias podem ser contadas e quais identidades devem ser reconhecidas.<\/p>\n<p>A escola deixa de ser espa\u00e7o p\u00fablico, plural e democr\u00e1tico, passando a ser pressionada a reafirmar valores previamente definidos por determinados grupos tradicionais. Desse modo, o conflito educacional revela, portanto, disputas mais amplas sobre viv\u00eancias, mem\u00f3rias, culturas e poder. Ou seja, para os grupos tradicionais, busca-se definir quais sujeitos s\u00e3o poss\u00edveis de existir, quais mem\u00f3rias devem ser conservadas, quais culturas devem ser ensinadas e quem deve ter acesso ao poder.<\/p>\n<h3><strong>Quando a educa\u00e7\u00e3o vira inimiga<\/strong><\/h3>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em amea\u00e7a simb\u00f3lica revela uma invers\u00e3o hist\u00f3rica significativa. Institui\u00e7\u00f5es criadas para ampliar o acesso ao conhecimento passam a ser acusadas de destruir valores sociais. Professores s\u00e3o retratados como advers\u00e1rios morais, as universidades transformam-se em centros conspirat\u00f3rios da esquerda, as crian\u00e7as viram as v\u00edtimas de uma suposta engenharia ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Esse deslocamento n\u00e3o ocorre por acaso. Em contextos de crise social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica, a constru\u00e7\u00e3o de inimigos culturais funciona como mecanismo de coes\u00e3o pol\u00edtica de grupos que visam se estabelecer no poder. A educa\u00e7\u00e3o torna-se alvo justamente porque carrega potencial cr\u00edtico: ela questiona tradi\u00e7\u00f5es naturalizadas, exp\u00f5e desigualdades e amplia horizontes interpretativos. Em resumo, a escola incomoda porque carrega a capacidade de transforma\u00e7\u00e3o social ao possibilitar a forma\u00e7\u00e3o de sujeitos cr\u00edticos capazes de transformar a realidade.<\/p>\n<p>Walter Benjamin afirma, nas teses <em>sobre o conceito de hist\u00f3ria<\/em>, a necessidade constante de retomar o passado hist\u00f3rico para reconhecer os tempos de perigo, pois nem o presente, tampouco o passado s\u00e3o neutros, mas revelam disputas profundas sobre mem\u00f3ria e verdade.<\/p>\n<p>Os ataques contempor\u00e2neos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica devem ser compreendidos nesse horizonte. N\u00e3o se trata apenas de diverg\u00eancias pedag\u00f3gicas ou de debates sobre pol\u00edticas educacionais. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pr\u00f3pria finalidade das institui\u00e7\u00f5es de ensino, quem deve ter o acesso, quais conhecimentos devem ser ensinados e quais devem ser exclu\u00eddos. Trata-se de uma sele\u00e7\u00e3o de valores \u00e9ticos, est\u00e9ticos e pol\u00edticos, cuja finalidade \u00e9 arquitetar sujeitos previamente idealizados pelo modelo tradicional.<\/p>\n<p>Quando a educa\u00e7\u00e3o passa a ser tratada como inimiga, o risco n\u00e3o \u00e9 apenas o enfraquecimento da escola, mas o empobrecimento democr\u00e1tico da sociedade. Defender a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, nesse contexto, n\u00e3o significa proteger uma institui\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, mas preservar a possibilidade de forma\u00e7\u00e3o de sujeitos livres, capazes de interpretar sua realidade e transform\u00e1-la.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>ADORNO, Theodor. <strong>Ensaios sobre psicologia social e psican\u00e1lise<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Ed. Unesp, 2015<\/p>\n<p>APPLE, Michael. <strong>Educando \u00e0 direita: mercados, padr\u00f5es, Deus e desigualdade<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2003.<\/p>\n<p>___________, <strong>Doing the work of God: home schooling and gendered labor<\/strong>, p. 145-154. In: Apple; Ball and Gandin. <strong>The Routledge International Handbook of the Sociology of Education. <\/strong>New York, 2010.<\/p>\n<p>BENJAMIN, Walter. <strong>Obras escolhidas: Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Ed. Brasiliense, 1993.<\/p>\n<p>BRASIL PARALELO. <strong>Pedagogia do Abandono \u2013 Parte 1<\/strong>. 2026. 1 v\u00eddeo (70min). Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-tFRaF1Se0k . Acesso:22\/04\/2026<\/p>\n<p>FREIRE, Paulo. <strong>Pedagogia do oprimido<\/strong>. 69 ed. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2019.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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