{"id":84682,"date":"2026-04-24T13:32:31","date_gmt":"2026-04-24T16:32:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-conjuracao-mineira-e-suas-luzes\/"},"modified":"2026-04-24T13:32:31","modified_gmt":"2026-04-24T16:32:31","slug":"a-conjuracao-mineira-e-suas-luzes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-conjuracao-mineira-e-suas-luzes\/","title":{"rendered":"A Conjura\u00e7\u00e3o Mineira e suas luzes"},"content":{"rendered":"<figure><figcaption>Detalhes da obra <em>Tiradentes<\/em>, de <strong>C\u00e2ndido Portinari<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Helo\u00edsa Starling<\/strong> para a coluna da <em>Biblioteca Virtual do Pensamento Social<\/em> | Edi\u00e7\u00e3o: <strong>Maur\u00edcio Ayer (TEL\/UnB)<\/strong>, projeto Caminho de Formiga<\/p>\n<p>Este texto foi proferido na mesa Inconfid\u00eancias, que abriu a programa\u00e7\u00e3o do projeto MinasMundo em 2022, uma rede de pesquisadores e institui\u00e7\u00f5es em torno de uma revis\u00e3o do modernismo no horizonte do centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna.<\/p>\n<p>Imaginem Vila Rica. M\u00eas de maio, por volta de 8 horas da noite. Tudo ermo. Algu\u00e9m \u2013 n\u00e3o se sabe se homem ou mulher \u2013 foi visto caminhando pelas vielas. Vestia capa preta comprida, um chapel\u00e3o desabado sobre os olhos. Levava uma lanterna e tinha pressa. Foi \u00e0 casa de Cl\u00e1udio Manuel da Costa e o avisou da porta que a Conjura\u00e7\u00e3o tinha sido descoberta, Tiradentes estava preso, e eles corriam perigo. Na casa de Gonzaga, deixou recado com Ant\u00f4nia da Costa, negra forra que cuidava dos afazeres dom\u00e9sticos. Na urg\u00eancia de informar ao tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira sobre a pris\u00e3o de Tiradentes, errou de endere\u00e7o, encontrou uma porta entreaberta e entrou no vizinho. No topo da escada deparou-se com a esposa do dono da casa, percebeu o engano, praguejou baixinho e precipitou-se para a rua. Desapareceu no ar como a neblina. Nunca mais se soube dele.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/14--30.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/14--30.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O \u201cEmbu\u00e7ado\u201d, nome pelo qual o personagem ficou conhecido, percorreu Vila Rica possivelmente na noite de 17 de maio de 1789 alertando que a Conjura\u00e7\u00e3o tinha sido descoberta. Esse foi o primeiro movimento anticolonial da Am\u00e9rica portuguesa de f\u00f4lego no campo das id\u00e9ias e o primeiro a adaptar um projeto claramente republicano. Essa Conjura\u00e7\u00e3o \u2013 disso \u00e0s vezes nos esquecemos \u2013 antecedeu a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>Os conjurados esquadrinharam um repert\u00f3rio pol\u00edtico e intelectual cosmopolita que mobilizava autores pr\u00f3prios da tradi\u00e7\u00e3o republicana, com influ\u00eancia formadora sobre suas duas matrizes modernas, a norte-americana e a francesa. Como ocorreu, por exemplo, no caso de Montesquieu que estava na estante de pelo menos tr\u00eas bibliotecas decisivas para a constru\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio dos conjurados.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m alimentaram seu projeto pol\u00edtico com temas caracter\u00edsticos do Humanismo C\u00edvico \u2013 em especial, o pensamento da primeira gera\u00e7\u00e3o de humanistas, de Petrarca a Alberti. E naturalmente, muitos conjurados identificavam-se com o reposit\u00f3rio origin\u00e1rio da cultura pol\u00edtica portuguesa \u2013 a natureza pact\u00e1ria de sua Monarquia, por exemplo.<\/p>\n<p>E introduziram argumentos de autonomia retirados de suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es. Como, por exemplo, o prop\u00f3sito de reatualizar o pacto pol\u00edtico com a Coroa portuguesa, reavivando a mitologia em torno do auto-engrandecimento dos paulistas, durante o levante Emboaba, sob a justificativa de que haviam conquistado e ocupado a capitania para o Imp\u00e9rio. Ali\u00e1s, como disse com todas as letras, Cl\u00e1udio Manuel da Costa, no poema \u201cVila Rica\u201d: \u201c(\u2026) Estas conquistas,\/A quem se dever\u00e1 mais que aos Paulistas?\u201d<\/p>\n<p>Mas quando foi preciso alinhavar escolhas e construir solu\u00e7\u00f5es para planejar o cen\u00e1rio de ruptura com Portugal e dar forma pol\u00edtica a um novo tipo de governo nas Minas, eles acrescentaram a esse repert\u00f3rio o composto in\u00e9dito de formas de pensar e de agir surgidas da Revolu\u00e7\u00e3o Americana. Vitoriosa, a Revolu\u00e7\u00e3o Americana encontrava-se, nos anos que antecederam a Conjura\u00e7\u00e3o Mineira, em pleno processo de cria\u00e7\u00e3o institucional, buscando construir estruturas republicanas de governo capazes de expressar os princ\u00edpios que os colonos haviam defendido na luta contra o Imp\u00e9rio brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>O entendimento do atributo da soberania foi o fermento da Conjura\u00e7\u00e3o mineira. Sup\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de uma comunidade territorial com comando interno e autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s potencias estrangeiras, a funda\u00e7\u00e3o de um corpo pol\u00edtico pr\u00f3prio \u2013 o Estado \u2013 e a capacidade de criar, alterar e revogar suas leis. \u201cAs Minas podiam viver independentes do governo de Portugal\u201d, explicava entusiasmado, o alferes Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, o Tiradentes, em 1789, utilizando um argumento que prometia muito e cheirava a p\u00f3lvora: \u201c[As Minas] eram um pa\u00eds, como n\u00e3o havia outro, que tinham todas as riquezas em si e que n\u00e3o precisavam doutro pa\u00eds para sua subsist\u00eancia (\u2026) poderiam ser uma Rep\u00fablica e conseguir a liberdade [\u2026]\u201d<\/p>\n<p>Os conjurados mineiros infundiram \u00e0 palavra \u201cliberdade\u201d, um afeto pol\u00edtico que expressa mais do que um prop\u00f3sito de poder. Em um de seus depoimentos durante os interrogat\u00f3rios da Devassa, Luis de Toledo Pisa, confessou seu delito sustentado por esse afeto. Ele confirmou a ades\u00e3o \u00e0 Conjura\u00e7\u00e3o porque a participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica era algo extraordin\u00e1rio e, quando algu\u00e9m toma parte na execu\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, abre para si uma dimens\u00e3o nova e exaltante da experi\u00eancia humana. \u201cA liberdade era am\u00e1vel\u201d, resumiu.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/728x90_banner_sobcomuns-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/728x90_banner_sobcomuns-2.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2024\/06\/31200612\/728x90_banner_sobcomuns-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O amor pela liberdade comprometeu os conjurados com um afeto que faz exig\u00eancias pol\u00edticas. Ele se manifesta numa presteza de partilhar o mundo com outros homens. Foi a base para incluir, na pauta do debate pol\u00edtico das Minas, outro princ\u00edpio formulado pela matriz do republicanismo norte-americano: a positiva\u00e7\u00e3o de direitos considerados inerentes ao indiv\u00edduo e aplic\u00e1veis a todos, exclusivamente por conta de seu <em>status<\/em> como seres humanos.<\/p>\n<p>Mas o problema era muito maior. Os direitos estavam emaranhados com a escravid\u00e3o. Faltou aos conjurados o pensamento antiescravocrata. Eles temiam interferir no sistema escravista por raz\u00f5es econ\u00f4micas; mas, tamb\u00e9m por medo de que qualquer altera\u00e7\u00e3o nesse sistema servisse para fomentar a insurrei\u00e7\u00e3o escrava.<\/p>\n<p>Apesar disso, a Conjura\u00e7\u00e3o Mineira conseguiu debater sobre a escravid\u00e3o sem separ\u00e1-la de uma reflex\u00e3o pol\u00edtica. A escravid\u00e3o era a contraface da liberdade \u2013 e, com esse argumento, Alvarenga Peixoto abriu uma brecha inesperada de discuss\u00e3o com \u00c1lvares Maciel. Se voc\u00ea declarar livres os escravizados nascidos nas Minas, dispostos a portar armas contra Portugal e em apoio \u00e0 Conjura\u00e7\u00e3o, Alvarenga argumentou, isso n\u00e3o servia apenas para resolver o problema estrat\u00e9gico do n\u00famero de homens necess\u00e1rios ao levante militar; serviria tamb\u00e9m para distinguir o que significa viver sob grilh\u00f5es ou em um estado de liberdade \u2013 e Alvarenga apostava nisso para afastar a amea\u00e7a do potencial levante de escravos anunciado por \u00c1lvares Maciel.<\/p>\n<p>As ideas da Conjura\u00e7\u00e3o trafegaram, pela capitania, a partir de tr\u00eas centros nervosos de transmiss\u00e3o: as Comarcas de Vila Rica, Rio das Mortes e Serro do Frio. As id\u00e9ias se movimentavam e as informa\u00e7\u00f5es se espalhavam de boca em boca e por dentro da estrutura social gra\u00e7as \u00e0 singularidade de um ambiente urbano em que p\u00fablicos distintos se cruzavam e andavam ombro a ombro por toda a parte. As id\u00e9ias circularam e encontraram ades\u00e3o entre os membros da elite econ\u00f4mica \u2013 fazendeiros, comerciantes, contratadores \u2013 al\u00e9m dos letrados \u2013 poetas, m\u00e9dicos, naturalistas, engenheiros \u2013 dos padres e c\u00f4negos, e dos militares de variada patente. Mas, circulavam tamb\u00e9m entre a faixa mais heterog\u00eanea da popula\u00e7\u00e3o e tinham o poder de erodir a lealdade de mineradores, pequenos comerciantes, m\u00fasicos, artes\u00e3os, cl\u00e9rigos, tropeiros ou lavradores, para com a Coroa portuguesa.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o sabemos a data precisa em que a Conjura\u00e7\u00e3o tomou forma. Provavelmente em algum momento entre 1781 \u2013 o ano em que estudantes mineiros e cariocas, em Coimbra, criaram uma associa\u00e7\u00e3o secreta e juraram dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 causa da soberania da col\u00f4nia \u2013 e 1788, quando o projeto de criar uma Rep\u00fablica nas Minas passou a ser expressamente debatido em reuni\u00f5es realizadas na capitania.<\/p>\n<p>O gatilho que deflagrou a Conjura\u00e7\u00e3o combinava fatores de natureza distinta \u2013 pol\u00edtico e administrativa, econ\u00f4mica e cultural \u2013, com capacidade de impacto variada, mas capaz de atingir todas as camadas da estrutura social da capitania. Existia, de longa data, o rigor de uma pol\u00edtica metropolitana que desconsiderava a realidade da queda da produ\u00e7\u00e3o do ouro e descartava a cria\u00e7\u00e3o de projetos alternativos para a explora\u00e7\u00e3o do potencial econ\u00f4mico das Minas.<\/p>\n<p>E havia fatores de natureza conjuntural. O desastre pol\u00edtico representado pela administra\u00e7\u00e3o do governador Lu\u00eds da Cunha Meneses que afastou a elite local das possibilidades lucrativas oferecidas pelo contrabando e, no lugar, instalou seus apaniguados.<\/p>\n<p>O outro fator: a imposi\u00e7\u00e3o da \u201cDerrama\u201d \u2013 o tributo cobrado por Lisboa no intento de completar as 100 arrobas da cota anual de ouro devida \u00e0 Coroa e que incidia sobre toda a popula\u00e7\u00e3o. Num momento de recess\u00e3o provocado pelo decl\u00ednio da produ\u00e7\u00e3o do ouro, Portugal insistia na imposi\u00e7\u00e3o da \u201cDerrama\u201d.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia ao certo como seria a cobran\u00e7a, mas havia muita especula\u00e7\u00e3o; e era o caso de fazer as contas: se Lisboa resolvesse cobrar todas as parcelas atrasadas, a fatura poderia sair por volta de oito toneladas de ouro \u2013 em torno de 46 g. de ouro para serem pagas pelos homens livres da capitania. J\u00e1 a cobran\u00e7a da d\u00edvida dos contratadores subia a 5,1 toneladas de ouro. Era poss\u00edvel identificar sinais de um desastre iminente; o ar estava carregado de rumores e a temperatura pol\u00edtica chegou ao ponto de ebuli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Conjura\u00e7\u00e3o teria in\u00edcio com um motim \u2013 marcado para ocorrer no m\u00eas de fevereiro, em Vila Rica, quando fosse imposta a Derrama. Uma vez vitoriosos, os conjurados deflagrariam a rebeli\u00e3o por toda a capitania. Isso inclu\u00eda o an\u00fancio de uma nova pol\u00edtica \u2013 a declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia das Minas \u2013 e a defini\u00e7\u00e3o dos instrumentos necess\u00e1rios para sua implanta\u00e7\u00e3o sob a forma da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Os conjurados sustentaram seu planejamento militar baseado na premissa de que estrat\u00e9gica e logisticamente Portugal estava em desvantagem: n\u00e3o seria f\u00e1cil, nem barato, manter o deslocamento de tropas atrav\u00e9s do Atl\u00e2ntico e, em seguida, por terra, para o interior da Am\u00e9rica portuguesa. A posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica das Minas \u2013 entre o litoral e o interior e entre o Rio de Janeiro e Salvador \u2013 e a prote\u00e7\u00e3o natural das montanhas permitiam a montagem de um sistema defensivo em profundidade que inclu\u00eda duas pontas. Uma, o fechamento das \u201cbocas\u201d das Minas: o \u201cCaminho Velho\u201d e o \u201cCaminho Novo\u201d pelos conjurados da Comarca do Rio das Mortes; o \u201cCaminho dos Currais do S\u00e3o Francisco\u201d pelos conjurados da Comarca do Serro do Frio.<\/p>\n<p>A outra, a utiliza\u00e7\u00e3o do recuo t\u00e1tico e da \u201cguerra do mato\u201d, que hoje chamamos por guerrilha, nas montanhas do Distrito Diamantino onde imperavam os garimpeiros, as quadrilhas de salteadores e os contrabandistas \u2013 para azar da Coroa, boa parte envolvida no emaranhado de rela\u00e7\u00f5es sediciosas estabelecidas por Padre Rolim. Era um planejamento que guardava semelhan\u00e7a estrat\u00e9gica e parecia inspirar-se no \u00eaxito norte-americano na Guerra de Independ\u00eancia. A expectativa n\u00e3o era a de vencer no campo militar e expulsar as tropas portuguesas; era a de exaurir Portugal, inclusive economicamente, for\u00e7ando Lisboa a negociar.<\/p>\n<p>Em 1789, a Conjura\u00e7\u00e3o Mineira fracassou. Entre mar\u00e7o e junho de 1789, ocorreram as dela\u00e7\u00f5es e, a partir de ent\u00e3o, uma parte dos conjurados foi presa. Sobrevieram as Devassas, os interrogat\u00f3rios, a morte suspeita de Cl\u00e1udio Manuel da Costa, o desterro na \u00c1frica, a pris\u00e3o perp\u00e9tua em Portugal para r\u00e9us eclesi\u00e1sticos e o enforcamento de Tiradentes.<\/p>\n<p>Cabe lembrar. Conjura\u00e7\u00e3o \u00e9 um tipo de conspira\u00e7\u00e3o: a disposi\u00e7\u00e3o de depor o governante, tentar tomar a liberdade e chegar ao poder pelo caminho encurtado da a\u00e7\u00e3o violenta. Inconfid\u00eancia \u00e9 crime de lesa majestade de primeira cabe\u00e7a \u2013 significa ser infiel ao soberano, trai\u00e7\u00e3o contra a vida do rei ou de seus representantes e contra a seguran\u00e7a do Estado portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Uma vez esmagada a Conjura\u00e7\u00e3o Mineira, sobraram as ideias e a \u201cestranha pot\u00eancia das palavras\u201d, definiu Cec\u00edlia Meireles, no <em>Romanceiro da Inconfid\u00eancia<\/em>. \u201cAm\u00e9rica\u201d, \u201cP\u00e1tria\u201d, \u201cAutogoverno\u201d, \u201cLiberdade\u201d, \u201cRep\u00fablica\u201d firmaram-se no centro de uma linguagem do mundo p\u00fablico. E continuaram a ser falada, em voz alta, no Rio de Janeiro, em 1794, e em Salvador, em 1798 \u2013 as Conjura\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro e Baiana.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, no dia 3 de mar\u00e7o de 1817, a Rep\u00fablica foi proclamada no Brasil \u2013 no Recife. Em 3 de maio, a Rep\u00fablica do Crato foi instalada, no Cear\u00e1. Come\u00e7ava o ciclo revolucion\u00e1rio da Independ\u00eancia \u2013 \u201cA nossa outra independ\u00eancia\u201d, como definiu o historiador Evaldo Cabral de Mello.<\/p>\n<p>Muito obrigada.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>AUTO de perguntas ao sargento-mor Lu\u00eds Vaz de Toledo Pisa. 2\u00aa. Inquiri\u00e7\u00e3o \u2013 Rio, Cadeias da Rela\u00e7\u00e3o \u2013 Acarea\u00e7\u00e3o com o Capit\u00e3o Jos\u00e9 de Resende Costa \u2013 02-07-1791\u201d. <em>Autos da Devassa da Inconfid\u00eancia Mineira.<\/em> Bras\u00edlia: C\u00e2mara dos Deputados; Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1982. v.5, p. 321.<\/p>\n<p>BIGNOTTO, Newton. \u201cMaquiavel e as conjura\u00e7\u00f5es\u201d. In:_. <em>O aprendizado da for\u00e7a; Maquiavel e a arte de governar<\/em>. Belo Horizonte: UFMG, 2018. (mimeo.).<\/p>\n<p>COSTA, Cl\u00e1udio Manuel da. \u201cVila Rica\u201d. In: PROEN\u00c7A FILHO, Dom\u00edcio (Org.).<em> A poesia dos inconfidentes<\/em>; <em>poesia completa de Cl\u00e1udio Manuel da Costa, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga e Alvarenga Peixoto.<\/em> <em>Op. cit.<\/em> Canto VII. p. 417.<\/p>\n<p>DORIA, Pedro. <em>1789: a hist\u00f3ria de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independ\u00eancia do Brasil<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.<\/p>\n<p>JARDIM, M\u00e1rcio. <em>A inconfid\u00eancia mineira: uma s\u00edntese factual<\/em>. Rio de Janeiro: Biblioteca do Ex\u00e9rcito, 1989.<\/p>\n<p>FIGUEIREDO, Lucas. <em>O Tiradentes: uma biografia de Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018.<\/p>\n<p>MAXWELL, Kenneth. <em>A devassa da devassa. A Inconfid\u00eancia Mineira: Brasil-Portugal (1750-1808)<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2009.<\/p>\n<p>MEIRELLES, Cec\u00edlia. \u201cRomance LIII ou das palavras a\u00e9reas\u201d. In:_. <em>Romanceiro da Inconfid\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.<\/p>\n<p>MELLO, Evaldo Cabral de. <em>A outra Independ\u00eancia; Pernambuco, 1817-1824<\/em>. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2022.<\/p>\n<p>MIDDLETON, Richard. <em>A Guerra de Independ\u00eancia dos Estados Unidos da Am\u00e9rica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Masdras, 2013.<\/p>\n<p>NEVES L\u00facia M. Bastos Pereira das; NEVES, Guilherme Pereira das. \u201cIndepend\u00eancia\u201d. In: FERES J\u00daNIOR, Jo\u00e3o. (org.). <em>L\u00e9xico da hist\u00f3ria dos conceitos pol\u00edticos do Brasil<\/em>. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.<\/p>\n<p>ORDENA\u00c7\u00d5ES Filipinas. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Caloustre Gulbenkian, 1983. 3 volumes. (especialmente Livro V).<\/p>\n<p>ROUANET, S\u00e9rgio Paulo. \u201cAs Minas iluminadas: a Ilustra\u00e7\u00e3o e a Inconfid\u00eancia\u201d. In: NOVAES, Adauto (org.) <em>Tempo e hist\u00f3ria<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1992; STARLING, Heloisa Murgel. <em>Ser republicano n Brasil Col\u00f4nia: a hist\u00f3ria de uma tradi\u00e7\u00e3o esquecida<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post A Conjura\u00e7\u00e3o Mineira e suas luzes appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/camara-de-curitiba-tem-mais-um-ataque-machista-citando-roupas-de-vereadora\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/54548049992_3bda2f41bf_k-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">C\u00e2mara de Curitiba tem\u00a0mais um ataque machista  ci...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/com-mais-de-1-milhao-de-mortos-genocidio-armenio-completa-111-anos-em-meio-a-tentativa-de-apagamento-por-parte-da-turquia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Com mais de 1 milh\u00e3o de mortos, genoc\u00eddio Arm\u00eanio ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apos-tensao-e-ameacas-petro-e-trump-falam-em-cooperacao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/4d7f640c-d730-4b7d-873c-d51fe381429b-1-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ap\u00f3s tens\u00e3o e amea\u00e7as, Petro e Trump falam em coop...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/educacao-e-alimento-para-a-alma-e-deve-ser-encarada-como-direito-diz-professor-da-usp\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u2018alimento para a alma\u2019 e deve ser encar...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana em que se celebra Tiradentes, retomamos cenas e ideias que circularam nas cidades mineiras no primeiro movimento republicano da col\u00f4nia portuguesa. Antecedeu a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. E chegou a pensar o fim do escravismo para dar clareza ao ideal de liberdade<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/a-conjuracao-mineira-e-suas-luzes\/\">A Conjura\u00e7\u00e3o Mineira e suas luzes<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":84683,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6203,3169,2176,5488,3055,316,51011,49351,51012,3166,49354],"tags":[],"class_list":["post-84682","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil-colonia","category-conjuracao-mineira","category-escravidao","category-historia-e-memoria","category-inconfidencia-mineira","category-minas-gerais","category-monarquia-brasileira","category-republica","category-revolta-de-tirdentes","category-tiradentes","category-vila-rica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84682\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84683"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}