{"id":84851,"date":"2026-04-27T06:00:00","date_gmt":"2026-04-27T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/canetas-do-milagre\/"},"modified":"2026-04-27T06:00:00","modified_gmt":"2026-04-27T09:00:00","slug":"canetas-do-milagre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/canetas-do-milagre\/","title":{"rendered":"Canetas do milagre"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto dietas falham e cirurgias assustam, um novo fen\u00f4meno invade consult\u00f3rios, redes sociais e abd\u00f4mens em casas de todas as classes sociais: as \u201ccanetas emagrecedoras\u201d. Medicamentos criados para tratar diabetes se transformam em objeto de desejo global, prometendo uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para a obesidade.<\/p>\n<p>Ed acompanha a ascens\u00e3o dessa ind\u00fastria bilion\u00e1ria e descobre um universo em que ci\u00eancia, marketing e pol\u00edtica se entrela\u00e7am, enquanto pacientes disputam acesso aos medicamentos e gigantes farmac\u00eauticas travam batalhas silenciosas.\u00a0<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da promessa de milagre, surgem perguntas inc\u00f4modas: quem realmente se beneficia dessa corrida? Quais os reais riscos dessa moda? E o que acontece quando um problema social complexo come\u00e7a a ser tratado como simples quest\u00e3o farmacol\u00f3gica?<\/p>\n<h2><strong>Confira abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/h2>\n<p>[sonora de cortes de m\u00eddias em redes sociais]<\/p>\n<p>[narra\u00e7\u00e3o da sonora]: Bom dia! Vamos na saga do Ozempic; Vlog do meu 1\u00ba dia usando a Ozempic; Pra mim assim, o Ozempic foi uma coisa que, assim, mudou a minha vida; Se voc\u00ea n\u00e3o me segue j\u00e1 clica a\u00ed pra me seguir e acompanhar esse processo.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: A promessa \u00e9 quase de milagre.<\/p>\n<p>[sonora de cortes de m\u00eddias em redes sociais]<\/p>\n<p>[narra\u00e7\u00e3o da sonora]: Como eu sai dos 80 kg pros 60 kg em cinco meses?; Ozempic; Mounjaro; Ozempic; Mounjaro; Ozempic; Ozempic.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]:De an\u00f4nimos a famosos. O que se formou foi um movimento cultural, abra\u00e7ado de bom grado pela ind\u00fastria, que comemora o efeito manada a cada apaixonado espont\u00e2neo. De cantores sertanejos ao magnata Elon Musk. N\u00e3o faltam cabe\u00e7as para divulgar voluntariamente medicamentos. Repito, medicamentos. Que deveriam tratar uma enfermidade. Repito, enfermidade, doen\u00e7a.<\/p>\n<p>[sonora de reportagem em notici\u00e1rio | Grava\u00e7\u00e3o SBT News]<\/p>\n<p>[narra\u00e7\u00e3o da sonora]: A semaglutida foi a primeira subst\u00e2ncia a chamar aten\u00e7\u00e3o para a efic\u00e1cia do tratamento do diabetes e, consequentemente, na perda de peso. A Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria decidiu priorizar o registro de novos produtos que cont\u00e9m os princ\u00edpios ativos liraglutida e semaglutida presente nas f\u00f3rmulas das canetas.\u00a0<\/p>\n<p>[sonora de reportagem em notici\u00e1rio | Grava\u00e7\u00e3o Jornal Nacional]<\/p>\n<p>[narra\u00e7\u00e3o da sonora]: Al\u00e9m da semaglutida, agora tamb\u00e9m est\u00e3o nas farm\u00e1cias as canetas de tizerpatida.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Semaglutida, liraglutida, tizerpatida. Os palavr\u00f5es da moda geraram, literalmente, corrida \u00e0s farm\u00e1cias e um perigoso mercado paralelo.<\/p>\n<p>[sonora da grava\u00e7\u00e3o em reportagem | Grava\u00e7\u00e3o do portal Rede Serra Azul]<\/p>\n<p>[narra\u00e7\u00e3o da sonora]: Vou pedir pra voc\u00ea tirar a cal\u00e7a toda, t\u00e1?<\/p>\n<p>[narra\u00e7\u00e3o da sonora]: T\u00e1.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: O que voc\u00ea ouve s\u00e3o os rem\u00e9dios em forma de canetas caindo ao ch\u00e3o depois que um homem abre as cal\u00e7as em uma revista no Aeroporto de Fortaleza.<\/p>\n<p>[sonora de reportagem em notici\u00e1rio | Grava\u00e7\u00e3o Fant\u00e1stico]<\/p>\n<p>[narra\u00e7\u00e3o da sonora]: A Receita Federal informou que as canetas estavam com um passageiro vindo do Reino Unido e eram transportadas de maneira irregular. Al\u00e9m da grande quantidade, n\u00e3o tinham receita m\u00e9dica, nem autoriza\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria, a Anvisa, para entrar no pa\u00eds.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: As apreens\u00f5es desse tipo se multiplicaram em 2025 depois da explos\u00e3o de popularidade do caminho para o emagrecimento f\u00e1cil. Esses medicamentos existem h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas. Segundo a Receita Federal, sete canetas foram apreendidas em aeroportos brasileiros em 2023. Apenas nos primeiros quatro meses de 2025, antes do Mounjaro ser liberado para comercializa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, a apreens\u00e3o desses tipos de medicamento chegou a 10 mil unidades. A carga, avaliada em mais de 17 milh\u00f5es de reais, vem sendo trazida aos poucos, clandestinamente, sem refrigera\u00e7\u00e3o e sem seguran\u00e7a, para alimentar sonhos impulsionados e multiplicados pelas redes sociais, e pela tradicional busca pelo corpo perfeito que insiste em n\u00e3o sair de moda.<\/p>\n<p>Eu sou Ed Wanderley e nos pr\u00f3ximos minutos eu te conto como eu morri. Esse \u00e9 o A \u00daltima Bolacha, uma jornada que teve in\u00edcio no fim. Depois de um ataque card\u00edaco aos 36 anos durante um show de Paul McCartney, meus caminhos pessoais e profissionais se misturaram. Nos meses seguintes, passei a investigar n\u00e3o apenas para reportar, mas para reaprender a viver. Foram dezenas de documentos lidos, entrevistas conduzidas, seis mil quil\u00f4metros rodados e, enfim, mais de 50 kg eliminados. Agora eu levo voc\u00ea comigo a cada passo. Neste epis\u00f3dio, n\u00f3s vamos nos debru\u00e7ar sobre as glutidas e patidas, ou, como seus colegas de trabalho ou faculdade chamam: as canetas emagrecedoras.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Epis\u00f3dio 4: As Canetas do milagre<\/strong><\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[M\u00e3e]: T\u00e1 quente. \u00c9 moela.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Cabo Frio, Rio de Janeiro, mar\u00e7o de 2024.<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[M\u00e3e]: Mentira\u2026 \u2026\u00a0<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[Ed]: Plano de sa\u00fade nem t\u00e1 pago<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]:Durante toda a minha interna\u00e7\u00e3o na UTI, mantive minha m\u00e3e longe de Bras\u00edlia, onde o fat\u00eddico show aconteceu. Desde que perdemos meu pai, em mar\u00e7o de 2021, ela deixou Pernambuco para viver na regi\u00e3o dos Lagos, no Rio de Janeiro, onde temos mais familiares. Quando a reencontrei, a balan\u00e7a j\u00e1 marcava algumas dezenas de quilos a menos.<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[M\u00e3e]: N\u00e3o tem janta n\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[Tia]: Prepara uma jantinha para ele.<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[M\u00e3e]: Vou preparar agora.<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[Ed]: Voc\u00eas terminaram de decidir minha vida j\u00e1?\u00a0<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[M\u00e3e]: Eu s\u00f3 estou falando.<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[Ed]: S\u00f3 perguntando se faltou alguma coisa.<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[Tia]: Quer macaxeira?<\/p>\n<p>[Sonora conversa de Ed com a m\u00e3e]<\/p>\n<p>[Ed]: Estou de boa, tia. Obrigado.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]:<strong> <\/strong>\u00c9, a tenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vem na forma de cuidado. Mas, com o desafio de recuperar a capacidade card\u00edaca, que estava em 36% quando sa\u00ed do hospital, ap\u00f3s um ataque card\u00edaco aos 36 anos, e, de quebra, conseguir quebrar a Maldi\u00e7\u00e3o dos 36, uma cren\u00e7a antiga que me fez acreditar que eu s\u00f3 teria 36 anos de vida, eu tive que enfrentar uma mudan\u00e7a radical de h\u00e1bitos e aprender a resistir. Prestes a completar um ano da minha interna\u00e7\u00e3o e j\u00e1 com a silhueta redesenhada, duas perguntas viraram quase t\u00e3o frequentes quanto \u201cbom dia\u201d. A primeira: \u201cfez bari\u00e1trica?\u201d, mas essa resposta eu j\u00e1 te contei no terceiro epis\u00f3dio. E a medalha de ouro: \u201ct\u00e1 usando caneta?\u201d. Nada contra. Tenho at\u00e9 amigos que usam. Mas, de alguma forma, o questionamento parecia carregar uma provoca\u00e7\u00e3o a reboque: \u201cpor que voc\u00ea est\u00e1 tomando o caminho mais dif\u00edcil?\u201d. E, em determinado momento, sem que o ponteiro da balan\u00e7a baixasse al\u00e9m dos 52 kg eliminados naqueles onze meses, e com o marco de um ano de meu ataque card\u00edaco j\u00e1 virando a esquina, confesso, eu j\u00e1 nem sabia responder a essa pergunta. E resolvi investigar.<\/p>\n<p>Numa ponta de caneta, n\u00e3o faltam promessas de facilidades. E por falar em promessas, n\u00e3o demoraria muito para essa avalanche chegar tamb\u00e9m \u00e0 pol\u00edtica. O pr\u00f3prio presidente Lula, em 2025, pediu acelera\u00e7\u00e3o por parte da Anvisa dos pedidos de registros das vers\u00f5es nacionais da semagultida, o Ozempic, que j\u00e1 podem ser comercializadas depois da queda da exclusividade da empresa que o produzia em mar\u00e7o de 2026. O movimento \u00e9 uma resposta pol\u00edtica ao interesse popular que j\u00e1 motivou a \u00faltima campanha para elei\u00e7\u00f5es municipais.<\/p>\n<p>[Sonora declara\u00e7\u00e3o de Eduardo Paes | Grava\u00e7\u00e3o Rio TV C\u00e2mara]<\/p>\n<p>[Eduardo Paes]: E como promessa \u00e9 d\u00edvida, ainda mais se feita \u00e0 Ema Jurema, criamos\u00a0 um programa de combate \u00e0 obesidade que j\u00e1 estabelece as bases para aquisi\u00e7\u00e3o da Semaglutida Ozempic a partir da quebra da patente do medicamento.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]:Primeiro de janeiro de 2025. Esse \u00e9 um trecho do primeiro pronunciamento de Eduardo Paes ao assumir o seu quarto mandato na cidade do Rio de Janeiro. Com um sorrisinho no rosto, o social democrata disse que honraria a promessa feita, quando ainda era candidato, \u00e0 Ema Jurema, animal de tecido, personagem do jornal carioca Extra, que conduz entrevistas, por vezes maravilhosas, na cidade, por vezes, bem administrada. Houve quem n\u00e3o tenha gostado.<\/p>\n<p>[Sonora v\u00eddeo de Jojo Todynho | V\u00eddeo de Metr\u00f3poles]<\/p>\n<p>[Jojo]:<em> <\/em>Gente, eu vou falar uma coisa para voc\u00eas. Esse Eduardo Paes \u00e9 um descarado, n\u00e9? Usando a pauta nossa sobre a sa\u00fade, sobre obesidade, para n\u00e3o que vai dar Ozempic para os outros. Ele n\u00e3o cuidou nem dele. Ele n\u00e3o cuida nem do do trabalho que ele tem que fazer. Imagine de quem sofre com obesidade. Obesidade \u00e9 doen\u00e7a, n\u00e9? Sair distribuindo Ozempic, achando que vai fazer \u00e9 \u00e9 milagre, n\u00e3o. Toma vergonha dentro da tua cara, Eduardo Paes. N\u00e3o tem vergonha n\u00e3o, descarado<em>\u201d<\/em><\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Calma, Jojo Todynho. O prefeito refor\u00e7ou o que j\u00e1 havia dito, com todas as letras: que o Rio de Janeiro \u201cn\u00e3o teria mais gordinho\u201d.<\/p>\n<p>[Sonora v\u00eddeo de Jojo Todynho]<\/p>\n<p>[Jojo]: N\u00e3o tem um dorflex, n\u00e3o tem um paracetamol, n\u00e3o tem m\u00e9dico, n\u00e3o tem seringa, n\u00e3o tem gaze, n\u00e3o tem nada.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: A cantora Jojo Todynho fez essa publica\u00e7\u00e3o em seu perfil nas redes sociais, enquanto matava um pastel de carne diante da c\u00e2mera do celular. Paix\u00f5es. Muitas. O tema da obesidade mexe com os brios de muita gente, mas com as canetas emagrecedoras o tema se voltou, mais uma vez, para um velho mantra: \u201cs\u00f3 \u00e9 gordo quem quer\u201d. A vers\u00e3o digital zilenial do \u201c\u00c9 s\u00f3 ter for\u00e7a de vontade\u201d e, n\u00e3o vamos esquecer: dinheiro, muito dinheiro.<\/p>\n<p>J\u00e1 que eu estava no Rio e movido pela curiosidade, eu precisava descobrir se emagrecer hoje em dia sem o uso desses medicamentos seria mesmo o caminho mais dif\u00edcil. Primeiro, eu precisava encontrar algu\u00e9m que entendesse o desafio com a balan\u00e7a que eu estava passando, e que tivesse seguido esse caminho. Eu n\u00e3o queria chorar as pitangas de gordo. Queria ouvir a experi\u00eancia de quem, como eu, tamb\u00e9m busca espa\u00e7o para rir durante essa jornada. Dizem que \u00e9 rem\u00e9dio melhor at\u00e9 que as canetas. E assim, me vi batendo na Porta do Fundos. E o ator F\u00e1bio de Luca jogou um coquetel molotov na minha curiosidade.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Ed]: \u00d4, F\u00e1bio, mas me conta, como \u00e9 que t\u00e1 a experi\u00eancia da novela?\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Cara, um barato. T\u00f4 achando m\u00f3 barato. Porque eu sempre quis fazer assim, n\u00e9? J\u00e1 fiz algumas participa\u00e7\u00f5es em novela e tudo mais, mas nunca tinha feito uma inteira.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Voc\u00ea deve conhecer F\u00e1bio de Luca pelo Porta dos Fundos e pelo papel de Detetive Sabi\u00e1 na novela Eta Mundo Melhor.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Que a gente, pra ser ator validado, tipo, n\u00e3o, cara, \u00e9 ator mesmo, tem que fazer uma novela na vida, pelo menos uma. Ent\u00e3o, a\u00ed isso ficou. Ent\u00e3o, hoje eu me sinto validado. Gente, sou ator mesmo. Fiz uma novela, pelo menos uma fiz.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: E \u00e0 luz do detetive, deixa eu ir direto ao ponto\u2026 obesidade.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]: Cara, voc\u00ea teve uma experi\u00eancia um pouco diferente da minha, assim, porque pra mim, desde crian\u00e7a, eu sempre tive que lidar com isso. Ent\u00e3o, eu fico pensando\u2026 Pra mim, sempre foi um inc\u00f4modo a quest\u00e3o de ser ponto de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Ai, sei como \u00e9.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]: Quando \u00e9 que tu percebeu que passou a vivenciar isso?<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Na pandemia eu engordei 50 quilos.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]: Na pandemia?<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Na pandemia. Durante a pandemia. \u00c9 muito comum tamb\u00e9m quando voc\u00ea \u00e9 gordinho\u2026 Ainda mais se voc\u00ea for humorista. \u00c0s vezes at\u00e9 vira humorista por causa disso. Voc\u00ea j\u00e1 chegar fazendo a piada j\u00e1 pra ningu\u00e9m fazer, n\u00e9? \u201cEi, onde \u00e9 que esse gordo vai sentar?\u201d Sei l\u00e1. Uma coisa assim, n\u00e9? \u00c9\u2026 Pra\u2026<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]: \u00c9 uma defesa tamb\u00e9m, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: \u00c9. E ent\u00e3o\u2026 \u00c9\u2026 \u00c9 um mecanismo de defesa, como voc\u00ea diz, e muito natural.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]: Te incomoda essa alcunha de tipo \u201cah, \u00e9 o gordo do Porta dos Fundos\u201d?<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: \u00c9, me incomoda e n\u00e3o era assim assim, n\u00e3o era assim at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo porque tinha o Totoro. Totoro era o gordo do \u201cPorta dos Fundos\u201d, e eu quando entrei, n\u00e3o entrei para o p\u00fablico, n\u00e3o foi tipo assim, \u201co novo Totoro\u201d. O que me incomoda \u00e9 porque, ah n\u00e3o, como ator queria ser lembrado porque \u00e9 o cara que eu acho engra\u00e7ado no Porta, tipo, \u00e9 o meu preferido, o que eu n\u00e3o gosto, o que eu acho bobo, sei l\u00e1, n\u00e3o como o \u201cgordo\u201d.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: E como ele \u00e9 criatura do universo digital, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que o preconceito \u00e9 quase t\u00e3o recorrente quanto o caf\u00e9 da manh\u00e3, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: A diferen\u00e7a \u00e9 que acho que no imagin\u00e1rio popular e muitas vezes na gente mesmo que o gordo est\u00e1 gordo porque quer. \u201cT\u00e1 desse jeito tamb\u00e9m, p\u00f4, n\u00e3o toma uma vergonha, n\u00e9?\u201d, n\u00e3o emagrece e tal. Ent\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil as pessoas entenderem, talvez, a gordofobia como sendo um problema s\u00e9rio, n\u00e9? Que \u00e9 quase justific\u00e1vel para algumas pessoas. Tipo, essa cr\u00edtica. \u201cN\u00e3o, tem que ouvir mesmo para poder tomar vergonha e emagrecer.\u201d<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Ap\u00f3s uma temporada num spa, o ator decidiu aderir ao tratamento da obesidade com o uso das chamadas canetas emagrecedoras.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Sofrendo de tudo, que eu posso imaginar, porque aquilo d\u00e1 um enjoo muito grande. Mas at\u00e9 emagreci um pouquinho, tudo foi indo. S\u00f3 que a\u00ed eu tive que parar, porque a\u00ed eu n\u00e3o mudei para o mundo.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]: O que \u00e9 um pouquinho?\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Um pouquinho? 20 quilos.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]:Um pouquinho?<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: N\u00e3o, \u00e9 porque para mim, eu fiquei um pouco menos.<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[Ed]: 20 quilos?\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com F\u00e1bio de Luca]<\/p>\n<p>[F\u00e1bio]: Mas 20 quilos, eu tenho que emagrecer uma pessoa. O problema do Ozempic, para mim, foi que come\u00e7ou a me dar alguns eventos de muita fraqueza, assim, do nada. E eu tive isso na Globo, uma vez l\u00e1. Passei mal, achando que eu ia ter aquela press\u00e3o baixa. No primeiro dia que eu fui gravar com a Amora Mautner, eu falei, \u201cPronto, j\u00e1 era\u201d. Tive que parar, o set teve que parar, porque eu passei mal. Eu falei, \u201cmeu Deus, dizem que essa mulher \u00e9 o capeta\u201d, nada. Fui l\u00e1, realmente fazer o tipo, como se fosse um\u2026 Explicar o que aconteceu para o m\u00e9dico, me examinou, voltei, continuamos a gravar, tudo certo. S\u00f3 que estava acontecendo \u00e0s vezes, por causa do Ozempic.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Muita gente fala dos enj\u00f4os que sente ao tomar esse tipo de medica\u00e7\u00e3o. A gente precisa entender algumas quest\u00f5es para navegar esse universo. Ozempic, na verdade, \u00e9 um nome comercial para um rem\u00e9dio contra diabetes. Wegovy, \u00e9 um outro, fabricado pela mesma empresa, s\u00f3 que voltado ao tratamento de obesidade e de gordura no f\u00edgado. Ambos usam uma mesma mol\u00e9cula, a semaglutida. J\u00e1 o Mounjaro tem um outra mol\u00e9cula, a tirzepatida, que \u00e9 uma prima, um pouco mais forte. Esses nomes v\u00e3o se repetir muito daqui pra frente, ent\u00e3o melhor entender o que ele significa.<\/p>\n<p>A semaglutida e a tirzepatida s\u00e3o medicamentos chamados de \u201can\u00e1logos de GLP-1\u201d, outra express\u00e3o que ainda vamos ouvir muito. E o que eles fazem? Eles imitam artificialmente esse horm\u00f4nio natural, que altera nossos n\u00edveis de insulina e glucagon, o GLP-1. E a\u00ed o que \u00e9 que rola? O a\u00e7\u00facar no sangue diminui, nossa digest\u00e3o leva mais tempo que o comum, o que influencia nossa sensa\u00e7\u00e3o de saciedade e diminui nosso apetite. Em outras palavras, ele tenta nos fazer n\u00e3o querer comer e ter a sensa\u00e7\u00e3o de estar cheio por mais tempo. Voc\u00ea deve estar se perguntando a diferen\u00e7a entre os dois. A tirzepatida imita n\u00e3o apenas um, mas dois horm\u00f4nios, al\u00e9m do GLP-1, reproduz tamb\u00e9m o GIP, o que faz dela uma mol\u00e9cula mais poderosa.<\/p>\n<p>Agora que voc\u00ea j\u00e1 entendeu como essas subst\u00e2ncias funcionam, vamos aos benef\u00edcios. Eles est\u00e3o mais que documentados semanalmente na imprensa e no universo de influ\u00eancia de m\u00e9dicos e entusiastas nas redes sociais. Em 16 meses, os pacientes podem perder de 15 a 23% do peso. Isso contando gordura e, por vezes, at\u00e9 m\u00fasculos, a chamada \u201cmassa magra\u201d. Esse al\u00edvio para o organismo descomprime o cora\u00e7\u00e3o, facilita a circula\u00e7\u00e3o e impacta o corpo positivamente. E \u00e9 nessa parte da informa\u00e7\u00e3o que o entusiasmo geral vem se concentrando. Mas tem cascas de banana nesse cen\u00e1rio. Um estudo da Universidade de Ulster mostra que, sem o uso de um an\u00e1logo de GLP-1, s\u00f3 10% dos pacientes conseguiram manter a perda de peso, e isso com aux\u00edlio de dieta controlada e exerc\u00edcios. Os outros 90% recupera at\u00e9 dois ter\u00e7os de tudo que perderam em apenas um ano depois de parar o tratamento. A Universidade de Oxford foi al\u00e9m. Comparou o reganho de peso de usu\u00e1rios das canetas com outras formas de perda de peso e concluiu: quem usa esses medicamentos recupera os quilos deixados para tr\u00e1s com at\u00e9 quatro vezes mais velocidade. E, com um agravante: recupera com uma composi\u00e7\u00e3o corporal que normalmente conta com menos m\u00fasculos do que antes do tratamento. \u00c9, aposto que n\u00e3o deu tempo de voc\u00ea entender isso nas dancinhas e memes dos stories. Na pr\u00e1tica, para garantir os efeitos, \u00e9 preciso se manter tomando o rem\u00e9dio sempre. Um compromisso eterno, de efeitos de longo prazo que ainda est\u00e3o sendo descobertos pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cOlha, mas perder 20% do peso parece \u00f3timo, maravilha, quando eu come\u00e7o a aplicar\u201d? Sabe aquela hist\u00f3ria de que quando a esmola \u00e9 demais, o santo desconfia? Pois bem, eu que passo longe de santo, e frouxo que s\u00f3 eu, me pego pensando: Ser\u00e1 mesmo que mexer com o organismo nesse n\u00edvel \u00e9 coisa t\u00e3o simples e sem risco significativo? A resposta, como tudo na vida, vai depender de a quem voc\u00ea pergunta.<\/p>\n<p>[Entrevista com Lucio Monte Alto | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Lucio]: A Novo Nordisk, eles est\u00e3o conseguindo fazer um filme no mundo de tanto problema. Ent\u00e3o, com isso aqui, voc\u00eas fazem um belo document\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Esse \u00e9 Lucio Monte Alto, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Medicina da Obesidade, a Sbemo. A sociedade moveu uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica contra a Novo Nordisk, empresa que popularizou a mol\u00e9cula da semaglutida e que at\u00e9 mar\u00e7o de 2026 tinha exclusividade para vend\u00ea-la com os nomes comerciais Ozempic, para diabetes, e WeGovy, para obesidade. Sozinha, a Novo Nordisk mudou o PIB da Dinamarca e virou febre. Atualmente a companhia vale pouco mais que 1 trilh\u00e3o de reais. Voc\u00ea n\u00e3o ouviu errado. Trilh\u00e3o.<\/p>\n<p>[Entrevista com Lucio Monte Alto]<\/p>\n<p>[Lucio]: Ela teve, h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, nos Estados Unidos, uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica tamb\u00e9m que partiu do governo americano ap\u00f3s uma investiga\u00e7\u00e3o do FBI. Da Pol\u00edcia Federal Americana e do FDA, que \u00e9 a Ag\u00eancia de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria Americana. Por justamente omitir uma informa\u00e7\u00e3o relevante e importante na bula, que \u00e9 a contraindica\u00e7\u00e3o nos casos dos pacientes portadores de carcinoma medular de tire\u00f3ide e de s\u00edndrome neopl\u00e1sica m\u00faltipla tipo 2.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: C\u00e2ncer, em especial o de tireoide. Na pr\u00e1tica, seria uma contraindica\u00e7\u00e3o para quem j\u00e1 teve ou tem casos na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>[Entrevista com Lucio Monte Alto]<\/p>\n<p>[Lucio]: E apesar da multa milion\u00e1ria aplicada na ocasi\u00e3o e a mudan\u00e7a feita nos Estados Unidos, ou seja, a necessidade de incluir na bula como uma contraindica\u00e7\u00e3o grave, a Novo Nordisk, quando chegou no Brasil, ela replicou o mesmo erro. Ela trouxe para o Brasil, com aval da Anvisa, que tamb\u00e9m errou, porque \u00e9 a Ag\u00eancia de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria no Brasil, uma Bula que simplesmente n\u00e3o tinha contraindica\u00e7\u00e3o. E continua, inclusive, sem ela, porque isso n\u00e3o foi ainda modificado.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Nos Estados Unidos, a Novo Nordisk foi multada em quase 59 milh\u00f5es de d\u00f3lares, cerca de 320 milh\u00f5es de reais, e obrigada a incluir a contraindica\u00e7\u00e3o nas bulas. J\u00e1 na vers\u00e3o brasileira, regulada pela Anvisa, n\u00e3o h\u00e1 essa contraindica\u00e7\u00e3o, mas um lembrete de \u201cprecau\u00e7\u00e3o\u201d. Os riscos mais graves listados incluem o retardamento prolongado do esvaziamento g\u00e1strico, em bom portugu\u00eas, a paralisa\u00e7\u00e3o do nosso sistema digestivo; a pancreatite, uma inflama\u00e7\u00e3o perigosa no p\u00e2ncreas; e o que \u00e9 descrito como neuropatia \u00f3ptica isqu\u00eamica anterior, o que quer dizer perda repentina da vis\u00e3o, em alguns casos irrevers\u00edvel. Cegueira. Completa. E eu duvido muito que aquele seu colega de trabalho que te recomendou uma inje\u00e7\u00e3o que \u201ct\u00e1 todo mundo usando\u201d para perder uns quilinhos tenha dito, em algum momento que existe a chance de seu est\u00f4mago parar ou de voc\u00ea ficar cego. Eu procurei a Anvisa. A ag\u00eancia confirmou esses riscos, disse emitir alertas de seguran\u00e7a sobre eles e que, no entanto, \u201cat\u00e9 o momento, a conclus\u00e3o \u00e9 de que os benef\u00edcios continuam a superar os riscos identificados\u201d.<\/p>\n<p>O ano de 2025 foi movimentado para o mercado das canetas emagrecedoras. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade incluiu as primas liraglutida, semaglutida e tizerpartida na lista de Medicamentos Essenciais. Ou seja, uma recomenda\u00e7\u00e3o que governos de todo o mundo buscassem ampliar o acesso a essas subst\u00e2ncias, que t\u00eam o alto pre\u00e7o como grande impeditivo no Brasil. Um m\u00eas de tratamento sai entre R$ 700 a R$ 3 mil em algumas cidades. E, nesses momentos, voc\u00ea percebe como h\u00e1 uma boa vontade para enxergar os rem\u00e9dios como \u201csalvadores da p\u00e1tria\u201d. Muita gente reportou esse an\u00fancio como um incentivo ao uso massivo de canetas. Mas, a organiza\u00e7\u00e3o fez duas ressalvas cruciais: a primeira \u00e9 de que o tratamento seria recomendado para tratar diabetes e obesidade. Obesidade de fato. E deve ser sempre associado a dieta e exerc\u00edcios, em vez de encarado como shakes milagrosos que podem ser adquiridos a cada esquina. O segundo \u00e9 que a tend\u00eancia de sobrepeso e obesidade no mundo se mant\u00e9m, e deve atingir 3 bilh\u00f5es de adultos at\u00e9 2030, em outras palavras, n\u00f3s temos uma arma contra um problema, n\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o, muito menos um milagre.\u00a0<\/p>\n<p>A forma como as canetas passaram a ser consumidas tamb\u00e9m preocupou organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade no Brasil. Quando questionei a Anvisa, a pr\u00f3pria ag\u00eancia admitiu que, por se tratarem de, nas palavras dela, \u201cmedicamentos novos, cujo perfil de seguran\u00e7a a longo prazo ainda n\u00e3o \u00e9 conhecido\u201d, eles requerem monitoramento e vigil\u00e2ncia. Foram 1579 notifica\u00e7\u00f5es de problemas com as canetas at\u00e9 mar\u00e7o de 2025. 52 casos de problemas na vis\u00e3o, alguns levando a cegueira sem cura. E quem voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar que fez exame de vis\u00e3o antes ou durante o uso das canetas? Tem mais. No Brasil, a incid\u00eancia de pancreatite \u00e9 mais que o dobro da registrada na literatura m\u00e9dica global, a informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 da Anvisa. S\u00f3 depois desse volume de problemas, esses medicamentos, que antes tinham venda livre em qualquer farm\u00e1cia, passaram a ser restritos no pa\u00eds. Desde o primeiro semestre de 2025, eles s\u00e3o tarja vermelha, ou seja, para compr\u00e1-los, \u00e9 preciso ter uma receita, uma recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. E n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar quem fa\u00e7a o uso por conta pr\u00f3pria e com medicamentos similares, manipulados ou contrabandeados. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 por acaso.<\/p>\n<p>Mesmo com altos pre\u00e7os e a compra menos facilitada, o mercado de canetas \u00e9 promissor. As vendas bateram 260 bilh\u00f5es de reais em 2024 no mundo e a proje\u00e7\u00e3o \u00e9 que cheguem a 650 bilh\u00f5es no ano de 2034. No Brasil, das notifica\u00e7\u00f5es relacionadas a problemas ligados ao uso desses medicamentos, 38% eram de uso fora das recomenda\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, ou seja, o off label, \u201cpara perder alguns quilinhos\u201d, sem acompanhamento. Eu sentei para conversar com a Ana Miriam Fukui Dias, diretora jur\u00eddica, de compliance e qualidade da Novo Nordisk no Brasil. A gente falou sobre essa busca desenfreada pelo medicamento, envolvendo at\u00e9 quem n\u00e3o precisa, o que de uma forma ou de outra, por anos, fez a alegria dos acionistas da empresa.<\/p>\n<p>[Entrevista com Ana Miriam Fukui | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Ana]: Mas a gente tem tentado articular, atrav\u00e9s da nossa \u00e1rea m\u00e9dica, atrav\u00e9s de educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica mesmo, de levar esse conhecimento cient\u00edfico, e a\u00ed tentando fazer, atrav\u00e9s das campanhas, o quanto a gente pode, obviamente, tirando, deixando de lado toda a quest\u00e3o promocional, mas fazendo campanhas e colocando informa\u00e7\u00e3o sobre a doen\u00e7a em si, nos nossos sites, para que a popula\u00e7\u00e3o, porque hoje em dia, eu acho que o que mudou, antigamente a gente ia no consult\u00f3rio, a gente recebia uma prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e ningu\u00e9m nem perguntava, voc\u00ea s\u00f3 ia na farm\u00e1cia e comprava. Hoje em dia, com rede social, com internet, as pessoas chegam no m\u00e9dico e falam \u201colha, eu vim aqui porque eu quero tomar isso aqui\u201d. Ent\u00e3o, as pessoas t\u00eam mais conhecimento, ent\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o, eu acho, da gente trabalhar o quanto a gente conseguir de levar a informa\u00e7\u00e3o adequada para paciente. Inclusive, para mostrar que, \u00e0s vezes, \u00e9 mudan\u00e7a de estilo de vida o que a pessoa precisa, nem todo mundo precisa de medica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]:<strong> <\/strong>De m\u00e9dicos a jornalistas e influenciadores, todo mundo parece falar bem sobre as canetas emagrecedoras. E eu quis saber da diretora sobre a quest\u00e3o da promo\u00e7\u00e3o de seus medicamentos e de treinamentos no Brasil. Esse \u00e9 um ponto sens\u00edvel para a empresa ap\u00f3s a experi\u00eancia da Novo Nordisk na Inglaterra, onde, at\u00e9 o ano passado, enfrentava uma suspens\u00e3o por raz\u00f5es \u00e9ticas.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com Ana Miriam Fukui]<\/p>\n<p>[Ana]: Foi um caso muito espec\u00edfico que aconteceu por conta de uma pr\u00e1tica, que foi um acordo comercial que foi realizado naquele pa\u00eds especificamente, que acabou gerando uma investiga\u00e7\u00e3o e concluiu-se na \u00e9poca que havia uma infra\u00e7\u00e3o ao c\u00f3digo de conduta e isso sim gerou o banimento. Mas, sim, existe uma preocupa\u00e7\u00e3o. A gente ficou, eu acho que serviu de li\u00e7\u00e3o aprendida. Por isso que a gente tem normas super r\u00edgidas para participa\u00e7\u00e3o, tudo \u00e9 muito bem documentado. Primeiro que, assim, \u00e9 um setor muito regulado. Ent\u00e3o, existe um regulamento da Anvisa, que diz at\u00e9 onde voc\u00ea pode ir, o que voc\u00ea pode falar, o que voc\u00ea n\u00e3o pode falar. Ent\u00e3o, assim, n\u00e3o existe nada, n\u00e3o \u00e9 nenhum subterf\u00fagio para a gente poder fazer propaganda de medicamento de nenhuma forma. Ent\u00e3o, tem todo esse cuidado com rela\u00e7\u00e3o a isso. A gente \u00e9 muito transparente no tipo de pagamento, de patroc\u00ednio que a gente faz. Ent\u00e3o, esses patroc\u00ednios, se necess\u00e1rio publicar, a gente publica no site. Alguns deles s\u00e3o p\u00fablicos, principalmente para institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, quando h\u00e1.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: A rela\u00e7\u00e3o entre empresas farmac\u00eauticas e outras empresas, m\u00e9dicos ou associa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas \u00e9 um tema recorrente de den\u00fancias em todo o mundo. No Brasil, ainda n\u00e3o h\u00e1 formas t\u00e3o transparentes de esclarecer conflitos de interesse. Ou melhor, \u00e9 o velho \u201ctem, mas t\u00e1 faltando\u201d. Em Minas Gerais, por exemplo, por lei, todos os benef\u00edcios recebidos por m\u00e9dicos pagos por empresas devem ser declarados na plataforma DeclaraSUS, mas ela passou quase todo o ano de 2025 com o site quebrado, sem acesso ao p\u00fablico. E olhe que Minas \u00e9 o \u00fanico estado a fazer esse tipo de exig\u00eancia. Num pa\u00eds como um todo, consultorias e outros trabalhos devem ser obrigatoriamente declarados ao Conselho Federal de Medicina, Mas at\u00e9 dezembro de 2025, 0% dos profissionais m\u00e9dicos entregaram suas declara\u00e7\u00f5es. E olha que eles nem exigem que os m\u00e9dicos declarem aqueles presentinhos, viagens, congressos.<\/p>\n<p>[Entrevista com Raphael C\u00e2mara | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Raphael]: Eu, sinceramente, acredito, inclusive, que a maior parte dos m\u00e9dicos \u00e9 por desconhecimento mesmo. Entendeu? Eles n\u00e3o desconhecem a resolu\u00e7\u00e3o, desconhecem como fazer essa declara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Esse \u00e9 o porta-voz do Conselho Federal de Medicina, Raphael C\u00e2mara, autor da norma, j\u00e1 em vigor, que exige a declara\u00e7\u00e3o dos recebimentos por parte do profissional m\u00e9dico.<\/p>\n<p>[Entrevista com Raphael C\u00e2mara]<\/p>\n<p>[Raphael]: Ele tem todo o direito de receber o que for da ind\u00fastria farmac\u00eautica. Contanto que ele publique no imposto de renda dele e declare ao conselho, sem problema nenhum. O que n\u00e3o \u00e9 correto \u00e9 os pacientes e outras pessoas n\u00e3o saberem disso. Muitas vezes, os m\u00e9dicos fazem propaganda de determinados medicamentos, vacinas, \u00f3sseos, seja l\u00e1 o que for, muitas vezes, inclusive, pressionando o poder p\u00fablico a comprarem, n\u00e9? E ningu\u00e9m sabe que o que tem por tr\u00e1s ali, muitas vezes, \u00e9 um contrato robusto com a ind\u00fastria, n\u00e9? Ent\u00e3o, se voc\u00ea soubesse que ele ganha aquele dinheiro da ind\u00fastria, voc\u00ea levaria isso em conta, ouvir a opini\u00e3o dele.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com Raphael C\u00e2mara]<\/p>\n<p>[Ed]: O senhor acredita que essa rela\u00e7\u00e3o com a ind\u00fastria, hoje, ela caracteriza um problema no Brasil ou ela \u00e9 irrelevante, a esse ponto?<\/p>\n<p>[Entrevista com Raphael C\u00e2mara]<\/p>\n<p>[Raphael]: N\u00e3o, de irrelevante n\u00e3o tem nada, a resolu\u00e7\u00e3o, inclusive, \u00e9 por causa disso. Ela \u00e9 um problema sim, eu acho que, inclusive, \u00e9 um problema maior para o sistema p\u00fablico, porque voc\u00ea, hoje, voc\u00ea tem uma press\u00e3o enorme dessas ind\u00fastrias para serem incorporadas no SUS, n\u00e9, ficam dizendo que s\u00e3o as melhores coisas do mundo e se utilizam de porta-vozes de not\u00f3rio saber, respeitados pela sociedade, que muitas vezes \u00e9 a imprensa que cria essas pessoas.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Al\u00e9m de ainda n\u00e3o ser declarada, na pr\u00e1tica, a rela\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos com a ind\u00fastria tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 proibida. Eu sei, soa distante, como um filme retratando a d\u00e9cada de 90, nos Estados Unidos. O pessoal influenciando m\u00e9dicos com presentes, jantares, viagens, n\u00e9? Mas essa aproxima\u00e7\u00e3o, proibida em v\u00e1rios pa\u00edses, \u00e9 feita \u00e0s claras no Brasil. Treinamentos, encontros informais e marketing de relacionamento.\u00a0<\/p>\n<p>[Representante da Novo Nordisk | Arquivo de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Representante]: Olha, eu tentei conversar com voc\u00ea pessoalmente l\u00e1 no nosso caf\u00e9, mas acabou que n\u00e3o deu certo. Ent\u00e3o para n\u00e3o enrolar muito, eu vou mandar por \u00e1udio aqui mesmo, t\u00e1 bom?\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Essa \u00e9 uma mensagem de voz enviada via WhatsApp por uma representante da Novo Nordisk a uma m\u00e9dica endocrinologista, em 2024.\u00a0<\/p>\n<p>[Representante da Novo Nordisk]<\/p>\n<p>[Representante]: Seguinte, queria muito que voc\u00ea desse uma pequena aula, na verdade n\u00e3o chama nem aula, chama discuss\u00e3o de caso cl\u00ednico. N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 participou de algum da Novo, se voc\u00ea sabe como \u00e9 que \u00e9 o modelo desse evento.\u00a0 Sen\u00e3o, vou te explicar rapidinho, t\u00e1? \u00c9 um pequeno grupo, voc\u00ea e mais tr\u00eas pessoas num restaurante e voc\u00ea monta um caso cl\u00ednico, manda l\u00e1 para Novo. Aprovado esse caso cl\u00ednico, voc\u00ea apresenta para esse pequeno grupo. \u00c9, queria que voc\u00ea apresentasse de Wegovy, que voc\u00ea tem bastante experi\u00eancia, enfim, eu acho voc\u00ea incr\u00edvel com a sua experi\u00eancia com GLP-1. E voc\u00ea ganha um fee.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Fee, taxa em ingl\u00eas, um agrado, um mimo.<\/p>\n<p>[Representante da Novo Nordisk]<\/p>\n<p>[Representante]: E voc\u00ea ganha um fee para isso de R$ 2.000. E queria muito te envolver nisso. Eu t\u00f4 montando os grupos aqui. Pensei em voc\u00ea para ser speaker e eu vou chamar outras tr\u00eas nutr\u00f3logas e elas s\u00e3o mais nutr\u00f3logas do que end\u00f3crinos, t\u00e1? Mas formar esse grupinho. A\u00ed a gente sai \u00e0 noite para jantar num lugar bem gostoso. C\u00ea topa?<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Muita gente topa. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar registros nas redes sociais dos encontrinhos de m\u00e9dicos regados a vinho, Ozempic, Wegovy, Mounjaro\u2026 Tudo dentro da lei. Lembra que eu disse que Minas Gerais \u00e9 o \u00fanico estado que exige declara\u00e7\u00e3o dos presentes que os m\u00e9dicos recebem? Entre as empresas que mais doaram para profissionais m\u00e9dicos no estado, adivinha quais est\u00e3o? A Novo Nordisk, do Ozempic e do WeGovy, e a Eli Lily, do Mounjaro, empresas benquistas, bem ricas e bem relacionadas. Sobre o programa Discuss\u00e3o de Casos Cl\u00ednicos, envolvendo convite a m\u00e9dicos em jantares para trocar experi\u00eancias, a Novo Nordisk alegou:\u00a0<\/p>\n<p>[Leitura Nota | \u00c1udio gravado]<\/p>\n<p>[Stela Diogo]: Se trata de uma iniciativa de educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica continuada, uma pr\u00e1tica padr\u00e3o da ind\u00fastria e considerada essencial para a evolu\u00e7\u00e3o da medicina e, consequentemente, para a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes. \u00c9 importante destacar que nessas iniciativas n\u00e3o h\u00e1 contato algum da ind\u00fastria com o paciente.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] O relacionamento dessas gigantes do emagrecimento v\u00e3o muito al\u00e9m do contato m\u00e9dico a m\u00e9dico. A aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 feita tamb\u00e9m com associa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas respeitadas, que ajudam a mostrar o tratamento da tirzepartida e da semaglutida como uma revolu\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Clayton]: Mas \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o. E a revolu\u00e7\u00e3o maior vem porque a obesidade \u00e9 uma doen\u00e7a que causa mais de 200 outras doen\u00e7as. Tipo as cl\u00e1ssicas a\u00ed, diabetes, artrose, depress\u00e3o, c\u00e2ncer, hipertens\u00e3o, cardiopatia, tudo que est\u00e1 associado \u00e0 obesidade.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Esse \u00e9 Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Sbem.<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: E hoje esses medicamentos n\u00e3o agem s\u00f3 na perda de peso. A gente diz que \u00e9 al\u00e9m da perda de peso. Eles t\u00eam outros efeitos, a gente chama de pleiotr\u00f3ficos. Eles agem em outras esferas. E eles diminuem risco cardiovascular, eles protegem o rim, eles previnem diabetes. J\u00e1 tem a\u00ed 100% off-label, n\u00e3o d\u00e1 para botar na manchete, mas para melhora cognitiva em Alzheimer, para alcoolismo.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Realmente um milagre encapsulado, n\u00e9? Antes dessa conversa, eu acompanhava h\u00e1 alguns meses a Sbem e outras associa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, por uma quest\u00e3o curiosa: poss\u00edveis danos \u00e0 retina, aos rins, \u00e0 sa\u00fade mental; a cada novo estudo de risco publicado em revistas cient\u00edficas internacionais divulgados na imprensa brasileira, havia um r\u00e1pido pronunciamento refor\u00e7ando a seguran\u00e7a das canetas, e muitas das notas oficiais, inclusive, foram assinadas conjuntamente por associa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, em bloco.<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Ed]: Voc\u00eas sempre s\u00e3o vocais quando utilizam isso e dizem que \u00e9 seguro usar. Isso a partir de estudos.<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: N\u00e3o, a gente faz todos os alertas. A Sbem, pelo menos, ela \u00e9 muito baseada em evid\u00eancia. A gente faz os alertas contra e a favor. O que a gente n\u00e3o pode \u00e9 gerar fake news. Mas a ci\u00eancia ela \u00e9 assim. O dia que aparecer problemas, a sibutramina, por exemplo, aconteceu isso, a piunglitazona aconteceu isso.<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Ed]: N\u00e3o, mas meu questionamento \u00e9, por exemplo, neuropatia \u00f3ptica, c\u00e2ncer de tireoide\u2026<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: Desculpa, mas esses a\u00ed n\u00e3o tem. N\u00e3o tem em humanos isso a\u00ed. N\u00e3o existe essa evid\u00eancia. O dia que tiver, vai sair na bula.<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Ed]: Mas ele consta na bula da tizerpatida, essa contraindica\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o consta na\u2026<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: \u00c9 tudo quest\u00e3o regulat\u00f3ria, n\u00e9?\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Eu encontrei Macedo durante um congresso em S\u00e3o Paulo, e aproveitei para perguntar como as associa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas fazem para evitar conflitos de interesse, estando em proximidade com a ind\u00fastria farmac\u00eautica.<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: A gente declara uma obriga\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Declara\u00e7\u00e3o de conflito de interesse e a grade cient\u00edfica dos congressos n\u00e3o tem interfer\u00eancia da ind\u00fastria farmac\u00eautica, nem um pouco. Tem simp\u00f3sios patrocinados.<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Ed]: Mas qual \u00e9 a justa medida entre as sociedades m\u00e9dicas e as ind\u00fastrias farmac\u00eauticas se unirem enquanto colabora\u00e7\u00e3o, enquanto apoio, enquanto troca financeira?<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: Isso \u00e9 bem separado, n\u00e3o existe\u2026 O compliance da ind\u00fastria \u00e9 bem rigoroso e a sociedade, eu te garanto que elas n\u00e3o participam desse tipo de\u2026 As grades cient\u00edficas s\u00e3o discutidas por uma comiss\u00e3o cient\u00edfica que \u00e9 independente da comiss\u00e3o, por exemplo, organizadora do Congresso.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Ed]: Quem convidou o senhor para o congresso de hoje, quem foi?\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: Hoje foi a Novo Nordisk.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Ed]: E isso a\u00ed, no caso, declara e est\u00e1 tudo\u2026<\/p>\n<p>[Entrevista com Clayton Macedo]<\/p>\n<p>[Clayton]: Legal, hoje n\u00e3o teve a apresenta\u00e7\u00e3o do slide, mas a gente j\u00e1 tem um slide que \u00e9 obrigat\u00f3rio. Tu declara todos os teus conflitos, n\u00e3o s\u00f3 da palestra que est\u00e1 dando.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] E, por falar em palestra e congresso, a Novo Nordisk est\u00e1, h\u00e1 pelo menos quatro anos, entre os principais patrocinadores do Congresso Brasileiro de\u00a0 Endocrinologia e Metabologia e do Congresso Brasileiro de Atualiza\u00e7\u00e3o em Endocrinologia e Metabologia, os dois maiores eventos anuais realizados pela Sbem.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. As canetas funcionam. E est\u00e3o na boca de todos, voluntariamente. O senador Davi Alcolumbre bradava a quem quisesse ouvir os benef\u00edcios da tirzepatida, o Mounjaro, antes mesmo que o medicamento tivesse venda autorizada no Brasil. Jogadores de futebol profissional do S\u00e3o Paulo protagonizaram uma pol\u00eamica depois que o nutr\u00f3logo da equipe recomendou a alguns deles usarem tirzepatida. Por Deus, at\u00e9 a estrela internacional do t\u00eanis, Serena Williams, fez propaganda dizendo que as canetinhas foram a solu\u00e7\u00e3o para seus quilinhos p\u00f3s-gravidez.<\/p>\n<p>[Propaganda com Serena Williams | Reprodu\u00e7\u00e3o em reportagem de Meio e Mensagem]<br \/>[Narra\u00e7\u00e3o da propaganda]: They say GLP-1\u2019s for weight loss is a shortcut. It\u2019s not. It\u2019s science. I\u2019m Serena Williams, and I\u2019m a real Rowe member.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Afinal, quem n\u00e3o iria querer embarcar nesse milagre? \u00c9 claro que alertar que uma medica\u00e7\u00e3o seria apenas para tratar doen\u00e7as pode soar exagerado aos ouvidos de quem s\u00f3 escuta a express\u00e3o \u201cresultados r\u00e1pidos\u201d. E o desejo coletivo encontra nas redes sociais a p\u00f3lvora perfeita para se alastrar.<\/p>\n<p>[Sonora de trechos de v\u00eddeos em redes sociais]<\/p>\n<p>[Narra\u00e7\u00e3o]: Toma Mounjaro?\u00a0<\/p>\n<p>[Narra\u00e7\u00e3o]:N\u00e3o!\u00a0<\/p>\n<p>[Narra\u00e7\u00e3o]:Sim!\u00a0<\/p>\n<p>[Sonora de trechos de v\u00eddeos em redes sociais]<\/p>\n<p>[Narra\u00e7\u00e3o]: Come\u00e7ar minha dieta, \u00e9 hoje que eu aplico esse Mounjaro.<\/p>\n<p>[Narra\u00e7\u00e3o]: T\u00e1 louco, Gordinho, guarda o\u00a0 Mounjaro aqui dentro, olha essa lapa de provolone chegando pra voc\u00ea, come\u00e7a a dieta amanh\u00e3<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: \u00c9 publicidade criativa, eu sei, e pode parecer, mas n\u00e3o \u00e9 piada. Esse desejo coletivo sem limites gera problemas inimagin\u00e1veis, num n\u00edvel que, at\u00e9 o in\u00edcio de 2026, muita gente sequer imaginava ser poss\u00edvel. Eu contei, com exclusividade aqui na P\u00fablica, que al\u00e9m dos efeitos adversos das canetas emagrecedoras, a Anvisa tamb\u00e9m investiga 65 mortes no Brasil associadas ao uso desses rem\u00e9dios. At\u00e9 o fim de 2025, nenhuma veio ao conhecimento do grande p\u00fablico. 65. Parecem poucas? Pernambucano que sou, eu levo logo a discuss\u00e3o pra casa. Voc\u00ea certamente j\u00e1 ouviu falar das mortes por incidentes com tubar\u00e3o no meu estado, correto? J\u00e1 deve at\u00e9 ter feito piada com o mar do Recife. Pois bem, por l\u00e1, foram 26 mortes desde 1992. Em 35 anos, 26 casos. E se voc\u00ea for em praias como a de Boa Viagem, voc\u00ea v\u00ea placas a cada cem metros recomendando que as pessoas evitem entrar no mar. No caso das canetas, s\u00e3o mais que o dobro de mortes suspeitas. Duas vezes e meia mais v\u00edtimas, mas quase ningu\u00e9m tem pensado duas vezes sobre os medicamentos milagrosos antes de se jogar e mergulhar.\u00a0<\/p>\n<p>Cabedelo, Para\u00edba. Novembro de 2025. Integrantes de quadrilhas juninas deixaram de lado os tradicionais sorrisos da festa e silenciaram, em choque. Do lado de fora do Cemit\u00e9rio de Cabedelo, dezenas deles se juntam a colegas de trabalho e familiares, todos incr\u00e9dulos, na despedida da entusiasta da dan\u00e7a t\u00edpica J\u00e9ssica Manuelly Ata\u00edde, de apenas 31 anos. Conhecida no munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana de Jo\u00e3o Pessoa por participar frequentemente de eventos e escolas de dan\u00e7a, sozinha ou com a filha pequena, J\u00e9ssica sofreu uma queda abrupta de glicemia no sangue e uma complica\u00e7\u00e3o a levou \u00e0 morte. O choque no organismo foi provocado por um medicamento para imitar o GLP-1. Uma caneta, que, ali mesmo, em frente ao Cemit\u00e9rio, a l\u00edngua popular deu conta de rastrear: \u201cPelo Instagram, acha f\u00e1cil\u201d, \u201ctodo mundo toma\u201d. A causa da morte precoce foi confirmada oficialmente pelo Instituto M\u00e9dico Legal, como explicou Fl\u00e1vio Fabres, chefe do N\u00facleo de Medicina e Odontologia Legal da Para\u00edba.<\/p>\n<p>[Entrevista com Fl\u00e1vio Fabres | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Fl\u00e1vio]: Ela teve uma hipoglicemia severa, uma hipoglicemia de 10, e o normal de a gente ter a glicemia do nosso organismo \u00e9 entre 60 e 99. Quando o indiv\u00edduo apresenta uma hipoglicemia severa dessa, eventualmente ele perde a consci\u00eancia, ele n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00e3o de responder por si. E durante a aut\u00f3psia do corpo foi visto que havia muita comida no interior das vias respirat\u00f3rias. Houve, na realidade, um refluxo dessa comida do est\u00f4mago dela para as vias respirat\u00f3rias. Tinha comida onde n\u00e3o era para ter comida, infelizmente. E isso a\u00ed foi porque ela perdeu os mecanismos de prote\u00e7\u00e3o e causou essa sufoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Eu entrei em contato por telefone e pelas redes sociais com familiares de J\u00e9ssica. Tamb\u00e9m com amigos e colegas do grupo de dan\u00e7a. Abalados, ningu\u00e9m quis gravar entrevista. O medo era um s\u00f3: que J\u00e9ssica fosse responsabilizada pela pr\u00f3pria morte, enquadrada de forma irrespons\u00e1vel, como se seu desfecho estivesse em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>[Entrevista com Fl\u00e1vio Fabres | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Fl\u00e1vio]: Eles ficaram cientes do que tinha acontecido. Eles sabiam que ela estava fazendo o uso da medica\u00e7\u00e3o sem acompanhamento. Tanto o irm\u00e3o falou comigo, quanto a cunhada. Ambos falaram comigo e diziam pra ela e eles disseram pra mim, \u201cA gente estava dizendo pra ela, mas ela quis, n\u00e9?\u201d. Infelizmente aconteceu isso a\u00ed, na hora que d\u00e1 um problema, o pessoal n\u00e3o quer corrigir o problema, quer encontrar uma pessoa pra apontar o dedo pra dizer que t\u00e1 errado, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Mas quando o caso caiu no conhecimento p\u00fablico pela imprensa\u2026 foi exatamente o que aconteceu\u2026<\/p>\n<p>[Trecho reportagem SBT News]<\/p>\n<p>T\u00e1 pensando em emagrecer? T\u00f4 falando pra voc\u00ea mesmo que t\u00e1 pensando emagrecer. \u00c9 dif\u00edcil de ir na academia, \u00e9 dif\u00edcil fazer dieta e o pessoal apela pra o que? Pra Canetas emagrecedoras que est\u00e3o na moda. Olha o que aconteceu com essa mulher de 30 anos.\u00a0<\/p>\n<p>[Trecho reportagem TV Tamba\u00fa]<\/p>\n<p>Olha, mais um caso a\u00ed exclusivo na sua TV Tamba\u00fa, foi enterrada hoje a mulher de 31 anos que morreu devido ao uso indevido, olha isso, isso \u00e9 um perigo, gente, t\u00e1? Ela usou a\u00ed um medicamento que \u00e9 indicado para o tratamento de diabetes, tipo 2, mas que tem sido usado para emagrecer.<\/p>\n<p>[Entrevista com Fl\u00e1vio Fabres | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>A gente n\u00e3o sabe se era realmente uma caneta original que o pessoal est\u00e1 colocando \u00e0s vezes insulina dentro das canetas. A\u00ed o cara vai ter o barato da insulina. Qual \u00e9 o barato da insulina? \u00c9 a hipoglicemia. E fica achando que est\u00e1 fazendo uso do Ozempic ou Mounjaro e na realidade est\u00e1 fazendo uso da insulina. Insulina, voc\u00ea encontra ela de forma bem barata Ent\u00e3o o cara vende a caneta num valor cem vezes, \u00e0s vezes, o que ele compra de insulina e causa esse dano social a\u00ed.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Nos coment\u00e1rios das reportagens, um show de horrores cont\u00ednuo. A cr\u00edtica pela n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o, um punhado de gordofobia, um outro tanto de machismo. E na briga entre vida humana e medicamento, a defesa tinha um lado claro: \u201cDevia ser falsificado\u201d, dizia um. \u201cS\u00f3 pode ter sido sem acompanhamento m\u00e9dico\u201d, um outro. \u201cO pessoal quer resultado r\u00e1pido e j\u00e1 come\u00e7a com dose alta\u201d, atestou um terceiro. M\u00e9dicos de sof\u00e1, ju\u00edzes de internet. Opini\u00f5es aos montes. A sempre recorrente culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima por algozes que agora diziam \u201cera t\u00e3o bonita\u201d enquanto antes, sem pudor, bradavam \u201cprecisa perder uns quilinhos\u201d. De ilesa, s\u00f3 ela: a caneta.<\/p>\n<p>Ainda falando sobre o tema de mortes no universo das canetas, um ponto paralelo e delicado dessa hist\u00f3ria ainda vem sendo mantido bem longe do olhar do p\u00fablico. N\u00e3o, n\u00e3o tem a ver com falsifica\u00e7\u00e3o, nem com a falta de acompanhamento m\u00e9dico. \u00c9 o risco da idea\u00e7\u00e3o suicida. Um alerta feito atrav\u00e9s de coopera\u00e7\u00e3o internacional de m\u00e9dicos, que contou com o trabalho de dois profissionais no Brasil. E eu fui ao Jardim Bot\u00e2nico, no Rio de Janeiro, conversar com um deles, esse \u00e9 o doutor Sergio Schmidt.<\/p>\n<p>[Entrevista com Sergio Schmidt | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<br \/>A gente utilizou aquele conceito de s\u00edndrome de defici\u00eancia, de recompensa, que s\u00e3o pessoas que t\u00eam algumas altera\u00e7\u00f5es nessas vias dopamin\u00e9rgicas.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] A dopamina \u00e9 conhecida como \u201chorm\u00f4nio da felicidade\u201d por ser um neurotransmissor que d\u00e1 respostas ao c\u00e9rebro como prazer e motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Entrevista com Sergio Schmidt | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>Por ter essas altera\u00e7\u00f5es e pelo fato de que essas subst\u00e2ncias, os agonistas de GLP-1, podem modular a resposta da via dopamin\u00e9rgica, algumas pessoas t\u00eam uma probabilidade maior de desenvolver quadros depressivos um pouco mais s\u00e9rios, envolvendo suicidalidade, risco de suic\u00eddio, do que uma outra parte da popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] O que o doutor Schmidt aponta \u00e9 que as canetas, por afetarem nossa l\u00f3gica de saciedade, podem gerar tamb\u00e9m uma aus\u00eancia de subst\u00e2ncias que geram satisfa\u00e7\u00e3o, prazer, que regulam nossas emo\u00e7\u00f5es, o que pode piorar severamente quadros depressivos e de ansiedade. Em outras palavras, o m\u00e9dico refor\u00e7a, com mais pudor que o normal, que as canetas emagrecedoras funcionam, mas que elas n\u00e3o s\u00e3o para todo mundo.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista com Sergio Schmidt | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>Pode existir a necessidade de um acompanhamento, particularmente naquelas pessoas que est\u00e3o sendo tratadas com medica\u00e7\u00e3o ansiol\u00edtica e antidepressiva. O que \u00e9 a grande parte das pessoas que t\u00eam problemas de sobrepeso e obesidade. Ent\u00e3o, \u00e9 isso que eu acho que esse estudo chama aten\u00e7\u00e3o para isso. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se possa usar, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o religiosa, \u201cn\u00e3o pode porque a pessoa vai ter suic\u00eddio\u201d, \u201cn\u00e3o pode porque\u201d\u2026 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o pode ou n\u00e3o pode, \u00e9 saber que uma nova medica\u00e7\u00e3o como essa exige um cuidado para que a gente consiga evitar um desfecho que pode vir a acontecer.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Nesse ponto, a gente entra num momento de ovo e galinha. Nos casos de depress\u00e3o como resultado da obesidade, n\u00e3o trat\u00e1-la agressivamente, n\u00e3o seria pior? E quando a obesidade \u00e9 resultado da depress\u00e3o? O rem\u00e9dio diante dessas duas doen\u00e7as, ent\u00e3o seria mais um risco? Como decidir se tomo ou n\u00e3o tomo? O mais prudente seria fazer um teste gen\u00e9tico?<\/p>\n<p>[Entrevista com Sergio Schmidt | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>Basicamente a depress\u00e3o \u00e9 uma mistura de gen\u00e9tica com o ambiente. E, al\u00e9m disso, a depress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma regula\u00e7\u00e3o das monoaminas, topamina, serotonina, epinefrina\u2026 N\u00e3o, tem um pouco mais do que esses neurotransmissores.\u00a0 Do que que a gente est\u00e1 falando? De pessoas geneticamente predispostas a ter algum tipo de depress\u00e3o com disfun\u00e7\u00e3o dopamin\u00e9rgica, com essa quest\u00e3o dessa s\u00edndrome de recompensa, defici\u00eancia de recompensa\u2026 Para essa popula\u00e7\u00e3o, aparentemente, os agonistas do GLP-1 devem ser utilizados com muita cautela. Ent\u00e3o, voc\u00ea faz uma an\u00e1lise gen\u00e9tica e identifica, olha, essa pessoa tem uma hipofun\u00e7\u00e3o dopamin\u00e9rgica, se eu usar uma droga que vai modular negativamente a dopamina, eu vou ainda reduzir ainda mais os fatores de recompensa dessa pessoa, e posso, com isso, teoricamente, aumentar o risco de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Mas num cen\u00e1rio em que as pessoas est\u00e3o tomando medicamentos fortes para perder quilinhos indesejados por pura est\u00e9tica, que dir\u00e1 fazer um estudo, at\u00e9 gen\u00e9tico para atestar seguran\u00e7a antes de come\u00e7ar um tratamento? E como abordar quando o v\u00edcio em comida \u00e9 tamb\u00e9m para buscar prazer ou compensar quest\u00f5es psicol\u00f3gicas? Afinal, como verificar o qu\u00e3o segura \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o a agonistas de GLP-1?<\/p>\n<p>[Entrevista com Sergio Schmidt | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>A outra parte da pergunta, que \u00e9 a mais dif\u00edcil, s\u00e3o aqueles indiv\u00edduos que est\u00e3o tendo um epis\u00f3dio depressivo que, necessariamente, est\u00e3o sendo balanceados por alguns h\u00e1bitos de vida, como, por exemplo, um alimento prazeroso, ou tabagismo prazeroso, ou alcoolismo, ou mesmo uma droga, uma droga il\u00edcita prazerosa. Ent\u00e3o, essas pessoas, elas n\u00e3o est\u00e3o dentro desse quadro gen\u00e9tico que a gente est\u00e1 falando, mas elas est\u00e3o tendo o benef\u00edcio do aumento da libera\u00e7\u00e3o dopamin\u00e9rgica pra que eles possam sobreviver melhor no mundo que eles est\u00e3o vivendo.\u00a0 Na hora que voc\u00ea aborta isso, por abortar essa situa\u00e7\u00e3o de libera\u00e7\u00e3o dopamin\u00e9rgica, a\u00ed voc\u00ea, ent\u00e3o, aumenta o risco de agravar um quadro depressivo que era um quadro essencialmente som\u00e1tico e passa a ser tamb\u00e9m afetivo porque ele estava sendo indiretamente compensado por uma pr\u00e1tica prazerosa.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Mas sem mapeamento gen\u00e9tico e com um cen\u00e1rio de v\u00edcios e depress\u00e3o cada vez mais numeroso, resolvi perguntar ao doutor Schmidt que p\u00fablico seria esse, que, na vis\u00e3o dele, n\u00e3o poderia estar submetido ao tratamento.<\/p>\n<p>[Entrevista com Sergio Schmidt | Grava\u00e7\u00e3o de Ed Wanderley]<\/p>\n<p>[Ed] Essas pessoas que s\u00e3o resistentes ao tratamento, inclusive, que o senhor acompanha, o senhor daria o ok para usar semaglutida?\u00a0<\/p>\n<p>[Sergio] N\u00e3o. Os meus deprimidos, eu prefiro n\u00e3o correr esse risco.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] Eu procurei a Anvisa para entender como s\u00e3o tratadas as evid\u00eancias dos riscos graves do uso dos agonistas de GLP-1. A ag\u00eancia disse que pede atualiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a sempre que surgem novas evid\u00eancias ao longo do ciclo de vida de todos os rem\u00e9dios. Sobre a paralisa\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago, conhecido como retardamento do esvaziamento g\u00e1strico, a ag\u00eancia disse j\u00e1 ter feito alertas. A Anvisa tamb\u00e9m confirmou o risco de perda de vis\u00e3o repentina, mas destacou que a frequ\u00eancia seria muito rara e que os benef\u00edcios superam os riscos identificados. J\u00e1 a quest\u00e3o da idea\u00e7\u00e3o suicida, a nota oficial informa que a refer\u00eancia atual n\u00e3o trabalha com dados da pesquisa transnacional que o dr. Sergio Schmidt participou e afirma:<\/p>\n<p>[Leitura Nota | \u00c1udio gravado]<\/p>\n<p>[Stela Diogo] A Anvisa seguiu o posicionamento de outras ag\u00eancias reguladoras de refer\u00eancia, como a Ag\u00eancia Europeia de Medicamentos (EMA) e do Canad\u00e1. As evid\u00eancias dispon\u00edveis n\u00e3o sustentam uma rela\u00e7\u00e3o entre o uso de medicamentos GLP-1 e o suic\u00eddio, automutila\u00e7\u00e3o e idea\u00e7\u00e3o suicida, automutila\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o geral com diabetes mellitus tipo 2, de modo que, no momento, n\u00e3o se justifica a altera\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley] A Anvisa destacou tamb\u00e9m que o uso desses medicamentos sem a devida orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica amplifica \u201cainda mais os riscos e o potencial de agravos \u00e0 sa\u00fade\u201d e fez a ressalva de que trata-se de medicamentos novos, cujo perfil de seguran\u00e7a a longo prazo ainda n\u00e3o \u00e9 conhecido, o que requer monitoramento e vigil\u00e2ncia. E essa \u00e9 a quest\u00e3o cada vez mais negligenciada: quando a ag\u00eancia diz que o medicamento \u00e9 seguro e que os benef\u00edcios superam os riscos, ela se refere na compara\u00e7\u00e3o com pacientes com comorbidades e os riscos associados \u00e0 obesidade, especialmente as doen\u00e7as cardiovasculares, hipertens\u00e3o e diabetes. Ou seja, considerando o cen\u00e1rio em que o paciente se mant\u00e9m com obesidade grave, os riscos dos medicamentos valem a pena. A equa\u00e7\u00e3o de quem usa para perder 3, 5, 10 quilos para o ver\u00e3o \u00e9 outra, as vari\u00e1veis s\u00e3o diferentes e ainda n\u00e3o totalmente conhecidas.\u00a0<\/p>\n<p>A moral da hist\u00f3ria \u00e9 que, apesar da moda, n\u00e3o h\u00e1 milagre e rem\u00e9dio tem que ser encarado como ele \u00e9. Rem\u00e9dio. Para tratar uma doen\u00e7a. A busca pela est\u00e9tica parece ensurdecer a consci\u00eancia coletiva. Se esse \u00e9 o caminho para voc\u00ea, com obesidade, sobrepeso com comorbidade, diabetes ou gordura no f\u00edgado, maravilha. Um m\u00e9dico pode te indicar o caminho e te acompanhar. Caso contr\u00e1rio, considere o custo ao seu corpo, que pode, sim, ir muito al\u00e9m do financeiro. A sa\u00edda, vista como f\u00e1cil, ajuda a sufocar o movimento de positividade quanto ao corpo e, considerando os pre\u00e7os dos medicamentos, a ditadura da magreza ganha contornos ainda mais classistas, refor\u00e7ando a fal\u00e1cia eterna de que se \u00e9 gordo porque se quer (ou por n\u00e3o ter dinheiro). Para mim, o que ouvi foi o bastante para decidir seguir por outro caminho por enquanto.<\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: Eu comecei essa jornada com 145 kg, em dezembro de 2023, e at\u00e9 novembro de 2024 foram 52 kg eliminados em nosso placar. Eu ainda me livrei de outros 6, mas antes, eu tive que voltar para uma UTI de hospital. Na luta contra a obesidade, a gente se defende dos sustos com a sa\u00fade, da balan\u00e7a, do julgamento dos outros e at\u00e9 da pr\u00f3pria cabe\u00e7a. E no \u00faltimo epis\u00f3dio de A \u00daltima Bolacha, a gente fala sobre tudo isso. E eu te conto tamb\u00e9m como um m\u00e9dico de UTI me deu a confirma\u00e7\u00e3o derradeira para a Maldi\u00e7\u00e3o dos 36, que me perseguia desde a adolesc\u00eancia. E voc\u00ea saboreia comigo essa \u00faltima bolacha.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9ditos Podcast<\/strong><\/p>\n<p>[Ed Wanderley]: A \u00daltima Bolacha \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo, realizada com apoio dos Institutos Ibirapitanga e Serrapilheira. Esse podcast foi escrito por mim, Ed Wanderley, com a colabora\u00e7\u00e3o de Stela Diogo e Claudia Jardim. Claudia tamb\u00e9m colaborou com a investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica que deu origem a essa s\u00e9rie. A produ\u00e7\u00e3o e pesquisa de material de arquivo \u00e9 de Stela Diogo com apoio de Rafaela de Oliveira. O projeto \u00e9 uma ideia original de Nat\u00e1lia Viana. A capta\u00e7\u00e3o de \u00e1udio em campo foi feita pelos t\u00e9cnicos Davysson Barbosa, Ethieny Karen, Gil Neves, Stela Diogo, Tathiane Santos e Vin\u00edcius Machado. A locu\u00e7\u00e3o foi gravada no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, com trabalhos t\u00e9cnicos de Ricardo Terto. Sofia Amaral fez a dire\u00e7\u00e3o de locu\u00e7\u00e3o e a coordena\u00e7\u00e3o geral da s\u00e9rie. O desenho de som \u00e9 de Ricardo Terto, que tamb\u00e9m fez a edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios. A trilha sonora original \u00e9 de Ana Sucha e trilhas adicionais do Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 assinada por Matheus Pigozzi. Obrigado por sua companhia. Gostou? 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