{"id":85017,"date":"2026-04-27T17:30:32","date_gmt":"2026-04-27T20:30:32","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/atitude-reconstrutiva-como-ir-alem-da-critica-politica\/"},"modified":"2026-04-27T17:30:32","modified_gmt":"2026-04-27T20:30:32","slug":"atitude-reconstrutiva-como-ir-alem-da-critica-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/atitude-reconstrutiva-como-ir-alem-da-critica-politica\/","title":{"rendered":"Atitude reconstrutiva: Como ir al\u00e9m da cr\u00edtica pol\u00edtica?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"999\" height=\"1500\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/photo_5152272348181367725_w.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/27172422\/photo_5152272348181367725_w-999x1500.jpg 999w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/27172422\/photo_5152272348181367725_w-200x300.jpg 200w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/27172422\/photo_5152272348181367725_w-768x1153.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/27172422\/photo_5152272348181367725_w-1023x1536.jpg 1023w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/photo_5152272348181367725_w.jpg 1066w\" sizes=\"auto, (max-width: 999px) 100vw, 999px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 nomes que encarnam, com rara precis\u00e3o, a promessa de renova\u00e7\u00e3o de toda uma tradi\u00e7\u00e3o de pensamento. Geoffroy de Lagasnerie pertence a essa estirpe. Nascido em 12 de abril de 1981, ele trilhou o caminho mais exigente que a forma\u00e7\u00e3o francesa pode oferecer: tr\u00eas anos de classes preparat\u00f3rias B\/L, ingresso em 2003 na prestigiosa \u00c9cole normale sup\u00e9rieure de Cachan (atual ENS Paris-Saclay) e a obten\u00e7\u00e3o da agr\u00e9gation em ci\u00eancias econ\u00f4micas e sociais \u2014 conquista que o situou, desde muito jovem, entre os herdeiros leg\u00edtimos de uma tradi\u00e7\u00e3o que vai de \u00c9mile Durkheim a Pierre Bourdieu.<\/p>\n<p>Mas Lagasnerie n\u00e3o se contentou em herdar. Sua trajet\u00f3ria posterior demonstrou a determina\u00e7\u00e3o de quem deseja refundar. Em 2012, sustentou na \u00c9cole des hautes \u00e9tudes en sciences sociales (EHESS) a tese\u00a0<em>Les conditions de la cr\u00e9ation th\u00e9orique<\/em>, orientada por Jean-Louis Fabiani e precedida por uma inscri\u00e7\u00e3o doutoral em 2006 na Universit\u00e9 Paris 1 Panth\u00e9on-Sorbonne com Fr\u00e9d\u00e9rique Matonti. O t\u00edtulo j\u00e1 dizia tudo: tratava-se de investigar como o pensamento irrompe, como se criam as ideias que transformam uma \u00e9poca. O trabalho lhe valeu o t\u00edtulo de doutor em sociologia e, mais importante, consolidou um modo de interrogar o mundo que une a fidelidade aos cl\u00e1ssicos \u00e0 puls\u00e3o do novo.<\/p>\n<p>Reconhecido por sucessivas qualifica\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias \u2014 ma\u00eetre de conf\u00e9rences em sociologia e demografia em 2013, habilitation \u00e0 diriger des recherches em filosofia em 2018 e, em 2022, a qualifica\u00e7\u00e3o de professor dos universidades em filosofia pelo Conseil national des universit\u00e9s \u2014, Lagasnerie edificou uma carreira rara pela amplitude disciplinar e pelo vigor conceitual. Desde 2013, \u00e9 professor de filosofia e sociologia na \u00c9cole nationale sup\u00e9rieure d\u2019arts de Paris-Cergy (ENSAPC), institui\u00e7\u00e3o que se tornou, sob seu magist\u00e9rio, um laborat\u00f3rio de ideias e de forma\u00e7\u00e3o de novas sensibilidades cr\u00edticas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-43.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/1-43.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Sua obra, traduzida em diversos pa\u00edses, desdobra-se em uma sequ\u00eancia de livros que marcaram o debate contempor\u00e2neo:\u00a0<em>Juger<\/em>,\u00a0<em>La conscience politique<\/em>,\u00a0<em>Logique de la cr\u00e9ation<\/em>,\u00a0<em>La derni\u00e8re le\u00e7on de Michel Foucault<\/em>,\u00a0<em>Mon corps, ce d\u00e9sir, cette loi<\/em>,\u00a0<em>L\u2019\u00e2me noire de la d\u00e9mocratie<\/em>\u00a0e, mais recentemente,\u00a0<em>Par-del\u00e0 le principe de r\u00e9pression: dix le\u00e7ons sur l\u2019abolitionnisme p\u00e9nal<\/em>, publicado em 2025. Cada um desses t\u00edtulos pode ser lido como o cap\u00edtulo de um grande projeto: repensar, desde seus fundamentos, as rela\u00e7\u00f5es entre direito, Estado, viol\u00eancia, cria\u00e7\u00e3o e vida social.<\/p>\n<p>No plano editorial, Lagasnerie tamb\u00e9m deixou sua assinatura. Em 2009, fundou na Fayard a cole\u00e7\u00e3o \u201c\u00c0 venir\u201d, que se tornou um ponto de refer\u00eancia para o pensamento cr\u00edtico. Por ali passaram nomes como Didier Eribon, Judith Butler, Joan W. Scott e Pierre Bergounioux. A partir de 2023, ele transportou esse impulso para a Flammarion, onde dirige a cole\u00e7\u00e3o \u201cNouvel avenir\u201d \u2014 um gesto que confirma sua voca\u00e7\u00e3o de descobridor e de arquiteto do debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Philosophe, sociologue, passeur: a figura de Lagasnerie escapa \u00e0s etiquetas estreitas. Sua influ\u00eancia vai muito al\u00e9m das salas de confer\u00eancia. A imprensa o v\u00ea como uma voz central da esquerda radical francesa, e a revista\u00a0<em>Les Inrockuptibles<\/em>\u00a0j\u00e1 o incluiu entre os cem criadores que, em todos os dom\u00ednios, reinventam a cultura. O que define sua presen\u00e7a, contudo, n\u00e3o \u00e9 apenas o reconhecimento. \u00c9 a capacidade \u2014 cada vez mais rara \u2014 de propor ideias que obrigam a repensar coordenadas estabelecidas, sem jamais desistir de falar ao mundo tal como ele \u00e9 e tal como poderia ser.<\/p>\n<p>Atualmente, Geoffroy de Lagasnerie continua a lecionar na ENSAPC e a publicar com uma regularidade que \u00e9, ao mesmo tempo, disciplina e forma de interven\u00e7\u00e3o. A cada novo livro, a cada curso, reafirma-se como aquilo que a Fran\u00e7a, de tempos em tempos, oferece ao mundo: uma intelig\u00eancia em ato, inteiramente voltada aos dilemas do presente, e que n\u00e3o se furta \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o mais nobre da filosofia \u2014 a de mudar, com o pensamento, a mat\u00e9ria mesma da vida.<\/p>\n<p>A entrevista foi concedida por e-mail ao mestre e doutorando em Hist\u00f3ria Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) <strong>Thiago Gama<\/strong>.<\/p>\n<h3><strong>Eis a entrevista:<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Em <\/strong><em><strong>Juger<\/strong><\/em><strong>, o senhor retrata o tribunal como um lugar de viol\u00eancia pura, onde o Estado isola o indiv\u00edduo. No contexto do lawfare contempor\u00e2neo, essa viol\u00eancia n\u00e3o se tornou uma arma estrat\u00e9gica que visa n\u00e3o mais apenas punir o corpo, mas paralisar a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o da justi\u00e7a penal e da repress\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o central em meu trabalho, desde meu livro <em>Juger<\/em>, publicado em 2016, e sobretudo com o livro que publiquei no ano passado sobre o abolicionismo penal, <em>Par-del\u00e0 le principe de r\u00e9pression. Dix le\u00e7ons sur l\u2019abolitionnisme p\u00e9nal<\/em>, que \u00e9, para mim, o livro mais importante. Nessa obra, interrogo a no\u00e7\u00e3o de lawfare porque interrogo a possibilidade de se estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre a justi\u00e7a pol\u00edtica e a justi\u00e7a ordin\u00e1ria, entre persegui\u00e7\u00f5es inspiradas por raz\u00f5es pol\u00edticas e outras que n\u00e3o o seriam. Na realidade, todo prisioneiro \u00e9 um prisioneiro pol\u00edtico. Com efeito, o que procuro demonstrar \u00e9 que existe, a cada dia, uma infinidade de delitos que s\u00e3o cometidos na sociedade. Todos os cometemos ao longo de nossas vidas. Por conseguinte, nenhum sistema judici\u00e1rio pode visar a todos os delitos. Para se desdobrar, ele necessariamente deve escolher direcionar-se a certas popula\u00e7\u00f5es e mirar certos delitos ou certos crimes em detrimento de outros. Trata-se sempre de uma escolha pol\u00edtica. Se coloc\u00e1ssemos tantos policiais nos bairros empresariais ou nos bancos quantos se colocam nos bairros populares, encontrar\u00edamos mais delitos na classe dominante e haveria mais banqueiros presos do que jovens precarizados. Sabendo que existe na sociedade uma infinidade de ilegalismos cometidos a cada dia, h\u00e1 sempre uma escolha estrat\u00e9gica que orienta a atividade da pol\u00edcia ou da justi\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o a certas popula\u00e7\u00f5es. Toda pr\u00e1tica penal \u00e9, portanto, consequ\u00eancia de uma pr\u00e1tica de sele\u00e7\u00e3o de uma parte da popula\u00e7\u00e3o \u2014 e toda Justi\u00e7a penal se inscreve no lawfare, como se v\u00ea, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a legisla\u00e7\u00e3o antidrogas serviu para superencarcerar de forma extravagante os negros em rela\u00e7\u00e3o aos brancos. Em outras palavras, a melhor maneira de se opor ao lawfare n\u00e3o \u00e9 apelar a uma justi\u00e7a \u201cneutra\u201d \u2014 o que ela jamais ser\u00e1 (e, de qualquer forma, se a justi\u00e7a perseguisse a todos por todos os delitos cometidos, estar\u00edamos todos na pris\u00e3o). \u00c9 antes apelar a um abolicionismo penal, como proponho em meu livro.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-4.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/02\/31191312\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>O que o senhor entende por abolicionismo penal? Qual \u00e9 essa nova doutrina?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma nova teoria das condutas humanas e uma nova proposta de gest\u00e3o das feridas [<em>blessures<\/em>], cujos fundamentos e aplica\u00e7\u00f5es detalho em meu livro <em>Par-del\u00e0 le principe de r\u00e9pression<\/em>, publicado no ano passado. Parto do diagn\u00f3stico de que existe em nossa sociedade (e em muitas sociedades) um dispositivo de gest\u00e3o e de regula\u00e7\u00e3o das condutas humanas por meio de algo que se denomina a penalidade: existe um c\u00f3digo penal; existe uma categoria de crime; existe uma autoridade de persecu\u00e7\u00e3o dos autores de infra\u00e7\u00f5es (o promotor); existe uma cena de julgamento como o tribunal; existem penas; existe uma institui\u00e7\u00e3o como a pris\u00e3o; existem categorias de v\u00edtima, de autor, de responsabilidade, de inten\u00e7\u00e3o; e existe uma no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a. Esse conjunto forma um dispositivo relativamente coerente ao qual chamo de punitivismo. E constato que ele funciona em pa\u00edses e per\u00edodos extremamente diferentes. Minha reflex\u00e3o consiste em tentar atacar, termo a termo, esse dispositivo, substituindo-o sistematicamente por outra compreens\u00e3o das a\u00e7\u00f5es humanas, por outra gest\u00e3o poss\u00edvel das feridas interindividuais e por outra ideia do que poderia significar reagir a elas \u2014 o que denomino abolicionismo penal. Necessitamos de uma categoria como a de crime? Necessitamos de puni\u00e7\u00e3o? A penalidade ajuda as v\u00edtimas? \u00c9 realmente preciso fazer justi\u00e7a? \u00c9 preciso apresentar queixa? O que significaria agir de outro modo? A urg\u00eancia pol\u00edtica de tais questionamentos adv\u00e9m do fato de que eles interrogam frontalmente os movimentos pol\u00edticos contempor\u00e2neos. Nas lutas contra as viol\u00eancias sexuais, contra a ordem policial, contra a corrup\u00e7\u00e3o, o progressismo apoia excessivamente suas reivindica\u00e7\u00f5es em exig\u00eancias punitivistas \u2014 o que transparece notadamente no fato de que a categoria de impunidade desempenha um papel central no progressismo atual, e que a pol\u00edtica progressista se mobiliza particularmente contra a \u201cimpunidade\u201d dos autores de viol\u00eancia. Quis interrogar essa ret\u00f3rica da impunidade e essa domina\u00e7\u00e3o cada vez maior do punitivismo na esquerda. \u00c9 essa quest\u00e3o que coloquei no centro do meu livro <em>Mon Corps, ce d\u00e9sir, cette loi<\/em>, que interroga o feminismo punitivista e, por exemplo, a no\u00e7\u00e3o de impunidade do estupro \u2014 obra que ser\u00e1 publicada no Brasil em alguns meses pela editora Macondo.<\/p>\n<p><strong>Ao ler Foucault, o senhor sugere que o neoliberalismo poderia ser uma \u201cdisciplina ate\u00edsta\u201d desmontando a unidade soberana do Estado. Todavia, na era da \u201cGovernan\u00e7a Algor\u00edtmica\u201d, essa pluralidade n\u00e3o se encontra capturada por uma t\u00e9cnica mais totalizante do que a soberania cl\u00e1ssica?<\/strong><\/p>\n<p>Em meu livro sobre os escritos de Foucault acerca do neoliberalismo (<em>La derni\u00e8re le\u00e7on de Michel Foucault<\/em>), quis propor uma interpreta\u00e7\u00e3o nova do interesse de Foucault pelo pensamento neoliberal \u2014 n\u00e3o pelo neoliberalismo como pol\u00edtica econ\u00f4mica, mas como tradi\u00e7\u00e3o de pensamento. Mostrei como a insist\u00eancia da teoria neoliberal no car\u00e1ter imanente e irredut\u00edvel da pluralidade do mundo social funciona como uma cr\u00edtica de todas as teorias transcendentes e unificadoras da soberania, notadamente nas teorias do contrato social desde Rousseau e Hobbes at\u00e9 Rawls. O interesse dessa teoria \u00e9 tamb\u00e9m o de colocar que h\u00e1 uma especificidade do poder de Estado em rela\u00e7\u00e3o a todos os outros poderes. Para mim, podemos nos inspirar nelas para tentar pensar essa especificidade. As coisas me aparecem assim: o Estado \u00e9 uma das \u00fanicas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nas quais ingresso sem meu consentimento ao nascer e que me retira quase a possibilidade de abandon\u00e1-la (salvo nos casos muito raros de migra\u00e7\u00e3o). Nada me protege do Estado e da pol\u00edcia. \u00c9 um poder sem exterior [<em>sans dehors<\/em>]: se sou maltratado em meu trabalho, posso chamar a pol\u00edcia para que ela venha em meu aux\u00edlio. Mas se sou maltratado pela pol\u00edcia, n\u00e3o posso chamar uma pol\u00edcia da pol\u00edcia. \u00c9 a teoria do Estado como institui\u00e7\u00e3o sem exterior que desenvolvo em meu livro <em>La conscience politique<\/em>. Se se compreende essa singularidade do poder de Estado, compreende-se por que tenho dificuldade em pensar a t\u00e9cnica do ponto de vista do poder. Da t\u00e9cnica, podemos sempre nos retirar. N\u00e3o vejo nenhum efeito espec\u00edfico de poder do Facebook, do Twitter ou do Instagram, porque posso fech\u00e1-los. O \u00fanico poder do qual n\u00e3o posso me retirar \u00e9 o Estado. O Facebook n\u00e3o me coloca na pris\u00e3o. O Instagram n\u00e3o me coloca na pris\u00e3o. Meu iPhone n\u00e3o me coloca na pris\u00e3o. Isso n\u00e3o significa que a quest\u00e3o dos algoritmos n\u00e3o seja importante, que n\u00e3o possa haver efeitos e influ\u00eancias dos quais devemos nos precaver. Mas n\u00e3o significa que devamos abordar essa quest\u00e3o em termos de poder. Pois desconfio do manejo demasiado metaf\u00f3rico da no\u00e7\u00e3o de poder para nomear toda forma de dispositivos ou de intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como a figura do fugitivo (Snowden, Assange) pode subsistir diante da \u201cGovernan\u00e7a Pastoral\u201d que, para al\u00e9m da vigil\u00e2ncia, pretende \u201ccuidar\u201d e penetrar a subjetividade? \u00c9 poss\u00edvel fugir de um poder que se apresenta sob os tra\u00e7os da miseric\u00f3rdia?<\/strong><\/p>\n<p>Pessoalmente, procuro em minha filosofia pol\u00edtica substituir um pensamento substancialista a um pensamento formalista. \u00c9 a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o penso necessariamente que todo poder seja mau, nem que todo poder seja algo a ser fugido. Um Estado que implementa medidas progressistas, que trata, que diminui a exposi\u00e7\u00e3o dos corpos \u00e0 morte, \u00e0 doen\u00e7a ou \u00e0 polui\u00e7\u00e3o, que protege os direitos individuais, \u00e9 certamente um poder \u2014 mas \u00e9 um poder positivo, em oposi\u00e7\u00e3o a um poder que mutila, que explora, que faz a guerra. O que procuro interrogar \u00e9 o fato de que, com demasiada frequ\u00eancia, pensamos a pol\u00edtica atrav\u00e9s de categorias formais ou procedimentais (arbitr\u00e1rio\/regular, legal\/ilegal, desobedecer\/obedecer, democr\u00e1tico\/autorit\u00e1rio). O pensamento pol\u00edtico moderno \u00e9 formalista, e \u00e9 essa tend\u00eancia que procuro desconstruir em <em>La conscience politique<\/em> e depois em meu \u00faltimo livro <em>L\u2019\u00e2me noire de la d\u00e9mocratie<\/em>. Procuro propor algo que seria uma abordagem substancialista da pol\u00edtica (justo\/injusto, protetor\/destruidor, ben\u00e9fico\/s\u00e1dico). E penso que seria preciso renovar o pensamento pol\u00edtico para partir desse substancialismo, a fim de criar uma nova teoria da Lei e da legitimidade.<\/p>\n<p><strong>O senhor teoriza a amizade como uma contracultura diante das institui\u00e7\u00f5es. Em um mundo de redes sociais ditado pelos algoritmos, a amizade n\u00e3o corre o risco de se tornar uma simples \u201ccomunidade de iguais\u201d, refor\u00e7ando nossa impot\u00eancia pol\u00edtica em vez de desafi\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p>A amizade me aparece como um projeto de ruptura social, que poderia ser t\u00e3o importante para a esquerda quanto o anarquismo ou o comunismo. Mas o importante \u00e9 compreender que, para mim, n\u00e3o h\u00e1 unidade nem coer\u00eancia no mundo. A sociedade \u00e9 composta de sistemas de poder espec\u00edficos e heterog\u00eaneos, relativamente independentes uns dos outros. Questionar um desses sistemas n\u00e3o significa necessariamente subverter os outros. Em outras palavras, toda revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre parcial, jamais total. A quest\u00e3o da amizade abre caminho para uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre um tipo de poder espec\u00edfico, muito poderoso em nossa sociedade: o poder familialista [<em>familialiste<\/em>], a centralidade concedida \u00e0 fam\u00edlia e ao casal. O que procuro propor \u00e9 o modelo de uma vida que seria centrada na amizade em vez de na fam\u00edlia e no casal. \u00c9 a ideologia pol\u00edtica da fam\u00edlia e do casal que deve ser desmantelada, a fim de propor n\u00e3o apenas uma imagem diferente da vida, mas tamb\u00e9m uma organiza\u00e7\u00e3o social e jur\u00eddica diferente. A meu ver, a pol\u00edtica progressista deve ser definida como anti-familialista tanto quanto \u00e9 anticapitalista ou antirracista.<\/p>\n<p><strong>Diante da \u201cviol\u00eancia epistemol\u00f3gica\u201d sofrida no Sul Global, como transformar a teoria em arma, segundo o desejo que o senhor expressa em <\/strong><em><strong>Logique de la cr\u00e9ation<\/strong><\/em><strong>, sem que ela seja devorada pelo pragmatismo do sistema?<\/strong><\/p>\n<p>O que me interessa cada vez mais, notadamente em meu manifesto <em>L\u2019\u00e2me noire de la d\u00e9mocratie<\/em>, \u00e9 que podemos constatar como todo um conjunto de medidas cru\u00e9is e selvagens \u2014 o encarceramento em massa, as medidas ecocidas, a destrui\u00e7\u00e3o de Gaza, a explos\u00e3o das desigualdades \u2014 se produzem hoje amplamente tamb\u00e9m em democracias, e se desenvolvem por obra de governantes eleitos e por vezes apoiados pela maioria da popula\u00e7\u00e3o: Israel, It\u00e1lia, os Estados Unidos, a Argentina, o Brasil sob Bolsonaro. Somos, portanto, as testemunhas hist\u00f3ricas de um momento pol\u00edtico em que as for\u00e7as da preda\u00e7\u00e3o e os poderes neofascistas agem no interior das democracias e em nome da democracia. \u00c9 a raz\u00e3o pela qual penso que devemos hoje interrogar o ideal democr\u00e1tico e buscar um outro ideal pol\u00edtico, fundado n\u00e3o sobre as no\u00e7\u00f5es de opini\u00e3o, debate e voto, mas sobre 7, o respeito aos direitos fundamentais, a prote\u00e7\u00e3o da vida. A ci\u00eancia, o direito e a vida poderiam fornecer bases transcendentes que deveriam se impor \u00e0 pol\u00edtica e limitar os projetos reacion\u00e1rios mesmo quando majorit\u00e1rios. Nesse sentido, para mim, o papel essencial da ci\u00eancia e da teoria hoje \u00e9 adotar o que chamo de atitude reconstrutiva [<em>attitude reconstructrice<\/em>]. Contrariamente \u00e0 heran\u00e7a do pensamento cr\u00edtico \u2014 desde a Escola de Frankfurt at\u00e9 Bourdieu e Foucault \u2014, que insiste no car\u00e1ter antes de tudo cr\u00edtico e negativo do pensamento, a teoria deve ser hoje positiva, e mostrar como reformas concretas podem ser sugeridas pelos pr\u00f3prios avan\u00e7os do conhecimento. \u00c9 essa exig\u00eancia que procuro cumprir em meus livros nos \u00faltimos anos: com a proposta da amizade em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vida familiar (<em>Une aspiration au dehors<\/em>), do abolicionismo contra o punitivismo (<em>Par-del\u00e0 le principe de r\u00e9pression<\/em>) ou de um outro imagin\u00e1rio pol\u00edtico al\u00e9m da democracia (<em>L\u2019\u00e2me noire de la d\u00e9mocratie<\/em>). A partir do momento em que se prop\u00f5e uma organiza\u00e7\u00e3o institucional alternativa \u00e0 realidade institu\u00edda, \u00e9-se, por defini\u00e7\u00e3o, irrecuper\u00e1vel pelo sistema. A ci\u00eancia, os te\u00f3ricos devem hoje realizar um <em>practical turn<\/em>: sair das incanta\u00e7\u00f5es e das cr\u00edticas negativas para propor, imaginar, inventar.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 hoje o papel do intelectual p\u00fablico: ser o cart\u00f3grafo de novas t\u00e1ticas de choque ou o agente que, pela palavra, produz a fissura inicial no consenso t\u00e9cnico?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 escala mundial, o meio militante experimenta um sentimento de impot\u00eancia. A ideia dominante \u00e9 a de que as lutas s\u00e3o demasiado dif\u00edceis, os inimigos s\u00e3o grandes demais e que se perde sempre. Se se faz o balan\u00e7o das lutas dos \u00faltimos 30 anos \u2014 sobre a pris\u00e3o, as pr\u00e1ticas policiais, os direitos trabalhistas, a viol\u00eancia de classe, a Palestina \u2014, constata-se um abismo extraordin\u00e1rio entre a energia despendida e os resultados, da\u00ed esse sentimento de fracasso permanente. Uma forma de desespero se apoderou das for\u00e7as de esquerda. Sabemos fazer manifesta\u00e7\u00f5es, atrair a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica, obter repercuss\u00e3o midi\u00e1tica, ocupar um lugar. Mas n\u00e3o nos aprisionamos em rituais pol\u00edticos que se tornaram ineficazes? Pergunto-me se n\u00e3o entramos na era da impot\u00eancia pol\u00edtica, pois a pol\u00edtica contempor\u00e2nea pertence mais \u00e0 ordem do ritual e do <em>happening<\/em> do que \u00e0 da a\u00e7\u00e3o. Em que condi\u00e7\u00f5es poder\u00edamos dar armas ao movimento social para que ele volte a ser politicamente poderoso? O espa\u00e7o da contesta\u00e7\u00e3o \u00e9 paradoxalmente um dos mais codificados da vida social. Quando n\u00e3o estamos de acordo, recorremos a formas preexistentes que nos constroem como sujeito contestador \u2014 seja a manifesta\u00e7\u00e3o, o lobby, a peti\u00e7\u00e3o ou o motim. Mas quando recorremos a essas formas, desestabilizamos o sistema ou o fazemos funcionar?<\/p>\n<p>As formas de a\u00e7\u00e3o atuais s\u00e3o t\u00e3o ineficazes que podemos nos interrogar sobre o que fazemos quando fazemos pol\u00edtica. Queremos realmente ganhar ou nos satisfazer como militantes? A vida militante torna-se quase aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o a seus fins, avaliada segundo seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios: havia muita gente na manifesta\u00e7\u00e3o? A m\u00eddia falou sobre ela? Recebi muitas visualiza\u00e7\u00f5es em meu post do Instagram? Uma constru\u00e7\u00e3o de si como pertencente ao meio da luta est\u00e1 quase em desconex\u00e3o com a reflex\u00e3o concreta sobre a efetividade pr\u00e1tica do que se faz.<\/p>\n<p>Penso que dever\u00edamos recorrer a modos de a\u00e7\u00e3o muito diferentes, tais como a interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 juventude [<em>l\u2019adresse \u00e0 la jeunesse<\/em>], a guerrilha jur\u00eddica, a infiltra\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, a a\u00e7\u00e3o direta, o trabalho sobre os <em>habitus<\/em> da cultura cotidiana. \u00c9 preciso desdobrar um outro imagin\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso que a esquerda rompa com suas imag\u00e9ticas tradicionais para pensar em termos de efic\u00e1cia. E, portanto, \u00e9 hora de desritualizar nossa rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica para pens\u00e1-la de maneira muito mais racional e eficaz. Infelizmente, isso pode nos fazer entrar numa forma de tristeza, porque \u00e0s vezes uma a\u00e7\u00e3o eficaz n\u00e3o \u00e9 espetacular. Mas prestar um concurso [<em>passer un concours<\/em>] pode ser muito mais importante do que ir ocupar uma pra\u00e7a; abrir uma escola pode ser mais importante do que participar de um motim.<\/p>\n<hr>\n<h3><strong>Gloss\u00e1rio de Termos e Nuances:<\/strong><\/h3>\n<p>Rela\u00e7\u00e3o dos termos cuja passagem do franc\u00eas ao portugu\u00eas implicou perda sem\u00e2ntica parcial ou op\u00e7\u00e3o interpretativa que merece registro.<\/p>\n<p><strong>1. <\/strong><em><strong>Blessures interindividuelles<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201cferidas interindividuais\u201d<\/strong> Em franc\u00eas, <em>blessure<\/em> designa simultaneamente a ferida f\u00edsica e o dano afetivo-moral. A op\u00e7\u00e3o por \u201cferidas\u201d preserva essa ambival\u00eancia corporal e subjetiva. \u201cDanos\u201d seria mais neutro e juridicamente adequado, mas empobreceria a carga fenomenol\u00f3gica do original. Manteve-se \u201cferidas\u201d com consci\u00eancia da tens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>2. <\/strong><em><strong>Ill\u00e9galismes<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201cilegalismos\u201d<\/strong> Termo foucaultiano de <em>Surveiller et Punir<\/em> (1975). Em Foucault, <em>ill\u00e9galismes<\/em> n\u00e3o designa simplesmente atos ilegais, mas a pluralidade diferenciada de pr\u00e1ticas formalmente ilegais que o sistema penal seleciona estrategicamente entre si \u2014 h\u00e1 <em>ill\u00e9galismes<\/em> tolerados para as classes dominantes e <em>ill\u00e9galismes<\/em> perseguidos para as popula\u00e7\u00f5es subalternas. As tradu\u00e7\u00f5es brasileiras de Foucault (Martins Fontes) convencionaram \u201cilegalismos\u201d, que se manteve aqui.<\/p>\n<p><strong>3. <\/strong><em><strong>Sans dehors<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201csem exterior\u201d<\/strong> A express\u00e3o \u201cinstitution sans dehors\u201d, conceito central da filosofia pol\u00edtica de De Lagasnerie em <em>La conscience politique<\/em>, designa uma institui\u00e7\u00e3o da qual n\u00e3o h\u00e1 \u201cfora\u201d poss\u00edvel, sem alternativa de recuo ou de escape. <em>Dehors<\/em> em franc\u00eas tem uma carga espacial e existencial mais imediata do que \u201cexterior\u201d em portugu\u00eas: \u00e9 o \u201cl\u00e1 fora\u201d, o espa\u00e7o de fuga, a sa\u00edda concreta. \u201cSem exterior\u201d \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o academicamente mais precisa, mas perde o peso vivido do <em>dehors<\/em> franc\u00eas, que remete \u00e0 experi\u00eancia de estar encerrado sem porta de sa\u00edda.<\/p>\n<p><strong>4. <\/strong><em><strong>Discipline ath\u00e9e<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201cdisciplina ate\u00edsta\u201d<\/strong> A formula\u00e7\u00e3o da pergunta do entrevistador retoma a leitura de De Lagasnerie sobre Foucault e o neoliberalismo: uma \u201cdisciplina\u201d que organiza o mundo social sem recorrer a qualquer princ\u00edpio transcendente ou unificador \u2014 sem Deus, sem Soberano, sem Contrato. <em>Ath\u00e9e<\/em> (ateu\/ate\u00edsta) funciona aqui como met\u00e1fora filos\u00f3fica: o neoliberalismo, nessa leitura, seria uma racionalidade que abandona qualquer fundamento transcendente da ordem social. \u201cDisciplina ate\u00edsta\u201d preserva o jogo conceitual, embora em portugu\u00eas a met\u00e1fora seja ligeiramente menos elegante.<\/p>\n<p><strong>5. <\/strong><em><strong>Familialiste \/ familialisme<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201cfamilialista \/ familialismo\u201d<\/strong> Neologismo cr\u00edtico do pr\u00f3prio De Lagasnerie. Designa a ideologia que institui a fam\u00edlia nuclear e o casal como formas de vida normativas e politicamente privilegiadas \u2014 n\u00e3o apenas como arranjo privado, mas como estrutura de poder que organiza direitos, heran\u00e7as, reconhecimento social e imagin\u00e1rios pol\u00edticos. \u201cFamilismo\u201d existe em portugu\u00eas (especialmente na sociologia italiana e latinoamericana), mas tem conota\u00e7\u00e3o distinta (lealdade familiar acima do interesse coletivo). Optou-se por \u201cfamilialismo\u201d para manter a fidelidade ao neologismo do autor.<\/p>\n<p><strong>6. <\/strong><em><strong>Punitivisme<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201cpunitivismo\u201d<\/strong> O termo existe em portugu\u00eas acad\u00eamico (criminologia cr\u00edtica, sociologia jur\u00eddica) e a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 direta. Registra-se apenas que <em>punitivisme<\/em> em franc\u00eas tem uma carga cr\u00edtica e militante constru\u00edda especificamente pela tradi\u00e7\u00e3o abolicioni sta \u2014 n\u00e3o \u00e9 um termo neutro-descritivo, mas uma categoria de combate intelectual.<\/p>\n<p><strong>7. <\/strong><em><strong>Happening<\/strong><\/em><strong> \u2192 mantido no original<\/strong> Termo do vocabul\u00e1rio das vanguardas art\u00edsticas dos anos 1960 (Fluxus, Allan Kaprow), importado para o discurso pol\u00edtico para designar a\u00e7\u00f5es de visibilidade espetacular sem consequ\u00eancias materiais transformadoras. N\u00e3o h\u00e1 equivalente preciso em portugu\u00eas que preserve tanto a dimens\u00e3o hist\u00f3rica quanto a ironia cr\u00edtica da utiliza\u00e7\u00e3o de De Lagasnerie. \u201cEvento\u201d ou \u201cespet\u00e1culo\u201d seriam empobrecedores.<\/p>\n<p><strong>8. <\/strong><em><strong>Practical turn<\/strong><\/em><strong> \u2192 mantido no original em ingl\u00eas<\/strong> O pr\u00f3prio De Lagasnerie usa o sintagma em ingl\u00eas no texto franc\u00eas, evocando os \u201cturns\u201d da teoria (linguistic turn, cultural turn, spatial turn). A escolha de n\u00e3o traduzir \u00e9 do autor, n\u00e3o do tradutor: trata-se de uma declara\u00e7\u00e3o de posicionamento epistemol\u00f3gico no interior do campo intelectual internacional.<\/p>\n<p><strong>9. <\/strong><em><strong>Attitude reconstructrice<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201catitude reconstrutiva\u201d<\/strong> \u201cReconstrutiva\u201d \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o mais precisa de <em>reconstructrice<\/em>. Registra-se que De Lagasnerie a op\u00f5e explicitamente \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o \u201ccr\u00edtico-negativa\u201d de Frankfurt, Bourdieu e Foucault \u2014 o adjetivo carrega, portanto, um peso pol\u00eamico preciso: n\u00e3o se trata apenas de reconstruir, mas de propor, de ser propositivo onde a teoria cr\u00edtica era apenas corrosiva.<\/p>\n<p><strong>10. <\/strong><em><strong>L\u2019adresse \u00e0 la jeunesse<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201ca interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 juventude\u201d<\/strong> <em>Adresse<\/em> em franc\u00eas significa tanto \u201cendere\u00e7o\u201d (lugar) quanto \u201capelo\u201d, \u201cinterpela\u00e7\u00e3o\u201d e \u201chabilidade\u201d. No contexto pol\u00edtico de De Lagasnerie, <em>l\u2019adresse \u00e0 la jeunesse<\/em> designa um modo de a\u00e7\u00e3o \u2014 falar diretamente, de forma deliberada e estrat\u00e9gica, \u00e0 juventude como sujeito pol\u00edtico privilegiado. \u201cInterpela\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 com sua resson\u00e2ncia althusseriana \u2014 foi preferida a \u201capelo\u201d por capturar melhor a dimens\u00e3o de constitui\u00e7\u00e3o de sujeito pol\u00edtico que a palavra cont\u00e9m no original.<\/p>\n<p><strong>11. <\/strong><em><strong>Passer un concours<\/strong><\/em><strong> \u2192 \u201cprestar um concurso\u201d<\/strong> Em franc\u00eas, <em>concours<\/em> designa o exame competitivo de acesso a carreiras p\u00fablicas ou acad\u00eamicas (CAPES, agr\u00e9gation, concours de la fonction publique). A equival\u00eancia com \u201cprestar concurso p\u00fablico\u201d em portugu\u00eas brasileiro \u00e9 quase perfeita, e a dimens\u00e3o pol\u00edtica do exemplo de De Lagasnerie \u2014 a ideia de que ingressar na burocracia do Estado por dentro pode ser mais eficaz do que a ocupa\u00e7\u00e3o de pra\u00e7as \u2014 preserva-se inteiramente na tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>12. <\/strong><em><strong>Habitus<\/strong><\/em><strong> \u2192 mantido no original<\/strong> Termo bourdieusiano j\u00e1 inteiramente incorporado ao portugu\u00eas acad\u00eamico brasileiro. Nenhuma tradu\u00e7\u00e3o seria adequada sem perda: \u201cdisposi\u00e7\u00f5es incorporadas\u201d, \u201cesquemas de percep\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o\u201d, \u201csegunda natureza\u201d s\u00e3o par\u00e1frases anal\u00edticas, n\u00e3o equivalentes.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post &lt;i&gt;Atitude reconstrutiva&lt;\/i&gt;: Como ir al\u00e9m da cr\u00edtica pol\u00edtica? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/da-cana-de-acucar-ao-futuro-cuba-aposta-na-agroecologia-com-bioinsumo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Da cana-de-a\u00e7\u00facar ao futuro: Cuba aposta na agroec...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/policias-de-tarcisio-tiraram-a-vida-1-adolescente-a-cada-9-dias-68-eram-negros\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/operacao-escudo_divulgacao-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Pol\u00edcias de Tarc\u00edsio tiraram a vida 1 adolescente ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/temporal-no-rs-deixa-desalojados-e-provoca-danos-em-19-cidades\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Temporal no RS deixa desalojados e provoca danos e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ato-de-bolsonaro-evidencia-esvaziamento-politico-e-publico-em-meio-a-julgamento-no-stf\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Captura-de-Tela-2025-06-29-as-172138-2048x1199-1-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ato de Bolsonaro evidencia esvaziamento pol\u00edtico e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soci\u00f3logo franc\u00eas Geoffroy de Lagasnerie provoca: se institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas promovem lawfare, a esquerda deveria combat\u00ea-lo com a defesa de uma \u201cjusti\u00e7a neutra\u201d? Qual o papel do intelectual p\u00fablico diante da banaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie que corr\u00f3i as democracias ocidentais?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/atitude-reconstrutiva-como-ir-alem-da-critica-politica\/\">&lt;i&gt;Atitude reconstrutiva&lt;\/i&gt;: Como ir al\u00e9m da cr\u00edtica pol\u00edtica?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":85018,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[51998,2687,51999,52000,52001,44854,52002,1482,52003],"tags":[],"class_list":["post-85017","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-abolicionismo-penal","category-crise-civilizatoria","category-ehess","category-geoffroy-de-lagasnerie","category-justica-penal","category-michael-foucault","category-militancia-politica","category-sul-global","category-thiago-gama"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85017","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85017"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85017\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85018"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}