{"id":85218,"date":"2026-04-28T16:18:07","date_gmt":"2026-04-28T19:18:07","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/querem-apagar-o-conceito-de-periferia\/"},"modified":"2026-04-28T16:18:07","modified_gmt":"2026-04-28T19:18:07","slug":"querem-apagar-o-conceito-de-periferia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/querem-apagar-o-conceito-de-periferia\/","title":{"rendered":"Querem apagar o conceito de periferia?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1400\" height=\"1050\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Moradores-perifericos-de-BH-podem-se-inscrever-em-curso-gratuito-de-fotografia.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Moradores-perifericos-de-BH-podem-se-inscrever-em-curso-gratuito-de-fotografia.jpeg 1400w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/28161627\/Moradores-perifericos-de-BH-podem-se-inscrever-em-curso-gratuito-de-fotografia-300x225.jpeg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/28161627\/Moradores-perifericos-de-BH-podem-se-inscrever-em-curso-gratuito-de-fotografia-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px\"><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Alma Preta Jornalismo<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o[1]<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, uma s\u00e9rie de agentes sociais moradores das periferias urbanas aumentou sua capacidade de pautar publicamente as dificuldades e potencialidades desses territ\u00f3rios. Esses agentes passaram a fazer pol\u00edtica por meio e por causa da condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, reivindicando pertencimento territorial, criando usos para o termo\/conceito e ampliando o debate p\u00fablico. Uma das express\u00f5es da reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de <em>periferia<strong>[2]<\/strong><\/em> a partir da d\u00e9cada de 1990 foi a de evidenciar a exist\u00eancia de territ\u00f3rios urbanos com especificidades geogr\u00e1ficas e sociais derivadas da maneira desigual como a riqueza \u00e9 produzida e concentrada na sociedade brasileira. Este fato tem desdobramentos na produ\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o intraurbano.<\/p>\n<p>Devido aos entraves hist\u00f3ricos que dificultaram a presen\u00e7a dos mais pobres nas universidades e na representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o campo da cultura foi o que se mostrou o mais prop\u00edcio para a visibiliza\u00e7\u00e3o desse processo pol\u00edtico em curso. N\u00e3o \u00e9 por acaso que importantes intelectuais org\u00e2nicos das periferias s\u00e3o agentes culturais.<\/p>\n<p>No correr dos anos 2000, devido \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cotas raciais e sociais e da expans\u00e3o do ensino superior no Brasil, observa-se nas universidades um aumento da quantidade de estudantes oriundos das periferias urbanas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/14--34.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/14--34.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Aos poucos, esses estudantes se tornaram pesquisadores e passaram a produzir pesquisas acad\u00eamicas que buscam retratar o processo pol\u00edtico de afirma\u00e7\u00e3o, reconhecimento, organiza\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o do conhecimento a partir das periferias, pro- cesso este j\u00e1 amplamente consolidado em outras esferas da sociedade. Nesse \u00e2mbito, destacam-se na literatura acad\u00eamica as pesquisas de Renato Almeida (2009), \u00c9rica Pe\u00e7anha (2011), Silvia Raimundo (2017), Dennis de Oliveira (2021), Tiaraju D\u00b4Andrea (2022), Joselicio Santos Junior (2023), entre outros.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, houve um esfor\u00e7o de agentes sociais das periferias no intuito de definir o conceito <em>periferia<\/em>. Ao menos tr\u00eas debates circundaram esse processo:<\/p>\n<p>1.A necessidade de construir uma <em>defini\u00e7\u00e3o quantitativa<strong>[3]<\/strong><\/em> (D\u2019Andrea, 2020) e territorial para periferia no mun\u00edcipio de S\u00e3o Paulo, mas compreendendo a dimens\u00e3o metropolitana do fen\u00f4meno;<\/p>\n<p>2.A necessidade de delimitar e aprofundar os sentidos do termo\/conceito devido a sua enorme utiliza\u00e7\u00e3o por distintos agentes (a partir de uma condi\u00e7\u00e3o urbana, \u00e9 importante destacar);<\/p>\n<p>3.A necessidade de estabelecer um di\u00e1logo cr\u00edtico com campos do conhecimento como a academia, a m\u00eddia e a pol\u00edtica institucional que historicamente classificaram esses territ\u00f3rios e suas popula\u00e7\u00f5es a partir de seus par\u00e2metros, fundamentalmente a partir de um ponto de vista externo.<\/p>\n<p>O processo coletivo levado a cabo pelas coletividades perif\u00e9ricas requereu in\u00fameros debates. Foi cuidadoso e demorou anos para ser conclu\u00eddo. O resulta- do desse processo resultou na escrita da Lei de Fomento \u00e0 Cultura da Periferia do mun\u00edcipio de S\u00e3o Paulo e est\u00e1 retratado nas pesquisas acad\u00eamicas de Marcello de Jesus (2017), Silvia Raimundo (2017), F\u00f3rum de Cultura da Zona Leste (2019), Tiaraju D\u00b4Andrea (2020), Gisele Brito (2021), entre outros.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, no momento hist\u00f3rico em que movimentos sociais, coletivos culturais e intelectuais perif\u00e9ricos buscavam melhorar a defini\u00e7\u00e3o do conceito, houve uma tentativa de invalida\u00e7\u00e3o do mesmo por parte de um setor hegem\u00f4nico da intelectualidade dedicada aos estudos urbanos.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>A ideia de que o termo <em>periferia<\/em> teria perdido seu potencial explicativo sobre o urbano passou a ser repetida e justificada a partir de uma s\u00e9rie de argumentos. Este artigo faz uma recompila\u00e7\u00e3o desses argumentos, coletados em pesquisas acad\u00eamicas, em posicionamentos pol\u00edticos, em debates e em coment\u00e1rios do senso comum.<\/p>\n<p>O objetivo principal \u00e9 problematizar as premissas desses argumentos, defendendo a ideia de que periferia \u00e9 um conceito urbano e sociol\u00f3gico com grande potencial explicativo sobre a realidade das metr\u00f3poles brasileiras contempor\u00e2neas[4]. Desse modo, pretende-se contribuir no debate sobre o urbano no Brasil.<\/p>\n<h3><strong>Problematiza\u00e7\u00e3o de nove argumentos que buscam inviabilizar periferia como conceito explicativo do urbano<\/strong><\/h3>\n<p><strong><em>Argumento 1 \u2013 \u201cPeriferia \u00e9 um conceito impreciso\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Um dos maiores desafios intelectuais \u00e9 dar forma e precis\u00e3o para fen\u00f4menos que na realidade vivida s\u00e3o mais escorregadios. \u00c9 fato que a periferia \u00e9 composta por territ\u00f3rios com caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas, sociais, raciais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas e subjetivas dif\u00edceis de definir com exatid\u00e3o. No entanto, a dificuldade de defini\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno n\u00e3o invalida a sua exist\u00eancia. Pobreza \u00e9 um fen\u00f4meno dif\u00edcil de definir. Depende de uma s\u00e9rie de indicadores e recortes. Mas n\u00e3o h\u00e1 como ocultar que exista pobreza. H\u00e1 tamb\u00e9m um grande debate para se definir quem \u00e9 negro no Brasil. No entanto, a pol\u00eamica que envolve o debate n\u00e3o pode ocultar que no Brasil existam negros (Costa, 2020). Classe social tamb\u00e9m \u00e9 um fen\u00f4meno dif\u00edcil de definir. Distintas correntes te\u00f3ricas abordam o tema com variadas \u00eanfases. No entanto, a dificuldade de defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina a exist\u00eancia das classes sociais (Mattos, 2019). Com periferia ocorre o mesmo. Ao inv\u00e9s de ocultar a exist\u00eancia do fen\u00f4meno, existe um esfor\u00e7o de agentes sociais moradores da periferia para tornar a defini\u00e7\u00e3o do conceito mais precisa, refinando-o e criando crit\u00e9rios, como j\u00e1 apontado. Este artigo faz parte deste esfor\u00e7o.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 2 \u2013 \u201cPeriferia n\u00e3o existe porque o centro tamb\u00e9m \u00e9 pobre\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 um dos argumentos mais mobilizados quando se quer descontruir a exist\u00eancia de periferias na cidade de S\u00e3o Paulo. No entanto, \u00e9 um argumento fr\u00e1gil. A partir deste ponto, este artigo problematizar\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o e as diferen\u00e7as entre centro tradicional, centralidade-sudoeste e periferia, \u00e0 guisa de demonstrar como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel igualar contextos evidentemente distintos.<\/p>\n<p>Em primeiro plano, cabe lembrar que essa din\u00e2mica tri\u00e1dica composta por uma centralidade localizada na Regi\u00e3o de Alta Concentra\u00e7\u00e3o das Camadas de Alta Renda (Villa\u00e7a, 2012), e que aqui se denominar\u00e1 de alta renda, um centro tradicional e uma vasta periferia se repete em outras cidades brasileiras. Ou seja, \u00e9 um padr\u00e3o das formas da urbaniza\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"809\" height=\"608\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-25.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-25.png 809w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/28135229\/image-25-300x225.png 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/28135229\/image-25-768x577.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px\"><figcaption>Mapa 1. RMSP: Oportunidades x Vulnerabilidade[5],[6]<\/figcaption><\/figure>\n<p>Desse modo, em S\u00e3o Paulo, oposto de periferia n\u00e3o \u00e9 o centro tradicional, mas a centralidade-sudoeste. \u00c9 nessa zona que se encontram os polos de riqueza e \u00e9 a partir dela que se inicia um processo radial conc\u00eantrico de aumento da pobreza. De modo geral, quanto mais longe da centralidade-sudoeste, mais pobres s\u00e3o os espa\u00e7os.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o centro tradicional e a centralidade-sudoeste foi amplamente debatida na literatura. Fl\u00e1vio Villa\u00e7a (1998) aponta que as mudan\u00e7as nas centralidades s\u00e3o desdobramentos da capacidade da burguesia de levar o centro para perto de suas resid\u00eancias por meio de mecanismos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e ideol\u00f3gicos. Segundo Villa\u00e7a, a burguesia historicamente deslocou no espa\u00e7o seus bairros de moradia e de trabalho por meio de um sentido definido de vetores de expans\u00e3o. No caso de S\u00e3o Paulo, o vetor sudoeste. Heitor Fr\u00fagoli Jr. (2006) discorreu sobre os embates entre distintos agentes atuantes nessas centralidades, que se substituiriam no tempo-espa\u00e7o a partir do vetor sudoeste, como apontado por Villa\u00e7a (1998). Mariana Fix (2001; 2007) estudou as interven\u00e7\u00f5es da burguesia na valoriza\u00e7\u00e3o da centralidade-sudoeste, inclusive por meio da remo\u00e7\u00e3o de favelas.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de uma nova centralidade na \u00e1rea central-sudoeste provocou um deslocamento das sedes dos poderes, antes localizados no centro tradicional. Essa mudan\u00e7a fez com que o centro tradicional e a periferia de S\u00e3o Paulo passassem a possuir uma dupla condi\u00e7\u00e3o: o centro tradicional \u00e9 segregado pela centralidade-sudoeste e segrega a periferia. A periferia \u00e9 segregada pela centralidade-sudoeste e pelo centro tradicional. Essa dupla condi\u00e7\u00e3o do centro tradicional e da periferia tem sido instrumentalizada no argumento que tenta igualar periferia e centro tradicional, de modo a ocultar as diferen\u00e7as entre ambos e, com isso, invisibilizar a exist\u00eancia da periferia.<\/p>\n<p>\u00c9 fato not\u00f3rio que o centro tradicional de S\u00e3o Paulo possui pobreza. Uma parcela consider\u00e1vel da sua popula\u00e7\u00e3o pertence aos setores mais pauperizados da classe trabalhadora. No entanto, a din\u00e2mica urbana que produziu o padr\u00e3o perif\u00e9rico de crescimento (Bolaffi, 1982) fez com que a classe trabalhadora fosse separada em setores. Havia os que preferiam (ou podiam) possuir a casa pr\u00f3pria em locais sem infraestrutura e distantes do centro tradicional e havia os que preferiam (ou podiam) morar no centro tradicional com infraestrutura urbana, mas em resid\u00eancias prec\u00e1rias. L\u00facio Kowarick (1993; 2009) discorreu sobre essa quest\u00e3o. Moradores do centro, mesmo pobres, quase sempre preferem seguir morando nessa zona do que se mudar para a periferia. Movimentos de moradia, ao lutarem pela ocupa\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios vazios do centro tradicional, tamb\u00e9m t\u00eam ci\u00eancia dos ganhos da localiza\u00e7\u00e3o central. A diferen\u00e7a fundamental entre centro tradicional e periferia reside na infraestrutura[7], que no centro tradicional \u00e9 infinitamente maior do que a de qualquer centro de bairro da periferia.<\/p>\n<p>Outra grande diferen\u00e7a entre o centro tradicional e a periferia \u00e9 demogr\u00e1fica. Juntas, as distintas zonas perif\u00e9ricas do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo possuem pouco mais de 5,7 milh\u00f5es de habitantes. Os quatro distritos que comp\u00f5em o centro tradicional somam 104 mil habitantes[8]. H\u00e1 uma diferen\u00e7a evidente quando se considera o tamanho dos problemas. No entanto, como o centro tradicional est\u00e1 geograficamente mais perto das regi\u00f5es onde geralmente habita a burguesia e a intelectualidade hegem\u00f4nica, essa pobreza tende a ser mais visibilizada.<\/p>\n<p>Como elementos ratificadores das discrep\u00e2ncias, cabe ainda lembrar: os fluxos de deslocamento s\u00e3o da periferia para o centro tradicional (e para a centralidade-sudoeste), e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Vale ressaltar tamb\u00e9m que as remo\u00e7\u00f5es historicamente ocorreram do centro tradicional para a periferia, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de moradores da periferia tamb\u00e9m ratifica essas diferen\u00e7as. Elaine Mineiro, por exemplo, militante do movimento negro e popular retratada em Raimundo (2017), foi morar na zona leste ap\u00f3s sua fam\u00edlia ser removida. A partir de sua experi\u00eancia, afirma: \u201cTem condi\u00e7\u00e3o de pobreza, mas n\u00e3o d\u00e1 pra comparar o Bixiga, onde morei na inf\u00e2ncia, com a Cidade Tiradentes, onde moro hoje\u201d (ibid., p. 223). Sergio Vaz, poeta e morador da zona sul, tamb\u00e9m teve processos de consci\u00eancia urbana e de classe ativados a partir do conhecimento de ambas as realidades. Uma vez disse que, quando crian\u00e7a, n\u00e3o sabia que era pobre porque todos ao seu redor eram iguais: \u201cS\u00f3 quando visitei o Bixiga, com seus pr\u00e9dios, compreendi melhor as coisas\u201d (Brasil de Fato, 2013).<\/p>\n<p>O processo de constru\u00e7\u00e3o da Lei de Fomento \u00e0 Cultura da Periferia reuniu uma s\u00e9rie de coletivos e movimentos para uma defini\u00e7\u00e3o do conceito periferia. Encabe\u00e7ada pelo Movimento Cultural das Periferias (MCP), essa constru\u00e7\u00e3o coletiva demorou anos para ser conclu\u00edda (de 2010 a 2016), tendo ao final conclu\u00eddo que: \u201cN\u00e3o h\u00e1 periferia no centro [\u2026] o que h\u00e1 s\u00e3o bols\u00f5es de pobreza\u201d (Raimundo, 2017, p. 223).<\/p>\n<p>Como caso ilustrativo das disputas e dos interesses ao redor das defini\u00e7\u00f5es de periferia, segue transcrito abaixo um epis\u00f3dio vivenciado pelo autor deste texto:<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Cena 1 \u2013 O debate<strong>[9]<\/strong><br \/>\u201cCerta vez fui convidado para um debate sobre o centro de S\u00e3o Paulo. Fiz uma fala ressaltando a hist\u00f3ria do centro e a import\u00e2ncia que este<\/em> <em>possui para o encontro das periferias. Enfatizei tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o de pobreza que assola parte dos moradores do centro tradicional. No entanto, lembrei: \u2018periferia e centro tradicional n\u00e3o se igualam e n\u00e3o se equiparam\u2019. Tamb\u00e9m ressaltei: \u2018O debate n\u00e3o deve insistir em uma oposi\u00e7\u00e3o entre periferia e centro tradicional, mas sim na oposi\u00e7\u00e3o entre periferia e \u00e1rea central-sudoeste\u2019. Um arquiteto presente na mesa de debate se incomodou com minha fala e afirmou: \u2018As periferias est\u00e3o a todo momento no centro. Acho p\u00e9ssimo quando o poder p\u00fablico deixa de investir no centro para dispersar os recursos nas periferias\u2019\u201d.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Muito se discorreu sobre a pobreza presente no centro tradicional, composta por irm\u00e3s e irm\u00e3os da classe trabalhadora moradora da periferia. Em contrapartida, pouco se ressalta o poder de setores da classe m\u00e9dia que habitam o centro tradicional e seus arredores e a sua capacidade de pressionar o poder p\u00fablico para que seus interesses sejam atendidos. Invocar \u201cmorar na periferia\u201d \u00e9 um dos argumentos desse setor social. Na fila dos recursos, \u201cminha periferia\u201d vem primeiro, e as interven\u00e7\u00f5es em forma de parques p\u00fablicos, entre outras, ocorrem primeiro no centro tradicional e arredores, a despeito da imperiosa necessidade de v\u00e1rios bairros da periferia.<\/p>\n<p>Por fim, ressalta-se aqui a validade da problematiza\u00e7\u00e3o sobre a dupla condi\u00e7\u00e3o do centro tradicional (segregador e segregado). No entanto, esta problematiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode escamotear o debate fundamental a ser feito para a compreens\u00e3o da din\u00e2mica estrutural de S\u00e3o Paulo: a oposi\u00e7\u00e3o entre um polo de riqueza localizado na centralidade-sudoeste e polos de pobreza nas periferias.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 3 \u2013 \u201cA periferia virou centro e o centro virou periferia\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista de uma luta simb\u00f3lica, este argumento \u00e9 v\u00e1lido. Periferia passa a ser o centro quando suas produ\u00e7\u00f5es culturais ou mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ganham o centro do debate. No entanto, a frase \u201ca periferia virou centro\u201d pode tamb\u00e9m carregar um sentido triunfalista, parecido com o similar \u201ca favela venceu\u201d. Discursos triunfalistas s\u00e3o perigosos. Tendem a ocultar as desigualdades concretas, substituindo-as por valoriza\u00e7\u00f5es metaf\u00f3ricas.<\/p>\n<p>De acordo com Raimundo (2017, p. 223): \u201cO MCP (Movimento Cultural das Periferias) sabe que essas leituras que tentam embaralhar as no\u00e7\u00f5es centro e periferia, de dizer que o centro est\u00e1 na periferia e a periferia est\u00e1 no centro fazem parte da leitura p\u00f3s-moderna do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, nem deveria estar no horizonte hist\u00f3rico da popula\u00e7\u00e3o da periferia lutar para virar centro. A luta deve ser pelo fim das desigualdades territoriais e por uma cidade onde exista uma variedade de centros, centralidades e subcentros, de modo que diminua a import\u00e2ncia desses referenciais.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 4 \u2013 \u201cAs periferias possuem centros e por isso n\u00e3o existem periferias\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Villa\u00e7a discorreu longamente sobre a natureza do centro principal das grandes metr\u00f3poles (1998; 2012). O autor aponta que a pr\u00f3pria ideia de cidade pressup\u00f5e a necessidade de centros. Assim sendo, seria l\u00f3gico supor que em uma cidade t\u00e3o extensa como S\u00e3o Paulo haja subcentros. Desde o surgimento das periferias, os centros de bairro existem. Neles, uma s\u00e9rie de servi\u00e7os suprem a popula\u00e7\u00e3o. No entanto, h\u00e1 uma homologia entre os servi\u00e7os oferecidos nos subcentros e o perfil do bairro. O subcentro de S\u00e3o Miguel, pleno de com\u00e9rcios, serve a popula\u00e7\u00e3o do entorno. No entanto, dependendo da necessidade, a popula\u00e7\u00e3o do local deve se deslocar ao centro tradicional, ou \u00e0 centralidade-sudoeste. O contr\u00e1rio inexiste. O morador de Cerqueira C\u00e9sar n\u00e3o vai at\u00e9 o centro de S\u00e3o Miguel quando necessita de um servi\u00e7o. \u00c9 essa desigualdade, que pressup\u00f5e depend\u00eancia e domina\u00e7\u00e3o, que define a rela\u00e7\u00e3o entre a periferia, em um polo, a centralidade-sudoeste e, em alguma medida, o centro tradicional, no outro polo.<\/p>\n<p>Em outro \u00e2mbito, n\u00e3o se pode comparar a quantidade de recursos p\u00fablicos e privados existentes nos subcentros (S\u00e3o Miguel, Vila Nova Cachoeirinha ou Campo Limpo) com a quantidade de recursos p\u00fablicos e privados, de servi\u00e7os, de infraestrutura e de fluxos urbanos existente no centro tradicional ou na centralidade-sudoeste. S\u00e3o incompar\u00e1veis. Os subcentros s\u00e3o necessidades das periferias, a elas atendem e delas fazem parte. Inclusive, a pr\u00f3pria exist\u00eancia destes subcentros se deve \u00e0 dist\u00e2ncia dos bairros perif\u00e9ricos com rela\u00e7\u00e3o ao centro tradicional e \u00e0 centralidade-sudoeste. Os subcentros, ou centros de bairro, n\u00e3o invalidam a condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, eles s\u00e3o a comprova\u00e7\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 5 \u2013 \u201cPeriferia n\u00e3o existe porque o Estado, a infraestrutura e o com\u00e9rcio chegaram\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Este argumento \u00e9 utilizado de maneira a encerrar o assunto: \u201cN\u00e3o falemos mais de periferia porque o Estado chegou\u201d. O fato de a periferia ter melhorado internamente suas condi\u00e7\u00f5es infraestruturais nas \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o modificou sua rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia com os bairros de alta renda. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 partir de um bin\u00f4mio \u201clugares que possuem\u201d e \u201clugares da falta\u201d. Partir desse bin\u00f4mio leva a crer que os espa\u00e7os que antes eram os \u201clugares da falta\u201d hoje tamb\u00e9m viraram \u201clugares que possuem\u201d, e tudo se igualou. Logo, n\u00e3o faria mais sentido falar em periferia. No entanto, esse argumento est\u00e1 equivocado. Entender a diferen\u00e7a entre a centralidade-sudoeste e a periferia passa por compreender a diferen\u00e7a na quantidade de recursos p\u00fablicos e privados que cada um desses territ\u00f3rios maneja, a for\u00e7a pol\u00edtica dos habitantes e a depend\u00eancia e domina\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o ao outro, capaz de ser medida na obriga\u00e7\u00e3o do deslocamento pela cidade, entre outras formas.<\/p>\n<p>De fato, nas \u00faltimas d\u00e9cadas houve um aumento do investimento p\u00fablico nas periferias. No entanto, muitas vezes essa presen\u00e7a estatal \u00e9 baseada na l\u00f3gica do descont\u00ednuo, do incompleto e do improviso (D\u2019Andrea, 2022).<\/p>\n<p>Concomitante a essa din\u00e2mica, o poder p\u00fablico atua de maneira diferenciada dependendo do territ\u00f3rio: mais efetivo onde habita a burguesia e a classe m\u00e9dia e ineficaz nas periferias. Como exemplos, pode-se comparar a prec\u00e1ria zeladoria urbana em Perus em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 r\u00e1pida a\u00e7\u00e3o em Moema. Tamb\u00e9m \u00e9 n\u00edtida a diferen\u00e7a entre hospitais p\u00fablicos na Vila Mariana e na Cidade Tiradentes. A pol\u00edcia tamb\u00e9m atua diferente na periferia, onde impera a l\u00f3gica da invas\u00e3o, e na centralidade-sudoeste, territ\u00f3rio a ser defendido[10].<\/p>\n<p>A presen\u00e7a estatal nas periferias \u00e9 um tema bastante abordado pela sociologia urbana francesa. Sobre o tema, cabe destacar o trabalho de Denis Merklen (2013). Segundo o autor, mesmo com uma presen\u00e7a estatal consider\u00e1vel nas periferias da Fran\u00e7a (diferente do caso paulistano), n\u00e3o foi poss\u00edvel reverter estigmas e preconceitos contra essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 6 \u2013 \u201cA periferia \u00e9 heterog\u00eanea\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ana Cristina Morais, arquiteta e urbanista, moradora do Jardim Maced\u00f4nia, periferia sul, defende em seu trabalho a utiliza\u00e7\u00e3o do conceito periferia sem a letra \u201cs\u201d ao final, uma vez que a sua utiliza\u00e7\u00e3o agregaria uma informa\u00e7\u00e3o redundante. Segundo a autora:<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Neste trabalho, reconhece-se a heterogeneidade das \u00e1reas perif\u00e9ricas como uma das principais caracter\u00edsticas da metr\u00f3pole paulistana na atualidade. Mais do que isso, entende-se que essa heterogeneidade sempre existiu. No entanto, optou-se por utilizar o termo majoritariamente no singular. Sem preciosismos, a escolha ocorreu, simplesmente, por entender que a diversidade da periferia \u00e9 algo t\u00e3o evidente que \u00e9 desnecess\u00e1rio refor\u00e7\u00e1-la semanticamente. (Morais, 2023, p. 20)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A argumenta\u00e7\u00e3o de Morais se desdobra em algumas indaga\u00e7\u00f5es: tomando em conta que a heterogeneidade da periferia sempre foi evidente, por que s\u00f3 contemporaneamente os estudos urbanos hegem\u00f4nicos passaram a enfatizar essa heterogeneidade? Seria correto afirmar que as periferias transitaram em um continuum hist\u00f3rico do homog\u00eaneo ao heterog\u00eaneo, como alguns estudos parecem defender?<\/p>\n<p>Para este artigo, a heterogeneidade sempre existiu. No entanto, estudos urbanos cl\u00e1ssicos tendiam a fazer uma an\u00e1lise de sobrevoo. Por um lado, refor\u00e7avam caracter\u00edsticas comuns, por outro, perdiam em especificidade. Na tentativa de criticar os estudos cl\u00e1ssicos, a tend\u00eancia dos estudos urbanos contempor\u00e2neos \u00e9 radicalizar an\u00e1lises de microescala ressaltando as diferen\u00e7as internas. Essa \u00eanfase tem desdobramentos.<\/p>\n<p>Ao ressaltar microrrealidades, dificultam a visualiza\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es comuns entre as periferias e que embasam periferia como conceito explicativo. Outro desdobramento dessa \u00eanfase \u00e9 a de dificultar a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre esses territ\u00f3rios, dado que, ao inv\u00e9s de estimularem a uni\u00e3o a partir de problem\u00e1ticas compartilhadas, passam a ressaltar particularidades. Por fim, enfatizar a heterogeneidade da periferia acaba por desviar o debate da homogeneidade de classe e de ra\u00e7a da regi\u00e3o de alta renda.<\/p>\n<p>Nesse tocante, Fl\u00e1vio Villa\u00e7a (1998) aponta como a burguesia se autossegrega; Danilo Fran\u00e7a (2015) aponta como na cidade de S\u00e3o Paulo h\u00e1 uma marcada segrega\u00e7\u00e3o entre a zona sudoeste, composta por uma burguesia branca, e as periferias, empobrecidas e heterog\u00eaneas racialmente; Eduardo Marques aponta que os espa\u00e7os habitados por popula\u00e7\u00e3o de renda mais elevada se tornaram ainda mais homog\u00eaneos (2015, p. 198), fato que incide diretamente no aumento da segrega\u00e7\u00e3o. Para a burguesia, a heterogeneidade das periferias n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o principal.<\/p>\n<p>Seu projeto \u00e9 manter a homogeneidade dos seus espa\u00e7os de habita\u00e7\u00e3o, trabalho, circula\u00e7\u00e3o e lazer. Do ponto de vista pol\u00edtico, a heterogeneidade das periferias segue sendo dominada e dependente da homogeneidade interna dos territ\u00f3rios onde habita a burguesia.<\/p>\n<p>Para moradores da periferia, a heterogeneidade n\u00e3o \u00e9 uma novidade, mas parte constitutiva dos territ\u00f3rios populares. No entanto, essa diversidade nunca impediu que esta popula\u00e7\u00e3o tivesse uma s\u00e9rie de experi\u00eancias compartilhadas, cujo desdobramento foi a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em prol de interesses comuns e a constru\u00e7\u00e3o de identidades unificadoras.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 7 \u2013 \u201cCom a fragmenta\u00e7\u00e3o urbana, n\u00e3o existe mais periferia\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ao discorrer sobre fragmenta\u00e7\u00e3o urbana, o ge\u00f3grafo Milton Santos (2019) vinculou este conceito necessariamente \u00e0 dificuldade de deslocamento por parte dos mais pobres, acantonados nas periferias. O autor se utiliza do conceito fragmenta\u00e7\u00e3o para refor\u00e7ar o argumento do abismo social expresso espacialmente.<\/p>\n<p>No entanto, alguns usos contempor\u00e2neos do conceito fragmenta\u00e7\u00e3o parecem querer afirmar o contr\u00e1rio: espa\u00e7os de pobreza e de riqueza se misturaram, logo, n\u00e3o faria mais sentido um padr\u00e3o centro-periferia. O argumento parece que se tornou uma verdade absoluta. Como j\u00e1 salientado, as periferias possuem seus desn\u00edveis socioecon\u00f4micos internos. No entanto, estes desn\u00edveis n\u00e3o estabelecem uma aleatoriedade e nem uma mixit\u00e9[11] interna nos territ\u00f3rios urbanos. Se em Paris, com forte regula\u00e7\u00e3o urban\u00edstica, o Estado n\u00e3o conseguiu se contrapor \u00e0 for\u00e7a do setor imobili\u00e1rio, \u00e9 ilus\u00e3o pensar que em S\u00e3o Paulo o setor imobili\u00e1rio, muito mais poderoso, iria operar em favor de uma fragmenta\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, tend\u00eancia que iria contra a din\u00e2mica de auferir renda por meio da posse da terra, da especula\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os.<\/p>\n<p>Se analisada a cidade em sua totalidade, os padr\u00f5es gerais seguem existindo e cada regi\u00e3o possui sua voca\u00e7\u00e3o. Levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, o argumento da fragmenta\u00e7\u00e3o urbana poderia fazer pressupor a implanta\u00e7\u00e3o das sedes das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais no Graja\u00fa, bairro perif\u00e9rico e empobrecido, e de favelas no Jardim Europa, bairro de alta renda. N\u00e3o \u00e9 isso o que acontece. A remo\u00e7\u00e3o de quase todas as favelas da zona sudoeste tornou esse espa\u00e7o mais homog\u00eaneo. As distintas periferias se tornaram mais complexas e mantiveram sua tend\u00eancia \u00e0 heterogeneidade interna, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que se fragmentaram. Como ilustra\u00e7\u00e3o, basta fazer um exerc\u00edcio hist\u00f3rico: h\u00e1 50 anos, a morfologia urbana das periferias era composta por vilas ilhadas, separadas umas das outras por matas e vazios urbanos e ligadas por estradas prec\u00e1rias ou vias f\u00e9rreas. N\u00e3o seria este um exemplo mais bem acabado de fragmenta\u00e7\u00e3o urbana?<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o setor imobili\u00e1rio construiu uma s\u00e9rie de torres residenciais nas periferias. Esses lan\u00e7amentos contribu\u00edram para o argumento da fragmenta\u00e7\u00e3o. No entanto, h\u00e1 que se ressaltar que esses lan\u00e7amentos est\u00e3o destinados a poss\u00edveis compradores desses locais, havendo uma homologia entre o padr\u00e3o do empreendimento, os atributos simb\u00f3licos e a infraestrutura urbana. O argumento que se defende aqui \u00e9 o de que n\u00e3o basta verificar que em uma determinada localidade houve aumento de lan\u00e7amentos imobili\u00e1rios, mas sim a qual popula\u00e7\u00e3o esses lan\u00e7amentos pretendem atender. O setor imobili\u00e1rio \u00e9 o primeiro a saber que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver discrep\u00e2ncias entre o tipo do empreendimento e os atributos da localidade. H\u00e1 padr\u00f5es. O pragmatismo do mercado se adequa ao potencial de valoriza\u00e7\u00e3o de cada territ\u00f3rio. Por fim, o lan\u00e7amento de edif\u00edcios ou sobradinhos geminados pode incidir na complexifica\u00e7\u00e3o interna das periferias, mas n\u00e3o necessariamente muda o padr\u00e3o geral da cidade quando observada em sua totalidade.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o da terra, nas \u00faltimas d\u00e9cadas dois processos ocorreram em paralelo. Houve, por um lado, aumento geral do pre\u00e7o da terra (em todas as zonas da cidade) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda dos trabalhadores; por outro, eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do metro quadrado como uma onda que vai se expandindo a partir das centralidades, transformando sub\u00farbios em centro expandido (como o Tatuap\u00e9) e periferias em sub\u00farbios, provocando a expuls\u00e3o paulatina da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, que reatualizar\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o de novas periferias nas fronteiras do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo ou em munic\u00edpios da RMSP. Partindo desse padr\u00e3o geral, \u00e9 poss\u00edvel de serem observadas situa\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o, como favelas ou edif\u00edcios de m\u00e9dio padr\u00e3o. No entanto, essas situa\u00e7\u00f5es podem complexificar o padr\u00e3o geral, mas n\u00e3o substituem o padr\u00e3o centro-periferia (compreendendo o centro como a centralidade-sudoeste).<\/p>\n<p>Cabe ainda lembrar que os lan\u00e7amentos privados se adequam ao potencial de valoriza\u00e7\u00e3o da localidade onde est\u00e3o inseridos. Entre os lan\u00e7amentos atuais, h\u00e1 uma n\u00edtida diferen\u00e7a de pre\u00e7o e qualidade entre os edif\u00edcios localizados na Vila Matilde, bairro suburbano, e em Guaianases, bairro perif\u00e9rico, por exemplo. Para este artigo, ainda segue valendo o argumento utilizado por Yvonne Mautner (1999): o crescimento da periferia ocorreu concomitante \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado e por meio da incorpora\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os perif\u00e9ricos \u00e0 l\u00f3gica do capital atrav\u00e9s de um processo radial conc\u00eantrico de extens\u00e3o do espa\u00e7o urbano legal e consolidado. Segue na sequ\u00eancia do texto uma cena extra\u00edda do mundo social que serve como exemplo da reatualiza\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o radial-conc\u00eantrico, mesmo com o advento (e \u00e0s vezes por causa dele) de lan\u00e7amentos imobili\u00e1rios nas periferias:<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Cena 2 \u2013 Onde deu pra comprar<br \/>A rua onde se localiza a casa do meu av\u00f4 materno, oriundo de Alagoas, teve seus terrenos loteados no final da d\u00e9cada de 1940 em um bairro t\u00edpico da periferia de S\u00e3o Paulo. Aos poucos os terrenos foram sendo comprados por fam\u00edlias mineiras, cearenses, baianas, oriundas do interior paulista, dentre outras localidades. Com o passar do tempo, as condi\u00e7\u00f5es urbanas foram melhorando e as casas se consolidando. Nesse rinc\u00e3o da periferia leste, com o passar do tempo, algumas fam\u00edlias se mudaram. Outras alugaram suas casas. No entanto, a troca de popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o redundou em uma mudan\u00e7a no perfil socioecon\u00f4mico. Sa\u00edram pobres, entraram pobres.<br \/>As fam\u00edlias mais antigas que ficaram viram o n\u00famero de parentes crescer: nasceram filhos, netos, bisnetos da primeira gera\u00e7\u00e3o. Hoje, a fam\u00edlia extensa possui muito mais indiv\u00edduos que o n\u00facleo inicial. Com a impossibilidade de compra do im\u00f3vel pr\u00f3prio, as casas foram aumentando: um c\u00f4modo aqui, um puxadinho ali, uma constru\u00e7\u00e3o por sobre a laje\u2026 os quintais das casas deram lugar a pequenas habita\u00e7\u00f5es. No terreno onde inicialmente morava uma fam\u00edlia, hoje moram quatro. A periferia se adensou.<br \/>Roger e Ramiro s\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o dessa fam\u00edlia. Educados com muito esfor\u00e7o, batalharam na vida e conseguiram comprar seus im\u00f3veis pr\u00f3prios. Um comprou um pequeno apartamento em Mogi das Cruzes. Outro comprou um pequeno apartamento em Guarulhos. Eles seguem a tend\u00eancia de d\u00e9cadas atr\u00e1s, quando moradores desse bairro, ao buscarem comprar um terreno, s\u00f3 conseguiam faz\u00ea-lo em Itaquaquecetuba ou Suzano. Passam os anos e segue o processo de reatualiza\u00e7\u00e3o das periferias em paragens mais long\u00ednquas.<br \/>Nesse bairro, h\u00e1 tamb\u00e9m o caso de Wanny. Entrou na universidade pela pol\u00edtica de cotas, conseguiu um emprego est\u00e1vel e juntou um dinheiro. No ano de 2023, deu entrada em um apartamento a ser lan\u00e7ado ao lado da Linha 3-Vermelha do Metr\u00f4, pr\u00f3ximo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Artur Alvim.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os lan\u00e7amentos imobili\u00e1rios existentes perto de esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 e trem na periferia leste de S\u00e3o Paulo acabam sendo comprados em sua maior parte por moradores da pr\u00f3pria regi\u00e3o por meio de parcelas que provocam endividamento de longo prazo. Moradores de outras regi\u00f5es que compram algum desses im\u00f3veis o fazem na maioria das vezes para alugar. S\u00e3o raros os casos de moradores do centro tradicional ou da \u00e1rea central-sudoeste que foram morar na zona leste nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Cabe lembrar tamb\u00e9m que a demanda por moradia por parte dos moradores das periferias \u00e9 muito maior que a oferta apresentada por esses novos lan\u00e7amentos imobili\u00e1rios. Mais recorrente \u00e9 a compra de im\u00f3veis ou terrenos em munic\u00edpios vizinhos como Po\u00e1, Suzano, Guarulhos e Mogi das Cruzes, reatualizando processos de segrega\u00e7\u00e3o socioespacial. No entanto, o padr\u00e3o segue sendo o de adensamento da casa da pr\u00f3pria fam\u00edlia, dada a impossibilidade de compra de im\u00f3vel que assola a juventude contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Outro exemplo evidente de que as periferias s\u00e3o heterog\u00eaneas seguindo uma l\u00f3gica radial-conc\u00eantrica de n\u00e3o fragmenta\u00e7\u00e3o pode ser observado nas recorrentes enchentes do bairro do Jardim Pantanal, no extremo leste de S\u00e3o Paulo[12]. A condescend\u00eancia social com uma trag\u00e9dia de tamanhas propor\u00e7\u00f5es e que se repete h\u00e1 trinta anos se deve \u00e0 sua localiza\u00e7\u00e3o na fronteira do munic\u00edpio. Ainda outro exemplo elucidativo \u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o por parte da Prefeitura Municipal de S\u00e3o Paulo de um incinerador de lixo no bairro de S\u00e3o Mateus, em outra extremidade da zona leste de S\u00e3o Paulo. A obra trar\u00e1 danos ambientais, sociais e humanos[13].<\/p>\n<p>Ambos os casos evidenciam uma l\u00f3gica perversa de tratamento dos territ\u00f3rios perif\u00e9ricos e dos seus habitantes. Essa l\u00f3gica \u00e9 levada a cabo pelo poder p\u00fablico atendendo interesses privados e contando com a anu\u00eancia de setores hegem\u00f4nicos da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, fundamentalmente da m\u00eddia. Jamais enchentes perdurariam por trinta anos ou um incinerador de lixo seria constru\u00eddo no centro de S\u00e3o Paulo ou na zona sudoeste. A l\u00f3gica centro-periferia segue operando de maneira evidente.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 8 \u2013 \u201cCondom\u00ednios fechados e favelas est\u00e3o lado a lado. O padr\u00e3o centro- periferia j\u00e1 n\u00e3o explica\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Correlato ao argumento da fragmenta\u00e7\u00e3o urbana, ganhou for\u00e7a o argumento de que condom\u00ednios fechados e bairros pobres passaram a conviver lado a lado. Este argumento sustenta que o padr\u00e3o centro-periferia j\u00e1 n\u00e3o seria condizente com os novos padr\u00f5es de urbaniza\u00e7\u00e3o da cidade de S\u00e3o Paulo. A obra que mais propagou este argumento foi Cidade de Muros, de Teresa Caldeira (2000). O livro acerta ao apontar como os muros passaram a ser mobilizados por todas as classes sociais. No entanto, a principal tese extra\u00edda do livro foi a dos enclaves fortificados, na qual a prolifera\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios fechados, muitas vezes ao lado de \u00e1reas pobres, teria substitu\u00eddo o padr\u00e3o centro-periferia.<\/p>\n<p>No entanto, para validar ou invalidar o argumento de que os condom\u00ednios fechados e as favelas convivem lado a lado, \u00e9 importante saber onde se localizam a maioria dos condom\u00ednios fechados e a maioria das favelas no munic\u00edpio. Cabe novamente lembrar: em S\u00e3o Paulo, o oposto da periferia \u00e9 a centralidade-sudoeste, e n\u00e3o o centro tradicional.<\/p>\n<p>Tendo por base padr\u00f5es de macrossegrega\u00e7\u00e3o, pode-se observar que a maioria[14] dos edif\u00edcios de alto padr\u00e3o se localiza na zona sudoeste, seguindo o vetor de expans\u00e3o sudoeste da riqueza. Essa regi\u00e3o tamb\u00e9m abriga condom\u00ednios fechados, ainda que os condom\u00ednios de maior porte se localizem em munic\u00edpios como Cotia e Barueri, a oeste da RMSP. Existe uma l\u00f3gica nessas localiza\u00e7\u00f5es. Por serem planejados com \u00e1reas verdes, casas espa\u00e7osas e seguran\u00e7a, os condom\u00ednios fechados existentes ao lado das Rodovias Raposo Tavares e Castelo Branco garantem aos seus habitantes os atributos desejados, al\u00e9m de propiciarem uma sa\u00edda r\u00e1pida para a zona sudoeste de S\u00e3o Paulo, onde se localizam os postos de trabalho de maior qualifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o produ\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias estrat\u00e9gicas voltadas a atender uma clientela espec\u00edfica. Como ensina Fl\u00e1vio Villa\u00e7a (1998), o setor imobili\u00e1rio cria regi\u00f5es, mas \u00e9 a burguesia que escolhe qual quer ocupar. O condom\u00ednio Alphaville deu certo porque existia uma l\u00f3gica de ocupa\u00e7\u00e3o nessa regi\u00e3o. A Cidade Patriarca e bairros ao redor do Parque do Carmo, ambos na zona leste, n\u00e3o deram certo, mesmo que empresas do setor imobili\u00e1rio tenham investido nesses bairros. Condom\u00ednios fechados ao lado das Rodovias Ayrton Senna e Presidente Dutra, em munic\u00edpios a leste da RMSP, s\u00e3o menores e para um p\u00fablico menos abastado que o dos seus similares nos munic\u00edpios da regi\u00e3o oeste da RMSP.<\/p>\n<p>Da mesma maneira como a localiza\u00e7\u00e3o dos condom\u00ednios fechados obedece a um padr\u00e3o hist\u00f3rico de localiza\u00e7\u00e3o das classes sociais na cidade de S\u00e3o Paulo, a localiza\u00e7\u00e3o das favelas tamb\u00e9m. Como pode ser observado no Mapa 2, a maioria das favelas se localiza nas periferias.<\/p>\n<p>Se no passado as favelas na regi\u00e3o central eram numerosas, com o passar do tempo, foram sendo removidas, uma a uma: favela do Vergueiro, da V\u00e1rzea do Penteado, do Canind\u00e9, dentre outras. O mesmo ocorre com as favelas da zona sudoeste. Nos \u00faltimos trinta anos, houve um processo bem documentado de remo\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de favelas existentes na regi\u00e3o (Fix, 2001; 2007; D\u2019Andrea, 2012): Coliseu, Vietn\u00e3, Jardim Edite, \u00c1gua Espraiada e Real Parque. A tend\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 que todas as favelas da zona sudoeste desapare\u00e7am, seguindo o projeto de homogeneiza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o onde habitam as camadas de alta renda. Esse processo acentua o padr\u00e3o centro-periferia.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o caso da favela Parais\u00f3polis, que s\u00f3 n\u00e3o foi removida por conta de seu gigantismo e organiza\u00e7\u00e3o. No entanto, essa favela \u00e9 constantemente amea\u00e7ada[15]. Seu caso \u00e9 o mais emblem\u00e1tico do argumento de \u201criqueza e pobreza que convivem lado a lado\u201d. A foto do edif\u00edcio de alto padr\u00e3o ao lado da favela \u00e9 emblem\u00e1tica ao denunciar a desigualdade. O problema foi o argumento equivocado que se construiu a partir dela, que afirma a exist\u00eancia de favelas no centro e, logo, a indistin\u00e7\u00e3o entre um centro pobre e as periferias.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"582\" height=\"876\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-24.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-24.png 582w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/28135012\/image-24-199x300.png 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 582px) 100vw, 582px\"><figcaption>Mapa 2. Distribui\u00e7\u00e3o das favelas no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando surgiu, entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1940, Parais\u00f3polis se localizava muito distante do centro de S\u00e3o Paulo[16], em uma periferia semirrural. A partir da d\u00e9cada de 1960, construtoras passaram a ditar a l\u00f3gica da urbaniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o do Morumbi. O aumento das oportunidades de trabalho na constru\u00e7\u00e3o civil produziu um aumento populacional na favela. Vale ressaltar: Parais\u00f3polis chegou primeiro.<\/p>\n<p>As mans\u00f5es chegaram depois. O encontro de riqueza e pobreza no Morumbi se deve \u00e0 expans\u00e3o da riqueza pelo vetor sudoeste que se chocou com \u00e1reas de pobreza j\u00e1 assentadas. A riqueza localizada no bairro \u00e9 a express\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o que quis fugir do centro tradicional e da zona sudoeste e se refugiar no bucolismo das \u00e1reas localizadas na margem esquerda do Rio Pinheiros. O esfor\u00e7o de trazer uma centralidade para perto de suas resid\u00eancias, expresso na produ\u00e7\u00e3o da Avenida Faria Lima e arredores, aproximou o trabalho da resid\u00eancia dos mais abastados. Essa transforma\u00e7\u00e3o urbana n\u00e3o fez do Morumbi um centro. A centralidade-sudoeste se localiza na margem direita do Rio Pinheiros.<\/p>\n<p>Contudo, houve uma generaliza\u00e7\u00e3o discursiva do caso de Parais\u00f3polis\/ Morumbi. O argumento da vizinhan\u00e7a entre condom\u00ednios fechados e favelas inflou as narrativas da microssegrega\u00e7\u00e3o. A exce\u00e7\u00e3o virou regra. O resultado foi, nova- mente, a invisibiliza\u00e7\u00e3o das periferias, resultantes de um padr\u00e3o hist\u00f3rico e estrutural de urbaniza\u00e7\u00e3o que argumentos fragment\u00e1rios querem ocultar. O maior, mais duradouro e eficaz elemento segregador na cidade de S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 o muro. S\u00e3o Paulo \u00e9 a cidade das dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que, no mesmo per\u00edodo hist\u00f3rico de lan\u00e7amento dos condom\u00ednios fechados e de sua hipervisibiliza\u00e7\u00e3o, ocorria um consider\u00e1vel aumento demogr\u00e1fico nos distritos fronteiri\u00e7os do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo (Torres, 2005). Com mais peso demogr\u00e1fico, esse crescimento revelador de padr\u00f5es de macrossegrega\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi t\u00e3o tematizado enquanto estudo.<\/p>\n<p><strong><em>Argumento 9 \u2013 \u201cA multiplicidade de periferias\u201d<br \/>Contra-argumento<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Outro argumento que tem contribu\u00eddo para a tentativa de relativiza\u00e7\u00e3o de periferia \u00e9 aquele que advoga a exist\u00eancia de m\u00faltiplas periferias. Neste caso, a dilui\u00e7\u00e3o ocorreria pela via do excesso de casos, e n\u00e3o pela falta de especificidade das periferias urbanas, como em alguns exemplos anteriores. Dentre outras, talvez a obra que melhor exponha este argumento seja Periferias no Plural (Ramos et al., 2023). Cabe ressaltar a amplitude e a qualidade da pesquisa. No entanto, a proposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica merece ser aprofundada.<\/p>\n<p>Neste ponto, cabe lembrar que o conceito periferia utilizado para definir uma condi\u00e7\u00e3o urbana deriva do conceito periferia do capitalismo. Por exemplo, na d\u00e9cada de 1960, debater o urbano passava necessariamente por discutir imperialismo e depend\u00eancia (Kowarick, 1993; Oliveira, 2003). Ambas as maneiras de compreender periferia est\u00e3o imbricadas. Possuem densidade te\u00f3rica e historicidade. O argumento que este artigo defende n\u00e3o \u00e9 o de que outros usos de periferia n\u00e3o sejam poss\u00edveis. Contudo, h\u00e1 que se ter cuidado para que os usos desejados n\u00e3o se tornem invoca\u00e7\u00f5es metaf\u00f3ricas e, curiosamente, desterritorializadas. Al\u00e9m disso, a multiplica\u00e7\u00e3o infinita de usos de periferia pode redundar em um esvaziamento completo dos sentidos atribu\u00eddos, sejam eles quais forem. Quando tudo \u00e9 periferia, nada \u00e9 periferia.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 que se considerar que o conceito periferia est\u00e1 impregnado de urbano. Sujeita e sujeitos perif\u00e9ricos s\u00e3o produtos de din\u00e2micas sociais e urbanas espec\u00edficas ocorridas em um dado tempo hist\u00f3rico (D\u00b4Andrea, 2022). Se sujeito perif\u00e9rico for transformado naquele que se autoidentifica como perif\u00e9rico, h\u00e1 a possibilidade de um alargamento infinito dos significados, resultando no oposto do que foi proposto pelo conceito.<\/p>\n<h3><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h3>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, houve uma mudan\u00e7a na maneira de produzir conhecimento, atingindo v\u00e1rias \u00e1reas de estudo. Uma das caracter\u00edsticas dessa mudan\u00e7a foi a prioriza\u00e7\u00e3o de estudos que enfatizam microescalas em detrimento de esfor\u00e7os que buscam compreender as rela\u00e7\u00f5es entre as partes de uma totalidade. Os estudos urbanos n\u00e3o escaparam dessa tend\u00eancia, privilegiando casos de microssegrega\u00e7\u00e3o. Por um lado, \u00e9 fato que essas pesquisas auxiliaram na compreens\u00e3o de conflitos locais n\u00e3o t\u00e3o percept\u00edveis por perspectivas macroestruturais, e s\u00e3o fundamentais. No entanto, aos poucos, foi se perdendo a capacidade de an\u00e1lise relacional entre \u00e1reas de uma mesma metr\u00f3pole, e das rela\u00e7\u00f5es espaciais entre elas vinculadas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es organizadas pelo conflito entre classes sociais. Esmiu\u00e7ar as diferen\u00e7as dentro de um bairro habitado por uma mesma classe social passou a ser mais recorrente do que compreender din\u00e2micas entre zonas habitadas por classes sociais distintas. \u00c9 fato que as cidades mudaram. Mas, de maneira mais veloz, mudou a maneira de estudar as cidades.<\/p>\n<p>Uma das express\u00f5es dessa mudan\u00e7a \u00e9 a \u00eanfase metodol\u00f3gica no trabalho de campo fixado em dado local e que deixa escapar uma experi\u00eancia fundamental para a grande maioria dos trabalhadores das periferias: os longos trajetos pela cidade. Estes s\u00e3o a express\u00e3o da marcada segrega\u00e7\u00e3o socioespacial (verificada na dist\u00e2ncia entre ricos e pobres e entre moradias e postos de trabalho), convertida em tempo de deslocamento e que estrutura as rela\u00e7\u00f5es sociais e urbanas. O tempo perdido no tempo de deslocamento \u00e9 a m\u00e1xima express\u00e3o da derrota no jogo urbano. Cabe lembrar que um dos objetivos da burguesia ao concentrar em espa\u00e7os pr\u00f3ximos seus locais de moradia e de trabalho \u00e9 diminuir ao m\u00e1ximo o tempo de deslocamento. A luta pelo espa\u00e7o \u00e9 tamb\u00e9m a luta pelo tempo. Este argumento est\u00e1 fundamentado na obra do ge\u00f3grafo David Harvey (2002; 2005) e, no caso brasileiro, foi exemplificado por Fl\u00e1vio Villa\u00e7a (1998).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que uma s\u00e9rie de intelectuais perif\u00e9ricos especialistas em estudos urbanos tenha o tema como prioridade. Para moradores da periferia, essa \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental, partindo do princ\u00edpio metodol\u00f3gico de que h\u00e1 que se compreender o local, mas principalmente h\u00e1 que se olhar a totalidade a partir do local, ou a cidade vista da periferia.<\/p>\n<p>Ricardo Silva (2024) aponta como o tempo de deslocamento entre moradia e trabalho \u00e9 um fator fundamental de segrega\u00e7\u00e3o social, espacial, temporal e racial. Na mesma senda, Sandro Oliveira (2021) demonstra como o centro tradicional e a zona sudoeste seguem sendo os destinos principais de moradores das periferias leste e sul nos trajetos ao trabalho. Carolina Freitas (2021) demonstra como trabalhadoras jovens, moradoras de Itaquera, se deslocam mais pela cidade do que a gera\u00e7\u00e3o de suas m\u00e3es. Esse fen\u00f4meno se relacionaria com a diminui\u00e7\u00e3o da oferta de empregos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que existem microssegrega\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo. No entanto, o principal padr\u00e3o, estrutural e hist\u00f3rico, continua sendo a disparidade entre uma \u00e1rea coesa onde habita a burguesia e a classe m\u00e9dia e periferias empobrecidas, separadas por \u00e1reas suburbanas intermedi\u00e1rias. A exist\u00eancia de \u00e1reas urbanas muito grandes e empobrecidas, as quais conceituamos como periferia, \u00e9 um desdobramento l\u00f3gico da estrutura\u00e7\u00e3o das cidades em sociedades capitalistas. Se a sociedade concentra riqueza, a cidade tamb\u00e9m ir\u00e1 concentrar riqueza em uma determinada \u00e1rea. A cidade \u00e9 uma express\u00e3o da sociedade. Para sair desta l\u00f3gica, somente com produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o equ\u00e2nime de riqueza entre todos os espa\u00e7os.<\/p>\n<p>No que tange \u00e0s din\u00e2micas internas da periferia, houve evidentes melhorias infraestruturais, em indicadores sociais e em n\u00edveis de emprego e renda entre os anos 2000 e 2015. Ditas melhorias em dado momento hist\u00f3rico t\u00eam embasado argumentos sobre a inexist\u00eancia da periferia. Entretanto, cabe ressaltar que problemas estruturais n\u00e3o foram resolvidos. Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil afirmar que as desigualdades diminu\u00edram, dado que os ganhos dos mais pobres aconteceram em paralelo aos ganhos da burguesia.<\/p>\n<p>Cabe ainda lembrar que, a partir de 2016, mandatos de direita nas tr\u00eas esferas governamentais aprofundaram pol\u00edticas neoliberais e, com a contribui\u00e7\u00e3o do contexto pand\u00eamico, fizeram reverter ganhos obtidos no per\u00edodo anterior. Todas as pesquisas citadas realizadas por intelectuais das periferias demonstram uma piora na qualidade de vida de moradores desses territ\u00f3rios na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Sobre o tema, cabe apresentar dois casos. O distrito de Itaquera, apontado como s\u00edmbolo do \u201cdesaparecimento\u201d da condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, estava na 91\u00aa coloca\u00e7\u00e3o entre os 96 distritos de S\u00e3o Paulo no ano de 2023 em \u00edndices de sa\u00fade. Outros \u00edndices tamb\u00e9m apontam a persistente precariedade de Itaquera (Rede Nossa S\u00e3o Paulo, 2024). No mesmo per\u00edodo, uma s\u00e9rie de reportagens chamou a aten\u00e7\u00e3o par a decad\u00eancia do bairro do Morumbi, aos poucos sendo abandonado por ex-moradores de alta renda[17]. No Brasil, a microssegrega\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta a longo prazo. Quando os ricos n\u00e3o conseguem expulsar os pobres, s\u00e3o eles que se mudam.<\/p>\n<p>Por fim, cabe uma reflex\u00e3o sobre a maneira como se est\u00e1 produzindo ci\u00eancia sobre o urbano. A busca pela novidade tem ocultado processos estruturais. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio diferenciar din\u00e2micas fundamentais e secund\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, um importante processo social que abarcou in\u00fameros agentes tem pautado a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de periferias e favelas em todo o Brasil. \u00c9 curioso como, no mesmo momento hist\u00f3rico em que moradores das periferias conseguem pautar publicamente problem\u00e1ticas espec\u00edficas das periferias, uma s\u00e9rie de estudos urbanos tenta invalidar a condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica e, por extens\u00e3o, a pr\u00f3pria exist\u00eancia da periferia. Esse processo diz mais sobre a forma como o conhecimento est\u00e1 sendo produzido do que sobre as cidades[18]. \u00c0 medida em que os estudos urbanos abrandam as contradi\u00e7\u00f5es, mais se afastam da realidade. Esta din\u00e2mica tem como contrapartida a desconfian\u00e7a da sociedade com rela\u00e7\u00e3o ao conhecimento que \u00e9 produzido. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o avan\u00e7o da consci\u00eancia de pertencimento com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 periferia tenha se dado principalmente em \u00e2mbitos externos \u00e0 uni- versidade. Foi por meio da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e dos movimentos populares que sujeitas e sujeitos perif\u00e9ricos se afirmaram. Do universo da juventude perif\u00e9rica, ainda \u00e9 pequeno o n\u00famero dos que conseguiram acessar a universidade. Em paralelo, a presen\u00e7a de moradores da periferia ainda \u00e9 pequena se comparada ao universo dos estudantes de ensino superior das universidades p\u00fablicas. Por mais que este setor tenha feito circular algo de sua produ\u00e7\u00e3o, as explica\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas sobre o urbano seguem concentradas entre os pares da classe m\u00e9dia intelectualizada, que det\u00eam os meios de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento leg\u00edtimo, expressos na concentra\u00e7\u00e3o de poder na estrutura acad\u00eamica, no acesso a fontes de recursos, na consolida\u00e7\u00e3o de grupos de pesquisa e em todo um aparato que viabiliza que suas produ\u00e7\u00f5es tenham maior circula\u00e7\u00e3o. Este setor, muito pr\u00f3ximo no espa\u00e7o social e urbano e que concentra poder acad\u00eamico, dificulta que estudiosos com experi\u00eancias urbanas distintas circulem suas pesquisas. Um dos desdobramentos desse processo \u00e9 o fato do conhecimento hegem\u00f4nico tornar-se ideol\u00f3gico, na medida em que a parte quer falar pelo todo a partir de seu ponto de vista. Esta distor\u00e7\u00e3o s\u00f3 deixar\u00e1 de acontecer quando, de fato, toda a periferia estiver na universidade. Para tanto, \u00e9 necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a estrutural no acesso ao ensino superior. Enquanto esse momento n\u00e3o chega, moradoras e moradores da periferia seguir\u00e3o demonstrando a dualidade de sua condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, expressa na den\u00fancia das desigualdades territoriais e na pot\u00eancia de suas mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. A periferia existe. Triste do tempo em que \u00e9 necess\u00e1rio defender o \u00f3bvio.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<hr>\n<p>ALMEIDA, R. S. Juventude e participa\u00e7\u00e3o: novas formas de atua\u00e7\u00e3o juvenil na cidade de S\u00e3o Paulo. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Ci\u00eancias Sociais) \u2013 PUC\/SP, S\u00e3o Paulo, 2009.<\/p>\n<p>BOLAFFI, G. Habita\u00e7\u00e3o e urbanismo: o problema e o falso problema. In: MARICATO, E. (Org.). A produ\u00e7\u00e3o capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. S\u00e3o Paulo: Editora Alfa- Omega, 1982. p. 37-70.<\/p>\n<p>BRASIL DE FATO. Cooperifa. 14\/02 a 20\/02 de 2013. Edi\u00e7\u00e3o impressa.<\/p>\n<p>BRITO, G. Depois que o barro acaba: cultura e novas utopias nas periferias de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) \u2013 FAU-USP, S\u00e3o Paulo, 2021.<\/p>\n<p>CALDEIRA. T. P. R. Cidade de muros. Crime, segrega\u00e7\u00e3o e cidadania em S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo: Edusp, 2000.<\/p>\n<p>COSTA, N. L. Quem \u00e9 negra\/o no Brasil?. S\u00e3o Paulo: Dandara Editora, 2020.<\/p>\n<p>D\u2019ANDREA, T. P. O real panorama da polis: conflitos na produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o em favelas loca- lizadas em bairros de elite de S\u00e3o Paulo. PosFAUUSP, S\u00e3o Paulo, v. 19, n. 31, p. 44-65, 2012.<\/p>\n<p>. Contribui\u00e7\u00f5es para a defini\u00e7\u00e3o dos conceitos periferia e sujeitas e sujeitos perif\u00e9ricos. Novos Estudos Cebrap, ed. 116, v. 39, n. 1, p. 19-36, jan.-abr. 2020.<\/p>\n<p>. A forma\u00e7\u00e3o das sujeitas e dos sujeitos perif\u00e9ricos: cultura e pol\u00edtica na periferia de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo: Dandara Editora, 2022.<\/p>\n<p>FIX, M. Parceiros da exclus\u00e3o: duas hist\u00f3rias da constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova cidade\u201d em S\u00e3o Paulo: Faria Lima e \u00c1gua Espraiada. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2001.<\/p>\n<p>. S\u00e3o Paulo cidade global: fundamentos financeiros de uma miragem. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2007.<\/p>\n<p>F\u00d3RUM DE CULTURA DA ZONA LESTE. Nenhum passo atr\u00e1s!. S\u00e3o Paulo: Forma Certa Gr\u00e1fica Digital, 2019.<\/p>\n<p>FRAN\u00c7A, D. Desigualdades e segrega\u00e7\u00e3o residencial por ra\u00e7a e classe. In: MARQUES, E. (Org.). A metr\u00f3pole de S\u00e3o Paulo no s\u00e9culo XXI: espa\u00e7os, heterogeneidades e desigualdades. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2015. p. 223-253.<\/p>\n<p>FREITAS, C. A. O. Mulheres e periferias como fronteiras: o tempo-espa\u00e7o das moradoras do Conjunto Habitacional Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio. S\u00e3o Paulo: FAU-USP, 2021.<\/p>\n<p>FR\u00daGOLI JR., H. Centralidade em S\u00e3o Paulo: trajet\u00f3rias, conflitos e negocia\u00e7\u00f5es na metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo: Edusp, 2006.<\/p>\n<p>HARVEY. D. Condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2002.<\/p>\n<p>. A produ\u00e7\u00e3o capitalista do espa\u00e7o. S\u00e3o Paulo: Annablume, 2005.<\/p>\n<p>JESUS, M. A margem da cultura: o conceito de periferia na aplica\u00e7\u00e3o da Lei 16.496\/2016 em S\u00e3o Paulo \u2013 SP. Monografia (Licenciatura em Geografia) \u2013 Instituto Federal de S\u00e3o Paulo, 2017.<\/p>\n<p>KOWARICK, L. A espolia\u00e7\u00e3o urbana. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1993.<\/p>\n<p>. Viver em risco. Sobre a vulnerabilidade socioecon\u00f4mica e civil. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 2009.<\/p>\n<p>MARQUES, E. Os espa\u00e7os sociais da metr\u00f3pole nos anos 2000. In: MARQUES, E. (Org.). A me- tr\u00f3pole de S\u00e3o Paulo no s\u00e9culo XXI: espa\u00e7os, heterogeneidades e desigualdades. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2015. p. 173-198.<\/p>\n<p>MATTOS, M. B. A classe trabalhadora de Marx ao nosso tempo. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2019.<\/p>\n<p>MAUTNER, Y. A periferia como fronteira de expans\u00e3o do capital. In: DE\u00c1K, C.; SCHIFFER, S. R. (Orgs.). O processo de urbaniza\u00e7\u00e3o no Brasil. S\u00e3o Paulo: Edusp, 1999. p. 245-260.<\/p>\n<p>MERKLEN. D. Pourquoi br\u00fble-t-on des biblioth\u00e8ques?. Villeurbanne: Presses de l\u2019Enssib, 2013.<\/p>\n<p>MORAIS, A. O aluguel e as transforma\u00e7\u00f5es na periferia de S\u00e3o Paulo na d\u00e9cada de 2010: o caso do Jardim Maced\u00f4nia. Qualifica\u00e7\u00e3o (Mestrado em Planejamento Urbano e Regional) \u2013 FAU-USP, S\u00e3o Paulo, 2023.<\/p>\n<p>OLIVEIRA, D. (Org). Periferias insurgentes: a\u00e7\u00f5es culturais de jovens nas periferias de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo: Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade de S\u00e3o Paulo, 2021.<\/p>\n<p>OLIVEIRA, F. Critica \u00e0 raz\u00e3o dualista \/ O ornitorrinco. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2003.<\/p>\n<p>OLIVEIRA, S. B. Transporte e mobilidade na periferia de S\u00e3o Paulo: uma condi\u00e7\u00e3o socioespa- cial da desigualdade urbana. In: D\u2019ANDREA, T. P. (Org.). Reflex\u00f5es perif\u00e9ricas: propostas em movimento para a reinven\u00e7\u00e3o das quebradas. S\u00e3o Paulo: Dandara Editora; Centro de Estudos Perif\u00e9ricos, 2021. p. 139-166.<\/p>\n<p>PE\u00c7ANHA, E. \u00c9 tudo nosso! Produ\u00e7\u00e3o cultural na periferia paulistana. Tese (Doutorado em Antropologia Social) \u2013 FFLCH-USP, S\u00e3o Paulo, 2011.<\/p>\n<p>RAIMUNDO, S. L. Territ\u00f3rio, cultura e pol\u00edtica: movimento cultural das periferias, resist\u00eancia e cidade desejada. Tese (Geografia Humana) \u2013 FFLCH-USP, S\u00e3o Paulo, 2017.<\/p>\n<p>RAMOS, P. C. et al. (Orgs.). Periferias no plural. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2023.<\/p>\n<p>REDE NOSSA S\u00c3O PAULO. \u201cMapa da Desigualdade 2024 \u2013 Ranking\u201d. Rede Nossa S\u00e3o Paulo, 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/institutocidadessustentaveis.shinyapps.io\/mapadesigual- dadesaopaulo2024\/, 2024.<\/p>\n<p>SANTOS, M. Metr\u00f3pole corporativa fragmentada: o caso de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo: Edusp, 2019.<\/p>\n<p>SANTOS JUNIOR, J. 1, 2, 3\u2026 Slam da Guilhermina!: a pr\u00e1tica do slam e a forma\u00e7\u00e3o de f\u00f3runs po\u00e9ticos perif\u00e9ricos. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Mudan\u00e7a Social e Participa\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica) \u2013 EACH-USP, S\u00e3o Paulo, 2023.<\/p>\n<p>SILVA, B. B. \u201cFaz isso por n\u00f3is, faz essa por n\u00f3is\u201d: reflex\u00f5es sobre a periferia como sistema cultural e a universidade p\u00fablica contempor\u00e2nea. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Mudan\u00e7a Social e Participa\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica) \u2013 EACH-USP, S\u00e3o Paulo, 2019.<\/p>\n<p>. Segrega\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-temporal: tempo de deslocamento que une e separa classes e ra\u00e7as. Cadernos Metr\u00f3pole, S\u00e3o Paulo, v. 26, n. 60, p. 637-661, 2024.<\/p>\n<p>TORRES, H. A fronteira paulistana. In: MARQUES, E.; TORRES, H. (Orgs.). S\u00e3o Paulo: segrega\u00e7\u00e3o, pobreza e desigualdades sociais. S\u00e3o Paulo: Editora Senac, 2005. p. 101-119.<\/p>\n<p>VILLA\u00c7A, F. Espa\u00e7o intraurbano no Brasil. S\u00e3o Paulo: Studio Nobel, 1998.<\/p>\n<p>. Reflex\u00f5es sobre as cidades brasileiras. S\u00e3o Paulo: Studio Nobel, 2012.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>[1] Agrade\u00e7o a leitura generosa e os coment\u00e1rios realizados pelas irm\u00e3s e irm\u00e3os do Centro de Estudos Perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>[2] \u201cPeriferia\u201d, quando grafada em it\u00e1lico, indica um conceito. \u201cPeriferia\u201d, no singular e sem it\u00e1lico, indica um dado espa\u00e7o geogr\u00e1fico, ainda que por vezes indique de maneira geral distintos espa\u00e7os geogr\u00e1ficos com caracter\u00edsticas similares. \u201cPeriferias\u201d, no plural e sem it\u00e1lico, indica territ\u00f3rios distintos, mas com caracter\u00edsticas similares.<\/p>\n<p>[3] 3Defiwic\u00e3o quawtitatiza \u00e9 a delimita\u00e7\u00e3o de periferia baseada em limites geogr\u00e1ficos e dados socioeco-n\u00f4micos (D\u2019Andrea, 2020).<\/p>\n<p>[4] Autores da sociologia urbana francesa apontam como as representa\u00e7\u00f5es sobre as periferias urbanas fazem parte de uma disputa pol\u00edtica que inclui a universidade, o Estado, a m\u00eddia, a cultura, o senso comum e os pr\u00f3prios moradores, organizados ou n\u00e3o. Sobre o tema, sugere-se a obra Refaire la Cit\u00e9, de Michel Kokoreff e Didier Lapeyronnie. Paris: Editions du Seuil et R\u00e9publique des Id\u00e9es, 2013.<\/p>\n<p>[5] Os dois mapas apresentados neste artigo foram elaborados por Carina Serra e Erm\u00ednia Maricato a partir de dados da SMDU e da Sempla. Agrade\u00e7o a generosidade da cess\u00e3o.<\/p>\n<p>[6] O Mapa 1 apresenta os locais com maior vulnerabilidade na RMSP (ainda que as periferias sejam compostas por outras regi\u00f5es vulner\u00e1veis); o centro tradicional (ao centro do mapa) e a centralidade-su- doeste (onde se localiza de maneira mais expressiva os empregos e a renda).<\/p>\n<p>[7] Essa infraestrutura urbana se expressa na presen\u00e7a massiva de transporte p\u00fablico (\u00f4nibus, metr\u00f4s e trens), na oferta de empregos, na presen\u00e7a comercial, na oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos, entre outros elementos que, urbanisticamente, diferenciam o centro tradicional e a periferia, fazendo esta ser depen- dente daquele.<\/p>\n<p>[8] S\u00e3o eles: Br\u00e1s, Pari, S\u00e9 e Bom Retiro. Se agregados todos os outros distritos circundantes (Bela Vista, Cambuci, Consola\u00e7\u00e3o, Liberdade, Rep\u00fablica, Santa Cec\u00edlia e S\u00e9), a popula\u00e7\u00e3o subiria para consider\u00e1veis 477.660, ainda assim 12 vezes menor que a popula\u00e7\u00e3o moradora nas periferias (https:\/\/censo2010.ibge. gov.br).<\/p>\n<p>[9] As cenas aqui utilizadas s\u00e3o ferramentas metodol\u00f3gicas. Extra\u00eddas do mundo social, relatam acon- tecimentos que ajudam a exemplificar os argumentos e a constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Uma fundamenta\u00e7\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o das cenas como m\u00e9todo sociol\u00f3gico se encontra na tese do autor deste artigo (D\u2019ANDREA, 2013, p. 33). D\u2019ANDREA, T. P. A forma\u00e7\u00e3o dos sujeitos perif\u00e9ricos: cultura e pol\u00edtica na periferia de S\u00e3o Paulo. 2013. Tese (Doutorado em Sociologia) \u2013 Departamento de Sociologia, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2013.<\/p>\n<p>[10] Cabe lembrar o coment\u00e1rio do ent\u00e3o coronel da pol\u00edcia que expressa a pr\u00e1tica da corpora\u00e7\u00e3o de diferenciar a periferia como o l\u00e1 e os Jardins como o aqui. Sobre o assunto, ver: https:\/\/noticias.uol.com. br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2017\/08\/24\/abordagem-no-jardins-e-na-periferia-tem-de-ser-diferente-diz-novo-comandante-da-rota.htm.<\/p>\n<p>[11] Mixit\u00e9 \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica parisiense que visa misturar diferentes n\u00edveis de renda nos diversos distritos da cidade. Essa pol\u00edtica p\u00fablica conseguiu avan\u00e7os residuais, mas n\u00e3o alterou padr\u00f5es estruturais da segrega\u00e7\u00e3o socioespacial entre distintos grupos sociais na cidade e em sua rela\u00e7\u00e3o com os munic\u00edpios vizinhos. Sobre o assunto, sugere-se a obra Sociologie de Paris, de Michel Pin\u00e7on e Monique Pin\u00e7on-Charlot. Paris: La D\u00e9couverte, 2014.<\/p>\n<p>[12] https:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2025\/02\/03\/jardim-pantanal-bairro-de-sao-paulo-com- pleta-3-dias-debaixo-dagua.ghtml.<\/p>\n<p>[13] No ano de 2024 o Prefeito de S\u00e3o Paulo, Ricardo Nunes (MDB), apresentou o Projeto de Lei 799\/2024, que altera o Plano Diretor da cidade, transformando uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o ambiental em aterro sanit\u00e1rio. A obra prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de um incinerador e o corte de 10 mil \u00e1rvores. Dispon\u00edvel em: https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2024\/12\/19\/projeto-arvores-aterro-sp-votos.ghtml.<\/p>\n<p>[14] Os bairros do Tatuap\u00e9 e de Santana se constituem como exce\u00e7\u00f5es que confirmam a regra. S\u00e3o bairros com edif\u00edcios de alto-padr\u00e3o n\u00e3o localizados na zona sudoeste, mas no interior da \u00e1rea central-sudoeste. O investimento realizado pelo setor imobili\u00e1rio nesses bairros s\u00f3 ocorreu por ambos possu\u00edrem de antem\u00e3o potencial de valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[15] Dada a impossibilidade de remo\u00e7\u00e3o da favela, historicamente foram criadas in\u00fameras t\u00e1ticas de imobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dessa popula\u00e7\u00e3o: amea\u00e7as de remo\u00e7\u00e3o; Opera\u00e7\u00e3o Satura\u00e7\u00e3o; presen\u00e7a de ONGS; inc\u00eandios criminosos; cobran\u00e7a de \u00e1gua e de luz; assassinato de jovens; plano de urbaniza\u00e7\u00e3o; entre outros expedientes (D\u2019Andrea, 2012).<\/p>\n<p>[16] Quando morei em Parais\u00f3polis nos anos de 2005 e 2006, me deslocava at\u00e9 o local por meio da linha 6412-10. Da regi\u00e3o da Paulista at\u00e9 Parais\u00f3polis, demorava-se mais de uma hora em deslocamento. Do centro tradicional, o tempo gasto era ainda maior. As condi\u00e7\u00f5es de acessibilidade comprovavam que Parais\u00f3polis n\u00e3o est\u00e1 em \u00e1rea central.<\/p>\n<p>[17] Sobre o tema, ver https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2024\/04\/retrato-da-desigualdade-pre- dio-com-piscinas-nas-sacadas-reflete-decadencia-do-morumbi.shtml e \u201cO decl\u00ednio do Morumbi\u201d, em https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Kdt86HOf3rA.<\/p>\n<p>[18] Sobre a rela\u00e7\u00e3o entre periferia e produ\u00e7\u00e3o de conhecimento na universidade, sugere-se a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de Brenda da Silva (2019). Segundo a autora, para entender a maneira como a universidade olha a periferia, \u00e9 preciso entender como a universidade funciona por dentro.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Mas virou alvo de cr\u00edticas nos estudos urbanos. Um pensador das quebradas desmonta os argumentos e mostra: a periferia, sim, existe \u2013 e disputa a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/querem-apagar-o-conceito-de-periferia\/\">Querem apagar o conceito de periferia?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":85219,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[52605,52606,52607,30105,4230,35590,52608],"tags":[],"class_list":["post-85218","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-apagamento-das-periferias","category-centro-tradicional","category-consciencia-urbana","category-outras-cidades","category-periferias","category-segregacao-socioespacial","category-sujeito-periferico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85218"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85218\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85219"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}