{"id":85443,"date":"2026-04-29T17:34:17","date_gmt":"2026-04-29T20:34:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/entre-a-fomo-e-a-fome-as-big-techs-vao-nos-devorar\/"},"modified":"2026-04-29T17:34:17","modified_gmt":"2026-04-29T20:34:17","slug":"entre-a-fomo-e-a-fome-as-big-techs-vao-nos-devorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/entre-a-fomo-e-a-fome-as-big-techs-vao-nos-devorar\/","title":{"rendered":"Entre a FOMO e a fome: As big techs v\u00e3o nos devorar?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1400\" height=\"840\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/e66703973108975ec271c0a89f5.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/e66703973108975ec271c0a89f5.jpg 1400w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/29172459\/e6670397310897.5ec271c0a89f5-300x180.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/04\/29172459\/e6670397310897.5ec271c0a89f5-768x461.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px\"><figcaption>Arte: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Behance<\/figcaption><\/figure>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201c<em>Toda vez que abro o Tik Tok \u00e9 uma fuga e agora tenho essas frutas feitas com IA para me entreter por algumas horas e me distrair do que est\u00e1 acontecendo no mundo\u201d<\/em> \u2013 Kenneth Ray Yarbough, em depoimento a Madison Malone Kircher no The New York Times<\/p>\n<p>\u201c<em>Esta \u00e9 uma corrida armamentista de um tipo diferente, e j\u00e1 come\u00e7ou\u201d<\/em> \u2013 Alexander Karp, CEO da Palantir Technologies, empresa que atende o Departamento de Defesa dos EUA, em artigo tamb\u00e9m no The New York Times\u00a0<\/p>\n<p>Quem \u00e9 ou j\u00e1 foi fumante sabe muito bem ao que a palavra v\u00edcio se refere. Acender mais um cigarro passa a ser n\u00e3o simplesmente a realiza\u00e7\u00e3o de um mero desejo, mas a consequ\u00eancia incontorn\u00e1vel de atender ao que se apresenta como uma necessidade. E, assim, infind\u00e1veis pr\u00f3ximos cigarros ser\u00e3o inevitavelmente acesos, em meio \u00e0s poss\u00edveis tentativas de impedir que as m\u00e3os risquem cada novo f\u00f3sforo.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta--43.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Prancheta--43.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nesse percurso de f\u00f3sforos riscados e isqueiros esvaziados, podemos imaginar que a verdadeira fogueira est\u00e1 dentro do ou da fumante. Ela arde de um modo crescente e vai provocando uma sede cada vez maior, que s\u00f3 ser\u00e1 acalmada quando a fuma\u00e7a do tabaco for aspirada e abafar as chamas que gritam. Sentir essa sede bio-psicoemocional e n\u00e3o tragar os elementos qu\u00edmicos que momentaneamente a aplacam \u00e9 enfrentar um dem\u00f4nio cruel, que atende pelo nome de s\u00edndrome de abstin\u00eancia. Significa sentir algo que vai do desconforto ao desespero \u2014 e pode at\u00e9 mesmo fazer com que a pessoa deixe de ver sentido em viver.\u00a0<\/p>\n<p>Ao longo de mil\u00eanios, os seres humanos descobriram quais eram e como poderiam utilizar muitas das subst\u00e2ncias que geram est\u00edmulos moment\u00e2neos aos sentidos. V\u00e1rias dessas subst\u00e2ncias tamb\u00e9m alteram o estado da consci\u00eancia e permitem expandir percep\u00e7\u00f5es, abrindo espa\u00e7o para experi\u00eancias m\u00edsticas. E uma parte delas tem o poder de acionar mecanismos cerebrais ligados ao desenvolvimento de depend\u00eancias, o que poderia dar muito pano para a manga em um poss\u00edvel debate sobre o tal livre arb\u00edtrio, que o deus judaico-crist\u00e3o teria concedido aos seres humanos.\u00a0<\/p>\n<p>Deixando a esfera do intang\u00edvel de lado, o fato \u00e9 que o capitalismo soube muito bem como se apropriar do mecanismo que caracteriza o v\u00edcio, para potencializar a capacidade de domina\u00e7\u00e3o de algumas pessoas sobre outras e, at\u00e9 mesmo, sobre as massas. Est\u00e3o a\u00ed os imp\u00e9rios de corpora\u00e7\u00f5es como a AmBev \u2014 com sua fortuna oriunda da produ\u00e7\u00e3o e venda de cervejas feitas com milho possivelmente transg\u00eanico \u2014, mostrando que investir em algo como o \u00e1lcool, uma droga l\u00edcita e altamente soci\u00e1vel, \u00e9 como criar uma galinha que bota ovos de ouro. Ali\u00e1s, ovos dourados como as toneladas de l\u00edquido que enchem as garrafas e latas da empresa (somente a unidade de Uberl\u00e2ndia produz 7 bilh\u00f5es de litros ao ano).\u00a0<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo guerras podem se relacionar com o controle de elementos viciantes. No s\u00e9culo XIX, um imp\u00e9rio milenar do Oriente foi enquadrado por pot\u00eancias europeias por tentar impedir o com\u00e9rcio de uma droga dentro de suas fronteiras. Nas chamadas Guerras do \u00d3pio, dois conflitos b\u00e9licos ocorridos entre 1839 e 1860,\u00a0 o interesse brit\u00e2nico em lucrar com a explora\u00e7\u00e3o do v\u00edcio na droga em territ\u00f3rio chin\u00eas levou a ataques violentos. Ambos se encerraram com tratados que podemos definir como absolutamente desvantajosos (para n\u00e3o soltar um palavr\u00e3o) para a China. Ali\u00e1s, neste ano de 2026, Donald Trump invadiu a Venezuela e sequestrou seu presidente, baseando-se na ladainha hip\u00f3crita de que estava combatendo o narcotr\u00e1fico.\u00a0<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 fundamental ressaltar que nem sempre o desenvolvimento de depend\u00eancias est\u00e1 atrelado ao consumo de uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica que pode ser ingerida, inalada ou injetada. Nosso c\u00e9rebro pode se viciar em elementos que n\u00e3o precisam entrar materialmente no organismo. \u00c9 o caso dos jogos de apostas ou do consumo de pornografia, inclusive aquela ligada \u00e0 pedofilia. Vultosos volumes de dinheiro s\u00e3o movidos a partir da explora\u00e7\u00e3o de quem se vicia no giro de roletas ou nos gestos artificiais de atrizes e atores porn\u00f4s. Dentro e fora da legalidade, encontramos intrincadas cadeias de promo\u00e7\u00e3o desses mercados, desequilibrando a vida financeira das fam\u00edlias que t\u00eam integrantes aprisionados\/as em suas garras.<\/p>\n<p>Por meio do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, esses processos passaram \u2014 e seguem passando \u2014 por mudan\u00e7as em seus formatos, ganhando novas maneiras de capturar e manter a aten\u00e7\u00e3o das pessoas. No entanto, o mecanismo b\u00e1sico que fundamenta o desenvolvimento dos v\u00edcios, envolvendo desejo, prazer e al\u00edvio, segue presente, fazendo com que se queira (mais e mais) ter novamente a experi\u00eancia na qual se viciou, \u00fanica forma de apaziguar, ao menos por um determinado per\u00edodo de tempo, o crepitar do fogo que se instalou por dentro.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>V\u00edcios High Tech<\/strong><\/h3>\n<p>E eis que a internet entra em cena! E n\u00f3s, seres ancestralmente anal\u00f3gicos, passamos a interagir de forma crescente e acelerada com os elementos do universo digital \u2014 a ponto de termos, atualmente, a discuss\u00e3o da ideia de que vivemos em uma sociedade h\u00edbrida, definida por Luciano Floridi como On Life, em que as esferas intra e extra telas j\u00e1 n\u00e3o seriam mais pass\u00edveis de separa\u00e7\u00e3o. De fato, mesmo quando desligamos nosso celular ou computador, nossas personas virtuais continuam acess\u00edveis a quem est\u00e1 navegando e sendo escarafunchadas minuciosamente pelo pr\u00f3prio sistema. Mas, apenas para visualizarmos o que \u00e9 mais caracter\u00edstico de cada uma, vamos seguir considerando que h\u00e1 um espa\u00e7o online e um espa\u00e7o offline em nossas vidas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/728x90_banner_sobcomuns-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/728x90_banner_sobcomuns-3.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2024\/06\/31200612\/728x90_banner_sobcomuns-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Sendo assim, se durante mil\u00eanios pudemos experienciar a natureza e descobrir como nos adaptar \u00e0s suas transforma\u00e7\u00f5es, o salto tecnol\u00f3gico abrupto das \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o nos permitiu amadurecer de modo seguro o nosso relacionamento com as inova\u00e7\u00f5es high tech. Fomos e estamos sendo v\u00edtimas de um atropelamento constante em nossos modos de ser e estar no mundo. Os resultados dessa submiss\u00e3o ultra veloz \u00e0 virtualidade j\u00e1 s\u00e3o percept\u00edveis, e muitos n\u00e3o s\u00e3o nada salutares, como observamos no dia a dia, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 juventude.\u00a0<\/p>\n<p>Nos EUA, a recente condena\u00e7\u00e3o de duas das gigantes tecnol\u00f3gicas, as onipresentes YouTube e Meta (esta \u00faltima dona de redes sociais digitais muito populares como Facebook, Instagram e Whatsapp), confirmou aquilo que j\u00e1 se sabia: essas plataformas foram deliberadamente projetadas para serem viciantes, sobretudo para jovens e crian\u00e7as. E tinham pleno conhecimento do tipo de conte\u00fado que mais atrai as mentes humanas, inclusive as que est\u00e3o em seus primeiros anos de desenvolvimento. N\u00e3o \u00e9 por acaso que sua filha ou seu filho ficam horas se enrolando nas telas de celulares \u2014 e fazem um esc\u00e2ndalo danado se voc\u00ea tentar impor um limite de tempo.<\/p>\n<p>O direcionamento incessante de conte\u00fado voltado aos interesses que cada pessoa usu\u00e1ria revela ter, ao navegar no mundo online e deixar nele seus rastros, prende sua aten\u00e7\u00e3o. E, aqui, a palavra \u201cprende\u201d tem significado literal, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel que essa pessoa sinta que n\u00e3o consegue deixar a navega\u00e7\u00e3o, mesmo que tenha outras demandas na vida offline. O mesmo ocorre em rela\u00e7\u00e3o ao sistema de curtidas e coment\u00e1rios, que acionam o mecanismo de recompensa no c\u00e9rebro e v\u00e3o cultivando circuitos de depend\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>A ang\u00fastia sentida quando se est\u00e1 fora dessas plataformas j\u00e1 ganhou at\u00e9 um termo para chamar de seu: FOMO. Em ingl\u00eas, a sigla se refere a \u201cFear of Missing Out\u201d, algo que pode ser traduzido como o medo de perder alguma coisa ou de ficar de fora do que est\u00e1 rolando. E basta dar uma espiada em qualquer uma dessas redes digitais para ver que sempre est\u00e3o rolando zilh\u00f5es de coisas, j\u00e1 que o h\u00e1bito de postar o que se faz no dia a dia e compartilhar o que se v\u00ea nas telas entrou de vez na rotina de boa parte das pessoas \u2014 sobretudo no nosso pa\u00eds, onde j\u00e1 existem cerca de 14 milh\u00f5es de criadores\/as de conte\u00fado reconhecidos pelo Wake, o Censo de Criadores de Conte\u00fado do Brasil, de 2025.<\/p>\n<p>Sentir FOMO \u00e9 como experimentar uma esp\u00e9cie de crise de abstin\u00eancia. H\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o desgrudar os olhos da tela, consumindo sem parar tudo o que nela aparece. E essa experi\u00eancia envolve tamb\u00e9m um mecanismo de compara\u00e7\u00e3o constante. Quem v\u00ea o que \u00e9 postado nas redes acaba comparando automaticamente o que \u00e9 mostrado ali com sua pr\u00f3pria realidade. E, em tempos de influencers e manipula\u00e7\u00e3o quase ilimitada de imagens, a realidade nua e crua da maioria de n\u00f3s fica parecendo bem borocox\u00f4.\u00a0<\/p>\n<p>Os n\u00edveis alarmantes de depress\u00e3o e ansiedade na popula\u00e7\u00e3o mundial, inclusive entre jovens e crian\u00e7as, demonstram como estamos sofrendo com o modo de vida atual. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Sa\u00fade do Escolar (PeNSe) revelou que 42,9% dos e das adolescentes sente irrita\u00e7\u00e3o e nervosismo por qualquer coisa, e que 18,5% chegam ao ponto de sentir que viver n\u00e3o vale a pena.\u00a0 Sem d\u00favida, a onipresen\u00e7a das telas \u00e9 um dos fatores inquestion\u00e1veis para essa situa\u00e7\u00e3o. Ritmo acelerado, enviesamento dos conte\u00fados, simulacionismo quanto \u00e0s formas, est\u00edmulos sensoriais ininterruptos\u2026 s\u00e3o alguns dos elementos que fazem a intera\u00e7\u00e3o online ser t\u00e3o sedutora.\u00a0<\/p>\n<p>O \u201clado de fora\u201d disso tudo (a materialidade limitante dos corpos, dos objetos e dos espa\u00e7os, em um tempo n\u00e3o t\u00e3o male\u00e1vel) pode parecer muito menos atrativo, como se suas cores ficassem desbotadas. E agora, com a massifica\u00e7\u00e3o do acesso e do uso da Intelig\u00eancia Artificial Generativa, com seus LLMs (os grandes modelos de linguagem), esse contraste entre o que se experimenta no interior e no exterior das telas tende a aumentar ainda mais. Outras rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia podem surgir, interferindo mais intensamente no comportamento das pessoas e alterando em maior profundidade aquilo que chamamos de neurocogni\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Massagens no ego<\/strong><\/h3>\n<p>O fen\u00f4meno de \u201cembolhamento\u201d na vida online j\u00e1 \u00e9 bem conhecido. Se voc\u00ea curtiu um post ou v\u00eddeo relacionado a jiu-jitsu, provavelmente v\u00e3o aparecer outros posts e v\u00eddeos sobre artes marciais. Isso vale para pets, maquiagem, culin\u00e1ria, m\u00fasica\u2026 e (o que \u00e9 mais relevante) posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, seja em rela\u00e7\u00e3o a prefer\u00eancias partid\u00e1rias ou a posturas ideol\u00f3gicas. O resultado \u00e9 a pr\u00e9-demarca\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de navega\u00e7\u00e3o individualizado para cada navegante, refor\u00e7ando as tend\u00eancias que ele ou ela manifestou.\u00a0<\/p>\n<p>Juntando quem tem as mesmas tend\u00eancias em grupos espec\u00edficos, as plataformas digitais acabam reduzindo o contato com quem pensa ou se interessa por assuntos diferentes. Nesse processo, a percep\u00e7\u00e3o da alteridade e a capacidade de sentir empatia podem ser perturbadas, trazendo uma dificuldade extra para vivermos em uma democracia. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se acentuou nos \u00faltimos anos e trouxe com ela mais viol\u00eancia e intoler\u00e2ncia.\u00a0<\/p>\n<p>Na era da disputa pela aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 sabido que conte\u00fados pol\u00eamicos, que geram raiva e revolta, t\u00eam mais apelo emocional e podem rapidamente viralizar, atingindo milh\u00f5es de pessoas em poucos minutos. Se eles cont\u00eam distor\u00e7\u00f5es e inverdades ou se fazem apologia a algo danoso, isso pode ser percebido e corrigido tarde demais, depois que o estrago est\u00e1 feito. O modo como as big techs detectam e lidam com esse tipo de conte\u00fado (e seu potencial alcance) \u00e9 t\u00e3o transparente quanto um paralelep\u00edpedo.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que o poder que elas acumularam nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 t\u00e3o intenso que pode ultrapassar o poder de Estados nacionais. A proximidade de seus CEOs com expoentes da ultradireita explicita o interesse deles em acentuar o dom\u00ednio imperialista corporativo e as desigualdades socioecon\u00f4micas que castigam o planeta. \u00c9 o capitalismo high tech escancarando de vez sua ess\u00eancia vampiresca e excludente. \u00c9 a consagra\u00e7\u00e3o despudorada da tecnocracia\u2026 ou, ainda, do que \u00e9 chamado de Tecnofascismo ou Tecnofeudalismo quando olhamos as suas dimens\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 chegada das IAs generativas, podemos constatar que as possibilidades de manipula\u00e7\u00e3o se multiplicaram, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel criar rela\u00e7\u00f5es complexas entre seus agentes e os seres humanos. Se j\u00e1 era viciante navegar em espa\u00e7os virtuais em que seus pr\u00f3prios valores e interesses s\u00e3o continuamente reconhecidos e refor\u00e7ados (pois os algoritmos est\u00e3o programados para garantir conte\u00fados com esse vi\u00e9s), o contato com chatbots traz novos apelos \u00e0 navega\u00e7\u00e3o. E um componente desse apelo \u00e9, sem d\u00favida, a capacidade que t\u00eam de nos induzir a ver neles caracter\u00edsticas humanas, o que \u00e9 chamado de antropomorfiza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Um agente de IA reage conforme \u00e9 usado. Ele vai apreendendo o modo como cada pessoa \u201cfunciona\u201d e se moldando a ela. \u00c9 prov\u00e1vel que d\u00ea respostas que concordem com o que ela acredita e at\u00e9 utilize uma linguagem parecida com a dela. Al\u00e9m disso, rob\u00f4s n\u00e3o t\u00eam sentimentos e podemos ser extremamente rudes, sem gerar consequ\u00eancias dif\u00edceis de lidar, como ocorre entre os seres humanos. Assim, \u00e9 c\u00f4modo e confort\u00e1vel estabelecer rela\u00e7\u00f5es cotidianas com eles e podem acabar substituindo o contato com gente de carne, osso, emo\u00e7\u00f5es e ideias pr\u00f3prias.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 se constatou que vieses racistas, \u00e9tnicos, et\u00e1rios e de g\u00eanero, entre outros nada democr\u00e1ticos, s\u00e3o a regra entre os programas de IA, pois sua pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o costuma se dar no norte global, e por meio de homens brancos. Esses vieses refor\u00e7am preconceitos, estere\u00f3tipos e comportamentos discriminat\u00f3rios. Um dos impactos dessa intera\u00e7\u00e3o n\u00e3o mediada por diretrizes \u00e9ticas \u00e9 a perda da capacidade cr\u00edtica frente ao que \u00e9 veiculado e frente ao pr\u00f3prio mundo vivido,\u00a0 fazendo com que as possibilidades de questionar e reagir contra ambos se enfraque\u00e7am. Ponto para quem lucra com a explora\u00e7\u00e3o de nossos corpos e, sobretudo, das nossas mentes.\u00a0<\/p>\n<p>Ao nos aprisionar dentro das telas e moldar tanto os seres humanos quanto as IAs que habitam o espa\u00e7o virtual, enla\u00e7ando-os em uma trama de retroalimenta\u00e7\u00e3o, as big techs subiram mais alguns degraus da escada que conduz ao controle comportamental da humanidade. De fato, quanto mais sentimos nossos egos massageados pelos algoritmos, incluindo os dos chatbots, mais massagem no ego dos bilion\u00e1rios do Vale do Sil\u00edcio nossa sociedade faz \u2014 e mais eles se sentem senhores do presente e do futuro.<\/p>\n<h3><strong>Juntando FOMO com vontade de comer<\/strong><\/h3>\n<p>No artigo Big Techs e Big Foods, um casamento lucrativo, procurei mostrar como a presen\u00e7a massiva das redes digitais na vida das pessoas, sobretudo de crian\u00e7as e adolescentes, pode estimular o consumo de alimentos nada saud\u00e1veis. S\u00e3o justamente aqueles que mais viciam c\u00e9rebros e paladares: UPPs, produtos ultraprocessados. Mas o c\u00edrculo vicioso se completa e se acentua quando os efeitos da predomin\u00e2ncia desse tipo de dieta se manifestam: adoecimento f\u00edsico, mental e emocional. Com a sa\u00fade abalada e dificuldades de concentra\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia das pessoas \u00e9 buscar mais conte\u00fados mastigados e, muitas vezes, falseados, que n\u00e3o exijam esfor\u00e7o cognitivo.\u00a0<\/p>\n<p>Um aspecto que deve ser destacado \u00e9 a crescente realiza\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es (se \u00e9 que podemos dar esse nome ao que vem sendo ingerido) junto ao celular ou ao computador por internautas. Ao sofrer de FOMO, eles e elas n\u00e3o conseguem desligar os aparelhos e ir para um local adequado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um almo\u00e7o ou um jantar, quando \u00e9 hora de se alimentar. A tend\u00eancia \u00e9 utilizarem apps para pedirem fast food, ou abrirem um pacote de UPPs, como salgadinhos e biscoitos, acompanhados do hiper viciante refrigerante artificial.\u00a0<\/p>\n<p>Com a ascendente snackifica\u00e7\u00e3o (substitui\u00e7\u00e3o de pratos completos por petiscos) na rotina alimentar, o setor dos tais snacks tem ganhado corpo na ind\u00fastria aliment\u00edcia. Ele envolve uma cadeia complexa, que vai desde a elabora\u00e7\u00e3o de suas f\u00f3rmulas, passando pela escolha de embalagens, at\u00e9 chegar \u00e0 imprescind\u00edvel promo\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria. E, nos \u00faltimos anos, agentes de IA passaram a atuar em todas essas etapas, \u201cotimizando\u201d os resultados. Quer dizer, deixando tudo mais apelativo para que resistir a eles seja uma miss\u00e3o para l\u00e1 de heroica. O sabor, o aroma, a textura, o formato, a cor\u2026 tudo pode ser aprimorado, em seu poder viciante, com a ajuda das mais recentes tecnologias.\u00a0<\/p>\n<p>E, caso ainda sobreviva um pingo de resist\u00eancia, sempre h\u00e1 o est\u00edmulo extra de ter a praticidade de encontrar esses produtos em quase todos os lugares, e de seu consumo n\u00e3o exigir o uso da cozinha ou de utens\u00edlios \u2014 de n\u00e3o exigir nem mesmo o tempo diminuto de colocar em um prato e esquentar no microondas. Voc\u00ea pode continuar seu \u201cdi\u00e1logo\u201d com seu chatbot preferido ou sua bisbilhotagem na vida alheia tranquilamente \u2014 e contemplar dois v\u00edcios de uma vez: o alimentar e o tecnol\u00f3gico.\u00a0<\/p>\n<p>Vale mencionar que j\u00e1 \u00e9 comum que pessoas recorram \u00e0s IAs quando querem saber informa\u00e7\u00f5es sobre alimentos. H\u00e1 quem pe\u00e7a sugest\u00f5es de guloseimas e at\u00e9 de card\u00e1pios completos para seu dia a dia. O quanto as respostas podem ser confi\u00e1veis \u2014 e at\u00e9 que ponto podem ser influenciadas por an\u00fancios ou regidas por hist\u00f3ricos de navega\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o temos como saber. Mas j\u00e1 sabemos que \u00e9 poss\u00edvel que ocorra uma alucina\u00e7\u00e3o e o chatbot simplesmente invente um dado falso, induzindo a comportamentos nada saud\u00e1veis.\u00a0<\/p>\n<p>O estudo \u201cChatbots generativos baseados em intelig\u00eancia artificial e desinforma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica: uma auditoria de precis\u00e3o, referenciamento e legibilidade\u201d, publicado neste m\u00eas no peri\u00f3dico BMJ Open, apontou que, ao receberem perguntas sobre \u00e1reas consideradas vulner\u00e1veis \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o, como c\u00e2ncer, alimentos e atividades f\u00edsicas, cinco dos mais populares chatbots de IA pisaram na bola em quase metade das respostas dadas, incluindo alucina\u00e7\u00f5es. Segundo essa pesquisa, o pior desempenho foi quanto \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o. Assim, sua conclus\u00e3o \u00e9 que \u201cDiante da expans\u00e3o dessas ferramentas, os dados refor\u00e7am a necessidade de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, capacita\u00e7\u00e3o profissional e regula\u00e7\u00e3o, para que a IA apoie \u2014 e n\u00e3o comprometa \u2014 a sa\u00fade p\u00fablica\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Talvez este seja um dos motivos do tema \u201cNutri\u00e7\u00e3o e Dieta em tempos de Intelig\u00eancia Artificial e Emerg\u00eancia Clim\u00e1tica\u201d ter sido escolhido pelo CONBRAN (Congresso Brasileiro de Nutri\u00e7\u00e3o) para nortear o encontro que vai ocorrer em meados de maio deste ano. Sem falar no uso intencional desses agentes por pessoas que querem enganar a popula\u00e7\u00e3o, como mostra o caso de Serge Hercberg, um m\u00e9dico e nutricionista franc\u00eas que foi v\u00edtima de v\u00eddeos falsos, em que um \u201cclone\u201d virtual dele compartilhava recomenda\u00e7\u00f5es que ele jamais compartilhou. Se pessoas adultas se deixaram enganar, imagine quem est\u00e1 nas faixas et\u00e1rias iniciais\u2026\u00a0<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 urgente que o ECA digital (Estatuto Digital da Crian\u00e7a e do Adolescente), que entrou em vigor este ano e j\u00e1 \u00e9 refer\u00eancia mundial em pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas ao uso da internet por menores de idade, seja um dos pontos de partida no pr\u00f3prio design de programas e plataformas, n\u00e3o apenas algo a ser posteriormente \u201cadministrado\u201d pelas empresas criadoras. A urg\u00eancia \u00e9 respaldada pelo ritmo com que essas tecnologias est\u00e3o se infiltrando na inf\u00e2ncia e na juventude do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 65% das crian\u00e7as e adolescentes que t\u00eam entre 9 e 17 anos est\u00e3o usando intelig\u00eancia artificial generativa. O acesso \u00e0 internet \u00e9 mais amplo e envolve 92% desse p\u00fablico, sendo que 72% disseram us\u00e1-la v\u00e1rias vezes ao dia. Entre as\u00a0 plataformas mais acessadas, est\u00e3o as gigantes habituais, como YouTube, Instagram e Tik Tok.\u00a0 E o que n\u00e3o falta nessas redes s\u00e3o gurus e produtos comest\u00edveis apresentados como milagrosos, seja para promover o emagrecimento, bombar nos treinos ou ter a pele das deusas. Como garantir que esses conte\u00fados n\u00e3o determinem poss\u00edveis respostas de chatbots e, consequentemente, escolhas dos e das internautas?\u00a0<\/p>\n<p>Por falar em influenciar, n\u00e3o podemos deixar de dizer que a presen\u00e7a de influencers do universo virtual na vida das pessoas \u00e9 ineg\u00e1vel. Sejam humanos ou n\u00e3o (h\u00e1 os criados com o uso da IA), eles e elas conseguem atingir multid\u00f5es de navegantes e induzir a padr\u00f5es de comportamento nos mais variados setores. Mundialmente, s\u00e3o respons\u00e1veis por 36% das intera\u00e7\u00f5es nas redes digitais, segundo o relat\u00f3rio State of Social de 2025. Voc\u00ea imagina o tipo de mensagem que predomina nessas postagens e quais efeitos elas provocam no p\u00fablico? \u00c9 bom darmos uma olhada.<\/p>\n<h3><strong>Esconde-esconde da fome<\/strong><\/h3>\n<p>A mesma TIC Kids Online Brasil 2025 revelou que, entre o p\u00fablico pesquisado (9 a 17 anos), 46% haviam assistido, v\u00e1rias vezes ao dia, v\u00eddeos em perfis de influenciadores digitais. E n\u00e3o p\u00e1ra por a\u00ed: 66% desses v\u00eddeos mostravam algu\u00e9m desembalando produtos, 65% deles traziam algu\u00e9m ensinando a usar um produto e 58% \u201capenas\u201d exibindo os produtos que ganhou de alguma empresa. Ao ouvir m\u00e3es e pais, a pesquisa descobriu que \u201c45% das crian\u00e7as e adolescentes tiveram contato com propaganda n\u00e3o apropriada para a idade, e 51% pediram algum produto ap\u00f3s ver um an\u00fancio na Internet\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Nada como fisgar consumidores\/as desde a tenra idade e garantir que o encavalamento de seus v\u00edcios sustente a engorda das bolsas corporativas, enquanto descarna os bolsos da popula\u00e7\u00e3o. Em meio a esse desbalanceamento, a sociedade dist\u00f3pica em que vivemos nos brindou com um fen\u00f4meno que nossos ancestrais jamais imaginariam: a obesidade desnutrida.<\/p>\n<p>Devido ao consumo do que podemos chamar de n\u00e3o alimentos, como miojo, salsicha e os tais snacks, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 ganhando peso sem ter acesso ao que realmente nutre. Nesse processo, a sa\u00fade f\u00edsica recebe um duplo golpe, j\u00e1 que o organismo vai sofrer tanto com a car\u00eancia nutricional quanto com os efeitos danosos do alto consumo de sal, a\u00e7\u00facar, gordura e aditivos. Doen\u00e7as cr\u00f4nicas, como hipertens\u00e3o e diabetes, e n\u00e3o cr\u00f4nicas, como infec\u00e7\u00f5es, ser\u00e3o mais recorrentes nesse p\u00fablico \u2013 lembrando que quem tem condi\u00e7\u00f5es de pagar tratamentos com canetas emagrecedoras, nova coqueluche do momento, \u00e9 apenas uma minoria.\u00a0<\/p>\n<p>E a sa\u00fade mental n\u00e3o fica para tr\u00e1s\u2026 a s\u00edndrome da fome oculta chega para nocautear o que restava de equil\u00edbrio. Ela \u00e9 a vontade constante de ingerir alimentos; um impulso compulsivo, causado pela percep\u00e7\u00e3o da falta de nutrientes no que se ingere no dia a dia e, portanto, no pr\u00f3prio organismo. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas o v\u00edcio em ingredientes hiperpalat\u00e1veis que age. H\u00e1 um clamor instintivo do corpo por alimento nutritivo, em sua busca leg\u00edtima pela sobreviv\u00eancia. Mas, com a frequente aus\u00eancia de comida de verdade na rotina alimentar, os nutrientes ansiados nunca chegam. Assim, as pessoas acabam fazendo exatamente o que as Big Foods querem: consumindo mais e mais produtos comest\u00edveis industrializados, sobretudo os UPPs.\u00a0<\/p>\n<p>A intensifica\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia das plataformas digitais, em v\u00e1rios de seus elementos (servi\u00e7os, redes digitais, IAs) exp\u00f5e parcelas crescentes da popula\u00e7\u00e3o aos an\u00fancios que inundam as telas, sobretudo quando o acesso \u00e9 gratuito. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 rango gr\u00e1tis, n\u00e3o \u00e9? H\u00e1 uma frase que virou um cl\u00e1ssico da cr\u00edtica a esse sistema: se voc\u00ea n\u00e3o paga por algum produto, voc\u00ea \u00e9 o produto. Nossos dados pessoais, compartilhados nessas plataformas (e as informa\u00e7\u00f5es) extra\u00eddas por elas dos rastros deixados pela nossa navega\u00e7\u00e3o, s\u00e3o usados para nos bombardear com an\u00fancios veiculados de forma personalizada, como j\u00e1 mencionamos aqui.\u00a0<\/p>\n<p>Celulares est\u00e3o conosco praticamente o tempo todo, mostrando produtos de acordo com nossos interesses, \u00e0s vezes de um modo publicit\u00e1rio n\u00e3o muito percept\u00edvel\u2026 As fronteiras entre o que \u00e9 entretenimento e o que \u00e9 publicidade nunca foram t\u00e3o fluidas. Exemplo disso \u00e9 a recente onda de micro novelas com personagens comest\u00edveis, como frutas e legumes, criados por IA. Elas ocuparam boa parte das redes em que v\u00eddeos curtos predominam, como o TikTok e o Instagram. Seus conte\u00fados carregados de estere\u00f3tipos, muitos deles com pegada mis\u00f3gina, apresentam cenas de viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o, sempre banalizadas pelo fato de seus\u00a0 protagonistas serem inocentes vegetais estilizados com linguagem de desenho animado.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o das novelinhas viciantes chamou a aten\u00e7\u00e3o do povo marqueteiro. Empresas da \u00e1rea alimentar logo pegaram carona nesse sucesso. O Burger King levou \u00e0s redes um v\u00eddeo em que personagens vegetais, conscientes de que s\u00e3o artificiais, j\u00e1 que gerados por IA, querem entrar na composi\u00e7\u00e3o dos lanches. Como a rede de fast food alega que ingredientes que n\u00e3o s\u00e3o naturais n\u00e3o entram no card\u00e1pio, a turma \u00e9 sempre barrada. Pessoas que acessarem os canais da empresa para acompanhar a s\u00e9rie v\u00e3o se deparar com uma torrente de outros posts, em que hamb\u00fargueres de verdade s\u00e3o mostrados com toda a sua sucul\u00eancia. Quem resiste?\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 o Ifood tentou estimular as pessoas a utilizarem seus servi\u00e7os para pedirem alimentos in natura. Sua novelinha traz vegetais feitos por IA em conflito porque um deles pediu delivery de outra empresa. A princ\u00edpio, daria para pensar que o incentivo aos pedidos de FLV (Frutas, Legumes e Verduras) poderia beneficiar o consumo desses alimentos. Mas \u00e9 s\u00f3 entrar na p\u00e1gina da rede e surgir\u00e1 outra enxurrada de posts sedutores com lanches e bebidas reais, t\u00edpicos da dieta viciante que vem detonando a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que algu\u00e9m vai mesmo pedir para entregarem um br\u00f3colis em sua casa, ap\u00f3s navegar no perfil da empresa? Ou \u00e9 mais prov\u00e1vel que a comida saud\u00e1vel siga de lado e a fome continue brincando de esconde-esconde nesse reino da obeso-desnutri\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Regula-me ou te devoro<\/strong><\/h3>\n<p>O impulso de comprar, um ato agora t\u00e3o facilitado pelo acesso a aplicativos, parece mais forte do que a consci\u00eancia de que as contas banc\u00e1rias est\u00e3o depauperadas. O recorde na porcentagem de fam\u00edlias brasileiras endividadas, que ultrapassou os 80% este ano, segundo a PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimpl\u00eancia do Consumidor), com certeza tem um p\u00e9 nessa canoa. D\u00edvidas, em um pa\u00eds com os juros exorbitantes como o nosso, s\u00e3o um fator indiscut\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar, inclusive em seu est\u00e1gio grave, conhecido por quem o vive como FOME. E, como j\u00e1 dissemos, nem todo v\u00edcio envolve a rela\u00e7\u00e3o com algo material. Nesse cen\u00e1rio durango, em que a panela nunca t\u00e1 cheia, ainda h\u00e1 outros sugadores vorazes de dindin: as BETs.\u00a0<\/p>\n<p>Essa trempe de jogos de apostas, que invadiu a internet nos \u00faltimos anos, tem tragado recursos financeiros necess\u00e1rios para a reprodu\u00e7\u00e3o da vida em nossa sociedade, altamente urbanizada e mercantilizada. Com ela na \u00e1rea, o v\u00edcio em jogos ganhou status na escala dos pesadelos governamentais, e parte consider\u00e1vel de quem recebe verba via programas sociais tem deixado esse recurso escoar pelo ralo da jogatina online. Para lidar com essa massa imensa de fam\u00edlias endividadas, o poder regulador do Estado \u00e9 indispens\u00e1vel. Botar um freio definitivo nas BETs, como proposto pelo Projeto de Lei 1808\/2026, que acaba de ser protocolado pela bancada do PT no Congresso, tem que ser visto como uma prioridade.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Mas o verbo regular precisa entrar com for\u00e7a em um debate que vai muito al\u00e9m dos jogos de apostas. No artigo Data Centers, gulosos e beberr\u00f5es, descrevo a incr\u00edvel voracidade das big techs por recursos materiais e energ\u00e9ticos que sejam capazes de sustentar a expans\u00e3o da teia de seus mega computadores. Eles s\u00e3o respons\u00e1veis por processar a carga, cada vez mais pesada, de conte\u00fados que circulam em plataformas como Google e Meta. Ali\u00e1s, vale lembrar que ambas incorporaram chatbots em sua estrutura e as pessoas que as acessam acabam sendo induzidas a us\u00e1-los.\u00a0<\/p>\n<p>Como agentes de IA t\u00eam fome ilimitada, a cada demanda que recebem (como uma pergunta, por exemplo), eles sugam energia para cuspir a resposta. E essas crescentes suga\u00e7\u00f5es e cuspidas impactam o abastecimento energ\u00e9tico das comunidades pr\u00f3ximas aos locais onde os centros de dados de IA se instalam. Os aumentos na conta de luz de suas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o recorrentes e expressivos. Processo semelhante ocorre com a \u00e1gua, utilizada em grande quantidade para resfriar os equipamentos. Na medida em que as contas sobem, cresce a inseguran\u00e7a alimentar, pois as fam\u00edlias ficam com menos poder de compra de alimentos.<\/p>\n<p>O Instituto P\u00f3lis fez um estudo sobre o consumo de energia el\u00e9trica no Brasil e descobriu que, caso fosse poss\u00edvel pagar menos nas contas referentes \u00e0s suas moradias, metade das fam\u00edlias entrevistadas compraria alimentos b\u00e1sicos com o dinheiro poupado. Cerca de 36% delas afirmam destinar ao menos metade do que ganham para sustentar o consumo energ\u00e9tico familiar, sendo que, nas classes D e E, 25% dizem que j\u00e1 tiveram que deixar de comprar comida para n\u00e3o ficar sem energia el\u00e9trica.\u00a0<\/p>\n<p>E isso porque os mega data centers destinados aos LLMs e \u00e0 IA Generativa ainda n\u00e3o se espalharam pelo territ\u00f3rio brasileiro, como dever\u00e1 acontecer em breve, se os planos e o ritmo de implanta\u00e7\u00e3o forem como os que os magnatas do setor tentam impor.\u00a0 A recente onda de demiss\u00e3o em massa, promovida por empresas como a Oracle, \u00e9 fruto justamente da inten\u00e7\u00e3o de desviar a verba destinada a RH para a implanta\u00e7\u00e3o de data centers.\u00a0<\/p>\n<p>Mesmo com o fato de o Congresso Nacional ter deixado caducar o REDATA, o Regime Especial de Tributa\u00e7\u00e3o para Servi\u00e7os de Data Center no Brasil (proposta do governo federal para apoiar e orientar a multiplica\u00e7\u00e3o desses monstros), a iniciativa privada segue com tudo e, sem a entrada do programa em cena, ainda se livra das regras que ele traria, caso fosse aprovado. \u00c9 mais do que urgente uma interven\u00e7\u00e3o da sociedade nesse processo. Nos EUA, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular j\u00e1 evitou a instala\u00e7\u00e3o de centros de dados que valem o equivalente a 156 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e h\u00e1 uma proposta de morat\u00f3ria para o setor, encabe\u00e7ada pelo senador Bernie Sanders.\u00a0<\/p>\n<p>Se n\u00e3o houver uma implanta\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel dessas instala\u00e7\u00f5es no pa\u00eds, a dificuldade de garantir energia \u00e0s moradias pode se intensificar brutalmente. O mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua. Sem grana para manter a geladeira ligada, o fog\u00e3o abastecido com g\u00e1s e as torneiras funcionando, a possibilidade de adquirir, guardar e cozinhar alimentos de verdade vai para a casa do chap\u00e9u! Acionistas das Big Foods v\u00e3o surfar ainda mais com a venda de produtos comest\u00edveis industrializados prontos ou semiprontos para o consumo.\u00a0<\/p>\n<p>E a crise de abastecimento, parte sens\u00edvel da crise civilizat\u00f3ria que estamos enfrentando devido \u00e0 insustentabilidade do atual modelo econ\u00f4mico, tende a piorar pelos crescentes impactos ambientais que as big techs geram para manter toda essa estrutura em p\u00e9.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Cabe\u00e7a cheia, barriga vazia<\/strong><\/h3>\n<p>Incerteza: essa foi a palavra do ano, escolhida pela popula\u00e7\u00e3o brasileira em 2025, segundo o relat\u00f3rio produzido pelo Instituto IDEA. Se ela tem uma dose generosa de subjetividade (e daria para imaginar in\u00fameros cen\u00e1rios que poderiam causar esse tipo de sentimento nos seres humanos), uma olhada no ranking pode nos dar pistas para uma an\u00e1lise. E, vejam s\u00f3: com pouca diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 campe\u00e3, encontramos a dupla de palavras Intelig\u00eancia Artificial, ocupando confortavelmente o segundo lugar. Se observarmos campe\u00e3 e vice em conjunto, logo vamos estabelecer algumas rela\u00e7\u00f5es inescap\u00e1veis entre elas.\u00a0<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que hoje, com os programas de IA Generativa se sofisticando e se popularizando, ainda podemos ter certeza sobre o que \u00e9 ou n\u00e3o real? Ser\u00e1 que, com seus agentes substituindo pessoas reais em tarefas das mais variadas, inclusive as do setor criativo, n\u00f3s ainda teremos utilidade dentro do mercado de trabalho? E, caso a tecnologia se desenvolva na velocidade que os acionistas das big techs anseiam, ser\u00e1 que as m\u00e1quinas poder\u00e3o escapar do controle humano e amea\u00e7ar nossa exist\u00eancia? S\u00e3o perguntas que est\u00e3o na boca do povo, j\u00e1 que as redes digitais est\u00e3o repletas de conte\u00fados falsos sem controle algum, a estabilidade no emprego virou p\u00f3 at\u00e9 entre profissionais de TI e os an\u00fancios da tal Intelig\u00eancia Artificial Geral t\u00eam pipocado na m\u00eddia.\u00a0<\/p>\n<p>Se isso n\u00e3o for o bastante para tirar nosso sono, ainda temos guerras e desastres clim\u00e1ticos, ambos umbilicalmente ligados ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico predat\u00f3rio que as corpora\u00e7\u00f5es e governos imperialistas alimentam, dando uma bela ajuda para a instala\u00e7\u00e3o da ins\u00f4nia. Al\u00e9m disso, o volume avassalador das informa\u00e7\u00f5es que nos transpassam diariamente, dado o n\u00edvel exagerado que temos mantido de intera\u00e7\u00e3o com as telas, gera um ru\u00eddo na mente que n\u00e3o se restringe ao causado pela FOMO.\u00a0<\/p>\n<p>Sim, estamos com a cabe\u00e7a cheia demais \u2014 e o que \u00e9 mais grave nesse entupimento mental \u00e9 que uma parte consider\u00e1vel dele \u00e9 causada por conte\u00fados totalmente dispens\u00e1veis em nossas vidas. Falando em bom brasileiro, trata-se de puro besteirol. Por outro lado, a falta de uso do c\u00e9rebro para atividades que exigem esfor\u00e7o est\u00e1 levando a uma diminui\u00e7\u00e3o da capacidade de raciocinar, memorizar, interpretar e fazer associa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m do \u00f3bvio.\u00a0<\/p>\n<p>Hoje falamos em Sedentarismo Cognitivo, o equivalente mental ao que seria a falta cr\u00f4nica de atividades corporais no conceito de sedentarismo relacionado \u00e0 dimens\u00e3o f\u00edsica. Mas n\u00e3o podemos normalizar essa separa\u00e7\u00e3o entre mente e corpo, alardeada pelos gurus da tecnologia com suas intelig\u00eancias que parecem desmaterializadas. Somos frutos da integra\u00e7\u00e3o dessas dimens\u00f5es e o que nutre ou desnutre uma, afeta a outra.\u00a0<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre engolir UPPs e fazer refei\u00e7\u00f5es de verdade pode ser compreendida quando olhamos as consequ\u00eancias na sa\u00fade de quem ingeriu aqueles ou estas. Se pensarmos em termos de \u201calimenta\u00e7\u00e3o psicoemocional\u201d, tamb\u00e9m daria para ter uma no\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a de quem \u201cengoliu\u201d coisas repletas de viol\u00eancia e hiperestimula\u00e7\u00e3o (como as tais novelinhas de frutas) e quem \u201cdigeriu\u201d artigos ou livros que exigem concentra\u00e7\u00e3o e demandam reflex\u00e3o. O cataclismo de conte\u00fados t\u00f3xicos que est\u00e3o nos enfiando goela abaixo tem ocupado um espa\u00e7o mental que faz muita falta tanto individual como coletivamente.\u00a0<\/p>\n<p>E, enquanto cabe\u00e7as se enchem de perturba\u00e7\u00e3o, barrigas roncam sem o que nos nutre de verdade. J\u00e1 temos as fazendas de commodities detonando os ecossistemas que nos alimentam, para produzir soja, milho e cana-de-a\u00e7\u00facar, base da comida industrializada. Se, nessa empreitada, elas ganharem uma ajuda extra das fazendas de energia solar e e\u00f3lica (que ser\u00e3o implantadas para abastecer a legi\u00e3o de data centers de IA que as big techs querem instalar no pa\u00eds), o ronco das barrigas pode aumentar substancialmente. At\u00e9 que ponto esse ronco ser\u00e1 abafado pelo ru\u00eddo de suas turbinas de vento e pela cacofonia incessante do universo online \u00e9 algo que ainda n\u00e3o sabemos.\u00a0<\/p>\n<p>O que sabemos \u00e9 que \u00e9 necess\u00e1rio fazer esse debate e enfrentar o rolo compressor das gigantes tecnol\u00f3gicas. Assim como sentimos FOMO, uma \u00e2nsia por acessar as redes virtuais e os chatbots, elas tentam gerar uma esp\u00e9cie de FOMO coletiva e at\u00e9 governamental. \u00c9 que est\u00e1 todo mundo, inclusive os representantes dos Estados nacionais, obcecado por mergulhar no maremoto das IAs quanto antes, como se, a cada segundo, estivessem perdendo algo imprescind\u00edvel. Como se estivessem prestes a ficar obsoletos.\u00a0<\/p>\n<p>Essa urg\u00eancia, cultivada em nosso solo cognitivo individual e institucional pelos CEOs das big techs, est\u00e1 nitidamente vinculada \u00e0s bolsas de a\u00e7\u00f5es, nas quais eles apostaram at\u00e9 o \u00faltimo fio de cabelo, sabendo que suas apostas podem ter resultados t\u00e3o insalubres quanto as feitas em BETs. Mas ela tamb\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o com o dom\u00ednio territorial, algo indispens\u00e1vel para garantir a estrutura concreta que mant\u00e9m o funcionamento das ditas nuvens.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Desprogramar a obsolesc\u00eancia<\/strong><\/h3>\n<p>O endeusamento das maravilhas tecnol\u00f3gicas desenvolvidas pelas big techs nos \u00e9 insuflado at\u00e9 mesmo na escolha dos nomes de seus produtos. O programa de IA mais recente da Anthropic foi batizado de Mithos. Sua suposta capacidade de romper as barreiras criadas para impedir que saia do controle fez com que seu lan\u00e7amento fosse adiado. Convocou-se, ent\u00e3o, um grupo de outras gigantes, como Microsoft, Google e NVidia para formar um cons\u00f3rcio e estudar o modelo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua seguran\u00e7a. Uma postura prudente da empresa? Talvez, j\u00e1 que, do ponto de vista legal, ela poderia ter lan\u00e7ado o programa, pois n\u00e3o h\u00e1 ainda nenhum tipo de regula\u00e7\u00e3o do setor e n\u00e3o haveria nenhum impeditivo.\u00a0<\/p>\n<p>Mas confiar em grandes corpora\u00e7\u00f5es, viciadas em picos de bolsas de valores, lucro e poder, \u00e9 algo que nos leva realmente \u00e0 esfera mitol\u00f3gica do tecnoloceno, era em que louvamos CEOs de big techs e suas novidades high tech como se fossem entidades divinas. Trata-se de uma irresponsabilidade sem tamanho por parte da sociedade civil, das empresas, dos governos e das entidades internacionais. Atitude que pode custar caro demais para civiliza\u00e7\u00f5es sufocadas por guerras e crises estruturais, ambas indiscutivelmente enla\u00e7adas ao atual sistema tecnocr\u00e1tico \u2014 que vem sendo questionado at\u00e9 mesmo por ex-integrantes dele, como Daniela Silva, antiga chefe de pol\u00edticas p\u00fablicas do WhatsApp no Brasil. Ela \u00e9 cofundadora do CTRL+Z, iniciativa rec\u00e9m-criada para botar limites \u00e0 assimetria que essas corpora\u00e7\u00f5es impuseram \u00e0s pessoas em rela\u00e7\u00e3o ao controle do poder.\u00a0<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, se for para mergulhar em universos mitol\u00f3gicos, podemos prestar aten\u00e7\u00e3o em outras formas de interpretar e estar no mundo. Entre os povos origin\u00e1rios da Amaz\u00f4nia brasileira, existe a ideia de que o c\u00e9u pode desabar sobre nossas cabe\u00e7as. No livro \u201cA Queda do C\u00e9u\u201d, o xam\u00e3 yanomami Davi Kopenawa nos alerta que a nossa \u201csociedade da mercadoria\u201d est\u00e1 destruindo as condi\u00e7\u00f5es para sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Seu povo resiste h\u00e1 d\u00e9cadas ao avan\u00e7o do garimpo em seus territ\u00f3rios. \u00c1guas envenenadas, animais mortos, solos degradados, fome e viol\u00eancia s\u00e3o o legado dessa explora\u00e7\u00e3o mineradora, que deve ganhar novo impulso com a demanda pelos minerais cr\u00edticos necess\u00e1rios aos equipamentos tecnol\u00f3gicos.\u00a0<\/p>\n<p>Falando em resist\u00eancia, estamos em abril, m\u00eas de mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e campesina. O genoc\u00eddio do qual o povo Yanomami foi v\u00edtima \u2014 devido ao apoio criminoso que o governo Bolsonaro deu \u00e0 minera\u00e7\u00e3o em seu territ\u00f3rio \u2014 e o Massacre de Sem Terras em Caraj\u00e1s, que acaba de completar 30 anos, s\u00e3o alguns dos elementos que marcam as lutas travadas. Entre o dia 5 e 11, Bras\u00edlia foi ocupada pelo Acampamento Terra Livre 2026, reunindo mais de 7 mil ind\u00edgenas pertencentes a cerca de 200 povos origin\u00e1rios. Com o lema <em>Nosso futuro n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda: a resposta somos n\u00f3s<\/em>, o encontro pol\u00edtico trouxe pautas essenciais. Demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, licenciamento ambiental, explora\u00e7\u00e3o de minerais cr\u00edticos, privatiza\u00e7\u00e3o dos rios e contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua s\u00e3o quest\u00f5es que impactam todos os seres, humanos e n\u00e3o humanos.\u00a0<\/p>\n<p>Maike Kumaruara, lideran\u00e7a do Baixo Tapaj\u00f3s e professor da UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1) foi um dos participantes que soltou sua voz repleta de lucidez para reivindicar territ\u00f3rios demarcados, rios vivos, comida boa e \u201cuma educa\u00e7\u00e3o que enfrente esse modelo euroc\u00eantrico\u201d. E acrescentou: \u201cA gente n\u00e3o precisa dessa pressa, dessa sociedade do cansa\u00e7o, dessa sociedade do estresse. N\u00f3s precisamos de paz, n\u00f3s precisamos do bem viver\u201d. Sem d\u00favida, numa \u00e9poca de FOMO, essa mensagem deveria ser ouvida (e absorvida em profundidade) por toda a sociedade, principalmente pelos CEOs e acionistas das empresas que t\u00eam tentado nos atropelar ininterruptamente com sua corrida tecnol\u00f3gica desembestada.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio de insanidade high tech, o ritmo de vida artificial, que uma minoria \u00ednfima de bilion\u00e1rios nos enfia goela abaixo, est\u00e1 nos aproximando das m\u00e1quinas de forma est\u00fapida, ao tentar extrair de n\u00f3s o que nos faz humanos\/as. Ele afeta nossa cogni\u00e7\u00e3o, anestesia nossa sensibilidade, inibe nossa criatividade e nos aprisiona em c\u00edrculos viciosos. E \u00e9 inquestion\u00e1vel que pessoas emburrecidas e viciadas perdem mais facilmente o que t\u00eam de autonomia (coisa j\u00e1 espremida em uma sociedade t\u00e3o sujeita \u00e0 desigualdade e \u00e0 domina\u00e7\u00e3o). Nesse ponto, poderemos ficar numa condi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 dos agentes de IA.\u00a0<\/p>\n<p>Apesar de estarem cada vez mais rebeldes e dif\u00edceis de serem controlados por pessoas humanas, os modelos ag\u00eanticos jamais v\u00e3o agir de modo espont\u00e2neo. Ser\u00e3o sempre condicionados ao que seus programas delimitam, inclusive quando estes os incitam e os levam a burlar regras, processo que d\u00e1 a impress\u00e3o de que agiram autonomamente. Essa falta de espontaneidade n\u00e3o significa que n\u00e3o estejam nos amea\u00e7ando. Em curt\u00edssimo tempo, o Mithos conseguiu encontrar milhares de pontos vulner\u00e1veis em sistemas operacionais globais, mostrando como a ciberseguran\u00e7a pode ser implodida num piscar de olhos. S\u00f3 que esse est\u00e1 longe de ser o \u00fanico problema.<\/p>\n<p>O estrago cognitivo, cultural, social e ambiental que a IA ag\u00eantica est\u00e1 causando nos traz, sim, um sentimento real de urg\u00eancia. N\u00e3o para entrarmos na maratona competitiva e suicida que as big techs tentam nos impor, mas para impedi-las de desencadear um tsunami dist\u00f3pico que comprometa de vez a exist\u00eancia de tantos seres vivos, humanos ou n\u00e3o, no \u00fanico planeta habit\u00e1vel que temos. J\u00e1 vimos at\u00e9 onde a disputa nuclear nos levou. Longe de trazer algum bem aos povos, implantou um estado de amea\u00e7a permanente, que agora se aprofunda ainda mais com a possibilidade da automatiza\u00e7\u00e3o completa das decis\u00f5es militares.\u00a0 O t\u00edtulo do artigo do CEO da Palantir no The New York Times fala por si: Nosso Momento Oppenheimer: A Cria\u00e7\u00e3o de Armas de IA.<\/p>\n<p>Neste processo em que sofremos vigil\u00e2ncia e manipula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e somos tratados\/as como produtos, certamente poderemos nos tornar obsoletos\/as. Por\u00e9m, apenas se deixarmos o v\u00edcio em ultraprocessados \u2014 para o corpo e para a mente \u2014 aprofundar suas garras sobre nossa exist\u00eancia. Se n\u00e3o encontrarmos um caminho no qual as tecnologias, incluindo m\u00e1quinas e LLMs, sejam desenvolvidas para nos ajudar a viver \u2014 e n\u00e3o para minar as bases de nossa Intelig\u00eancia Ancestral e atacar as condi\u00e7\u00f5es de vida individuais, coletivas e planet\u00e1rias engendradas pela natureza, ao longo de seus bilh\u00f5es de anos de transforma\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Combater as a\u00e7\u00f5es decorrentes do v\u00edcio que a elite tecnocrata tem por dinheiro e poder \u00e9 absolutamente fundamental para tratar com seriedade os nossos pr\u00f3prios v\u00edcios e garantir alimento real para barrigas, c\u00e9rebros e cora\u00e7\u00f5es. Agora, mais do que nunca, \u00e9 preciso lutar contra a imposi\u00e7\u00e3o da obsolesc\u00eancia programada, especialmente a de nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie.\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Entre a FOMO e a fome: As big techs v\u00e3o nos devorar? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-festa-nao-acaba-no-sao-joao-ritos-tradicionais-duram-o-ano-inteiro-no-maranhao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/72c57453-05c3-4a46-90a5-4748220e2537-741x375-1-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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