{"id":85713,"date":"2026-05-02T04:00:00","date_gmt":"2026-05-02T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/as-embaixatrizes\/"},"modified":"2026-05-02T04:00:00","modified_gmt":"2026-05-02T07:00:00","slug":"as-embaixatrizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/as-embaixatrizes\/","title":{"rendered":"As Embaixatrizes"},"content":{"rendered":"<p>A literatura brasileira n\u00e3o teve muito pudor ao falar das flores. M\u00e1rio de Andrade descreveu a vit\u00f3ria-r\u00e9gia amaz\u00f4nica numa cr\u00f4nica de 1930 com uma ferocidade sensual que ainda impressiona. O poeta da Rua Lopes Chaves falou do caule e das s\u00e9palas que ferem a m\u00e3o, do perfume suav\u00edssimo que, de perto, enjoa, e da flor que, ao envelhecer depressa, revela, no fundo, um pequeno bando de besouros besuntados de p\u00f3len, da mistura inquietante de coisas sublimes e repulsivas.<\/p>\n<p>O mesmo M\u00e1rio escreveu um poema chamado \u201cGirassol da Madrugada\u201d, em que a flor fala de um amor que n\u00e3o se nomeia por completo: \u201ccarne que \u00e9 flor de girassol, sombra de anil\u201d. Manuel Bandeira queria que seu \u00faltimo poema tivesse a beleza das flores quase sem perfume, enquanto Ad\u00e9lia Prado encheu sua poesia de hort\u00eansias e rosas bravas sem deixar de ser carnal. Com ou sem perfume, cada um com sua flor.<\/p>\n<p>Conto isso porque aqui no pa\u00eds das Terras Baixas, onde quase sempre \u00e9 cinza, chuvoso e ventoso, em mar\u00e7o as cerejeiras florescem. Imposs\u00edvel ficar indiferente. N\u00e3o \u00e9 alegria exatamente. Mas ver as sakuras floridas \u00e9 uma del\u00edcia especial. A floresc\u00eancia dura uma semana. \u00c0s vezes menos, dependendo da for\u00e7a do vento \u2013 e os que se locomovem de bicicleta sabem que essa for\u00e7a n\u00e3o deve ser menosprezada.<\/p>\n<p>Em 1928, Motojiro Kajii, um autor que deixou poucos contos estupendos, escreveu sobre a beleza violenta dessa flora\u00e7\u00e3o num conto de poucas p\u00e1ginas, cuja frase de abertura ainda circula como uma esp\u00e9cie de provoca\u00e7\u00e3o: \u201cDebaixo das cerejeiras est\u00e3o enterrados cad\u00e1veres\u201d. Ou algo bem perto disso. A ideia era que a beleza imposs\u00edvel das flores s\u00f3 poderia vir de algo podre e denso sob a terra. Kajii morreu de tuberculose aos 31 anos, o que talvez explique a pressa em concluir e a precis\u00e3o. Assim como o carnaval carrega seu avesso de dor e exaust\u00e3o, a Sakura, cor-de-rosa e branca, apaziguante, que aparece hoje em calend\u00e1rios e card\u00e1pios cafonamente primaveris, carrega esse avesso: de um Jap\u00e3o sombrio, indigesto.<\/p>\n<p>Agora, explicar como essas \u00e1rvores chegaram \u00e0 Haia \u00e9 outra hist\u00f3ria. A Sakura tem sido, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, um instrumento de diplomacia. \u00c9 uma esp\u00e9cie de embaixatriz, assim como os pandas s\u00e3o instrumentos da diplomacia chinesa.<\/p>\n<p>Eliza Ruhamah Scidmore era escritora, fot\u00f3grafa, viajante, jornalista, ge\u00f3grafa, e a primeira mulher a integrar o conselho da National Geographic Society, em 1892. Tinha um irm\u00e3o diplomata e aproveitava o fato para ir a lugares que mulheres n\u00e3o costumavam frequentar. Foi assim que chegou ao Jap\u00e3o pela primeira vez, em 1885, e de l\u00e1 voltou com a ideia fixa de ver as cerejeiras \u00e0s margens do Potomac, em Washington. O respons\u00e1vel pelos jardins p\u00fablicos n\u00e3o se convenceu, disse n\u00e3o. Ela voltou no ano seguinte. Outro n\u00e3o. Fez isso por muitos anos, enquanto os respons\u00e1veis pelos jardins foram se aposentando, adoecendo, morrendo.<\/p>\n<p>Em 1909, Eliza ganhou uma aliada inesperada. Helen Taft era natural de Cincinnati, Ohio, e havia visitado o Jap\u00e3o algumas vezes enquanto o marido, William Howard Taft, governava as Filipinas como administrador colonial americano. Das cerejeiras japonesas, ela guardava uma mem\u00f3ria afetiva. Ao que parece, Eliza se dirigiu a Helen logo no in\u00edcio do novo governo e a primeira-dama apoiou a ideia sem hesitar. Em abril daquele ano, as \u00e1rvores j\u00e1 estavam confirmadas.<\/p>\n<p>As duas mil \u00e1rvores foram despachadas com entusiasmo e havia raz\u00f5es para isso. A rela\u00e7\u00e3o entre o Jap\u00e3o e os EUA andava tensa. O Jap\u00e3o tinha derrotado a R\u00fassia em 1905 numa guerra que os Estados Unidos mediaram, mas o acordo de paz assinado por Theodore Roosevelt deixou os japoneses com a sensa\u00e7\u00e3o de que haviam ganho a guerra e perdido a negocia\u00e7\u00e3o. Dois anos depois, em 1907, os dois pa\u00edses trocaram notas diplom\u00e1ticas tensas sobre a discrimina\u00e7\u00e3o contra imigrantes japoneses na Calif\u00f3rnia, pessoas que os Estados Unidos tinham atra\u00eddo para trabalhar e que agora queriam controlar e excluir.<\/p>\n<p>As Sakuras chegaram em janeiro de 1910, e logo os inspetores do Departamento de Agricultura abriram as caixas e encontraram insetos, nematoides, pragas diversas. O presidente Taft assinou rapidamente uma ordem de queima. No Jap\u00e3o, o gesto foi lido como mais uma rejei\u00e7\u00e3o num per\u00edodo em que os norte-americanos aceitavam o que lhes convinha e devolviam o resto. Eliza viu tudo isso, mas n\u00e3o desistiu, tampouco Ozaki.<\/p>\n<p>Yukio Ozaki era prefeito de T\u00f3quio e uma das figuras mais not\u00e1veis da pol\u00edtica japonesa, frequentemente chamado no Jap\u00e3o de pai do parlamentarismo e de uma esp\u00e9cie de deus da pol\u00edtica constitucional, com um memorial dedicado ao lado do parlamento em T\u00f3quio. Defensor ferrenho do governo representativo numa \u00e9poca em que o militarismo avan\u00e7ava a passos c\u00e9leres, o plantio de cerejeiras em Washington era para ele um gesto genu\u00edno de aproxima\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Assim foi que mandou tirar brotos das cerejeiras do rio Arakawa, enxertou em novas ra\u00edzes, cultivou em solo desinfetado, e em 1912 enviou tr\u00eas mil e vinte \u00e1rvores. Em mar\u00e7o daquele ano, a primeira-dama Taft e a esposa do embaixador japon\u00eas plantaram as duas primeiras cerejeiras \u00e0 margem do Tidal Basin. Eliza estava presente na cerim\u00f4nia, depois de mais de vinte anos de insist\u00eancia. Essas duas \u00e1rvores ainda est\u00e3o l\u00e1 embora a maioria delas j\u00e1 tenha sido substitu\u00edda.<\/p>\n<p>As cerejeiras vivem, em geral, por volta de 30 anos, mas algumas variedades podem mesmo chegar a 100 anos. Ozaki viveu noventa e tr\u00eas anos, defendeu o desarmamento durante a guerra entre os dois pa\u00edses, pagando o pre\u00e7o pessoal por isso, e disse at\u00e9 o fim que as cerejeiras tinham sido o melhor momento de sua vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Depois disso, o Jap\u00e3o passou a doar \u00e1rvores em todo o mundo. Berlim ganhou as suas em 1989. Em Amsterdam, cada uma das quatrocentas Sakuras do Kersenbloesempark, doadas pelo Clube das Mulheres Japonesas em 2000, tem um nome pr\u00f3prio, japon\u00eas ou holand\u00eas. Em Haia, as cerejeiras podem ser vistas sobretudo ao longo da Bankastraat e perto do Pal\u00e1cio da Paz, constru\u00eddo em 1913 para ajudar a p\u00f4r fim \u00e0s guerras.<\/p>\n<p>No Brasil, na d\u00e9cada de 1970, associa\u00e7\u00f5es nipo-brasileiras plantaram as primeiras mudas de cerejeiras no que viria a ser o Parque do Carmo, na Zona Leste de S\u00e3o Paulo. Como a cerejeira n\u00e3o \u00e9 planta nativa, muitas mudas morreram; outras precisaram ser climatizadas em Campos do Jord\u00e3o antes de se adaptarem. Hoje dizem que o parque tem cerca de quatro mil \u00e1rvores. A Festa das Cerejeiras acontece todo m\u00eas de agosto, no pleno inverno do Hemisf\u00e9rio Sul. A Sakura, que no Jap\u00e3o anuncia a primavera em mar\u00e7o, floresce no Brasil no meio do inverno.<\/p>\n<p>E para terminar esta cr\u00f4nica primaveril da Sakura: em Gar\u00e7a, interior paulista, em 1979, um imigrante chamado Nelson Koske Ichisato resolveu plantar cerejeiras ao redor do lago artificial da cidade. A pr\u00f3pria comunidade disse que n\u00e3o adiantaria, muito quente, vai dar zebra, disseram. Seu Nelson plantou assim mesmo, teimosamente e pacientemente, muda por muda. D\u00e9cadas depois, o Cerejeiras Festival de Gar\u00e7a recebe centenas de milhares de pessoas em um \u00fanico ano. No Brasil, dizem que Nelson \u00e9 chamado at\u00e9 hoje de Pai das Cerejeiras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/funcionarios-da-microsoft-ocupam-sede-da-empresa-em-redmond-e-pedem-rompimento-com-israel\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/gyw_dwnacaauzmf-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Funcion\u00e1rios da Microsoft ocupam sede da empresa e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/unicamp-se-soma-as-universidades-que-romperam-relacoes-com-entidade-israelense\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/conselho-unicamp_divulgacao-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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