{"id":85867,"date":"2026-05-03T18:58:01","date_gmt":"2026-05-03T21:58:01","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-futuro-das-cidades-segundo-milton-santos\/"},"modified":"2026-05-03T18:58:01","modified_gmt":"2026-05-03T21:58:01","slug":"o-futuro-das-cidades-segundo-milton-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-futuro-das-cidades-segundo-milton-santos\/","title":{"rendered":"O futuro das cidades, segundo Milton Santos"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1140\" height=\"739\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/RPF-milton-santos-usp-2026-02-1140.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/RPF-milton-santos-usp-2026-02-1140.jpg 1140w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/03185714\/RPF-milton-santos-usp-2026-02-1140-300x194.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/03185714\/RPF-milton-santos-usp-2026-02-1140-768x498.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1140px) 100vw, 1140px\"><figcaption>Foto: Claudio Rossi\u2009\/\u2009Abril Comunica\u00e7\u00f5es S.A.\u2002<br \/><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Thiago Adriano Machado<\/strong> em entrevista a <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong> e <strong>Ra\u00edssa Ara\u00fajo Pacheco<\/strong><\/p>\n<p>Nas cidades abaixo da linha do Equador, h\u00e1 uma \u201cfome de outra coisa\u201d. O ge\u00f3grafo Milton Santos, que faria cem anos neste 3 de maio, n\u00e3o cansava de sugerir isso. Afinal, a humanidade hoje se re\u00fane em <em>poucos lugares<\/em> \u2014 consequ\u00eancia direta de um processo de urbaniza\u00e7\u00e3o no Sul global que foi um turbilh\u00e3o: revolu\u00e7\u00e3o industrial, demogr\u00e1fica, urbana, democr\u00e1tico-institucional, comportamental, tudo junto e misturado. Desse choque nasceu um fen\u00f4meno in\u00e9dito na hist\u00f3ria, uma \u201cmistura extraordin\u00e1ria de povos, ra\u00e7as, cheiros, gostos\u201d, como j\u00e1 disse o pensador brasileiro, numa escala nunca antes vista. E essa aglomera\u00e7\u00e3o, longe de ser mero aspecto demogr\u00e1fico, exerce papel extraordin\u00e1rio na cultura e na produ\u00e7\u00e3o de ideias. \u201cO que temos de forte na Am\u00e9rica Latina \u00e9 a ideia de futuro\u201d, afirmou. N\u00e3o o futuro como promessa vazia, mas como mat\u00e9ria-prima do pensamento, acreditava ele.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds de feridas abertas da escravid\u00e3o, eis um pensador negro e nordestino que, como poucos, revolucionou um campo de estudos atravessando fronteiras \u2014 entre pa\u00edses, disciplinas e, n\u00e3o raro, pagando o pre\u00e7o. \u201cComo intelectual, eu tenho que me habituar a estar sozinho. N\u00e3o tenho que me preocupar com quem me acompanha. N\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio de um intelectual se preocupar se tem apoio ou n\u00e3o. S\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o das ideias, a coragem de defend\u00ea-las at\u00e9 o fim\u201d, afirmou Milton Santos, que faria cem anos neste 3 de maio, em entrevista ao <em>Roda Viva<\/em> de 1997.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta-4-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta-4-5.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Disse isso com o semblante gentil de sempre e o sorriso sutil de quem tem convic\u00e7\u00e3o \u2014 sustentado, sem jamais cair no cabotinismo, at\u00e9 ao enquadrar interlocutores, como em um entrevista a \u201cuspianos\u201d tamb\u00e9m em 1997, preocupados com os rumos dos partidos de esquerda na vanguarda: \u201cVoc\u00eas vieram me ver sem ter lido nada do que eu escrevi. N\u00e3o estou reclamando leitores, n\u00e3o. Estou reclamando da dificuldade dos partidos de esquerda de fazer esse trabalho\u201d. Segundo ele, a pol\u00edtica nasce de ideias pioneiras \u2014 que ganham terreno devagar, at\u00e9 se tornarem guias. E identificava uma presen\u00e7a constante da \u201cvontade de ser colonizado\u201d na Academia: \u201cN\u00f3s, intelectuais latino-americanos, falamos com os europeus. \u00c0s vezes, descobrimos as coisas, mas nosso discurso \u00e9 um discurso referido \u00e0queles que nos d\u00e3o prest\u00edgio. Isso reduz a for\u00e7a das nossas ideias. N\u00f3s envelopamos as ideias num envelope estranho.\u201d<\/p>\n<p>Nascido em Brotas de Maca\u00fabas, na Bahia, em uma fam\u00edlia de professores prim\u00e1rios, recebeu cedo o impulso para a educa\u00e7\u00e3o. Embora formado em Direito em 1948, foi na sala de aula \u2014 primeiro no Gin\u00e1sio Municipal de Ilh\u00e9us, depois na Faculdade Cat\u00f3lica de Filosofia em Salvador \u2014 que encontrou seu caminho: o contato com a tradi\u00e7\u00e3o francesa o conduziu \u00e0 Geografia, campo ao qual passaria a se dedicar integralmente. Em 1958, consolidou essa virada com o doutorado pela Universidade de Estrasburgo\u00a0 \u2014 que o levaria, em 1994, a receber o Pr\u00eamio Internacional de Geografia Vautrin Lud, considerado o Nobel da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Milton Santos cultivava uma rigorosa autonomia de pensamento, o que o levava a dizer que partidos de esquerda \u201cdetestam intelectuais\u201d. Quando atuou como editor do jornal baiano <em>A Tarde<\/em>, foi, segundo ele, o mais pr\u00f3ximo de uma atua\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, dado o alinhamento do jornal com Bocaiuva Cunha e Samuel Wainer, pr\u00f3ximos a Get\u00falio Vargas e ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Nesta sua \u201cfase jornal\u00edstica\u201d, cobriu em 1960 a visita de J\u00e2nio Quadros a Cuba, que, quando chegou \u00e0 Presid\u00eancia, o convidou para a subchefia da Casa Civil na Bahia. Essa proximidade \u2014 somada \u00e0 viagem a Cuba e, sobretudo, \u00e0 defesa da taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas \u2014 tornaria Milton Santos alvo ap\u00f3s o Golpe de 1964. Veio a pris\u00e3o e, em seguida, o ex\u00edlio.\u00a0<\/p>\n<p>Sua carreira internacional, portanto, nasce \u00e0 for\u00e7a. O primeiro destino foi a Fran\u00e7a; depois, viriam universidades de prest\u00edgio nos Estados Unidos, Fran\u00e7a, Espanha, Canad\u00e1, Peru, Venezuela e Tanz\u00e2nia \u2014 onde, lembrava, um professor universit\u00e1rio ganhava mais que o presidente da Rep\u00fablica. Milton Santos tamb\u00e9m atuou como consultor de organismos como a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) e a Unesco. O retorno ao Brasil s\u00f3 viria em 1977. Ap\u00f3s um per\u00edodo de resist\u00eancia institucional, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, em seguida, na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), onde se tornaria professor titular.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Milton Santos \u00e9 vast\u00edssima, e suas contribui\u00e7\u00f5es ao pensamento social brasileiro \u2014 e ao do Sul global, ent\u00e3o chamado de Terceiro Mundo ou pa\u00edses subdesenvolvidos \u2014 s\u00e3o igualmente ricas, analisadas em teses acad\u00eamicas e biografias, com lacunas sendo at\u00e9 hoje preenchidas. Portanto, destacamos somente tr\u00eas aspectos de sua obra.\u00a0<\/p>\n<p>Primeiro, foi a de formular uma teoria robusta fora dos c\u00e2nones euroc\u00eantricos. No s\u00e9culo XIX, o espa\u00e7o geogr\u00e1fico era concebido como superf\u00edcie, mero palco \u2014 no\u00e7\u00e3o que serviu, indubitavelmente, ao projeto colonial. Milton Santos rompe com esta ideia. Sua originalidade est\u00e1 tamb\u00e9m no tr\u00e2nsito entre tradi\u00e7\u00f5es: l\u00ea o Norte e o Sul globais, mas n\u00e3o os toma como equivalentes \u2014 faz do contraste um m\u00e9todo.<\/p>\n<p>No centro de sua teoria est\u00e1 uma virada: o espa\u00e7o deixa de ser cen\u00e1rio e passa a operar como condicionante da vida social. \u00c0 Geografia, caberia ent\u00e3o apreender as rela\u00e7\u00f5es que se produzem no territ\u00f3rio, sem reduzir o espa\u00e7o \u00e0 sua apar\u00eancia. \u00c9 nesse sentido que ele o define como \u201cum conjunto indissoci\u00e1vel de sistemas de objetos e de sistemas de a\u00e7\u00f5es\u201d \u2014 uma totalidade din\u00e2mica, atravessada por t\u00e9cnica, poder e vida cotidiana.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-1.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/03\/31185655\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Apregoava que sistemas de objetos e de a\u00e7\u00f5es s\u00e3o indissoci\u00e1veis, ent\u00e3o o espa\u00e7o n\u00e3o est\u00e1 fora de n\u00f3s: pessoas s\u00e3o espa\u00e7o, o pensamento \u00e9 espa\u00e7o, a comida \u00e9 espa\u00e7o, por exemplo. Ao radicalizar essa categoria, ele nos oferece um legado: se o Norte global tende a tratar o espa\u00e7o como recurso, Milton Santos o v\u00ea como vida. O espa\u00e7o deixa de ser cen\u00e1rio e passa a ser estrutura ativa. \u00c9 dessa inflex\u00e3o que nasce sua leitura das desigualdades: elas n\u00e3o est\u00e3o apenas na sociedade, mas inscritas na pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o \u2014 nas metr\u00f3poles e nas pequenas cidades, no campo, nas florestas, nas \u00e1guas. Ao operar essa virada, Milton Santos retira a Geografia do papel de simples descri\u00e7\u00e3o de paisagem, colocando-a ao lado da pol\u00edtica, da economia e da cultura.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo ponto: sua capacidade de antecipar as tend\u00eancias globais que desembocaram na atual Era Digital, ao formular o conceito de \u201cmeio t\u00e9cnico-cient\u00edfico informacional\u201d, com o qual define a fase do capitalismo consolidada a partir dos anos 1970. Trata-se da generaliza\u00e7\u00e3o das redes t\u00e9cnicas \u2014 transportes, comunica\u00e7\u00f5es, infraestrutura \u2014 que reconfiguram o territ\u00f3rio e integram cidades e regi\u00f5es \u00e0 l\u00f3gica da modernidade global. V\u00ea, nesse est\u00e1gio, o espa\u00e7o se tornar mais artificial e intensamente moldado pela t\u00e9cnica, pela ci\u00eancia e pela informa\u00e7\u00e3o, sob comando de agentes hegem\u00f4nicos, sobretudo o mercado e as grandes corpora\u00e7\u00f5es. E, junto a isso, denuncia a perversidade da globaliza\u00e7\u00e3o, reafirmando a pot\u00eancia das periferias. Contra a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o sem fim, prop\u00f5e \u201cuma outra globaliza\u00e7\u00e3o\u201d, orientada pela vida e n\u00e3o pelo lucro.<\/p>\n<p>O terceiro e \u00faltimo ponto a destacar \u00e9 uma teoriza\u00e7\u00e3o incompleta de Milton Santos, desenvolvida mais em entrevista que livros: os outros mundos poss\u00edveis. Para ele, a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o esgota o mundo \u2014 ela o tensiona. Da\u00ed sua aposta: \u201cUm mundo plano de humanismo que vai se instalar\u201d, pois at\u00e9 \u201co trabalhador mais ignorante sabe que seu trabalho \u00e9 valorizado no mundo, n\u00e3o apenas no lugar\u201d. A informa\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que ordena, revela a falta: conhecimento \u00e9 tamb\u00e9m car\u00eancia. Saber o que falta \u00e9 j\u00e1 interpretar o pr\u00f3prio lugar no mundo, diz. \u00c9 nessa fresta que surge a contradi\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o circula de cima; a comunica\u00e7\u00e3o verdadeira nasce embaixo. O povo sequestra o que recebe e devolve outra coisa \u2014 reinterpreta, recria. Nas metr\u00f3poles, essa din\u00e2mica torna-se mais intensa, avaliava o ge\u00f3grafo. Territ\u00f3rios de escassez tornam-se tamb\u00e9m territ\u00f3rios de encontro: uma solidariedade de preocupa\u00e7\u00f5es entre os que partilham o mesmo espa\u00e7o. \u00c9 nesse ch\u00e3o de cidade que se desenha o futuro \u2014 n\u00e3o como promessa abstrata, mas como pr\u00e1tica cotidiana. Para Milton Santos, s\u00e3o os de baixo que, vendo mais de perto as contradi\u00e7\u00f5es, enxergam melhor o que ainda pode vir a ser.<\/p>\n<p><em>Outras Cidades<\/em> convidou o ge\u00f3grafo Thiago Adriano Machado para refletir sobre a atualidade do pensamento de Milton Santos na leitura das cidades brasileiras \u2014 e do Sul global. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, dedica-se a investigar as contribui\u00e7\u00f5es do autor para a compreens\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o e da realidade nacional. Em pauta, quest\u00f5es candentes: o suposto movimento de desglobaliza\u00e7\u00e3o, a digitaliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e as economias de plataforma, o papel das cidades do Sul global e as possibilidades de integra\u00e7\u00e3o Sul-Sul, as alternativas ao planejamento tecnocr\u00e1tico e o \u201cper\u00edodo demogr\u00e1fico ou popular\u201d da hist\u00f3ria, esbo\u00e7ado por Milton Santos como horizonte ut\u00f3pico. (<strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong>)<\/p>\n<p><strong>As hipocrisias da chamada globaliza\u00e7\u00e3o, claro, sempre existiram. Mas hoje, especialmente com a emerg\u00eancia econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica de pa\u00edses fora do Norte global e a ascens\u00e3o da extrema-direita no mundo, at\u00e9 neoliberais sugerem que o \u201cfim das fronteiras\u201d fracassou. Diante dessas tens\u00f5es, como podemos pensar as \u201ccidades globais\u201d a partir do Sul global?<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 90, no auge da globaliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se falava em algum n\u00edvel de desglobaliza\u00e7\u00e3o. Nos anos 2000, tamb\u00e9m, com a ascens\u00e3o da ideia de democracias iliberais \u2014 ou seja, o reconhecimento de que haveria no Ocidente democracias que, ainda que mantivessem o est\u00e1gio eleitoral, n\u00e3o tinham uma densidade democr\u00e1tica das institui\u00e7\u00f5es. E o que a gente tem assistido com a ascens\u00e3o da extrema-direita \u00e9 ainda mais a degrada\u00e7\u00e3o desse ambiente democr\u00e1tico, que vai mobilizar invariavelmente um discurso nacionalista. Muitas vezes, esse discurso descamba para um nacionalismo \u00e9tnico, como vemos no discurso anti-imigrante e, sobretudo agora, no principal exemplo disso, que \u00e9 mais uma rodada do conflito de Israel com a Palestina. Mas \u00e9 preciso atenuar a ideia de uma desglobaliza\u00e7\u00e3o. Afinal, n\u00e3o estamos acabando com o com\u00e9rcio exterior. Pelo contr\u00e1rio, os dados indicam que ele s\u00f3 cresce, inclusive no Brasil. Talvez haja um elemento novo: uma crise, sim, daquela ideia de que os Estados nacionais precisam abrir m\u00e3o de qualquer estrat\u00e9gia de desenvolvimento econ\u00f4mico, de um projeto nacional, em prol de uma abertura plena e incontest\u00e1vel em termos comerciais.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Pensando em termos mais geogr\u00e1ficos, esse processo de regionaliza\u00e7\u00e3o \u2014 que assistimos com a pandemia e vem desde a crise de 2008 \u2014 \u00e9 uma certa desestrutura\u00e7\u00e3o de algumas cadeias de suprimento e a tentativa de estabelecer uma coes\u00e3o regional maior do com\u00e9rcio exterior. Ou seja, a tentativa de se reagrupar em blocos regionais. Isso ganha ainda mais import\u00e2ncia no momento em que esse segundo governo Trump tem demonstrado que a estabilidade das institui\u00e7\u00f5es internacionais sob a gest\u00e3o dos Estados Unidos, desde depois da Segunda Guerra Mundial, acabou. E a Europa nota que n\u00e3o pode confiar nos Estados Unidos porque fica sofrendo press\u00f5es e chantagens.\u00a0<\/p>\n<p><strong>As guerras, que abalam a circula\u00e7\u00e3o de produtos, mostram como as economias seguem interconectadas. Ao mesmo tempo, os pr\u00f3prios EUA est\u00e3o tentando relocalizar a ind\u00fastria, construir novos acordos, inclusive na produ\u00e7\u00e3o de tecnologia, com pa\u00edses alinhados a eles. Nesse contexto, at\u00e9 que ponto o conceito de desglobaliza\u00e7\u00e3o ajuda, de fato, a entender o momento atual?<\/strong><\/p>\n<p>O deslocamento da produ\u00e7\u00e3o do iPhone para a China e outros pa\u00edses da regi\u00e3o, por meio da Foxconn <em>[corpora\u00e7\u00e3o multinacional taiwanesa fabricante de computadores e componentes eletr\u00f4nicos]<\/em> \u00e9 muito simb\u00f3lico do que o David Harvey chama \u201cajuste espacial\u201d \u2014 <em>spatial fix<\/em>, que tem um duplo sentido em ingl\u00eas: de consertar o que est\u00e1 quebrado e de ser algo fixo. Mas esse ajuste n\u00e3o \u00e9 apenas um deslocamento espacial \u2014 ele tamb\u00e9m \u00e9 um<em> fixo espacial<\/em>. E a\u00ed vem a ambiguidade do conceito: o capital produz espa\u00e7o. Quando o capitalismo constr\u00f3i uma f\u00e1brica, uma usina hidrel\u00e9trica, um data center, ele est\u00e1 produzindo uma materialidade espacial nova. Esses objetos espaciais s\u00e3o <em>capital fixo<\/em>, perdem liquidez. E, portanto, o deslocamento espacial acaba criando fixos que geram um custo adicional para a ideia de ter que se mudar de novo de local.<\/p>\n<p>Por isso, a ideia de desglobaliza\u00e7\u00e3o levanta tanto debate. Nos \u00faltimos 40 anos, o capitalismo global investiu maci\u00e7amente na constru\u00e7\u00e3o de <em>objetos espaciais<\/em> em Taiwan, Coreia do Sul, Jap\u00e3o e China para produzir semicondutores. Vejam: desglobaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 coisa do Trump. O governo Biden fez um grande projeto do que chamam de <em>reshoring<\/em> \u2014 \u00e9 como um ajuste espacial \u00e0s avessas. Era dizer: vamos fazer o contr\u00e1rio do que fizemos nos anos 1980, trazer de volta essa infraestrutura crucial.<\/p>\n<p>Talvez um termo melhor do que desglobaliza\u00e7\u00e3o seja reajuste espacial, nos termos do Harvey. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil porque voc\u00ea primeiro vai ter que desmobilizar os fixos espaciais constru\u00eddos ao longo de 40 ou 50 anos, e depois fazer um grande volume de investimentos para construir uma nova infraestrutura espacial nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A ideia de desglobaliza\u00e7\u00e3o causa esse rebuli\u00e7o porque, no fim das contas, \u00e9 isso. O n\u00facleo din\u00e2mico do capitalismo global \u2014 Europa e Estados Unidos \u2014, durante as \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, promoveu a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 como livre com\u00e9rcio. O livre com\u00e9rcio continua e vai continuar. A grande quest\u00e3o da desglobaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 que, al\u00e9m do livre com\u00e9rcio, a globaliza\u00e7\u00e3o representou o deslocamento espacial do investimento: a exporta\u00e7\u00e3o de capital para o Terceiro Mundo, como se chamava \u00e0 \u00e9poca, construindo infraestrutura nesses pa\u00edses para usufruir do que eles ofereciam \u2014 m\u00e3o de obra barata, flexibilidade da legisla\u00e7\u00e3o ambiental ou fontes de recursos. E agora voc\u00ea est\u00e1 tendo que, em setores estrat\u00e9gicos como semicondutores, fazer um reajuste espacial. Isso demanda muito dinheiro e um reajuste propriamente estrat\u00e9gico das cadeias de suprimento.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E como pensar as cidades globais nesse novo contexto?<\/strong><\/p>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o teve como um vetor mais importante o processo de financeiriza\u00e7\u00e3o. Quando a gente pensa em uma cidade global como S\u00e3o Paulo, no Sul global, essa financeiriza\u00e7\u00e3o nos coloca numa condi\u00e7\u00e3o da Divis\u00e3o Internacional do Trabalho muito subordinada \u2014 ou seja, um modo de administra\u00e7\u00e3o do capitalismo dependente. N\u00e3o vamos competir com a City de Londres, nem com as Bolsas de Nova Iorque, tampouco agora com a \u00c1sia, para onde se deslocou boa parte dessa din\u00e2mica financeira. Por\u00e9m, agora, com um certo reordenamento territorial desse capitalismo \u2014 entre muitas aspas, desglobalizado \u2014, talvez cidades globais como S\u00e3o Paulo possam exercer um outro papel na tentativa de se estruturar, a partir do Brasil, uma lideran\u00e7a regional.\u00a0<\/p>\n<p>Acredito que cidades globais do Sul global v\u00e3o encontrar algum espa\u00e7o efetivo numa perspectiva de integra\u00e7\u00e3o sul-sul. E talvez esse contexto de crise da globaliza\u00e7\u00e3o \u2014 o que se tem chamado de desglobaliza\u00e7\u00e3o \u2014 seja, em alguma medida, favor\u00e1vel para elas como centros de gest\u00e3o do territ\u00f3rio. A grande quest\u00e3o \u00e9 pensar que projeto ser\u00e1 posto em marcha a partir disso. Se for meramente administrar o capitalismo dependente, como se tem feito nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano vai continuar como observamos: cidades fragmentadas, desiguais, m\u00e1quinas imensas de produ\u00e7\u00e3o de desigualdade. E Milton j\u00e1 vinha falando disso desde a d\u00e9cada de 60. Diante desse processo de digitaliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, isso se evidencia ainda mais.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Como Milton Santos pode nos ajudar a entender as cidades na Era Digital?<\/strong><\/p>\n<p>Milton d\u00e1 uma contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica profunda quando diz que o espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 um palco onde as coisas acontecem. O espa\u00e7o \u00e9 esse conjunto de objetos espaciais e de a\u00e7\u00f5es \u2014 portanto, \u00e9 constitutivo, uma inst\u00e2ncia da realidade. Mas h\u00e1 outro conceito do Milton Santos muito interessante para discutirmos a sociedade contempor\u00e2nea: o conceito de <em>rugosidades<\/em>. Os objetos espaciais produzidos em outras \u00e9pocas, com outras densidades t\u00e9cnicas, permanecem na paisagem e comp\u00f5em o espa\u00e7o. Nossos centros hist\u00f3ricos, por exemplo, est\u00e3o cheios de formas espaciais que derivam de outros per\u00edodos hist\u00f3ricos \u2014 at\u00e9 mesmo de outras fases de outros modos de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Milton vai dizer, portanto, que o espa\u00e7o geogr\u00e1fico \u00e9 essa acumula\u00e7\u00e3o desigual de tempos: m\u00faltiplas temporalidades convivendo nele. E essas formas espaciais acabam sendo refuncionalizadas para a din\u00e2mica contempor\u00e2nea. A gente v\u00ea isso em v\u00e1rios centros hist\u00f3ricos. Por exemplo, Recife tem um projeto forte do Porto Digital no Recife Antigo. Voc\u00ea tem formas espaciais antigas \u2014 pr\u00e9dios do final do s\u00e9culo XIX, come\u00e7o do s\u00e9culo XX \u2014 sendo refuncionalizadas para abrigar, agora, incubadoras tecnol\u00f3gicas. Essas formas que remetem a outra temporalidade v\u00e3o sendo ajustadas \u00e0 din\u00e2mica contempor\u00e2nea do capitalismo informacional. O que \u00e9 bem interessante \u00e9 que Milton vai pensar o meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional como a base material da globaliza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante: ele n\u00e3o viu os smartphones nem a intelig\u00eancia artificial, mas nos deu categorias para refletir sobre o tempo contempor\u00e2neo. A categoria de meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional \u00e9 muito interessante para isso. E ela tem que ser pensada com a ideia de rugosidade. O espa\u00e7o contempor\u00e2neo, principalmente o Brasil, com sua forma\u00e7\u00e3o territorial t\u00e3o assentada num capitalismo de via colonial, est\u00e1 o tempo todo acionando rugosidades espaciais \u2014 o velho, o antigo \u2014 nesse processo de moderniza\u00e7\u00e3o por meio de uma densidade t\u00e9cnica, cient\u00edfica e informacional.\u00a0<\/p>\n<p>O que acho interessante observar \u2014 e j\u00e1 h\u00e1 trabalhos apontando isso \u2014 \u00e9 que estamos passando por uma nova fase. O Milton acompanhou o que aconteceu at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 2000, mas a gente est\u00e1 vivendo, digamos assim, uma nova etapa do meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional: um processo de digitaliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. E esse processo precisa ser profundamente refletido a partir de suas bases materiais. Ou seja, superar essa ideia de que vivemos num mundo em nuvem. Existem infraestruturas espaciais, materiais, das quais necessitamos para o mundo digital operar. E essas bases materiais do mundo digital se expressam, mais uma vez \u2014 porque se reproduzem dentro de uma l\u00f3gica capitalista \u2014, de modo desigual. Desigual e combinado, eu diria.\u00a0<\/p>\n<p>O Nordeste brasileiro agora est\u00e1 cheio de projetos de data centers \u2014 uma regi\u00e3o com restri\u00e7\u00e3o h\u00eddrica. Mas os governos locais, mais uma caracter\u00edstica da globaliza\u00e7\u00e3o, puxam estrat\u00e9gias locais e regionais de desenvolvimento e acionam muitas palavras da moda. Uma delas \u00e9 a ideia de<em> smart cities<\/em>. Trabalho em Caic\u00f3, uma cidade de 60 mil habitantes do semi\u00e1rido do Rio Grande do Norte. E discute-se, de vez em quando, a ideia de Caic\u00f3 como cidade inteligente. Ora, o que \u00e9 uma cidade inteligente no semi\u00e1rido? \u00c9 uma cidade com eventos de inova\u00e7\u00e3o do SEBRAE com as empresas locais? Talvez uma cidade inteligente fosse uma cidade mais bem arborizada, por exemplo. O processo de digitaliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio aciona infraestruturas materiais do espa\u00e7o geogr\u00e1fico, produz novas infraestruturas, produz espa\u00e7o dentro de uma l\u00f3gica desigual da reprodu\u00e7\u00e3o social no capitalismo contempor\u00e2neo \u2014 que \u00e9 um capitalismo informacional, mas n\u00e3o opera em nuvem. A nuvem \u00e9 talvez a grande ideologia da nossa \u00e9poca.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A cidade n\u00e3o se explica por si mesma. Ela est\u00e1 inserida numa l\u00f3gica maior \u2014 nacional e global. A partir do pensamento de Milton Santos, podemos vislumbrar caminhos para a constru\u00e7\u00e3o de outras l\u00f3gicas de Local, Nacional e Global?<\/strong><\/p>\n<p>De toda a obra geogr\u00e1fica do Milton, se a gente coloca em panorama, talvez o principal conceito seja o de <em>espa\u00e7os derivados<\/em>, que ajuda a compreender como \u00e9 que se produz espa\u00e7o no que \u00e0 \u00e9poca era chamado de Terceiro Mundo. Ou seja, n\u00e3o d\u00e1 para a gente olhar o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o da Europa ou pegar Henri Lefebvre e tentar compreender automaticamente como \u00e9 que se d\u00e1 a urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira.\u00a0<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, de afirmar que a produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o nos pa\u00edses perif\u00e9ricos segue l\u00f3gicas pr\u00f3prias, que exigem categorias anal\u00edticas enraizadas em suas condi\u00e7\u00f5es concretas. \u00c9 nesse sentido que Milton mobiliza a ideia de espa\u00e7o derivado: para mostrar que, numa forma\u00e7\u00e3o socioespacial de matriz colonial, h\u00e1 uma din\u00e2mica particular de produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Ao interpretar a urbaniza\u00e7\u00e3o do Sul global por exemplo, ele formula a distin\u00e7\u00e3o entre circuitos superior e inferior da economia urbana \u2014 ambos resultantes de processos de moderniza\u00e7\u00e3o. Ou seja, s\u00e3o processos que funcionam como vetores de produ\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os derivados: espa\u00e7os que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, derivam de uma din\u00e2mica global.<\/p>\n<p>Para Milton Santos, a metr\u00f3pole carrega uma grande pot\u00eancia. Apesar dela ser aberta \u00e0s verticalidades e aos processos de moderniza\u00e7\u00e3o, esses processos n\u00e3o alcan\u00e7am todos os lugares. A metr\u00f3pole \u00e9 tamb\u00e9m feita de rugosidades. E, a partir dessas rugosidades, se tornam poss\u00edveis processos de contra-racionalidade, de resist\u00eancia. \u00c9 a\u00ed que se d\u00e1 a <em>flexibilidade tropical<\/em>: a capacidade, presente nas cidades dos chamados pa\u00edses subdesenvolvidos, de a moderniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se impor de maneira total e simult\u00e2nea. Ou seja, o meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional n\u00e3o se instala de forma uniforme no espa\u00e7o. Persistem descontinuidades, tempos sobrepostos, rugosidades espaciais \u2014 e \u00e9 nelas que se abrem brechas para outras formas de uso e produ\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>Como interpretar isso a partir do processo de digitaliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, que falamos antes? Um caminho \u00e9 observar como as economias de plataforma operam hoje na produ\u00e7\u00e3o das cidades. Se pegarmos plataformas como Uber e 99, por exemplo, vemos que, por um lado, elas integram o circuito superior da economia \u2014 intensivo em capital e tecnologia. Por outro lado, mobilizam como for\u00e7a de trabalho indiv\u00edduos que, sob a l\u00f3gica maluca do \u201cempreendedor de si mesmo\u201d, acabam operando no circuito inferior da economia urbana. H\u00e1, portanto, estruturas globais altamente tecnificadas que se apoiam em formas de trabalho precarizadas e territorialmente situadas. Ou seja, \u00e9 o Global incidindo diretamente sobre o Local \u2014 sobre as cidades.<\/p>\n<p>Se a gente pensar dentro da l\u00f3gica das economias de plataforma, esses agentes sociais \u2014 essa classe trabalhadora \u2014 est\u00e3o produzindo suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias para tentar hackear a tecnologia do algoritmo. E esse jeito de hackear o algoritmo \u00e9 muitas vezes profundamente geogr\u00e1fico, tal como o pr\u00f3prio algoritmo \u00e9 geogr\u00e1fico. S\u00e3o tecnologias geoespaciais, inclusive produzindo mapas de calor: zonas quentes, zonas frias, e formas de punir os trabalhadores, excluindo-os dessas zonas quentes onde tem mais chamadas, nos hor\u00e1rios mais adequados. Ent\u00e3o, essa economia de plataforma pensada a partir da produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano no Sul global dialoga profundamente com toda a tradi\u00e7\u00e3o de reflex\u00e3o que o Milton Santos produziu desde a d\u00e9cada de 60.<\/p>\n<p><strong>Diante da ideia de uma cidadania atrelada ao consumo \u2014 incompleta e desigual, como analisado em <\/strong><strong><em>O Espa\u00e7o do Cidad\u00e3o<\/em><\/strong><strong> \u2014, como o pensamento de Milton Santos pode inspirar pol\u00edticas territoriais voltadas para a justi\u00e7a social nas cidades brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p>Ele foi algu\u00e9m que trabalhou intensamente com planejamento. No in\u00edcio de sua carreira, na Bahia, chegou a presidir a Comiss\u00e3o de Planejamento do Estado, foi subsecret\u00e1rio no governo J\u00e2nio Quadros e integrou uma elite tecnocr\u00e1tica engajada na moderniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio baiano. Mas depois desenvolve uma trajet\u00f3ria cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de planejamento. H\u00e1 um texto muito interessante, <em>A totalidade do diabo<\/em>, em que ele pensa as formas espaciais como um tipo de Cavalo de Troia. \u00c9 a ideia de que a verticalidade produz espa\u00e7o, formas e objetos espaciais. Nos anos 1960 e 1970, ele observa a prolifera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de planejamento vinculadas a institui\u00e7\u00f5es internacionais \u2014 como a Funda\u00e7\u00e3o Ford e projetos ligados ao sistema de Bretton Woods \u2014 que prometiam moderniza\u00e7\u00e3o e desenvolvimento regional a partir da industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que ele percebe \u00e9 que, muitas vezes, esses processos n\u00e3o s\u00f3 falham em cumprir o que prometem, como acabam refor\u00e7ando desigualdades espaciais. Ainda assim, ele n\u00e3o abandona o planejamento. Nem o trata como panaceia: n\u00e3o seria por meio de uma vis\u00e3o tecnocr\u00e1tica, na qual o especialista apresenta solu\u00e7\u00f5es prontas, que se resolveriam os problemas da desigualdade espacial.<\/p>\n<p>Acho que h\u00e1 um diagn\u00f3stico importante em <em>O Espa\u00e7o do Cidad\u00e3o<\/em>: a reinterpreta\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o do Brasil a partir de sucessivos pactos territoriais. N\u00e3o d\u00e1 para pensar nos pactos sociais e pol\u00edticos no pa\u00eds sem considerar o territ\u00f3rio, porque eles s\u00e3o atravessados, por exemplo, pela quest\u00e3o agr\u00e1ria. Quem domina a pol\u00edtica no Brasil? Aqui arrisco um di\u00e1logo com outro ge\u00f3grafo, Rui Moreira, que foi inclusive meu orientador de doutorado. Ele prop\u00f5e que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre terra, territ\u00f3rio e Estado: quem controla a terra controla o territ\u00f3rio, e quem controla o territ\u00f3rio controla o Estado \u2014 n\u00e3o o contr\u00e1rio, como muitas vezes se sup\u00f5e. Ou seja, no Brasil, historicamente, a l\u00f3gica se inverte. E \u00e9 nesse sentido que Milton Santos aponta que os pactos pol\u00edticos s\u00e3o, na verdade, pactos territoriais \u2014 mais do que isso, pactos territoriais funcionais, porque atendem a determinados interesses de classe.<\/p>\n<p>H\u00e1, nos escritos de Milton Santos, um horizonte ut\u00f3pico e at\u00e9 normativo. Ele prop\u00f5e a ideia de um novo pacto territorial brasileiro, que lide com aquilo que chama de uso coerente do territ\u00f3rio. Podemos pensar o que seria esse \u201cuso coerente\u201d a partir de alguns dos principais problemas territoriais do pa\u00eds. Um deles \u00e9 a quest\u00e3o agr\u00e1ria, que permanece central: a terra continua sendo um problema no Brasil, e o territ\u00f3rio segue sendo produzido, muitas vezes, com base na grilagem \u2014 inclusive de terras urbanas. Tenho visto, por exemplo, em S\u00e3o Paulo, o debate sobre os efeitos do \u00faltimo Plano Diretor, nosso principal instrumento de planejamento urbano, e como ele foi totalmente vampirizado pelas construtoras, utilizando hoje habita\u00e7\u00e3o social para Airbnb.\u00a0<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do diagn\u00f3stico, talvez a principal proposi\u00e7\u00e3o seja \u201cfazer falar o territ\u00f3rio\u201d, que era um dos objetivos de Milton Santos: dar ouvidos aos seus agentes. Isso implica pensar pol\u00edticas e formas de planejamento que n\u00e3o sejam tecnocr\u00e1ticas, mas efetivamente participativas. Em termos miltonianos, trata-se de produzir um planejamento territorial participativo, atento \u00e0s rugosidades e \u00e0quilo que ele chamava de \u201chomens lentos\u201d \u2014 ou, se quisermos reformular a ideia, as \u201cgentes lentas\u201d.<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o os homens, ou gentes, lentos? S\u00e3o exatamente os sujeitos sociais que n\u00e3o v\u00e3o estar automaticamente subordinados a essa rapidez, a essa fluidez do meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional e que, portanto, v\u00e3o construir, a partir das rugosidades, as possibilidades de contra-racionalidade. Em <em>O Espa\u00e7o do Cidad\u00e3o<\/em>, ele vai falar de desiguais institucionais, das mulheres, dos migrantes, inclusive cita os nordestinos, as pessoas negras, tanto que no pr\u00f3prio debate dele, posterior ao livro, sua ideia de cidadania vai passar muito pelo conceito de corporeidade. Quando Milton discute, por exemplo, o que \u00e9 ser negro no Brasil, ele insiste: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender a corporeidade negra sem considerar a forma\u00e7\u00e3o socioespacial do pa\u00eds \u2014 e, ao mesmo tempo, n\u00e3o se entende essa forma\u00e7\u00e3o abrindo m\u00e3o da corporeidade. Por isso, o conceito de forma\u00e7\u00e3o socioespacial \u00e9 central tamb\u00e9m para pensar o futuro da sociedade e do territ\u00f3rio brasileiros.<\/p>\n<p>O planejamento, portanto, precisa ser genuinamente brasileiro, no sentido de partir das nossas pr\u00f3prias pot\u00eancias. Isso n\u00e3o exclui o di\u00e1logo com outras experi\u00eancias, claro, mas a gente n\u00e3o vai construir solu\u00e7\u00f5es com a importa\u00e7\u00e3o de modelos europeus, norte-americanos ou mesmo chineses.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Um conceito que ele esbo\u00e7ou foi o de per\u00edodo demogr\u00e1fico ou popular da Hist\u00f3ria, que parece muito instigante ao apontar como as contradi\u00e7\u00f5es do\u00a0meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional podem gerar resist\u00eancias criativas e potentes\u2026 Era ele um grande otimista?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 mais um fio solto que ele deixa, entre tantos. Isso acaba sendo, inclusive, uma fonte de cr\u00edticas que ele recebe \u2014 como se houvesse, em sua leitura, um tra\u00e7o teleol\u00f3gico, \u00e0 maneira de certo marxismo mais cl\u00e1ssico. Ou seja, assim como se pressupunha que a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da sociedade caminharia ao comunismo, alguns veem na perspectiva de Milton Santos um certo grau de de finalidade pressuposta na pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas, para ele, o futuro \u00e9 um projeto pol\u00edtico. O chamado per\u00edodo demogr\u00e1fico ou popular da hist\u00f3ria deve ser entendido, portanto, como um exerc\u00edcio intelectual de constru\u00e7\u00e3o de um horizonte ut\u00f3pico \u2014 muito mais ligado \u00e0 ideia de projeto do que \u00e0 previs\u00e3o do que vai acontecer. Trata-se de um projeto que dialoga com uma veia existencialista e uma veia marxista: uma aposta na emancipa\u00e7\u00e3o humana a partir da capacidade de as massas trabalhadoras exploradas tomarem as r\u00e9deas da t\u00e9cnica e, assim, constru\u00edrem um novo per\u00edodo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O per\u00edodo demogr\u00e1fico da hist\u00f3ria, para ele, \u00e9 a terceira lei da dial\u00e9tica, o salto do quantitativo para o qualitativo. O capitalismo produz uma massa de explorados t\u00e3o grande que esse quantitativo, num momento, se converte em mudan\u00e7a qualitativa. Essa mudan\u00e7a vai permitir que os chamados homens lentos se apropriem da tecnologia e do meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional para construir o que ele chama de uma outra globaliza\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o lugar de Milton Santos no pensamento social brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p>Interpretar o Brasil era um projeto intelectual de Milton Santos. Ele sempre pontuou isso em entrevistas e em seu \u00faltimo livro <em>[Por uma outra globaliza\u00e7\u00e3o: do pensamento \u00fanico \u00e0 consci\u00eancia universal]<\/em>. Os ge\u00f3grafos comumente s\u00e3o pouco reconhecidos como int\u00e9rpretes do Brasil, basta olharmos as colet\u00e2neas de pensamento social brasileiro: Milton aparecer\u00e1 numa delas, pela primeira vez em 2015, em \u201cInt\u00e9rpretes do Brasil: Cl\u00e1ssicos, Rebeldes e Renegados\u201d <em>[livro organizado por Luiz Bernardo Peric\u00e1s e Lincoln Secco]<\/em> \u2014 curiosamente situado como um int\u00e9rprete cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Em 1997, ou seja, quatro anos antes do livro ser publicado, ele passa alguns meses na Universidade de Stanford, numa c\u00e1tedra de pensamento social brasileiro, onde d\u00e1 uma entrevista dizendo que est\u00e1 tentando formular uma interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil tal como o Florestan Fernandes, Caio Prado J\u00fanior, S\u00e9rgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre fizeram. Ou seja, ele tem essa ambi\u00e7\u00e3o de se situar dentro desse campo intelectual que \u00e9 da interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil de agora.<\/p>\n<p>O projeto dele \u00e9 pensar o Brasil a partir do territ\u00f3rio, construindo, antes de tudo, um modelo explicativo da forma\u00e7\u00e3o socioespacial brasileira, que ele apresenta num texto de 1977. Trata-se de uma interpreta\u00e7\u00e3o diacr\u00f4nica \u2014 isto \u00e9, temporal \u2014 dessa forma\u00e7\u00e3o. Ele mobiliza o conceito de meio geogr\u00e1fico para interpretar o pa\u00eds desde o meio natural, passando pelos sucessivos meios t\u00e9cnicos, diferenciados pelos distintos graus de mecaniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Assim, analisa o per\u00edodo colonial como um tipo espec\u00edfico de meio t\u00e9cnico e avan\u00e7a at\u00e9 momentos como a independ\u00eancia e a instala\u00e7\u00e3o das ferrovias. No final do s\u00e9culo XIX, por exemplo, a chegada das ferrovias marca o que ele chama de circula\u00e7\u00e3o mecanizada. Vejam que se trata de uma interpreta\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do Brasil: ele n\u00e3o periodiza por eventos pol\u00edticos ou econ\u00f4micos, mas pelo conte\u00fado t\u00e9cnico, cient\u00edfico e informacional do territ\u00f3rio. At\u00e9 chegar \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, no meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional. Em termos diacr\u00f4nicos, a forma\u00e7\u00e3o socioespacial brasileira \u00e9 interpretada desde o meio natural, passando pelos sucessivos meios t\u00e9cnicos, at\u00e9 esse est\u00e1gio mais recente. Mas essa forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 lida apenas de modo diacr\u00f4nico, e sim tamb\u00e9m sincr\u00f4nico. Ou seja, ele observa como, em cada momento, se organiza uma divis\u00e3o territorial do trabalho e se configuram diferentes usos do territ\u00f3rio. A partir disso, produz uma regionaliza\u00e7\u00e3o do Brasil \u2014 um procedimento tipicamente geogr\u00e1fico de interpreta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que regionalizar \u00e9 recortar o territ\u00f3rio. \u00c9 nesse quadro que surge a ideia dos quatro Brasis.<\/p>\n<p>Eu incluiria ainda, nessa l\u00f3gica da cidadania, textos que n\u00e3o s\u00e3o livros, mas escritos avulsos, nos quais ele aborda a cidadania mutilada brasileira, incorporando a dimens\u00e3o da negritude a partir da ideia de corporeidade.<\/p>\n<p>Nesse quadro mais amplo, eu insiro Milton Santos no pensamento social brasileiro talvez como a interpreta\u00e7\u00e3o mais radical do pa\u00eds, se considerarmos a dimens\u00e3o territorial. Alguns cr\u00edticos v\u00e3o dizer que falta sujeito nessa leitura \u2014 e eu, n\u00e3o por defend\u00ea-lo, mas justamente por estud\u00e1-lo, discordo: h\u00e1 sujeitos territoriais nessa interpreta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os desiguais institucionais de <em>O Espa\u00e7o do Cidad\u00e3o<\/em>, os homens lentos, os migrantes, as mulheres, os negros.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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