{"id":86031,"date":"2026-05-05T04:00:00","date_gmt":"2026-05-05T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cade-a-reforma-agraria-lider-do-maior-acampamento-do-pais-cobra-regularizacao-de-terras\/"},"modified":"2026-05-05T04:00:00","modified_gmt":"2026-05-05T07:00:00","slug":"cade-a-reforma-agraria-lider-do-maior-acampamento-do-pais-cobra-regularizacao-de-terras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cade-a-reforma-agraria-lider-do-maior-acampamento-do-pais-cobra-regularizacao-de-terras\/","title":{"rendered":"Cad\u00ea a reforma agr\u00e1ria? L\u00edder do maior acampamento do pa\u00eds cobra regulariza\u00e7\u00e3o de terras"},"content":{"rendered":"<p>No Par\u00e1, onde h\u00e1 cerca de 30 mil fam\u00edlias acampadas \u00e0 espera da Reforma Agr\u00e1ria. Desse total, 9 mil s\u00e3o organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no estado. Somente <span>o Acampamento Terra e Liberdade, em Parauapebas, sudeste do Par\u00e1, o maior acampamento de trabalhadores rurais do Brasil<\/span>, tamb\u00e9m organizado pelo povo Sem Terra, tem cerca de 5 mil fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Desde 20 de novembro de 2023, o Terra e Liberdade tem se mostrado resiliente enquanto o poder p\u00fablico n\u00e3o resolve a situa\u00e7\u00e3o conforme prometido pelo ministro do Desenvolvimento Agr\u00e1rio, Paulo Teixeira, e pelo governo federal. Em dezembro de 2024, Teixeira esteve no acampamento e \u201cdisse que j\u00e1 tinha uma das \u00e1reas destinadas para fazer o assentamento\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a lideran\u00e7a e moradora, Valbinne Gama, o prazo para resolver a situa\u00e7\u00e3o era \u201cmar\u00e7o [2026]. <span>Mas a\u00ed tem v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, por exemplo, a quest\u00e3o da vistoria aqui das \u00e1reas. Enfim, chamam a gente para se reunir, d\u00e3o prazo, o prazo estourou e at\u00e9 hoje nada\u201d<\/span>, contou em entrevista concedida \u00e0 <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<p>Nesta conversa, Valbianne desmistifica a imagem do \u201cinvasor\u201d e exp\u00f5e o gargalo burocr\u00e1tico que impede o assentamento de milhares de pessoas em \u00e1reas como o Complexo da Fazenda Miranda. Com o olhar de quem apoiou a elei\u00e7\u00e3o do governo federal, mas convive com a \u201cbancada do boi, da bala e da b\u00edblia\u201d travando avan\u00e7os no Congresso, ela tra\u00e7a um panorama da luta pela terra hoje. Um misto de resist\u00eancia f\u00edsica, forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a certeza de que a justi\u00e7a social no Brasil passa, obrigatoriamente, pela redistribui\u00e7\u00e3o do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de liderar o Terra e Liberdade, Valbianne faz parte da dire\u00e7\u00e3o estadual do MST h\u00e1 quatro anos e da dire\u00e7\u00e3o regional Caraj\u00e1s, que atua em seis territ\u00f3rios na regi\u00e3o dos munic\u00edpios de Parauapebas, Curion\u00f3polis e Cana\u00e3 dos Caraj\u00e1s.<\/p>\n<p>Valbianne fala sobre a organiza\u00e7\u00e3o de 5 mil fam\u00edlias dentro de um espa\u00e7o de 55 hectares que aguardam at\u00e9 o Incra resolver as burocracias.\u00a0\u201cN\u00f3s dividimos em pequenos lotes de 10 por 20 metros para que as fam\u00edlias fizessem seus barraquinhos, suas moradias, e os seus quintais produtivos. \u00c9 a busca pela soberania alimentar\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m cobra celeridade nos processos de legaliza\u00e7\u00e3o das terras onde hoje as fam\u00edlias se dividem. \u201c<span>Cad\u00ea a reforma agr\u00e1ria? Cad\u00ea as promessas? Cad\u00ea os territ\u00f3rios? Cad\u00ea os assentamentos para o nosso povo? S\u00e3o cerca de 200 mil fam\u00edlias em todo o Brasil que vivem nessas condi\u00e7\u00f5es de acampamento.<\/span> Ent\u00e3o, a gente est\u00e1 botando a cara na rua, marchando, para questionar o governo\u201d, declara.<\/p>\n<p>A forma com que muitas pessoas enxergam, de maneira pejorativa e preconceituosa, quem reivindica e luta por reforma agr\u00e1ria no Brasil \u00e9 vista por Vabilanne como um \u201creflexo da educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, \u00e9 um d\u00e9ficit muito grande de consci\u00eancia cr\u00edtica, pol\u00edtica, de entender a hist\u00f3ria do pa\u00eds. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes, nem d\u00e1 para a gente julgar essas pessoas\u201d.<\/p>\n<div>\n<div>\n<h2>Por que isso importa?<\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<ul>\n<li>O atual governo desapropriou 13,3 mil hectares para a reforma agr\u00e1ria entre 2023 e 2025, segundo a organiza\u00e7\u00e3o Fiquem Sabendo. A \u00e1rea \u00e9 menor do que a desapropriada nos  dois \u00faltimos anos da gest\u00e3o Temer (MDB).<\/li>\n<li>Em janeiro de 2026, entretanto, o governo federal anunciou R$ 2,7 bilh\u00f5es para medidas voltadas \u00e0 reforma agr\u00e1ria como obten\u00e7\u00e3o de terras, cria\u00e7\u00e3o e regulariza\u00e7\u00e3o de assentamentos,  cr\u00e9dito, entre outros investimentos.<\/li>\n<\/ul><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p>Na tentativa de amenizar essa vis\u00e3o, ela convida as pessoas a irem em um acampamento ou\u00a0assentamento. \u201cV\u00e1 e veja como as fam\u00edlias se organizam, como o povo sem terra \u00e9 t\u00e3o trabalhador. O tanto que a gente produz, inclusive sem veneno, para n\u00e3o agredir a natureza, para n\u00e3o agredir os nossos recursos, bens naturais e ter acesso ao alimento de qualidade\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Abaixo os trechos mais importantes da entrevista de Valbianne Gama concedida \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<figure><figcaption>Lideran\u00e7a no acampamento Terra e Liberdade, no Par\u00e1, Valbianne Gama espera vencer burocracia governamental para assentar as primeiras fam\u00edlias<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Queria come\u00e7ar pedindo pra voc\u00ea descrever como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do Acampamento Terra e Liberdade hoje. S\u00e3o quantas fam\u00edlias?<\/strong><\/p>\n<p>A gente ocupou uma \u00e1rea do complexo da fam\u00edlia Miranda, mais especificamente a \u00e1rea da fazenda Santa Maria.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a gente n\u00e3o conseguiu permanecer na \u00e1rea. E a\u00ed fizemos o que a gente tem chamado de recuo estrat\u00e9gico para um local onde foi cedido por um dos assentados da Palmares 2 \u2013 que \u00e9 uma \u00e1rea de assentamento que esse ano vai fazer 32 anos \u2013 aqui em Parauapebas. O companheiro, que a gente chama de irm\u00e3ozinho, cedeu o lote dele pra gente fazer o acampamento provis\u00f3rio para ir ganhando f\u00f4lego para uma segunda investida.<\/p>\n<p>L\u00e1 foi onde aconteceu inclusive a trag\u00e9dia de nove de dezembro [de 2023], n\u00e3o sei se voc\u00ea ficou sabendo, teve a quest\u00e3o de um curto circuito onde a gente perdeu nove companheiros.<\/p>\n<p>Depois desse ocorrido, veio muita gente, muitos pol\u00edticos, o Incra [Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria], o MDA [Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio e Agricultura Familiar], para prestar solidariedade, mas tamb\u00e9m fazer a promessa que as fam\u00edlias do acampamento n\u00e3o passariam mais o natal daquele ano, de 2023, naquelas condi\u00e7\u00f5es, iriam acelerar o processo para dar a terra das fam\u00edlias. Como estamos at\u00e9 hoje acampados, n\u00e3o foi cumprida a promessa.<\/p>\n<p>No dia 15 de abril de 2024, n\u00f3s rumamos numa marcha para essa localidade onde est\u00e1 hoje o acampamento, que \u00e9 a antiga fazenda Aquidauana. E da\u00ed, de l\u00e1 para c\u00e1, a gente tem feito muitas lutas, mobiliza\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o com o povo. Fizemos algumas mobiliza\u00e7\u00f5es na ferrovia tamb\u00e9m para pressionar a Vale tamb\u00e9m, porque entendemos, enquanto movimento, que a Vale tamb\u00e9m tem responsabilidade socioecon\u00f4mica e ambiental, dos problemas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 que essa \u00e1rea aqui onde n\u00f3s ocupamos, tem apenas 55 hectares. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea para fim de reforma agr\u00e1ria. Mas que a gente investiu nessa ocupa\u00e7\u00e3o aqui para estar do lado do complexo [onde tamb\u00e9m] est\u00e1 a fazenda Miranda. E para ter um local mais tranquilo, onde as fam\u00edlias conseguissem se alojar, acampar e esperar esse processo da fiscaliza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 vir a reforma agr\u00e1ria, para poder assentar as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A gente conseguiu avan\u00e7ar no processo com a Vale, que comprou essa \u00e1rea da fazenda Aquidauana. A Vale passou o recurso para o Incra, o Incra fez todos os tr\u00e2mites com a fam\u00edlia Benevides e comprou essa \u00e1rea aqui, onde hoje est\u00e1 localizado o acampamento.<\/p>\n<p>Mas a gente diz que ainda \u00e9 acampado porque a \u00e1rea n\u00e3o passou para as fam\u00edlias, por conta dessa quest\u00e3o burocr\u00e1tica com o Incra. E tamb\u00e9m pouco se avan\u00e7ou nesse processo da constru\u00e7\u00e3o do assentamento para as 5 mil fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Nessa \u00e1rea, a gente se dividiu no que a gente chamou de distrito. N\u00f3s somos 11 distritos, \u00e9 como se fossem 11 pequenos acampamentos dentro de uma \u00e1rea. Foi assim que a gente conseguiu se organizar melhor.<\/p>\n<p><strong>As 5 mil fam\u00edlias est\u00e3o nesse espa\u00e7o da fazenda Aquidauana?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s dividimos em pequenos lotes de 10 por 20 metros para que as fam\u00edlias fizessem seus barraquinhos, suas moradias, e os seus quintais produtivos \u2013 inclusive a gente tem produzido muito.<\/p>\n<p><strong>Esse espa\u00e7o que voc\u00eas est\u00e3o hoje \u00e9 um espa\u00e7o de transi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, a proposta quando a gente veio para c\u00e1 era isso, era fazer o acampamento provis\u00f3rio para poder aguardar o processo de vistoria com o Incra, das \u00e1reas que foram solicitadas pelo movimento.<\/p>\n<p>A maioria dessas \u00e1reas est\u00e3o no complexo da Fazenda Miranda, que vai desde aqui de Parauapebas, passando por Curion\u00f3polis e Marab\u00e1. Tem \u00e1reas de outras fam\u00edlias, mas a maior parte \u00e9 essa da fam\u00edlia Miranda. Se eu n\u00e3o estou enganada, s\u00e3o 18 fazendas que comp\u00f5em esse complexo.<\/p>\n<figure><figcaption>Vista a\u00e9rea do acampamento Terra e Liberdade onde 5 mil fam\u00edlias vivem atualmente.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Voc\u00ea disse que ap\u00f3s o epis\u00f3dio que aconteceu da morte dos trabalhadores, por conta daquela descarga el\u00e9trica, houve uma movimenta\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio. Eu queria saber como est\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o com o governo federal e se houve algum tipo de avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas.<\/strong><\/p>\n<p>O ministro da agricultura, do MDA, veio no final do ano passado, acho que dia 23 de dezembro e disse que j\u00e1 tinha uma das \u00e1reas destinadas para fazer o assentamento. Inclusive foi divulgada no Di\u00e1rio Oficial tamb\u00e9m do Incra, que j\u00e1 tem essa \u00e1rea destinada, que inclusive tem nome: assentamento Maria de F\u00e1tima \u2013 que foi dada em mem\u00f3ria a uma das companheiras nossas aqui do setor de sa\u00fade que tombou na luta.<\/p>\n<p>L\u00e1 seriam assentadas 300 fam\u00edlias, mas o processo n\u00e3o chegou a avan\u00e7ar. E outra, \u00e9 uma \u00e1rea muito pequena, tendo em vista a nossa quantidade de p\u00fablico, n\u00e3o assenta nem um ter\u00e7o do povo que a gente tem. Foi somente isso.<\/p>\n<p>Inclusive, como estamos no abril vermelho, esse ano \u00e9 muito significativo para n\u00f3s\u00a0porque se completa 30 anos do massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s. No dia 13, a gente iniciou uma marcha.\u00a0Fizemos uma homenagem no cemit\u00e9rio aos nossos mortos que est\u00e3o l\u00e1, uma parte dos que tombaram no fat\u00eddico dia 17 de abril de 1996.<\/p>\n<p>Em mem\u00f3ria a eles, mas tamb\u00e9m para dizer que n\u00f3s somos sementes e seguimos nessa luta por justi\u00e7a social, por reforma agr\u00e1ria, para pautar os nossos territ\u00f3rios. N\u00e3o s\u00f3 o Terra e Liberdade est\u00e1 fazendo parte dessa marcha, mas todos os territ\u00f3rios do Par\u00e1, especialmente os acampamentos.<\/p>\n<p>Esse ano \u00e9 o 20\u00ba acampamento pedag\u00f3gico [que realizamos nesta data]. Para a gente fazer esse bonito ato no dia 17 [de abril], mas tamb\u00e9m para perguntar ao governo, cad\u00ea a reforma agr\u00e1ria? Cad\u00ea as promessas? Cad\u00ea os territ\u00f3rios? Cad\u00ea os assentamentos para o nosso povo?\u00a0(\u2026) S\u00e3o cerca de 200 mil fam\u00edlias em todo o Brasil que vivem nessas condi\u00e7\u00f5es de acampamento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a gente est\u00e1 botando a cara na rua, marchando, para questionar o governo.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00eas receberam a visita do MDA, eles deram algum prazo para resolver a situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O prazo era mar\u00e7o. Se eu n\u00e3o me engano. Mas a\u00ed tem v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, por exemplo, a quest\u00e3o da vistoria aqui das \u00e1reas. Enfim, chamam a gente para se reunir, d\u00e3o prazo, o prazo estoura e at\u00e9 hoje nada. O acampamento vai completar 3 anos e a gente tem vivido muito de falsas promessas.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com o governo estadual?<\/strong><\/p>\n<p>A gente tem pouco di\u00e1logo com o governo do estado.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 que est\u00e1? Voc\u00eas chegaram a ter uma uma amea\u00e7a de despejo. Como \u00e9 que est\u00e1 isso?<\/strong><\/p>\n<p>Aqui no Terra e Liberdade, especificamente, n\u00e3o. Como foi comprado pelo Incra, a gente est\u00e1 nesse di\u00e1logo para ver como\u00a0[o \u00f3rg\u00e3o] vai fazer para passar a \u00e1rea, que \u00e9 a parte de cada assentado.<\/p>\n<p>A gente tem entendido, no processo, que [aqui] vai ser a futura vila do assentamento, possivelmente. O Incra juridicamente n\u00e3o pode passar a \u00e1rea para n\u00f3s, porque n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea para fim de reforma agr\u00e1ria. A gente tem entendido que de repente, como o ministro colocou essa possibilidade, desse primeiro assentamento para as 300 fam\u00edlias, se vier a acontecer, a gente pode ligar o processo. [Assim,] daria para passar a \u00e1rea para as fam\u00edlias, porque aumentaria a quantidade de terra, digamos assim. Mas s\u00f3 essa \u00e1rea que n\u00f3s estamos n\u00e3o tem como passar, mas a\u00ed est\u00e1 na m\u00e3o do Incra, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na m\u00e3o do fazendeiro.<\/p>\n<p><strong>E o Incra tamb\u00e9m n\u00e3o deu prazo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Eles t\u00eam questionado essa situa\u00e7\u00e3o, porque como n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea destinada \u00e0 reforma agr\u00e1ria, barrou nesta parte burocr\u00e1tica. Como a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 essa brecha para passar, a brecha que tem \u00e9 essa, de pegar uma outra \u00e1rea para fazer liga\u00e7\u00e3o burocraticamente para poder passar para as fam\u00edlias, porque da\u00ed aumentaria o tamanho da \u00e1rea.<\/p>\n<p><strong>Queria que voc\u00ea desse um panorama de como foram esses 3 anos de governo Lula na quest\u00e3o das pol\u00edticas para reforma agr\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 meio dif\u00edcil, \u00e9 muito complicado at\u00e9 de ouvir o povo hoje, porque a revolta \u00e9 muito grande, porque um dos movimentos que mais apoiou o governo Lula foi o MST. Inclusive, com essa pauta de trazer a reforma agr\u00e1ria para discuss\u00e3o, para mesa de debate, para avan\u00e7ar nesse debate. E a gente pouco viu, de fato, o avan\u00e7o da pauta da reforma agr\u00e1ria, da pauta da agricultura familiar.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea quer dizer com \u201cmeio dif\u00edcil\u201d? Voc\u00ea se refere a defender o governo? Voc\u00ea acha que as pessoas est\u00e3o impacientes por conta dessa demora?<\/strong><\/p>\n<p>Isso. A gente se envolveu nessa marcha, nessa jornada de luta justamente para isso, para gritar nas ruas, para colocar nossa pauta, para cobrar do governo esse avan\u00e7o da reforma agr\u00e1ria no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, essa marca e mem\u00f3ria dos 30 anos do massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s tamb\u00e9m serve para chamar a aten\u00e7\u00e3o do Governo Federal?<\/strong><\/p>\n<p>Isso. Para dizer que nossos mortos n\u00e3o morreram em v\u00e3o, que tentaram nos silenciar, mas viramos sementes. E que mesmo depois de 30 anos, que para n\u00f3s s\u00e3o 30 anos de impunidade, de dor e sofrimento das fam\u00edlias que sobreviveram ao massacre, porque at\u00e9 hoje muitos n\u00e3o recebem nada do governo, n\u00e3o t\u00eam esse respaldo.<\/p>\n<p>Muitos ainda hoje vivem com as dores das balas alojadas, porque n\u00e3o conseguiram retirar as balas do corpo. Ent\u00e3o, s\u00e3o in\u00fameras dores, mas que tamb\u00e9m se transformaram em resist\u00eancia. E n\u00f3s, do Acampamento Terra Liberdade, e outros acampamentos que vieram depois, viramos semente e que \u00e9 preciso avan\u00e7ar na pauta da reforma agr\u00e1ria nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pega dados a\u00ed da CPT\u00a0e v\u00ea que outros massacres que ainda acontecem no pa\u00eds, principalmente aqui nessa regi\u00e3o sul e no sudeste do Par\u00e1. Como, por exemplo, o que aconteceu em Pau D\u00b4Arco.<\/p>\n<p>Outros lutadores por essa pauta, seja ambiental, seja da reforma agr\u00e1ria, t\u00eam morrido por conta dessa quest\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e9 inadmiss\u00edvel que uma quest\u00e3o que est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 legal, que \u00e9 constitucional, a gente ainda tenha que passar por esse tipo de situa\u00e7\u00e3o: viver debaixo da lona preta, passar dificuldades e necessidades para poder chegar a um objetivo que \u00e9 um direito nosso. [S\u00e3o, aproximadamente,] 250 mil fam\u00edlias em todo o pa\u00eds precisam de terra e 50% das \u00e1reas agricult\u00e1veis est\u00e3o na m\u00e3o de apenas 1% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Isso n\u00e3o \u00e9 justo.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quanto tempo que voc\u00ea est\u00e1 no acampamento e um pouco da sua atua\u00e7\u00e3o, da sua fun\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu fa\u00e7o parte da dire\u00e7\u00e3o estadual do MST h\u00e1 quatro anos. Estou na dire\u00e7\u00e3o pela regional Caraj\u00e1s, que \u00e9 essa regi\u00e3o aqui onde comp\u00f5em os munic\u00edpios de Parauapebas, Curion\u00f3polis e Cana\u00e3 dos Caraj\u00e1s. N\u00f3s temos seis territ\u00f3rios aqui nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a gente definiu essa quest\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea do acampamento Terra e Liberdade, eu j\u00e1 estava na dire\u00e7\u00e3o e o meu nome foi cotado para ajudar nesse processo inicial de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O acampamento nasceu no dia 20 de novembro de 2023, mas como eu estava em outra tarefa no Maranh\u00e3o, n\u00e3o consegui acompanhar a primeira ocupa\u00e7\u00e3o. Eu cheguei j\u00e1 no final de novembro ou come\u00e7o de dezembro, mais ou menos.<\/p>\n<p><strong>Geralmente as pessoas t\u00eam a vis\u00e3o de quem ocupa terra s\u00e3o invasores que querem a propriedade privada. Na sua perspectiva de lideran\u00e7a, convivendo com essas 5 mil fam\u00edlias no acampamento, o que voc\u00ea responderia para quem n\u00e3o conhece a realidade de quem reivindica terra hoje no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil falar, porque a gente sabe que isso \u00e9 o reflexo da educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, \u00e9 um d\u00e9ficit muito grande de consci\u00eancia cr\u00edtica, pol\u00edtica, de entender a hist\u00f3ria do pa\u00eds. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes, nem d\u00e1 para a gente julgar essas pessoas, porque eu acho que isso \u00e9 reflexo.<\/p>\n<p><span>Mas \u00e9 convidar. Se na sua cidade, tiver um acampamento, um assentamento, v\u00e1 e veja como as fam\u00edlias se organizam<\/span>, como o povo sem terra \u00e9 t\u00e3o trabalhador, o tanto que a gente produz, inclusive sem veneno, para n\u00e3o agredir a natureza, para n\u00e3o agredir os nossos recursos, bens naturais e ter acesso ao alimento de qualidade.<\/p>\n<p>Esses dias com outro jornalista e dei o exemplo da minha vizinha. O filho dela levantou de manh\u00e3 e disse: m\u00e3e, n\u00e3o tem nada para a gente merendar? Ela disse: meu filho, tem sim. E da\u00ed ela foi no lote que a gente plantou coletivamente, pegou umas espigas de milho, descascou, botou na panela para cozinhar. Quando estava pronto, ela chamou ele e disse, olha a\u00ed, meu filho, mam\u00e3e disse que tem. Tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o da soberania alimentar.<\/p>\n<p>Lutar pela terra \u00e9 constitucional, a gente n\u00e3o est\u00e1 fazendo nada fora da lei, porque s\u00e3o terras improdutivas, s\u00e3o terras que n\u00e3o t\u00eam sido utilizadas e que est\u00e1 na m\u00e3o da pessoa s\u00f3 por conta de controle, do dom\u00ednio. Ent\u00e3o a gente luta contra tudo isso que \u00e9 de direito.<\/p>\n<p><strong>Quais as expectativas do movimento para as elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>O MST tem feito um debate para avan\u00e7ar nessa quest\u00e3o. Durante um tempo, a gente n\u00e3o tinha os pr\u00f3prios candidatos, e a\u00ed o movimento foi fazendo uma reflex\u00e3o de que era preciso avan\u00e7ar nessa frente de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Colocar os nossos para falar de n\u00f3s, para nos defender, se n\u00e3o outra pessoa n\u00e3o vai falar. A gente t\u00e1 nessa empreitada, analisando o cen\u00e1rio pol\u00edtico pra ver essa quest\u00e3o, quem a gente vai apoiar para [o] governo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da retomada do governo Lula, ainda que a gente tenha cr\u00edticas, mas a gente sabe do compromisso, das dificuldades que teve no governo devido a essa quest\u00e3o da bancada do agro na C\u00e2mara dos Deputados, a bancada que a gente chama de BBB \u2013 Boi, Bala e B\u00edblia.<\/p>\n<p>A gente tem as cr\u00edticas, mas tem o sentimento pr\u00f3 governo. E a\u00ed estamos nessa quest\u00e3o de defender o nome do governo Lula. A gente tem refletido para ver como vai se ajustando.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bndes-suspende-verba-de-obra-no-mt-com-maior-resgate-de-escravizados-do-ano\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/alojamento-3tentos-mpt-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">BNDES suspende verba de obra no MT com maior resga...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/gustavo-petro-eleva-o-tom-contra-os-eua-em-carta-a-donald-trump-resisti-a-tortura-e-resisto-a-voce\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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