{"id":86341,"date":"2026-05-07T17:00:00","date_gmt":"2026-05-07T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cientistas-entendem-melhor-como-amazonia-atinge-ponto-de-nao-retorno-e-quadro-preocupa\/"},"modified":"2026-05-07T17:00:00","modified_gmt":"2026-05-07T20:00:00","slug":"cientistas-entendem-melhor-como-amazonia-atinge-ponto-de-nao-retorno-e-quadro-preocupa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cientistas-entendem-melhor-como-amazonia-atinge-ponto-de-nao-retorno-e-quadro-preocupa\/","title":{"rendered":"Cientistas entendem melhor como Amaz\u00f4nia atinge ponto de n\u00e3o retorno, e quadro preocupa"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p><em>Quer receber os textos desta coluna em primeira m\u00e3o no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada \u00e0s quintas-feiras, 12h. Para receber as pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es, <\/em><em>inscreva-se aqui.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que cientistas sabem que a combina\u00e7\u00e3o nefasta de desmatamento e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas pode fazer a Amaz\u00f4nia entrar no temido <strong>ponto de n\u00e3o retorno, em que boa parte da floresta deixa de funcionar como floresta, reduzindo muito, por exemplo, sua capacidade de produzir chuva<\/strong>. Um novo estudo, baseado em modelos clim\u00e1ticos mais avan\u00e7ados, calculou melhor as condi\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas que precisam estar em a\u00e7\u00e3o para isso acontecer. E o resultado aponta que esse limiar est\u00e1 perigosamente perto.<\/p>\n<p>A pesquisa refor\u00e7a preocupa\u00e7\u00f5es tanto de curto quanto de m\u00e9dio prazo. A primeira \u00e9 com a ocorr\u00eancia de um novo El Ni\u00f1o, previsto para se desenvolver a partir do meio do ano. O fen\u00f4meno deixa a floresta mais seca e suscet\u00edvel a inc\u00eandios. A segunda \u00e9 com as elei\u00e7\u00f5es. Um novo governo que enfraque\u00e7a o controle do desmatamento e deixe a Amaz\u00f4nia voltar a ser desmatada \u2013 como ocorreu nos anos Bolsonaro \u2013\u00a0pode acelerar as previs\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 um alerta bem claro de que o desmatamento precisa realmente parar, e o mundo n\u00e3o pode aquecer muito al\u00e9m do 1,5 \u00b0C.<\/p>\n<p>A nova pesquisa, publicada nesta quarta-feira, 6 de maio, na revista <em>Nature<\/em>, estimou, com modelagem matem\u00e1tica, que, sem considerar o desmatamento, um aquecimento global de 3,7 \u00b0C a 4 \u00b0C colocaria cerca de \u2153 da floresta em risco de perda de estabilidade. Mas quando a perda da vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 inclu\u00edda nos c\u00e1lculos, o quadro fica muito mais complicado.<\/p>\n<p>Um desmatamento que passe de 22% da \u00e1rea do bioma combinado com um aquecimento global bem inferior, entre 1,5 \u00b0C a 1,9 \u00b0C, pode levar a uma transi\u00e7\u00e3o quase sist\u00eamica da floresta amaz\u00f4nica. O trabalho calcula que o impacto atingir\u00e1 de 62% a 77% da \u00e1rea da floresta. O trabalho fala em \u201cefeitos espaciais indiretos do aumento da intensidade da seca, levando a cascatas de longo alcance e autossustent\u00e1veis \u200b\u200bem escalas de centenas a milhares de quil\u00f4metros\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Hoje considera-se que o bioma j\u00e1 perdeu algo em torno de 17% a 18% da cobertura original, em um processo de desmatamento iniciado na d\u00e9cada de 1970, com a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia incentivada pela ditadura militar. Chegar aos 22% n\u00e3o \u00e9 da noite para o dia \u2013 espera-se. Estamos falando de uma perda de uns 270 mil km<sup>2<\/sup>, o que \u00e9 realmente muita coisa. Para se ter uma ideia, com os mecanismos de controle funcionando, o desmatamento no ano passado na Amaz\u00f4nia brasileira foi de 5,7 mil km<sup>2<\/sup>.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Em 2021, por\u00e9m, durante o governo Bolsonaro, passou de 13 mil km<\/strong><strong><sup>2<\/sup><\/strong><strong>. Uma perda anual desta magnitude levaria a Amaz\u00f4nia ao ponto de n\u00e3o retorno em pouco mais de 20 anos.<\/strong><\/p>\n<p>Isso porque, lamentavelmente, o aquecimento global deve superar o 1,5 \u00b0C at\u00e9 antes disso. A marca chegou a ser alcan\u00e7ada em 2024, considerado o ano mais quente do registro hist\u00f3rico, mas essa temperatura n\u00e3o se mant\u00e9m, ainda, de forma sustentada. O ano passado foi levemente \u201cmais fresco\u201d, por exemplo. <strong>Mas hoje boa parte dos cientistas considera muito prov\u00e1vel que esse novo cen\u00e1rio se consolide at\u00e9 2030.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Com esse n\u00edvel de aquecimento, a manuten\u00e7\u00e3o da floresta se torna inegoci\u00e1vel. \u201cA mensagem que fica \u00e9 que n\u00e3o podemos chegar aos 22%\u201d, me disse o ec\u00f3logo brasileiro Bernardo Flores, do Instituto Juru\u00e1, de Manaus, um dos autores do trabalho.<\/p>\n<p>A pesquisa, liderada por Nico Wunderling, do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), indica que o desmatamento torna a Amaz\u00f4nia muito menos resiliente do que se previa anteriormente, uma vez que resseca a atmosfera e enfraquece a capacidade da floresta de produzir chuvas. \u201cMesmo um aquecimento adicional moderado poderia desencadear impactos em cascata em grandes \u00e1reas da floresta\u201d, afirmou Wunderling em comunicado \u00e0 imprensa.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 agora, a floresta amaz\u00f4nica desempenhou um papel vital na estabiliza\u00e7\u00e3o do sistema terrestre como sumidouro de carbono, reguladora do ciclo de umidade e lar da mais rica biodiversidade terrestre do planeta. O desmatamento cont\u00ednuo est\u00e1 minando essa estabilidade, levando a floresta cada vez mais perto de um ponto de inflex\u00e3o. <strong>Isso n\u00e3o seria apenas devastador para a regi\u00e3o, mas poderia ter consequ\u00eancias de longo alcance para todo o planeta<\/strong>\u201d, disse Johan Rockstr\u00f6m, diretor do PIK e tamb\u00e9m autor do estudo.<\/p>\n<p>Rockstr\u00f6m tem coordenado diversas pesquisas sobre os pontos de n\u00e3o retorno de outros sistemas planet\u00e1rios e se tornou uma das principais vozes a pedir que o mundo acelere as a\u00e7\u00f5es para conter o aquecimento global, assim como evitar outros mecanismos de destrui\u00e7\u00e3o desses sistemas, como o pr\u00f3prio desmatamento.\u00a0<\/p>\n<p>No ano passado, ele esteve na COP30, junto com o pesquisador brasileiro Carlos Nobre \u2013\u00a0o primeiro a alertar para os riscos de a Amaz\u00f4nia chegar ao ponto de n\u00e3o retorno \u2013 pedindo compromissos mais ousados dos pa\u00edses rumo ao abandono dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Na ocasi\u00e3o, ele me explicou a situa\u00e7\u00e3o de fragilidade da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cA bacia amaz\u00f4nica permanece em seu estado est\u00e1vel gra\u00e7as a uma retroalimenta\u00e7\u00e3o muito especial: a floresta \u00e9 um sistema t\u00e3o diverso, com m\u00faltiplas camadas de plantas que cobrem tudo, formam um teto completo, e t\u00eam ra\u00edzes profundas. E ela cria umidade e bombeia \u00e1gua. Gera tanto vapor que produz sua pr\u00f3pria chuva. Essa \u00e9 a retroalimenta\u00e7\u00e3o: uma m\u00e1quina de reciclagem de umidade\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cMas quando a gente aumenta o calor e desmata \u2013 abrindo esse incr\u00edvel dossel em m\u00faltiplas camadas \u2013, a atmosfera fica mais \u2018sedenta\u2019 e suga ainda mais umidade. Com isso, as plantas j\u00e1 n\u00e3o conseguem segurar a umidade, nem bombear \u00e1gua. Ent\u00e3o, num ponto muito espec\u00edfico, essa retroalimenta\u00e7\u00e3o de reciclagem de umidade para. E quando ela para, o sistema muda. <strong>N\u00e3o colapsa da noite para o dia, mas inicia uma trajet\u00f3ria rumo a uma savana degradada.<\/strong> E, uma vez passado esse ponto, \u00e9 muito dif\u00edcil voltar\u201d, explicou.<\/p>\n<p>A pesquisa publicada na <em>Nature<\/em> desta semana inova ao aumentar o entendimento sobre <strong>como o desmatamento e o aquecimento global interagem e aumentam o grau de confian\u00e7a sobre em quais condi\u00e7\u00f5es se d\u00e1 essa inflex\u00e3o<\/strong>. Mas Flores ressalta que ele n\u00e3o considera todas as amea\u00e7as que pairam sobre a floresta hoje. Em especial o impacto que tem a chamada degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando falam em desmatamento, os pesquisadores est\u00e3o considerando a remo\u00e7\u00e3o total da vegeta\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 quando o solo fica exposto e a mata acaba sendo substitu\u00edda por outros usos, como pastagem ou agricultura. <strong>Mas a floresta pode ser afetada de outras maneiras, como com a retirada seletiva de \u00e1rvores para explora\u00e7\u00e3o madeireira ou, o que \u00e9 pior, com as queimadas.<\/strong><\/p>\n<p>Como se trata de uma regi\u00e3o muito \u00famida, quando o fogo atinge as florestas ainda em p\u00e9, ele passa, mas n\u00e3o destr\u00f3i tudo. Depende muito da condi\u00e7\u00e3o dessa vegeta\u00e7\u00e3o, claro, mas vamos imaginar que metade das \u00e1rvores permane\u00e7am. Se n\u00e3o houver novos inc\u00eandios nem mais desmatamento, um tanto pode vir a se recuperar. Mas h\u00e1 um abalo, uma degrada\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Ocorre que essa degrada\u00e7\u00e3o tem crescido justamente porque a floresta est\u00e1 ficando mais quente e seca por causa do aquecimento global. Com isso, ela tem queimado muito mais, o que a deixa ainda mais seca. S\u00e3o problemas que se retroalimentam.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 que a gente ainda n\u00e3o sabe o quanto que a degrada\u00e7\u00e3o das florestas afeta a circula\u00e7\u00e3o de umidade. Se tem um peda\u00e7o de floresta que n\u00e3o est\u00e1 desmatado, mas pode ter perdido metade das \u00e1rvores com o fogo, a ci\u00eancia j\u00e1 sabe que isso gera um impacto local. Esse peda\u00e7o fica mais seco e mais vulner\u00e1vel a fogo. Mas ainda n\u00e3o sabemos como pode afetar o fluxo de umidade para a atmosfera e na dire\u00e7\u00e3o do vento. A ci\u00eancia n\u00e3o sabe, mas \u00e9 muito prov\u00e1vel que haja uma redu\u00e7\u00e3o do fluxo de umidade\u201d, explica Flores.<\/p>\n<p>\u201cEsse modelo do novo estudo est\u00e1 considerando que n\u00f3s desmatamos cerca de 17% e que, se chegar a 22%, a Amaz\u00f4nia pode entrar em uma zona cr\u00edtica de pontos de n\u00e3o retorno. Mas e se a gente inclu\u00edsse toda a degrada\u00e7\u00e3o florestal? \u00c9 poss\u00edvel que j\u00e1 tenhamos cruzado pontos de n\u00e3o retorno, entende?\u201d, pondera o pesquisador.<\/p>\n<p>Ele lembra a enorme \u00e1rea queimada em 2024, ano de seca extrema em decorr\u00eancia da atua\u00e7\u00e3o de um El Ni\u00f1o. De acordo com an\u00e1lise do MapBiomas, 67 mil km<sup>2<\/sup> de floresta em p\u00e9 pegaram fogo na Amaz\u00f4nia, mais de dez vezes o que foi desmatado. Foi um recorde. Pela primeira vez, queimou mais floresta do que \u00e1rea de pastagem. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 previsto um novo El Ni\u00f1o para este ano.\u00a0<\/p>\n<p>Alguns modelos t\u00eam indicado que ele pode ser muito forte, um \u201csuper El Ni\u00f1o\u201d como algumas pessoas t\u00eam dito. A previs\u00e3o, por\u00e9m, ainda n\u00e3o foi confirmada pela Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial em seu \u00faltimo relat\u00f3rio, do fim de abril. J\u00e1 o Centro Europeu de Previs\u00f5es Meteorol\u00f3gicas de M\u00e9dio Prazo, em nota do come\u00e7o de maio, afirmou que as chances de ser o evento mais forte em um s\u00e9culo est\u00e3o aumentando.<\/p>\n<p>Seja como for, mesmo um El Ni\u00f1o mais \u201cnormal\u201d, digamos assim, pode voltar a fazer estrago, porque a Amaz\u00f4nia ainda n\u00e3o se recuperou do \u00faltimo. Ali\u00e1s, falamos disso no Bom Dia, Fim do Mundo desta semana. Venha ouvir.<\/p>\n<p>\u201cSe esse El Ni\u00f1o realmente for o que parece que vai ser, a gente pode ter inc\u00eandios gigantescos, inimagin\u00e1veis\u201d, afirma Flores. A recomenda\u00e7\u00e3o dos pesquisadores \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o deixar com que o dano cres\u00e7a, como \u00e9 necess\u00e1rio recuperar o que foi perdido.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m de controlar o desmatamento, precisa controlar a degrada\u00e7\u00e3o, que ainda \u00e9 uma lacuna [no conhecimento sobre seus impactos], e precisa acelerar muito a restaura\u00e7\u00e3o. Vai demorar muito para essas florestas recuperarem a capacidade de bombear \u00e1gua para a atmosfera e recuperar a situa\u00e7\u00e3o de umidade\u201d, afirma Flores.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/saude\/2025\/08\/mp-e-governo-leite-firmam-acordo-sobre-investimento-minimo-de-12-em-saude-publica\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sus_vale_esta-1024x613.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">MP e governo Leite firmam acordo sobre investiment...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/agronegocio-amplia-violencia-contra-quilombolas-no-maranhao-para-plantar-soja\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/image-5-1024x768-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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