{"id":86564,"date":"2026-05-08T17:07:16","date_gmt":"2026-05-08T20:07:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-o-escudo-das-americas-redefine-a-influencia-dos-eua-sob-a-doutrina-donroe\/"},"modified":"2026-05-08T17:07:16","modified_gmt":"2026-05-08T20:07:16","slug":"como-o-escudo-das-americas-redefine-a-influencia-dos-eua-sob-a-doutrina-donroe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-o-escudo-das-americas-redefine-a-influencia-dos-eua-sob-a-doutrina-donroe\/","title":{"rendered":"Como o Escudo das Am\u00e9ricas redefine a Influ\u00eancia dos EUA sob a \u2018Doutrina Donroe\u2019"},"content":{"rendered":"<p><span>Nos \u00faltimos anos, a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos tem sinalizado uma revaloriza\u00e7\u00e3o do Hemisf\u00e9rio Ocidental como espa\u00e7o estrat\u00e9gico priorit\u00e1rio. Em um contexto marcado pela intensifica\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias, especialmente com a presen\u00e7a crescente da China e, em menor medida, da R\u00fassia na Am\u00e9rica Latina, Washington parece retomar, ainda que sob novas formas, a l\u00f3gica de organiza\u00e7\u00e3o de sua esfera de influ\u00eancia regional. Nesse cen\u00e1rio, iniciativas pol\u00edticas, econ\u00f4micas e militares passam a ser interpretadas n\u00e3o de forma isolada, mas como parte de uma estrat\u00e9gia mais ampla de conten\u00e7\u00e3o, reorganiza\u00e7\u00e3o e proje\u00e7\u00e3o de poder no continente.<\/span><\/p>\n<p><span>Em seu<\/span> <span>Discurso sobre o Estado da Uni\u00e3o<\/span><span>, Donald Trump retoma a proposta de<\/span> <span>tarifas globais de 10%<\/span><span> sob a \u00f3tica da seguran\u00e7a nacional, enquadrando tais medidas n\u00e3o apenas como instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f4mica, mas como recupera\u00e7\u00e3o de centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares que, segundo o discurso oficial, teriam sido transferidos de forma desfavor\u00e1vel aos interesses norte-americanos. Nesse contexto, as tarifas s\u00e3o tamb\u00e9m apresentadas como ferramentas estrat\u00e9gicas capazes de influenciar din\u00e2micas internacionais, encerrando conflitos armados e abrindo janelas para renegocia\u00e7\u00f5es justas e ben\u00e9ficas para ambas as partes. Ainda neste pronunciamento, o presidente dos Estados Unidos enfatiza o papel do pa\u00eds na restaura\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a e da primazia norte-americana no Hemisf\u00e9rio Ocidental, destacando as opera\u00e7\u00f5es militares voltadas ao<\/span> <span>combate do narcotr\u00e1fico<\/span><span>, bem como a<\/span> <span>captura de Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela<\/span><span>, como evid\u00eancia da reestrutura\u00e7\u00e3o log\u00edstica de Washington para a regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-254216\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-scaled.jpg 2560w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-300x200.jpg 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-768x512.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-150x100.jpg 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-750x500.jpg 750w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-from-rawpixel-id-26243115-original-1140x760.jpg 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\"><figcaption>O presidente dos EUA, Donald Trump, no porta-avi\u00f5es Harry S. Truman. <br \/>(Foto: Daniel Torok \/ White House)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Essa abordagem dialoga com as diretrizes da<\/span> <i><span>National Security Strategy<\/span><\/i><span> (Estrat\u00e9gia Nacional de Seguran\u00e7a), publicada em 2025, que atribui maior destaque ao Hemisf\u00e9rio Ocidental em compara\u00e7\u00e3o com administra\u00e7\u00f5es anteriores. A arquitetura da seguran\u00e7a nacional se baseia na vis\u00e3o de que Washington considera a regi\u00e3o como parte da sua fronteira de seguran\u00e7a interna, fazendo com que o continente tenha adquirido uma posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha antes, o que reflete o protagonismo crescente da seguran\u00e7a hemisf\u00e9rica. Os Estados Unidos prop\u00f5em recrutar aliados hist\u00f3ricos para o fortalecimento do controle migrat\u00f3rio, a conten\u00e7\u00e3o dos fluxos de narc\u00f3ticos e a promo\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a e da estabilidade em dom\u00ednios terrestres e mar\u00edtimos. Tal orienta\u00e7\u00e3o articula-se ao princ\u00edpio estrat\u00e9gico da \u201cpaz por meio da for\u00e7a\u201d, incentivando a atua\u00e7\u00e3o coordenada entre as for\u00e7as armadas dos Estados Unidos e os pa\u00edses da regi\u00e3o. Paralelamente, o governo busca expandir sua influ\u00eancia hemisf\u00e9rica com o aprofundamento de parcerias estrat\u00e9gicas, refor\u00e7ando sua posi\u00e7\u00e3o como principal parceiro econ\u00f4mico e securit\u00e1rio. Nesse sentido, observa-se a retomada da tradi\u00e7\u00e3o da Doutrina Monroe, antagonizando pot\u00eancias extrarregionais, para reconquistar sua primazia regional em determinados setores, cujo espa\u00e7o tem sido contestado por China e R\u00fassia nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p><span>Formulada em 1823 pelo presidente James Monroe, a<\/span> <span>Doutrina Monroe<\/span><span> procurava minar a influ\u00eancia colonial europeia na Am\u00e9rica e estabelecia o compromisso de Washington de n\u00e3o se envolver em conflitos internos da Europa. Isso visava, respectivamente, impedir a expans\u00e3o europ\u00e9ia na Am\u00e9rica e preservar seu espa\u00e7o geopol\u00edtico. Posteriormente, essa doutrina passou a ser associada a pr\u00e1ticas intervencionistas, tendo essa dimens\u00e3o ampliada a partir do Corol\u00e1rio Roosevelt, de 1904, que fortaleceu a vis\u00e3o de que os Estados Unidos poderiam realizar interven\u00e7\u00f5es em pa\u00edses latino-americanos para \u201cestabilizar\u201d governos considerados incapazes de cumprir preceitos e obriga\u00e7\u00f5es internacionais. Dessa forma, \u00e9 no fim do s\u00e9culo XIX que essa doutrina passa a ser reinterpretada como<\/span> <span>justificativa para a\u00e7\u00f5es intervencionistas<\/span><span> realizadas em Cuba, Nicar\u00e1gua, Rep\u00fablica Dominicana e Haiti, associadas, na literatura, ao apoio a processos pol\u00edticos que resultaram na instala\u00e7\u00e3o de regimes militares na Argentina, Chile, Brasil e Uruguai, na d\u00e9cada de 1960 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970.<\/span><\/p>\n<p><span>Assim como a Doutrina Monroe evidencia a Am\u00e9rica Latina como esfera priorit\u00e1ria de interesse estrat\u00e9gico dos Estados Unidos, o governo Trump em seu segundo mandato busca restaurar o poder e as prioridades americanas de maneira consistente com os interesses de seguran\u00e7a do pa\u00eds. Analistas nomeiam essa abordagem como<\/span> <span>\u201cCorol\u00e1rio Trump \u00e0 Doutrina Monroe\u201d, apelidada de \u201cDoutrina Donroe\u201d<\/span><span>, na qual h\u00e1 um refor\u00e7o da l\u00f3gica hemisf\u00e9rica nas decis\u00f5es estrat\u00e9gicas.<\/span><span><br \/>\n<\/span><\/p>\n<h3>Captura de Nicol\u00e1s Maduro e proje\u00e7\u00e3o de poder no hemisf\u00e9rio<\/h3>\n<p><span>Nesse contexto mais amplo de reconfigura\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica no Hemisf\u00e9rio Ocidental, a captura de Nicol\u00e1s Maduro, em territ\u00f3rio venezuelano, figura como um dos epis\u00f3dios mais emblem\u00e1ticos \u2014 e, ao mesmo tempo, mais sens\u00edveis \u2014 da atua\u00e7\u00e3o recente dos Estados Unidos na Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o se trata apenas de um evento de grande repercuss\u00e3o pol\u00edtica, mas de um fato que, por sua natureza e pelas circunst\u00e2ncias em que ocorreu, permite uma leitura mais aprofundada sobre os padr\u00f5es contempor\u00e2neos de proje\u00e7\u00e3o de poder na regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>A opera\u00e7\u00e3o, realizada na madrugada de 3 de janeiro de 2026, envolveu bombardeios em Caracas e a<\/span> <span>mobiliza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as especiais norte-americanas<\/span><span>, culminando na captura de Maduro e sua remo\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos, onde passou a responder a acusa\u00e7\u00f5es de<\/span> <span>narcotr\u00e1fico, terrorismo e conspira\u00e7\u00e3o internacional<\/span><span>. O epis\u00f3dio foi posteriormente confirmado por autoridades norte-americanas e amplamente repercutido na imprensa internacional, sendo descrito como uma opera\u00e7\u00e3o militar de grande escala com<\/span> <span>impactos imediatos na din\u00e2mica pol\u00edtica venezuelana<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>A rea\u00e7\u00e3o internacional evidenciou as tens\u00f5es inerentes a esse tipo de opera\u00e7\u00e3o, que v\u00ea na atua\u00e7\u00e3o do governo americano a formula\u00e7\u00e3o de precedentes para a\u00e7\u00f5es futuras.<\/span> <span>Organiza\u00e7\u00f5es internacionais e diversos governos questionaram a legalidade da a\u00e7\u00e3o<\/span><span>, apontando poss\u00edveis viola\u00e7\u00f5es \u00e0 soberania estatal e \u00e0s normas que regulam o uso da for\u00e7a no sistema internacional. Esse tipo de cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 irrelevante e reflete um dilema cl\u00e1ssico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais: a tens\u00e3o entre seguran\u00e7a e legalidade, entre efic\u00e1cia estrat\u00e9gica e legitimidade normativa.<\/span><\/p>\n<p><span>Sob uma perspectiva estrat\u00e9gica, a captura pode ser interpretada como uma demonstra\u00e7\u00e3o concreta de proje\u00e7\u00e3o de poder no Hemisf\u00e9rio Ocidental. N\u00e3o se trata apenas de uma resposta a acusa\u00e7\u00f5es criminais previamente formuladas contra o l\u00edder venezuelano, mas de um sinal claro de que os Estados Unidos est\u00e3o dispostos a empregar instrumentos de <\/span><i><span>hard power <\/span><\/i><span>\u2014 inclusive de natureza militar \u2014 para lidar com amea\u00e7as percebidas em sua \u00e1rea de interesse imediato. Os desdobramentos da opera\u00e7\u00e3o refor\u00e7am essa leitura. A captura de Maduro foi seguida por<\/span> <span>reconfigura\u00e7\u00f5es pol\u00edticas internas na Venezuela<\/span><span>, incluindo a ascens\u00e3o de uma lideran\u00e7a interina e a retomada de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Washington, al\u00e9m de mudan\u00e7as relevantes no setor energ\u00e9tico e na inser\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds. Tais movimentos indicam que a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limitou a um objetivo pontual, mas produziu efeitos estruturais na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Estado venezuelano.<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda assim, independentemente da posi\u00e7\u00e3o que se adote nesse debate, o dado central permanece: a captura de Nicol\u00e1s Maduro n\u00e3o pode ser compreendida como um evento isolado. Trata-se, antes, de um epis\u00f3dio que se insere em uma din\u00e2mica mais ampla de revaloriza\u00e7\u00e3o do Hemisf\u00e9rio Ocidental na estrat\u00e9gia dos Estados Unidos, marcada por maior assertividade, maior disposi\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o direta e uma leitura mais clara da regi\u00e3o como espa\u00e7o priorit\u00e1rio de interesse. Em \u00faltima an\u00e1lise, o caso venezuelano permite observar, com maior nitidez, o retorno de uma l\u00f3gica cl\u00e1ssica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais: a centralidade do poder, da seguran\u00e7a e da influ\u00eancia regional. Nesse sentido, mais do que um fato pontual, a captura de Maduro revela um movimento mais profundo \u2014 o de reinser\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina no n\u00facleo das disputas estrat\u00e9gicas contempor\u00e2neas.<\/span><span><\/span><\/p>\n<\/p>\n<h3>\u201cCuba precisa mudar drasticamente\u201d: press\u00e3o externa e reconfigura\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica<\/h3>\n<p><span>Localizada a cerca de 150 quil\u00f4metros do estado da Fl\u00f3rida, no sul dos EUA,<\/span> <span>os EUA t\u00eam mantido Cuba sob press\u00e3o desde a revolu\u00e7\u00e3o de 1959<\/span><span>, liderada por Fidel Castro, que tinha como um de seus pilares o discurso anti-imperialista. Esse movimento levou ao rompimento das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-diplom\u00e1ticas com os EUA em 1960 e marcou o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o de confronto que permanece at\u00e9 hoje. Sem acesso ao mercado norte-americano, Cuba passou a depender da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para abastecimento energ\u00e9tico, o que levou a adotar o socialismo em 1961. Depois da dissolu\u00e7\u00e3o, Cuba passou por dificuldades relacionadas ao fornecimento energ\u00e9tico. Com a elei\u00e7\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez, em 1998, a<\/span> <span>Venezuela assumiu o papel de principal fornecedor de petr\u00f3leo \u00e0 Cuba<\/span><span>, se mantendo assim at\u00e9 este ano.<\/span><\/p>\n<p><span>Com a captura de Nicol\u00e1s Maduro pelos EUA, o<\/span> <span>envio de petr\u00f3leo foram reduzidos significativamente e a crise socioecon\u00f4mica de Cuba se agravaram<\/span><span> a partir das restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas pelos Estados Unidos. Desde janeiro,<\/span> <span>o governo de Donald Trump tem limitado as exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo para Cuba<\/span><span>, uma decis\u00e3o que provocou escassez de combust\u00edvel, aumentos acentuados de pre\u00e7os e prolongados apag\u00f5es \u2013<\/span> <span>o pa\u00eds j\u00e1 sofreu tr\u00eas blecautes em todo o territ\u00f3rio nacional em mar\u00e7o<\/span><span>. As recentes crises econ\u00f4mica e energ\u00e9tica de Cuba decorrem de uma combina\u00e7\u00e3o de<\/span> <span>desafios estruturais de longa data e decis\u00f5es pol\u00edticas<\/span><span>, incluindo o subinvestimento no setor energ\u00e9tico, mas as pol\u00edticas de maior restri\u00e7\u00e3o e o refor\u00e7o das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas tendem a agravar essas dificuldades desde que ele retornou ao cargo em 2025.<\/span><\/p>\n<p><span>Altos funcion\u00e1rios dos EUA indicaram<\/span><span> que o objetivo final dessas pol\u00edticas \u00e9 promover a liberaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica em Cuba, incluindo a poss\u00edvel destitui\u00e7\u00e3o do presidente Miguel D\u00edaz-Canel. \u201cCuba tem uma economia que n\u00e3o funciona e um sistema pol\u00edtico e governamental que n\u00e3o consegue resolver o problema. Portanto, eles precisam mudar drasticamente\u201d, disse o secret\u00e1rio de Estado americano, Marco Rubio. \u201cEles t\u00eam algumas decis\u00f5es importantes a tomar por l\u00e1.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span>Durante seu segundo mandato, Trump tem implementado uma campanha de \u201cpress\u00e3o m\u00e1xima\u201d contra Cuba como parte de uma<\/span> <span>estrat\u00e9gia mais ampla<\/span><span> para afirmar a primazia dos EUA no hemisf\u00e9rio e limitar a influ\u00eancia de pot\u00eancias externas como a China e a R\u00fassia. Tanto a Estrat\u00e9gia de Defesa Nacional quanto a Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional do governo Trump priorizam o Hemisf\u00e9rio Ocidental, enfatizando as amea\u00e7as de advers\u00e1rios estrangeiros e grupos transnacionais, bem como a<\/span> <span>necessidade de reafirmar a hegemonia dos EUA na regi\u00e3o para proteger os interesses de Washington<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>O presidente aproveitou rapidamente essa aparente oportunidade ao retornar ao cargo. Poucos dias ap\u00f3s sua posse, Trump emitiu uma<\/span> <span>ordem executiva<\/span><span> declarando que Cuba \u201cconstitui uma amea\u00e7a incomum e extraordin\u00e1ria\u201d \u00e0 seguran\u00e7a nacional dos EUA, citando seus la\u00e7os com atores hostis como a R\u00fassia. O governo tamb\u00e9m autorizou tarifas sobre produtos de pa\u00edses terceiros que vendem ou fornecem petr\u00f3leo para a ilha.<\/span><\/p>\n<p><span>A Casa Branca intensificou a press\u00e3o econ\u00f4mica sobre Cuba em junho de 2025, quando<\/span> <span>Trump imp\u00f4s novamente as r\u00edgidas restri\u00e7\u00f5es de viagem ao turismo americano<\/span><span> para a ilha, restringiu as transa\u00e7\u00f5es financeiras com entidades controladas pelos militares cubanos e refor\u00e7ou o apoio a um embargo econ\u00f4mico de d\u00e9cadas que limita severamente o com\u00e9rcio entre os dois pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p><span>Ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o militar dos EUA na Venezuela que resultou na remo\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o l\u00edder Nicol\u00e1s Maduro,<\/span> <span>Trump sinalizou que Cuba em breve \u201ccairia por vontade pr\u00f3pria\u201d<\/span><span>. A Venezuela \u00e9 a principal fonte de petr\u00f3leo para Cuba, que depende fortemente da importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo para a maior parte de seu<\/span> <span>abastecimento energ\u00e9tico<\/span><span>. Embora Trump n\u00e3o tenha pedido uma interven\u00e7\u00e3o militar em Cuba, ele se referiu \u00e0 ilha como uma \u201cna\u00e7\u00e3o falida\u201d e levantou repetidamente a possibilidade de uma<\/span> <span>\u201ctomada de poder amig\u00e1vel\u201d<\/span><span>. As tens\u00f5es entre os Estados Unidos e Cuba aumentaram ainda mais no in\u00edcio de mar\u00e7o. Na c\u00fapula inaugural do<\/span> <span>Escudo das Am\u00e9ricas<\/span><span>, uma iniciativa militar e de seguran\u00e7a multinacional liderada pelos EUA que envolve l\u00edderes de toda a Am\u00e9rica Latina, Trump alertou que<\/span> <span>\u201cCuba est\u00e1 no fim da linha\u201d<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>Se, por um lado, epis\u00f3dios como o da Venezuela evidenciam a disposi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos em recorrer a instrumentos diretos de poder, por outro, observa-se a constru\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia mais abrangente, voltada \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o dos alinhamentos regionais. Essa combina\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00f5es pontuais e articula\u00e7\u00e3o estrutural permite compreender a atua\u00e7\u00e3o norte-americana n\u00e3o apenas como resposta a crises espec\u00edficas, mas como parte de um redesenho mais amplo do espa\u00e7o hemisf\u00e9rico.<\/span><span><br \/>\n<\/span><\/p>\n<h3>\u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d e a redefini\u00e7\u00e3o de alinhamentos na regi\u00e3o<\/h3>\n<p><span>Paralelamente \u00e0s opera\u00e7\u00f5es militares referentes ao narcotr\u00e1fico e ao caso venezuelano, observa-se a constru\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia mais ampla de articula\u00e7\u00e3o regional por parte dos Estados Unidos, frequentemente associada, ainda que de maneira n\u00e3o formalizada, \u00e0 ideia de um \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d. Mais do que um conceito doutrin\u00e1rio fechado, trata-se de uma pr\u00e1tica estrat\u00e9gica em consolida\u00e7\u00e3o, que revela um esfor\u00e7o de reorganiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o hemisf\u00e9rico a partir de crit\u00e9rios mais claros de alinhamento, coopera\u00e7\u00e3o e delimita\u00e7\u00e3o de interesses.<\/span><\/p>\n<p><span>Esse movimento deve ser compreendido \u00e0 luz de um contexto mais amplo de competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias. A<\/span> <span>presen\u00e7a crescente da China na Am\u00e9rica Latina<\/span><span> \u2014 especialmente por meio de com\u00e9rcio, investimentos em infraestrutura e financiamento \u2014 tem alterado o equil\u00edbrio geoecon\u00f4mico da regi\u00e3o, tornando-se um elemento central na leitura estrat\u00e9gica de Washington. Ainda que essa presen\u00e7a n\u00e3o substitua integralmente a influ\u00eancia tradicional dos Estados Unidos, ela \u00e9 suficiente para introduzir<\/span> <span>novos vetores de disputa<\/span><span> e ampliar a margem de autonomia dos pa\u00edses latino-americanos.<\/span><\/p>\n<p><span>Nesse cen\u00e1rio, a pol\u00edtica externa norte-americana passa a operar por meio de uma combina\u00e7\u00e3o de instrumentos. Se, por um lado, permanecem poss\u00edveis a\u00e7\u00f5es diretas, por outro ganha relevo a constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es e o fortalecimento de v\u00ednculos com pa\u00edses considerados estrat\u00e9gicos. Iniciativas recentes envolvendo acordos de seguran\u00e7a, coopera\u00e7\u00e3o no combate ao narcotr\u00e1fico e coordena\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria migrat\u00f3ria evidenciam essa tentativa de estrutura\u00e7\u00e3o de um ambiente regional mais<\/span> <span>alinhado aos interesses norte-americanos<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>Ao mesmo tempo, essa l\u00f3gica de aproxima\u00e7\u00e3o seletiva produz efeitos indiretos relevantes. Pa\u00edses que aprofundam rela\u00e7\u00f5es com atores extrarregionais \u2014 seja por meio de parcerias econ\u00f4micas com a China, seja por alinhamentos pol\u00edticos com R\u00fassia ou Ir\u00e3 \u2014 passam a ser percebidos sob maior grau de cautela. Esse processo contribui para a forma\u00e7\u00e3o de uma din\u00e2mica mais n\u00edtida de alinhamentos e rivalidades no interior da pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina, ainda que sem a rigidez de blocos formais.<\/span><\/p>\n<p><span>Sob a \u00f3tica da grande estrat\u00e9gia, essa movimenta\u00e7\u00e3o pode ser interpretada como um esfor\u00e7o de conten\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do ambiente regional. Ao refor\u00e7ar parcerias e estabelecer crit\u00e9rios mais claros de coopera\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos buscam n\u00e3o apenas ampliar sua influ\u00eancia, mas tamb\u00e9m reduzir a capacidade de penetra\u00e7\u00e3o de pot\u00eancias externas no hemisf\u00e9rio. Trata-se, em ess\u00eancia, de uma tentativa de reordenar o espa\u00e7o regional a partir de uma l\u00f3gica de seguran\u00e7a ampliada, na qual fatores econ\u00f4micos, pol\u00edticos e estrat\u00e9gicos se articulam de forma cada vez mais integrada.<\/span><\/p>\n<p><span>Esse processo, contudo, n\u00e3o se desenvolve sem tens\u00f5es. A crescente<\/span> <span>presen\u00e7a chinesa<\/span><span>, por exemplo, tem levado diversos pa\u00edses latino-americanos a adotar estrat\u00e9gias de diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias, evitando alinhamentos autom\u00e1ticos e buscando preservar margens de autonomia decis\u00f3ria. Ao mesmo tempo,<\/span> <span>a intensifica\u00e7\u00e3o da rivalidade entre Estados Unidos e China<\/span><span> tende a pressionar esses pa\u00edses a realizar escolhas mais expl\u00edcitas, especialmente em setores considerados sens\u00edveis, como infraestrutura, energia e tecnologia.<\/span><\/p>\n<p><span>Nesse sentido, a ideia de um \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d n\u00e3o deve ser compreendida como uma pol\u00edtica homog\u00eanea ou plenamente consolidada, mas como um processo em constru\u00e7\u00e3o, marcado por ajustes, ambiguidades e respostas diferenciadas por parte dos pa\u00edses da regi\u00e3o. Mais do que uma simples retomada de padr\u00f5es hist\u00f3ricos, o que se observa \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica cl\u00e1ssica de influ\u00eancia regional \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de um sistema internacional em transforma\u00e7\u00e3o. Em conjunto com a\u00e7\u00f5es mais diretas, como no caso da captura de Nicol\u00e1s Maduro, essa estrat\u00e9gia mais ampla evidencia um movimento mais profundo: o retorno da Am\u00e9rica Latina ao centro das disputas estrat\u00e9gicas contempor\u00e2neas.<\/span><\/p>\n<p><span>Nesse contexto, a posi\u00e7\u00e3o do Brasil adquire relev\u00e2ncia particular. Ao mesmo tempo em que mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas tradicionais com Cuba e manifestou preocupa\u00e7\u00e3o com os efeitos humanit\u00e1rios das san\u00e7\u00f5es e do bloqueio energ\u00e9tico, o governo brasileiro tamb\u00e9m buscou atuar de forma pragm\u00e1tica, inclusive por meio do<\/span> <span>envio de ajuda humanit\u00e1ria<\/span><span> \u00e0 ilha em meio ao<\/span> <span>agravamento da crise<\/span><span>. Paralelamente, declara\u00e7\u00f5es oficiais indicam uma postura cautelosa em rela\u00e7\u00e3o aos desdobramentos da captura de Nicol\u00e1s Maduro, refletindo a tentativa de equilibrar princ\u00edpios como soberania e n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o com as transforma\u00e7\u00f5es em curso no ambiente regional. Essa postura evidencia os dilemas enfrentados por pa\u00edses de m\u00e9dio porte em um cen\u00e1rio de crescente polariza\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, no qual a autonomia estrat\u00e9gica passa a depender, cada vez mais, da capacidade de navegar entre diferentes polos de poder.<\/span><\/p>\n<p><i><span>(*) por Abner Carvalho e Souza, M\u00e1rcio Rocha da Silva Filho, Shara Karoline Meireles de Santana e Thiago Lacerda Nobre e David Morales Martinez (Observat\u00f3rio da Pol\u00edtica Externa e Inser\u00e7\u00e3o internacional da UFABC)<\/span><\/i><\/p>\n<p>O post Como o Escudo das Am\u00e9ricas redefine a Influ\u00eancia dos EUA sob a \u2018Doutrina Donroe\u2019 apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/33-anos-do-atentado-contra-o-centro-de-tradicoes-nordestinas-de-sao-paulo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/ctn_-_festa_funina-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Em um contexto marcado pela intensifica\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias, especialmente com a presen\u00e7a crescente da China e, em menor medida, da R\u00fassia na Am\u00e9rica Latina, Washington parece retomar, ainda que sob novas formas, [\u2026]<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opiniao\/como-o-escudo-das-americas-redefine-a-influencia-dos-eua-sob-a-doutrina-donroe\/\">Como o Escudo das Am\u00e9ricas redefine a Influ\u00eancia dos EUA sob a \u2018Doutrina Donroe\u2019<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":86565,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[4084,347,292,1185,9,1876,7776,153,1049,13988],"tags":[],"class_list":["post-86564","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ajuda-humanitaria","category-america-latina","category-china","category-cuba","category-eua","category-miguel-diaz-canel","category-norte-americanos","category-opiniao","category-venezuela","category-washington"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86564"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86564\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/86565"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}