{"id":86831,"date":"2026-05-12T04:00:00","date_gmt":"2026-05-12T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/familia-feffer-eucalipto-da-lucro-a-suzano-em-meio-a-disputa-de-terra-com-quilombolas\/"},"modified":"2026-05-12T04:00:00","modified_gmt":"2026-05-12T07:00:00","slug":"familia-feffer-eucalipto-da-lucro-a-suzano-em-meio-a-disputa-de-terra-com-quilombolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/familia-feffer-eucalipto-da-lucro-a-suzano-em-meio-a-disputa-de-terra-com-quilombolas\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlia Feffer: eucalipto d\u00e1 lucro a Suzano em meio a disputa de terra com quilombolas"},"content":{"rendered":"<p>No Sap\u00ea do Norte, no extremo norte do Esp\u00edrito Santo, a disputa pela terra n\u00e3o aparece primeiro nos autos do processo nem nas planilhas de investimento. Ela aparece na paisagem. De um lado, as comunidades quilombolas que lutam para permanecer onde seus av\u00f3s e bisav\u00f3s viveram e, do outro, a sucess\u00e3o quase hipn\u00f3tica de fileiras de eucaliptos, plantadas com disciplina industrial. Entre uma coisa e outra, surge uma hist\u00f3ria sobre os super-ricos brasileiros.<\/p>\n<p>A lideran\u00e7a quilombola Luzia Serafim Belmiro, guardi\u00e3 da mem\u00f3ria da Mata Atl\u00e2ntica suprimida pela instala\u00e7\u00e3o da Aracruz Celulose \u2014 hoje incorporada \u00e0 Suzano, controlada pela bilion\u00e1ria fam\u00edlia Feffer \u2014, costuma medir essa hist\u00f3ria pela mata que desapareceu no territ\u00f3rio. Quando a Aracruz chegou, no fim dos anos 1960, ela e os irm\u00e3os ainda eram crian\u00e7as. O av\u00f4 e o bisav\u00f4 j\u00e1 eram dali, nascidos nas margens do rio Angelim. \u201cEles n\u00e3o vieram de lugar nenhum: somos filhos nativos do Sap\u00ea do Norte\u201d, lembra. Antes do eucalipto, a Mata Atl\u00e2ntica era t\u00e3o fechada que,<span> em certos trechos, \u201cparecia noite\u201d<\/span>, descreve Luzia.\u00a0<\/p>\n<p><span>Mas depois vieram os corrent\u00f5es, os tratores, a dispers\u00e3o das fam\u00edlias e o desmanche lento da vida comunit\u00e1ria.<\/span>Ela resume o m\u00e9todo: \u201cAs m\u00e1quinas de esteira empurravam os entulhos para dentro das nascentes para limpar o terreno destinado ao plantio. Foi assim que mataram nossas nascentes, o entulho soterrou tudo\u201d.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a02d0037f3b0\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a02d0037f3b0\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Planta\u00e7\u00e3o com disciplina industrial: monocultura de eucalipto no Sap\u00ea do Norte (ES) soterrou nascentes e dispersou fam\u00edlias quilombolas<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Atualmente, o Sap\u00ea do Norte abriga 36 comunidades quilombolas nos<\/span> munic\u00edpios de Concei\u00e7\u00e3o da Barra e de S\u00e3o Mateus (ES). Lideran\u00e7as locais contaram \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica que a expans\u00e3o do monocultivo do eucalipto reduziu brutalmente a presen\u00e7a quilombola no territ\u00f3rio, seja pela expuls\u00e3o direta, seja pela eros\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais de perman\u00eancia. A lembran\u00e7a que ficou n\u00e3o \u00e9 abstrata, dizem os entrevistados. Ela \u00e9 feita de m\u00e1quinas abrindo caminho pela mata e de gente sendo empurrada para a cidade, muitas vezes sob medo e press\u00e3o. Luzia d\u00e1 dimens\u00e3o demogr\u00e1fica a essa ruptura ao relatar que, antes da ocupa\u00e7\u00e3o, havia 12 mil fam\u00edlias quilombolas e que agora restam menos de 2 mil.<\/p>\n<p>\u201cJunto com as empresas veio o desastre. A comunidade foi desestruturada e a viol\u00eancia aumentou. Trouxeram tamb\u00e9m a ilus\u00e3o do emprego. O povo parou de produzir o pr\u00f3prio alimento para trabalhar por quinzena, e assim fomos perdendo nossas tradi\u00e7\u00f5es, a biodiversidade e as nossas \u00e1guas\u201d, relata. Em torno dessas mem\u00f3rias consolidou-se uma reivindica\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de cumprir: a titula\u00e7\u00e3o definitiva dessas terras tradicionalmente ocupadas. \u00c9 nesse ponto que a hist\u00f3ria se conecta \u00e0 trajet\u00f3ria de expans\u00e3o do neg\u00f3cio dos Feffer no Brasil.<\/p>\n<h2><strong>Os Feffer transformaram papel em imp\u00e9rio<\/strong><\/h2>\n<p>O sobrenome Feffer, antes de se tornar conselho de administra\u00e7\u00e3o e ranking de bilion\u00e1rios da revista Forbes, pertencia a uma fam\u00edlia judaica que chegou ao Brasil vinda da atual Ucr\u00e2nia. A cronologia institucional da Suzano registra que Leon Feffer fundou, em 1924, sua firma de com\u00e9rcio de pap\u00e9is e, depois, ampliou os neg\u00f3cios at\u00e9 inaugurar, em 1941, a primeira f\u00e1brica pr\u00f3pria, no Ipiranga, em S\u00e3o Paulo. O impulso decisivo veio quando a Segunda Guerra Mundial dificultou a importa\u00e7\u00e3o de papel e abriu a oportunidade de produzir internamente o que antes vinha do exterior.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, <span>a hist\u00f3ria empresarial da fam\u00edlia se confunde com a hist\u00f3ria de um pa\u00eds que industrializou parte de sua economia sem jamais democratizar a terra.<\/span> Max Feffer, filho de Leon, assumiu um papel central na pesquisa e na produ\u00e7\u00e3o de celulose de eucalipto. A compra da f\u00e1brica em Suzano, no interior paulista, em meados dos anos 1950, ajudou a firmar o nome que depois alcan\u00e7aria escala global. Quando o presidente Jo\u00e3o Goulart anunciou as reformas de base no Com\u00edcio da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1964, a Suzano j\u00e1 produzia celulose em escala industrial. A reforma agr\u00e1ria defendida pelo movimento campon\u00eas, por\u00e9m, nunca foi implementada; ao contr\u00e1rio, foi interrompida pelo golpe de Estado apoiado pelas elites agr\u00e1rias e industriais e por governadores como Ademar de Barros, em S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/p>\n<p><span>O grupo empresarial dos Feffer cresceu beneficiando-se do ambiente pol\u00edtico e econ\u00f4mico de um Brasil que protegia a ind\u00fastria, oferecia cr\u00e9dito subsidiado, constru\u00eda infraestrutura e, mais tarde, premiava fiscalmente o monocultivo de \u00e1rvores ex\u00f3ticas.<\/span> Com a reforma agr\u00e1ria fora do horizonte nacional, a legisla\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica de incentivos abriram caminho para a expans\u00e3o do setor de papel e celulose. O Congresso, j\u00e1 desfalcado pelo Ato Institucional n\u00ba 1, aprovou, em 1965, um novo C\u00f3digo Florestal que equiparou planta\u00e7\u00f5es industriais a matas nativas e declarou \u201cflorestas naturais ou plantadas\u201d imunes \u00e0 tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os investimentos na atividade puderam ser deduzidos integralmente do imposto de renda, e as \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente ou plantadas para explora\u00e7\u00e3o madeireira ficaram isentas do imposto territorial rural. As elei\u00e7\u00f5es indiretas institu\u00eddas pelos atos institucionais seguintes ajudaram a consolidar esse arranjo, com apoio dos interventores estaduais. O governador bi\u00f4nico de S\u00e3o Paulo, Paulo Egydio Martins, nomeou Max Feffer como Secret\u00e1rio de Cultura, Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo. Era 1976 e o empres\u00e1rio exerceu o cargo at\u00e9 1979, per\u00edodo que coincidiu com a amplia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de desonera\u00e7\u00e3o fiscal para o monocultivo de \u00e1rvores ex\u00f3ticas.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a02d0037f822\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a02d0037f822\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Leon, Max e David Feffer (da esq. para a dir.), parte da fam\u00edlia controladora da Empresa Suzano, a maior fabricante de celulose do mundo, uma das maiores produtoras de pap\u00e9is da Am\u00e9rica Latina e l\u00edder do mercado brasileiro no segmento de papel higi\u00eanico<\/figcaption><\/figure>\n<p>O que, para o mercado, era efici\u00eancia, para quem vivia nos territ\u00f3rios atingidos, costumava significar perda de autonomia, redu\u00e7\u00e3o da diversidade produtiva e rebaixamento da vida local a uma fun\u00e7\u00e3o auxiliar da exporta\u00e7\u00e3o. No Esp\u00edrito Santo, esse processo ganhou um nome pr\u00f3prio. A atividade industrial tornou-se prioridade do Fundo de Investimentos Setoriais (FISET), que previa a instala\u00e7\u00e3o de treze grandes plantas industriais, das quais cinco foram realizadas com investimento majorit\u00e1rio do Estado. Entre elas estava a Aracruz Celulose S.A., inaugurada em 1968 como Aracruz Florestal, com apoio do alto escal\u00e3o da ditadura militar brasileira e da coroa norueguesa, representada por Erling Lorentzen, casado com a princesa Ragnhild. \u00c0 \u00e9poca, o BNDES financiou 45% do projeto, incluindo maquin\u00e1rio e equipamentos, com um aporte de US$ 337 milh\u00f5es \u2014 aproximadamente R$ 16 bilh\u00f5es em valores atuais e corrigidos.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, a Aracruz se tornaria Fibria e, em 2019, seria incorporada pela Suzano S.A., reunindo terras, infraestrutura, influ\u00eancia pol\u00edtica e acesso a financiamento estatal acumulado ao longo de meio s\u00e9culo. Hoje, o conglomerado declara 2,8 milh\u00f5es de hectares de terras no Brasil, o que equivale \u00e0 extens\u00e3o de Alagoas. Desse total, 1,7 milh\u00e3o de hectares seriam destinados ao plantio de eucalipto e 1,1 milh\u00e3o \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Adelso Rocha Lima, do Movimento Sem Terra (MST) no Esp\u00edrito Santo, resume uma das consequ\u00eancias: \u201cA empresa acaba sendo o maior ator do territ\u00f3rio\u201d. A formula\u00e7\u00e3o parece sociol\u00f3gica, mas, no cotidiano, ela se traduz em coisas muito pr\u00e1ticas, como comunidades que desaparecem e outras que sobrevivem cercadas. A localidade Nova Cana\u00e3, citada pelas lideran\u00e7as \u00e0 reportagem, deixou de existir de fato e passou a subsistir apenas como ru\u00edna e lembran\u00e7a. \u201cHoje s\u00f3 existem ru\u00ednas no local\u201d, resume uma das lideran\u00e7as.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a02d0037fb68\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a02d0037fb68\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Adelso Rocha Lima, do MST em Sap\u00ea do Norte (ES): \u201cA empresa \u00e9 o maior ator do territ\u00f3rio.\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>Solu\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica? O eucalipto como \u201cativo biol\u00f3gico\u201d\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p>O que as comunidades chamam de territ\u00f3rio, mem\u00f3ria, \u00e1gua, ro\u00e7a e retomada aparece nos balan\u00e7os da Suzano sob rubricas como \u201cbase florestal\u201d, \u201cativos biol\u00f3gicos\u201d e \u201cefici\u00eancia operacional\u201d. Em 2025, a multinacional da celulose registrou cerca de R$ 50 bilh\u00f5es em receita. No balan\u00e7o patrimonial, as planta\u00e7\u00f5es de eucalipto, contabilizadas como ativos biol\u00f3gicos, foram avaliadas em R$ 26 bilh\u00f5es \u2014 o crescimento das \u00e1rvores p\u00f4de ainda ser contabilizado como aumento de patrim\u00f4nio antes mesmo da colheita.\u00a0<\/p>\n<p>O produto eucalipto, nesse arranjo, atua como linguagem financeira e, mais recentemente, passou a atuar como suposta solu\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Em sua p\u00e1gina sobre mercado de carbono, a Suzano afirma investir em reflorestamento com eucalipto, conserva\u00e7\u00e3o de matas nativas e restaura\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas, e sustenta que essas iniciativas permitem estruturar projetos de gera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos de carbono. O chamado Projeto Horizonte de Carbono, segundo a pr\u00f3pria companhia, est\u00e1 localizado na regi\u00e3o de Tr\u00eas Lagoas, em Mato Grosso do Sul, e combina opera\u00e7\u00f5es florestais, \u00e1reas nativas e regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo <span>modelo de ocupa\u00e7\u00e3o territorial que, no relato de quilombolas e camponeses, produziu expuls\u00e3o, simplifica\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e destrui\u00e7\u00e3o de nascentes agora \u00e9 reapresentado no circuito global como ativo verde, mecanismo de compensa\u00e7\u00e3o e promessa de baixo carbono.<\/span> O contraste se evidencia ao ler o Relat\u00f3rio de Sustentabilidade de 2025 da pr\u00f3pria Suzano. Ali, David Feffer, presidente do conselho de administra\u00e7\u00e3o, afirma que \u201ca busca por competitividade e inova\u00e7\u00e3o segue caminhando junto do nosso respeito pela natureza e pela sociedade\u201d e que a sustentabilidade \u00e9 \u201cum elemento estrutural das decis\u00f5es\u201d da companhia. Em outro trecho, o relat\u00f3rio diz que, nos territ\u00f3rios onde a empresa atua, sua gest\u00e3o florestal se combina com conserva\u00e7\u00e3o, restaura\u00e7\u00e3o, monitoramento ambiental e intera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua com \u201ccomunidades diversas\u201d; promete ainda conectar 500 mil hectares de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, aumentar a disponibilidade h\u00eddrica em bacias cr\u00edticas e contribuir para que 200 mil pessoas superem a linha da pobreza at\u00e9 2030.<\/p>\n<p><span>Para os quilombolas do Sap\u00ea do Norte, por\u00e9m, o que <\/span>vivem no territ\u00f3rio \u00e9 outra coisa. Eles citam a \u00e1gua contaminada, nascentes soterradas, comunidades em ru\u00edna e uma devolu\u00e7\u00e3o de terras sempre adiada. Josilene Santos, advogada da Comiss\u00e3o Quilombola do Sap\u00ea do Norte, formula a contradi\u00e7\u00e3o com mais clareza. Para ela, h\u00e1 capital abundante para expandir o \u201cdeserto verde\u201d \u2014 como a monocultura do eucalipto costuma ser chamada \u2014,\u00a0gerar cr\u00e9ditos de carbono para o mercado europeu e comparecer aos grandes palcos internacionais do clima, mas falta disposi\u00e7\u00e3o para devolver terras quilombolas e resolver um conflito hist\u00f3rico com a popula\u00e7\u00e3o local.\u00a0<\/p>\n<p>O impasse se arrasta na justi\u00e7a. Em outubro de 2025, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) ajuizaram a\u00e7\u00f5es de execu\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria para assegurar a titula\u00e7\u00e3o de terras em favor de comunidades quilombolas do Sap\u00ea do Norte. As decis\u00f5es judiciais citadas pelo MPF declaram nulos t\u00edtulos de dom\u00ednio de terras devolutas obtidos de forma fraudulenta pela antiga Fibria, hoje Suzano, incluindo o uso de funcion\u00e1rios como \u201claranjas\u201d para simular requisitos legais de aquisi\u00e7\u00e3o. MPF e Incra tamb\u00e9m pediram que a empresa deixe de praticar atos de dom\u00ednio, uso, explora\u00e7\u00e3o ou de pretens\u00e3o possess\u00f3ria sobre essas \u00e1reas, al\u00e9m de cobrar do Estado um cronograma para a titula\u00e7\u00e3o das terras em favor das comunidades.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a02d0037ff2e\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a02d0037ff2e\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Suzano no munic\u00edpio de Aracruz (ES): no ranking da Forbes Brasil de 2025, David Feffer aparece na posi\u00e7\u00e3o 57, com patrim\u00f4nio l\u00edquido estimado em R$ 7,1 bilh\u00f5es; os irm\u00e3os mais novos, Daniel, Jorge e Ruben, cada um deles com R$ 6,5 bilh\u00f5es, est\u00e3o na posi\u00e7\u00e3o 64 da lista<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>Desonera\u00e7\u00f5es, incentivos fiscais, rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/strong><\/h2>\n<p>No ranking da Forbes Brasil de 2025, David Feffer aparece na posi\u00e7\u00e3o 57, com patrim\u00f4nio l\u00edquido estimado em R$ 7,1 bilh\u00f5es; mais adiante est\u00e3o os irm\u00e3os mais novos, Daniel, Jorge e Ruben, cada um deles com R$ 6,5 bilh\u00f5es, na posi\u00e7\u00e3o 64 da lista. A publica\u00e7\u00e3o os apresenta como netos de Leon Feffer, fundador da empresa hoje conhecida como Suzano. Tomados em conjunto, os Feffer formam uma dinastia econ\u00f4mica cuja fortuna n\u00e3o pode ser dissociada da terra, da Mata Atl\u00e2ntica convertida em monocultura e do apoio do Estado \u00e0 expans\u00e3o do setor.<\/p>\n<p>Esse apoio assumiu formas variadas ao longo do tempo, e algumas delas s\u00e3o dif\u00edceis de quantificar. Uma das mais decisivas \u00e9 a circula\u00e7\u00e3o de quadros entre o governo e o setor empresarial, o que as lideran\u00e7as locais chamam de porta-girat\u00f3ria. No Esp\u00edrito Santo, ex-governadores e agentes p\u00fablicos aparecem na mem\u00f3ria pol\u00edtica do conflito como fiadores do ambiente institucional favor\u00e1vel \u00e0 celulose. O resultado \u00e9 um arranjo no qual a empresa parece, muitas vezes, maior que o munic\u00edpio e mais est\u00e1vel do que a pr\u00f3pria pol\u00edtica p\u00fablica.\u00a0O Estado tamb\u00e9m teve papel decisivo na infraestrutura, com a constru\u00e7\u00e3o de rodovias, como a BR-101 no trecho Vit\u00f3ria\u2013Bahia, al\u00e9m de portos e sistemas log\u00edsticos que facilitaram o escoamento da produ\u00e7\u00e3o, como observa a Federa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os para Assist\u00eancia Social e Educacional (Fase), articuladora hist\u00f3rica da resist\u00eancia das comunidades tradicionais em redes locais, nacionais e internacionais desde os anos 1960.<\/p>\n<p>Mesmo com a reabertura pol\u00edtica do pa\u00eds ap\u00f3s a ditadura, a fam\u00edlia Feffer continuou amparada por mecanismos legais que favoreciam a expans\u00e3o do modelo. Os benef\u00edcios se consolidaram com a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que estabeleceu que o ICMS (Imposto sobre Circula\u00e7\u00e3o de Mercadorias e Servi\u00e7os) n\u00e3o incide sobre opera\u00e7\u00f5es destinadas ao exterior. A medida, resultado de um amplo lobby do setor para garantir desonera\u00e7\u00f5es, foi detalhada pela Lei Kandir, que regulamentou os procedimentos de cr\u00e9dito e compensa\u00e7\u00e3o, sancionada em 1996 pelo ent\u00e3o presidente Fernando Henrique Cardoso. Com essa ren\u00fancia fiscal, a carga tribut\u00e1ria continuou concentrada sobre o consumo da maior parte da popula\u00e7\u00e3o, embutida nos pre\u00e7os de bens e servi\u00e7os, em favor dos interesses do agroneg\u00f3cio e da ind\u00fastria de celulose.\u00a0<\/p>\n<p>Atualmente, <span>o grupo fundador e principal controlador da Suzano mant\u00e9m proximidade com o Instituto Pensar Agro, bra\u00e7o de lobby da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA) no Congresso Nacional.<\/span><\/p>\n<p>Enquanto isso, no ch\u00e3o do conflito, a atual negocia\u00e7\u00e3o para devolu\u00e7\u00e3o de terras quilombolas anda a passos lentos. O governo do Esp\u00edrito Santo montou uma mesa para discutir a devolu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas ocupadas por monocultivos no territ\u00f3rio tradicional, mas a proposta atribu\u00edda \u00e0 Suzano, de cerca de 2,5 hectares por fam\u00edlia, foi considerada insuficiente pela Comiss\u00e3o Quilombola, que defende ao menos 10 hectares por fam\u00edlia.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a02d003802f7\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a02d003802f7\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Luzia e Ant\u00f4nio Belmiro, lideran\u00e7as quilombolas no Sap\u00ea do Norte, mostraram \u00e0 P\u00fablica os impactos do eucalipto na regi\u00e3o <\/figcaption><\/figure>\n<p>Em nota, a Suzano afirmou que \u201cpossui todos os documentos imobili\u00e1rios que comprovam a propriedade e a posse de suas \u00e1reas na regi\u00e3o do Sap\u00ea do Norte\u201d e que as terras \u201cforam adquiridas a justo t\u00edtulo e de boa-f\u00e9, em conformidade com a legisla\u00e7\u00e3o vigente\u201d. A companhia acrescenta que eventuais disputas sobre a \u00e1rea \u201cser\u00e3o oportunamente decididas pelas inst\u00e2ncias competentes, ap\u00f3s o devido processo legal e as defesas pertinentes\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a empresa, as opera\u00e7\u00f5es baseiam-se em \u201cpr\u00e1ticas respons\u00e1veis de manejo florestal, com foco permanente na sustentabilidade, na prote\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos e na preserva\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, al\u00e9m de seguirem crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e legais e de respeitarem os licenciamentos ambientais. A Suzano tamb\u00e9m afirma que mant\u00e9m compromissos socioambientais voltados \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da pobreza e, nesse contexto, destaca que \u201capenas em 2025, mais de 44 mil pessoas foram impactadas positivamente, incluindo cerca de 7 mil no Esp\u00edrito Santo\u201d.<\/p>\n<p>O dirigente da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, Domingos Firmino dos Santos, conhecido como Chapoca, argumenta que o dinheiro atualmente empregado na expans\u00e3o do monocultivo poderia tamb\u00e9m ser destinado \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o das comunidades. As fam\u00edlias, diz ele, j\u00e1 fazem mutir\u00f5es para plantar alimentos, recuperar solos e reintroduzir \u00e1rvores nativas. Em S\u00e3o Domingos, onde vive Luzia, uma nascente voltou a brotar ap\u00f3s a retirada do eucalipto. A \u00e1gua ainda n\u00e3o pode ser ingerida por causa da suspeita de contamina\u00e7\u00e3o, mas o gesto da nascente \u00e9, por si s\u00f3, uma pequena tese sobre o territ\u00f3rio, que indica que, no recuo do eucalipto, algo da vida tenta voltar.<\/p><\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/metalurgico-do-abc-recebe-uma-das-mais-altas-honrarias-da-justica-do-trabalho\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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