{"id":86974,"date":"2026-05-12T17:30:01","date_gmt":"2026-05-12T20:30:01","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-abraco-da-jiboia-imperial\/"},"modified":"2026-05-12T17:30:01","modified_gmt":"2026-05-12T20:30:01","slug":"o-abraco-da-jiboia-imperial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-abraco-da-jiboia-imperial\/","title":{"rendered":"O abra\u00e7o da jiboia imperial"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"472\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4909207367078054952_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4909207367078054952_x.jpg 640w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/12172317\/photo_4909207367078054952_x-300x221.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><figcaption>Cr\u00e9dito: Noah Bounds<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u00a0A jiboia chegou antes da not\u00edcia. Antes dos jornais amanhecerem com a mesma manchete escrita em palavras diferentes e comentaristas repetirem os termos de sempre:\u00a0<em>\u201cresponsabilidade fiscal\u201d<\/em>,\u00a0<em>\u201cseguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d<\/em>,\u00a0<em>\u201cgovernabilidade\u201d<\/em>,\u00a0<em>\u201cinvestimentos estrangeiros\u201d, \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, <em>\u201cparceira\u201d.\u00a0<\/em>Ela veio primeiro. Veio pelos cabos submarinos, pelas fibras invis\u00edveis enterradas sob os oceanos, pelos sat\u00e9lites que vigiam sem dormir e pelos algoritmos capazes de conhecer o pa\u00eds melhor do que o pr\u00f3prio povo que o habita.<\/p>\n<p>As grandes serpentes do mundo j\u00e1 n\u00e3o atravessam florestas, habitam sistemas; e esta conhece o Brasil h\u00e1 s\u00e9culos. Desde quando o ouro descia das montanhas em lombos de mula para voltar transformado em d\u00edvida. Estava aqui quando o a\u00e7\u00facar ado\u00e7ava mesas estrangeiras enquanto deixava gosto de sangue na boca dos escravizados. Conheceu a borracha amaz\u00f4nica financiando palacetes em cidades distantes e abandonando seringueiros \u00e0 febre; veio em forma de p\u00e9 de caf\u00e9 enquanto enterrava corpos negros, e depois \u201ccolonos\u201d de pele rosa, sob a terra vermelha. Conheceu Potos\u00ed, Canudos, as serras andinas, o \u00faltimo Inca, os rios e p\u00e2ntanos, os massacres, Contestado, Caldeir\u00e3o e todos aqueles se ergueram contra a explora\u00e7\u00e3o. Conhece o pa\u00eds em detalhes atrav\u00e9s dos trilhos e dormentes carregando trens com min\u00e9rio a cruzarem a noite do continente como cortejos f\u00fanebres do futuro.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina sempre teve o corpo aberto, s\u00f3 mudaram as ferramentas do saque. No in\u00edcio, as caravelas, o trabuco, o chicote; depois, os bancos e neg\u00f3cios; agora, os algoritmos e as m\u00e1quinas de morte ainda sem nome e controle. Mas a gan\u00e2ncia continua a mesma. As jiboias do imp\u00e9rio sabem esperar. Dormem d\u00e9cadas inteiras enroladas no escuro, im\u00f3veis como destino, at\u00e9 sentirem o cheiro subterr\u00e2neo de alguma riqueza nova; ent\u00e3o despertam sem alarde, at\u00e9 proferirem o novo bote e enla\u00e7amento.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--17.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--17.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A jiboia ataca e prende a presa primeiro com os dentes. Da\u00ed ela vai se enrolando, d\u00e1 uma volta, depois outra e mais outra. Comprime t\u00f3rax e abd\u00f4men at\u00e9 envolver a regi\u00e3o do pulm\u00e3o de do cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 um aperto coordenado que dispensa for\u00e7a cont\u00ednua, com isso ela vai sentindo o batimento card\u00edaco da presa e a cada vez que o animal enla\u00e7ado expira ela aperta um pouco mais. Uma sofisticada for\u00e7a de guerra que usa a expira\u00e7\u00e3o da v\u00edtima para provocar o colapso circulat\u00f3rio. At\u00e9 que a press\u00e3o rompe o fluxo de sangue, que para de voltar ao cora\u00e7\u00e3o e de irrigar o c\u00e9rebro. N\u00e3o \u00e9 sufocamento, \u00e9 provoca\u00e7\u00e3o de desmaio por falta de circula\u00e7\u00e3o cerebral. Um abra\u00e7o paciente, forte e cont\u00ednuo que provoca isquemia cerebral e parada card\u00edaca. Quando o cora\u00e7\u00e3o para de bater ela solta na hora, pois n\u00e3o gasta energia \u00e0 toa. Em seguida lambe a v\u00edtima at\u00e9 sentir o cheiro da morte. E come\u00e7a a engolir. \u00a0<\/p>\n<p>As jiboias imperialistas aprenderam que j\u00e1 n\u00e3o precisam invadir pa\u00edses, basta faz\u00ea-los (fazer-nos) respirar curto. Foi assim quando descobriram o petr\u00f3leo enterrado sob quil\u00f4metros de sal no fundo do oceano. Ali n\u00e3o havia apenas energia, combust\u00edvel e \u00f3leo para o pl\u00e1stico. Havia escolas ainda n\u00e3o constru\u00eddas, laborat\u00f3rios ainda inexistentes, ci\u00eancia falando portugu\u00eas, sat\u00e9lites soberanos, tecnologia sem coleira. Autonomia, a possibilidade perigosa de um pa\u00eds perif\u00e9rico controlar o pr\u00f3prio destino sem pedir licen\u00e7a ao pa\u00eds imperial.<\/p>\n<p>A serpente sentiu. E, mais uma vez, aproximou a cabe\u00e7a e abriu a bocarra. Primeiro vieram as escutas com as m\u00e1quinas espionando gabinetes, empresas estrat\u00e9gicas, telefonemas presidenciais, sonhos de soberania. O oceano come\u00e7ou a ser vigiado antes mesmo de ser explorado. E come\u00e7ou o aperto, n\u00e3o para quebrar os ossos, pois esses s\u00f3 quebram se forem finos demais; ela sabe que para engolir n\u00e3o precisa quebrar, basta parar o sangue. \u00c9 at\u00e9 melhor comer a presa inteira, pois assim absorve tudo, gordura, prote\u00edna, c\u00e1lcio dos ossos. \u00c9 uma paci\u00eancia evolutiva da chamada \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d imperialista, que foi aprendendo com todas as barb\u00e1ries e saques que produziu e produz.<\/p>\n<p>A paci\u00eancia da jiboia n\u00e3o veio de uma \u00fanica vez. No saqueio aprendeu a nunca desperdi\u00e7ar for\u00e7a. Primeiro retiram o pensamento pr\u00f3prio e a confian\u00e7a dos povos em si, depois transformam jornais em sua pr\u00f3pria voz, como c\u00e2nticos hipn\u00f3ticos, e os \u00edndices econ\u00f4micos viram chicotes morais. Por isso repete \u00edndices \u00e0 exaust\u00e3o. Tamb\u00e9m usa tribunais, que viram espet\u00e1culo. Transformam ignor\u00e2ncia e medo em m\u00e9todo pedag\u00f3gico da submiss\u00e3o. Fazem isso porque quem perde oxig\u00eanio come\u00e7a a negociar at\u00e9 os pr\u00f3prios pulm\u00f5es.<\/p>\n<p>No caminho desse abra\u00e7o, ou melhor, bote, estrangulamento, havia uma mulher. Foi h\u00e1 uns anos no Brasil, nem h\u00e1 tanto tempo assim. A mulher cercada no pal\u00e1cio resistiu enquanto p\u00f4de pois trazia nos olhos a fadiga das pessoas que j\u00e1 atravessaram inc\u00eandios. Ela conhecia grades, sil\u00eancio, choques, madrugadas sem sono, por isso falou em soberania, em proteger o fundo do mar e guardar para o povo aquilo que o povo ainda nem sabia possuir. Mas respirava curto. Esse foi o problema. Sobrou coragem, faltou poesia. E sem poesia h\u00e1 um momento em que toda v\u00edtima come\u00e7a a acreditar que sobreviver depende de ceder apenas um peda\u00e7o de si. \u00c9 assim que a jiboia vence.<\/p>\n<p>Vieram ent\u00e3o os sal\u00f5es iluminados. Os lustres frios, os elogios, os brindes e salamaleques. Os sorrisos diplom\u00e1ticos e as fotografias vazias apresentadas como vit\u00f3rias. Mais um enlace sufocante em forma de abra\u00e7o dado em certas cerim\u00f4nias pol\u00edticas que possuem o cheiro exato dos vel\u00f3rios. As leis come\u00e7aram a mudar sozinhas, como jabutis em galhos de \u00e1rvores. Mas sabemos que leis nunca mudam sozinhas, sempre h\u00e1 m\u00e3os invis\u00edveis que as abrem assim como as m\u00e3os ocultas que fazem jabutis escalarem troncos. As companhias estrangeiras entraram no oceano profundo com a calma de quem colhe frutas maduras em pomar abandonado. E o pa\u00eds ofereceu parte do fundo do mar para continuar respirando.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastou. Jiboias n\u00e3o querem acordos, querem digest\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Depois veio o ritual p\u00fablico do estra\u00e7alhamento. O abra\u00e7o foi ficando apertado e a pra\u00e7a foi convertida em arena. Os carrascos falavam em moral enquanto dividiam despojos e os abutres celebravam a carni\u00e7a antes mesmo do \u00faltimo suspiro. Foi assim que a jiboia engoliu lentamente o corpo ainda quente da mulher que habitava o pal\u00e1cio. E a Rep\u00fablica que se pretendia social, constru\u00edda aos trope\u00e7os desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, foi sendo engolida junto. Mais um abra\u00e7o a alimentar a jiboia que sempre engole pela cabe\u00e7a. Dessa vez comeu o petr\u00f3leo, depois os direitos, depois o futuro.<\/p>\n<p>No ato de digerir, a jiboia n\u00e3o empurra a comida, anda com a boca. A mand\u00edbula crava os dentes na presa e puxa o corpo inteiro. Olhando de fora parece que a presa est\u00e1 sendo sugada pela cobra, n\u00e3o mastigada, \u00e9 um movimento de contor\u00e7\u00e3o que solta e avan\u00e7a, at\u00e9 colocar tudo para dentro. A saliva grossa lubrifica tudo e faz corpo entrar goela abaixo como em uma esteira. Na digest\u00e3o produz um \u00e1cido t\u00e3o forte que dissolve ossos, dentes e chifres. Em seguida, o tempo de ficar im\u00f3vel, apenas digerindo em um canto seguro. At\u00e9 que ela regurgita uma pelota de pelos e tudo que n\u00e3o lhe serve. A jiboia regurgitou.<\/p>\n<p>Parecia o fim. Foi o fim, de tanto horror que veio com o arroto. Mas as serpentes imperiais n\u00e3o dormem, calculam, e t\u00e3o logo se sentem saciadas, querem mais. Sempre querem mais.<\/p>\n<p>Anos depois houve a reconstru\u00e7\u00e3o da normalidade a partir de uma vit\u00f3ria apertada e a vida seguiu. Mas a serpente farejou noutro lugar, foi quando as montanhas come\u00e7aram a gemer. Os rios mudaram de cor, os p\u00e1ssaros alteraram suas rotas e ela foi rastejando naquela dire\u00e7\u00e3o. Junto dela, novamente, os homens do dinheiro, daqui e de l\u00e1, suseranos e vassalos levantaram a cabe\u00e7a como serpente que sente a v\u00edtima acuada. A jiboia voltara a sentir fome. Ela sempre tem fome.<\/p>\n<p>Dessa vez a comida n\u00e3o seria apenas o ouro negro enterrado sob o oceano; esse ela j\u00e1 havia conquistado. A serpente imperialista agora quer os ossos minerais do futuro, minerais cr\u00edticos, l\u00edtio, grafita, cobalto, terras raras, minerais ainda sem nome, ni\u00f3bio tamb\u00e9m. Pedras que carregam dentro de si a eletricidade do s\u00e9culo, mat\u00e9ria-prima para baterias, intelig\u00eancia artificial (o imaterial depende do material), sat\u00e9lites, data centers (esses, consumindo muita \u00e1gua e energia para processar os dados abundantes e extra\u00eddos sem que os donos sequer percebam). Mat\u00e9ria-prima para guerras invis\u00edveis e vis\u00edveis, dessas que destro\u00e7am pernas e bra\u00e7os, aniquilam fam\u00edlias, cidades inteiras, pa\u00edses. Minerais para m\u00e1quinas capazes de ouvir pensamentos e vigiar o sono dos homens.<\/p>\n<p>Na terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, o futuro j\u00e1 n\u00e3o corre apenas em oleodutos (mas ainda nesses), corre tamb\u00e9m nas entranhas minerais do continente e nas mentes da gente que consente a domina\u00e7\u00e3o de sempre. Outra vez disseram que a Am\u00e9rica Latina estava sentada sobre um tesouro. Esse \u00e9 o problema. Toda vez que dizem isso o continente deveria tremer, porque seus tesouros chegam acompanhados de funerais. Ent\u00e3o recome\u00e7ou o ritual.<\/p>\n<p>Outra vez avi\u00f5es cruzando os c\u00e9us rumo ao norte. Outra vez os sal\u00f5es iluminados com os discursos sobre\u00a0<em>\u201cparceria\u201d, \u201cseguran\u00e7a mineral\u201d, \u201cintegra\u00e7\u00e3o produtiva\u201d, \u201cconfian\u00e7a dos mercados\u201d, \u201cprest\u00edgio internacional\u201d<\/em>. A nova coloniza\u00e7\u00e3o aprendeu a falar a l\u00edngua da coopera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o saqueia, convida; n\u00e3o domina, integra. Faz isso porque n\u00e3o precisa invadir, convence; mas quando n\u00e3o convence, invade e mata sem d\u00f3. Mas faz isso s\u00f3 se for preciso, porque o horror contempor\u00e2neo da jiboia das selvas mora justamente na delicadeza e na sutileza da domina\u00e7\u00e3o estabelecida nos sal\u00f5es. Na maneira educada com que a serpente pede licen\u00e7a antes de apertar, e no modo paternal com que ensina a v\u00edtima a amar o pr\u00f3prio estrangulamento, acontece um sofisticado processo de transformar entreguismo em maturidade pol\u00edtica, depend\u00eancia em moderniza\u00e7\u00e3o, rendi\u00e7\u00e3o em governabilidade. E o dominado se deixa dominar para ser engolido.<\/p>\n<p>O pa\u00eds, cansado de respirar entre crises sucessivas, come\u00e7ou outra vez a arrancar peda\u00e7os do pr\u00f3prio corpo acreditando que estava a salvar a alma. Primeiro foi o pau-brasil\u2026<\/p>\n<p>\u2026depois o a\u00e7\u00facar\u2026<\/p>\n<p>\u2026 depois o ouro\u2026<\/p>\n<p>\u2026depois o caf\u00e9\u2026<\/p>\n<p>\u2026e a borracha\u2026<\/p>\n<p>\u2026min\u00e9rio de ferro\u2026<\/p>\n<p>\u2026soja e milho com nome de commodities\u2026<\/p>\n<p>\u2026o petr\u00f3leo\u2026<\/p>\n<p>\u2026os dados que extraem sem pedir licen\u00e7a\u2026<\/p>\n<p>\u2026agora os minerais cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Mudam as mercadorias, permanece a comilan\u00e7a. A trag\u00e9dia latino-americana \u00e9 justamente a de acreditar que, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, ser\u00e1 poss\u00edvel negociar melhor com a jiboia que quer nos engolir. Como se certas criaturas fossem capazes de saciedade.<\/p>\n<p>Aprendamos ao menos dessa vez, serpentes geopol\u00edticas n\u00e3o comem por fome apenas, comem por eras. Comem mem\u00f3ria, soberania, sonhos. Comem futuros inteiros. Mas a cada gera\u00e7\u00e3o repetimos uma esperan\u00e7a servil. Ou melhor, autoengano. Nos convencemos de que desta vez ser\u00e1 diferente e a concilia\u00e7\u00e3o salvar\u00e1 o corpo dando um peda\u00e7o do pr\u00f3prio corpo para preservar o restante. N\u00e3o ser\u00e1. Depois da primeira respira\u00e7\u00e3o cortada e do primeiro osso quebrado, toda resist\u00eancia passa a soar ato de expirar de moribundo. Nesse momento a serpente aperta mais. Devagar. Sem \u00f3dio aparente, mas com a convic\u00e7\u00e3o dos famintos e insaci\u00e1veis. Assim agem os imp\u00e9rios. Aprendamos.<\/p>\n<p>No sert\u00e3o antigo os velhos sabiam reconhecer cobras pelo cheiro. E sabiam que o perigo maior n\u00e3o mora no bote, mas no abra\u00e7o. Tamb\u00e9m sabiam que certas criaturas hipnotizam antes de devorar, ou enla\u00e7am a presa pelo calcanhar. O Brasil parece esquecer disso de tempos em tempos. Como um pa\u00eds constru\u00eddo sobre promessas interrompidas, sonhamos grande e negociamos pequeno, acostumamo-nos a transformar sobreviv\u00eancia em conquista, acomoda\u00e7\u00e3o em virtude pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso parar de desaprender, pois s\u00f3 assim a jiboia deixar\u00e1 de dormir completamente tranquila. Olhemos mais fundo para nossa terra, sob o sal profundo do oceano, sob a terra vermelha do planalto e a terra preta da Amaz\u00f4nia. Sob as minas e sob as ru\u00ednas, continua existindo um pa\u00eds subterr\u00e2neo, ainda \u00e0 espera do dia em que reconhecer\u00e1 o som da serpente antes do primeiro aperto. Nesse dia esse pa\u00eds-continente, e n\u00e3o s\u00f3 nosso pa\u00eds, mas todo o continente, da Terra do Fogo ao Rio Bravo, finalmente descobrir\u00e1 que soberania n\u00e3o \u00e9 apenas possuir riquezas enterradas, \u00e9 impedir que o medo ensine o povo a colaborar com o pr\u00f3prio sufocamento.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, agora, hoje, no instante em que escrevo. Pela forma submissa com que n\u00f3s nos entregamos, esse abra\u00e7o vai nos estrangular mais uma vez. Ou n\u00e3o. S\u00f3 depende da gente n\u00e3o mais permitir que a serpente engula a gente. Nesse momento o abra\u00e7o da jiboia n\u00e3o ter\u00e1 mais for\u00e7a para impedir o sangue de circular por nossos c\u00e9rebros e cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso as montanhas guardam mem\u00f3ria e as pedras enterradas sob a terra ainda se lembram de Potos\u00ed. Os rios ainda carregam ecos da conquista acompanhada de genoc\u00eddio. As florestas sabem o nome dos antigos saqueadores, mesmo quando eles trocam de bandeira, idioma ou tecnologia. Felizmente h\u00e1 algo que as serpentes jamais compreendem, pois confundem sil\u00eancio com consentimento e entrega \u00e0 morte. A\u00ed reside a esperan\u00e7a, apesar de t\u00eanue. Existem povos que, mesmo esmagados, aprendem a respirar pelas rachaduras da Hist\u00f3ria. Que o sil\u00eancio e paci\u00eancia de antes agora transmutem em urg\u00eancia resgatando consigo o ideal de revolu\u00e7\u00e3o profunda, sincera, igualit\u00e1ria e libert\u00e1ria, justa, fraterna, soberana e verdadeira, dessas que n\u00e3o se deixam seduzir pelo abra\u00e7o da jiboia.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O abra\u00e7o da jiboia imperial appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-anuncia-r-979-bilhoes-em-investimentos-para-mobilidade-urbana-no-pais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pres-lula-visita-obras-avenida-contagem-mg-ricardostuckert-pr-2-750x440-1-750x375-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula anuncia R$ 9,79 bilh\u00f5es em investimentos para...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/domingo-e-dia-de-levantar-o-leque-do-arco-iris-com-orgulho\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Domingo \u00e9 dia de levantar o leque do arco-\u00edris com...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/agenda-do-presidente-da-republica-15-08-25\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/lula_rio_doce_8-e1754667525483-4-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Agenda do presidente da Rep\u00fablica | 15-08-25<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quem-decide-o-que-e-real-com-ergon-cugler\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Quem decide o que \u00e9 real? \u2013 com Ergon Cugler<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dessa vez a comida n\u00e3o seria o ouro negro enterrado sob o oceano. A serpente quer os ossos minerais do futuro. Avi\u00f5es cruzam os c\u00e9us rumo ao norte. Discursos sobre <i>parceria, confian\u00e7a dos mercados, prest\u00edgio internacional<\/i>. A nova coloniza\u00e7\u00e3o fala a l\u00edngua da coopera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/o-abraco-da-jiboia-imperial\/\">O abra\u00e7o da jiboia imperial<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":86975,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[347,57114,7213,57115,1026,12785,1115,57116,57117,57118,5499,57119,57120,57121],"tags":[],"class_list":["post-86974","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-bote","category-colonizacao","category-comilanca","category-diplomacia","category-exploracao-predatoria","category-imperialismo","category-jiboia","category-miinerais-criticos","category-ouro-negro","category-poeticas","category-serpentes-geopoliticas","category-soberania-devorada","category-terras-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86974"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86974\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/86975"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}