{"id":86977,"date":"2026-05-12T17:35:20","date_gmt":"2026-05-12T20:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-maquiavel-e-a-eleicao\/"},"modified":"2026-05-12T17:35:20","modified_gmt":"2026-05-12T20:35:20","slug":"lula-maquiavel-e-a-eleicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-maquiavel-e-a-eleicao\/","title":{"rendered":"Lula, Maquiavel e a elei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"674\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4909207367078054942_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4909207367078054942_y.jpg 1200w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/12173509\/photo_4909207367078054942_y-300x169.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/12173509\/photo_4909207367078054942_y-768x431.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><figcaption>Foto: Andr\u00e9 Borges\/EFE<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>1- Maquiavel: fortuna e virtude<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Nicolau Maquiavel, pensador considerado por muitos como o fundador da Ci\u00eancia Pol\u00edtica, pouco lido hoje, \u00e9 desde sempre identificado e criticado, de forma equivocada, por supostamente advogar pr\u00e1ticas\u00a0 e m\u00e9todos imorais, desonestos, fraudulentos e violentos \u2013 enfim, \u201cmaquiav\u00e9licos\u201d \u2013 em especial expressos no seu livro mais famoso: <em>O Pr\u00edncipe<\/em> (escrito em 1513 e com primeira edi\u00e7\u00e3o em 1532). Na origem dessa (in)compreens\u00e3o, e de sua difus\u00e3o, est\u00e1 a Igreja de Roma, que Maquiavel, em seu tempo, identificava como o principal inimigo da unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia \u2013 objetivo maior de seu pensamento e sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Com ele, a pol\u00edtica ganhou autonomia frente a outras \u00e1reas do conhecimento: economia, moral, \u00e9tica, direito etc. Nessa perspectiva, passou-se a reconhecer que essa \u00e1rea do pensamento e da a\u00e7\u00e3o humana tem uma din\u00e2mica pr\u00f3pria, que n\u00e3o est\u00e1 subordinada \u00e0 moral privada e \u00e0 \u00e9tica crist\u00e3 \u2013 como os seus antecessores e contempor\u00e2neos compreendiam. A pol\u00edtica \u00e9 pensada e praticada a partir da \u00f3tica da \u201craz\u00e3o de Estado\u201d, na qual a guerra n\u00e3o \u00e9 o seu oposto, mas sim um dos seus poss\u00edveis desdobramentos.<\/p>\n<p>Desse modo, a diferen\u00e7a fundamental entre ele e os seus antecessores \u00e9 que estes trataram e discutiram a pol\u00edtica \u201ccomo ela deveria ser\u201d, enquanto Maquiavel observou, tratou e discutiu a pol\u00edtica \u201ccomo ela \u00e9 de fato\u201d. Apoiou-se em seus estudos dos fil\u00f3sofos e historiadores da Antiguidade Cl\u00e1ssica e, principalmente, tendo por refer\u00eancia a sua experi\u00eancia de 14 anos como funcion\u00e1rio-Chanceler da Cidade-Estado de Floren\u00e7a.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--23.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--23.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>No seu pequeno livro, Maquiavel, preocupado em evidenciar a \u201cverdade efetiva das coisas\u201d,\u00a0 desnuda para o povo o car\u00e1ter e a natureza da pol\u00edtica e dos governantes, cujo objetivo fundamental \u00e9 <strong>chegar ao poder e mant\u00ea-lo<\/strong>. Em particular, aponta os m\u00e9todos utilizados pelos \u201cPr\u00edncipes\u201d que foram bem-sucedidos em suas a\u00e7\u00f5es e o comportamento daqueles que fracassaram em atingir os seus objetivos.<\/p>\n<p>Para o fim deste artigo, o que nos interessa de seu pensamento \u00e9 o que consideramos o seu n\u00facleo central, qual seja: os conceitos de <strong>\u201cfortuna\u201d<\/strong> e <strong>\u201cvirtude\u201d<\/strong>, elaborados por ele, para refletir, respectivamente, sobre as mut\u00e1veis circunst\u00e2ncias (condi\u00e7\u00f5es) objetivas do ambiente pol\u00edtico (distintas conjunturas) e, de outro, sobre a vontade e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos Pr\u00edncipes (os sujeitos pol\u00edticos) em cada conjuntura. Para ele a rela\u00e7\u00e3o fortuna-virtude \u00e9 decisiva para entender porque alguns vencem e outros fracassam. A ideia \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p><strong>A fortuna<\/strong> se refere \u00e0s circunst\u00e2ncias fundamentalmente imprevis\u00edveis e incontrol\u00e1veis (externas), com as quais os sujeitos pol\u00edticos se defrontam em sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que colocam situa\u00e7\u00f5es e problemas novos que devem ser enfrentados \u2013 cujas solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o limitadas por essas mesmas circunst\u00e2ncias. Mas isso n\u00e3o se confunde com destino, fatalismo inexor\u00e1vel, poder cego e incontrol\u00e1vel; a a\u00e7\u00e3o dos sujeitos pode enfrentar a fortuna, influenci\u00e1-la e parcialmente direcion\u00e1-la. Para isso, estes devem adaptar os seus comportamentos e as suas a\u00e7\u00f5es a ela \u2013 o que remete ao significado e \u00e0 import\u00e2ncia do conceito de <em>virt\u00f9.<\/em><\/p>\n<p><strong>A virtude<\/strong> para Maquiavel, diferentemente da concep\u00e7\u00e3o de seus contempor\u00e2neos, n\u00e3o se identifica com as conhecidas virtudes crist\u00e3s, que caracterizam um \u201chomem bom\u201d e est\u00e3o associadas \u00e0 salva\u00e7\u00e3o da alma. O homem de a\u00e7\u00e3o, ele mesmo imerso nos acontecimentos, tem capacidade, determina\u00e7\u00e3o, energia e engenhosidade, capacidade de adaptar o seu comportamento e as suas a\u00e7\u00f5es \u00e0s circunst\u00e2ncias, \u00e0s necessidades das diversas conjunturas, de acordo com os distintos problemas colocados objetivamente. Assim, o sujeito pol\u00edtico deve interferir sobre a fortuna, mas ser guiado pela necessidade pol\u00edtica (pragmatismo), e ter a capacidade, caso necess\u00e1rio, de \u201cmudar a sua natureza\u201d, adaptando-a aos tempos. Todas as suas a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas devem estar coerentes com esse princ\u00edpio geral, independentemente de estarem ou n\u00e3o compat\u00edveis com as virtudes crist\u00e3s \u2013 sob a pena de ser derrotado, inexoravelmente, pela fortuna.<\/p>\n<p>Em suma, a fortuna \u00e9 algo externo ao sujeito pol\u00edtico, est\u00e1 fora de seu controle, n\u00e3o est\u00e1 subordinada a sua vontade e nem pode ser prevista quando vai mudar (a incerteza \u00e9 pr\u00f3pria da pol\u00edtica); portanto, o Pr\u00edncipe virtuoso \u00e9 aquele que consegue entender as circunst\u00e2ncias de cada momento, e suas muta\u00e7\u00f5es, adaptando a sua vontade e a suas a\u00e7\u00f5es a elas, de forma a tirar o m\u00e1ximo proveito da nova situa\u00e7\u00e3o, procurando direcion\u00e1-la a seu favor. E, mais especialmente, a virtude maior do sujeito pol\u00edtico \u00e9 ter a capacidade de se adaptar ativamente \u00e0 fortuna mesmo que isso signifique contrariar a sua pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<h3><strong>2- Lula: fortuna e virtude<\/strong><\/h3>\n<p>Como \u00e9 do conhecimento de quase todos, os governos Lula, em particular o seu segundo governo, obteve um enorme sucesso, mesmo sem modificar\/alterar as caracter\u00edsticas essenciais do Padr\u00e3o de Desenvolvimento Capitalista Liberal-Perif\u00e9rico \u2013 constitu\u00eddo no Brasil desde o in\u00edcio dos anos 1990. Ao fim e ao cabo, os seus resultados econ\u00f4micosociais o diferenciaram fortemente dos governos de FHC.<\/p>\n<p>Intelectuais e pol\u00edticos da direita neoliberal explicam esse sucesso como uma quest\u00e3o de \u201csorte\u201d; o Lula foi um sortudo: al\u00e9m de, supostamente, ter se beneficiado da \u201ccasa arrumada\u201d por FHC em raz\u00e3o das reformas neoliberais implementadas por este, teve a sorte grande da China ter ingressado na OMC e alterar completamente os mercados de <em>commodities<\/em> ofertadas pelos pa\u00edses da periferia do capitalismo. Essa teria sido a raz\u00e3o fundamental do sucesso de Lula, que deixou o governo com 80%\u00a0 de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-1.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/05\/31183543\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>No \u00e2mbito da esquerda, para a sua parte majorit\u00e1ria, a causa fundamental teria sido a supera\u00e7\u00e3o do \u201cModelo Neoliberal\u201d e a ado\u00e7\u00e3o do \u201cModelo Neodesenvolvimentista\u201d; este \u00faltimo resgatando as pol\u00edticas econ\u00f4micas do antigo desenvolvimentismo, mas agora com distribui\u00e7\u00e3o de renda, decorrente das pol\u00edticas sociais adotadas.<\/p>\n<p>Observando o fen\u00f4meno do ponto de vista do pensamento de Maquiavel, n\u00e3o resta d\u00favida que, desde o in\u00edcio dos anos 2000 \u2013 portanto, antes mesmo do in\u00edcio do primeiro governo Lula \u2013 as circunst\u00e2ncias internacionais se alteraram, com o crescimento mundial passando a ser \u201cpuxado\u201d pelo par China-EUA, com forte impacto sobre as contas externas (balan\u00e7a comercial e de transa\u00e7\u00f5es correntes) dos pa\u00edses perif\u00e9ricos. Assim, a nova fortuna permitiu a esses pa\u00edses a redu\u00e7\u00e3o de suas respectivas vulnerabilidades externas conjunturais, ao melhorar os seus balan\u00e7os de pagamentos.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, o governo Lula soube ler e entender a fortuna que estava se constituindo, tendo tido a virtude de flexibilizar a pol\u00edtica macroecon\u00f4mica (metas de infla\u00e7\u00e3o, super\u00e1vit fiscal prim\u00e1rio e c\u00e2mbio flutuante) herdada de FHC \u2013 que havia sido mantida r\u00edgida durante a primeira metade do primeiro governo, inclusive levando o pa\u00eds em 2003 a uma recess\u00e3o. Como hoje, essa pol\u00edtica, conhecida como o \u201ctrip\u00e9 macroecon\u00f4mico\u201d, dificultava os gastos do governo (investimento e programas sociais) e mantinha taxas de juros elevad\u00edssimas, com consequ\u00eancias decisivas sobre o baixo crescimento econ\u00f4mico e o elevado desemprego<\/p>\n<p>Posteriormente contudo, a partir da segunda metade do primeiro governo, ao diminuir o super\u00e1vit fiscal prim\u00e1rio e reduzir a taxa de juros (o mesmo Regime de Pol\u00edtica Macroecon\u00f4mico, mas flexibilizado), em associa\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica de reajuste real do sal\u00e1rio-m\u00ednimo (acima da infla\u00e7\u00e3o) e seus impactos nos benef\u00edcios da Previd\u00eancia Social, juntamente com outras pol\u00edticas sociais (Bolsa-Fam\u00edlia), o resultado foi mais crescimento econ\u00f4mico, redu\u00e7\u00e3o do desemprego e uma pequena melhora na distribui\u00e7\u00e3o de renda (no \u00e2mbito dos rendimentos do trabalho). Adicionalmente, a utiliza\u00e7\u00e3o dos bancos p\u00fablicos e da Petrobr\u00e1s tamb\u00e9m foi decisiva para alavancar a economia, que teve como s\u00edmbolo maior a pol\u00edtica \u201cdos campe\u00f5es nacionais\u201d implementada pelo BNDES<\/p>\n<p>Em suma, sem confrontar as reformas neoliberais e o capital financeiro, mas sabendo ler as novas circunst\u00e2ncias internacionais, o governo Lula flexibilizou o Regime de Pol\u00edtica Macroecon\u00f4mica \u2013 que permitiu um desempenho econ\u00f4mico-social muito melhor do que aquele do per\u00edodo dos dois governos FHC. E para isso, Lula n\u00e3o precisou ir de encontro a sua pr\u00f3pria natureza conciliadora; as novas circunst\u00e2ncias (crescimento econ\u00f4mico) possibilitaram-lhe administrar os interesses opostos (capital X trabalho) e deslocar o conflito pol\u00edtico para a oposi\u00e7\u00e3o ricos X pobres.<\/p>\n<h3><strong>3- A natureza conciliadora de Lula e o seu terceiro governo<\/strong><\/h3>\n<p>A natureza conciliadora de Lula, sempre disposto a negociar com todos, \u00e9 amplamente conhecida pelos que acompanham sua trajet\u00f3ria desde a sua \u00e9poca de dirigente sindical. Como dirigente pol\u00edtico a sua tend\u00eancia \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o, particularmente a partir dos anos 1990, se aprofundou \u2013 apenas mudando o escopo de negocia\u00e7\u00e3o, que se ampliou e se tornou mais complexa.<\/p>\n<p>Acontece que a crise geral do capitalismo de 2007\/2008, prolongada com a crise do euro em 2010, trouxe uma nova fortuna, novas circunst\u00e2ncias econ\u00f4micas e pol\u00edticas que afetaram as rela\u00e7\u00f5es internacionais e todos os pa\u00edses do mundo. No Brasil, o impulso econ\u00f4mico propiciado pelas importa\u00e7\u00f5es chinesas reduziu-se a partir do governo Dilma e o crescimento econ\u00f4mico desacelerou. A tentativa desse governo de se contrapor a essa desacelera\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de isen\u00e7\u00f5es fiscais para o capital, n\u00e3o funcionou. Os capitalistas n\u00e3o investiram os recursos obtidos, mas aplicaram no mercado financeiro com a compra de t\u00edtulos do governo. E o pior, a redu\u00e7\u00e3o das receitas p\u00fablicas, decorrente da pol\u00edtica de isen\u00e7\u00e3o, criou um problema fiscal, expresso em d\u00e9ficits prim\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, o segundo governo Dilma, logo no seu in\u00edcio, implementou um \u201cajuste fiscal\u201d, a austeridade preconizada e proposta pela direita neoliberal; o resultado todos conhecem: uma enorme recess\u00e3o, que foi fundamental para a desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo e a constru\u00e7\u00e3o do golpe de Estado de 2016 \u2013 com o impedimento da Presidente. Para piorar, assistiu-se, a partir da crise mundial, \u00e0 ascens\u00e3o da extrema direita neofascista, expressa no Brasil pelo bolsonarismo, que come\u00e7ou a vir \u00e0 tona em meio \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 e da campanha do impeachment em 2015-16, consolidando-se definitivamente com o governo Temer e, a seguir, com a elei\u00e7\u00e3o em 2018 de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>O desastroso governo Bolsonaro, em todas as \u00e1reas (economia, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, meio ambiente, rela\u00e7\u00f5es internacionais etc.), abriu as portas para o terceiro mandato de Lula, mas em uma conjuntura completamente distinta da existente durante os seus dois governos anteriores. Nas novas circunst\u00e2ncias, as for\u00e7as pol\u00edticas\u00a0 advers\u00e1rias ampliaram-se: \u00e0 direita neoliberal tradicional, cada vez mais caudat\u00e1ria da extrema direita neofascista em todo o mundo, veio juntar-se o bolsonarismo que, apesar de derrotado (por um fio) na elei\u00e7\u00e3o para presidente, elegeu uma grande bancada de deputados e senadores. Adicionalmente, o empoderamento do Parlamento desde o governo Temer, com a aprova\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter obrigat\u00f3rio para as emendas parlamentares (secretas ou n\u00e3o), enfraqueceu o Poder Executivo na sua rela\u00e7\u00e3o com o Poder Legislativo. O chamado \u201cPresidencialismo de Coaliz\u00e3o\u201d sofreu um forte abalo, com a perda de poder de negocia\u00e7\u00e3o do Presidente da Rep\u00fablica<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio adverso, Lula vem tocando o seu terceiro governo do mesmo modo como fez em seus dois governos anteriores: desconsiderando a necessidade de mobiliza\u00e7\u00e3o popular e com ampla negocia\u00e7\u00e3o encapsulada no Parlamento, sancionando uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel. No entanto, em momentos pontuais apostou na mobiliza\u00e7\u00e3o popular e obteve, exemplarmente, a aprova\u00e7\u00e3o da isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda para quem ganha at\u00e9 5 mil reais, barrou a anistia para Bolsonaro e os golpistas e enfrentou vitoriosamente, de forma soberana, a taxa\u00e7\u00e3o de Trump contra as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras.<\/p>\n<p>A concilia\u00e7\u00e3o com a austeridade expressou-se no Novo Arcabou\u00e7o Fiscal, substituto do famigerado Teto de Gastos do governo Temer, e na pol\u00edtica monet\u00e1ria (juros estratosf\u00e9ricos) do Banco Central \u2013 que deram continua\u00e7\u00e3o ao Trip\u00e9 Macroecon\u00f4mico, agora de forma r\u00edgida. Como consequ\u00eancia, os programas e pol\u00edticas dos governos anteriores de Lula foram reativados, ap\u00f3s os ataques de Temer e Bolsonaro, mas de forma mais t\u00edmida e prec\u00e1ria. Al\u00e9m disso, a desestrutura\u00e7\u00e3o da cadeia produtiva do petr\u00f3leo, em particular o fatiamento da Petrobr\u00e1s promovida pelos governos de Temer e Bolsonaro, retirou do governo um importante instrumento de pol\u00edtica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Apesar disso tudo, a\u00a0 taxa m\u00e9dia de crescimento da economia brasileira no atual governo ainda vai se situar em torno de 2,7% e a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a menor da s\u00e9rie hist\u00f3rica, n\u00e3o podendo deixar de se observar, contudo, que os empregos gerados s\u00e3o de baix\u00edssima qualidade. De qualquer sorte, nas novas circunst\u00e2ncias, o melhor desempenho da economia, expresso nos diversos indicadores econ\u00f4micos, n\u00e3o tem se refletido em uma melhor avalia\u00e7\u00e3o do governo e de Lula. Apostar que o crescimento, por si s\u00f3, associado a pol\u00edticas sociais inclusivas, \u00e9 suficiente para \u201cganhar politicamente\u201d a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem se mostrado efetivo. Isso j\u00e1 havia sido constatado quando eclodiram as manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013, mas parece que n\u00e3o foi registrado.<\/p>\n<p>Nesse novo contexto, o \u201cCentr\u00e3o\u201d, a direita neoliberal e o neofascismo passaram durante todo o per\u00edodo emparedando e \u201cdisciplinando\u201d o terceiro governo Lula que, ap\u00f3s os momentos de mobiliza\u00e7\u00e3o acima citados, continuou com sua \u201ct\u00e1tica negociadora restrita ao Parlamento\u201d. Agora, recentemente, a vit\u00f3ria da \u201cpequena pol\u00edtica\u201d mais uma vez se imp\u00f4s: o amplo leque oposicionista derrotou o governo em duas pautas importantes, reprovando a sua indica\u00e7\u00e3o para ministro do STF e derrubando os vetos de Lula na proposta de dosimetria (redu\u00e7\u00e3o das penas para Bolsonaro e os demais golpistas) que havia sido aprovada pelo Parlamento.<\/p>\n<p>Estamos em um momento decisivo (h\u00e1 apenas cinco meses para a elei\u00e7\u00e3o) e n\u00e3o h\u00e1 o menor sinal de se retomar a mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Parece que, diferentemente dos seus governos anteriores, Lula n\u00e3o conseguiu ler as novas circunst\u00e2ncias com que se deparou em seu terceiro governo, isto \u00e9, n\u00e3o conseguiu se adaptar \u00e0 mudan\u00e7a da fortuna, que exigiria ir de encontro a sua pr\u00f3pria natureza conciliadora. No passado, a concilia\u00e7\u00e3o p\u00f4de funcionar, propiciando ganhos econ\u00f4mico-sociais conjunturais para a classe trabalhadora. Em um momento de crescimento econ\u00f4mico e inexist\u00eancia ainda do movimento neofascista, Lula conseguiu arbitrar o conflito capital-trabalho. Hoje, contudo, a fortuna \u00e9 outra: exigiria, desde o in\u00edcio do terceiro governo, forte mobiliza\u00e7\u00e3o popular como base para qualquer negocia\u00e7\u00e3o, dentro e fora do Parlamento.<\/p>\n<p>Mas essa \u201cmudan\u00e7a de chave\u201d n\u00e3o ocorreu, apesar dos dois discursos proferidos por Lula (nos EUA em setembro de 2025 e, mais recentemente, na Espanha) nos quais reconhece e faz a cr\u00edtica da esquerda por ter abandonado a organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular. O retardat\u00e1rio apoio (mas sem mobiliza\u00e7\u00e3o) do governo Lula, do PT e dos sindicatos em geral, mas particularmente da CUT, ao fim da escala de trabalho 6X1 \u00e9 exemplar da incapacidade de entender as novas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>E aqui chegamos a um ponto crucial: a leitura de Maquiavel, feita por Gramsci, anota que, no quadro do capitalismo e da luta de classes travada entre capital e trabalho, o \u201cPr\u00edncipe\u201d n\u00e3o deve ser entendido e reduzido a um indiv\u00edduo \u2013 por mais virtuoso que este possa ser. Na condi\u00e7\u00e3o de \u201cPrincipe\u201d, mais importante que o indiv\u00edduo \u00e9 o partido pol\u00edtico da classe trabalhadora, desde que este assuma a dire\u00e7\u00e3o do processo pol\u00edtico, organizando e mobilizando a classe. Na d\u00e9cada de 1980, com a cria\u00e7\u00e3o do PT e sua forma de atua\u00e7\u00e3o, parecia que est\u00e1vamos assistindo \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do \u201cPrincipe Moderno\u201d no Brasil. No entanto, a partir dos anos 1990, com vit\u00f3ria do neoliberalismo, esse projeto descarrilhou \u2013 da mesma forma como havia ocorrido com os partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas nos pa\u00edses centrais do capitalismo; o processo de \u201ctransformismo\u201d abortou a constru\u00e7\u00e3o do \u201cPr\u00edncipe Moderno\u201d. Por isso, a responsabilidade de todo esse processo n\u00e3o \u00e9 apenas de Lula e de seu governo; ela \u00e9 tamb\u00e9m dos partidos de esquerda, sindicatos e centrais sindicais ligados organicamente a Lula e a este governo.<\/p>\n<p>O resultado disso tudo, \u00e9 que neofascismo e a direita neoliberal, ambos cada vez mais associados, sentiram-se estimulados e empoderados a \u201cemparedar\u201d o governo. A disputa eleitoral ser\u00e1, ou j\u00e1 est\u00e1 sendo, dur\u00edssima. As for\u00e7as pol\u00edticas neoliberais, em sua quase totalidade, est\u00e3o com o bolsonarismo. A resposta a isso, s\u00f3 pode ser a imediata mobiliza\u00e7\u00e3o popular em torno dos temas que ainda est\u00e3o sendo objeto de decis\u00f5es do Congresso Nacional (em especial o fim da escala 6X1) e da elei\u00e7\u00e3o de Lula. Ou vai-se continuar esperando que o \u201cg\u00eanio negociador\u201d de Lula encontre a sa\u00edda das dificuldades? A hora \u00e9 agora, \u00e9 a \u00faltima hora!<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Desatento ao novo cen\u00e1rio, ele insiste em negociar com o Centr\u00e3o, despreza a mobiliza\u00e7\u00e3o social e abre espa\u00e7o para a ultradireita. 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