{"id":87200,"date":"2026-05-13T19:25:48","date_gmt":"2026-05-13T22:25:48","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sobre-deus-descartes-e-o-genio-maligno\/"},"modified":"2026-05-13T19:25:48","modified_gmt":"2026-05-13T22:25:48","slug":"sobre-deus-descartes-e-o-genio-maligno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sobre-deus-descartes-e-o-genio-maligno\/","title":{"rendered":"Sobre Deus, Descartes e o g\u00eanio maligno"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"854\" height=\"480\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/renedescartes-854x480-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/renedescartes-854x480-1.jpg 854w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/13192542\/renedescartes-854x480-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/13192542\/renedescartes-854x480-1-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 854px) 100vw, 854px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Antes de iniciarmos a presente reflex\u00e3o sobre a inconsist\u00eancia l\u00f3gica da nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus, \u00e9 fundamental ressalvar que o ate\u00edsmo<sup>1<\/sup> \u00e9 uma das posturas \u00e9ticas mais importantes que um ser humano pode sustentar, sobretudo no momento hist\u00f3rico atual. Quando consideramos que mais da metade da popula\u00e7\u00e3o mundial compartilha da f\u00e9 no cristianismo, no islamismo ou no juda\u00edsmo, e que a leitura fundamentalista de textos dessas religi\u00f5es frequentemente se presta a justificar diversos tipos de viol\u00eancia, negar a exist\u00eancia de Deus significa n\u00e3o compactuar com esse tipo de irracionalismo. A personaliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a atribui\u00e7\u00e3o de vontades e emo\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias ao ser divino, muitas vezes \u00e9 induzida pela interpreta\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica e historicamente anacr\u00f4nica da B\u00edblia crist\u00e3, judaica ou do Alcor\u00e3o, veiculada por l\u00edderes religiosos oportunistas, e tem o efeito nefasto de retirar a fonte da obriga\u00e7\u00e3o moral da autonomia do sujeito e desloc\u00e1-la para a simples obedi\u00eancia cega. As piores viol\u00eancias f\u00edsicas e morais propagadas pelo fascismo na hist\u00f3ria somente foram poss\u00edveis gra\u00e7as \u00e0 proje\u00e7\u00e3o de preconceitos e segrega\u00e7\u00f5es relativos \u00e0 diferen\u00e7a \u00e9tnica, de religi\u00e3o e de g\u00eanero no ser divino, com o objetivo de justific\u00e1-los moralmente como se fossem absolutos. O ateu est\u00e1 coberto da mais plena lucidez, pois o Deus que justifica e aben\u00e7oa viol\u00eancias, preconceitos morais e prosperidade econ\u00f4mica de origem eticamente duvidosa, \u00e9 apenas uma entidade imagin\u00e1ria que jamais existiu. Por esse motivo, negar a exist\u00eancia de Deus como suporte imagin\u00e1rio de legitima\u00e7\u00e3o moral ou ideol\u00f3gica da barb\u00e1rie n\u00e3o \u00e9 apenas uma atitude cognitivamente v\u00e1lida para todo ser humano que valoriza a pr\u00f3pria intelig\u00eancia, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma demonstra\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel de fraternidade, compaix\u00e3o e sensibilidade perante a alteridade do Outro.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria da filosofia e da cultura ocidental h\u00e1 pelo menos duas vertentes muito importantes que demonstram o bom senso e a consist\u00eancia \u00e9tica do ate\u00edsmo. A raz\u00e3o pr\u00e1tica de Kant sustenta que a obriga\u00e7\u00e3o moral se torna plenamente justificada mediante princ\u00edpios universais que s\u00e3o completamente independentes de qualquer tipo de cren\u00e7a em Deus, ou da concep\u00e7\u00e3o de recompensas ou puni\u00e7\u00f5es divinas. Para esse grande fil\u00f3sofo moderno, o imperativo categ\u00f3rico, que \u00e9 o fundamento universalista da lei moral, obriga todos os seres humanos a se relacionar com o Outro sempre como fim, jamais como meio, nem tampouco como um simples objeto pass\u00edvel de manipula\u00e7\u00e3o. Isso significa que o respeito \u00e0 dignidade humana \u00e9 um princ\u00edpio universal derivado da autonomia moral dos agentes, e n\u00e3o de qualquer tipo de arb\u00edtrio divino. Freud, no texto <em>O<\/em><em> futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>, critica o sentimento religioso como neurose obsessiva universal, derivada da depend\u00eancia infantil diante da autoridade paterna. Para ele, as cren\u00e7as religiosas mant\u00eam os seres humanos adultos aprisionados em est\u00e1gios infantis do desenvolvimento emocional, atrofiando a racionalidade e reproduzindo a heteronomia moral. Na concep\u00e7\u00e3o freudiana, cren\u00e7as religiosas adoecem o sujeito, pois se alimentam de sentimentos de culpa persistentes, impedindo o amadurecimento emocional e a autonomia racional e moral.<\/p>\n<p>Dessa forma, o problema a ser discutido neste texto n\u00e3o \u00e9 a validade \u00e9tica ou moral do ate\u00edsmo, que podemos entender como algo indiscut\u00edvel, mas sim o problema filos\u00f3fico da exist\u00eancia de Deus, que nada tem a ver com cren\u00e7as religiosas de qualquer esp\u00e9cie. As advert\u00eancias lan\u00e7adas por Kant e Freud sobre a fragilidade da f\u00e9 religiosa como princ\u00edpio para a autonomia \u00e9tica e intelectual s\u00e3o suficientes para entendermos que a exist\u00eancia de Deus \u00e9 um problema ser pesquisado pela raz\u00e3o, pois n\u00e3o deve depender apenas da cren\u00e7a arbitr\u00e1ria de um ser humano singular. Na hist\u00f3ria da metaf\u00edsica ocidental, a pesquisa da consci\u00eancia humana como esfera privilegiada de acesso a Deus constitui instrumento importante para um acesso s\u00f3lido ao ser divino, por ser completamente independente de experi\u00eancias pessoais, caprichos ou vontades de um ser humano qualquer. Em outras palavras, deveria ser \u00f3bvio que a pesquisa da exist\u00eancia de um princ\u00edpio fundamental que seja a causa absoluta e necess\u00e1ria de tudo aquilo que existe \u00e9 um problema importante demais para ser atribui\u00e7\u00e3o exclusiva de seres humanos obtusos, narcisistas e manipuladores, como \u00e9 o caso de muitos l\u00edderes religiosos que conhecemos.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--19.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--19.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O tema da interioridade da consci\u00eancia como via privilegiada de acesso \u00e0 certeza da exist\u00eancia do ser divino foi tratado com o m\u00e1ximo rigor conceitual por Ren\u00e9 Descartes, fil\u00f3sofo moderno do s\u00e9culo<\/p>\n<p>XVII. No texto <em>Medita\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas<\/em>, esse fil\u00f3sofo empreendeu a pesquisa da rela\u00e7\u00e3o da mente consigo mesma e da certeza da exist\u00eancia de Deus em um percurso de duas etapas. Em primeiro lugar, Descartes desenvolveu o m\u00e9todo da d\u00favida hiperb\u00f3lica, que consistiu na suspens\u00e3o tempor\u00e1ria de todas as cren\u00e7as e conhecimentos objetivos, sugerindo que a exist\u00eancia de objetos materiais, incluindo nosso pr\u00f3prio corpo, e mesmo os conhecimentos matem\u00e1ticos, s\u00e3o pass\u00edveis de d\u00favida. Para desenvolver esse ceticismo radical, o fil\u00f3sofo postulou a exist\u00eancia do g\u00eanio maligno, uma entidade espiritual onipotente e onisciente, astuciosa e enganadora, que se faz passar por um Deus bondoso e amoroso, mas na verdade engana o homem toda vez que ele emprega a raz\u00e3o para conhecer o mundo. O g\u00eanio maligno estende seu poder a todas as \u00e1reas do conhecimento, transformando as pr\u00f3prias verdades matem\u00e1ticas em uma colossal mistifica\u00e7\u00e3o: \u201cposso supor, portanto, que exista n\u00e3o um verdadeiro Deus, que \u00e9 fonte soberana de verdade, mas certo g\u00eanio maligno, n\u00e3o menos astuto e enganador do que poderoso, que tenha empregado todos os seus recursos para me enganar\u201d <sup>2<\/sup>. O g\u00eanio maligno de Descartes \u00e9 o pai de todas as teorias conspirat\u00f3rias, pois a pr\u00f3pria raz\u00e3o se v\u00ea desestabilizada tanto em sua fun\u00e7\u00e3o cognitiva quanto em seu papel normativo como meio de aperfei\u00e7oamento \u00e9tico do mundo.<\/p>\n<p>O objetivo visado por Descartes consistiu em intensificar ao m\u00e1ximo a d\u00favida sobre a exist\u00eancia de todas as coisas materiais e conhecimentos, para verificar se \u00e9 poss\u00edvel haver uma alguma certeza origin\u00e1ria e indubit\u00e1vel. Ele chega \u00e0 conclus\u00e3o de que, por mais que algu\u00e9m possa duvidar de tudo o que existe, somente n\u00e3o poder\u00e1 duvidar de que \u00e9 uma entidade que pensa, e, portanto, existe. Este \u00e9 o <em>cogito ergo sum<\/em>, que pode ser traduzido como: \u201cpenso, logo, existo\u201d. Mesmo que haja um g\u00eanio maligno que engana o ser humano a todo instante, este n\u00e3o ser\u00e1 enganado quando sabe que existe, pois, mesmo para ser enganado \u00e9 preciso existir como uma subst\u00e2ncia pensante: \u201ch\u00e1 uma for\u00e7a, n\u00e3o sei qual, enganadora e muito astuta, que realiza qualquer esfor\u00e7o para me enganar sempre. Entretanto, se ela me engana, n\u00e3o h\u00e1 qualquer d\u00favida de que existo; por mais que ela me engane, n\u00e3o poder\u00e1 fazer com que eu seja nada, enquanto eu pensar que sou algo. Consequentemente, depois de ter pensado e examinado tudo com grande cuidado, \u00e9 necess\u00e1rio concluir que a proposi\u00e7\u00e3o eu sou, eu existo, \u00e9 absolutamente verdadeira toda vez que a pronuncio ou que a concebo em meu esp\u00edrito\u201d<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o met\u00f3dica da d\u00favida em Ren\u00e9 Descartes culmina na obten\u00e7\u00e3o de um conhecimento absolutamente certo acerca da pr\u00f3pria consci\u00eancia, entendida como esfera de interioridade e como autoevid\u00eancia existencial do eu, imune a qualquer forma de perturba\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o. Mas essa certeza indubit\u00e1vel relativa \u00e0 exist\u00eancia do sujeito pensante ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente para dissipar a hip\u00f3tese do g\u00eanio maligno, que permanece sabotando qualquer pensamento que n\u00e3o seja a exist\u00eancia da pr\u00f3pria consci\u00eancia. Em uma segunda etapa de suas reflex\u00f5es, o fil\u00f3sofo realiza um novo movimento reflexivo que constata a presen\u00e7a de uma ideia inata na consci\u00eancia, que n\u00e3o poderia ter sido adquirida pela experi\u00eancia. Esta \u00e9 a ideia da exist\u00eancia de Deus como entidade absoluta, supremamente boa e perfeita, imune a qualquer imperfei\u00e7\u00e3o ou car\u00eancia. A ideia inata da exist\u00eancia de Deus dissolve a hip\u00f3tese do g\u00eanio maligno, pois um ser perfeito n\u00e3o pode ser fonte de qualquer tipo de engano. Essa ideia inata da exist\u00eancia de Deus corresponde a uma apropria\u00e7\u00e3o cartesiana da prova ontol\u00f3gica de Anselmo de Cantu\u00e1ria, fil\u00f3sofo medieval, para quem \u201cDeus \u00e9 aquilo de que n\u00e3o se pode pensar nada de maior\u201d. Ora, se Deus fosse um g\u00eanio maligno, n\u00e3o se adequaria a essa ideia, pois seria algo de menor (teria a necessidade de enganar). Da mesma forma, essa ideia corresponde a um Deus que efetivamente existe, pois se for apenas uma ideia imagin\u00e1ria, igualmente n\u00e3o poder\u00e1 corresponder a essa defini\u00e7\u00e3o de ser algo de que n\u00e3o pode pensar nada de maior (n\u00e3o tendo exist\u00eancia, seria algo de menor).<\/p>\n<p>A ideia inata da exist\u00eancia de Deus na consci\u00eancia humana \u00e9 um conte\u00fado a que qualquer um de n\u00f3s pode ter acesso no momento em que desejar. E essa ideia, ao contr\u00e1rio de todas as demais, que podem ser simplesmente imagin\u00e1rias, representa o \u00fanico conceito filos\u00f3fico cuja simples enuncia\u00e7\u00e3o prova sua exist\u00eancia efetiva: \u201ca exist\u00eancia de Deus \u00e9 parte integrante de sua ess\u00eancia, de modo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter a ideia (a ess\u00eancia) de Deus sem simultaneamente admitir a sua exist\u00eancia, da mesma forma que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceb\u00edvel uma montanha sem vale\u201d<sup>4<\/sup>. O alcance desse argumento de Descartes n\u00e3o se limita a ser uma demonstra\u00e7\u00e3o l\u00f3gico-filos\u00f3fica da exist\u00eancia de Deus como origem de todas as coisas, pois ele \u00e9 tamb\u00e9m um princ\u00edpio absoluto que legitima a confian\u00e7a na raz\u00e3o humana. Pois \u201cse \u00e9 verdade que Deus, porque sumamente perfeito, \u00e9 tamb\u00e9m sumamente veraz e imut\u00e1vel, n\u00e3o devemos ent\u00e3o ter imensa confian\u00e7a em n\u00f3s e em nossas faculdades?\u201d<sup>5<\/sup>. Desse modo, a confiabilidade da raz\u00e3o encontra seu fundamento \u00faltimo na demonstra\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus, condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para impedir que a pr\u00f3pria raz\u00e3o seja corro\u00edda por um princ\u00edpio c\u00e9tico que comprometeria a objetividade do conhecimento.<\/p>\n<p>Ao se apropriar da prova ontol\u00f3gica da exist\u00eancia de Deus formulada por Anselmo, Descartes n\u00e3o est\u00e1 expondo uma proposi\u00e7\u00e3o qualquer, pois se trata de um argumento filos\u00f3fico de princ\u00edpio, que tem de ser aceito mesmo por quem almeje critic\u00e1-lo. A prop\u00f3sito, existem argumentos ate\u00edstas muito bem elaborados que pretendem refutar Descartes. Podemos com Kant, argumentar que a passagem do plano l\u00f3gico ao ontol\u00f3gico \u00e9 inv\u00e1lida, uma vez que n\u00e3o se pode inferir a exist\u00eancia de Deus apenas a partir do conceito de perfei\u00e7\u00e3o. Pensando em David Hume, fil\u00f3sofo empirista do s\u00e9culo XVII, podemos afirmar tamb\u00e9m que provas sobre a exist\u00eancia de Deus baseadas em ideias puras ou causalidade metaf\u00edsica carecem de fundamento emp\u00edrico, pois n\u00e3o se produz conhecimentos leg\u00edtimos quando se ultrapassa a experi\u00eancia sens\u00edvel. O grande problema, que \u00e9 subjacente a esses argumentos e a muitos outros j\u00e1 elaborados ao longo da hist\u00f3ria da filosofia, \u00e9 que, justamente por serem logicamente consistentes, todos eles depositam a mais profunda confian\u00e7a na raz\u00e3o, e por esse motivo, implicitamente concordam com Descartes. Mesmo que seja para contrariar Descartes, \u00e9 preciso adotar a mais plena confian\u00e7a na capacidade da raz\u00e3o em estabelecer uma correspond\u00eancia confi\u00e1vel entre ideias e realidade. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 preciso admitir que essa confian\u00e7a n\u00e3o pode ter um outro fundamento ou alicerce que n\u00e3o seja aquele estabelecido por Descartes, vale dizer, a exist\u00eancia de Deus como princ\u00edpio absoluto que assegura a validade l\u00f3gica da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegamos a um paradoxo, pois o ate\u00edsmo tem validade \u00e9tica e moral inquestion\u00e1vel, mas um ateu filosoficamente respons\u00e1vel precisa se perguntar de onde se origina sua capacidade de desvelar criticamente o irracionalismo das religi\u00f5es. Ela s\u00f3 pode se originar da raz\u00e3o, mas desde que ele se interrogue acerca da legitimidade e confiabilidade da raz\u00e3o, encontrar\u00e1 o mesmo fundamento absoluto que ele insiste em negar. Um ateu sintonizado com a neuroci\u00eancia poderia argumentar que a raz\u00e3o \u00e9 uma faculdade cognitiva que deve sua confiabilidade ao processo de evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies que dotou o <em>homo sapiens <\/em>de um c\u00e9rebro capaz de produzir uma consci\u00eancia racional geradora de uma quantidade imensa de sinapses (conex\u00f5es entre os neur\u00f4nios) das quais teria emanado a consci\u00eancia. Ter\u00edamos um argumento naturalista que atribuiria a confiabilidade da raz\u00e3o a um processo completamente aleat\u00f3rio de muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que impulsionam os processos vitais da natureza, sem depender de nenhuma entidade metaf\u00edsica absoluta. Mas dessa forma, estar\u00edamos diante de uma ontologia materialista (teoria que explica a mat\u00e9ria como origem de toda a realidade) inevitavelmente envolvida em uma circularidade insol\u00favel, pois a confiabilidade da raz\u00e3o seria imputada a processos biol\u00f3gicos de origem material que somente se tornariam intelig\u00edveis mediante o emprego da pr\u00f3pria raz\u00e3o. Esse problema explicita a insufici\u00eancia do m\u00e9todo cient\u00edfico para esclarecer a justifica\u00e7\u00e3o da validade da raz\u00e3o, uma vez que o empirismo empregado pela ci\u00eancia j\u00e1 \u00e9 legitimado racionalmente, e portanto n\u00e3o pode ser empregado para justific\u00e1-la.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg 729w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/06\/01180420\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Justificar a confiabilidade da raz\u00e3o com o argumento neurocient\u00edfico que a reduz a uma faculdade cognitiva emanada do c\u00e9rebro a tornaria dependente de uma sucess\u00e3o de processos mec\u00e2nicos contingentes que ocorrem na natureza, mas s\u00e3o completamente incapazes de conduzir a um fundamento \u00faltimo capaz de explicar por que a vida se desenvolve de acordo com um processo evolutivo. Como o conjunto dos processos biol\u00f3gicos, por serem aleat\u00f3rios e contingentes, se revela incapaz de explicar sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, se torna necess\u00e1rio recorrer a um fundamento racional suficiente que seja externo \u00e0s conting\u00eancias do mundo, e ent\u00e3o retornamos a Descartes e sua proposi\u00e7\u00e3o sobre a perfei\u00e7\u00e3o absoluta de Deus como alicerce que justifica a confiabilidade da raz\u00e3o. Ent\u00e3o, chegamos a um cen\u00e1rio curioso, em que o ateu, desde que queira conhecer a si mesmo, se v\u00ea envolvido em um jogo do tipo \u201cquem sou eu?\u201d, em que o participante realiza perguntas para tentar adivinhar quem \u00e9 o personagem cujo nome est\u00e1 escrito em um papel estampado em sua testa. No mundo atual, permeado pelos mais diversos tipos de obscurantismo religioso, o ate\u00edsmo representa uma postura \u00e9tica imprescind\u00edvel, dadas suas refer\u00eancias iluministas, plenamente sintonizadas com o progresso da raz\u00e3o. Mas sua plena compreens\u00e3o filos\u00f3fica e existencial requer desvendar o v\u00e9u de Maya, que a cultura oriental consagrou como a barreira cognitiva e espiritual que produz a ilus\u00e3o de que o mundo material seja uma realidade derradeira e insuper\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ainda assim, um ateu suficientemente sintonizado com o ceticismo radical do g\u00eanio maligno, poderia apresentar um argumento definitivo, eventualmente desesperado, e alertar que o pr\u00f3prio Descartes n\u00e3o conseguiu contornar a circularidade evidente de sua proposi\u00e7\u00e3o, pois a clareza e distin\u00e7\u00e3o que ele atribui a Deus j\u00e1 \u00e9 dependente do pr\u00f3prio emprego da raz\u00e3o que ele pretende justificar. Mas esse problema filos\u00f3fico, em que a fundamenta\u00e7\u00e3o \u00faltima da raz\u00e3o parece depender do emprego da pr\u00f3pria raz\u00e3o, \u00e9 inevit\u00e1vel, e n\u00e3o deve ser visto como um racioc\u00ednio defeituoso, pois \u00e9 inerente \u00e0 pr\u00f3pria estrutura da racionalidade. Ao longo da hist\u00f3ria da filosofia, desenvolvimentos posteriores da metaf\u00edsica elucidaram a poss\u00edvel circularidade cartesiana, apresentando Deus n\u00e3o apenas como uma ideia inata na consci\u00eancia, mas como subst\u00e2ncia que estrutura o ser (Espinosa) e como Esp\u00edrito Absoluto que conhece a si mesmo mediante o esp\u00edrito humano (Hegel). Os sistemas filos\u00f3ficos de Espinosa e Hegel caracterizam-se pela ruptura com o modelo teol\u00f3gico tradicional do ser divino como entidade pessoal, transcendente e separada do mundo, substituindo a f\u00e9 religiosa pela concep\u00e7\u00e3o de Deus como princ\u00edpio ontol\u00f3gico e racional.<\/p>\n<p>A problematiza\u00e7\u00e3o aqui realizada, entre o ate\u00edsmo e sua pr\u00f3pria fundamenta\u00e7\u00e3o racional, evidencia o car\u00e1ter obsoleto da f\u00e9 religiosa, que tanto pode ser pensada como manifesta\u00e7\u00e3o de dogmatismo e fanatismo, quanto em seu teor de genu\u00edna express\u00e3o e eleva\u00e7\u00e3o espiritual. Quando pensada no primeiro aspecto, a f\u00e9 religiosa \u00e9 permeada por elementos emocionalmente regressivos, correspondendo ao diagn\u00f3stico j\u00e1 apresentado neste texto, como heteronomia moral (Kant) e neurose obsessiva (Freud). Por outro lado, quando a f\u00e9 religiosa adquire contornos de aut\u00eantica express\u00e3o \u00e9tica e existencial, constituindo v\u00ednculos comunit\u00e1rios e expressando pr\u00e1ticas de resist\u00eancia diante do sofrimento e da injusti\u00e7a, ela se identifica com a raz\u00e3o em si mesma. O percurso hist\u00f3rico de brasileiros e brasileiras como Chico Xavier, J\u00falio Lancellotti, Irm\u00e3 Dulce, Mestre Irineu Serra, Zilda Arns e tantos(as) outros(as) pode ser pensado como exemplo de vida em que a rela\u00e7\u00e3o com o Absoluto deixou se ser uma simples cren\u00e7a e se tornou plenamente racional, convertendo a oposi\u00e7\u00e3o entre te\u00edsmo e ate\u00edsmo em uma quest\u00e3o existencialmente irrelevante. Esses l\u00edderes religiosos t\u00eam em comum a compreens\u00e3o sobre o quanto \u00e9 insuficiente aos seres humanos conhecer Deus e ignorar a pr\u00f3pria mis\u00e9ria, ou conhecer a pr\u00f3pria mis\u00e9ria e ignorar Deus. Cada qual a seu modo, souberam experimentar a lucidez de Pascal, fil\u00f3sofo metaf\u00edsico do s\u00e9culo XVII, para quem \u201cum s\u00f3 desses conhecimentos causa, ou a soberba dos fil\u00f3sofos que conheceram Deus e n\u00e3o a sua pr\u00f3pria mis\u00e9ria, ou o desespero dos ateus, que conhecem a pr\u00f3pria mis\u00e9ria sem o redentor\u201d<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<ol>\n<li>Embora tenham significados distintos, neste texto, o termo \u201cate\u00edsmo\u201d pretende englobar o agnosticismo, uma vez que ambas express\u00f5es manifestam ceticismo perante a exist\u00eancia de Deus.<\/li>\n<li>Descartes, R. <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas<\/em>. S\u00e3o Paulo, Abril, Cultural, (Os Pensadores), 2000, p. 255.<\/li>\n<li>Descartes, R. idem, p. 258.<\/li>\n<li>Reale, G. e Antiseri, D. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo, Paulus, 1990, vol. 2, p. 372.<\/li>\n<li>Reale, G. e Antiseri, D., idem, p. 373.<\/li>\n<li>Pascal, B. <em>Pensamentos<\/em>. S\u00e3o Paulo, Abril Cultural, (Os Pensadores), 1973, p. 178).<\/li>\n<\/ol>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. 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Mas o iluminista franc\u00eas demonstrou que \u00e9 necess\u00e1rio <i>crer<\/i> para justificar a exist\u00eancia de uma raz\u00e3o absoluta. Do mesmo modo, a f\u00e9 religiosa, sem dogmatismo, pode adquirir contornos de aut\u00eantica express\u00e3o \u00e9tica, racional e solid\u00e1ria<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/sobre-deus-descartes-e-o-genio-maligno\/\">Sobre Deus, Descartes e o &lt;i&gt;g\u00eanio maligno&lt;\/i&gt;<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87201,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[57546,2687,57547,57548,57549,16610,57550,57551,57552],"tags":[],"class_list":["post-87200","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ateismo","category-crise-civilizatoria","category-dogmatismo-religioso","category-existencialismo","category-fe-religiosa","category-freud","category-immanuel-kant","category-razao-absoluta","category-rene-descartes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87200","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87200"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87200\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87201"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87200"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87200"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87200"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}