{"id":87330,"date":"2026-05-14T16:37:57","date_gmt":"2026-05-14T19:37:57","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/universidades-critica-ao-pluralismo-desencarnado\/"},"modified":"2026-05-14T16:37:57","modified_gmt":"2026-05-14T19:37:57","slug":"universidades-critica-ao-pluralismo-desencarnado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/universidades-critica-ao-pluralismo-desencarnado\/","title":{"rendered":"Universidades: cr\u00edtica ao pluralismo desencarnado"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"675\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/linguagem-humana-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/linguagem-humana-1.jpeg 1200w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/14163723\/linguagem-humana-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/14163723\/linguagem-humana-1-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><figcaption>Imagem: Stellalevi\/GettyImages<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Um grupo de professores e professoras lan\u00e7ou um manifesto intitulado \u201cEm defesa do pluralismo e da liberdade acad\u00eamica\u201d. O texto abaixo \u00e9 uma amplifica\u00e7\u00e3o, uma posi\u00e7\u00e3o e uma contraposi\u00e7\u00e3o a este manifesto<em>.<\/em> N\u00e3o se trata de discutir a centralidade e a import\u00e2ncia do pluralismo acad\u00eamico em nossas institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias. Isso \u00e9 ponto nodal da atividade acad\u00eamico-cient\u00edfica. Aqui, a quest\u00e3o \u00e9 totalmente outra: qual pluralismo queremos defender.<\/p>\n<p>Este texto se contrap\u00f5e ao manifesto de colegas que se reuniram no <em>Centro<\/em> <em>MariAnt\u00f4nia<\/em>, na Universidade de S\u00e3o Paulo, em abril de 2026, para um semin\u00e1rio intitulado \u201cPluralismo e liberdade acad\u00eamica nas universidades\u201d. Ao faz\u00ea-lo, buscamos amplificar o debate e escutar, na vida universit\u00e1ria, uma multiplicidade de vozes democr\u00e1ticas, assumindo uma posi\u00e7\u00e3o declaradamente favor\u00e1vel \u00e0 igualdade democr\u00e1tica. Por mais ir\u00f4nicos que sejam os tempos atuais, ainda \u00e9 preciso falar de igualdade democr\u00e1tica nas universidades.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que orienta este texto \u00e9 a contra-argumenta\u00e7\u00e3o a uma din\u00e2mica sociopol\u00edtica crucial: a diferen\u00e7a entre um pluralismo democr\u00e1tico e igualit\u00e1rio e uma mera cole\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es isoladas que, descontextualizadas de sua hist\u00f3ria e de seu tecido social, geram hostilidade e ressentimento na defesa de um pluralismo assentado na racionalidade neoliberal.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-18.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-18.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A quest\u00e3o nodal aqui n\u00e3o \u00e9 apenas diagnosticar o que denominamos \u201cpluralismo desencarnado\u201d: um pluralismo que, ao se desvincular da hist\u00f3ria e da sociedade, n\u00e3o pluraliza o poder, mas multiplica o ressentimento. Mas tamb\u00e9m argumentar acerca da liberdade acad\u00eamica: n\u00e3o da liberdade abstrata, e sim da liberdade endossada pelo princ\u00edpio da igualdade democr\u00e1tica; da liberdade que considera a hist\u00f3ria como movimento de lutas e disputas, uma aprendizagem social de longo prazo; e da \u00e9tica como um conjunto de premissas que a interrogam acerca de sua busca pela igualdade de direitos.<\/p>\n<p>A racionalidade neoliberal, intrincada em nossas rela\u00e7\u00f5es, exige um esfor\u00e7o adicional para que sua cr\u00edtica se torne mais aguda. Um de seus mecanismos mais centrais \u00e9 a desconsidera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ou seja, a aus\u00eancia de contexto hist\u00f3rico em rela\u00e7\u00e3o a uma ideia. Desencarnar as ideias da hist\u00f3ria das sociedades resulta na perda de profundidade e de responsabilidade. Sem uma perspectiva hist\u00f3rica, todas as ideias parecem ter o mesmo peso e a mesma validade; por isso, parecem plurais quando, no entanto, s\u00e3o ideias particulares de uma comunidade bastante espec\u00edfica: a comunidade do ressentimento.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que Wendy Brown e Melinda Cooper chamaram a aten\u00e7\u00e3o para uma compreens\u00e3o do neoliberalismo n\u00e3o apenas como um conjunto de pol\u00edticas econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m como uma racionalidade governamental que incide sobre subjetividades, institui\u00e7\u00f5es e, sobretudo, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de peti\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (BROWN, 2015; COOPER, 2017). Ao converter cidad\u00e3os em agentes de mercado e transformar quest\u00f5es coletivas em prefer\u00eancias individuais e opini\u00f5es, o neoliberalismo produz exatamente o a-historicismo que aqui criticamos: um presente eternamente novo, descolado de qualquer movimento hist\u00f3rico e, portanto, incapaz de aprender e reconhecer os elementos relacionais do passado ou as conquistas arduamente constru\u00eddas.<\/p>\n<p>Essa desencarna\u00e7\u00e3o do tempo hist\u00f3rico tem uma consequ\u00eancia direta na no\u00e7\u00e3o de pluralismo: sem mem\u00f3ria coletiva das lutas e dos embates pol\u00edticos, o debate de ideias perde sua dimens\u00e3o de responsabilidade \u00e9tica e pol\u00edtica. A sociedade existente, resultado de longos processos hist\u00f3ricos de luta, negocia\u00e7\u00e3o e conquista, aparece ao olhar desencarnado e ressentido como um obst\u00e1culo irracional \u00e0 \u201cnova\u201d ideia de um pluralismo sem igualdade democr\u00e1tica; e n\u00e3o como a sedimenta\u00e7\u00e3o complexa do esfor\u00e7o humano coletivo para constituir-se como sujeito pol\u00edtico. O truque afetivo aqui acionado \u00e9 que a desencarna\u00e7\u00e3o das peti\u00e7\u00f5es e das ideias acaba por fomentar afetos pol\u00edticos como o ressentimento: ao ignorar a hist\u00f3ria e suas complexidades, a comunidade de ressentidos l\u00ea a resist\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es e dos grupos sociais como m\u00e1-f\u00e9, o embate pol\u00edtico como aniquila\u00e7\u00e3o e a liberdade como mera opini\u00e3o, em vez de encarar a hist\u00f3ria como o peso leg\u00edtimo de uma heran\u00e7a compartilhada.<\/p>\n<p>Em <em>States of Injury<\/em>, Brown (1995) mostra que o ressentimento pode se tornar n\u00e3o apenas um subproduto do pluralismo desencarnado, mas tamb\u00e9m sua pr\u00f3pria l\u00f3gica constitutiva. Relendo Nietzsche (2009), a autora desenvolve o conceito de \u201cidentidades feridas\u201d (<em>wounded identities<\/em>): identidades pol\u00edticas que se constituem em torno da dor, da vitimiza\u00e7\u00e3o e do dano sofrido.<\/p>\n<p>O problema aqui n\u00e3o est\u00e1 em reconhecer o dano; ele existe, e reconhec\u00ea-lo \u00e9 necess\u00e1rio e justo. O problema est\u00e1 em n\u00e3o compreender como a identidade passa a depender, estruturalmente, do obst\u00e1culo que a constitui como um momento intr\u00ednseco a ela, como seu pr\u00f3prio conte\u00fado. Nesse ponto, o ressentimento deixa de ser uma rea\u00e7\u00e3o para se tornar uma posi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica que instala a peti\u00e7\u00e3o marcada pelo objeto obstaculizador: uma identidade residual da pr\u00f3pria dor.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>O sujeito do ressentimento nietzschiano formula o \u2018eu\u2019 como v\u00edtima e o \u2018outro\u2019 como culpado e, nessa opera\u00e7\u00e3o, reproduz exatamente a l\u00f3gica de poder que afirma combater. (BROWN, 1995, p. 68-69, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Compreendido esse elemento constitutivo do pluralismo desencarnado, percebe-se que um debate de ideias n\u00e3o ancorado na responsabilidade hist\u00f3rica e social desliza facilmente para uma din\u00e2mica em que grupos e comunidades n\u00e3o debatem mais propostas, mas agem como identidades feridas, depurando termos \u00e0 luz de seus pr\u00f3prios interesses e se apresentando como v\u00edtimas de ataques, pois se entendem como \u201ciluminados da liberdade acad\u00eamica\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ADC30_Engels_anuncio_OP-4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ADC30_Engels_anuncio_OP-4.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/31214836\/ADC30_Engels_anuncio_OP-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a ideia de liberdade se apresenta completamente desvinculada de qualquer articula\u00e7\u00e3o com a igualdade, a n\u00e3o ser em rela\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o. Dar sua opini\u00e3o parece ser sin\u00f4nimo de liberdade de express\u00e3o; por\u00e9m, como essa opini\u00e3o est\u00e1 constitu\u00edda e movida pela melancolia da ferida e pelo ressentimento, ela encarna sempre a ideia de que os direitos do outro obstaculizam os pr\u00f3prios direitos. Ernesto Laclau (2005) j\u00e1 demonstrou que peti\u00e7\u00f5es podem ser oriundas de posicionalidades distintas, mas, para que inaugurem um campo pol\u00edtico e um limite \u00e0s l\u00f3gicas hegem\u00f4nicas, elas precisam criar uma cadeia de equival\u00eancias; do contr\u00e1rio, como elementos soltos e livres, alimentam e solidificam cada vez mais as hegemonias hier\u00e1rquicas dos direitos como se fossem privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Pode-se apreender, portanto, a dimens\u00e3o propriamente pol\u00edtica como parte de nossa contraposi\u00e7\u00e3o: o ressentimento \u00e9, antes de tudo, uma ren\u00fancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o. A comunidade do ressentimento n\u00e3o age: ela reage, imputa e acusa. \u00c9 por esse caminho que um pluralismo robusto e democr\u00e1tico dever\u00e1 se contrapor, assumindo a posi\u00e7\u00e3o de que, sustentado pela hist\u00f3ria, pelo compromisso entre os e as participantes e pela \u00e9tica da liberdade democr\u00e1tica, transforma a disposi\u00e7\u00e3o para o conflito em delibera\u00e7\u00e3o, a dor do dano em demanda por equival\u00eancia e o afeto arruinador em projeto coletivo.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia desse pluralismo da igualdade democr\u00e1tica, de um \u2018n\u00f3s\u2019 hist\u00f3rico e social, produz a sensa\u00e7\u00e3o de que a cr\u00edtica ou o fracasso de uma ideia seja percebido como afronta pessoal, cancelamento virtual, interrup\u00e7\u00e3o for\u00e7ada ou agress\u00e3o, e n\u00e3o como parte de um processo complexo de embates e disputas no campo pol\u00edtico. Sem a media\u00e7\u00e3o do coletivo e da hist\u00f3ria, o dissenso vira ofensa e a pol\u00edtica, julgamento moral. O que se v\u00ea de fato \u00e9 que muitos e muitas colegas que advogam pelo pluralismo desencarnado, o manifesto assinado que tomamos aqui como ponto cr\u00edtico \u00e9 um bom exemplo, em verdade s\u00e3o confrontados pelo debate p\u00fablico, este sim plural, recheado por vozes nunca escutadas anteriormente, tidas como incapazes, ru\u00eddos inescrut\u00e1veis, corpos n\u00e3o reconhecidos, experi\u00eancias descartadas, quando n\u00e3o patologizadas e criminalizadas, e que agora s\u00e3o leg\u00edtimas de reconhecimento, participa\u00e7\u00e3o e considera\u00e7\u00e3o nas in\u00fameras arenas de embate.<\/p>\n<p>N\u00e3o por outros motivos, a comunidade ressentida passa a reivindicar ordenamentos e arbitragens normativas j\u00e1 em disputa, exigindo condena\u00e7\u00f5es e exclus\u00f5es como se fossem opini\u00f5es livres e leg\u00edtimas. Argumenta por crimes e exclusivismos exatamente porque, desencarnada da hist\u00f3ria e ressentida pela dor da melancolia, apresenta-se como defensora de uma suposta neutralidade do m\u00e9todo e da ci\u00eancia em pleno s\u00e9culo XXI. Advogar pela neutralidade institucional \u00e9 o mesmo que negar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria: quando as institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias foram neutras? Enquanto dominadas por um certo grau de elitismo e por um sentido iluminista, as chamadas posi\u00e7\u00f5es vanguardistas n\u00e3o tinham uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica definida?\u00a0<\/p>\n<p>Um debate socialmente engajado exige compromisso \u00e9tico, empatia pela diferen\u00e7a e a busca pelo alargamento democr\u00e1tico da igualdade: o bem comum n\u00e3o \u00e9 mais definido por uma elite que se julga iluminada e intelectual, mas pela cidadania. O pluralismo desencarnado, ao contr\u00e1rio, promove a \u201copini\u00e3o\u201d como direito absoluto e irredut\u00edvel, sem o dever correspondente de engajamento pr\u00e1tico e de considera\u00e7\u00e3o pelas consequ\u00eancias coletivas. Mais do que isso, o pluralismo desencarnado entende a peti\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a como amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria identidade, percebe a luta do outro como luta contra si e instala, portanto, uma nova forma de disputar: simular o embate em defesa do plural contra o pluralismo para preservar a perman\u00eancia da hierarquia social.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui, contudo, que esse liberalismo esvaziado tenta instalar uma comunidade de bem comum aparentemente neutra \u2014 como defende o manifesto dos e das colegas reunidos no <em>Centro MariAnt\u00f4nia<\/em>. Esse tipo de apelo ao \u201cbem comum\u201d ou \u00e0 \u201ccomunidade neutra\u201d normalmente envolve exclus\u00f5es, diversas homogeneiza\u00e7\u00f5es e novas formas de opress\u00e3o, especialmente quando o bem comum \u00e9 definido a partir de uma identidade dominante que se apresenta como universal, leg\u00edtima e representativa (BROWN, 2019). \u00c9 preciso cuidado com esse tipo de liberalismo. Pode ser, ele sim, bastante autorit\u00e1rio, porque insens\u00edvel \u00e0s desigualdades. Essa tens\u00e3o nos obriga a precisar: qual pluralismo encarnado estamos propondo? Um pluralismo que sustente a igualdade democr\u00e1tica e, ao defender o bem comum e a liberdade, o fa\u00e7a a partir da hist\u00f3ria de seu tempo, encarnada na igualdade e na democracia constitucional das lutas sociais.<\/p>\n<h3><strong>Posi\u00e7\u00e3o: Por um Pluralismo Encarnado<\/strong><\/h3>\n<p>A s\u00edntese entre o diagn\u00f3stico do pluralismo desencarnado como produtor de ressentimento e a cr\u00edtica \u00e0 peti\u00e7\u00e3o neoliberal permite formular uma proposi\u00e7\u00e3o mais robusta: o pluralismo de ideias s\u00f3 \u00e9 construtivo quando encarnado em tr\u00eas dimens\u00f5es simultaneamente (BROWN, 2015): a hist\u00f3ria, a sociedade e a \u00e9tica.<\/p>\n<p>Primeiro, <em>encarnado na hist\u00f3ria<\/em>: as ideias precisam ser avaliadas \u00e0 luz de sua trajet\u00f3ria, de seus antecedentes e de suas consequ\u00eancias no tempo. Sem mem\u00f3ria e aprendizagem hist\u00f3ricas, o debate se torna um eterno presente de opini\u00f5es pseudo-equivalentes, incapaz de distinguir o que foi tentado, o que falhou e o que ainda n\u00e3o foi realizado.<\/p>\n<p>Segundo, <em>encarnado na sociedade<\/em>: as ideias precisam ser testadas pelo crivo da realidade coletiva, mediadas por institui\u00e7\u00f5es constitucionais e democr\u00e1ticas que transformem o conflito em delibera\u00e7\u00e3o e a diferen\u00e7a em proposta. O <em>demos<\/em> n\u00e3o \u00e9 dado \u2014 ele \u00e9 constru\u00eddo laboriosamente por meio de pr\u00e1ticas pol\u00edticas que reconhecem tanto a igualdade quanto a diferen\u00e7a como momentos decisivos dos par\u00e2metros do pluralismo democr\u00e1tico e da liberdade de c\u00e1tedra.<\/p>\n<p>Terceiro, <em>encarnado na \u00e9tica respons\u00e1vel<\/em>: a liberdade de opini\u00e3o, para n\u00e3o se tornar mon\u00f3logo ressentido, exige o dever correspondente de engajamento, de se deixar transformar pelo argumento, de reconhecer o outro como interlocutor leg\u00edtimo, de aceitar que a rejei\u00e7\u00e3o de uma ideia n\u00e3o \u00e9 uma afronta pessoal, mas parte da vida democr\u00e1tica, e de compreender que as desigualdades n\u00e3o podem ser a garantia da validade de uma suposta opini\u00e3o livre. A hist\u00f3ria, a sociedade e a \u00e9tica respons\u00e1vel devem ser nossos \u00e1rbitros para uma universidade livre, plural e de direitos equivalentes. Admitir que as universidades s\u00e3o hoje as pontes necess\u00e1rias entre distintos e leg\u00edtimos centros e contextos de pensamento e saberes nos parece fundamental para alargar os sentidos do reconhecimento da diferen\u00e7a e a radicalidade dos sentidos da igualdade.<\/p>\n<p>Esse trip\u00e9 da encarna\u00e7\u00e3o, hist\u00f3rica, social e \u00e9tica \u00e9 o que distingue o pluralismo democr\u00e1tico do mercado de ressentimentos em que a pol\u00edtica contempor\u00e2nea frequentemente tem sido convertida e depurada. Sem <em>demos<\/em>, sem hist\u00f3ria, sem responsabilidade \u00e9tica, o pluralismo reivindicado pelo manifesto dos e das colegas reunidas no <em>Centro<\/em> <em>MariAnt\u00f4nia<\/em> n\u00e3o liberta: apenas multiplica as feridas e legitima ainda mais as hierarquias sociais da desigualdade entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Somos, portanto, aqui, pelo pluralismo radicalmente baseado na igualdade democr\u00e1tica, aquele que reconhece que a hist\u00f3ria, a sociedade e a \u00e9tica respons\u00e1vel alteram as condi\u00e7\u00f5es discursivas institucionais, e que estas altera\u00e7\u00f5es exigem cuidado democr\u00e1tico e eleg\u00e2ncia cr\u00edtica para que a liberdade possa ser radicalizada nos par\u00e2metros da igualdade democr\u00e1tica. Se a liberdade de express\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o direito de dizer qualquer coisa sobre qualquer coisa, inclusive de insultar ou agredir verbalmente, a liberdade acad\u00eamica exige um \u00f4nus argumentativo muito maior.<\/p>\n<p>Reconhecer que novas vozes no mundo acad\u00eamico e outras formas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e saberes s\u00e3o leg\u00edtimas implicar\u00e1, sem d\u00favida, rever qualquer ideia abstrata, supostamente neutra e cinicamente iluminada de liberdade.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BROWN, Wendy. States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity. Princeton: Princeton University Press, 1995.<\/p>\n<p>BROWN, Wendy. Undoing the Demos: Neoliberalism\u2019s Stealth Revolution. New York: Zone Books, 2015.<\/p>\n<p>BROWN, Wendy. In the Ruins of Neoliberalism: The Rise of Antidemocratic Politics in the West. New York: Columbia University Press, 2019.<\/p>\n<p>COOPER, Melinda. Family Values: Between Neoliberalism and the New Social Conservatism. New York: Zone Books, 2017.<\/p>\n<p>LACLAU, Ernesto. On Populist Reason. London: Verso, 2005.<\/p>\n<p>NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral: uma pol\u00eamica. Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2009. [1887]<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Universidades: cr\u00edtica ao pluralismo desencarnado appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hiperdemocracia-o-pensamento-de-jacques-attali\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4931822981231610709_y-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Hiperdemocracia: O pensamento de Jacques Attali<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pl-sobre-minerais-criticos-deve-ser-votado-no-plenario-da-camara-dos-deputados\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">PL sobre minerais cr\u00edticos deve ser votado no plen...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/portabilidade-de-contrato-antigo-para-consignado-clt-comeca-a-valer-veja-como-funciona\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Portabilidade de contrato antigo para consignado C...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/inverno-comeca-nesta-sexta-feira-20-confira-a-previsao-para-cada-regiao-do-pais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Inverno come\u00e7a nesta sexta-feira (20); confira a p...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores respondem ao manifesto que exige o fim da \u201ccultura do cancelamento\u201d na Academia. Refor\u00e7am: defesa do dissenso n\u00e3o significa cole\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es isoladas que refor\u00e7am ressentimento e o presentismo desgarrado da mem\u00f3ria coletiva, t\u00e3o t\u00edpicos no neoliberalismo<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/universidades-critica-ao-pluralismo-desencarnado\/\">Universidades: cr\u00edtica ao pluralismo desencarnado<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87331,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[20005,58041,6007,11287,58042,58043,53711,2956,58044,58045,25855],"tags":[],"class_list":["post-87330","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-centro-mariantonia","category-contraposicao-ao-manifesto","category-crise-brasileira","category-etica","category-identidades-feridas","category-igualdade-democratica","category-luta-por-direitos","category-neoliberalismo","category-pluralismo","category-resistencia-das-instituicoes","category-ressentimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87330"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87330\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}