{"id":87481,"date":"2026-05-15T17:47:41","date_gmt":"2026-05-15T20:47:41","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rio-maravilha-e-miseria-dos-cartoes-postais\/"},"modified":"2026-05-15T17:47:41","modified_gmt":"2026-05-15T20:47:41","slug":"rio-maravilha-e-miseria-dos-cartoes-postais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rio-maravilha-e-miseria-dos-cartoes-postais\/","title":{"rendered":"Rio, maravilha e mis\u00e9ria dos cart\u00f5es postais"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"724\" height=\"383\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Sem-titulo4-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Sem-titulo4-1.jpg 724w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/15175548\/Sem-titulo4-1-300x159.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 724px) 100vw, 724px\"><figcaption>Praias de Ipanema e Leblon.  Obra que integra o acervo do Instituto Moreira Salles<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este ensaio<sup>i<\/sup> analisa a ordem sociopol\u00edtica vigente na cidade do Rio de Janeiro \u00e0 luz do conceito de colonialidade do poder, proposto pelo soci\u00f3logo peruano An\u00edbal Quijano para explicar o fato de que, mesmo s\u00e9culos ap\u00f3s sua independ\u00eancia, as col\u00f4nias europeias continuem a reproduzir indefinidamente os padr\u00f5es de comportamento dos colonizadores.<\/p>\n<p>Procuro demonstrar, com este exemplo, que os tra\u00e7os de racismo, patriarcalismo, eurocentrismo e hierarquiza\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e de g\u00eanero, atrav\u00e9s dos quais o autor caracteriza as sociedades colonizadas, podem adquirir manifesta\u00e7\u00f5es locais espec\u00edficas conforme a geografia e a hist\u00f3ria do territ\u00f3rio invadido.<\/p>\n<p>O argumento \u00e9 de que a facilidade de navega\u00e7\u00e3o na Ba\u00eda de Guanabara, a beleza e a riqueza de recursos do entorno, a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra escravizada e a inefici\u00eancia e viol\u00eancia da governan\u00e7a portuguesa criaram um paradoxo vivido pelo Rio at\u00e9 hoje: ainda que declarado patrim\u00f4nio da humanidade e decantado em prosa e em verso, n\u00e3o conseguiu se manter na lista dos 100 destinos<sup>ii<\/sup> mais visitados do mundo. \u00c9 que a perda da capitalidade, em 1960, aprofundou a heran\u00e7a colonial, impedindo inova\u00e7\u00f5es potenciais.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-22.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-22.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em resumo, n\u00e3o h\u00e1 hoje um lastro cosmopolita que permita ao Rio exercer plenamente a sua voca\u00e7\u00e3o tur\u00edstica. Faltam-lhe seguran\u00e7a, m\u00e3o de obra qualificada, estrutura de servi\u00e7os adequada e, sobretudo, lideran\u00e7as capazes de conceber e implementar pol\u00edticas p\u00fablicas que resgatem a convivialidade da antiga capital.<\/p>\n<p>Em 1\u00b0 de mar\u00e7o \u00faltimo, a cidade festejou 461 anos. S\u00e3o, portanto, quase cinco s\u00e9culos de replica\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o de espolia\u00e7\u00e3o de terras e gentes introduzido pelos portugueses.<\/p>\n<p>A pesada heran\u00e7a do Cais do Valongo \u2014 o maior porto de tr\u00e1fico negreiro do mundo \u2014 ainda se faz sentir na distribui\u00e7\u00e3o racializada das moradias e postos de trabalho da cidade: a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente concentra-se nos morros desmatados ou nas cidades sat\u00e9lites da Baixada Fluminense. Vive de prestar servi\u00e7os subalternos aos residentes abastados dos bairros nobres, especialmente os da Zona Sul.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da m\u00e3o-de-obra barata, outros fatores hist\u00f3ricos favoreceram o crescimento da constru\u00e7\u00e3o civil e dos neg\u00f3cios imobili\u00e1rios na cidade.<\/p>\n<p>O primeiro, logo percebido pelos portugueses, \u00e9 a conveni\u00eancia da geografia local para abrigar um aparato de defesa contra invas\u00f5es cors\u00e1rias ou estrangeiras. Haja vista os fortes constru\u00eddos no entorno entre os s\u00e9culos XVI e XVIII<sup>iii<\/sup>, que somam seis, se inclu\u00eddos o do Leme e o de Copacabana. O segundo \u00e9 a baixa espessura e a relativa infertilidade do solo, que logo se exauriu com o plantio do caf\u00e9. O terceiro \u00e9 a extens\u00e3o e a habitabilidade das plan\u00edcies entre os areais e as montanhas. O quarto \u00e9 a fragilidade das leis da col\u00f4nia, que facilitaram a invas\u00e3o de terras e a sua regulariza\u00e7\u00e3o por grilagem, dando lugar a latif\u00fandios lote\u00e1veis conforme o crescimento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria local prospera, alimentando-se de modismos que duram apenas o suficiente para gerar recursos a serem investidos em novos projetos expansionistas, geralmente seguidos de abandono paulatino e crescente, o que deixa, n\u00e3o raro, um rastro de terra arrasada nas \u00e1reas afetadas.<\/p>\n<p>Praticamente toda a Zona Sul passou por esse processo, que come\u00e7ou na orla do Centro e se transferiu paulatinamente \u00e0s praias oce\u00e2nicas.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/HUCITEC-basaglia2-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/HUCITEC-basaglia2-3.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31182112\/HUCITEC-basaglia2-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Tendo atingido primeiro o Leme e Copacabana, ele logo chegou a Ipanema, que \u00e9 o foco desta an\u00e1lise por ser o territ\u00f3rio que melhor conhe\u00e7o: \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 meu ber\u00e7o, mas tamb\u00e9m meu local de resid\u00eancia. Antes de deixar o Rio em meados da d\u00e9cada de 1970, vivi intensamente a Ipanema dos anos 1950-60.<\/p>\n<h3><strong>O maravilhamento que inspirou poemas e can\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>A criadora da express\u00e3o Cidade Maravilhosa foi a escritora francesa Jane Catulle Mend\u00e8s, que visitou o Rio na Belle \u00c9poque, apaixonando-se por sua beleza e lhe dedicando um livro de poemas<sup>iv<\/sup>, o primeiro dos quais \u00e9 transcrito abaixo (e traduzido em nota):<\/p>\n<p>Le fabuleux jardin \u00e9taiet si romanesque<br \/>L\u2019 \u00e2me des palmiers, ses frissons, ses bambous<br \/>Le faisaient si divin, si terrestre et si doux<br \/>Que j\u2019\u00e9tais \u00e9tourdie et que je pleurais presque<sup>v<\/sup><\/p>\n<p>A alcunha caiu no gosto ufanista e n\u00e3o tardou a inspirar o hino da cidade. \u00c9 uma unanimidade entre nativos e visitantes. De fato, a metr\u00f3pole fluminense deslumbra por ser \u201ca \u00fanica que n\u00e3o conseguiu enxotar a natureza\u201d, como disse Paul Claudel ao visit\u00e1-la em miss\u00e3o diplom\u00e1tica<sup>vi<\/sup> em 1917. Al\u00e9m do hino, a m\u00fasica popular, das batucadas ao samba e \u00e0 bossa nova, n\u00e3o poupa louvores \u00e0 sua beleza.<\/p>\n<h3><strong>Fulgores imobili\u00e1rios ef\u00eameros: o caso de Ipanema<\/strong><\/h3>\n<p>Ipanema festejou 132 anos em 26 de abril de 2026. Seu marco de funda\u00e7\u00e3o \u00e9 a aquisi\u00e7\u00e3o de um extenso terreno \u00e0 beira-mar por um fazendeiro paulista que se estabelecera como comerciante no centro do Rio de Janeiro em meados do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>A praia at\u00e9 hoje deslumbra, pelo bege dourado das areias, o verde da crista das ilhas e o azul cambiante do mar revolto, cuja espuma branca invade o cal\u00e7ad\u00e3o em dias de ressaca. Ao redor, angulosas e imponentes paredes de granito ostentam florestas e matagais a ornar intrigantes seres m\u00edticos.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira, pois, que esse vasto areal outrora deserto tenha sido muito cedo cobi\u00e7ado pelos colonizadores. N\u00e3o fosse a ocupa\u00e7\u00e3o dos morros por trabalhadores descendentes de escravizados, teria sido monopolizado pelos latifundi\u00e1rios, que, de in\u00edcio, o disputaram ferozmente com os nativos e, depois, com os pescadores e pequenos comerciantes locais.<\/p>\n<p>O fundador paulista, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Moreira \u2014 o Bar\u00e3o de Ipanema \u2014, era um h\u00e1bil especulador imobili\u00e1rio. O t\u00edtulo, que lhe fora outorgado por D. Pedro II, remete \u00e0 F\u00e1brica de Ferro de Ipanema, de sua propriedade, na regi\u00e3o de Sorocaba. O nome significa \u2018charco podre\u2019 em tupi, e se refere \u00e0 \u00e1gua f\u00e9tida de um alagadi\u00e7o local.<\/p>\n<p>Lembremos que a praia, atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, permaneceu praticamente desconhecida dos pr\u00f3prios cariocas at\u00e9 que a vizinha Copacabana se tornasse plenamente acess\u00edvel, atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de dois t\u00faneis: o Velho, datado de 1892, e o Novo, datado de 1906. Um terceiro acesso, o Corte do Cantagalo, embora tenha sido aberto em 1916, foi conclu\u00eddo apenas em 1928. A raz\u00e3o \u00e9 que o terreno era demasiadamente inst\u00e1vel: passou por v\u00e1rias conten\u00e7\u00f5es at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960, quando as obras de fixa\u00e7\u00e3o foram consideradas satisfat\u00f3rias. Como ocorre em toda a Serra do Mar, os solos ali s\u00e3o rasos e t\u00eam alto \u00edndice de eros\u00e3o \u2014 agravada pela pluviosidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 os acessos pela via hoje denominada \u201cHumait\u00e1\u201d s\u00f3 se iniciaram por volta de 1870, com o advento dos bondes puxados a burro. Ali terminavam as ruas S\u00e3o Clemente e Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria, a primeira abrigando os palacetes da nobreza, e a segunda franqueando servi\u00e7os \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o sorocabano \u2014 promovido depois a conde \u2014 deu o tom \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que at\u00e9 hoje perdura em Ipanema e adjac\u00eancias: glebas inicialmente restritas \u00e0 elite foram loteadas \u00e0 m\u00e9dia burguesia enquanto o proletariado se achegava, matizando e diversificando a paisagem. Com o tempo e a expans\u00e3o, os casar\u00f5es foram derrubados em prol de espig\u00f5es cada vez mais altos e rent\u00e1veis, destinados n\u00e3o s\u00f3 aos ricos, pelas belas vistas, mas tamb\u00e9m aos m\u00e9dios, pelo prest\u00edgio e a oferta de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, a ocupa\u00e7\u00e3o desregrada cumulou a regi\u00e3o problemas sanit\u00e1rios, poluindo os c\u00f3rregos que desaguam na praia e na lagoa Sacopenap\u00e3<sup>vii<\/sup>, hoje Rodrigo de Freitas. A solu\u00e7\u00e3o, vislumbrada por sanitaristas desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, s\u00f3 se concretizou em 1975, quando da inaugura\u00e7\u00e3o do emiss\u00e1rio submarino de Ipanema. Mas o risco de contamina\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o foi superado, pois as correntes mar\u00edtimas podem trazer de volta o esgoto tratado, mas n\u00e3o inteiramente est\u00e9ril, lan\u00e7ado ao mar a cerca de 4,5 km.<\/p>\n<p>O deslumbramento suscitado pelas praias da Cidade Maravilhosa alimentou desde cedo a cobi\u00e7a dos forasteiros, bem como dos nativos aculturados. Assim, a hist\u00f3ria da urbaniza\u00e7\u00e3o praieira envolve toda a polissemia do termo aliena\u00e7\u00e3o<sup>viii<\/sup>: terras s\u00e3o constantemente alienadas de seus habitantes, dos povos origin\u00e1rios ao operariado migrante; da mesma forma, a fauna e a flora s\u00e3o constantemente arrancadas de seus habitats pela sanha irrefre\u00e1vel dos aterros e demoli\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, mentes s\u00e3o constantemente sequestradas pelo mito da grandeza da antiga capital \u2014 mito que, ali\u00e1s, lhe rendeu, sintomaticamente, a alcunha de \u201cParis Tropical\u201d.<\/p>\n<p>Mas as belas vistas marinhas do Rio atra\u00edram tamb\u00e9m cabe\u00e7as cr\u00edticas e desejosas de se inspirar na sua policromia e refletir sobre seus paradoxos, a fim de contribuir para a constru\u00e7\u00e3o das artes e da cultura brasileiras. Nas d\u00e9cadas de 1950\/60, \u00e0 medida que os passeios \u00e0 beira-mar ca\u00edam no gosto dos intelectuais, seu contingente ipanemense se multiplicava. Ali circulavam figuras proeminentes como Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Jaguar, Lucio Cardoso, Rubem Braga, Mill\u00f4r Fernandes, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.<\/p>\n<p>Foi essa pl\u00eaiade de mentes afiadas que transformou o bairro num centro de resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar, cognominado Rep\u00fablica de Ipanema.<\/p>\n<p>Hoje, infelizmente, os moradores famosos nada mais t\u00eam a ver com esses intelectuais: s\u00e3o modelos, artistas pop, autores de textos televisivos e empres\u00e1rias\/os da moda. As grifes de luxo de roupas e joias ocupam um espa\u00e7o significativo na principal art\u00e9ria, a Rua Visconde de Piraj\u00e1, que, h\u00e1 sessenta anos, abrigava apenas pequenos com\u00e9rcios, tais como bares, dep\u00f3sitos, mercados, farm\u00e1cias e armarinhos.<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 um esfor\u00e7o pessoal, apoiado na leitura de cronistas v\u00e1rios da cena carioca, de compreender Ipanema como um sintoma privilegiado da viol\u00eancia colonial implantada na Cidade Maravilhosa antes mesmo da sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 luz do hist\u00f3rico tra\u00e7ado por Carlos Lessa no seu memor\u00e1vel <strong>O Rio de Todos os Brasis<sup>ix<\/sup><\/strong> (2000), tento mostrar como Ipanema capturou, no s\u00e9culo XX, o cond\u00e3o do maravilhamento que toca quem quer que contemple a paisagem guanabarina desde o s\u00e9culo XVI. Insepar\u00e1vel dele \u00e9, todavia, o servilismo colonial que reina na popula\u00e7\u00e3o local de quaisquer extratos sociais.<\/p>\n<p>Apesar da sua incapacidade de imitar a ousadia dos rebeldes da sua famosa Rep\u00fablica, o bairro tem tentado se manter na vanguarda em algumas frentes. Mas seu engajamento recaiu, sobretudo, sobre causas identit\u00e1rias que n\u00e3o passam de fachada, pois a luta contra a desigualdade socioecon\u00f4mica e de g\u00eanero jamais decolou na cidade. \u00c9 que, desde o in\u00edcio, um grande contingente militar e miliciano nela se instalou, se espraiando por todos os seus bairros e sub\u00farbios, e espalhando viol\u00eancia econ\u00f4mica e simb\u00f3lica contra a classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<h3><strong>Era uma vez uma restinga<\/strong><\/h3>\n<p>Mapas quinhentistas e relatos de navegantes franceses indicam que Sacopenap\u00e3 tinha comunica\u00e7\u00e3o direta com o mar. O trecho correspondente a Ipanema era uma restinga que terminava onde hoje \u00e9 o Leblon. A praia do Leblon \u00e9, portanto, um aterro, assim como o terreno em torno do \u201cReal Horto\u201d \u2014 hoje Jardim Bot\u00e2nico \u2014, fundado por D. Jo\u00e3o VI em 1808. Ambos os espa\u00e7os foram criados com pedras, areia e argila das encostas pr\u00f3ximas, al\u00e9m do que sobrara da derrubada dos morros de S\u00e3o Bento e Castelo \u2014 depois de aterrada a Ba\u00eda de Guanabara para formar os bairros da Gl\u00f3ria e da Urca.<\/p>\n<p>O genoc\u00eddio ind\u00edgena era praticado sem reservas pelos colonizadores portugueses. Antes mesmo da funda\u00e7\u00e3o da cidade, os tupinamb\u00e1s foram totalmente dizimados no fogo cruzado entre portugueses e franceses. Os europeus lhes atribu\u00edam alta periculosidade \u2014 intimidados por alguns de seus rituais de guerra, que envolviam canibalismo.<\/p>\n<p>Com base em relatos de exploradores da \u00e9poca, o historiador e jornalista Rafael Freitas da Silva<sup>x<\/sup> fez uma cuidadosa reconstru\u00e7\u00e3o do ambiente da Ba\u00eda de Guanabara antes de 1565. Os tupinamb\u00e1s, senhores absolutos do territ\u00f3rio desde tempos imemoriais, malgrado a sua ast\u00facia e sofistica\u00e7\u00e3o guerreiras, foram derrotados pela p\u00f3lvora e a trucul\u00eancia dos europeus.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o surpreende que uma vasta comunidade de tamoios, subgrupo dos tupinamb\u00e1s que oferecera forte resist\u00eancia aos portugueses<sup>xi<\/sup>, tenha perecido numa guerra biol\u00f3gica empreendida a sangue frio pelo primeiro governador da capitania do Rio de Janeiro, Antonio Salema. Ele simplesmente mandou espalhar roupas usadas por doentes de var\u00edola ao longo das margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, pois sabia o qu\u00e3o letais eram para os nativos os micr\u00f3bios vindos de fora.<\/p>\n<p>Rodrigo de Freitas, imigrante portugu\u00eas que deu nome \u00e0 lagoa, nada fez pelas terras pertencentes \u00e0 herdeira que viera desposar, bisneta do terceiro propriet\u00e1rio da gleba. As margens, que os tamoios chamavam Piragu\u00e1, i.e., enseada dos peixes, j\u00e1 sofriam a\u00e7oreamento por falta de escoadouro; e estavam, portanto, se tornando improdutivas e insalubres. A chegada da fam\u00edlia real s\u00f3 agravou o problema, pois D. Jo\u00e3o desapropriou um longo trecho entre a lagoa e a G\u00e1vea para construir uma f\u00e1brica de p\u00f3lvora e o \u201cReal Horto Bot\u00e2nico\u201d.<\/p>\n<p>Somente as comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio da independ\u00eancia trouxeram uma proposta concreta de dragagem e abertura de canal \u2014 onde hoje se encontra o Jardim de Alah. A terra removida deu origem \u00e0 Ilha do Piraqu\u00ea, que hoje abriga o clube de mesmo nome.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a cidade, que fora assolada por doen\u00e7as tais como a mal\u00e1ria, a febre amarela, a peste bub\u00f4nica, a var\u00edola e a doen\u00e7a de Chagas, j\u00e1 estava sob os cuidados do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, fundado e dirigido pelo m\u00e9dico sanitarista Oswaldo Cruz. Ele criou uma brigada de agentes p\u00fablicos chamados mata-mosquitos que percorriam as resid\u00eancias da cidade para identificar e eliminar poss\u00edveis focos de doen\u00e7as transmitidas por insetos.<\/p>\n<p>Os cariocas aceitaram pacificamente essas medidas, que tiveram sucesso contra as referidas doen\u00e7as. J\u00e1 a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra a var\u00edola foi recebida com desconfian\u00e7a e revolta. Em 1904, o descontentamento da popula\u00e7\u00e3o explodiu num levante que o governo s\u00f3 conseguiu conter decretando estado de s\u00edtio.<\/p>\n<h3><strong>As \u00e1guas: das cristalinas \u00e0s \u201cf\u00e9tidas\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>\u00c9 ir\u00f4nico que o mau cheiro do charco sorocabano tenha, mais tarde, ecoado onde antes s\u00f3 havia as \u00e1guas cristalinas de Piragu\u00e1. \u00c9 que elas foram contaminadas at\u00e9 se tornarem in\u00f3spitas aos pr\u00f3prios peixes. Isso deveu-se ao esgoto ilegal, que propiciava a prolifera\u00e7\u00e3o de algas que sequestram oxig\u00eanio. Assim, at\u00e9 2019, a mortandade de peixes assolava a lagoa durante todo o ver\u00e3o. Era necess\u00e1rio retirar toneladas de peixes mortos para livrar o entorno das exala\u00e7\u00f5es mals\u00e3s.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o reiterada dos moradores levou, finalmente, a uma parceria entre as institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelas \u00e1guas e os esgotos. Recentemente, elas uniram for\u00e7as para produzir estudos que demonstraram que o a\u00e7oreamento causado pelos aterros havia destru\u00eddo os manguezais nativos, indispens\u00e1veis ao ecossistema local.<\/p>\n<p>Contudo, para que o replantio tivesse sucesso, foi necess\u00e1rio construir a chamada galeria de cintura, i.e., um cintur\u00e3o de concreto que bloqueia a descarga do esgoto, captando-a e enviando-a ao emiss\u00e1rio submarino. Pouco a pouco, finalmente, a col\u00f4nia de pesca voltou a funcionar e a fauna voltou a abrigar seus esp\u00e9cimes originais, tais como os caranguejos, as gar\u00e7as, os quero-queros e os martins-pescadores.<\/p>\n<p>Ainda assim, o escoadouro do canal do Jardim de Alah tornou-se ineficiente, gerando insalubridade. O parque, que um dia fora um centro de lazer, passou um bom tempo abandonado. Os jardins, onde antes havia caramanch\u00f5es, pedalinhos e esculturas ao ar livre, tornaram-se cada vez mais ermos, com \u00e1rvores condenadas, e um canal incapaz de regular a troca de \u00e1guas entre a lagoa e o mar.<\/p>\n<p>Depois de uma disputa judicial em que o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio de Janeiro embargou uma obra que previa a constru\u00e7\u00e3o de um shopping no terreno, foi finalmente aprovado um projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o do parque, com significativas melhorias nos jardins e a constru\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea comercial de piso \u00fanico, com lojas e quiosques, na margem que beira o Leblon. Est\u00e3o tamb\u00e9m previstas a despolui\u00e7\u00e3o do canal e a constru\u00e7\u00e3o de pontes para pedestres e ciclistas.<\/p>\n<h3><strong>Os morros: das florestas tropicais \u00e0s comunidades<\/strong><\/h3>\n<p>Engana-se quem pensa que as comunidades que vivem nos morros cariocas destru\u00edram a floresta. Os desmatadores foram os latifundi\u00e1rios, que ali plantaram caf\u00e9 entre os s\u00e9culos XVIII e XIX. A mata de morros como o da Tijuca e o do Corcovado foi derrubada e queimada para produzir carv\u00e3o e plantar caf\u00e9. D. Jo\u00e3o VI, protegido de Napole\u00e3o pelo oceano Atl\u00e2ntico, convidou nobres portugueses e franceses para se estabelecerem no clima ameno dos morros cariocas e cultivarem caf\u00e9 para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse cultivo recorria a queimadas e enfileirava as mudas praticamente na vertical, destruindo a serrapilheira e, portanto, obstruindo os escoadouros das minas. Na primeira metade do s\u00e9culo XIX, isso provocou sucessivas secas. Alarmadas com a frequ\u00eancia dos inc\u00eandios, as autoridades locais basearam-se em exemplos europeus para incentivar o reflorestamento nas d\u00e9cadas seguintes. A atual floresta da Tijuca \u00e9 produto dessa pol\u00edtica. Foi reconstru\u00edda por onze escravizados que plantavam mudas de \u00e1rvores nativas percorrendo a regi\u00e3o no lombo de jumentos.<\/p>\n<p>Entretanto, a ocupa\u00e7\u00e3o cada vez maior de Copacabana e Ipanema por uma classe m\u00e9dia necessitada de servi\u00e7os dom\u00e9sticos, entre outros, n\u00e3o permitiu o reflorestamento dos morros do Pav\u00e3o, Pav\u00e3ozinho e Cantagalo. Ali se instalou uma comunidade, composta por descendentes de escravizados e migrantes de v\u00e1rias regi\u00f5es, que constituiu um vasto operariado, em parte empregado pelo com\u00e9rcio local e em parte absorvido, ainda que precariamente, pelas demandas de servi\u00e7os nas resid\u00eancias, ruas, praias e parques.<\/p>\n<p>Segundo a Wikipedia, essa popula\u00e7\u00e3o conta, atualmente, com cerca de 5.000 habitantes. Malgrado desfrutem vistas deslumbrantes do mar e dos morros, os moradores enfrentam todos os problemas sociais t\u00edpicos das favelas, a saber: a pobreza, a viol\u00eancia, o tr\u00e1fico de drogas e a presen\u00e7a do crime organizado e suas infiltra\u00e7\u00f5es na for\u00e7a policial.<\/p>\n<p>H\u00e1 projetos governamentais bem como de ONGs que tentam amenizar essa situa\u00e7\u00e3o pelo est\u00edmulo ao potencial criativo dos moradores. Al\u00e9m dos governos federal e estadual, colaboram a UNESCO, o Instituto Moreira Salles e v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0s artes e \u00e0 literatura, tais como o Cirque du Soleil, o Grupo Cultural AfroReggae e o Projeto Mulheres em A\u00e7\u00f5es Liter\u00e1rias.<\/p>\n<p>O Col\u00e9gio Municipal Presidente\u00a0Jo\u00e3o Goulart oferece \u00e0 comunidade, al\u00e9m do curr\u00edculo de primeiro e segundo graus, v\u00e1rias atividades abertas ao p\u00fablico, tais como oficinas de cidadania e cursos de forma\u00e7\u00e3o em inform\u00e1tica, circo, costura, capoeira, boxe e dan\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, uma UPS, um funicular e uma UPP, al\u00e9m do Complexo Rubem Braga \u2014 duas torres, um mirante e um elevador p\u00fablico ligando o alto das favelas \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 General Os\u00f3rio.<\/p>\n<p>O Museu da Favela \u2014 MUF \u2014 foi criado em 2008 por\u00a0lideran\u00e7as comunit\u00e1rias e culturais, residentes, na maioria, dos morros do Cantagalo, Pav\u00e3o e Pav\u00e3ozinho. Propiciado pelo Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC), foi lan\u00e7ado em fevereiro de 2009.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que se trata de um museu de territ\u00f3rio, i.e., a c\u00e9u aberto, cujo acervo \u00e9 constitu\u00eddo pelos pr\u00f3prios moradores, atrav\u00e9s das suas resid\u00eancias, mem\u00f3ria e estilo de vida. Incorpora tamb\u00e9m, naturalmente, o patrim\u00f4nio da Mata Atl\u00e2ntica e praias circundantes, oferecendo vistas panor\u00e2micas de Ipanema, Lagoa e Copacabana.<\/p>\n<p>Assim, precisa de uma base fixa para realizar exposi\u00e7\u00f5es e demais eventos. Depois de funcionar itinerantemente, instalou-se, em 2019, no quarto andar do edif\u00edcio do Col\u00e9gio Presidente Jo\u00e3o Goulart. Esse espa\u00e7o tem abrigado exposi\u00e7\u00f5es montadas n\u00e3o s\u00f3 pelo MUF mas tamb\u00e9m por museus e ONGs parceiras, nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>Seja como for, essas tentativas de combate \u00e0 heran\u00e7a colonial s\u00e3o apenas paliativas, sen\u00e3o cosm\u00e9ticas. Abaixo abordo brevemente, \u00e0 guisa de conclus\u00e3o, dois dos fatores que mais contribuem para alimentar esse status quo.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o entre o crime organizado e o aparato policial do Estado. O segundo \u00e9 o papel de empresas estrangeiras nos neg\u00f3cios imobili\u00e1rios locais, fazendo da cidade um centro de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria transnacional.<\/p>\n<h3><strong>A presen\u00e7a inexpugn\u00e1vel do crime<\/strong><\/h3>\n<p>Mesmo antes da sua funda\u00e7\u00e3o em 1565, os portugueses compreenderam que o territ\u00f3rio do Rio de Janeiro demandava defesa, devido \u00e0 navegabilidade e \u00e0 voca\u00e7\u00e3o portu\u00e1ria da Ba\u00eda de Guanabara \u2014 que a expunha \u00e0 cobi\u00e7a de outros invasores europeus.<\/p>\n<p>Assim, com o aval da coroa portuguesa, recrutaram-se brigadas de defesa entre os pr\u00f3prios habitantes, que passaram a agir autonomamente com extrema viol\u00eancia. Esses grupos de milicianos foram depois assimilados \u00e0s Tropas Auxiliares, escal\u00e3o mais baixo da for\u00e7a militar portuguesa, e passaram a colaborar com as Tropas de Primeira Linha e as Companhias de Ordenan\u00e7as na vigil\u00e2ncia do porto, principal escoadouro de riquezas \u2014 o que se intensificou a partir de 1693, com o in\u00edcio do ciclo do ouro em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie de promiscuidade entre o Estado e as mil\u00edcias locais est\u00e1, portanto, enraizada na cidade e constitui a base da atual rela\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edcia e o crime organizado, que culminou no chamado massacre da Vila da Penha, que dizimou cerca de 130 jovens moradores dos complexos da Penha e do Alem\u00e3o em 28 de outubro de 2025. \u00c9 sintom\u00e1tica a declara\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o governador Claudio Castro de que essa havia sido a mais bem sucedida a\u00e7\u00e3o da sua gest\u00e3o contra o crime organizado. \u00c9 uma mera c\u00f3pia do discurso da viol\u00eancia de estado racializada usado antes nas chacinas de Acari, Candel\u00e1ria, Vig\u00e1rio Geral e Jacarezinho.<\/p>\n<p>Vale a pena transcrever um trecho da nota emitida uma semana depois pelo Laborat\u00f3rio de Estudos de Pol\u00edtica e Criminologia do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp:<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m repudiamos o uso pol\u00edtico do massacre, claramente feito pelo governador Cl\u00e1udio Castro, mas encampado tamb\u00e9m pelo Governo Federal, que em suas manifesta\u00e7\u00f5es sobre o ocorrido tem se limitado a defender as suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es contra o crime organizado como mais \u2018inteligentes\u2019, reproduzindo o discurso de guerra que sustenta esse tipo de opera\u00e7\u00e3o, e escusando-se de denunciar a viol\u00eancia policial, defender os direitos humanos e demandar e agir para uma apura\u00e7\u00e3o rigorosa dos fatos e das responsabilidades pelas mais de 120 mortos na Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o.\u201d<sup>xii<\/sup>\u00a0<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, a jornalista investigativa Cec\u00edlia Olliveira<sup>xiii<\/sup> publicou um livro muito esclarecedor sobre a captura da Pol\u00edcia Militar pelo crime organizado no Estado do Rio. Trata-se de uma reconstitui\u00e7\u00e3o, com base em documentos e depoimentos, do caso do Cabo Ben\u00e9, policial militar que se tornou l\u00edder miliciano at\u00e9 ser executado numa opera\u00e7\u00e3o policial. A autora mostra, atrav\u00e9s desse exemplo e suas ramifica\u00e7\u00f5es, como o Comando Vermelho cresceu dentro do Estado e se espraiou para todo o Brasil, tendo tamb\u00e9m atravessado fronteiras interamericanas e mesmo oce\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Hoje a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a principal respons\u00e1vel pela log\u00edstica da exporta\u00e7\u00e3o de coca\u00edna da Am\u00e9rica do Sul para a \u00c1frica e para a Europa. Tem tamb\u00e9m elos com a sua an\u00e1loga paulista, o Primeiro Comando da Capital, com a qual, desde 2025, tenta superar a rivalidade a fim de colaborar no tr\u00e1fico de drogas, lavagem de dinheiro e aquisi\u00e7\u00e3o de armamentos pesados.<\/p>\n<p>Recentemente, revelou-se uma nova vertente da presen\u00e7a do crime no aparelho do Estado do Rio: uma opera\u00e7\u00e3o conjunta da Pol\u00edcia Federal e da Receita Federal, deflagrada em\u00a0fins de abril pr\u00f3ximo passado, desvendou um esquema de corrup\u00e7\u00e3o voltado a facilitar o contrabando na alf\u00e2ndega do Porto do Rio de Janeiro. Ele movimentou n\u00e3o menos que\u00a0R$ 86 bilh\u00f5es\u00a0em mercadorias irregulares entre julho de 2021 e mar\u00e7o de 2026.<\/p>\n<p>Como indicaram os crimin\u00f3logos da Unicamp, n\u00e3o h\u00e1 como derrotar esse esquema sem uma interven\u00e7\u00e3o federal planejada e soberana, que, junto com os demais pa\u00edses atingidos, desmonte a malha criminosa sem cair no engodo de equipar\u00e1-la ao terrorismo \u2014 o que atende unicamente aos interesses intervencionistas estadunidenses.<\/p>\n<p>A maior dificuldade de alcan\u00e7ar esse objetivo reside no fato de o executivo e o legislativo estaduais estarem significativamente infiltrados de criminosos. A esse respeito, vale a pena citar um artigo recente do soci\u00f3logo Gerson Almeida<sup>xiv<\/sup>, que comenta o balan\u00e7o consolidado das atividades do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio de Janeiro em 2025: \u201cOs n\u00fameros foram expressivos:\u00a0<strong>767 den\u00fancias<\/strong>\u00a0ajuizadas contra o crime organizado;\u00a0<strong>120 agentes p\u00fablicos<\/strong>\u00a0denunciados por corrup\u00e7\u00e3o;\u00a0<strong>260 policiais militares<\/strong>\u00a0denunciados pela Justi\u00e7a Militar;\u00a0<strong>R$ 900 milh\u00f5es<\/strong>\u00a0em bens e ativos bloqueados.\u201d<\/p>\n<p>Almeida aborda, ainda, a participa\u00e7\u00e3o ativa nesse esquema de pol\u00edticos eleitos para o legislativo e o executivo, com foco especial na fam\u00edlia Bolsonaro.<\/p>\n<h3><strong>Os novos ciclos coloniais<\/strong><\/h3>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o tur\u00edstica do Rio atraiu empresas estrangeiras ligadas n\u00e3o s\u00f3 aos servi\u00e7os propriamente tur\u00edsticos, mas tamb\u00e9m \u2014 e principalmente \u2014 \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Existem v\u00e1rias imobili\u00e1rias especializadas em vendas e\/ou loca\u00e7\u00f5es a estrangeiros, sejam eles turistas ou investidores.<\/p>\n<p>A mais conhecida, estabelecida e disseminada \u00e9 a Airbnb, que costuma postar, em m\u00e9dia, em torno de 30 mil an\u00fancios de loca\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias. Enquanto outras empresas internacionais fomentam a venda a investidores, a Airbnb impulsiona a loca\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis situados principalmente na Zona Sul, especialmente em Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca.<\/p>\n<p>A esse respeito, os resultados de um estudo de Cerqueira<sup>xv<\/sup> \u201capontam para uma converg\u00eancia entre locais com maiores pre\u00e7os de im\u00f3veis residenciais, maior n\u00famero de an\u00fancios no Airbnb e maior presen\u00e7a de amenidades\u201d. Outro estudo, de autoria de Gushiken<sup>xvi<\/sup>, aponta que \u201cum maior n\u00famero de anunciantes ativos no Airbnb gera incremento no pre\u00e7o dos alugu\u00e9is residenciais, e este impacto \u00e9 maior em bairros com maior taxa de moradias pr\u00f3prias. Em um bairro com taxa mediana de moradias pr\u00f3prias, 1% de incremento de anunciantes ativos no Airbnb est\u00e1 associado a 0,08% de aumento no pre\u00e7o dos alugu\u00e9is residenciais.\u201d<\/p>\n<p>Isso afeta tamb\u00e9m as vendas, pois a renda dos alugu\u00e9is de temporada tende a cobrir as despesas do im\u00f3vel com larga folga, desestimulando a venda. At\u00e9 recentemente, por equ\u00edvoco ou m\u00e1-f\u00e9, isso podia provocar evas\u00e3o fiscal \u2014 e at\u00e9 de divisas, caso o propriet\u00e1rio fosse um estrangeiro desconhecedor das suas obriga\u00e7\u00f5es para com as leis brasileiras.<\/p>\n<p>Atualmente, as plataformas de loca\u00e7\u00e3o de curto prazo s\u00e3o obrigadas n\u00e3o s\u00f3 a explicitar as regras fiscais que regem os im\u00f3veis que anunciam, como tamb\u00e9m a fornecer \u00e0 Receita Federal relat\u00f3rios detalhados sobre todas as loca\u00e7\u00f5es efetuadas. Esses dados s\u00e3o cruzados e cotejados com os de anos anteriores, podendo gerar cobran\u00e7a de multas retroativas. Al\u00e9m disso, a C\u00e2mara Municipal est\u00e1, finalmente, discutindo um Projeto de Lei que visa regulamentar o aluguel por temporada. Esse \u00e9 alvo de intensa controv\u00e9rsia, j\u00e1 que interesses divergentes do mercado imobili\u00e1rio est\u00e3o representados na verean\u00e7a.<\/p>\n<p>Os im\u00f3veis ociosos capturados nessa trama prejudicam os pequenos neg\u00f3cios do ramo em pelo menos tr\u00eas aspectos.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 que desestabilizam a demografia dos bairros envolvidos a ponto de causar um grave problema de seguran\u00e7a. A prefeitura e o governo do Estado diminuem a vigil\u00e2ncia fora dos picos de ocupa\u00e7\u00e3o, tornando as ruas mais perigosas em baixa temporada. S\u00e3o frequentes os arrast\u00f5es nas praias e ruas adjacentes.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 que submetem as propriedades de uso intermitente a um mecanismo que, indireta e sutilmente, equivale ao redlining. Como os pr\u00e9dios esvaziados sofrem degrada\u00e7\u00e3o das fachadas e das instala\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas e hidr\u00e1ulicas, os apartamentos s\u00e3o aos poucos adquiridos por grandes empresas de constru\u00e7\u00e3o civil com liga\u00e7\u00f5es internacionais, a fim de viabilizar a moderniza\u00e7\u00e3o ou mesmo a demoli\u00e7\u00e3o. Os im\u00f3veis resultantes passam \u00e0s m\u00e3os de investidores que apostam no m\u00e9dio e no longo prazo. No curto prazo, as mesmas empresas investem na constru\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios de luxo ao longo da orla sul, povoando \u00e1reas de mangue sem respeito \u00e0s leis de prote\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>\u00c9 que, na d\u00e9cada de 1960, as construtoras cariocas dominaram a tecnologia de constru\u00e7\u00e3o na turfa, solo predominante na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes, onde os manguezais eram numerosos. Foi assim que esses bairros se encheram de arranha-c\u00e9us. Em seguida, a viola\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo florestal passou a ser \u201crevertida\u201d por meio de mudan\u00e7as nas leis e\/ou acordos judiciais para a legaliza\u00e7\u00e3o post-hoc das constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O terceiro mecanismo que desloca moradores em benef\u00edcio de especuladores \u00e9 a gentrifica\u00e7\u00e3o das moradias populares em favelas em vias de pacifica\u00e7\u00e3o, tais como o Vidigal. A constru\u00e7\u00e3o de pousadas de luxo no entorno permitiu que estrangeiros de poder aquisitivo menor que o dos h\u00f3spedes do Hotel Sheraton se encantassem com seu acesso f\u00e1cil, suas vistas panor\u00e2micas e seus pre\u00e7os \u2014 mais convidativos que os dos bairros nobres. O resultado \u00e9 que a alta dos alugu\u00e9is e dos servi\u00e7os tem for\u00e7ado a sa\u00edda dos moradores da comunidade, franqueando a aquisi\u00e7\u00e3o de \u00e1reas cada vez maiores a grupos imobili\u00e1rios internacionais.<\/p>\n<p>Em suma, a voca\u00e7\u00e3o tur\u00edstica do Rio \u00e9 prisioneira de um padr\u00e3o que replica os v\u00edcios quincenten\u00e1rios da gest\u00e3o colonial: deslocar moradores, arrasar terras, ocup\u00e1-las e legaliz\u00e1-las ex post facto. A maior parte dos recursos assim gerados n\u00e3o \u00e9 canalizada para os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que poderiam utiliz\u00e1-los em prol da coletividade. Fica, ao contr\u00e1rio, nas m\u00e3os de uma elite econ\u00f4mica privada, nacional e internacional, que investe indefinidamente em novas \u00e1reas, alastrando o crescimento predat\u00f3rio da cidade, ao arrepio da legisla\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Administra\u00e7\u00f5es sucessivas, com a coniv\u00eancia das esferas federais, t\u00eam investido seguidamente na promo\u00e7\u00e3o de megaeventos de m\u00fasica pop que geram arrecada\u00e7\u00e3o f\u00e1cil pela eleva\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do consumo, gra\u00e7as a visitantes que usam a infraestrutura tur\u00edstica existente.<\/p>\n<p>Por outro lado, quaisquer melhorias, ainda que ocasionais, restringem-se a \u00e1reas privilegiadas dos bairros nobres e\/ou a momentos nos quais a cidade sedia grandes eventos esportivos, tais como a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a propalada hospitalidade a turistas de grupos minorit\u00e1rios vem sendo denunciada como incentivo hip\u00f3crita e oportunista \u00e0 frequ\u00eancia de certos <em>points<\/em>. Mesmo no tradicional ponto de encontro da comunidade LGBTIA+, a saber, a Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, tem havido taxas alarmantes de agress\u00e3o a moradores ou visitantes com marcas identit\u00e1rias. Recentemente, a imprensa noticiou a declara\u00e7\u00e3o do dono do Bar Popeye, na esquina das ruas Visconde de Piraj\u00e1 e Farme de Amoedo, de que os gays n\u00e3o seriam atendidos no seu estabelecimento.<\/p>\n<p>Da mesma forma, \u00e9 falsa a ideia de que a alta taxa de moradores afrodescendentes da cidade co\u00edbe a agress\u00e3o racista contra visitantes de mesma origem. Visitantes pretos ou ind\u00edgenas de v\u00e1rias nacionalidades t\u00eam sido submetidos a revistas vexat\u00f3rias por parte de policiais militares, especialmente em Ipanema e Copacabana.<\/p>\n<p>Enfim, conforme suspeitou Carlos Lessa, a perda da capitalidade sabotou a versatilidade do \u201cRio de todos os Brasis\u201d, relegando a cidade a uma manipula\u00e7\u00e3o ainda maior pela elite econ\u00f4mica sob o pretexto de fomento ao turismo. Cabe a n\u00f3s, seus amantes, nativos ou n\u00e3o, lutar por uma distribui\u00e7\u00e3o mais justa da riqueza gerada pela sua indescrit\u00edvel beleza.<\/p>\n<p>Que o sangue, o suor e as l\u00e1grimas dos tupinamb\u00e1s e dos africanos aportados no Cais do Valongo n\u00e3o nos deixem esquecer que devemos aos cariocas das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es a supera\u00e7\u00e3o dos rastros hediondos da colonialidade do poder.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>i Texto dedicado \u00e0 mem\u00f3ria de meu pai, Floroaldo Albano (1922-2015), arquiteto, urbanista e sanitarista da Fiocruz.<\/p>\n<p>ii https:\/\/www.jb.com.br\/rio\/2019\/12\/1020743-rio-de-janeiro-cai-em-ranking-e-deixa-de-ser-uma-das- 100cidades-mais-visitadas-no-mundo.html<\/p>\n<p>iii S\u00e3o eles: S\u00e3o Jo\u00e3o, Santa Cruz da Barra, S\u00e3o Luiz, Pico, Urca e Copacabana.<\/p>\n<p>iv Mend\u00e8s, Jane Catulle. \u2013 <strong>La Ville Merveileuse \u2013 Rio de Janeiro \u2013 Po\u00e8mes<\/strong>. Paris: Biblioth\u00e8que Internationale D\u2019\u00c9dition, Sandot Cie.,S.d., (circa 1913), primeira edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>v O fabuloso jardim era t\u00e3o romanesco\/A alma das palmeiras, seus tremores, seus bambus\/O tornavam t\u00e3o divino, t\u00e3o terrestre e t\u00e3o doce\/Que eu chorava, quase.<\/p>\n<p>vi Como \u00e9 comum em pa\u00edses colonizadores, tratava-se de convencer as autoridades locais de colaborar numa guerra mundial \u2013 a primeira.<\/p>\n<p>vii Em tupi, barulho da revoada dos soc\u00f3s.<\/p>\n<p>viii Ou seja, significados que v\u00e3o da expropria\u00e7\u00e3o ao alheamento.<\/p>\n<p>ix Lessa, Carlos. <strong>Rio de todos os Brasis (uma reflex\u00e3o em busca de auto-estima)<\/strong>. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.<\/p>\n<p>x Freitas da Silva, Rafael. <strong>O Rio antes do Rio<\/strong>. Relic\u00e1rio Editora. 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o. 2015.<\/p>\n<p>xi Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios.<\/p>\n<p>xii https:\/\/www.ifch.unicamp.br\/noticias\/147243<\/p>\n<p>xiii Olliveira, Cec\u00edlia. <strong>Como nasce um miliciano<\/strong>. Rio de Janiro: Editora Bazar do Tempo, 2025.<\/p>\n<p>xiv https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-principe-do-submundo\/<\/p>\n<p>xv Cerqueira, Maria Fizson. <strong>Efeitos disruptivos das plataformas da economia compartilhada no mercado imobili\u00e1rio: a inser\u00e7\u00e3o do Airbnb na cidade do Rio de Janeiro<\/strong>. https:\/\/bdtd.ibict.br\/vufind\/Record\/UFF-2_72ca424fbfd2e4c13b838cef5ad90b77<\/p>\n<p>xvi Gushiken, Igor Yasuo. <strong>O impacto do Airbnb nos pre\u00e7os dos alugu\u00e9is residenciais na cidade do Rio de Janeiro<\/strong>. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. FGV, 2023. https:\/\/repositorio.fgv.br\/items\/aa4db0aa-14d0-421f-a2d5-829114f26e4d<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Rio, maravilha e mis\u00e9ria dos cart\u00f5es postais appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/banco-master-economia-ou-policia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/ChatGPT-Image-1-de-dez-de-2025-00_17_35-8-1-660x372-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Banco Master: Economia ou pol\u00edcia?<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/russia-e-china-condenam-ataque-ao-ira-franca-e-eua-apoiam-israel\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">R\u00fassia e China condenam ataque ao Ir\u00e3; Fran\u00e7a e EU...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-compartilha-video-de-assassinato-a-marteladas-por-haitiano-para-culpar-biden-por-falhas-na-imigracao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Trump compartilha v\u00eddeo de assassinato a martelada...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mata-atlantica-perdeu-22-da-area-nativa-por-eventos-climaticos-extremos-em-2024\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ELDORADO-DO-SUL-2-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Mata Atl\u00e2ntica perdeu 22% da \u00e1rea nativa por event...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em nome de um turismo \u201ccontempor\u00e2neo\u201d, cidade restaura rela\u00e7\u00f5es que marcaram seu passado colonial: expulsa, segrega e devasta. Em vez de caravelas, o conquistador vem nas plataformas do capital imobili\u00e1rio internacional<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/rio-maravilha-miseria-dos-cartoes-postais\/\">Rio, maravilha e mis\u00e9ria dos cart\u00f5es postais<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87482,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5511,58457,58458,18735,840,8829,54941,58459,30105,35764,48098,49,2387],"tags":[],"class_list":["post-87481","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-cidade-turistica","category-colonialidade-do-poder","category-criminalidade","category-desigualdade-social","category-eurocentrismo","category-heranca-colonial","category-ipanema","category-outras-cidades","category-patriarcalismo","category-plataformas-de-aluguel","category-rio-de-janeiro","category-urbanizacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87481","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87481"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87481\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}