{"id":87547,"date":"2026-05-17T00:05:31","date_gmt":"2026-05-17T03:05:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-paulo-freire-diria-sobre-escrever-com-ia\/"},"modified":"2026-05-17T00:05:31","modified_gmt":"2026-05-17T03:05:31","slug":"o-que-paulo-freire-diria-sobre-escrever-com-ia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-paulo-freire-diria-sobre-escrever-com-ia\/","title":{"rendered":"O que Paulo Freire diria sobre escrever com IA?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1939-Paulo-Freire-07-90-Fotos-Marcio-Novaes30.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/15180626\/1939-Paulo-Freire-07-90-Fotos-Marcio-Novaes30-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/15180626\/1939-Paulo-Freire-07-90-Fotos-Marcio-Novaes30-300x200.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/15180626\/1939-Paulo-Freire-07-90-Fotos-Marcio-Novaes30-768x512.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/15180626\/1939-Paulo-Freire-07-90-Fotos-Marcio-Novaes30-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/15180626\/1939-Paulo-Freire-07-90-Fotos-Marcio-Novaes30-272x182.jpg 272w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1939-Paulo-Freire-07-90-Fotos-Marcio-Novaes30.jpg 1908w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Imagem: M\u00e1rcio Novaes\/COPED \u2013 Memorial da Educa\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em tempos de IA generativa, quando a autoria \u00e9 posta em quest\u00e3o, o retorno ao jovem Paulo Freire em seus primeiros anos de magist\u00e9rio como professor de l\u00edngua portuguesa pode proporcionar uma perspectiva fecunda para o debate.<\/p>\n<p>Nas institui\u00e7\u00f5es de ensino, da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e0 universidade, mas tamb\u00e9m no jornalismo ou em qualquer outro espa\u00e7o em que a escrita est\u00e1 presente de modo destac\u00e1vel, a autoria passa por um mal-estar. Aplicativos de IA, capazes de criar textos, fazem hoje parte dos nossos cotidianos de trabalho. Basta um celular e um prompt na cabe\u00e7a e pronto, \u00e9 poss\u00edvel obter uma reda\u00e7\u00e3o qualquer. E agora, o que poderia definir legitimamente a autoria, especialmente nos casos em que ela importa para certificar como aut\u00eantico um texto que foi entregue como resultado de um trabalho pessoal? Trata-se de uma quest\u00e3o que j\u00e1 suscita muita controv\u00e9rsia e n\u00e3o pretendo aqui determinar o que \u00e9 definitivamente correto, n\u00e3o \u00e9 o motivo do artigo. Contudo, diante da densa n\u00e9voa de problemas que cobre essa discuss\u00e3o, o que gostaria \u00e9 apenas vislumbrar um caminho poss\u00edvel recorrendo a um conceito que fez parte do ensino de Paulo Freire, exatamente frente ao desafio da orienta\u00e7\u00e3o de escrever textos, o que ele chamou de \u201cmomento est\u00e9tico da linguagem\u201d.<\/p>\n<p>Entre os anos de 1937 e 1942, Paulo Freire estudou no Col\u00e9gio Oswaldo Cruz, um dos mais importantes de Recife. Nele, com dezesseis anos, ingressou no segundo ano do n\u00edvel secund\u00e1rio, que compreendia o ciclo fundamental e o pr\u00e9-jur\u00eddico.<sup><sup>1<\/sup><\/sup> Bolsista e estudioso, foi ali tamb\u00e9m que come\u00e7aram os seus anos no magist\u00e9rio, aproveitado como professor de l\u00edngua portuguesa. Ainda no ano de 1942, ingressa no curso de Direito da Universidade do Recife. Segue estudando de forma aplicada e desenvolvendo sua compet\u00eancia no ensino. Em <em>Cartas a Cristina<\/em><sup><sup>2<\/sup><\/sup>, livro publicado em 1994, Paulo Freire apresenta uma narrativa sobre a sua vida e conta de modo revelador aspectos da sua forma\u00e7\u00e3o e da sua pr\u00e1tica docente. Recorda v\u00e1rios professores e professoras que exerceram grande influ\u00eancia na sua educa\u00e7\u00e3o e sobre sua dedica\u00e7\u00e3o aos estudos gramaticais, \u00e0 filosofia da linguagem e \u00e0 lingu\u00edstica. De modo particularmente delicado, ele diz: \u201cMinha paix\u00e3o se moveu sempre na dire\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios da linguagem, na busca, se bem n\u00e3o angustiada, inquieta, do momento da sua boniteza\u201d.<sup><sup>3<\/sup><\/sup><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-23.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-23.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Uma das raz\u00f5es do uso da IA hoje para produzir textos \u00e9 a inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria escrita. Recentemente, em uma confer\u00eancia a que assisti sobre o impacto da IA na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, uma discente relatou que tinha limita\u00e7\u00f5es para escrever de acordo com o vocabul\u00e1rio acad\u00eamico. Ela se sentia cobrada, pensei. Compartilhava sua afli\u00e7\u00e3o, declarando sua dificuldade para escrever textos que pudessem corresponder \u00e0 compet\u00eancia acad\u00eamica desejada na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o que aparecia, ent\u00e3o: At\u00e9 que ponto seria leg\u00edtimo usar a IA para alcan\u00e7ar os resultados requeridos pelo curso? Qual emprego \u00e9 admitido da IA nos trabalhos acad\u00eamicos? O debate sobre o uso da IA na escrita autoral merece uma reflex\u00e3o ampla. Como disse anteriormente, n\u00e3o \u00e9 objetivo do artigo tentar responder a uma quest\u00e3o que exige considerar tantas nuances. Vou apenas sugerir que Paulo Freire parece nos indicar algo muito importante para todo esse debate contempor\u00e2neo, quando lembra tamb\u00e9m os impasses do seu tempo de jovem professor, na d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p>No que consiste o momento da boniteza da linguagem em Paulo Freire? Para responder a tal pergunta, primeiro \u00e9 preciso observar que Paulo Freire, \u00e0 \u00e9poca de estudante no gin\u00e1sio e j\u00e1 exercendo o magist\u00e9rio, deparava-se com uma condi\u00e7\u00e3o no ensino da l\u00edngua portuguesa que chamou de <em>gramatiquice <\/em>em suas mem\u00f3rias do per\u00edodo. O emprego do termo significa uma rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 gram\u00e1tica vista como um apego excessivo \u00e0s suas regras. Paulo Freire prop\u00f5e uma concep\u00e7\u00e3o divergente, que se dirige a um estado de maior riqueza da linguagem, capaz de proporcionar uma boniteza, que ele vai chamar tamb\u00e9m de \u201cmomento est\u00e9tico da linguagem\u201d.<sup><sup>4<\/sup><\/sup> Mas \u00e9 muito importante entender que aqui n\u00e3o se trata tamb\u00e9m de buscar a boniteza pela boniteza, o que constituiria outra f\u00f3rmula sem vida de utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem. Sua concep\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que a escrita precisa expressar a autenticidade do seu autor ou da sua autora, que deve se \u201cesfor\u00e7ar para ser ela ou ele mesmo\u201d.<sup><sup>5<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>H\u00e1 uma oportuna correspond\u00eancia com o contexto acad\u00eamico hoje quando notamos que Paulo Freire cita nesta passagem das suas mem\u00f3rias, exatamente \u201cquem trabalha disserta\u00e7\u00e3o ou tese doutoral\u201d como destinat\u00e1rios da sua preocupa\u00e7\u00e3o. Dedica ainda uma sugest\u00e3o agora tamb\u00e9m fundamental: \u201c[\u2026] que se obrigue, como tarefa a ser rigorosamente cumprida, a leitura de autores de bom gosto. Leitura t\u00e3o necess\u00e1ria quanto as que tratam diretamente seu tema espec\u00edfico\u201d.<sup><sup>6<\/sup><\/sup> Naturalmente, n\u00e3o h\u00e1 como escrever com uma certa compet\u00eancia sem ter se transformado em um leitor tamb\u00e9m experimentado. Trata-se de um princ\u00edpio que deve ser obedecido, mesmo por quem hoje faz uso da IA na elabora\u00e7\u00e3o dos seus textos. Caso contr\u00e1rio, a IA deixa de ser um assistente no trabalho da escrita para se transformar supostamente em um dispositivo capaz de substituir a falta de forma\u00e7\u00e3o adequada exigida para a autoria como resultado de um processo educativo.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz sentido esperar escrever bem sem ter realizado tamb\u00e9m leituras que desenvolvam um saber relevante \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o da escrita. Em uma outra passagem de <em>Cartas a Cristina<\/em>, quando se refere \u00e0s refer\u00eancias liter\u00e1rias que lhe foram transmitidas ainda durante o ciclo escolar, Paulo Freire cita Gilberto Freyre, Machado de Assis, E\u00e7a de Queiroz, Graciliano Ramos, Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade e Jos\u00e9 Lins do Rego.<sup><sup>7<\/sup><\/sup> Aqui poder\u00edamos imaginar que, de todo modo, Paulo Freire poderia ter se fixado em algumas leituras, prestigiadas para as rupturas que considerava necess\u00e1rias em seus primeiros passos de professor, mas que hoje estariam desatualizadas diante de novos problemas com os quais lidam quem ensina a l\u00edngua portuguesa. A comunidade escolar foi ampliada e a educa\u00e7\u00e3o popular se constituiu como um campo espec\u00edfico de fundamentos. Contudo, a capacidade de Paulo Freire nos surpreender n\u00e3o se esgota assim t\u00e3o facilmente.<\/p>\n<p>Em outro livro, <em>Medo<\/em> <em>e ousadia<\/em>, publicado com o educador estadunidense Ira Shor, em 1987, Paulo Freire tamb\u00e9m recorda seus tempos de estudante no gin\u00e1sio e come\u00e7o no magist\u00e9rio. Trata-se de uma transcri\u00e7\u00e3o da conversa gravada entre os dois. Do mesmo modo, Ira Shor tamb\u00e9m rememora sua \u00e9poca de estudante e ingresso no magist\u00e9rio, ensinando gram\u00e1tica. Resgata o processo de ingresso de estudantes trabalhadores em universidades municipais, nos anos 70, e apresenta seus dilemas como educador. Apesar da origem tamb\u00e9m popular e de um desacerto inicial com a aprendizagem institucionalmente determinada, termina se educando em conformidade para obter o sucesso requerido para cursar universidades de maior prest\u00edgio. Como professor, havia adquirido uma forma\u00e7\u00e3o mais tradicional, mas encontrava-se lecionando para estudantes que estavam fazendo outro percurso universit\u00e1rio. Ent\u00e3o, indagava: \u201cComo \u00e9 que a corre\u00e7\u00e3o gramatical poderia se inserir em suas vidas da forma que eu a cultivei?\u201d<sup><sup>8<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Um pouco mais adiante, diz Paulo Freire: \u201cEm certo momento, voc\u00ea tem que lutar <em>contra <\/em>a gram\u00e1tica, para ter a liberdade de escrever\u201d. Cita tamb\u00e9m suas leituras, alguns dos autores que mais tarde voltar\u00e1 a lembrar em <em>Cartas a Cristina<\/em>, com a seguinte observa\u00e7\u00e3o: \u201c[\u2026] esses autores n\u00e3o estavam preocupados em seguir a gram\u00e1tica! O que procuravam em suas obras era um momento est\u00e9tico\u201d.<sup><sup>9<\/sup><\/sup> Explicando um pouco mais a sua pr\u00e1tica docente, diz: \u201cEu lhes ensinava gram\u00e1tica a partir do que escreviam, e n\u00e3o de um comp\u00eandio. E utilizava tamb\u00e9m textos de bons autores brasileiros\u201d.<sup><sup>10<\/sup><\/sup> Importante notar que Paulo Freire est\u00e1 repercutindo seu desempenho de iniciante no magist\u00e9rio em uma conversa com um educador ante o seu desafio docente trinta anos ap\u00f3s. Sua busca pelo momento est\u00e9tico da linguagem n\u00e3o ficou para tr\u00e1s, pelo contr\u00e1rio. Ele reafirma sua atualidade, no final da d\u00e9cada de 1980, quando ocorre o encontro com Ira Shor. Para Paulo Freire, a beleza da linguagem encontra-se na original autoria, aquela que somos capazes de expressar de acordo com as nossas refer\u00eancias e n\u00e3o por meio de uma mera imita\u00e7\u00e3o gramatical.<\/p>\n<p>Em outro registro em que conta sobre os seus primeiros anos no magist\u00e9rio, o artigo \u201cNingu\u00e9m nasce feito, \u00e9 experimentando-se no mundo que n\u00f3s nos fazemos\u201d<sup><sup>11<\/sup><\/sup>, escrito em 1992 e publicado no ano seguinte na colet\u00e2nea <em>Pol\u00edtica e educa\u00e7\u00e3o<\/em>, Paulo Freire acrescenta mais alguns detalhes \u00e0 natureza do trabalho que realizava com seus alunos lecionando l\u00edngua portuguesa. \u00c9 muito significativa a seguinte nota: \u201cForam desses tempos as primeiras tentativas no sentido de desafiar ou de estimular, de instigar os alunos, adolescentes dos primeiros anos do ent\u00e3o chamado curso ginasial, a que se dessem \u00e0 pr\u00e1tica do desenvolvimento de sua linguagem \u2013 a oral e a escrita. Pr\u00e1tica imposs\u00edvel, quase, de ser vivida plenamente se a ela falta a busca do momento est\u00e9tico da linguagem, a boniteza da express\u00e3o, coincidente com a regra gramatical ou n\u00e3o.\u201d<sup><sup>12<\/sup><\/sup> Encontramos aqui a mesma concep\u00e7\u00e3o, presente tamb\u00e9m nos outros registros j\u00e1 citados, de que, para Paulo Freire, o desenvolvimento da linguagem \u00e9 um processo de singulariza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da autoria.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-6.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-6.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31180016\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Algo muito importante, no artigo h\u00e1 um destaque tamb\u00e9m para as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas elaboradas com seus alunos. Paulo Freire conta que frases extra\u00eddas dos trabalhos eram discutidas coletivamente. Algumas vezes, essas frases eram comparadas com aquelas produzidas por autores que considerava grandes escritores. Sempre com o prop\u00f3sito de que seus alunos progredissem na escrita. N\u00e3o com o prop\u00f3sito da aquisi\u00e7\u00e3o pura e simples da gram\u00e1tica normativa, mas para que pudessem, sobretudo, atingir uma capacidade expressiva envolvida pelo gosto da leitura e da escrita. \u00c9 assim que o estudo da gram\u00e1tica muda: \u201cEm lugar de termos nela a pris\u00e3o da criatividade, do risco, o espantalho \u00e0 aventura intelectual, passamos a ter nela uma ferramenta a servi\u00e7o de nossa express\u00e3o\u201d.<sup><sup>13<\/sup><\/sup> Portanto, quando Paulo Freire remete ao momento est\u00e9tico da linguagem, n\u00e3o se trata de algo que se alcan\u00e7a atrav\u00e9s de uma escrita autom\u00e1tica. \u00c9 resultado de um trabalho em que a partilha da experi\u00eancia \u00e9 o que preserva a original capacidade de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como nas outras refer\u00eancias em que tamb\u00e9m recapitula seus primeiros anos no magist\u00e9rio, Paulo Freire cita, junto ao repert\u00f3rio liter\u00e1rio que sublinhava suas influ\u00eancias, professores e professoras que foram marcantes para que adquirisse no estudo da gram\u00e1tica uma compreens\u00e3o mais desembara\u00e7ada da rigidez acad\u00eamica tradicional. No artigo, acrescenta ainda a leitura do linguista alem\u00e3o Karl Vossler (1872-1949), como quem primeiro lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o para o problema do momento est\u00e9ticoda linguagem<sup><sup>14<\/sup><\/sup>, cuja obra <em>Gesammelte Aufs\u00e4tze zur Sprachphilosophie<\/em>, publicada em 1923, Paulo Freire leu em espanhol em uma tradu\u00e7\u00e3o editada na Argentina com o t\u00edtulo <em>Filosof\u00eda del lenguaje. <\/em>Embora referencie em uma nota de rodap\u00e9 a quarta edi\u00e7\u00e3o, de 1963, a cronologia correta indica que consultou a primeira edi\u00e7\u00e3o, publicada em 1943<sup><sup>15<\/sup><\/sup>, contempor\u00e2nea, portanto, do per\u00edodo da sua vida mencionado. Karl Vossler foi um dos pensadores germ\u00e2nicos influentes na forma como a gram\u00e1tica come\u00e7ou a ser sistematizada no Brasil sob uma perspectiva moderna.<sup><sup>16<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Agora que a IA generativa nos desafia a discutir a autoria, o que o docente em forma\u00e7\u00e3o Paulo Freire, dos tempos de seu in\u00edcio no magist\u00e9rio, nos provoca a pensar? Conclu\u00edmos com ele que essa condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se alcan\u00e7a atrav\u00e9s de c\u00f3digos de linguagem. Trata-se de uma capacidade de express\u00e3o que s\u00f3 existe propriamente quando nos fazemos plenamente presentes na escrita, ou seja, criando. \u00c9 a\u00ed que acontece o momento est\u00e9tico da linguagem, diante do querer expressar de modo sens\u00edvel, pessoal e intransfer\u00edvel. Para que essa dimens\u00e3o est\u00e9tica aparecesse na escrita dos seus alunos, Paulo Freire precisou enfrentar a gram\u00e1tica rigidamente prescrita nas escolas e se orientar por outros caminhos. A IA generativa tamb\u00e9m tem um car\u00e1ter impositivo. S\u00e3o as Big Techs decidindo sobre o seu uso em uma escala massiva. \u00c9 um novo contexto em rela\u00e7\u00e3o ao qual precisamos nos posicionar para que o ato criativo n\u00e3o se desvane\u00e7a tamb\u00e9m. Um debate vivo para o legado de Paulo Freire.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>1 FREIRE, Ana Maria Ara\u00fajo. <em>Paulo Freire<\/em>: uma hist\u00f3ria de vida. 2\u00aa ed. rev. e atualizada. S\u00e3o Paulo\/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.<\/p>\n<p>2 FREIRE, Paulo. <em>Cartas a Cristina<\/em>: reflex\u00f5es sobre minha vida e minhas pr\u00e1xis. 2\u00aa ed. ver. S\u00e3o Paulo: Ed. UNESP, 2003.<\/p>\n<p>3 Ibidem, p. 112.<\/p>\n<p>4 Ibidem.<\/p>\n<p>5 Ibidem, p. 113.<\/p>\n<p>6 Ibidem p. 112.<\/p>\n<p>7 Ibidem, p. 80.<\/p>\n<p>8 FREIRE, Paulo; SHOR, IRA. <em>Medo e ousadia<\/em>: o cotidiano do professor. 12\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2008. p. 30.<\/p>\n<p>9 Ibidem, p. 31.<\/p>\n<p>10 Ibidem, p. 39.<\/p>\n<p>11 FREIRE, Paulo. Ningu\u00e9m nasce feito, \u00e9 experimentando-se no mundo que n\u00f3s nos fazemos. In: <em>Pol\u00edtica e educa\u00e7\u00e3o<\/em>. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2015. p. 93-103.<\/p>\n<p>12 Ibidem, p. 96.<\/p>\n<p>13 Ibidem, p. 97.<\/p>\n<p>14 Ibidem, p. 95.<\/p>\n<p>15 VOSSLER, Karl. <em>Filosof\u00eda del lenguaje<\/em>. Buenos Aires: Editorial Losada, 1943.<\/p>\n<p>16 CAVALIERE, Ricardo. <em>A gram\u00e1tica no Brasil<\/em>: ideias, percursos e par\u00e2metros. Rio de Janeiro: Lexikon, 2014. p. 116.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O que Paulo Freire diria sobre escrever com IA? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/juiza-proibe-corte-de-recursos-a-harvard-e-manda-trump-repor-financiamento\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Captura-de-Tela-2025-09-04-as-154701-1-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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