{"id":87579,"date":"2026-05-17T04:00:00","date_gmt":"2026-05-17T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/judith-butler-genero-poder-e-feminismo-na-era-da-internet\/"},"modified":"2026-05-17T04:00:00","modified_gmt":"2026-05-17T07:00:00","slug":"judith-butler-genero-poder-e-feminismo-na-era-da-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/judith-butler-genero-poder-e-feminismo-na-era-da-internet\/","title":{"rendered":"Judith Butler: g\u00eanero, poder e feminismo na era da internet"},"content":{"rendered":"<p>Segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2025, a viol\u00eancia de g\u00eanero no Brasil atingiu o maior patamar da \u00faltima d\u00e9cada, com cerca de 1.470 casos de feminic\u00eddio registrados. O cen\u00e1rio \u00e9 alarmante e n\u00e3o deve mudar neste ano de 2026. O debate sobre as quest\u00f5es relacionadas a g\u00eanero vai al\u00e9m de reconhecer as viol\u00eancias, \u00e9 preciso compreender como desigualdades estruturais s\u00e3o produzidas, naturalizadas e utilizadas politicamente para restringir direitos e refor\u00e7ar hierarquias sociais.<\/p>\n<p>Em seu mais recente livro, publicado pela editora Boitempo, Judith Butler busca responder \u00e0 pergunta \u201cQuem tem medo de g\u00eanero?\u201d. <span>O <strong>Pauta P\u00fablica<\/strong> desta semana recebe a escritora e fil\u00f3sofa para analisar como o conceito de g\u00eanero foi distorcido pela ideia fantasiosa de \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, sendo retratado como uma amea\u00e7a \u00e0 fam\u00edlia por movimentos ultraconservadores religiosos e de extrema direita.<\/span> No epis\u00f3dio, Butler \u00e9 dublada pela atriz Mika Lins.<\/p>\n<p>Na conversa com Andrea Dip, a escritora reflete sobre como o conservadorismo desloca as verdadeiras amea\u00e7as produzidas pelo capitalismo e pelas crises contempor\u00e2neas para pautas ligadas \u00e0 igualdade, aos direitos e \u00e0 diversidade, com objetivo de criar p\u00e2nico moral e alavancar agendas antidemocr\u00e1ticas. A fil\u00f3sofa tamb\u00e9m aponta caminhos para imaginar um mundo mais habit\u00e1vel e igualit\u00e1rio, baseado em solidariedade, alian\u00e7as coletivas e novas formas de conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cG\u00eanero se tornou um termo que hoje provoca p\u00e2nico e medo em muitas pessoas, por n\u00e3o conhecerem os estudos sobre o tema. Eu diria que [o medo em torno do termo] gira em torno da fam\u00edlia tradicional e da sensa\u00e7\u00e3o de que ela est\u00e1 sendo amea\u00e7ada[..] Mas, \u2018g\u00eanero\u2019 acaba representando muitos movimentos sociais comprometidos com objetivos fundamentais como igualdade e o progresso\u201d, afirma a fil\u00f3sofa.<\/p>\n<p>Confira os principais pontos da entrevista abaixo e ou\u00e7a o podcast completo:<\/p>\n<div>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"250684\" data-playing=\"0\">\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<h2>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span>EP 216<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\tQuem tem medo de Judith Butler? \u2013 com Judith Butler\t\t\t\t\t\t\t<\/h2>\n<div>\n<p>\n\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t<span>15 de maio de 2026<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\u00b7<br \/>\n\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\tButler analisa o avan\u00e7o do p\u00e2nico moral em torno do g\u00eanero e os desafios dos movimentos feministas<\/p>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"250684\" data-playing=\"0\">\n<p>\t\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/PAUTA-JUDITH-BUTLER-v02.mp3\" preload=\"none\"><\/audio><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>0:00<\/span><\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>-:\u2013<\/span><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i>15<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i>15<\/p>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><\/p>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><center>Veja mais epis\u00f3dios desta s\u00e9rie<\/center><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><strong>Por que esse \u2018medo do g\u00eanero\u2019 n\u00e3o s\u00f3 continua sendo eficaz, mas parece estar se tornando cada vez mais forte<\/strong>?<\/p>\n<p>Eu acho que \u201cg\u00eanero\u201d se tornou um termo que hoje provoca p\u00e2nico e medo em muitas pessoas. Elas n\u00e3o conhecem os estudos de g\u00eanero, n\u00e3o estudaram g\u00eanero. Mas \u201cg\u00eanero\u201d passa a representar todos os desafios \u00e0 fam\u00edlia tradicional que podemos imaginar, incluindo parentalidade solo, casamento entre pessoas do mesmo sexo, vidas trans, liberdades trans, travestis, direitos de gays, l\u00e9sbicas, bissexuais e intersexo. <span>E nos direitos humanos, nas pol\u00edticas da Uni\u00e3o Europeia e nas decis\u00f5es das cortes interamericanas, temos visto uma rea\u00e7\u00e3o contra tudo isso.<\/span><\/p>\n<p>Eu diria que isso gira em torno da fam\u00edlia tradicional e da sensa\u00e7\u00e3o de que ela est\u00e1 sendo amea\u00e7ada. E isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, porque muitas pessoas sentem isso, especialmente num mundo em que t\u00eam d\u00edvidas a pagar, o clima est\u00e1 mudando, h\u00e1 migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, e elas n\u00e3o sabem se conseguir\u00e3o manter seus empregos. H\u00e1 muitas mudan\u00e7as que geram medo.<\/p>\n<p><span>Mas, se pudermos reduzi-las e condens\u00e1-las em uma \u00fanica coisa e cham\u00e1-la de \u201cg\u00eanero\u201d, ent\u00e3o todos esses p\u00e2nicos diversos podem ser abreviados e representados por esse termo.<\/span> Mas outro ponto que eu destacaria \u00e9 que a fam\u00edlia tradicional, com isso quero dizer a fam\u00edlia heteronormativa \u2013 um homem e uma mulher, em casamento, reproduzindo e restringindo a sexualidade ao par conjugal, ou seja, monogamia dentro do casamento e, em alguns casos, a restri\u00e7\u00e3o da sexualidade \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o dentro do casamento \u2013, dependendo da tradi\u00e7\u00e3o religiosa, eles seguem certas ideias de autoridade que podem vir de fontes b\u00edblicas, mas tamb\u00e9m do Estado.<\/p>\n<p>Quando algo como o nacionalismo crist\u00e3o ganha for\u00e7a, a lei patriarcal, que deriva de uma leitura muito literal ou ideol\u00f3gica da B\u00edblia, converge com um poder estatal que tamb\u00e9m est\u00e1 se tornando cada vez mais autocr\u00e1tico e soberano. Assim, a autoridade patriarcal no Estado depende da reprodu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia heteronormativa tradicional, e qualquer desafio \u00e0 moralidade e \u00e0 pol\u00edtica dessa fam\u00edlia amea\u00e7a tanto o poder do Estado quanto a identidade nacional.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, para muitas pessoas, esses desafios parecem atingir um n\u00edvel profundamente pessoal, questionando sua pr\u00f3pria compreens\u00e3o sobre o sexo atribu\u00eddo, sobre a sexualidade, quest\u00f5es que, para elas, deveriam estar resolvidas internamente e pela lei. Ent\u00e3o, acho que o que estamos vendo \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o massiva contra diversos desafios \u00e0 lei patriarcal, incluindo, eu diria, o capitalismo patriarcal, que organiza o trabalho e o lucro segundo uma divis\u00e3o sexual do trabalho. Esses desafios v\u00eam de muitos movimentos progressistas e de esquerda, a maioria deles feministas, comprometidos com objetivos fundamentais como igualdade, liberdade, justi\u00e7a, combate \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 guerra, atentos \u00e0s vidas de pessoas marginalizadas, endividadas e pobres, e empenhados em transformar essas condi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p><span>Assim, \u201cg\u00eanero\u201d acaba representando muitos desses movimentos sociais e tamb\u00e9m o progresso que muitos de n\u00f3s pens\u00e1vamos ter alcan\u00e7ado.<\/span> O movimento antig\u00eanero est\u00e1, portanto, lutando contra essa ideia de progresso.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea o crescente interesse sobretudo de meninos adolescentes por ideias \u201cincel\u201d e \u201cred pill\u201d? Com esses influenciadores da \u201cmachosfera\u201d, e com esses meninos jovens sendo atra\u00eddos para esse universo?<\/strong><\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o que eu tenho \u00e9: o qu\u00e3o impotentes esses jovens se sentem diante do mundo? E digo isso n\u00e3o porque eu tenha compaix\u00e3o por mis\u00f3ginos, n\u00e3o tenho. Acho que pessoas mis\u00f3ginas deveriam aprender a tratar os outros com igualdade e aprender a tratar as mulheres como seres dignos neste mundo. Ent\u00e3o n\u00e3o me entenda mal. Mas eu acho que h\u00e1 um empoderamento falso que ocorre na internet. <span>E quando voc\u00ea v\u00ea o qu\u00e3o eficaz a internet pode ser na circula\u00e7\u00e3o de um meme ou na cria\u00e7\u00e3o de um p\u00e2nico, como isso pode ser r\u00e1pido e pode alcan\u00e7ar um n\u00famero enorme de pessoas,\u00a0isso gera uma sensa\u00e7\u00e3o de poder.<\/span><\/p>\n<p>Ent\u00e3o talvez eles n\u00e3o tenham poder no sentido de ter propriedades, estabilidade financeira, perspectiva de aposentadoria, ou essas coisas que a gera\u00e7\u00e3o \u201cboomer\u201d teve, mas est\u00e3o encontrando poder por meio dessa manipula\u00e7\u00e3o de imagens e associa\u00e7\u00f5es via memes, que fazem exatamente o trabalho do \u201cfantasma de g\u00eanero\u201d: condensam uma s\u00e9rie de ansiedades e medos em uma \u00fanica imagem. E ent\u00e3o eles lan\u00e7am essa imagem, e as pessoas reagem com choque.\u00a0<\/p>\n<p>Eu conto, por exemplo, o caso de Kamala Harris, que estava concorrendo \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos, uma mulher negra, progressista, mas de centro, n\u00e3o t\u00e3o \u00e0 esquerda quanto alguns gostariam. Ainda assim, ela foi retratada como se fosse de extrema esquerda e como se fosse trazer imigrantes para o pa\u00eds para realizar cirurgias de redesigna\u00e7\u00e3o sexual. Assim, esse meme ou boato juntou o \u00f3dio xen\u00f3fobo contra migrantes com a transfobia. Voc\u00ea conecta os dois, e ambas as ansiedades se intensificam e passam a se refor\u00e7ar mutuamente. E quando voc\u00ea faz essa conex\u00e3o e intensifica\u00e7\u00e3o, voc\u00ea alcan\u00e7a algo ideol\u00f3gico: instaura medo, incita um \u00f3dio reacion\u00e1rio e tamb\u00e9m recruta apoio para um regime que quer se tornar, e muitas vezes consegue, cada vez mais autorit\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n<p><span>Quanto ao universo incel, esses jovens homens frequentemente culpam o \u201cfeminismo\u201d. Eles sentem rancor e ressentimento contra o que chamam de feminismo. E sempre precisamos perguntar: qual \u00e9 a ideia de feminismo que eles est\u00e3o combatendo?<\/span> Isso corresponde ao feminismo, como podemos document\u00e1-lo historicamente? Para eles, o feminismo se torna um tipo de s\u00edmbolo de castra\u00e7\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de perda de poder, uma ideia de que agora s\u00e3o eles que est\u00e3o sendo discriminados. Muitas vezes, eles se apropriam da linguagem do discurso feminista ou da esquerda e dizem: \u201cestamos sendo dominados, estamos sendo discriminados com base no nosso sexo, estamos sendo explorados ou n\u00e3o reconhecidos\u201d. Ou seja, usam muito da linguagem da esquerda. E o movimento antig\u00eanero tamb\u00e9m tende\u00a0\u00e0 direita e a acusar pol\u00edticas de g\u00eanero e estudos de g\u00eanero de serem coloniais. Infelizmente, \u00e0s vezes, isso pode acontecer, mas n\u00e3o no sentido em que eles afirmam.<\/p>\n<p><strong>Recentemente tivemos um epis\u00f3dio no Brasil com a elei\u00e7\u00e3o da deputada Erika Hilton como presidenta da Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher na C\u00e2mara dos Deputados. Ela \u00e9 uma mulher trans, e testemunhamos a viol\u00eancia das que se dizem feministas transexcludentes. E a ret\u00f3rica delas \u00e9 muito semelhante \u00e0 dos ultraconservadores e da extrema direita. Como devemos lidar com isso dentro dos nossos movimentos feministas? Existe algum tipo de di\u00e1logo poss\u00edvel com essas pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>Acho muito dif\u00edcil, porque eu j\u00e1 tentei ter essas conversas e elas n\u00e3o funcionaram bem. Ocasionalmente, TERFs [Trans-Exclusionary Radical Feminists, ou \u201cfeministas radicais transexcludentes\u201d] v\u00eam me ouvir ou tentar conversar comigo. E eu entendo que h\u00e1 muita raiva, e que elas tamb\u00e9m t\u00eam aderido cada vez mais a um certo essencialismo biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Acho que precisamos voltar atr\u00e1s e talvez fazer algum tipo de pedagogia p\u00fablica. Por exemplo: por que as feministas concordaram que a biologia n\u00e3o \u00e9 destino? Por que chegamos a esse consenso? O que havia de t\u00e3o importante nessa formula\u00e7\u00e3o? Foi doloroso afirmar isso, porque significava recusar a ideia de que \u201cah, voc\u00ea pode reproduzir, portanto deve reproduzir, portanto essa \u00e9 a sua tarefa na vida\u201d. N\u00f3s dissemos n\u00e3o a isso. E algumas de n\u00f3s nem podiam reproduzir; outras podiam, mas n\u00e3o queriam; algumas adotaram; outras n\u00e3o tiveram filhos. <span>Lutamos por essas liberdades. Lutamos para distinguir entre a ideia de um destino biol\u00f3gico e aquilo que nos tornamos ao longo da vida. Isso n\u00e3o significa negar a biologia, de forma alguma.<\/span><\/p>\n<p>A biologia \u00e9 complexa, importante. Precisamos de bons cuidados de sa\u00fade relacionados \u00e0 nossa biologia. A biologia est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica com a cultura e com o ambiente. Precisamos do campo da biologia; o que n\u00e3o precisamos \u00e9 do determinismo biol\u00f3gico. Mas talvez o argumento mais forte seja este: pergunte a qualquer mulher se ela j\u00e1 teve a experi\u00eancia de andar na rua \u00e0 noite com medo \u2013 medo de ser assediada, estuprada ou assassinada? Muitas dir\u00e3o que sim, a menos que vivam em contextos muito protegidos. Muitas mulheres, inclusive feministas, sentem isso. N\u00f3s fomos \u00e0s ruas, retomamos a noite, porque n\u00e3o quer\u00edamos viver com esse medo. Agora, se voc\u00ea faz a pergunta: qualquer pessoa que seja minoria, ou socialmente vulner\u00e1vel, ou exposta \u00e0 viol\u00eancia e ao preconceito, deveria andar na rua \u00e0 noite com medo? E se a resposta for \u201cn\u00e3o, ningu\u00e9m deveria\u201d, ent\u00e3o voc\u00ea acredita que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea que merece essa liberdade, mas tamb\u00e9m mulheres trans, homens trans, pessoas n\u00e3o conformes com o g\u00eanero, pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Pessoas que sofrem viol\u00eancia racista tamb\u00e9m deveriam poder andar na rua com seguran\u00e7a. Ent\u00e3o come\u00e7amos a formar uma coaliz\u00e3o. Pensamos: todas n\u00f3s precisamos poder ocupar as ruas. Vamos fazer isso juntas. Vamos nos unir contra a viol\u00eancia cotidiana, a viol\u00eancia n\u00e3o estatal, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, a viol\u00eancia de Estado, a viol\u00eancia simb\u00f3lica e a viol\u00eancia nas pris\u00f5es. Se voc\u00ea acredita que ningu\u00e9m deveria sofrer viol\u00eancia na pris\u00e3o \u2014 nem uma mulher cis, nem uma mulher trans \u2014 ent\u00e3o n\u00e3o faz sentido defender pol\u00edticas que coloquem pessoas ainda mais vulner\u00e1veis em situa\u00e7\u00f5es de risco.\u00a0<\/p>\n<p>Por exemplo, se algu\u00e9m defende que mulheres trans sejam colocadas em alas masculinas, est\u00e1 propondo coloc\u00e1-las em um contexto altamente violento. Voc\u00ea realmente acha que algu\u00e9m deveria estar nessa situa\u00e7\u00e3o? Se a resposta \u00e9 n\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o se pode sustentar uma pol\u00edtica que imponha isso a outras pessoas igualmente ou ainda mais vulner\u00e1veis. <span>Precisamos de grandes debates p\u00fablicos, em que essas quest\u00f5es sejam tratadas uma a uma, com calma. N\u00e3o \u00e9 preciso ter doutorado para isso. Basta se importar com os seres humanos e querer pensar de forma coerente, justa e \u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea diz que temos duas tarefas: compreender o lugar do g\u00eanero no caos p\u00f3s-fascista, mas tamb\u00e9m ser capazes de imaginar e projetar um mundo habit\u00e1vel, respir\u00e1vel, igualit\u00e1rio e interdependente. Como fazemos isso?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, n\u00f3s j\u00e1 estamos fazendo isso por meio das nossas solidariedades. Nossas solidariedades s\u00e3o formas de cuidar umas das outras. Sabe, cozinhamos umas para as outras, garantimos que algu\u00e9m consiga descansar o suficiente. Acompanhamos algu\u00e9m ao advogado ou ao hospital. Ou encontramos formas de conviv\u00eancia e de comunidade em que acreditamos, \u00e0s vezes em grupos menores, mas \u00e0s vezes em escala transnacional. \u00c0s vezes, estamos em alian\u00e7a com pessoas que nem conhecemos.<\/p>\n<p>Quero dizer, h\u00e1 muitas alian\u00e7as com pessoas em Gaza neste momento, com pessoas no sul do L\u00edbano, e tamb\u00e9m com o povo iraniano, especialmente aqueles que foram torturados por seu regime. <span>Como mantemos essas alian\u00e7as vivas? Essas alian\u00e7as, mesmo em formas menores, s\u00e3o potenciais para um movimento transnacional.<\/span><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acredito que nossos ideais, nossa imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o algo que precisamos realizar apenas no futuro. Eles j\u00e1 est\u00e3o conosco. J\u00e1 estamos imaginando esse mundo melhor quando agimos dessa forma. Temos esse ideal e o estamos incorporando na pr\u00e1tica. S\u00f3 precisamos encontrar nossa pr\u00f3pria presen\u00e7a digital e nosso pr\u00f3prio poder no ambiente digital. N\u00e3o que todo poder seja digital, mas seria um erro n\u00e3o utilizar esses meios.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hugo-motta-engana-governo-e-decide-votar-anistia-ampla-conheca-o-texto-que-sera-votado-hoje\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Hugo Motta engana governo e decide votar anistia a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/queda-na-aprovacao-de-lula-noticiario-negativo-economia-e-ir-explicam-diz-felipe-nunes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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