{"id":87605,"date":"2026-05-17T13:00:05","date_gmt":"2026-05-17T16:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quirinas-traz-levantamento-inedito-sobre-trabalhadoras-domesticas-na-literatura-brasileira\/"},"modified":"2026-05-17T13:00:05","modified_gmt":"2026-05-17T16:00:05","slug":"quirinas-traz-levantamento-inedito-sobre-trabalhadoras-domesticas-na-literatura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quirinas-traz-levantamento-inedito-sobre-trabalhadoras-domesticas-na-literatura-brasileira\/","title":{"rendered":"\u2018Quirinas\u2019 traz levantamento in\u00e9dito sobre trabalhadoras dom\u00e9sticas na literatura brasileira"},"content":{"rendered":"<p>As pol\u00edticas p\u00fablicas que ampliaram a mobilidade social do pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas influenciaram a forma como as trabalhadoras dom\u00e9sticas s\u00e3o representadas na literatura brasileira. \u00c9 o que demonstra <em>Quirinas: a trabalhadora dom\u00e9stica como protagonista na literatura brasileira contempor\u00e2nea <\/em>(Pangeia\/EdUff, 2026), da pesquisadora e jornalista Mariana Filgueiras.<\/p>\n<p>Em entrevista a <strong>Opera Mundi<\/strong>, a acad\u00eamica afirma que, desde 2015, a literatura vive um momento de \u201crevis\u00e3o simb\u00f3lica e est\u00e9tica\u201d, resultante da ascens\u00e3o social dos filhos dessas trabalhadoras, que passaram a contar as hist\u00f3rias de suas m\u00e3es, av\u00f3s e tias. \u201cH\u00e1 uma oxigena\u00e7\u00e3o na nossa literatura\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Tese vencedora do Pr\u00eamio CAPES 2025, o livro mapeia 37 personagens de obras publicadas entre 1859 e 2024, mostrando que ap\u00f3s um s\u00e9culo de invisibilidade, a maior e mais precarizada categoria profissional do pa\u00eds finalmente est\u00e1 sendo representada com complexidade.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 uma moda liter\u00e1ria, n\u00f3s estamos aprendendo a enxergar o Brasil na literatura de forma muito mais ampla\u201d, afirma Filgueiras, convocando os leitores brasileiros a prestigiarem as obras de autoras brasileiras. \u201cElas est\u00e3o descolonizando o nosso olhar\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF), sob orienta\u00e7\u00e3o da professora Eur\u00eddice Figueiredo, o estudo mobiliza um repert\u00f3rio te\u00f3rico feminista, anti-racista e contra-colonial, al\u00e9m de trazer um panorama hist\u00f3rico sobre a forma\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00f5es do trabalho dom\u00e9stico no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O estudo, financiado pela Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES), est\u00e1 dispon\u00edvel gratuitamente no site da editora Pangeia. Trata-se de um poderoso guia de obras que trazem o povo brasileiro na literatura nacional. Acompanhe a entrevista.<\/p>\n<p><strong>Opera Mundi<\/strong><strong>: C<\/strong><strong>omo come\u00e7a sua busca pelas trabalhadoras dom\u00e9sticas na literatura brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mariana Filgueiras<\/strong><strong>: <\/strong>Um professor me disse, certa vez, que n\u00f3s o tema de uma pesquisa deve ser escolhido a partir daquilo que nos incomoda no mundo. Voc\u00ea pode escolher a partir de uma paix\u00e3o, mas pensando o que te incomoda dentro dessa paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Por muitos anos, eu atuei como rep\u00f3rter de literatura e a grande maioria dos livros que tinha de resenhar tratavam de homens em conflitos existenciais. Livros maravilhosos at\u00e9, mas eu sempre questionava onde estava o trabalhador, a revanche social, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>No mestrado, eu trabalhei a paix\u00e3o, estudando Lima Barreto e Jo\u00e3o Ant\u00f4nio, que tinham esse olhar sobre o povo e os que est\u00e3o \u00e0 margem. No doutorado, sob orienta\u00e7\u00e3o da professora Eur\u00eddice Figueiredo (UFF), fui desafiada a enxergar o mundo sob a \u00f3tica da escrita de mulheres.<\/p>\n<p>Lendo o feminismo e me entendendo como feminista, o meu incomodo era n\u00e3o conseguir abdicar do trabalho dom\u00e9stico, tendo uma mulher negra realizando a limpeza da minha casa regularmente. A quest\u00e3o, obviamente, n\u00e3o \u00e9 acabar com esse tipo de of\u00edcio, um trabalho digno, mas saber que ele precisa ser muito bem remunerado e ter todos os seus direitos previstos.<\/p>\n<p>Eu quis enfrentar essa quest\u00e3o e fiz um resgate da hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia e, l\u00e1 pela quinta gera\u00e7\u00e3o, descobri que foi uma fam\u00edlia escravocrata. Foi horr\u00edvel confrontar este passado que \u00e9, tamb\u00e9m, a hist\u00f3ria do Brasil. Meus antepassados diretos s\u00e3o fruto dela.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea relata no livro que a pesquisa come\u00e7ou durante a pandemia<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho come\u00e7ou bem no in\u00edcio da pandemia, e a categoria das trabalhadoras dom\u00e9sticas foi uma das mais afetadas. Elas foram as primeiras a morrer, porque ficavam mais expostas e, inclusive, confinadas quando os patr\u00f5es n\u00e3o as liberavam. Quando isso ocorria, eles simplesmente n\u00e3o as pagavam.<\/p>\n<p>Essas mulheres, que estavam cruzando a cidade o tempo todo, foram entendidas como essenciais por alguns decretos estaduais; mas historicamente, elas nunca foram vistas como essenciais pelo Estado brasileiro. Os direitos trabalhistas das dom\u00e9sticas s\u00f3 foram regulamentados em 2015. Nem a CLT de Get\u00falio Vargas os previu. \u00c9 como diz Sueli Carneiro, a partir dessas trabalhadoras, voc\u00ea consegue ver toda a desigualdade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Em termos dram\u00e1ticos, o que h\u00e1 de espec\u00edfico na representa\u00e7\u00e3o das trabalhadoras dom\u00e9sticas?<\/strong><\/p>\n<p>A Patr\u00edcia Hill Collins, feminista norte-americana, afirma que a trabalhadora dom\u00e9stica \u00e9 uma personagem extremamente especial, porque transita entre dois mundos. Ela ouve os segredos da elite, depois pega o transporte e entra em outro universo. Dramaticamente, enxerga o que ningu\u00e9m mais est\u00e1 vendo.<\/p>\n<p>Apesar disso, os romances ignoraram esse potencial dram\u00e1tico na literatura brasileira. Como voc\u00ea ignora a pot\u00eancia dram\u00e1tica de uma personagem que representa a categoria mais precarizada no Brasil? As trabalhadoras dom\u00e9sticas s\u00e3o as que menos se aposentam e as que ganham menos. Em sua maioria, s\u00e3o mulheres negras e m\u00e3es solos.<\/p>\n<p>H\u00e1 um desperd\u00edcio imenso desse potencial dram\u00e1tico na literatura brasileira. S\u00f3 se fala das \u201cpessoas na sala de jantar\u201d, como dizia Rita Lee. Claro que a literatura n\u00e3o \u00e9 obrigada a nada, mas ela conta muito sobre o Brasil.<\/p>\n<p><strong>Ao pesquisar a representa\u00e7\u00e3o dessas mulheres, voc\u00ea faz um invent\u00e1rio de v\u00e1rias obras e nos traz um verdadeiro guia. Como voc\u00ea elaborou esse recorte?<\/strong><\/p>\n<p>Eu mapeei romances e contos entre 1859 e 2024 para entender onde essas mulheres estavam na literatura. Eu imaginava que elas estariam invisibilizadas, afinal, somos um pa\u00eds racista e a literatura \u00e9 muito elitista, mas somente durante a pesquisa eu tive a dimens\u00e3o do quanto isso ocorre.<\/p>\n<p>Durante um s\u00e9culo, a regra foi apagar, objetificar, sexualizar e infantilizar as personagens que representavam essas trabalhadoras. No in\u00edcio do s\u00e9culo, elas apareciam para evidenciar como a patroa era boa, limpa, correta e elegante, enquanto elas eram representadas como personagens sem modos, sem eleg\u00e2ncia, n\u00e3o limpas e doentes.<\/p>\n<p>Outra regra era a infantiliza\u00e7\u00e3o. Essas personagens falam errado, n\u00e3o t\u00eam argumentos, s\u00e3o muito apaziguadoras, como a Tia Nast\u00e1cia de Monteiro Lobato, que evoca o mito da \u201cm\u00e3e preta\u201d, a black nanny ou black mother, como chamam as feministas norte-americanas. Essas mulheres apaziguadoras apanham muito nos romances, levam pedradas na cabe\u00e7a. Algu\u00e9m pode argumentar, mas o autor est\u00e1 fazendo uma den\u00fancia. Sim, mas quando essas mulheres s\u00f3 aparecem apanhando, sendo estupradas, infantilizadas, sem nome ou fala, esse padr\u00e3o revela uma invisibiliza\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>Os escritores sequer consideravam que essas personagens pudessem render dramaticamente, com uma hist\u00f3ria, fam\u00edlia, dramas, anseios, desejos. Isso avan\u00e7a no tempo. As pe\u00e7as do Nelson Rodrigues s\u00e3o muito emblem\u00e1ticas. Embora questione a fam\u00edlia burguesa, ele nunca teve interesse nessa quest\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 grandes cenas com trabalhadoras dom\u00e9sticas. A maioria nem nome tem.<\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-254955\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/captura-de-tela-2026-05-17-123201.png\" alt=\"\" width=\"886\" height=\"604\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/captura-de-tela-2026-05-17-123201.png 886w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/captura-de-tela-2026-05-17-123201-300x205.png 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/captura-de-tela-2026-05-17-123201-768x524.png 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/captura-de-tela-2026-05-17-123201-150x102.png 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/captura-de-tela-2026-05-17-123201-750x511.png 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px\"><figcaption>\u2018Quirinas\u2019 traz levantamento in\u00e9dito sobre trabalhadoras dom\u00e9sticas na literatura brasileira<br \/>Acervo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mesmo em <em>Gabriela Cravo e Canela<\/em>, de Jorge Amado, \u00e9 poss\u00edvel ver esse processo. Pouca gente recorda que ela era uma empregada dom\u00e9stica, a imagem que fica \u00e9 da cozinheira \u201cde m\u00e3o cheia\u201d, uma mulher muito sensual que se casou com Nacib. Mas ele tinha vergonha de se casar com a faxineira da casa e Jorge Amado foi cir\u00fargico ao construir esse flagra.<\/p>\n<p>A Joselia Aguiar, que escreveu a biografia de Jorge Amado, conta que ele estava preparando uma colet\u00e2nea de contos do Lima Barreto enquanto escrevia Gabriela, no final dos anos 50. Entre os contos dessa colet\u00e2nea est\u00e1 <em>O Filho da Gabriela<\/em>, sobre uma patroa sem filhos que come\u00e7a a criar o filho da empregada como uma esp\u00e9cie de madrinha. Em dado momento, essa m\u00e3e precisa levar o menino para o m\u00e9dico, mas a patroa n\u00e3o deixa. Ent\u00e3o, ela reage e a confronta. \u00c9 uma cena muito original e rara porque, em geral, as trabalhadoras n\u00e3o revidavam. Joselia suspeita que Jorge tenha batizado o livro com o nome dessa personagem do Lima.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es ao longo desse per\u00edodo a este tipo de representa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. \u00c9 o que faz a professora maranhense Maria Firmina dos Reis em <em>\u00darsula<\/em>, romance de 1859, antes mesmo da Aboli\u00e7\u00e3o. Ela d\u00e1 voz \u00e0 Suzana, uma mulher escravizada que relata a sua hist\u00f3ria. \u00c9 uma exce\u00e7\u00e3o que uma mulher escravizada fale e mostre suas opini\u00f5es e sonhos.<\/p>\n<p>No conto <em>Bab\u00e1<\/em>, de 1904, Lima Barreto tamb\u00e9m conta o encontro entre um enfermeiro e uma senhora centen\u00e1ria, abandonada num hospital para morrer sozinha. Comovido com aquela presen\u00e7a, ele busca saber por que ela foi deixada ali, e ent\u00e3o, conta sua hist\u00f3ria, a de seus antepassados e dos filhos que foram levados para trabalhar em outras fazendas, e que ela nunca mais viu.<\/p>\n<p>A Clarice Lispector era muito interessada nessa quest\u00e3o. <em>A Paix\u00e3o Segundo o G.H.<\/em>\u00a0\u00e9 sobre uma mulher da classe m\u00e9dia alta que diante da aus\u00eancia da trabalhadora dom\u00e9stica, tenta entender o porqu\u00ea dela ter ido embora, entrando em um fluxo de consci\u00eancia. \u00c9 a primeira vez que essa rela\u00e7\u00e3o conflituosa aparece como dispositivo de um romance.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Carolina de Jesus, que reivindicava a identidade de catadora de papel, come\u00e7ou a escrever seus primeiros poemas como trabalhadora dom\u00e9stica. Ela inclusive foi demitida porque estava escrevendo em vez de cozinhar. De raiva, ao sair, deixou uma poesia escrita nos azulejos da casa da patroa. Carolina escreve sobre o trabalho dom\u00e9stico impulsionada pela raiva e seus escritos v\u00e3o inspirar Joana Evaristo a escrever, o que, por sua vez, motivar\u00e1 sua filha, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, a escrever, influenciando a escrita de L\u00edlia Guerra e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Em <em>Becos da Mem\u00f3ria<\/em>, de 2026, a Concei\u00e7\u00e3o Evaristo ir\u00e1 problematizar um tema presente em muitos desses romances: o da empregada dom\u00e9stica que rouba a joia do patr\u00e3o e \u00e9 acusada por isso. Mas, neste caso, a personagem tinha de fato roubado o broche e isso vira um conflito imenso para ela. \u00c9 o mesmo epis\u00f3dio, mas tratado de outra forma.<\/p>\n<p><strong>O que acontece com essa representa\u00e7\u00e3o depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, as trabalhadoras dom\u00e9sticas passaram a ser trabalhadas sob a \u00f3tica do humor, mas sempre de forma depreciativa. Ap\u00f3s a ditadura, lotar os teatros era dif\u00edcil e o humor trazia plateia. \u00c9 o per\u00edodo do teatro besteirol e elas entravam em cena no momento de rir das patroas, mas ainda assim era um riso sobre elas. Isso acabou migrando para a TV depois, quem n\u00e3o lembra da empregada Edileuza de <em>Sai de Baixo<\/em>?<\/p>\n<p>Essa foi a forma como a sociedade come\u00e7ou a manejar e a entender essa personagem, ainda que nesse lugar do riso. H\u00e1 tamb\u00e9m filmes e novelas em que a empregada ou tem essa t\u00f4nica de humor ou aparece sexualizada. Era um padr\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Isso mudou?<\/strong><\/p>\n<p>Eu gosto de dar o exemplo da novela <em>Renascer<\/em>. Na primeira vers\u00e3o, de 1992, a In\u00e1cia, empregada dom\u00e9stica de Jos\u00e9 Inoc\u00eancio, s\u00f3 atendia o patr\u00e3o, levava a toalha e surgia como uma esp\u00e9cie de governanta do her\u00f3i da trama. No remake da novela, em 2024, isso muda. Ela tem fam\u00edlia, filhos, conflitos e conta com cenas imensas.<\/p>\n<p>Claro que tem a\u00ed uma pesquisa sobre o que o p\u00fablico quer ver, mas j\u00e1 revela uma mudan\u00e7a. Ningu\u00e9m olharia In\u00e1cia apenas estendendo a cama do Jos\u00e9 Inoc\u00eancio porque n\u00e3o pega bem. Os autores foram obrigados a criar conflitos, problemas, contradi\u00e7\u00f5es e hist\u00f3rias paralelas para essa personagem.<\/p>\n<p>Importante salientar que essa \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o que vem das mulheres e do movimento feminista negro. Nada foi dado. Isso \u00e9 fruto de muita conquista, muita luta e muita grita.<\/p>\n<p><strong>Quando as trabalhadoras dom\u00e9sticas come\u00e7am a ganhar espa\u00e7o na literatura?<\/strong><\/p>\n<p>A partir de 2015 \u00e9 poss\u00edvel ver uma mudan\u00e7a simb\u00f3lica em muitos campos. A trabalhadora dom\u00e9stica at\u00e9 ent\u00e3o completamente invisibilizada na literatura, come\u00e7a a aparecer como personagem e seus conflitos s\u00e3o trazidos para o centro da trama. Como protagonista tem menos de 10 anos, mas h\u00e1 um movimento.<\/p>\n<p>Demorou muito, mas as editoras e os eventos liter\u00e1rios est\u00e3o atentos. A pr\u00f3pria Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (FLIP), que recebeu muitas queixas por n\u00e3o ter autores negros, fez uma reviravolta sob a curadoria da Jos\u00e9lia. Hoje, a literatura n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 composta de publicit\u00e1rios em crise existencial, nem s\u00f3 de herdeiros.<\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos muito ler mais essas hist\u00f3rias, conviver com elas, povoar e ampliar a nossa imagina\u00e7\u00e3o. Em 2015, n\u00f3s tivemos o filme <em>Que horas ela volta?<\/em>\u00a0aplaudido de p\u00e9 nos cinemas, que foi uma revolu\u00e7\u00e3o. Depois veio o clipe <em>Boa Esperan\u00e7a<\/em> do Emicida, onde os trabalhadores botam fogo nos patr\u00f5es. Ele convocou para o elenco as amigas trabalhadoras dom\u00e9sticas da sua m\u00e3e, para que elas colocassem toda sua raiva na dramaturgia.<\/p>\n<p><strong>A que voc\u00ea atribui essas mudan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2015, n\u00f3s tivemos Lei do Feminic\u00eddio e Lei das Dom\u00e9sticas. A lei das cotas s\u00e3o de 2011, ent\u00e3o j\u00e1 tinha um per\u00edodo de vig\u00eancia. Foi a grande pol\u00edtica p\u00fablica que tivemos nos \u00faltimos anos com efeito claro de modula\u00e7\u00e3o da mobilidade social, acompanhada de pol\u00edticas como Bolsa Fam\u00edlia e Luz para Todos.<\/p>\n<p>Isso tudo teve um efeito simb\u00f3lico, porque os filhos dessas trabalhadoras entraram na universidade e est\u00e3o escrevendo as hist\u00f3rias de suas m\u00e3es, av\u00f3s e tias. N\u00e3o \u00e9 que os autores est\u00e3o mais benevolentes e a elite branca que escreve e publica est\u00e1 olhando o pa\u00eds com mais generosidade. Tem um pouco disso, mas n\u00e3o \u00e9 isso.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 que os filhos, netos e sobrinhos de uma classe historicamente apartada come\u00e7aram a questionar essa realidade. Em muitos romances n\u00f3s lemos \u201cdedico esse romance \u00e0 minha av\u00f3 que foi trabalhadora dom\u00e9stica\u201d, \u201c\u00e0 minha m\u00e3e\u201d, \u201c\u00e0 hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia\u201d. Estamos vivendo um momento de revis\u00e3o simb\u00f3lica e est\u00e9tica muito importante. As placas tect\u00f4nicas se moveram entre 2011 e 2015, e a literatura brasileira reflete isso.<\/p>\n<p><strong>Quando as trabalhadoras dom\u00e9sticas come\u00e7am a ganhar protagonismo?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2015, come\u00e7am a surgir as primeiras narradoras e algumas hist\u00f3rias j\u00e1 mais centralizadas e complexas, mas \u00e9 a partir de 2018 que vemos sistematicamente trabalhadoras dom\u00e9sticas como protagonistas e o mais interessante, o trabalho dom\u00e9stico vira um tema e passa a ser problematizado.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma cena em <em>Perifobia<\/em>, de L\u00edlia Guerra, em que a faxineira revida a patroa, como Lima Barreto fazia l\u00e1 tr\u00e1s. Ela diz \u201cn\u00e3o vou trabalhar hoje, voc\u00ea est\u00e1 me explorando\u201d. Isso acontece sem ser did\u00e1tico porque quando, do nada, a personagem vira hero\u00edna, ocorre aquilo que Hills Collins alerta sobre o controle, de que um estere\u00f3tipo positivo \u00e9 tamb\u00e9m um estere\u00f3tipo. \u00c9 preciso ter cuidado com o controle da imagem.<\/p>\n<p>A Lilia \u00e9 uma grande not\u00edcia da nossa literatura. Ela tem uma rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica e uma disposi\u00e7\u00e3o muito contra-colonial, como diz Negro Bispo, de incorporar a oralidade na linguagem estrutural. H\u00e1 um conto dela chamado <em>O Dia de Gra\u00e7a<\/em> sobre uma mulher que est\u00e1 fritando sardinha, ou seja, \u00e9 o trabalho dom\u00e9stico que faz parte da vida cotidiana, n\u00e3o representado de forma negativa.<\/p>\n<p>Essa carpintaria do cotidiano era muito pouco mostrada, temos o poema cl\u00e1ssico da Ad\u00e9lia Prado limpando um peixe, mas nos contos da Lilia, o trabalho dom\u00e9stico entra de forma muito natural e org\u00e2nica. N\u00e3o s\u00e3o romances que se passam em viagens \u00e0 Europa olhando pela janela do trem, \u00e9 o nosso dia a dia.<\/p>\n<p>Ela retrata muito cenas de comunidades. Um dos contos traz a hist\u00f3ria de um banco que algu\u00e9m construiu na frente de um varal p\u00fablico, usado por todos na comunidade. Se voc\u00ea colocar o len\u00e7ol ali e n\u00e3o ficar vigiando, algu\u00e9m pode pegar, ent\u00e3o, a hist\u00f3ria \u00e9 a personagem pensando sentada neste banco, enquanto espera o len\u00e7ol secar. Ela nos convida a entrar no universo dessas personagens, em cenas originais, inesperadas e incomuns na literatura.<\/p>\n<p><strong>A maior parte desses romances s\u00e3o escritas por mulheres ou esse foi seu recorte?<\/strong><\/p>\n<p>A maior parte \u00e9 escrito por mulheres, isso \u00e9 cient\u00edfico. N\u00f3s estamos em uma fase de transi\u00e7\u00e3o muito importante e vem surgindo personagens cada vez mais complexas. Al\u00e9m disso, as s\u00e9ries de TV j\u00e1 est\u00e3o come\u00e7ando a comprar os direitos desses romances. \u00c9 um movimento, como afirma [a escritora] Cidinha Silva, que n\u00e3o tem mais volta. N\u00e3o \u00e9 uma moda liter\u00e1ria, n\u00f3s estamos aprendendo a enxergar o Brasil na literatura de forma muito mais ampla. \u00c9 um convite a novas cenas, novas personagens. Uma oxigena\u00e7\u00e3o na nossa literatura.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea citou <em>Perifobia<\/em>, da Lilia, eu gostaria que voc\u00ea trouxesse aqui outros romances contempor\u00e2neos para os leitores de Opera Mundi.<\/strong><\/p>\n<p>Eu analiso mais detalhadamente quatro romances, o <em>Perifobia<\/em>, da Lilia Guerra, <em>Solit\u00e1ria<\/em>, da Eliana Neves Cruz, <em>Com Armas Sonolentas<\/em>, da Carola Svedra, e <em>Sweet Talk<\/em> da Giovana Madal\u00f3s.<\/p>\n<p>Em <em>Solit\u00e1ria<\/em>, o quarto da empregada fala. Ele \u00e9 personificado e tem voz. O livro traz a hist\u00f3ria de uma m\u00e3e trabalhadora dom\u00e9stica e sua filha, muito pr\u00f3ximo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de <em>Que Horas Ela Volta?<\/em>. Essa filha questiona o trabalho da m\u00e3e e a estimula a ser mais altiva. A\u00ed as pessoas dizem, \u201cah, \u00e9 realismo m\u00e1gico\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><em>Sweet Talk<\/em>\u00a0conta a hist\u00f3ria de uma bab\u00e1 que rapta o filho da patroa e sai viajando de \u00f4nibus pelo Brasil, \u00e9 um road book. O interessante \u00e9 que as duas est\u00e3o dando seu ponto de vista de maneira paralela no romance. N\u00e3o \u00e9 o ponto de vista s\u00f3 da patroa, como seria antigamente.<\/p>\n<p>J\u00e1 em <em>Com Armas Sonolentas<\/em>, h\u00e1 uma capivara que aconselha a personagem que \u00e9 trabalhadora dom\u00e9stica. Tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 realismo fant\u00e1stico, porque a ancestralidade \u00e9 importante para a personagem, conversar com entes mortos \u00e9 parte da sua cosmovis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 um olhar contra-colonial que o Nego Bispo traz. Em vez de dizer \u201cah, realismo m\u00e1gico\u201d, como as cr\u00edticas mais imediatas, \u00e9 preciso entender que no pensamento contracolonial, a natureza \u00e9 personagem na dramaturgia. Essa \u00e9 a vis\u00e3o ind\u00edgena, quilombola. O A\u00edlton Krenak fala o tempo todo que a natureza \u00e9 t\u00e3o importante quanto os humanos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea citou o Nego Bispo, eu queria que voc\u00ea trouxesse essas refer\u00eancias te\u00f3ricas que voc\u00ea usou na an\u00e1lise desses livros.<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o poderia analisar esses romances que est\u00e3o trazendo tantas novidades, com os mesmos olhos de uma cr\u00edtica liter\u00e1ria tradicional, antiga e eurocentrada. Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho como colocar outros olhos em mim, que sou uma mulher branca e trago muitas refer\u00eancias eurocentradas, mas posso colocar novos \u00f3culos, digamos assim.<\/p>\n<p>Os \u00f3culos que uso para ler esses livros s\u00e3o os da cr\u00edtica feminista, conceito muito trabalhado pela minha orientadora, Eur\u00eddice Figueiredo, que consiste em analisar uma obra questionando, por exemplo, como o corpo dessa mulher est\u00e1 apresentado na narrativa. E n\u00e3o \u00e9 apenas se ela est\u00e1 sendo objetificada ou sexualidade, mas se os dilemas femininos est\u00e3o presentes no texto. Fala-se sobre menstrua\u00e7\u00e3o, herpes, amamenta\u00e7\u00e3o, ass\u00e9dio sexual, em suma, dilemas que o corpo feminino sofre no mundo? Essas quest\u00f5es est\u00e3o minimamente trabalhadas ou se n\u00e3o est\u00e3o, isso faz falta? Isso coloca a narrativa para andar?<\/p>\n<p>Outra coisa \u00e9 a linguagem faloc\u00eantrica, ou seja, com personagens masculinos muito bem descritos, enquanto as personagens femininas s\u00e3o estereotipadas. H\u00e1 tamb\u00e9m casos em que a mulher sempre termina morta, assassinada, encarcerada. Como \u00e9 o final dela? Ela d\u00e1 um jeito ou n\u00e3o? Ou o fato dela ser subjugada, humilhada, violentada \u00e9 mais um romance sobre isso ou um motor para a den\u00fancia?<\/p>\n<p>A cr\u00edtica liter\u00e1ria feminista nos convida a olhar os romances de outra forma. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 se o tempo \u00e9 cronol\u00f3gico, psicol\u00f3gico, qual o ponto de vista do narrador, como a personagem foi constru\u00edda, ferramentas b\u00e1sicas e maravilhosas da cr\u00edtica liter\u00e1ria. \u00c9 necess\u00e1rio ir al\u00e9m e \u00e9 isso que a cr\u00edtica feminista permite. Ela nos convoca a n\u00e3o aceitar o mundo como ele \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia o impacto desse novo olhar para a literatura?<\/strong><\/p>\n<p>Pode parecer uma grande lista de cobran\u00e7a, mas n\u00e3o \u00e9. Na realidade, \u00e9 uma grande lista de janelas que podemos abrir para os romances. Essa cr\u00edtica torna a leitura mais rica, mais convidativa e mais sensorial tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Eu tento fazer uma cr\u00edtica liter\u00e1ria feminista, decolonial, antirracista e anticapitalista. Sou professora de universidade p\u00fablica e te garanto que n\u00f3s passamos a ser muito mais questionados pelos alunos. Eles n\u00e3o aceitam mais ementas eurocentradas e brancas. Esse \u00e9 o nosso dever. Guerreiro Ramos fala muito que o racismo \u00e9 um problema dos brancos. Isso precisa ser mudado a partir de n\u00f3s. N\u00f3s precisamos olhar essa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A capa do <em>Quirinas<\/em>, por exemplo, \u00e9 da Manuela Navas, uma artista visual maravilhosa que sempre pinta as mulheres negras em situa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio, relaxamento, dan\u00e7ando e sendo felizes. Eu quis muito trazer essa mulher olhando o horizonte na capa.<\/p>\n<p>As pessoas precisam ler mais as autoras brasileiras. H\u00e1 tamb\u00e9m muitos filmes, como \u201cAqui n\u00e3o entra luz\u201d da Carol Maia, que est\u00e1 em cartaz. Elas est\u00e3o descolonizando o nosso olhar de forma sistem\u00e1tica. Precisamos fugir dos estere\u00f3tipos e mudar o nosso olhar, em especial, sobre as trabalhadoras dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>O download do livro <em>Quirinas: a trabalhadora dom\u00e9stica como protagonista na literatura brasileira contempor\u00e2nea<\/em> (Editora Pangeia\/EdUff) est\u00e1 dispon\u00edvel neste link.<\/p>\n<p>O post \u2018Quirinas\u2019 traz levantamento in\u00e9dito sobre trabalhadoras dom\u00e9sticas na literatura brasileira apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nao-existe-bolsonarismo-democratico-diz-boulos-em-joao-pessoa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Em entrevista a Opera Mundi, a acad\u00eamica afirma [\u2026]<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opera-entrevista\/quirinas-traz-levantamento-inedito-sobre-trabalhadoras-domesticas-na-literatura-brasileira\/\">\u2018Quirinas\u2019 traz levantamento in\u00e9dito sobre trabalhadoras dom\u00e9sticas na literatura brasileira<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87606,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[45,9853,7213,7806,8723,2859,8,58767,6263,58768,229,5083],"tags":[],"class_list":["post-87605","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-capes","category-colonizacao","category-descolonizacao","category-domesticas","category-feminismo","category-literatura","category-mariana-filgueiras","category-opera-entrevista","category-premio-capes","category-racismo","category-uff"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87605"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87605\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87606"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}