{"id":87683,"date":"2026-05-18T15:20:46","date_gmt":"2026-05-18T18:20:46","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reforma-agraria-popular-e-saida-para-crise-climatica-e-fome-diz-stedile-em-entrevista\/"},"modified":"2026-05-18T15:20:46","modified_gmt":"2026-05-18T18:20:46","slug":"reforma-agraria-popular-e-saida-para-crise-climatica-e-fome-diz-stedile-em-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reforma-agraria-popular-e-saida-para-crise-climatica-e-fome-diz-stedile-em-entrevista\/","title":{"rendered":"Reforma Agr\u00e1ria Popular \u00e9 sa\u00edda para crise clim\u00e1tica e fome, diz Stedile em entrevista"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/MST-doa-7-toneladas-alimentos-natal-da-reforma-agraria-popular-dezembro-2020-Parana-foto-Thome-Ortega-1-1536x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/MST-doa-7-toneladas-alimentos-natal-da-reforma-agraria-popular-dezembro-2020-Parana-foto-Thome-Ortega-1-1536x1024-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/MST-doa-7-toneladas-alimentos-natal-da-reforma-agraria-popular-dezembro-2020-Parana-foto-Thome-Ortega-1-1536x1024-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/MST-doa-7-toneladas-alimentos-natal-da-reforma-agraria-popular-dezembro-2020-Parana-foto-Thome-Ortega-1-1536x1024-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/MST-doa-7-toneladas-alimentos-natal-da-reforma-agraria-popular-dezembro-2020-Parana-foto-Thome-Ortega-1-1536x1024-1.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Thome Ortega<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>Abril \u00e9 um m\u00eas de mem\u00f3ria e luta para o MST, marcado pelo trig\u00e9simo anivers\u00e1rio do massacre de Eldorado de Caraj\u00e1s, um acontecimento que reverbera internacionalmente como s\u00edmbolo da resist\u00eancia camponesa. Em entrevista exclusiva ao jornal su\u00ed\u00e7o <em>Le Courrier<\/em>, Jo\u00e3o Pedro Stedile reflete sobre o significado dessa jornada e a urg\u00eancia da Reforma Agr\u00e1ria Popular como uma estrat\u00e9gia central, n\u00e3o apenas para os trabalhadores Sem Terra, mas como um projeto de soberania alimentar e justi\u00e7a social que desperta o interesse e a solidariedade global.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o pa\u00eds vive uma conjuntura desafiadora, em que a estagna\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica de terras e a press\u00e3o do agroneg\u00f3cio imp\u00f5em barreiras ao desenvolvimento de um projeto popular para o campo. Diante de um cen\u00e1rio pol\u00edtico complexo e da necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas estruturantes, o Movimento se articula para debater as sa\u00eddas para a crise, o impacto de acordos como o Mercosul-Uni\u00e3o Europeia e a import\u00e2ncia de retomar a mobiliza\u00e7\u00e3o de base para garantir direitos fundamentais.<\/p>\n<p>Confira:<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"534\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-8.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-8.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/image-7-8-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/image-7-8-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile. Foto: Rafa Stedile<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Abril \u00e9 um momento de mobiliza\u00e7\u00e3o para o MST, e esse ano o Movimento marcou o trig\u00e9simo anivers\u00e1rio do massacre de Eldorado de Caraj\u00e1s. Qual foi a soma da jornada de mobiliza\u00e7\u00e3o e quais foram as principais reivindica\u00e7\u00f5es do Movimento?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a Jornada de Abril \u00e9 uma data hist\u00f3rica do nosso Movimento h\u00e1 30 anos, desde o massacre em abril de 96. Em 1997, fizemos uma grande marcha a Bras\u00edlia que partiu de tr\u00eas estados brasileiros: Minas Gerais, Mato Grosso e S\u00e3o Paulo. Posteriormente, com os anos, aproveitamos a mem\u00f3ria dos m\u00e1rtires que perderam a vida para nos mobilizarmos.<\/p>\n<p>O principal das nossas mobiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 conscientizar a sociedade brasileira sobre a necessidade da reforma do sistema baseado a partir da Reforma Agr\u00e1ria e concess\u00f5es de uma ocasi\u00e3o para a sociedade brasileira de que agora a Reforma Agr\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 apenas um problema do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, mas \u00e9 uma maneira de resolver os problemas do povo brasileiro, a fome, a superprodu\u00e7\u00e3o de produtos alimentares saud\u00e1veis e da agroecologia como uma alternativa ao modelo predador do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>N\u00f3s formamos uma comiss\u00e3o que foi a Bras\u00edlia para negocia\u00e7\u00e3o com o governo federal. Os pontos de negocia\u00e7\u00e3o foram sobre alguns dos problemas mais urgentes que h\u00e1 no momento, como conflitos que h\u00e1 alguns anos perduram. Sobretudo, no estado do Par\u00e1, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, onde h\u00e1 um acampamento com 7 mil fam\u00edlias. <strong>Essa \u00e9 a maior ocupa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do MST e da Am\u00e9rica Latina, se n\u00e3o de todo o sul global. <\/strong>Denunciamos tamb\u00e9m que a Reforma Agr\u00e1ria est\u00e1 paralisada, ao contr\u00e1rio do que diz a sua propaganda, e que, no pa\u00eds, n\u00f3s continuamos com quase 100 mil fam\u00edlias acampadas em todo o Brasil.<\/p>\n<p><strong>Desde a sua funda\u00e7\u00e3o h\u00e1 40 anos, o MST luta pela Reforma Agr\u00e1ria e contra a concentra\u00e7\u00e3o de terras no Brasil. Qual \u00e9 a causa dessa Reforma Agr\u00e1ria? Pois ela existe, ela \u00e9 necess\u00e1ria, ela avan\u00e7a? Voc\u00ea j\u00e1 falou, mas se voc\u00ea puder dizer com unidade.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s mudamos nossa concep\u00e7\u00e3o sobre a Reforma Agr\u00e1ria. Durante os 30 anos do MST, a nossa vis\u00e3o era de Reforma Agr\u00e1ria para distribuir a terra das \u00e1reas de latif\u00fandio para os trabalhadores Sem Terra e, com isso, desenvolver o mercado interno, a ind\u00fastria e o pa\u00eds como um todo. Para que a Reforma Agr\u00e1ria assim fosse um motor econ\u00f4mico, como aconteceu em pa\u00edses da Europa, al\u00e9m de Estados Unidos e Jap\u00e3o. Por\u00e9m, para que aquela reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica se viabilizasse, nestes pa\u00edses, seria necess\u00e1rio que a burguesia industrial tamb\u00e9m se interessasse por esse plano. N\u00e3o foi o que aconteceu no Brasil. O momento mais pr\u00f3ximo que houve de uma Reforma Agr\u00e1ria no Brasil foi na d\u00e9cada de 60, no governo de Jo\u00e3o Goulart. E a resposta que a burguesia deu foi um golpe militar que durou 20 anos.<\/p>\n<p>Agora, compreendemos que a Reforma Agr\u00e1ria tem outras caracter\u00edsticas e natureza. \u00c9 preciso fazer mudan\u00e7as no campo que atendam a toda a sociedade e n\u00e3o s\u00f3 aos trabalhadores Sem Terra. Por isso a chamamos de <strong>Reforma Agr\u00e1ria Popular<\/strong>, para se diferenciar da outra. E essa Reforma Agr\u00e1ria Popular incorpora a necessidade de democratiza\u00e7\u00e3o da propriedade da terra e a defesa da natureza. Isso \u00e9 importante para enfrentar as agress\u00f5es que o capital faz e que provocam as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis, a ado\u00e7\u00e3o da agroecologia como tecnologia necess\u00e1ria para produzir alimentos saud\u00e1veis e a difus\u00e3o da agroind\u00fastria como uma maneira de levar desenvolvimento para as \u00e1reas conquistadas que n\u00f3s chamamos de assentamentos.<\/p>\n<p><strong>Quais os principais desafios dessa Reforma Agr\u00e1ria Popular agora?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, nos \u00faltimos anos, consolidou-se a hegemonia do modelo do capital, o agroneg\u00f3cio, que se baseia em grandes fazendas monocultoras que se dedicam apenas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de <em>commodities <\/em>para exporta\u00e7\u00e3o. Ele tem um discurso que \u00e9 hegem\u00f4nico na m\u00eddia: faz propaganda todos os dias, inclusive nos telejornais. Mas ele \u00e9 hegem\u00f4nico tamb\u00e9m no governo, que, apesar de ser um governo progressista, abandonou a ideia de fazer a reforma agr\u00e1ria e se dedica apenas a atender a conflitos pontuais e a atender \u00e0s camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1, dentro do governo Lula, um comprometimento pol\u00edtico e destina\u00e7\u00e3o de recursos para de fato implementar um plano de Reforma Agr\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Houve algum avan\u00e7o nas pol\u00edticas destinadas aos pequenos camponeses no atual governo Lula?<\/strong><\/p>\n<p>Os avan\u00e7os no \u00faltimo governo foram pol\u00edticas complementares que ajudaram, mas n\u00e3o a estrutura\u00e7\u00e3o suficiente do acesso \u00e0 terra. De certa forma, s\u00e3o pol\u00edticas que sustentam o atendimento a um segmento do campesinato mais consolidado, como os camponeses dos assentamentos (terrenos e instala\u00e7\u00f5es permanentes de fam\u00edlias). Mas n\u00e3o nos acampamentos (ocupa\u00e7\u00f5es, instala\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias). Para os pobres trabalhadores que est\u00e3o nos acampamentos, a \u00fanica pol\u00edtica que chega do governo \u00e9 o Bolsa Fam\u00edlia, que \u00e9 uma renda assistencial, mas n\u00e3o resolve o problema. H\u00e1 outras pol\u00edticas que s\u00e3o positivas e que est\u00e3o relacionadas com o incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso do Programa de Compra Antecipada de Alimentos.<\/p>\n<p>Ele [o Bolsa Fam\u00edlia] tinha sido abandonado pelos governos anteriores de Michel Temer e Jair Bolsonaro, e foi revitalizado pelo governo do presidente Lula. Isso deu um alento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos, mas ainda assim est\u00e1 aqu\u00e9m das necessidades. Existe tamb\u00e9m o programa de merenda escolar, que faz com que as escolas p\u00fablicas passem a comprar produtos da agricultura familiar. O processo n\u00e3o se resume a simplesmente fazer editais e comprar de multinacionais, como acontecia no passado.<\/p>\n<p><strong>Mas esse \u00e9 um governo que tamb\u00e9m teve que lidar com um parlamento que foi hostil na maior parte do per\u00edodo. Houve avan\u00e7os para o campo popular para al\u00e9m das pautas da Reforma Agr\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>A conjuntura da luta de classes no Brasil \u00e9 dif\u00edcil e ainda conta com for\u00e7as que pouco atendem \u00e0s necessidades da classe trabalhadora em geral. Isso est\u00e1 relacionado com fatores que n\u00e3o dependem do governo. Por um lado, o avan\u00e7o do capitalismo, que, de certa forma, est\u00e1 colonizando a economia brasileira. O objetivo \u00fanico do capitalismo internacional \u00e9 fazer com que o Brasil produza produtos de forma extrativista, como soja, milho, algod\u00e3o, cana-de-a\u00e7\u00facar e pecu\u00e1ria bovina, assim como <em>commodities <\/em>minerais para exporta\u00e7\u00e3o. Estamos sofrendo um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Pior ainda, n\u00f3s n\u00e3o temos um projeto de pa\u00eds. Isso n\u00e3o aglutina for\u00e7as em todos os espa\u00e7os. Por outro lado, assim como est\u00e3o h\u00e1 d\u00e9cadas em um per\u00edodo adverso de desconhecimento do movimento. De certa forma, a classe trabalhadora n\u00e3o tem for\u00e7a e terceiriza as mobiliza\u00e7\u00f5es de massa para influenciar as pol\u00edticas p\u00fablicas. A pol\u00edtica brasileira est\u00e1 na cara da mediocridade e \u00e9 controlada pelo Congresso, que \u00e9 de direita, ou pelo Poder Judici\u00e1rio, que \u00e9 conservador. De maneira que, no contexto geral, estamos vivendo um per\u00edodo adverso para os interesses da classe trabalhadora e a classe trabalhadora n\u00e3o tem for\u00e7as para se reerguer e retomar a ofensiva.<\/p>\n<p><strong>Mas, de toda maneira, voc\u00ea considera que a vit\u00f3ria do Lula depois de um governo Bolsonaro tenha sido, de alguma maneira, uma vit\u00f3ria para o campo popular, mesmo que n\u00e3o seja um governo de esquerda no sentido cl\u00e1ssico?<\/strong><\/p>\n<p>O MST enfrentou o governo Temer, que era um governo de cunho fascista, e enfrentou o governo Bolsonaro. Os dois governos foram governados pelo capital financeiro. Eles n\u00e3o tinham como se impor sobre o grande capital. Tiraram a Dilma, prenderam o Lula e puseram dois governos fascistas. Evidentemente que cabia ao MST e \u00e0s for\u00e7as populares lutar pela liberta\u00e7\u00e3o do Lula, sua elei\u00e7\u00e3o, e ocupar o poder depois. A elei\u00e7\u00e3o do Lula era uma forma de frear o avan\u00e7o das ideias fascistas e da domina\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro sobre a nossa economia.<\/p>\n<p><strong>E quais s\u00e3o os desafios que voc\u00ea v\u00ea para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais do Brasil esse ano na conjuntura latino-americana? O que representa essa elei\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s seguiremos enfrentando o desafio de reeleger o Lula. Mas n\u00f3s acreditamos que \u00e9 preciso, nos pr\u00f3ximos meses, fazer uma campanha eleitoral que ajude a esclarecer o povo e a educar a popula\u00e7\u00e3o para os graves problemas do Brasil, como a desigualdade e as injusti\u00e7as. Para fazer esse trabalho n\u00e3o basta simplesmente dizer: \u201co Lula \u00e9 melhor que o Bolsonaro. O Bolsonaro \u00e9 fascista e o Lula \u00e9 progressista\u201d. Isso \u00e9 \u00f3bvio, mas n\u00f3s temos que aproveitar a campanha para fazer uma pol\u00edtica de educa\u00e7\u00e3o. Motivar a popula\u00e7\u00e3o a lutar para resolver os seus problemas imediatos, como, por exemplo, defender a tarifa zero para o transporte p\u00fablico. N\u00f3s defendemos que a jornada de trabalho seja reduzida para 36 horas por semana. Assim como defendemos a necessidade de que haja pol\u00edticas p\u00fablicas para reindustrializar o pa\u00eds, para com isso criar empregos com renda mais elevada e uma pol\u00edtica mais ofensiva para a constru\u00e7\u00e3o de moradias populares. Tamb\u00e9m temos que ampliar o acesso da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e gratuita, em todos os n\u00edveis, desde a creche infantil at\u00e9 a universidade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 por isso que o Lula corre risco de n\u00e3o ganhar, porque em tr\u00eas anos e meio de um governo progressista, n\u00e3o se alterou a inten\u00e7\u00e3o de voto da popula\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 grave. Para superar e motivar, sobretudo, o convencimento dos que est\u00e3o indefinidos, que s\u00e3o 10% da popula\u00e7\u00e3o e que ir\u00e3o definir a elei\u00e7\u00e3o. N\u00f3s precisamos debater com essa popula\u00e7\u00e3o as medidas concretas com as quais o governo Lula tem que se comprometer quando ganhar as elei\u00e7\u00f5es. E isso ajudar\u00e1 a politizar o debate, ajudar\u00e1 a conscientizar a popula\u00e7\u00e3o em vez de simplesmente cair num reducionismo de que \u201co Lula \u00e9 melhor que o Bolsonaro porque o Bolsonaro \u00e9 fascista e o Lula \u00e9 progressista\u201d. A participa\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais nas elei\u00e7\u00f5es ser\u00e1, nesse sentido, para animar esse debate e eles v\u00e3o se engajar na campanha, de qualquer maneira.<\/p>\n<p>Claro, todos os movimentos populares, o MST e o movimento sindical, est\u00e3o todos na campanha. A nossa tarefa vai ser no trabalho de base, na periferia. Ir de casa em casa, com subs\u00eddios did\u00e1ticos que ajudem a empreender o que n\u00f3s estamos fazendo de modo a viver bem, para n\u00e3o botar a culpa dos seus problemas no Lula. O papel do movimento popular \u00e9 dialogar com essas camadas da sociedade, em especial os mais pobres, que s\u00e3o os que vivem nas periferias, onde as pessoas de baixa renda muitas vezes se encontram.<\/p>\n<p><strong>Agora, a extrema-direita continua com uma base de votos importante, apesar da derrota do Bolsonaro. Como explicar essa parcela importante de inten\u00e7\u00e3o de voto que a extrema-direita ainda tem?<\/strong><\/p>\n<p>A sondagem de votos est\u00e1 equilibrada: 40% dos eleitores fazem parte da base do Lula, e outros 40% com a direita. Primeiro, na minha opini\u00e3o, a culpa \u00e9 das poucas mudan\u00e7as significativas no governo Lula em pol\u00edtica que deem melhor suporte \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Todas essas medidas, mesmo que positivas, foram paliativas. Programas sociais n\u00e3o alteram a vida das pessoas. Segundo, a extrema-direita tem for\u00e7a, pois ela tem os aparatos de reprodu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. A direita controla a m\u00eddia, como r\u00e1dios e televis\u00e3o. A direita tem uma grande influ\u00eancia na classe m\u00e9dia, nos m\u00e9dicos, nos professores, que todo dia falam com o povo. A direita tem muita influ\u00eancia no uso de pastores pentecostais, que fazem a propaganda semanal dela.<\/p>\n<p>Trabalhamos com a hip\u00f3tese de que o Lula tem mais chance de ganhar no primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es, desde que a direita se divida em v\u00e1rios candidatos. Al\u00e9m de Fl\u00e1vio Bolsonaro existe a ideia de que h\u00e1 tr\u00eas candidatos da direita que podem, entre eles, representar 3% e 5%, o que poderia alavancar as divis\u00f5es. Nesse caso, amplia as chances de Lula no primeiro turno. Nesse caso, amplia as chances de Lula ganhar no primeiro turno. Se a disputa for para a segundo turno, toda a direita se junta contra ele e deixa a situa\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que o Fl\u00e1vio realmente tem chance de ganhar? E quais os impactos dessa vit\u00f3ria dele?<\/strong><\/p>\n<p>A candidatura de Bolsonaro \u00e9 que tem chance de ganhar, mas se for para fazer apostas, o Lula tem mais chance de ser reeleito. Agora, se o Fl\u00e1vio Bolsonaro se eleger, vai ser uma reedi\u00e7\u00e3o do governo fascista, igual ao Donald Trump. Portanto, outro fator que pode influenciar as nossas elei\u00e7\u00f5es \u00e9 o comportamento do Trump nos Estados Unidos. Porque a imagem de Bolsonaro est\u00e1 ligada \u00e0 de Trump. Se Fl\u00e1vio Bolsonaro ganhar, vai ter um governo de col\u00f4nia a servi\u00e7o dos interesses dos Estados Unidos. Todos esses candidatos da direita falam, por exemplo, que os minerais chamados de \u201cterras raras\u201d devem ser entregues a empresas americanas, e at\u00e9 mesmo a Petrobras, empresa p\u00fablica de petr\u00f3leo, deveria ser vendida. Eles n\u00e3o t\u00eam pudor nenhum, como est\u00e1 fazendo o Milei, de pendurar o futuro do Brasil apenas nos interesses das empresas americanas.<\/p>\n<p><strong>Agora, entrando no tema Mercosul, os movimentos sociais, o MST, Via Campesina, e movimentos de trabalhadores rurais s\u00e3o contra os acordos da Uni\u00e3o Europeia com o Mercosul. Quais as principais raz\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 90, o neoliberalismo prometia desenvolvimento pelo livre com\u00e9rcio, a ALCA chegou a cogitar o d\u00f3lar como moeda regional. Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, ficou claro que essa l\u00f3gica falha: n\u00e3o desenvolveu for\u00e7as produtivas, n\u00e3o reduziu a desigualdade produtiva e fortaleceu os oligop\u00f3lios. Embarcar nessa ideia ultrapassada seria um erro grave, especialmente quando o mundo inteiro se protege com seu tarif\u00e1rio de volta ao protecionismo e aposta em tecnologia e emprego. Um segundo erro \u00e9 criar depend\u00eancia da Europa, uma economia em decl\u00ednio. Se acordos de livre com\u00e9rcio fizerem sentido, deveriam ser feitos com China, \u00cdndia e Indon\u00e9sia, que s\u00e3o grandes for\u00e7as que dominam a economia global hoje.<\/p>\n<p>Os verdadeiros e \u00fanicos reais benefici\u00e1rios seriam as ind\u00fastrias europeias, sobretudo alem\u00e3s, que inundariam o mercado brasileiro sem pagar impostos, enquanto o mercado agr\u00edcola europeu, j\u00e1 abastecido, n\u00e3o precisa de tarifas menores. O impacto mais cr\u00edtico recai sobre a agricultura familiar: 3 milh\u00f5es de fam\u00edlias dependem do leite, e empresas europeias destruiriam cooperativas com leite em p\u00f3, queijo e derivados, o que j\u00e1 ocorre no Rio Grande do Sul, onde uma cooperativa de 30 anos faliu recentemente pela entrada de produtos europeus sem taxa\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, 50 mil fam\u00edlias produtoras de uva ser\u00e3o diretamente atingidas pela concorr\u00eancia de vinhos e sucos europeus isentos de impostos.<\/p>\n<p><strong>Como explicar esse div\u00f3rcio nessa quest\u00e3o entre os movimentos, entre os pequenos produtores, movimentos sociais e o governo?<\/strong><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m consegue explicar. Primeiro, \u00e9 uma vaidade do Itamaraty. Fazia 20 anos que esse acordo vinha sendo negociado. Existe a expectativa de constante insist\u00eancia nisso como conquista dessa gest\u00e3o. Segundo, porque o Lula tem, eu acho, n\u00e3o sei qual a vis\u00e3o que ele tem. Mas ele se baseia na pol\u00edtica externa em amizade com muitos. Para o Brasil seria mais interessante fazer um s\u00f3 acordo de livre com\u00e9rcio com a \u00c1frica. A \u00c1frica compraria tudo. S\u00f3 assim valeria a pena.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que corre risco de aumento da viol\u00eancia no campo devido ao prop\u00f3sito de expans\u00e3o do Mercosul?<\/strong><\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio, especialmente o da soja e da pecu\u00e1ria bovina, est\u00e1 se expandindo n\u00e3o por causa do mercado europeu. Ele se expande para as florestas em novas \u00e1reas de cultivo e cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 nessas regi\u00f5es de expans\u00e3o que se concentra a maior parte da viol\u00eancia no campo. As principais v\u00edtimas, <br \/>segundo dados da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, s\u00e3o povos ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhos, popula\u00e7\u00f5es que vivem nessas florestas e resistem \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios. Al\u00e9m do agroneg\u00f3cio, a minera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m impulsiona essa viol\u00eancia, disputando terras para a extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de <em>commodities <\/em>minerais. Portanto, essas s\u00e3o as causas de viol\u00eancia no campo nesse momento no Brasil: exporta\u00e7\u00e3o de <em>commodities <\/em>minerais e agr\u00edcolas.<\/p>\n<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/05\/18\/reforma-agraria-popular-e-saida-para-crise-climatica-e-fome-diz-stedile-em-entrevista\/\">Reforma Agr\u00e1ria Popular \u00e9 sa\u00edda para crise clim\u00e1tica e fome, diz Stedile em entrevista<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dia-do-trabalhador-100-anos-de-luta-de-classe-no-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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