{"id":87732,"date":"2026-05-18T17:26:25","date_gmt":"2026-05-18T20:26:25","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/do-sionismo-liberal-ao-antissionismo\/"},"modified":"2026-05-18T17:26:25","modified_gmt":"2026-05-18T20:26:25","slug":"do-sionismo-liberal-ao-antissionismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/do-sionismo-liberal-ao-antissionismo\/","title":{"rendered":"Do sionismo liberal ao antissionismo"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1125\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4927122775181299252_w-2048x1536.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/18172050\/photo_4927122775181299252_w-1500x1125.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/18172050\/photo_4927122775181299252_w-300x225.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/18172050\/photo_4927122775181299252_w-768x576.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/18172050\/photo_4927122775181299252_w-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4927122775181299252_w-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: David Rosenberg<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>MAIS:<br \/><\/strong>Texto em tr\u00eas partes. Leia a primeira aqui. <\/p>\n<p>Na parte dois dessa s\u00e9rie de ensaios apresento a trajet\u00f3ria pessoal em que passei do sionismo liberal ao antissionismo. Duas fases da minha vida s\u00e3o importantes aqui: a do sionista liberal n\u00e3o praticante e, depois, a do n\u00e3o sionista e cr\u00edtico de Israel. Ainda tenho dificuldade em superar a barreira de me identificar como antissionista, mas explico isso mais adiante. A fase de sionista liberal, entre meus 20 e 30 anos, j\u00e1 foi abordada. Israel tornou-se cada vez menos importante na minha vida, eu j\u00e1 divergia de amigos judeus em muitos pontos, mas fora desse c\u00edrculo ainda fazia a linha do \u201cveja bem, Israel tamb\u00e9m precisa se defender e est\u00e1 cercado de inimigos\u201d. Ali come\u00e7ou o meu limbo de identidade: n\u00e3o me encaixava na vis\u00e3o judaica predominante, mas o microcosmo das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais era mais cr\u00edtico a Israel do que eu. Ainda ressoava em mim o mantra de que os cr\u00edticos de Israel eram, no fundo, antissemitas, embora eu concordasse com boa parte dos seus argumentos.<\/p>\n<p>Quando morei no Rio de Janeiro em fun\u00e7\u00e3o do doutorado no PEPI-UFRJ (nos idos de 2015 e 2016) passei a frequentar o <em>Hillel<\/em>, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de centro cultural para a juventude judaica com pitadas nada modestas de sionismo. Ainda assim, assisti a palestras, me conectei com pessoas interessantes e vi que a judaicidade ia muito al\u00e9m de Israel. Inclusive, aprendi muito sobre a hist\u00f3ria judaica no Rio, suas v\u00e1rias sinagogas, a mistura de sefaradim e ashkenazim e descobri institui\u00e7\u00f5es progressistas como a Associa\u00e7\u00e3o Sholem Aleichem (a ASA). Enfim, uma variedade cultural e ideol\u00f3gica in\u00e9dita para quem vinha de Curitiba.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--26.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--26.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Talvez a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro em 2018 tenha sido o gatilho para o meu salto antissionista. Eu estava com 31 anos, rec\u00e9m-empossado como professor de RI na UFSM e via a maior parte das institui\u00e7\u00f5es judaicas do Brasil se dobrarem \u00e0 extrema-direita, pois Bolsonaro era \u201camigo de Israel\u201d, havia v\u00e1rios judeus no seu governo e ele recebera Netanyahu com altas honrarias diplom\u00e1ticas. As barbaridades que Israel aplicava na popula\u00e7\u00e3o civil palestina agora serviam de inspira\u00e7\u00e3o para o novo governo brasileiro: punitivismo, fanatismo religioso, militariza\u00e7\u00e3o da sociedade, ca\u00e7a \u00e0s bruxas ideol\u00f3gica e persegui\u00e7\u00e3o a minorias. Mais do que isso, no Brasil se via vocabul\u00e1rio e ideias nazistas no pr\u00f3prio slogan do governo: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Era o <em>Deutschland uber ales<\/em> dos tr\u00f3picos. E essas ideias n\u00e3o ficaram apenas no papel. Durante a pandemia houve o uso de idosos como cobaias para o kit covid (caso da Prevent Senior) e a neglig\u00eancia dolosa na prote\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas que culminou na acusa\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio, al\u00e9m da militariza\u00e7\u00e3o do governo, da guerra contra as universidades federais e outras coisas assombrosas.<\/p>\n<p>Eu ouvia de parentes que haviam perdido entes queridos para a covid o argumento de que votaram em Bolsonaro n\u00e3o apenas em 2018, mas tamb\u00e9m em 2022, por conta da proximidade com Israel. Eu s\u00f3 conseguia pensar: como \u00e9 poss\u00edvel a pessoa votar duas vezes em Bolsonaro mesmo depois de perder um ente querido em decorr\u00eancia da gest\u00e3o criminosa da pandemia? Mais do que indignado, fiquei embasbacado ao ver que nem a morte de um familiar abalava a identidade constru\u00edda ao longo da vida. Detalhe: o falecido se recusara a tomar a vacina em fun\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o do presidente.<\/p>\n<p>O fato de as institui\u00e7\u00f5es judaicas n\u00e3o se oporem a um Bolsonaro amigo de Israel e dos judeus, mas inimigo de outras minorias, me embrulhou o est\u00f4mago. Ali ficava claro que o nunca mais em refer\u00eancia ao Holocausto servia apenas para os judeus, n\u00e3o era a defesa de um nunca mais para outras minorias. Isso porque, no Brasil, os judeus foram \u201cembranquecidos\u201d e deixaram de ser alvo preferencial da persegui\u00e7\u00e3o do Estado. H\u00e1 ilustres e honrosas exce\u00e7\u00f5es ao abra\u00e7o entre a comunidade judaica e a extrema-direita, principalmente entre intelectuais, artistas e pessoas progressistas em geral. Mas, grosso modo, a rua judaica via Bolsonaro como a alternativa menos pior em rela\u00e7\u00e3o a Lula por conta de sua pol\u00edtica externa supostamente antissemita disfar\u00e7ada de pr\u00f3-Palestina.<\/p>\n<p>Passei a me posicionar contra Bolsonaro e sua alian\u00e7a simb\u00f3lica e material com Israel. N\u00e3o fui muito ativo nas redes sociais e este n\u00e3o \u00e9 meu tema de pesquisa, mas era n\u00edtido que a necropol\u00edtica israelense inspirava o governo e a sociedade no Brasil. De vez em quando eu postava no Instagram uma ou outra cr\u00edtica a esses governos, sem muito impacto ou alarde.<\/p>\n<p>A\u00ed veio o ataque brutal do Hamas em 2023 e o subsequente massacre perpetrado por Israel. Ao acompanhar as not\u00edcias, eu me sentia com lugar de fala para criticar a destrui\u00e7\u00e3o de Gaza, j\u00e1 que muitos intelectuais se autocensuravam com medo da pecha de antissemitas. Meu ativismo limitou-se a <em>stories<\/em> de Instagram, discuss\u00f5es com familiares e amigos \u2013 pessoalmente e em grupos de whatsapp \u2013 e manifesta\u00e7\u00f5es de rua. N\u00e3o embarquei nas flotilhas, n\u00e3o doei dinheiro para organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias, n\u00e3o protestei em frente \u00e0 embaixada de Israel e n\u00e3o discursei em eventos pol\u00edticos. Somente em 2025 postei uma s\u00e9rie de v\u00eddeos no Instagram, que duram uns 40 minutos no total, expondo a minha vis\u00e3o sobre o conflito. Ali coloquei para fora dois anos de densas leituras e centenas de horas de podcasts ouvidos. Enfim, um ativismo de sof\u00e1, eu sei. Mas era o que cabia dentro da ang\u00fastia de ver, de longe e impotente, um genoc\u00eddio ser perpetrado por um pa\u00eds que falava em nome da minha tribo.<\/p>\n<h3><em><strong>Ruptura de rela\u00e7\u00f5es pessoais<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>O que mais gerou pol\u00eamica e hostilidade contra mim e minha milit\u00e2ncia de sof\u00e1 foi uma foto em que eu segurava a bandeira da Palestina em uma manifesta\u00e7\u00e3o de rua. No post eu escrevi algo como \u201cse meus av\u00f3s sobreviventes do Holocausto estivessem vivos, teriam orgulho de mim porque eles saberiam reconhecer um genoc\u00eddio\u201d. Entendo que essa postagem foi ofensiva para judeus em v\u00e1rios n\u00edveis: i) era um judeu com bandeira da Palestina; ii) que fazia men\u00e7\u00e3o ao totem sagrado do Holocausto, cometendo a blasf\u00eamia de compar\u00e1-lo a outro genoc\u00eddio e tirando-o do pedestal de sua singularidade; e iii) quem est\u00e1 cometendo o genoc\u00eddio \u00e9 ningu\u00e9m menos do que o pa\u00eds criado por e para sobreviventes da <em>Sho\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p>Soube que essa foto circulou em grupos de whatsapp de conhecidos de Curitiba, de outros lugares e da minha fam\u00edlia. Xingamentos abundaram. Tamb\u00e9m recebi amea\u00e7as. Discuti em grupo de fam\u00edlia, fui exclu\u00eddo por um parente pr\u00f3ximo, que tamb\u00e9m me bloqueou de seus contatos. Meus pais, temendo por minha seguran\u00e7a, me aconselharam a n\u00e3o me manifestar, ainda mais agora que eu estava prestes a me tornar pai. Em suma, a hostilidade a mim n\u00e3o veio da esquerda nem da direita, mas de membros radicalizados da minha pr\u00f3pria tribo. Ou melhor, da minha tribo, que estava radicalizada.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/728x90-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/728x90-3.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/09\/31181756\/728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ao longo desses anos vi e ouvi argumentos absurdos para me fazer mudar de ideia. Um exemplo: fui muito feliz como professor na UFSM, mas eu queria voltar a morar em uma cidade grande e fiz concursos para outras universidades federais. Eu era o primeiro da lista de espera em concursos na UFRGS e na UnB, mas a vaga n\u00e3o abria e o prazo estava se esgotando. Um parente pr\u00f3ximo atribu\u00eda isso a um antissemitismo velado, pois as altas c\u00fapulas do poder n\u00e3o queriam me ver em Bras\u00edlia ou em Porto Alegre. Voc\u00ea escuta uma coisa dessas e pensa: qu\u00e3o delirante e paranoico \u00e9 isso? Qu\u00e3o importante eu ou a minha origem somos a ponto de haver um compl\u00f4 para me manter em uma cidade distante? No fim das contas, fui chamado para uma vaga na UFRGS e c\u00e1 estou, feliz e realizado.<\/p>\n<p>Outro exemplo: fui visitar um amigo que acabara de ser pai. Visita amena, papo furado. At\u00e9 que na despedida ele disse: \u201cacho uma vergonha que voc\u00ea, como intelectual, n\u00e3o tenha se posicionado a favor de Israel\u201d. Eu disse que estava l\u00e1 para conhecer o seu filho e que aquele n\u00e3o era o momento de falar disso. Mas o tom de trai\u00e7\u00e3o \u00e0 tribo foi evidente.<\/p>\n<p>Nas manifesta\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas pelo Instagram em favor da Palestina ou contra a a\u00e7\u00e3o de Israel em Gaza eu recebia algumas mensagens de conhecidos judeus. A maior parte resultou em conversas civilizadas apesar de diverg\u00eancias cruciais que acentuavam a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o. Mas em grupos de whatsapp a coisa era diferente. Em um com tr\u00eas amigos de inf\u00e2ncia o tom era de que a guerra \u00e9 ruim, mas necess\u00e1ria em face ao ataque do Hamas; e eu era conclamado, a todo momento, a comentar algum tipo de maldade cometida contra judeus ou contra Israel. O mantra, repetido por quase todos os judeus que conhe\u00e7o, inclusive ali no grupo, \u00e9 que Israel estava em paz e foi atacado primeiro. Tamb\u00e9m circulava o famigerado mapa do Oriente M\u00e9dio dizendo que os palestinos t\u00eam dezenas de pa\u00edses para onde ir e que os judeus s\u00f3 t\u00eam Israel \u2013 como se o Brasil invadisse o Uruguai e dissesse que os uruguaios poderiam se mudar para a Argentina porque falam espanhol e t\u00eam fortes la\u00e7os culturais. O esfor\u00e7o que exauria minhas energias era o de dizer que isso tudo n\u00e3o come\u00e7ou no sete de outubro e que, como diz a m\u00fasica do Rappa, paz sem voz n\u00e3o \u00e9 paz, \u00e9 medo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m participei de um grupo de whatsapp com judeus ditos progressistas majoritariamente de Porto Alegre, mas tamb\u00e9m de outros lugares do pa\u00eds. Pessoas estudadas que conversavam sobre antissemitismo, antissionismo e a guerra em Gaza. At\u00e9 mesmo nessa bolha do sionismo de esquerda, para cada mensagem de cr\u00edtica \u00e0 direita surgiam dez mensagens de cr\u00edtica \u00e0 esquerda. Uma pesquisadora de antissemitismo chegou a atribuir a Lula a pecha de antissemita por supostamente fazer refer\u00eancia ao libelo de sangue medieval quando disse que Israel estava matando crian\u00e7as. Ora, o fato \u00e9 que Israel estava matando crian\u00e7as de forma sistem\u00e1tica, ao vivo e a cores, e denunciar isso n\u00e3o torna ningu\u00e9m antissemita. Um coment\u00e1rio (do perfil de Luis Kras, que desconhe\u00e7o) na p\u00e1gina do Coletivo Golem Brasil sobre a prefer\u00eancia do progressismo judaico em atacar a esquerda merece a seguinte cita\u00e7\u00e3o direta:<\/p>\n<p>Dos 91 posts do coletivo, 25 s\u00e3o contra a esquerda, destes 15 nominalmente no card de abertura, outros 12 s\u00e3o contra movimentos \u201cditatoriais\u201d, 4 s\u00e3o contra a direita e apenas 2 a favor da esquerda na figura de Vladimir Herzog. Sobre outras ditaduras apoiadas pelos EUA: zero. Sobre genoc!d!os em curso no mundo: zero. Sobre casos de Antissemitismo na direita: zero. Sobre c\u00e9lulas nas!fascistas no Brasil e no mundo: zero. O estranho mundo do progressismo judaico. De resto, sim, existe Antissemitismo na esquerda. Assim como na direita e no centro. Mas n\u00e3o pode ser usado como ar\u00edete para defender a m\u00e1fia que governa Israel. Continuarei fazendo a estat\u00edstica da tendenciosa abordagem do coletivo, assim como v\u00e1rias outras figuras que s\u00f3 cobram coer\u00eancia e valores da esquerda.<\/p>\n<p>Aguentei uns tr\u00eas meses no grupo dos ditos progressistas depois de perceber que estava dando murro em ponta de faca. O peixe fora d\u00b4\u00e1gua ali era eu.<\/p>\n<p>Essa disson\u00e2ncia cognitiva entre valores humanit\u00e1rios e identidade judaica batia cada vez mais forte em mim. Para um dos entrevistados de Bento (2025, p. 151) h\u00e1 padr\u00f5es nesse momento inicial, uma sensa\u00e7\u00e3o de estar perdido ou de n\u00e3o saber o que fazer, de achar que tem algo de errado consigo e n\u00e3o entender, de solid\u00e3o. Em seguida, a pessoa detalha o doloroso processo de descoberta que carrega, em si, uma escolha entre investigar o que Israel faz e destruir sua identidade, ou fingir que isso n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed e manter-se dentro da sua bolha:<\/p>\n<p>Eu acho que muita gente faz um momento de escolha, come\u00e7a a perceber que, se vai mergulhar nisso, nesse processo de descoberta, vai ruir tudo. Ent\u00e3o tem gente que para ali e faz uma escolha assim: \u201cou eu mergulho ou n\u00e3o mergulho nisso. Eu finjo que n\u00e3o vou olhar para isso da\u00ed\u201d, que suprime uma consci\u00eancia que tem ali alguma coisa que est\u00e1 profundamente deslocada dos pr\u00f3prios valores. Eu nomeei isso, na minha pesquisa, como uma escolha que a pessoa precisa fazer: ou ela abandona os valores e se apega \u00e0 identidade ou ela abandona a identidade e se apega aos seus valores, porque muitas dessas pessoas v\u00e3o viver uma disson\u00e2ncia cognitiva (BENTO, 2025, p. 151).<\/p>\n<p>Existe um <em>modus operandi<\/em> da <em>hasbar\u00e1<\/em>, o nome da diplomacia p\u00fablica de Israel que significa, literalmente, explica\u00e7\u00e3o. A sequ\u00eancia \u00e9 a seguinte: 1. Algum tipo de viol\u00eancia ou atrocidade \u00e9 cometido pelo Estado ou por cidad\u00e3os de Israel; 2. Surge uma como\u00e7\u00e3o na opini\u00e3o p\u00fablica sobre o fato, culminando em cr\u00edticas leg\u00edtimas; 3. Uma fra\u00e7\u00e3o \u00ednfima das cr\u00edticas usa vocabul\u00e1rio antissemita; 4. Pessoas e institui\u00e7\u00f5es judaicas e de Israel usam desta fra\u00e7\u00e3o para deslegitimar as cr\u00edticas e deslocam o eixo do debate para o antissemitismo, ofuscando a viol\u00eancia inicial ligada a Israel.<\/p>\n<p>Exemplo disso \u00e9 o caso dos torcedores do Maccabi Tel-Aviv que viajaram a Amsterd\u00e3 para acompanhar um jogo da Liga Europa contra o Ajax em 2024. Na v\u00e9spera do jogo os visitantes tocaram o terror na cidade, agrediram pessoas, depredaram propriedades e entoaram c\u00e2nticos de morte aos \u00e1rabes e de celebra\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o de Gaza. Ap\u00f3s a partida houve respostas violentas com persegui\u00e7\u00f5es aos israelenses e brigas de rua. Dentro dessa retalia\u00e7\u00e3o foram vistas refer\u00eancias antissemitas em c\u00e2nticos, por exemplo. Em seguida, pessoas e institui\u00e7\u00f5es judaicas passaram a denunciar um suposto antissemitismo na Holanda como se <em>hooligans<\/em> israelenses fossem inocentes \u2013 deslocando o eixo do debate e ofuscando o vandalismo inicial dos estrangeiros. Com isso, \u00e9 ativado o dispositivo sionista do medo da \u201camea\u00e7a isl\u00e2mica\u201d que supostamente ronda a Europa e que torna insegura a vida dos judeus por l\u00e1. O terror inicial causado por torcedores que flertam abertamente com o fascismo se torna um detalhe perto da amea\u00e7adora conquista da Europa por hordas mu\u00e7ulmanas b\u00e1rbaras e antissemitas e Israel surge no horizonte como o destino seguro para judeus europeus.<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que me decepcionei at\u00e9 com os poucos amigos e conhecidos judeus de esquerda. Em pouqu\u00edssimos casos consegui conversar com quem admitia que a coisa n\u00e3o come\u00e7ou em 2023, nem com as Intifadas de 2000 e de 1987 e nem com a ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios palestinos em 1967. Em geral, eram conversas que partiam de um denominador comum, mas que divergiam quando um lado via o Hamas como principal culpado e o outro (eu, no caso) n\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 o Museu do Holocausto de Curitiba decepcionou. O trabalho de educa\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o contra preconceito e intoler\u00e2ncia feito por sua equipe \u00e9 fant\u00e1stico. Tenho orgulho de saber que os depoimentos dos meus av\u00f3s est\u00e3o expostos l\u00e1. Mas em pleno corredor que leva ao museu o visitante se depara com uma ins\u00edgnia imensa da IDF. Pode ser mera casualidade? Pode. Mas por que a institui\u00e7\u00e3o permite a instala\u00e7\u00e3o de um s\u00edmbolo das for\u00e7as armadas de Israel praticamente no acesso ao museu? E por que a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manifesta sobre a quest\u00e3o palestina e os ind\u00edcios de genoc\u00eddio, j\u00e1 que seu trabalho, muito bem feito, diga-se de passagem, promove a educa\u00e7\u00e3o contra o preconceito e a favor da toler\u00e2ncia entre os povos? Por que o lema \u201cnunca mais\u201d n\u00e3o \u00e9 alterado para \u201cnunca mais para todos os povos\u201d? Em setembro de 2025, o Museu do Holocausto de Los Angeles gerou essa pol\u00eamica ao publicar a frase \u201cnunca mais n\u00e3o pode valer apenas para os judeus\u201d, mas o post foi deletado logo depois.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel como as institui\u00e7\u00f5es judaicas buscam v\u00ednculo constante com Israel. Quando ocorre um ciclo de viol\u00eancia mais agudo, al\u00e9m das viol\u00eancias estrutural e simb\u00f3lica cotidianas contra os palestinos, os indicadores de antissemitismo v\u00e3o \u00e0s alturas porque cr\u00edticas leg\u00edtimas a Israel s\u00e3o equiparadas, pelas mesmas institui\u00e7\u00f5es, a antissemitismo. A di\u00e1spora faz for\u00e7a para ter sua imagem atrelada a Israel, mas quando a barb\u00e1rie contra palestinos atinge n\u00edveis mais severos do que o \u201cnormal\u201d os argumentos s\u00e3o \u201ca comunidade judaica \u00e9 plural\u201d ou \u201cjudeus n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pelas a\u00e7\u00f5es de Israel\u201d. Ora, ent\u00e3o vamos repensar o alinhamento quase autom\u00e1tico a tudo que remete a este pa\u00eds?<\/p>\n<p>Por outro lado, recebi mensagens de parentes, de conhecidos e desconhecidos judeus elogiando a coragem de me expor, dizendo que n\u00e3o podiam fazer o mesmo por quest\u00f5es familiares e profissionais. Temiam retalia\u00e7\u00e3o, demiss\u00e3o ou perda de clientes. E isso de fato ocorreu nos EUA com a demiss\u00e3o sum\u00e1ria de professores judeus acusados de antissemitismo.<\/p>\n<p>Nessa err\u00e2ncia identit\u00e1ria tentei me conectar at\u00e9 com os membros da Stand With Us que fizeram palestras em Porto Alegre no final de 2025. Para ser sincero, eu imaginava que n\u00e3o conseguiria me conectar. Ainda assim, fiz quest\u00e3o de comparecer aos eventos para ouvir e me manifestar. H\u00e1 algum tempo eles t\u00eam criado novas colunas de formadores de opini\u00e3o com seus cursos de complementa\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Alguns dos argumentos mais tendenciosos que vi nesse evento seguem abaixo.<\/p>\n<p>Conforme esperado, o Ir\u00e3 foi retratado como a encarna\u00e7\u00e3o pura e perfeita do mal na Terra sem mencionar que o pa\u00eds se tornou uma for\u00e7a expressiva no Oriente M\u00e9dio gra\u00e7as \u00e0 derrubada do Iraque de Saddam Hussein pelos EUA em 2003. Tamb\u00e9m se dizia que o Hamas coopta palestinos que \u201cperderam tudo\u201d sem se dar ao trabalho de dizer quem tomou tudo deles. Ainda, adotou-se o entendimento da IHRA<sup>1<\/sup> de antissemitismo, equivalendo-o a antissionismo. Outro palestrante desenterrou a tese criticada por quase toda a comunidade de rela\u00e7\u00f5es internacionais sobre o choque de civiliza\u00e7\u00f5es de Samuel Huntington para justificar as a\u00e7\u00f5es de Israel. E ainda ouvi o relato de um jornalista judeu ga\u00facho que visitou o pa\u00eds por um programa do governo \u2013 falando das maravilhas de l\u00e1 sem esbo\u00e7ar qualquer reflex\u00e3o cr\u00edtica do que viu ou do esfor\u00e7o de diplomacia p\u00fablica para lavar a imagem de Israel, que \u00e9 o m\u00ednimo que se espera de um jornalista.<\/p>\n<p>Admito que fui um espectador inc\u00f4modo e apontei algumas contradi\u00e7\u00f5es do que se expunha ali. Perguntei ao jornalista se ele fora levado a conhecer <em>Sde Teiman<\/em>. Quando citei a frase atribu\u00edda a Bem-Gurion de que \u201cse ele fosse \u00e1rabe n\u00e3o faria a paz com os sionistas\u201d houve um burburinho de raiva e nega\u00e7\u00e3o no p\u00fablico \u2013 porque \u00e9 horr\u00edvel descobrir que nossos \u00eddolos t\u00eam p\u00e9s de barro. Perguntei sobre as 800 mil pris\u00f5es administrativas feitas por Israel desde 1967 (n\u00famero divulgado no jornal <em>Haaretz<\/em>), sobre os assentamentos ilegais, sobre a caracteriza\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio em Gaza feita por ONGs de direitos humanos, juristas renomados e cortes internacionais, sobre a aproxima\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es judaicas no Brasil com a extrema-direita e muito mais. Em um dos eventos fui xingado e hostilizado por algu\u00e9m da plateia, em outro gritaram que n\u00e3o era meu momento de dar palestra. Admito que me empolguei no tempo, gastei alguns minutos questionando cada fala, mas se fosse em tom de elogio, as hostilidades certamente n\u00e3o viriam.<\/p>\n<p>Em suma, o depoimento de outra pessoa entrevistada por Bento (2025) ilustra a dor e o custo emocional de fazer o rompimento com o sionismo.<\/p>\n<p>(\u2026) fazer esse rompimento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea ver porque, sobretudo, as pessoas de esquerda veem tudo, t\u00eam acesso ao mesmo material que a gente tem ou viaja e v\u00ea as mesmas coisas, mas esse rompimento interno, a maioria tem que romper com a fam\u00edlia porque n\u00e3o tem jeito, a sua fam\u00edlia que n\u00e3o quer saber de voc\u00ea de maneira geral. Ou voc\u00ea tem que romper porque \u00e9 insuport\u00e1vel as coisas que voc\u00ea tem que ouvir, voc\u00ea n\u00e3o aguenta. Ent\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, eu acho que precisa de muita coragem.<\/p>\n<p>Esse rompimento \u00e9 muito dif\u00edcil porque Israel ataca como Estado, mas defende-se como religi\u00e3o. Um dos argumentos mais usados pelos sionistas \u00e9 que qualquer pa\u00eds faria o que Israel faz se estivesse cercado por inimigos e fosse atacado por grupos paramilitares como o Hamas. Mas acusa\u00e7\u00f5es de limpeza \u00e9tnica, apartheid e genoc\u00eddio s\u00e3o tratadas como ataques \u00e0 religi\u00e3o e ao povo judeu. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 alternativa para os cr\u00edticos. Por um lado, pedidos pela cria\u00e7\u00e3o de um Estado \u00fanico com direitos iguais para todos s\u00e3o vistos como clamores de destrui\u00e7\u00e3o de Israel, pois significaria o fim da maioria demogr\u00e1fica judaica. Por outro, press\u00f5es a Israel para conceder soberania plena \u00e0 Palestina, seja por via diplom\u00e1tica ou por campanhas de boicote ao pa\u00eds como o BDS, tamb\u00e9m s\u00e3o vistas como antissemitas porque discriminariam pessoas e produtos de origem do Estado judeu. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 para onde correr. O funil de cr\u00edticas a Israel que s\u00e3o toleradas por seus defensores \u00e9 cada vez mais estreito e por ali passa apenas a vers\u00e3o da m\u00eddia corporativa convencional, que humaniza apenas o lado israelense ou, no limite, usa da falsa equival\u00eancia de que os dois lados s\u00e3o governados por radicais que n\u00e3o querem a paz. Em suma, n\u00e3o h\u00e1 para onde correr: se defender qualquer alternativa que n\u00e3o seja a manuten\u00e7\u00e3o do status quo, voc\u00ea ser\u00e1 visto como antissemita, mesmo que seja judeu.<\/p>\n<hr>\n<p>1 Alian\u00e7a Internacional para a Mem\u00f3ria do Holocausto.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Do constrangimento e das press\u00f5es sutis \u00e0 ruptura de rela\u00e7\u00f5es pessoais. A estrat\u00e9gia hasbar\u00e1: alegar que, por tr\u00e1s de cada cr\u00edtica, esconde-se o fantasma do antissemitismo. A decis\u00e3o da ruptura<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/do-sionismo-liberal-ao-antissionismo\/\">Do sionismo liberal ao antissionismo<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87733,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5105,14427,3573,5599,423,325,58967,997,58968,25,6226,3551,14502,238,54,2441,58969],"tags":[],"class_list":["post-87732","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antissemitismo","category-antissionismo","category-crise-politica","category-descolonizacoes","category-extrema-direita","category-genocidio","category-grupos-progressistas","category-hamas","category-historia-judaica","category-israel","category-judeus","category-limpeza-etnica","category-necropolitica","category-oriente-medio","category-palestina","category-sionismo","category-sionismo-liberal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87732"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87732\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87733"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}