{"id":88164,"date":"2026-05-21T18:16:09","date_gmt":"2026-05-21T21:16:09","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-fabrica-de-inimigos-por-vinicius-poco-de-toledo\/"},"modified":"2026-05-21T18:16:09","modified_gmt":"2026-05-21T21:16:09","slug":"a-fabrica-de-inimigos-por-vinicius-poco-de-toledo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-fabrica-de-inimigos-por-vinicius-poco-de-toledo\/","title":{"rendered":"A f\u00e1brica de inimigos, por Vin\u00edcius Po\u00e7o de Toledo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Imagem-criada-por-IA.png\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Imagem-criada-por-IA-1024x576.png 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Imagem-criada-por-IA-300x169.png 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Imagem-criada-por-IA-768x432.png 768w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Imagem-criada-por-IA-1536x864.png 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Imagem-criada-por-IA.png 1672w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/p>\n<p>Num fliperama de S\u00e3o Paulo, em 1992, uma crian\u00e7a de dez anos insere uma ficha e escolhe seu personagem. Ela n\u00e3o sabe que est\u00e1 fazendo pol\u00edtica. Mas est\u00e1.<\/p>\n<p>O jogo \u00e9 <em>Street Fighter II<\/em>. Do lado dos mocinhos: Guile, soldado americano de mand\u00edbula quadrada e bandeira dos EUA bordada na roupa. Do lado dos vil\u00f5es: M. Bison, de uniforme preto e bon\u00e9 que imita a <em>Schutzstaffel<\/em> nazista \u2014 as temidas SS de Hitler. E ali, no mesmo torneio, lutando sob as ordens impl\u00edcitas de Bison: Zangief, o russo sovi\u00e9tico com estrela vermelha no peito, movimentos de urso e celebra\u00e7\u00e3o final ao lado de Mikhail Gorbachev.<\/p>\n<p>Sem uma linha de di\u00e1logo, sem um manifesto, sem um panfleto, o jogo japon\u00eas produzido para o mercado americano entregou \u00e0 crian\u00e7a brasileira uma li\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clara: o vermelho e o nazismo andam juntos; que a diferen\u00e7a entre eles \u00e9 apenas de uniforme; que ambos pertencem ao mesmo lado \u2014 o lado errado.<\/p>\n<p>Essa crian\u00e7a hoje tem quarenta anos. Vota. Compartilha memes. Talvez tenha ido \u00e0s ruas, em 2021, pedindo interven\u00e7\u00e3o militar. E talvez nunca tenha parado para pensar que parte do que acredita foi depositada nela numa tarde de quinta-feira, enquanto jogava videogame depois da escola.<\/p>\n<p><strong>O Pent\u00e1gono foi o maior produtor de conte\u00fado da hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 teoria da conspira\u00e7\u00e3o. \u00c9 documentado, auditado e, em alguns casos, orgulhosamente assumido.<\/p>\n<p>Desde os anos 1940, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos mant\u00e9m uma estrutura formal de coopera\u00e7\u00e3o com Hollywood. O acordo \u00e9 simples: os est\u00fadios ganham acesso a equipamentos militares reais \u2014 porta-avi\u00f5es, ca\u00e7as, tanques e helic\u00f3pteros \u2014 o que reduz seus custos de produ\u00e7\u00e3o em dezenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Em troca, entregam o roteiro antes de filmar. E aceitam as altera\u00e7\u00f5es solicitadas.<\/p>\n<p>O pesquisador David Robb documentou o mecanismo em <em>Operation Hollywood<\/em> (2004): entre 1911 e 2003, mais de 1.800 produ\u00e7\u00f5es passaram pelo crivo do Pent\u00e1gono. Roteiros foram reescritos para suavizar cr\u00edticas \u00e0 conduta militar, eliminar personagens que representassem soldados corruptos ou criminosos e refor\u00e7ar narrativas de hero\u00edsmo institucional. <em>Top Gun<\/em>, de 1986, foi basicamente um comercial de recrutamento da Marinha americana \u2014 e funcionou: as inscri\u00e7\u00f5es nas academias militares subiram 500% ap\u00f3s o lan\u00e7amento do filme.<\/p>\n<p>Quando <em>Top Gun: Maverick<\/em> estreou em 2022, a f\u00f3rmula era a mesma. Os avi\u00f5es eram mais bonitos. As explos\u00f5es eram mais espetaculares. E o inimigo \u2014 um pa\u00eds sem nome, sem hist\u00f3ria, sem rosto \u2014 era igualmente descart\u00e1vel. O filme arrecadou 1,4 bilh\u00e3o de d\u00f3lares em todo o mundo, incluindo 26 milh\u00f5es de d\u00f3lares s\u00f3 no Brasil.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u201cHollywood n\u00e3o faz propaganda \u2014 faz entretenimento. S\u00f3 que o entretenimento \u00e9 a forma mais eficaz de propaganda que existe, exatamente porque ningu\u00e9m o chama assim.\u201d <\/em><br \/><strong>\u2014 Neal Curtis, pesquisador de m\u00eddia e conflito, Universidade de Auckland<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Disney e o ber\u00e7o do conservadorismo<\/strong><\/p>\n<p>Se Hollywood forma o adulto, a Disney forma a crian\u00e7a. E a diferen\u00e7a importa: o adulto ainda pode resistir. A crian\u00e7a, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, os filmes da Disney constru\u00edram um mundo em que certas coisas eram simplesmente naturais. A monarquia heredit\u00e1ria era natural \u2014 em <em>O Rei Le\u00e3o<\/em>, Simba deve reinar porque \u00e9 filho de rei, n\u00e3o porque \u00e9 justo ou eleito. O casamento heterossexual como fim \u00faltimo da hist\u00f3ria era natural \u2014 de <em>Cinderela<\/em> a Ariel, toda protagonista encontra sentido pleno apenas na uni\u00e3o com o pr\u00edncipe. A hierarquia entre seres era natural \u2014 e quem a questionava, como as hienas fam\u00e9licas de <em>O Rei Le\u00e3o<\/em>, era associado \u00e0 desordem, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e ao caos.<\/p>\n<p>Em <em>Os Incr\u00edveis<\/em> (2004), a mensagem foi ainda mais expl\u00edcita. Uma sociedade que pro\u00edbe seus cidad\u00e3os excepcionais de exercer seus talentos \u00e9 apresentada como opressora e absurda. A mediocridade for\u00e7ada \u2014 leia-se: a igualdade \u2014 \u00e9 a verdadeira vilania. \u00c9 Ayn Rand em desenho animado, com trilha sonora de Michael Giacchino e bonecos de pl\u00e1stico nas prateleiras do Walmart.<\/p>\n<p>Essas crian\u00e7as cresceram. Carregam consigo, como estrutura invis\u00edvel de percep\u00e7\u00e3o do mundo, a gram\u00e1tica pol\u00edtica que os est\u00fadios plantaram. E, quando um pol\u00edtico aparece dizendo que os pobres s\u00e3o pobres porque n\u00e3o se esfor\u00e7am, ou que a elite merece governar porque \u00e9 superior, ou que qualquer redistribui\u00e7\u00e3o \u00e9 comunismo, algo dentro dessas pessoas \u2014 algo que foi formado antes de aprenderem a ler \u2014 diz sim.<\/p>\n<p><strong>Os fliperamas como sala de aula pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, o ve\u00edculo de distribui\u00e7\u00e3o desse conte\u00fado n\u00e3o foi apenas o cinema. Foi o fliperama.<\/p>\n<p>Nos anos 1980 e 1990, quando televisores a cores ainda eram artigos de luxo em boa parte do Brasil, Argentina, M\u00e9xico e Col\u00f4mbia, os fliperamas eram democr\u00e1ticos. Por uma ficha \u2014 equivalente a um real de hoje \u2014 qualquer crian\u00e7a, de qualquer classe social, tinha acesso \u00e0 mesma experi\u00eancia audiovisual de alta qualidade. E essa experi\u00eancia foi, em larga medida, formatada pelos valores da direita americana.<\/p>\n<p><em>Street Fighter II<\/em> foi o jogo mais popular da primeira metade dos anos 1990 em territ\u00f3rio brasileiro. Mas n\u00e3o estava sozinho. <em>Contra<\/em> colocava soldados americanos combatendo guerrilheiros nas selvas \u2014 selvas que se pareciam, n\u00e3o por acaso, com as da Am\u00e9rica Central. <em>Metal Slug<\/em> repetia a f\u00f3rmula com humor. <em>GI Joe<\/em> transformou um brinquedo militar americano em narrativa interativa. <em>Rambo<\/em> ganhou vers\u00e3o para fliperama. Em todos, a posi\u00e7\u00e3o do jogador era a mesma: soldado americano, miss\u00e3o americana, inimigo coletivizado e sem nome.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o era apenas consumidora desse conte\u00fado. Era o cen\u00e1rio. Os inimigos tinham bigodes, falavam espanhol ou russo, vestiam uniformes que evocavam o castrismo ou o sandinismo. E o her\u00f3i vinha sempre do norte \u2014 loiro, armado, mandibulado, irresist\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>A Am\u00e9rica Latina como territ\u00f3rio conquistado<\/strong><\/p>\n<p>Para entender por que o entretenimento americano encontrou solo t\u00e3o f\u00e9rtil na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 preciso lembrar o contexto hist\u00f3rico em que ele chegou.<\/p>\n<p>Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos financiaram ativamente campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o no continente. A CIA destinou recursos para r\u00e1dios anticomunistas, jornais conservadores e organiza\u00e7\u00f5es estudantis alinhadas a Washington em pa\u00edses como Brasil, Chile, Argentina e Guatemala. O objetivo declarado era impedir que o \u201ccomunismo\u201d se espalhasse como havia ocorrido em Cuba.<\/p>\n<p>O entretenimento foi o complemento perfeito dessa estrat\u00e9gia. Onde o panfleto pol\u00edtico seria recusado, o desenho animado era abra\u00e7ado. Onde o discurso ideol\u00f3gico levantaria resist\u00eancias, o filme de a\u00e7\u00e3o era assistido com pipoca e refrigerante. A cultura popular americana chegou \u00e0 Am\u00e9rica Latina n\u00e3o como propaganda \u2014 chegou como modernidade, como progresso, como s\u00edmbolo do que era ser jovem e conectado com o mundo.<\/p>\n<p>Gera\u00e7\u00f5es inteiras de latino-americanos cresceram admirando o estilo de vida americano antes de terem qualquer opini\u00e3o pol\u00edtica formada. E, quando chegou a hora de formar essa opini\u00e3o, o terreno j\u00e1 estava preparado: o americano era o her\u00f3i; o coletivismo era o inimigo; a hierarquia era natural; e qualquer projeto que questionasse essa ordem era, no m\u00ednimo, suspeito.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o precisa convencer algu\u00e9m de que est\u00e1 certo. Voc\u00ea precisa convenc\u00ea-lo de que o outro est\u00e1 errado. Hollywood fez esse trabalho durante cinquenta anos, de gra\u00e7a, com pipoca.\u201d<\/em> <br \/><strong>\u2014 Pesquisador de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Universidade de Buenos Aires<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>A assimetria que a esquerda n\u00e3o consegue resolver<\/strong><\/p>\n<p>O problema central da esquerda latino-americana n\u00e3o \u00e9 a falta de ideias. \u00c9 a falta de narrativa. E narrativa, no s\u00e9culo XXI, significa audiovisual.<\/p>\n<p>A direita americana conta com Hollywood, a Disney, os grandes est\u00fadios de games, as plataformas de streaming e os canais de not\u00edcias globais. Seus valores \u2014 o her\u00f3i individual, a fam\u00edlia nuclear, o patriotismo militarista e a desconfian\u00e7a do Estado coletivista \u2014 est\u00e3o embutidos em produtos que as pessoas consomem por prazer, sem perceber que est\u00e3o consumindo pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A esquerda, historicamente, respondeu com discurso. Com teoria. Com den\u00fancias. Com manifestos. Com palestras. Com document\u00e1rios que pregam para convertidos. Com filmes que vencem em Cannes e n\u00e3o chegam \u00e0s salas de cinema do interior do Paran\u00e1 ou de Jujuy.<\/p>\n<p>A assimetria \u00e9 brutal. Enquanto <em>Homem de Ferro<\/em> apresentava ao mundo um bilion\u00e1rio como her\u00f3i da democracia \u2014 legitimando a concentra\u00e7\u00e3o de riqueza como virtude \u2014, a esquerda n\u00e3o tinha equivalente capaz de alcan\u00e7ar metade da audi\u00eancia de um \u00fanico fim de semana de estreia da Marvel. Enquanto <em>American Sniper<\/em> vendia a Guerra do Iraque como sacrif\u00edcio heroico e patri\u00f3tico para 350 milh\u00f5es de espectadores, os filmes que questionavam essa guerra somavam, juntos, uma fra\u00e7\u00e3o desse n\u00famero.<\/p>\n<p>E, quando a esquerda tenta entrar no campo do entretenimento popular, frequentemente trope\u00e7a. Ou produz conte\u00fado excessivamente did\u00e1tico \u2014 que parece li\u00e7\u00e3o de moral mais do que divers\u00e3o. Ou perde o controle da mensagem para o mercado, que suaviza as arestas at\u00e9 restar apenas a embalagem progressista sem o conte\u00fado pol\u00edtico. Ou \u00e9 acusada, pela direita, de fazer exatamente o que a direita faz h\u00e1 setenta anos \u2014 mas sem os recursos para responder.<\/p>\n<p><strong>O caso brasileiro: quando a fic\u00e7\u00e3o encontrou o bolsonarismo<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, a simbiose entre entretenimento e pol\u00edtica de direita atingiu sua express\u00e3o mais n\u00edtida entre 2018 e 2022.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro n\u00e3o surgiu do v\u00e1cuo. Ele emergiu de um imagin\u00e1rio coletivo que havia sido cultivado por d\u00e9cadas: o imagin\u00e1rio do militar-her\u00f3i, do homem forte que salva a na\u00e7\u00e3o dos inimigos internos, da fam\u00edlia tradicional como \u00fanico modelo leg\u00edtimo de vida e da esquerda como sin\u00f4nimo de caos e comunismo. Esse imagin\u00e1rio n\u00e3o foi criado por Bolsonaro. Ele o herdou \u2014 em parte, dos mesmos filmes, desenhos e jogos que sua base eleitoral havia consumido desde a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A campanha de 2018 foi a primeira, no Brasil, a entender que o campo de batalha n\u00e3o era mais o hor\u00e1rio eleitoral gratuito \u2014 era o WhatsApp, o YouTube e o TikTok. Eram os memes, os v\u00eddeos curtos, os personagens que circulavam em grupos familiares. A direita brasileira aprendeu com a direita americana o que a esquerda ainda n\u00e3o havia assimilado: que pol\u00edtica \u00e9 entretenimento e que entretenimento \u00e9 pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O PT e seus aliados demoraram a compreender o terreno em que estavam sendo derrotados. Em 2018, Haddad foi apresentado como gestor competente, com programa de governo s\u00f3lido. Bolsonaro era um personagem \u2014 violento, engra\u00e7ado, provocador, imprevis\u00edvel. Num mundo moldado por d\u00e9cadas de filmes de a\u00e7\u00e3o americanos, o personagem venceu o gestor por 10 pontos percentuais.<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>O FEN\u00d4MENO SE REPETE NO CONTINENTE<\/strong><br \/><strong>Argentina:<\/strong> Javier Milei construiu sua imagem p\u00fablica como personagem de entretenimento antes de ser pol\u00edtico. Apareceu em programas de televis\u00e3o, usou bord\u00f5es e cultivou uma persona extravagante. Sua ret\u00f3rica de \u201canarcocapitalismo\u201d foi embalada como entretenimento provocador antes de ser levada a s\u00e9rio como projeto de governo.<br \/><strong>M\u00e9xico:<\/strong> O conservadorismo mexicano encontrou na cultura narco \u2014 glorificada por d\u00e9cadas de filmes e narcocorridos \u2014 uma est\u00e9tica que naturaliza a viol\u00eancia como solu\u00e7\u00e3o e deslegitima o Estado como protetor.<br \/><strong>Chile:<\/strong> O plebiscito de 2022, que rejeitou a nova Constitui\u00e7\u00e3o, foi em parte determinado por uma campanha que usou linguagem visual e memes para associar o texto constitucional ao caos, ao comunismo e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o \u2014 aproveitando um repert\u00f3rio simb\u00f3lico constru\u00eddo por d\u00e9cadas de entretenimento anticomunista.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil desmontar uma narrativa constru\u00edda na inf\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma raz\u00e3o neurol\u00f3gica, al\u00e9m da pol\u00edtica, para a dificuldade da esquerda em reverter esse quadro.<\/p>\n<p>Estruturas simb\u00f3licas formadas na inf\u00e2ncia n\u00e3o s\u00e3o armazenadas como opini\u00f5es \u2014 s\u00e3o armazenadas como percep\u00e7\u00f5es. N\u00e3o como o que algu\u00e9m pensa sobre o mundo, mas como o que algu\u00e9m v\u00ea quando olha para o mundo. Uma crian\u00e7a que aprendeu, por meio de centenas de horas de filmes e jogos, que o her\u00f3i \u00e9 individual, branco e armado, e que o inimigo \u00e9 coletivizado, estrangeiro e vermelho, n\u00e3o precisa ser convencida dessas coisas na vida adulta. Ela j\u00e1 as v\u00ea como \u00f3bvias.<\/p>\n<p>Combater isso com argumento racional \u00e9 como tentar convencer algu\u00e9m de que o azul n\u00e3o \u00e9 azul. O problema n\u00e3o est\u00e1 no n\u00edvel do argumento \u2014 est\u00e1 no n\u00edvel da percep\u00e7\u00e3o. E mudar percep\u00e7\u00e3o exige contra-narrativa, n\u00e3o contra-argumento. Exige fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o <em>fact-checking<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que cada vez mais analistas de esquerda no continente chegam \u00e0 mesma conclus\u00e3o inc\u00f4moda: para vencer a batalha cultural, ser\u00e1 preciso entrar no campo do entretenimento e jog\u00e1-lo com as mesmas regras \u2014 ou seja, produzir hist\u00f3rias que sejam boas o suficiente para competir. N\u00e3o panfletos com boa fotografia. Hist\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 sa\u00edda? Os sinais que emergem<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1, no horizonte, alguns sinais de que a assimetria come\u00e7a, lentamente, a ser questionada.<\/p>\n<p>S\u00e9ries como <em>Narcos<\/em> e <em>El Chapo<\/em>, apesar de problem\u00e1ticas em sua romantiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, abriram espa\u00e7o para personagens latino-americanos complexos no <em>mainstream<\/em> global \u2014 ainda que como criminosos. <em>Encanto<\/em>, da Disney, foi o primeiro grande produto da empresa a colocar a Col\u00f4mbia e uma fam\u00edlia afro-latina no centro da narrativa. <em>The Last of Us<\/em>, da HBO, apresentou ao mundo um protagonista que questiona o hero\u00edsmo individual e um amor gay central \u00e0 trama \u2014 e foi assistido por mais de 30 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, produ\u00e7\u00f5es como <em>Cidade de Deus<\/em> (Brasil), <em>Roma<\/em> (M\u00e9xico) e <em>O Abra\u00e7o da Serpente<\/em> (Col\u00f4mbia) mostraram que \u00e9 poss\u00edvel produzir narrativas complexas, politicamente densas e esteticamente sofisticadas a partir do Sul. Mas chegam a uma fra\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia de qualquer produ\u00e7\u00e3o da Marvel.<\/p>\n<p>O campo dos games come\u00e7a a ser disputado \u2014 timidamente. T\u00edtulos independentes como <em>Celeste<\/em>, <em>Disco Elysium<\/em> e <em>Spiritfarer<\/em> prop\u00f5em mec\u00e2nicas e narrativas que questionam o individualismo heroico e constroem solidariedade como valor. Mas seu alcance ainda \u00e9 marginal diante das franquias militaristas que dominam o mercado.<\/p>\n<p>A batalha n\u00e3o est\u00e1 ganha. Nem perto disso. Mas ela come\u00e7a a ser reconhecida como batalha \u2014 o que \u00e9, pelo menos, o primeiro passo.<\/p>\n<p><strong>O fliperama j\u00e1 fechou. A luta, n\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Aquela crian\u00e7a de dez anos que jogava <em>Street Fighter II<\/em> num fliperama de S\u00e3o Paulo, em 1992, n\u00e3o escolheu ser formada politicamente. Ningu\u00e9m escolhe. A forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pela cultura acontece antes da consci\u00eancia, antes da escolha, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a guerra mais importante n\u00e3o acontece no Congresso, n\u00e3o acontece nas urnas e n\u00e3o acontece nos debates televisivos. Ela acontece na sala de estar, na tela do celular, nos fones de ouvido de uma crian\u00e7a de oito anos que assiste a um desenho animado enquanto os pais trabalham.<\/p>\n<p>A direita americana entendeu isso nos anos 1940. Construiu uma m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o cultural que trabalhou por d\u00e9cadas, em sil\u00eancio, embalada em m\u00fasica, efeitos especiais e personagens ador\u00e1veis. E exportou essa m\u00e1quina para o mundo inteiro, incluindo cada cidade, cada vilarejo, cada fliperama da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A esquerda latino-americana chegou atrasada a essa compreens\u00e3o. A quest\u00e3o agora \u00e9 se chegou tarde demais \u2014 ou apenas a tempo de come\u00e7ar.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2026\/05\/21\/a-fabrica-de-inimigos\/\">A f\u00e1brica de inimigos, por Vin\u00edcius Po\u00e7o de Toledo<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/\">Vermelho<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-reaprender-a-caminhar-nas-cidades\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/bafkreiczleuf7gzry57ac3soa7i7utogl6ebtqtkk25xaoqcyu46mkx2f4-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Para reaprender a caminhar nas cidades<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cop30-tem-ativista-climatica-de-realengo-zona-oeste-do-rio-nomeada-por-lula-para-representar-juventude-global\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/7dee9f32-ee6c-4a54-bae8-3e612e8de9ff-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">COP30 tem ativista clim\u00e1tica de Realengo, zona oes...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/caminhos-para-superar-a-grande-distorcao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-4-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Caminhos para superar a Grande Distor\u00e7\u00e3o<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dilma-desenvolvimento-deve-ser-sustentavel-inclusivo-e-justo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dilma: desenvolvimento deve ser sustent\u00e1vel, inclu...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num fliperama de S\u00e3o Paulo, em 1992, uma crian\u00e7a de dez anos insere uma ficha e escolhe seu personagem. Ela n\u00e3o sabe que est\u00e1 fazendo pol\u00edtica. Mas est\u00e1. O jogo \u00e9 Street Fighter II. Do lado dos mocinhos: Guile, soldado americano de mand\u00edbula quadrada e bandeira dos EUA bordada na roupa. 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