{"id":88191,"date":"2026-05-22T00:00:26","date_gmt":"2026-05-22T03:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/alem-do-sionismo-a-ruptura-possivel\/"},"modified":"2026-05-22T00:00:26","modified_gmt":"2026-05-22T03:00:26","slug":"alem-do-sionismo-a-ruptura-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/alem-do-sionismo-a-ruptura-possivel\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m do Sionismo: a ruptura poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"761\" height=\"511\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4934227054815808462_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4934227054815808462_x.jpg 761w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/20185807\/photo_4934227054815808462_x-300x201.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/20185807\/photo_4934227054815808462_x-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 761px) 100vw, 761px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>MAIS:<\/strong><br \/>Texto em tr\u00eas partes. Leia tamb\u00e9m a primeira e a segunda<\/p>\n<p>Nessa terceira e \u00faltima parte da minha autoetnografia de desconstru\u00e7\u00e3o do sionismo, trago reflex\u00f5es sobre os custos pessoais e afetivos da ruptura e a busca por fontes alternativas de informa\u00e7\u00e3o e de conex\u00e3o. A ideia \u00e9 proporcionar um pequeno mapa de orienta\u00e7\u00e3o para quem pensa em seguir o mesmo caminho.<\/p>\n<p>O primeiro tipo de conex\u00e3o que busquei foi o da identifica\u00e7\u00e3o com judeus que pensavam como eu e, inevitavelmente, a maioria estava nos EUA. O primeiro podcast que me marcou foi o <em>Bad Hasbara<\/em> dos humoristas Matt Lieb e Daniel Matt\u00e9 (este, filho do ilustr\u00edssimo m\u00e9dico Gabor Matt\u00e9 \u2013 sobrevivente do Holocausto e profissional que atende pessoas traumatizadas pela guerra). As conversas no <em>Bad Hasbara<\/em> s\u00e3o hil\u00e1rias e tornam mais leve o peso da realidade. O pr\u00f3prio rap de abertura j\u00e1 \u00e9 uma s\u00e1tira \u00e0 marca de <em>start up<\/em> <em>nation<\/em>, dizendo que Israel inventou tudo, do McLanche Feliz ao tomate cereja, passando por Michael Jackson e os atos de beber \u00e1gua, comer comida e respirar ar. Tudo isso fomos \u201cn\u00f3s\u201d que inventamos. \u00c9 hil\u00e1rio.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--31.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--31.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Virei f\u00e3 do professor Peter Beinart depois de ler seu livro <em>Being Jewish after the destruction of Gaza <\/em>(2025). O que mais me marcou em seu pensamento \u00e9 quando diz que ningu\u00e9m te olhar\u00e1 torto em qualquer sinagoga por criticar ou duvidar da exist\u00eancia de Deus ou por descumprir alguma <em>mitzv\u00e1<sup>1<\/sup><\/em>. Mas levantar o dedo para criticar Israel \u00e9 pun\u00edvel, no m\u00ednimo, com o ostracismo social. A partir disso, o autor afirma que Israel tornou-se o bezerro de ouro dos hebreus: uma constru\u00e7\u00e3o humana, portanto falha, que tomou o lugar de Deus como objeto de adora\u00e7\u00e3o. Refer\u00eancia semelhante \u00e9 feita por Airan Milititsky Aguiar (2023) em seu artigo sobre a figura do Golem na m\u00edstica judaica e a estadolatria a Israel. Como judeu observante, Beinart nos provoca a sair da condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima eterna e mostra que houve momentos em que nosso povo foi, de fato, o opressor. Um exemplo \u00e9 o de Purim, em que depois de executar Haman, o rei persa autoriza os judeus a vingarem-se da tribo do seu algoz matando dezenas de milhares de pessoas. \u00c9 claro que as persegui\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma marca de um povo t\u00e3o diasp\u00f3rico como o nosso, mas instrumentalizar o antissemitismo para justificar as atrocidades de Israel \u00e9 inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me tornei f\u00e3 de Simone Zimmerman, a produtora de <em>Israelism<\/em> e acompanho suas inser\u00e7\u00f5es na m\u00eddia convencional e em podcasts de entrevistas. Grupos como o <em>Jewish Voices for Peace<\/em>, que fazem press\u00e3o no governo dos EUA com manifesta\u00e7\u00f5es em massa, d\u00e3o um alento de esperan\u00e7a, assim como intelectuais judeus como Naomi Klein e Katie Bogen. Outro ativista que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 Jacob Berger, judeu americano que se mudou para o Egito para ajudar refugiados palestinos. E claro, h\u00e1 uma men\u00e7\u00e3o honrosa ao escritor judeu-americano Philip Roth e um livro em especial: Opera\u00e7\u00e3o Shylock.<\/p>\n<p>De Israel, acompanho a atua\u00e7\u00e3o da <em>Standing Together<\/em>, especialmente a milit\u00e2ncia de Alon Lee e o podcast <em>The long answer<\/em>, feito por uma judia israelense (Jess Bricker) e uma \u00e1rabe israelense (Sally Abed). A conversa entre ambas, e entre elas e convidados rotativos, chega a um ponto t\u00e3o sens\u00edvel quanto profundo. N\u00e3o consigo nem conceber a crise de identidade vivida por \u00e1rabes israelenses, que s\u00e3o vistos como quinta coluna pelos judeus israelenses e como uma esp\u00e9cie de traidores pelos palestinos despossu\u00eddos nos territ\u00f3rios ocupados.<\/p>\n<p>Dentre os \u00e1rabes que me instigam a pensar sobre o tema est\u00e1 Bassem Youssef. O m\u00e9dico e humorista eg\u00edpcio radicado nos EUA ganhou notoriedade ap\u00f3s participar do programa <em>Piers Morgan Uncensored<\/em>. H\u00e1 tamb\u00e9m o fenomenal jornalista Mehdi Hassan, que trabalhou na m\u00eddia <em>mainstream<\/em> dos EUA e apresentava um programa de debates chamado <em>head-to-head<\/em> na Inglaterra. Hoje ele tem seu pr\u00f3prio canal de Youtube, o Zeteo, e d\u00e1 espa\u00e7o a vozes alternativas.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie que mexeu comigo e me fez entender a trag\u00e9dia do ex\u00edlio palestino (e de todo ex\u00edlio for\u00e7ado) \u00e9 a s\u00e9rie \u201cMo\u201d, protagonizada pelo humorista Mohammed Amer. Em um misto de drama e humor, a s\u00e9rie retrata os dilemas da apatridia e da constru\u00e7\u00e3o de identidade de quem foi obrigado a fugir de sua moradia e j\u00e1 n\u00e3o se sente em casa no pa\u00eds hospedeiro nem em sua terra natal.<\/p>\n<p>Do Brasil, h\u00e1 intelectuais que me agradam. O livro publicado por Michel Gherman, \u201cO n\u00e3o judeu judeu: a tentativa de coloniza\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo pelo bolsonarismo\u201d (2022), discorre com maestria sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o Estado, a sociedade brasileira e a comunidade judaica que aqui fincou os p\u00e9s e a alma. Seu ponto de partida \u00e9 a palestra feita por Bolsonaro em 2017 no clube A Hebraica do Rio de Janeiro em campanha eleitoral, quando se referiu a comunidades quilombolas em termos racistas e solidificou o vocabul\u00e1rio nazista que daria o tom do seu governo. Gherman \u00e9 uma voz do sionismo de esquerda que mostra com rigor acad\u00eamico a ladeira escorregadia que levou boa parte dos judeus brasileiros a abra\u00e7arem a extrema-direita. Ele argumenta que os judeus deixaram de ser um dos grupos preferenciais de persegui\u00e7\u00e3o do Estado e por n\u00e3o estarem mais entre a cruz e a espada deixaram de lado os valores humanistas que caracterizaram as gera\u00e7\u00f5es anteriores para encarnar a imagem do judeu imagin\u00e1rio e da Israel b\u00edblica.<\/p>\n<p>A tese de Bruno Huberman tem como objeto a \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o neoliberal de Jerusal\u00e9m ap\u00f3s Oslo\u201d (2020) e, por meio de uma chave marxista e antissionista, identifica tra\u00e7os cl\u00e1ssicos de imperialismo por parte do sionismo e de Israel, como a espolia\u00e7\u00e3o, o roubo e o uso da for\u00e7a sobre quem morava l\u00e1 antes das migra\u00e7\u00f5es judaicas. Seu ponto final \u00e9 a urbaniza\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m sob a l\u00f3gica do empreendedorismo neoliberal, mas boa parte do estudo dedica-se ao que veio antes disso. E assim como intelectuais judeus dos EUA, Bruno sofreu press\u00e3o ao ter de responder a uma acusa\u00e7\u00e3o nebulosa, feita tamb\u00e9m ao professor Reginaldo Nasser, de antissemitismo na universidade em que lecionam, a PUC-SP. At\u00e9 onde se sabe, o caso foi encerrado sem comprova\u00e7\u00e3o alguma, A melhor cobertura sobre o assunto foi feita pelo podcast da R\u00e1dio Escafandro n\u00famero 143, \u201cSob a sombra de Israel\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ainda pelo vi\u00e9s marxista, Breno Altman tem se destacado com a publica\u00e7\u00e3o de livro, palestras Brasil afora e muito conte\u00fado produzido no Opera Mundi. Seu estilo eloquente e direto n\u00e3o ofusca a profundidade e o embasamento de seus argumentos, ainda que eu n\u00e3o concorde com tudo o que diz, especialmente com o uso excessivo de adjetivos, caracterizando o sionismo como o grande mal do mundo. Mas seu argumento central, de que Israel decorreu de um projeto colonial e que h\u00e1 em curso um genoc\u00eddio executado por um regime de apartheid, \u00e9 incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Passei a admirar o trabalho da professora Arlene Clemesha, em especial seu livro sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os judeus e o marxismo (2025). Em entrevista para o podcast Guilhotina do <em>Le Monde Diplomatique<\/em> ela sugeriu uma crise de consci\u00eancia do juda\u00edsmo em face a Gaza \u2013 o que gerou como\u00e7\u00e3o e raiva dentro da comunidade por ela n\u00e3o ter lugar de fala. Tamb\u00e9m mostrou em seu livro que a converg\u00eancia entre juda\u00edsmo e sionismo nos s\u00e9culos XIX e XX n\u00e3o foi natural e inevit\u00e1vel, destacando o papel de in\u00fameros l\u00edderes judeus na esquerda europeia antes da cria\u00e7\u00e3o de Israel.<\/p>\n<p>Mais do que isso, essa tem\u00e1tica me traz muito orgulho, pois mostra o peso que intelectuais judeus tiveram na forma\u00e7\u00e3o do pensamento ocidental durante e ap\u00f3s o iluminismo. Esse iluminismo judaico, conhecido como <em>Haskal\u00e1<\/em>, foi de Marx a Einstein, passando por Kafka, Freud, Buber, Hannah Arendt, pelos pensadores da Escola de Frankfurt e mais uma infinidade de nomes.<\/p>\n<p>Outro livro crucial \u00e9 \u201cO judeu p\u00f3s-judeu: judaicidade e etnocracia\u201d de Bentzi Laor e Peter P\u00e1l Pelbart (2024). Um dos cap\u00edtulos mais marcantes mostra a discrep\u00e2ncia entre o tesouro filos\u00f3fico e espiritual do juda\u00edsmo e a cria\u00e7\u00e3o de uma etnocracia que tende a sequestrar essa heran\u00e7a e a anular vis\u00f5es divergentes, externas ao sionismo. Tamb\u00e9m mostram como a culpa hist\u00f3rica da Alemanha fez com que o Holocausto fosse elevado a evento \u00fanico e n\u00e3o compar\u00e1vel a outros genoc\u00eddios, deixando em segundo plano as brutalidades cometidas por europeus nas suas col\u00f4nias ultramarinas, al\u00e9m de consolidar a ideia de que antissionismo equivale a antissemitismo.<\/p>\n<p>Na literatura de fic\u00e7\u00e3o, o judeu ga\u00facho Michel Laub escreveu um livro chamado \u201cDi\u00e1rio da queda\u201d (2011) que conta de forma autobiogr\u00e1fica a vida de um menino judeu, neto de imigrantes, na escola judaica de Porto Alegre. A crueldade que surge entre as crian\u00e7as nesse microcosmo de filhos e netos de pessoas traumatizadas pela guerra, que discernem judeu de <em>goy<\/em>, rico de pobre, forte de fraco e amigo de inimigo dos judeus \u00e9 muito bem trabalhada e remete ao que eu mesmo vivi na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ainda no mundo da intelectualidade, a professora Carla Habif foi um achado das palestras no Hillel do Rio. Sua pesquisa sobre resist\u00eancia civil e movimentos n\u00e3o violentos em Israel e na Palestina (2024) \u00e9 interessante e revela uma alternativa poss\u00edvel para o conflito.<\/p>\n<p>Eu sei que voc\u00ea pode me julgar pela quase aus\u00eancia de nomes \u00e1rabes e\/ou palestinos, ainda que eu tenha frequentado eventos de coletivos pr\u00f3-palestina. Admito que essa autoetnografia tem um vi\u00e9s, uma proje\u00e7\u00e3o, uma busca por semelhantes, por quem \u00e9 judeu \u201ccomo eu\u201d. Eu me vejo toda vez que algumas dessas pessoas acima mencionadas, e muitas outras, come\u00e7am um depoimento dizendo que vieram de uma fam\u00edlia judaica n\u00e3o muito praticante, n\u00e3o muito sionista, mas com uma conex\u00e3o quase natural com Israel e que, em algum momento, se viram sufocadas por essa bolha e foram compelidas a romper la\u00e7os afetivos por n\u00e3o endossar o consenso.<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de dilema da caverna de Plat\u00e3o. Por algum gatilho, seja antes ou depois do sete de outubro, essas pessoas, assim como eu, entortaram o pesco\u00e7o, olharam para fora da caverna e enxergaram um mundo muito mais complexo do que aquele das sombras que s\u00e3o projetadas na parede. A vis\u00e3o da di\u00e1spora judaica, via de regra, \u00e9 isso: um achatamento de sombras idealizadas, tanto do antissemitismo quanto da terra de leite e mel id\u00edlica onde judeus vivem em seguran\u00e7a e d\u00e3o as m\u00e3os em uma eterna dan\u00e7a de <em>Hora<\/em>. Na met\u00e1fora de Plat\u00e3o, quem volta para relatar o que viu \u00e9 taxado como louco e \u00e9 morto pelos prisioneiros que resistem a perder suas ilus\u00f5es. No nosso contexto, a morte \u00e9 simb\u00f3lica, \u00e9 a exclus\u00e3o e o ex\u00edlio afetivo.<\/p>\n<p><em>\u00c9 preciso sair da ilha para ver a ilha<\/em><\/p>\n<p>A frase de Jos\u00e9 Saramago \u201c\u00e9 preciso sair da ilha para ver a ilha\u201d explica o que escrevi at\u00e9 agora. Nunca me senti plenamente dentro da ilha, por isso foi mais f\u00e1cil sair dela. Estudei na Escola Israelita de Curitiba, onde mais da metade da minha turma era composta por filhos de grandes e megaempres\u00e1rios ou de profissionais liberais de classe-m\u00e9dia alta. Ter sido um dos \u201cn\u00e3o ricos\u201d da turma, que naquele contexto correspondia a n\u00e3o ser servido por bab\u00e1s, empregadas dom\u00e9sticas, motoristas particulares e carros e apartamentos de luxo ou de alto padr\u00e3o me fez ver o peso da classe nas rela\u00e7\u00f5es sociais e me obrigou a buscar amigos e vis\u00f5es de mundo do lado de fora daquela ilha.<\/p>\n<p>Por outro lado, ter participado por muito tempo do movimento juvenil <em>Habonim Dror<\/em> foi crucial para me descobrir como educador. Vivi bons momentos e aprendi muito sobre os pensadores sionistas e a hist\u00f3ria de Israel contada pelo \u201cnosso\u201d lado. Mas tenho consci\u00eancia de que a hist\u00f3ria palestina passou despercebida e que muitas das brincadeiras envolviam a emula\u00e7\u00e3o de atividades militares da IDF. Segundo depoimento de um dos entrevistados de Bento (2025), essa socializa\u00e7\u00e3o com componente militar casa com o que se v\u00ea quando se visita Israel: \u201cquando as pessoas chegam l\u00e1 e v\u00e3o visitar, elas acham tudo bonito, tudo faz parte de uma est\u00e9tica, faz parte de uma narrativa onde o belo, o bom e o sagrado est\u00e3o relacionados com os elementos do soldado, da arma, uma mitologia de uma defesa\u201d.<\/p>\n<p>Fiz Bar-Mitzv\u00e1, frequentei aulas e <em>shabatot<\/em> no Beit Chabad e fiz duas viagens subsidiadas com esta institui\u00e7\u00e3o: aos dezenove anos passei cinco semanas na Escola Rab\u00ednica (<em>Yeshiv\u00e1<\/em>) de Morristown, em Nova Jersey, e dois anos depois participei do Projeto Alicerces \u2013 uma viagem pelo leste europeu para conhecer os lugares de onde vieram nossos antepassados <em>ashkenazim<\/em>. Joguei campeonatos de futsal pelo Centro Israelita do Paran\u00e1, frequentei eventos sociais, mantive algumas poucas amizades e n\u00e3o tive mais contato com as inimizades. Tudo isso fez de mim o que sou hoje. N\u00e3o consigo e n\u00e3o quero me libertar de algumas das estruturas psicossociais constru\u00eddas por experiencias boas e ruins que tive nesse mundo. Mas n\u00e3o posso me limitar a elas. No livro \u201cCaminhos divergentes judaicidade e cr\u00edtica do sionismo\u201d Judith Butler diz que \u00e9 surpreendente que muitas pessoas acreditam que \u201cafirmar a judaicidade \u00e9 afirmar o sionismo\u201d e que tamb\u00e9m \u00e9 preocupante que muitos judeus reneguem sua judaicidade por n\u00e3o aceitar as pol\u00edticas do Estado de Israel. Eu me somo a ela nesse esfor\u00e7o de valorizar a heran\u00e7a judaica sem endossar o que o sionismo tem feito em seu (e em meu) nome. Inclusive, entendo o <em>brit mil\u00e1<\/em> (a circuncis\u00e3o ritual judaica) do meu filho rec\u00e9m-nascido como um ato pol\u00edtico de continuidade da minha (agora nossa) vida no juda\u00edsmo e da manuten\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o judaica por um caminho separado do sionismo. Que esta seja uma porta aberta para que ele, l\u00e1 na frente, possa escolher o rumo espiritual e identit\u00e1rio da sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Antes do fim, prometi que voltaria ao tema do antissionismo. Apresento todos os sintomas para ser um judeu antissionista, mas at\u00e9 agora n\u00e3o conseguia me definir assim. Afinal, por que apenas os judeus n\u00e3o t\u00eam direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o? Se os arm\u00eanios conquistaram seu Estado ap\u00f3s sofrerem um genoc\u00eddio nas m\u00e3os do Imp\u00e9rio Otomano por que aos judeus \u00e9 vetada essa op\u00e7\u00e3o? O car\u00e1ter diasp\u00f3rico deste povo \u00e9 justificativa suficiente para que n\u00e3o possa ter sua identidade atrelada a um Estado?<\/p>\n<p>Por outro lado, por que essa autodetermina\u00e7\u00e3o precisava ocorrer onde os judeus eram menos de 3% da popula\u00e7\u00e3o? Se o sionismo foi um empreendimento secular, por que a escolha do lugar foi com base na religi\u00e3o? E em sendo na Palestina, t\u00e3o distante dos grandes centros demogr\u00e1ficos judaicos dos s\u00e9culos XIX e XX, a cria\u00e7\u00e3o de um Estado binacional n\u00e3o teria sido mais condizente com a ess\u00eancia diasp\u00f3rica e de alteridade da judaicidade?<\/p>\n<p>Em meio a esse conflito de ideias tento me prender na ilus\u00e3o do contrafactual, em dois caminhos que poderiam ter sido seguidos. O primeiro seria a constru\u00e7\u00e3o de um Estado onde os judeus eram a maioria ou pr\u00f3ximo disso em algum rinc\u00e3o do leste europeu, no entreguerras ou no p\u00f3s-guerra. Ora, um punhado de Estados surgiu do esfacelamento dos imp\u00e9rios russo, alem\u00e3o, austro-h\u00fangaro e turco ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial. Por que um Estado i\u00eddiche n\u00e3o foi nem cogitado nesse contexto? Essa \u00e9 a provoca\u00e7\u00e3o de fundo que aparece no livro \u201cOpera\u00e7\u00e3o Shylock\u201d de Philip Roth.<\/p>\n<p>O segundo, seria abrir m\u00e3o da autodetermina\u00e7\u00e3o plena para construir um Estado binacional, com direitos iguais para judeus e n\u00e3o judeus na Palestina. Os outros nacionalismos europeus constru\u00edram Estados onde j\u00e1 havia na\u00e7\u00f5es com maioria demogr\u00e1fica. O sionismo tinha o desafio de ser excepcional \u2013 construir um Estado para uma na\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era maioria em lugar algum. E para se tornar maioria em algum lugar precisaria despojar quem l\u00e1 estava, fosse comprando ou ocupando terras. Mas o sionismo real n\u00e3o foi excepcional, foi apenas mais um nacionalismo europeu que buscou um Estado para uma na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 relevante se as pessoas que l\u00e1 moravam se viam como uma na\u00e7\u00e3o palestina, \u00e1rabe ou n\u00e3o, se almejavam um Estado pr\u00f3prio ou n\u00e3o. O fato \u00e9 que sofreram preju\u00edzos materiais e imateriais irrevers\u00edveis por conta do sionismo e seu ressentimento \u00e9 leg\u00edtimo. Se a lei do retorno vale para judeus ap\u00f3s dois mil\u00eanios de ex\u00edlio, por que n\u00e3o vale para palestinos deslocados pela Nakba h\u00e1 menos de um s\u00e9culo? Peter Beinart (2025) questiona: Se \u00c1frica do Sul, Irlanda do Norte e os estados do sul dos EUA tornaram-se sociedades menos cru\u00e9is com o fim das leis de segrega\u00e7\u00e3o, por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil pensar o mesmo para Israel-Palestina?<\/p>\n<p>Segundo Hilan Bensusan (apud Bento, 2025):<\/p>\n<p>(\u2026) \u00e9 como judeu que cresceu sentindo com todas as for\u00e7as a hist\u00f3ria desse povo e mesmo as lutas em torno do sionismo \u00e9 que eu olho para o que ocorre agora e penso que quem fala pelos judeus e quem fala pelo sionismo n\u00e3o entendeu nada\u201d. O sionismo n\u00e3o est\u00e1 autorizado a reivindicar a identifica\u00e7\u00e3o com os valores judaicos porque \u201cos judeus que bombardeiam Gaza e defendem sua supremacia nos territ\u00f3rios ocupados e nas cidades onde palestinos\/as residem fazem de sua hist\u00f3ria uma variante das hist\u00f3rias das na\u00e7\u00f5es europeias que colonizaram o mundo porque tinham armas e certezas para tanto.<\/p>\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o de Butler \u00e9 essa: se o elemento diasp\u00f3rico da conviv\u00eancia com o outro est\u00e1 t\u00e3o presente nos valores judaicos, por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil resgat\u00e1-lo em Israel? Talvez esse tenha sido o pecado original do sionismo: ter sido a mimetiza\u00e7\u00e3o dos nacionalismos europeus sem considerar que a na\u00e7\u00e3o que ocuparia o novo Estado era singularmente diasp\u00f3rica. Portanto, esse sionismo materializado em 1948, que se tornou expansivo e mais excludente ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o de Gaza e Cisjord\u00e2nia em 1967, ainda mais repressivo ap\u00f3s a Intifada de 1987, que flerta com o fascismo desde a ascens\u00e3o de Netanyahu em 1996 e com o genoc\u00eddio ap\u00f3s 2023, n\u00e3o me representa. N\u00e3o me resta outra alternativa a n\u00e3o ser me declarar antissionista. Sinto um pesar imenso por abandonar qualquer resqu\u00edcio de esperan\u00e7a na autodetermina\u00e7\u00e3o nacional do povo judeu com valores humanistas. Mas tamb\u00e9m sinto vergonha por ter levado tanto tempo para perceber o caminho que essa ideologia tomou.<\/p>\n<p>Termino essa autoetnografia incentivando que mais judeus fa\u00e7am esse esfor\u00e7o de sair da ilha, olhar para tr\u00e1s, enxergar as lacunas em suas forma\u00e7\u00f5es e repensar a quest\u00e3o da alteridade na judaicidade. Em um mundo de algoritmos movidos por conflito e engajamento, sei que essa \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua. Voc\u00ea deve ter percebido que as novas conex\u00f5es que fiz n\u00e3o s\u00e3o, de fato, conex\u00f5es pessoais. S\u00e3o pessoas p\u00fablicas, escritores e produtores de conte\u00fado cujo trabalho passei a admirar. Mas sei que h\u00e1 mais gente an\u00f4nima por a\u00ed com a mesma inquieta\u00e7\u00e3o se conectando entre si, inclusive comigo. H\u00e1 coletivos se formando, como o Vozes Judaicas por Liberta\u00e7\u00e3o, atividades educativas sendo feitas e um sentimento meio difuso de \u201cn\u00e3o em nosso nome\u201d. Sair da ilha de Saramago ou da caverna de Plat\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, o custo emocional \u00e9 alto. Mas tenho orgulho de poder dizer para o meu filho, no futuro, de que lado seu pai esteve quando esse del\u00edrio coletivo ganhou forma.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BEINART, Peter. Being Jewish after the destruction of Gaza: A Reckoning. Nova York: Alfred A. Knopf. 2025.<\/p>\n<p>BENTO, Berenice. Dispositivo sionista e seus descontentes: hist\u00f3rias de pessoas judias antissionistas. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2025.<\/p>\n<p>BUTLER, Judith. Caminhos divergentes: judaicidade e cr\u00edtica do sionismo. 1\u00aa Ed. \u2013 S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/p>\n<p>CLEMESHA, Arlene. Marxismo e juda\u00edsmo: hist\u00f3ria de uma rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Boitempo Editorial, 2025.<\/p>\n<p>GHERMAN, Michel. O n\u00e3o judeu judeu: a tentativa de coloniza\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo pelo bolsonarismo. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo, 2022.<\/p>\n<p>Habif, Carla Albala. Construindo shalom\/salam. Uma an\u00e1lise sobre o papel da n\u00e3o viol\u00eancia conjunta entre palestinos e israelenses e da criatividade do sujeito pacificador. Tese de Doutorado. PPGRI, PUC-Rio, 2024.<\/p>\n<p>Huberman, Bruno. A coloniza\u00e7\u00e3o neoliberal de Jerusal\u00e9m ap\u00f3s Oslo: desenvolvimento, pacifica\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia em Palestina\/Israel. PPGRI San Tiago Dantas, 2020.<\/p>\n<p>LAUB, Michel. Di\u00e1rio da queda. Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n<p>Aguiar, Airan Milititsky. Entre o punho e a palavra: a alegria do Schabbat, o Golem e o Estado de Israel. XIII Semana Acad\u00eamica do PPG em Filosofia da PUCRS (23.: 2023 : Porto Alegre, RS), 2023.<\/p>\n<p>1 Obriga\u00e7\u00f5es de comportamentos \u00e9ticos atribu\u00eddas a todo judeu de acordo com o Velho Testamento.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Alguns pensadores judeus, \u00e1rabes e brasileiros podem ser refer\u00eancia a quem se disp\u00f5e a sair da caverna de Plat\u00e3o &#8212; ou da ilha de Saramago<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/alem-do-sionismo-a-ruptura-possivel\/\">Al\u00e9m do Sionismo: a ruptura poss\u00edvel<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88192,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5105,60014,7213,5599,60015,423,52,9538,25,60016,3677,48317,60017,11258,6226,54,2367,27472,2441],"tags":[],"class_list":["post-88191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antissemitismo","category-autoetnografia","category-colonizacao","category-descolonizacoes","category-etnocracia","category-extrema-direita","category-gaza","category-imperialismo-americano","category-israel","category-israel-biblica","category-jerusalem","category-jose-saramago","category-judaicidade","category-judaismo","category-judeus","category-palestina","category-palestinos","category-ruptura","category-sionismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88191"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88191\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88192"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}