{"id":88206,"date":"2026-05-21T16:51:08","date_gmt":"2026-05-21T19:51:08","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ensaios-para-resgatar-o-futuro-cancelado\/"},"modified":"2026-05-21T16:51:08","modified_gmt":"2026-05-21T19:51:08","slug":"ensaios-para-resgatar-o-futuro-cancelado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ensaios-para-resgatar-o-futuro-cancelado\/","title":{"rendered":"Ensaios para resgatar o futuro cancelado"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/OSertaovaivirarmar_2018_1000x.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/OSertaovaivirarmar_2018_1000x.jpeg 1000w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/21164459\/OSertaovaivirarmar_2018_1000x-300x300.jpeg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/21164459\/OSertaovaivirarmar_2018_1000x-150x150.jpeg 150w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/21164459\/OSertaovaivirarmar_2018_1000x-768x768.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption>C\u0155editos: Kadu Tapuya<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Ap\u00f3s um per\u00edodo em que parte consider\u00e1vel da filosofia renunciou a seguir sua \u201cpaix\u00e3o pela totalidade\u201d, isto \u00e9, deixou de se comprometer com a cria\u00e7\u00e3o de sistemas filos\u00f3ficos que desejassem dizer o real, o pr\u00f3prio campo filos\u00f3fico viu-se confrontado com a magnitude e o emaranhamento das transforma\u00e7\u00f5es e crises contempor\u00e2neas, como os evidentes desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos e a trag\u00e9dia ecol\u00f3gica, que passaram a exigir um olhar menos \u201cespec\u00edfico\u201d. Essa demanda, no entanto, n\u00e3o implicava um retorno ao sistema te\u00f3rico moderno, mas demandava articula\u00e7\u00f5es que deveriam tender \u00e0 compreens\u00e3o do conjunto de acontecimentos em sua complexidade expansiva<sup>1<\/sup>. Dessa maneira, surgiram teorias contempor\u00e2neas voltadas a desdobrar o sentido, a forma e a for\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es que fundamentam as crises. Parte dessas teorias \u00e9 analisada no mais recente livro de Renan Porto, <em>Nas brechas de futuros cancelados, <\/em>que resenhamos aqui.<\/p>\n<p>Renan Porto tem desenvolvido uma pesquisa que articula investiga\u00e7\u00e3o em filosofia do direito, etnografia e uma imers\u00e3o consequente e rigorosa no pensamento dos povos ind\u00edgenas, entre outros elementos. Seu livro mais recente, aqui resenhado, \u00e9 fruto desse percurso \u2013 trata- se de seu terceiro trabalho lan\u00e7ado no Brasil, desta vez pela sempre cuidadosa Editora N-1. A obra re\u00fane seis ensaios escritos entre 2017 e 2023: <em>Um passeio pelo aceleracionismo<\/em>, <em>Sociedades de controle<\/em>, <em>Antagonismos biopol\u00edticos<\/em>, <em>Bricolagens dist\u00f3picas<\/em>, <em>Ecologia sob a queda do c\u00e9u<\/em> e <em>Da entropia moderna \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/em>. Alguns desses ensaios foram anteriormente publicados sob outros t\u00edtulos, enquanto outros foram reestruturados entre si para compor os cap\u00edtulos desse novo livro.<\/p>\n<p>Uma das principais for\u00e7as do conjunto de escritos reside na busca pela justa medida entre a interven\u00e7\u00e3o em uma conjuntura espec\u00edfica e o entrela\u00e7amento especulativo com conceitos de correntes te\u00f3ricas contempor\u00e2neas relevantes. Cada ensaio pode ser lido de forma independente, sem preju\u00edzo de compreens\u00e3o; contudo, defendemos que a leitura em conjunto, e na ordem proposta, n\u00e3o apenas amplia as possibilidades desenvolvidas em cada texto como tamb\u00e9m confere sentido a limites e especula\u00e7\u00f5es que, isoladamente, n\u00e3o se evidenciariam. Ademais, os ensaios estabelecem um arco simultaneamente dram\u00e1tico e contextual entre diferentes propostas diante das r\u00e1pidas e incessantes transforma\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo, que colocam em risco n\u00e3o apenas a qualidade de vida humana, mas tamb\u00e9m as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia na Terra.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-31.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-31.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Da aposta na acelera\u00e7\u00e3o do desenvolvimento tecnol\u00f3gico ao chamado ao envolvimento cosmopol\u00edtico com o mundo, o livro constr\u00f3i um panorama das respostas oferecidas \u00e0 profunda crise que atravessamos. Nesse sentido, pode-se dizer que o <em>aceleracionismo <\/em>de Nick Land, al\u00e9m de ser criticado por suas limita\u00e7\u00f5es internas, adquire contornos de um fatalismo autof\u00e1gico, projetado a partir de determinada forma de compreender a rela\u00e7\u00e3o entre humanos e n\u00e3o humanos \u2013 radicalmente oposta \u00e0 pr\u00e1tica te\u00f3rica da diplomacia cosmol\u00f3gica, tal como desenvolvida pelo pensamento ind\u00edgena mobilizado por Porto em outros cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>Exemplos adicionais poderiam ser apresentados nessa dire\u00e7\u00e3o, mas, por ora, basta compreender que, para al\u00e9m do que est\u00e1 explicitamente formulado em cada ensaio, \u00e9 na leitura do conjunto que a articula\u00e7\u00e3o entre eles emerge como uma potente for\u00e7a interpretativa. Em diversos momentos, essa articula\u00e7\u00e3o permite, inclusive, projetar elementos analisados para al\u00e9m dos quadros espec\u00edficos aos quais inicialmente se referem, numa <em>bricolagem <\/em>\u2013 termo caro ao livro \u2013 que desdobra novos sentidos para os elementos que a constituem. Assim, este trabalho adquire relev\u00e2ncia ao descrever, analisar e criticar as teorias em quest\u00e3o, com vistas a estruturar um quadro no qual a cosmopol\u00edtica ind\u00edgena se configure como estrat\u00e9gia diplom\u00e1tica consequente na constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de luta pela sobreviv\u00eancia dos seres da Terra.<\/p>\n<p>Antes de tratar dos cap\u00edtulos, cabe um aceno a certas caracter\u00edsticas gerais do texto. Frequentemente, Porto escreve em primeira pessoa, como em um di\u00e1rio situado no interior de uma engrenagem longa, viva, singular e, ao mesmo tempo, qualquer. A voz que narra surge a partir de seu entrela\u00e7amento com as redes de produ\u00e7\u00e3o do capital, dos corpos e das subjetividades, ao descrever as formas emergentes pelas quais a ag\u00eancia do corpo social desenrola suas figuras de recusa e respiro diante do maquin\u00e1rio capitalista e de suas conforma\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias. Desse modo, o autor descreve seu pr\u00f3prio lugar quando este se configura como ponto nevr\u00e1lgico de uma rede tensa de sobreviv\u00eancia, inven\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Os conflitos s\u00e3o sentidos em seu entorno e na superf\u00edcie da pele. No ensaio <em>Ecologia sob a queda do c\u00e9u<\/em>, por exemplo, alguns de seus familiares ou antigos vizinhos aparecem como elos de um vasto mecanismo de apropria\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o \u2013 inseridos na circula\u00e7\u00e3o do cacau no mercado mundial do chocolate \u2013, mas tamb\u00e9m como articuladores imanentes de formas coletivas de sobreviv\u00eancia e desvio, num emaranhado nada inocente que esbo\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o coletiva das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da autonomia dos povos que vivem da terra. Trata-se de uma colagem conceitual que vai da autoetnografia \u00e0 diplomacia (cosmopol\u00edtica) urgente e estrat\u00e9gica, poss\u00edvel apenas ap\u00f3s a \u201cqueda do c\u00e9u\u201d<sup>2<\/sup>, como veremos.<\/p>\n<p>Passaremos, a partir de agora, a expor as linhas gerais de cada cap\u00edtulo. O primeiro, <em>Um passeio pelo aceleracionismo <\/em>\u2013 que receber\u00e1 uma an\u00e1lise mais detida, uma vez que, a nosso ver, \u00e9 a partir do posicionamento em rela\u00e7\u00e3o ao debate nele proposto que as contraposi\u00e7\u00f5es ser\u00e3o desdobradas, al\u00e9m de que nele s\u00e3o mobilizados conceitos que reaparecem nos demais cap\u00edtulos como potenciais de an\u00e1lise e descri\u00e7\u00e3o \u2013, inicia-se com a ideia de um v\u00edrus mortal vindo do futuro, isto \u00e9, o advento da autonomiza\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, tal como formulada no <em>aceleracionismo <\/em>de Nick Land<sup>3<\/sup>. Porto argumenta que, para o pensador ingl\u00eas, os fluxos de reprodu\u00e7\u00e3o do capital s\u00e3o tomados como a \u00fanica forma realmente existente de comandar e desenvolver a sociedade, em uma busca fren\u00e9tica por um futuro regido diretamente pela racionalidade que constitui a realidade do capital, a saber, sua for\u00e7a de metamorfose e expans\u00e3o cont\u00ednua, a qual encontra na transforma\u00e7\u00e3o tecno-capitalista sua forma acabada e supostamente impar\u00e1vel. Para Land, caberia somente intensificar tais fluxos, dado que estamos submetidos \u00e0 persistente plasticidade das rela\u00e7\u00f5es capitalistas, capazes de forjar sociabilidades que lhe sejam \u00fateis e de submeter e explorar as alternativas que tentam se opor a elas. Assim, mais do que uma l\u00f3gica econ\u00f4mica, tratar-se-ia do desenvolvimento de uma intelig\u00eancia cuja for\u00e7a principal est\u00e1 em aumentar suas possibilidades de intera\u00e7\u00e3o, conflituosa ou n\u00e3o, com todos os entes existentes, de modo que, em dado momento, at\u00e9 mesmo o capitalismo tal como o conhecemos seria substitu\u00eddo por algum sistema no qual o ser humano seria fundamentalmente obsoleto. Talvez seja poss\u00edvel dizer que, nessa distopia, a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem chegaria ao fim, uma vez que os mecanismos dessa superintelig\u00eancia submeteriam todos a ela. Outrossim, a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo seria uma mera quest\u00e3o de \u201cquando\u201d, sendo imposs\u00edvel desviar do fluxo que a \u201cintelig\u00eancia alien\u00edgena\u201d, como Land a nomeia, intensifica. Sem entrar nos pormenores da promessa dist\u00f3pica de Land, importa ressaltar a forte caracter\u00edstica p\u00f3s-humana de sua vis\u00e3o, dada a abordagem presente no ensaio. Como j\u00e1 ficou claro, com o avan\u00e7o da tecnologia, os seres humanos e sua for\u00e7a de trabalho, intelig\u00eancia e criatividade tornam-se irrelevantes para o sujeito da acelera\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, o desdobramento desse fluxo implica, desde j\u00e1, a aceita\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 mundo para todos. Porto deixa claro, portanto, como tal p\u00f3s- humanismo investe, j\u00e1 na atualidade, suas garras algo fascistas para modular sociabilidades e governos, ao pressupor uma disputa fratricida entre os entes existentes pelo tempo e pelos recursos ainda dispon\u00edveis aos humanos, visto que, em s\u00edntese, n\u00e3o h\u00e1 mundo para todos.<\/p>\n<p>Da mesma tradi\u00e7\u00e3o deriva o <em>aceleracionismo de esquerda<\/em>, corrente que busca desfazer v\u00ednculos supostamente necess\u00e1rios entre os fluxos do capital e o processo de desenvolvimento tecnocient\u00edfico, acreditando ser poss\u00edvel se contrapor \u00e0 autorreprodu\u00e7\u00e3o do v\u00edrus por meio do jogo entre desterritorializa\u00e7\u00e3o e reterritorializa\u00e7\u00e3o. Grosso modo, seus defensores entendem que a produ\u00e7\u00e3o resultante da intelig\u00eancia coletiva n\u00e3o deve simplesmente retornar ao fluxo econ\u00f4mico, por n\u00e3o estar necessariamente ligada a ele, mas \u00e0s diversas formas produtivas que dizem respeito a outras racionalidades e pr\u00e1ticas. Com isso, os autores ligados a essa corrente acreditam na cria\u00e7\u00e3o de uma clivagem no desenvolvimento tecnol\u00f3gico que permitiria um horizonte de reorganiza\u00e7\u00e3o produtiva e pol\u00edtica no interior de nossas sociedades. Segundo Porto, os autores do manifesto do <em>Aceleracionismo de esquerda <\/em>(2013), Nick Srnicek e Alex Williams \u2013 que, junto a Mark Fisher, tamb\u00e9m ingl\u00eas, s\u00e3o os principais expoentes dessa corrente te\u00f3rica \u2013, tentam compor um novo promete\u00edsmo, no qual haveria espa\u00e7o para formas alternativas de racionalidade e, em alguma medida, de mundos. Ou seja, longe do absolutismo da \u201cintelig\u00eancia alien\u00edgena\u201d de Land, uma esp\u00e9cie de intelig\u00eancia coletiva<sup>4<\/sup> deveria disputar as promessas e narrativas de futuro a partir de projetos nos quais a automatiza\u00e7\u00e3o, a criatividade e um renovado antagonismo de classe caminhariam juntos, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao ganho econ\u00f4mico que se reverteria para a sociedade, quanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formas mais democr\u00e1ticas de governan\u00e7a. \u00c9 com essa dupla de autores que, pela primeira vez no livro, surge a ideia de racionalidades e processos temporais alternativos \u00e0 modernidade hegem\u00f4nica. Contudo, mesmo nesse caso, a aposta em uma formaliza\u00e7\u00e3o demasiadamente moderna, ou seja, de alguma maneira, interna ao v\u00edrus, acaba por submeter tal desvio a oposi\u00e7\u00f5es tradicionais e controladas. Os autores defendem que a necessidade de enfrentar problemas cuja resolu\u00e7\u00e3o demanda a articula\u00e7\u00e3o entre diferentes escalas de poder ganhe centralidade contra localismos e horizontalismos (supostamente) impotentes, o que, segundo Porto, reproduz modelos estruturados em oposi\u00e7\u00f5es modernas entre Estado e mercado, por exemplo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que, em ambos os casos, a din\u00e2mica de funcionamento do capital \u00e9 analisada a partir de redes alimentadas pela circula\u00e7\u00e3o tecno-social de afetos, desejos e pensamentos codificados como <em>bits <\/em>informacionais, cujas entradas formalizam sa\u00eddas determinadas pela programa\u00e7\u00e3o desenvolvida pela m\u00e1quina social, numa interface que utiliza positivamente a excita\u00e7\u00e3o e a modula\u00e7\u00e3o dos diferentes agentes com os quais interage. Essa din\u00e2mica, analisada nesse mesmo ensaio, diz respeito ao <em>modelo cibern\u00e9tico <\/em>que Porto capta com precis\u00e3o. Tal modelo, j\u00e1 tendencialmente majorit\u00e1rio na d\u00e9cada de 1990, leva nosso autor a criticar a aposta nas oposi\u00e7\u00f5es modernas como formas de apreender o estado de coisas atuais e suas redes disseminadas e moleculares<sup>5<\/sup>.<\/p>\n<p>Ainda nesse ensaio, discute-se o <em>Manifesto Ciborgue<\/em>, texto que enaltece o hibridismo entre seres humanos e m\u00e1quinas como forma de repensar o sujeito moderno submetido \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais e ao familismo capitalista. Assim, o debate em torno do promete\u00edsmo tecno- social \u2013 seus conflitos internos, limites, distopias e promessas n\u00e3o cumpridas \u2013 recebe aten\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel. Para aquele que consideramos o prop\u00f3sito central do livro, a saber, demonstrar as caracter\u00edsticas da nova forma de funcionamento das redes de antagonismo pol\u00edtico, produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, racionalidades, pr\u00e1ticas de controle e desejos de alternativas, o ensaio se mostra exitoso nas escolhas dos elementos que investiga.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O segundo ensaio, <em>Sociedades de controle<\/em>, busca, justamente, compreender as consequ\u00eancias da nova forma de poder designada pelo pr\u00f3prio t\u00edtulo, significando, portanto, a caracteriza\u00e7\u00e3o da sociedade nesses termos. O conceito adv\u00e9m de um texto breve, por\u00e9m influente, do fil\u00f3sofo franc\u00eas Gilles Deleuze (1990) e visa descrever como o poder passou a se efetivar como uma teia de rela\u00e7\u00f5es descentralizadas, atuando diretamente sobre as formas de desejar e de projetar a autoprodu\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, em estreita rela\u00e7\u00e3o com as formas cibern\u00e9ticas, que se tornaram uma esp\u00e9cie de dispositivo organizador dos fluxos que permeiam os processos capitalistas atuais. Por isso, como reclama Porto, as dicotomias modernas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o capazes de abarcar nem as formas de poder mais efetivas nem os conflitos realmente existentes, disseminados pelo social. Nessa nova configura\u00e7\u00e3o, as for\u00e7as de fuga e inven\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da m\u00e1quina capitalista \u2013 ainda que sufocadas pela precariedade do cotidiano e do mundo do trabalho, realidade que o autor nos faz experimentar em um percurso angustiante pelas condi\u00e7\u00f5es laborais e jur\u00eddicas das sociedades atuais, inclusive no norte global \u2013 disputam o mesmo espa\u00e7o, ocupando a mesma modula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria m\u00e1quina capitalista.<\/p>\n<p>Como o autor defende j\u00e1 no primeiro cap\u00edtulo em que aborda o tema, as novas rela\u00e7\u00f5es sociais \u201cse organizam por microconflitualidades e pela porosidade e flexibilidade crescentes entre diferentes segmentos sociais\u201d, nas quais \u201cas formas e funcionamento dos agentes que comp\u00f5em o Estado e o mercado s\u00e3o moldados\u201d (p. 36). Ou seja, de um lado, os grandes sujeitos, como Estado e mercado, seguem existindo; do outro, j\u00e1 n\u00e3o demandam sujeitos constitu\u00eddos pela modula\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria da modernidade; antes, desenvolvem estruturas de explora\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o coletiva a partir de processos moleculares que forjam a forma majorit\u00e1ria de explora\u00e7\u00e3o. Nesse cen\u00e1rio, Porto reencontra o empobrecimento radical do horizonte de emancipa\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o, do qual emerge a imagem de \u201cesgotamento e cancelamento do futuro\u201d. Importa ressaltar que o futuro que se esgota \u00e9 aquele concebido nos termos pensados pela modernidade. Persistem, ainda, focos atomizados de resist\u00eancias particulares que, por diversos motivos, n\u00e3o conseguem conter a dispers\u00e3o desmobilizante \u2013 e, em certa medida, depressiva \u2013 da multid\u00e3o, cujo porvir se converte em mero efeito de um sequenciamento pormenorizado e calcul\u00e1vel. O tempo passa a ser encarado como gest\u00e3o, c\u00e1lculo de probabilidade econ\u00f4mica e investimento libidinal gerenciado, configurando uma forma de controle profundamente distante da ilus\u00e3o de livre iniciativa ou de qualquer no\u00e7\u00e3o semelhante. N\u00e3o por acaso, uma an\u00e1lise da literatura de Franz Kafka e de leituras dele feitas por Mark Fisher, por exemplo, povoam parte desse ensaio. \u00c9 o pr\u00f3prio Mark Fisher quem, segundo Porto, observa que, na atividade pol\u00edtica, sempre nos encontramos acompanhados pelos fantasmas do tempo \u2013 das lutas e das derrotas que marcam conflitos e rebeli\u00f5es fracassadas. No entorno da autonomia abortada, para al\u00e9m de Fisher, vigoram temporalidades estranhas, habitadas por entes da nova configura\u00e7\u00e3o social \u2013 imigrantes, feministas, grupos negros e ind\u00edgenas etc. \u2013, cuja consist\u00eancia e identifica\u00e7\u00e3o vacila, abrindo certas brechas que parecem instaurar um espa\u00e7o puro sem horizonte, vazio e, talvez por isso mesmo, fundamental. \u00c9 a esse tipo de brecha que o livro parece se dirigir: uma rela\u00e7\u00e3o atual com o passado de lutas e de sonhos fracassados que, ainda assim, persistem. Nessa insist\u00eancia, torna- se invis\u00edvel que o percurso de luta pela sobreviv\u00eancia da Terra e pela emancipa\u00e7\u00e3o dos seres passa, necessariamente, por um desencontro com o futuro tal como concebido pelos modernos. Com efeito, esse entrela\u00e7amento entre certa modernidade vacilante, falha ou fantasm\u00e1tica e outras formas de tempo e de ser constitui um dos dispositivos fundamentais da constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica desenvolvida no livro. De um lado, a trag\u00e9dia ambiental imp\u00f5e tal processo, pois o mundo que est\u00e1 por um fio \u00e9 aquele compartilhado por todos os seres. De outro, esse encontro s\u00f3 pode se produzir em uma rela\u00e7\u00e3o estranha, ins\u00f3lita e impr\u00f3pria, isto \u00e9, em termos que n\u00e3o coincidem com os da modernidade hegem\u00f4nica. Portanto, mais uma vez, temos a men\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia fundamental da rela\u00e7\u00e3o com outras formas ontol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>No entanto, o quadro do antagonismo vacilante gera, sem d\u00favida, descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as efetivamente existentes dos projetos alternativos ao capital; por isso, Porto insiste em apontar a fragilidade constitutiva do cen\u00e1rio descrito. Se, de um lado, h\u00e1 um rastro de microconflituosidades dispersas pelo campo tecno-social; de outro, solidariedade, liberdade e as estruturas necess\u00e1rias \u00e0 a\u00e7\u00e3o comum falham estrondosamente. Dessa maneira, o autor nos convoca a um investimento libidinal intenso na produ\u00e7\u00e3o do comum, ou seja, na produ\u00e7\u00e3o daquilo que ser\u00e1 o espa\u00e7o em que o antagonismo pode voltar a engendrar novos sujeitos e coletividades para al\u00e9m do capital e de suas rela\u00e7\u00f5es com os grandes sujeitos modernos. Trata-se da defesa de \u201cuma estrat\u00e9gia que n\u00e3o \u00e9 articulada em rea\u00e7\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es do governo, mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas que nos permitem ou n\u00e3o agir e construir uma experi\u00eancia compartilhada dos modos de produzir nossa vida.\u201d<\/p>\n<p>Seguindo essa leitura, n\u00e3o podemos deixar de mencionar nosso \u00fanico ponto de discord\u00e2ncia com o autor. Estamos no cap\u00edtulo <em>Antagonismos biopol\u00edticos<\/em>, no qual Porto analisa o <em>populismo<\/em> e o (neo)<em>desenvolvimentismo <\/em>como formas contempor\u00e2neas utilizadas por governos para aprofundar a precariedade laboral e impulsionar projetos que intensificam a trag\u00e9dia ecol\u00f3gica, entre outras a\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas. \u00c9 fundamental reconhecer os ataques que as diferentes formas de vida <em>minorit\u00e1rias <\/em>sofrem diante de todos os projetos pol\u00edticos que navegam pelo capitalismo; no entanto, parece-nos igualmente importante atentar para as din\u00e2micas que operam nos espa\u00e7os amb\u00edguos poss\u00edveis, tensionando as formas de explora\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o existentes. Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio apreender adequadamente as estrat\u00e9gias em jogo, bem como os sujeitos envolvidos e o campo de conflitos pol\u00edticos em que se inscrevem. Nesse sentido, entendemos que conceitos como <em>populismo <\/em>e (neo)<em>desenvolvimentismo <\/em>merecem uma aten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica mais cuidadosa, sobretudo por evidenciarem certa indetermina\u00e7\u00e3o quantos aos diferentes momentos hist\u00f3ricos que pretendem abarcar, segundo o autor.<\/p>\n<p>Esquematicamente, no que diz respeito ao <em>populismo<\/em>, pode-se afirmar que, desde que a obra de Ernesto Laclau passou a circular entre n\u00f3s<sup>6<\/sup>, o termo \u2013 geralmente empregado de modo depreciativo por jornalistas para nomear estrat\u00e9gias governamentais que escapavam aos modelos estabelecidos pelos centros de poder \u2013 adquiriu outra densidade, pr\u00f3xima de um m\u00e9todo de leitura sociopol\u00edtica que considera as rela\u00e7\u00f5es entre institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e a sociedade para al\u00e9m dos modelos liberais vigentes, ao identificar uma rede de estrat\u00e9gias materiais voltadas \u00e0 apreens\u00e3o de demandas, desejos e insatisfa\u00e7\u00f5es, articulando esses elementos em torno de um discurso pragm\u00e1tico que busca se converter em programa de governo combativo, orientado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as sociais por meio de embates que movimentam os arranjos da democracia representativa. J\u00e1 o (neo)<em>desenvolvimentismo<\/em><sup>7<\/sup>, ap\u00f3s um breve hist\u00f3rico apresentado no in\u00edcio do ensaio, \u00e9 definido como uma pol\u00edtica econ\u00f4mica governamental que privilegia as empresas nacionais por meio de medidas como desonera\u00e7\u00f5es fiscais, subs\u00eddios a setores estrat\u00e9gicos, entre outras, com o objetivo de transform\u00e1-las em pot\u00eancias internacionais e fomentar o crescimento do emprego formal. Nosso ponto \u00e9 que o entrela\u00e7amento desses conceitos e a extens\u00e3o temporal que visam abarcar indicam um problema de leitura acerca de diferentes momentos dos governos das \u00faltimas d\u00e9cadas. \u00c0 luz da defini\u00e7\u00e3o de <em>populismo <\/em>mencionada, fica evidente que tal arranjo \u00e9 parte de um momento espec\u00edfico, o da chamada \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d, quando o governo federal da \u00e9poca assumiu uma posi\u00e7\u00e3o que ficou conhecida como \u201cagenda FIESP\u201d<sup>8<\/sup>, adotando as medidas j\u00e1 mencionadas e outras correlatas, al\u00e9m de mobilizar um discurso nacionalista que encobria uma s\u00e9rie de viola\u00e7\u00f5es em nome dos progressos necess\u00e1rios para tornar o \u201cBrasil um pa\u00eds de classe m\u00e9dia\u201d, como se afirmava \u00e0 \u00e9poca. Ao generalizar essa rela\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do contexto em que ela de fato ocorreu, incorre-se n\u00e3o apenas em imprecis\u00e3o conceitual \u2013 uma vez que a conceitua\u00e7\u00e3o discutida n\u00e3o se encontra adequadamente aplicada no texto \u2013, mas tamb\u00e9m no enfraquecimento da an\u00e1lise, que perde de vista formas alternativas , ainda que limitadas, de estabiliza\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as sociais e pol\u00edticas que se mostraram efetivas. Como se sabe, o populismo pode ser tanto uma pol\u00edtica de esquerda quanto de direita. \u00c9 poss\u00edvel que o uso do termo no livro dialogue com a leitura proposta por Vladimir Safatle sobre o esgotamento da estrat\u00e9gia de poder dos governos petistas<sup>9<\/sup>. De toda forma, acreditamos que ainda seria uma generaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seguindo o debate, nota-se que foi mencionado acima o programa de distribui\u00e7\u00e3o de renda como uma forma de refor\u00e7ar o ganho dos trabalhadores. Ora \u2013 e aqui voltamos a concordar com a leitura do autor em quest\u00e3o \u2013, ao conceder o benef\u00edcio a fam\u00edlias que n\u00e3o precisam comprovar v\u00ednculo de emprego formal, colocando-as na base da a\u00e7\u00e3o, opera-se um reconhecimento da popula\u00e7\u00e3o como for\u00e7a de trabalho em si ou, mais precisamente, como for\u00e7a produtiva. A despeito de discursos voluntariosos e caridosos em torno do programa, o fato \u00e9 que, n\u00e3o por acaso, ele ocorre em paralelo a uma mudan\u00e7a radical no mundo do trabalho, como argumenta Porto. \u00c9 nesse ponto que o conceito de <em>biopol\u00edtica <\/em>passa a operar, reconhecendo o deslocamento da produ\u00e7\u00e3o do valor do trabalho industrial para a metr\u00f3pole<sup>10<\/sup> e atravessando o corpo coletivo no qual as novas formas de gera\u00e7\u00e3o de renda e explora\u00e7\u00e3o se desenvolvem. Colocando em perspectiva o \u201cBrasil grande\u201d da \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d e o solo produtivo da <em>biopol\u00edtica <\/em>e de seus empreendedores, percebe-se a dimens\u00e3o do equ\u00edvoco de leitura pol\u00edtica que ocorreu naquele momento<sup>11<\/sup>, algo que o ensaio evidencia de forma contundente.<\/p>\n<p>Dito isso, passemos ao pen\u00faltimo cap\u00edtulo, intitulado <em>Ecologia sob a queda do c\u00e9u<\/em>, que \u00e9, a nosso ver, o ponto alto do livro. Defendemos que o ensaio anterior, <em>Bricolagens dist\u00f3picas<\/em>, funciona como uma abertura \u00e0 cosmopol\u00edtica que ser\u00e1 aprofundada nesse ensaio. \u00c9 certo que <em>Bricolagens <\/em>n\u00e3o se esgota nessa fun\u00e7\u00e3o, ao explorar rela\u00e7\u00f5es entre a ci\u00eancia moderna e o pensamento ind\u00edgena e, sobretudo, ao desenvolver o conceito e a pr\u00e1tica da <em>bricolagem <\/em>\u2013 entendida como uma forma de articular elementos d\u00edspares em uma estrutura da qual derivam n\u00e3o apenas conhecimentos, mas tamb\u00e9m novas formas de organiza\u00e7\u00e3o que consideram sentidos n\u00e3o previamente atribu\u00eddos a esses elementos. Entretanto, do nosso ponto de vista, o que \u00e9 elaborado nesse ensaio ganha for\u00e7a justamente ao se articular com o que se desenvolve em <em>Ecologia sob a queda do c\u00e9u<\/em>, constituindo uma esp\u00e9cie de demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de <em>bricolagem <\/em>bem-sucedida. Isso se torna evidente, por exemplo, no tratamento do conceito de <em>diplomacia<\/em>. A riqueza de possibilidades do termo e de sua pr\u00e1tica \u00e9 amplificada pela leitura do cap\u00edtulo anterior, o que refor\u00e7a a consist\u00eancia do trabalho editorial na disposi\u00e7\u00e3o dos cap\u00edtulos.<\/p>\n<\/p>\n<p>Em <em>Ecologia sob a queda do c\u00e9u, <\/em>observa-se uma potente articula\u00e7\u00e3o com o pensamento dos povos ind\u00edgenas, sobretudo com Davi Kopenawa e seu livro, escrito em parceria com Bruce Albert, <em>A queda do c\u00e9u (2015). <\/em>Inicialmente, Porto aponta alguns pormenores sobre a problem\u00e1tica recep\u00e7\u00e3o da obra, mostrando como a possibilidade de apreens\u00e3o do n\u00facleo especulativo, epistemol\u00f3gico e mesmo metaf\u00edsico do pensamento ind\u00edgena torna-se praticamente invi\u00e1vel quantos tais pensadores s\u00e3o enquadrados na concep\u00e7\u00e3o de \u201coutro\u201d, o que obstrui a estrutura\u00e7\u00e3o de pensamentos complexos. Para esses \u201coutros\u201d, restam meras proje\u00e7\u00f5es m\u00edsticas ou m\u00edticas, cuja validade \u00e9, no m\u00e1ximo, relativizada e tratada como algo gen\u00e9rico ou ex\u00f3tico. O ensaio, por\u00e9m, evidencia que se trata de uma esp\u00e9cie \u2013 n\u00e3o tradicional, mas muito efetiva \u2013 de realismo ecol\u00f3gico e pol\u00edtico e, por isso, mais uma vez, ressaltamos a import\u00e2ncia do conceito de <em>diplomacia<\/em>. Tal perspectiva recebe o nome de \u201ccontra-antropologia\u201d, isto \u00e9, um pensamento que, diferentemente da especula\u00e7\u00e3o ocidental tradicional, n\u00e3o comete as simplifica\u00e7\u00f5es e viola\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a quem analisa, mostrando, antes, os limites que os pr\u00f3prios seres se imp\u00f5em em sua destrutiva paix\u00e3o por si mesmos e em sua suposta superioridade intelectual.<\/p>\n<p>Outro ponto relevante do ensaio \u00e9 a imers\u00e3o no sentido profundo da iman\u00eancia radical projetada por Kopenawa, percept\u00edvel na descri\u00e7\u00e3o de um universo rico em entes \u2013 humanos ou n\u00e3o \u2013, todos, por\u00e9m, ontologicamente singulares e relevantes. Isso se manifesta nos conceitos e elabora\u00e7\u00f5es cosmol\u00f3gicas, como \u201cterra-floresta\u201d ou \u201c<em>uhiri<\/em>\u201d (p. 95), bem como no ataque \u00e0 ilus\u00e3o humanista de progresso infinito, que busca salvaguardar o ser humano por meio da coloniza\u00e7\u00e3o de outros territ\u00f3rios ou da tentativa de reverter a finitude da Terra. Dessa maneira, o ensaio nos apresenta os \u201cpovos da mercadoria\u201d, como s\u00e3o chamados os brancos, identificando-os como aqueles que criam diferentes rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e sociabilidade regidas por uma economia de propaga\u00e7\u00e3o incessante de mercadorias, al\u00e9m de processos de identifica\u00e7\u00e3o e normaliza\u00e7\u00e3o que buscam inviabilizar os projetos de luta pelo bem viver.<\/p>\n<p>Neste ponto, cabe ressaltar que a imers\u00e3o imanente proposta por Kopenawa tamb\u00e9m se configura como um passeio pelo universo, pois, uma vez lan\u00e7ados sobre o fr\u00e1gil manto da Terra, percebemos que acima de n\u00f3s n\u00e3o h\u00e1 somente um c\u00e9u a ser explorado, mas um cosmo em rela\u00e7\u00e3o ao qual n\u00e3o somos seres exteriores. Do mesmo modo, delineia-se uma maneira de \u201cexplicar a natureza\u201d derivada de \u201cdiferentes povos que tamb\u00e9m precisam criar alian\u00e7as entre eles\u201d (p. 96). A essa alian\u00e7a deve corresponder um tipo de pol\u00edtica que esteja \u00e0 altura dos compromissos necess\u00e1rios \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da nossa exist\u00eancia, bem como da forma com que diferentes povos e entes trabalham na constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es. Trata-se da <em>cosmopol\u00edtica<\/em>, uma forma de nomear um trabalho em andamento, uma pr\u00e1tica na qual convergem pragmatismo, \u00e9tica e estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Em muitas situa\u00e7\u00f5es, os entes n\u00e3o humanos t\u00eam import\u00e2ncia igual ou superior \u00e0 dos humanos, de modo que as solu\u00e7\u00f5es passam a depender de um tipo de di\u00e1logo <em>interesp\u00e9cies<\/em>, sem o qual a Terra sucumbir\u00e1. \u00c9 esse di\u00e1logo que recebe o nome de <em>diplomacia<\/em>, uma forma singular que n\u00e3o se limita ao uso instrumental para a constru\u00e7\u00e3o de consensos, mas recorre a verdades pragm\u00e1ticas que atravessam e fazem mundos convergir. Assim, na an\u00e1lise dessas correntes te\u00f3ricas, emerge uma sociedade na qual entes n\u00e3o humanos se entrela\u00e7am e coproduzem formas de vida cuja consist\u00eancia n\u00e3o responde necessariamente \u00e0s determina\u00e7\u00f5es exteriores do capital e, por isso, seus desdobramentos permanecem abertos \u00e0s disputas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Com efeito, como tratar de maneira consequente dos limites da Terra \u2013 ou das pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da exist\u00eancia dos seres vivos \u2013 e, ao mesmo tempo, lan\u00e7ar, como faz Kopenawa, uma convoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica constante \u00e0 a\u00e7\u00e3o pela Terra? Ou, mais precisamente, como pensar o convite a uma atividade distinta da concep\u00e7\u00e3o tradicional de a\u00e7\u00e3o, considerando o intermin\u00e1vel trabalho de uma ecologia pol\u00edtica que seja, ela mesma, a composi\u00e7\u00e3o do cuidado com o infinito no qual estamos inseridos \u2013 n\u00f3s, que aqui permanecemos por t\u00e3o pouco tempo? Em suma, como equalizar essas duas frentes e conferir sentido a uma a\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio finito?<\/p>\n<p>Segundo Porto, o encontro com Kopenawa permite vislumbrar uma alternativa ao niilismo ocidental diante da finitude radical que se imp\u00f5e. Trata-se de reconhecer a trag\u00e9dia descrita sem sucumbir ao desespero e, sobretudo, de apreender a forma distinta de se relacionar com o entorno. Se, por um lado, a Terra \u00e9 finita; por outro, essa finitude n\u00e3o deve ser concebida como estranha ou exterior \u00e0 nossa pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o. Em uma fuga urgente do humanismo, caberia intensificar projetos diplom\u00e1ticos <em>interesp\u00e9cies <\/em>que reconhe\u00e7am a pluralidade ontol\u00f3gica e de mundos na qual estamos inseridos enquanto habitamos a Terra. S\u00f3 assim poder\u00e1 emergir um programa pragm\u00e1tico e ecologicamente consequente, \u00e0 altura das possibilidades ainda existentes de viver bem neste planeta.<\/p>\n<p>No \u00faltimo cap\u00edtulo, <em>Da entropia moderna \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/em>, Porto continua a analisar como o presente foi transformado, de um lado, em um espa\u00e7o vinculado a um futuro controlado pelo capital \u2013 ou, mais precisamente, a um tempo sem altera\u00e7\u00f5es \u2013 e, de outro, em um momento no qual o desespero diante da trag\u00e9dia ecol\u00f3gica, somado a outras crises, nos lan\u00e7a em uma situa\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o h\u00e1 mundo para todos, convertendo-se no elemento que p\u00f5e em funcionamento a engrenagem da sociabilidade em geral. A pr\u00f3pria trajet\u00f3ria acad\u00eamica do autor entra na an\u00e1lise da economia pol\u00edtica cotidiana do capitalismo do nosso tempo, cujo funcionamento visa produzir uma sociedade em guerra consigo mesma pela sobreviv\u00eancia di\u00e1ria, bombardeada \u201cpor uma enxurrada de informa\u00e7\u00f5es e est\u00edmulos que o c\u00e9rebro \u00e9 incapaz de processar\u201d. Trata-se de uma esp\u00e9cie de estrat\u00e9gia que paralisa por meio do sofrimento ps\u00edquico, da precariza\u00e7\u00e3o e da descren\u00e7a na busca por autonomia ou mesmo por um corpo saud\u00e1vel. Segundo Porto, a despeito da dissemina\u00e7\u00e3o dessa din\u00e2mica, conceitos como o de <em>necropol\u00edtica<\/em><sup><em>12<\/em><\/sup>endossam o car\u00e1ter indissoci\u00e1vel dessa an\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o aos recortes de ra\u00e7a e g\u00eanero, que intensificam viola\u00e7\u00f5es e desestruturam redes de solidariedade.<\/p>\n<p>Nesse desdobramento, surge uma refer\u00eancia ao trabalho do fil\u00f3sofo Marco Ant\u00f4nio Valentin, trata-se da <em>antropia<\/em>, conceito que busca nomear o processo pelo qual a a\u00e7\u00e3o humana se transforma em for\u00e7a de desestabiliza\u00e7\u00e3o geral das leis fundamentais do planeta, produzindo o desequil\u00edbrio que p\u00f5e a Terra em risco. Porto apresenta, ent\u00e3o, um breve hist\u00f3rico do debate em torno do <em>Antropoceno <\/em>\u2013 entendido como um novo momento ecol\u00f3gico que busca descrever a configura\u00e7\u00e3o da Terra a partir da <em>antropia <\/em>\u2013, bem como de suas varia\u00e7\u00f5es, como <em>Capitaloceno<\/em>, <em>Negroceno <\/em>etc., e de suas implica\u00e7\u00f5es. Refazer esse percurso permite evidenciar n\u00e3o s\u00f3 a multiplicidade de formula\u00e7\u00f5es conceituais, mas tamb\u00e9m que, na variedade de perspectivas, h\u00e1 um ponto de converg\u00eancia: foi durante a modernidade capitalista que se intensificou, de maneira decisiva, a atividade que hoje nos coloca em risco.<\/p>\n<p>Ademais, as diversas formas de nomear o <em>Antropoceno<\/em> apontam para o <em>sujeito moderno <\/em>como o dispositivo central da engrenagem capitalista, respons\u00e1vel por processo de submiss\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o da natureza. Nesse sentido, Porto faz um ajuste de contas com os desdobramentos neorracionalistas surgidos nos debates em torno dos diferentes <em>aceleracionismos<\/em>. Trata-se de um conjunto de autores que busca reabilitar aspectos do Iluminismo para erigir uma estrutura geral baseada na inteligibilidade dos elementos que comp\u00f5em os problemas apresentados, como se, em \u00faltima an\u00e1lise restasse algum sentido racional fundamental a ser reativado como princ\u00edpio de resolu\u00e7\u00e3o transversal \u00e0s diferentes escalas, mantendo-se fiel \u00e0 sua pr\u00f3pria forma. Em outras palavras, trata-se da j\u00e1 conhecida estrat\u00e9gia de estender as alternativas at\u00e9 a racionalidade que est\u00e1 na base do universalismo. Assim, o racionalismo etnoc\u00eantrico que fundamenta as formas de submiss\u00e3o epistemol\u00f3gica e existencial dos territ\u00f3rios n\u00e3o brancos reaparece, paradoxalmente, como horizonte de solu\u00e7\u00e3o. Em oposi\u00e7\u00e3o a essa tentativa de reabilita\u00e7\u00e3o, elenca-se uma s\u00e9rie de autores e de seus respectivos trabalhos que n\u00e3o reproduzem o gesto do universalismo ocidental. Desde Eduardo Viveiros de Castro e D\u00e9bora Danowski at\u00e9 Yuk Hui, passando por Milton Santos, Anna Tsing, Ailton Krenak e Bruno Latour, surgem diversos projetos de racionalidades alternativas, bem como concep\u00e7\u00f5es singulares de tempo e de mundo. Em comum entre eles, nos diz Porto, est\u00e1 o fato de levarem a s\u00e9rio, at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, o que mostram os diferentes seres com os quais os respectivos trabalhos dialogam, sobretudo, no que diz respeito \u00e0s formas destrutivas atuais que o \u201cpovo da mercadoria\u201d insiste em replicar, mas tamb\u00e9m \u2013 e isso \u00e9 fundamental \u2013 \u00e0s possibilidade de aprendizado com seres que j\u00e1 vivem o fim de seus mundos h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Assim, delineiam-se vis\u00f5es <em>cosmot\u00e9cnicas <\/em>e <em>cosmopol\u00edticas<\/em>, isto \u00e9, sistemas de pensamento que se reconhecem como parte de um universo cuja composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 modulada pelo universalismo etnoc\u00eantrico dos modernos e de seus seguidores e que, por isso mesmo, exigem outras formas relacionais e descritivas. A t\u00e9cnica deixa de estar submetida \u00e0 forma econ\u00f4mica hegem\u00f4nica, assim como \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura que a concebe como algo exterior aos seres. Do mesmo modo, a pol\u00edtica n\u00e3o deve se restringir ao desenvolvimento do progresso humano e \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de desejos modulados pelo capital. (Co)movida pelo universo, deve, antes, abrir m\u00e3o do futuro para acessar as brechas do tempo que invocam um repert\u00f3rio existencial derivado da complexidade colaborativa da natureza, cuja organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa pela explora\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o do ambiente em que se insere. Mais uma vez, a articula\u00e7\u00e3o com os fantasmas torna-se um dispositivo fundamental, ao partir do aprendizado que consiste em apreender formas de envolvimento com o mundo \u2013 de cuidado, sobreviv\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o \u2013 que n\u00e3o se encaixam na linearidade ocidental, atualizando pr\u00e1ticas e saberes estranhos \u2013 e por vezes inc\u00f4modos \u2013 ao presente.<\/p>\n<p>Por fim, sem apelar a promessas f\u00e1ceis de uma vida mais aut\u00eantica, o livro defende a persist\u00eancia de certas formas de vida n\u00e3o s\u00f3 como alternativas sociais e pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m como alternativas temporais dispon\u00edveis ao nosso redor, nas brechas. Trata-se de um convite \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de possibilidades para uma vida cuja finalidade n\u00e3o \u00e9 impor controle e explora\u00e7\u00e3o sobre outros seres, mas abrir campos nos quais alteridades se encontrem e produzam mundos em conjunto. Dessa maneira, as brechas revelam-se mais pr\u00f3ximas do que poder\u00edamos supor. No entanto, como mencionado, n\u00e3o apresentam horizonte definido, nem reproduzem as setas do tempo e da configura\u00e7\u00e3o do estado de coisas vigente. Talvez por isso sejam ignoradas, com todos os riscos que isso pode acarretar. O trabalho do livro consiste, assim, em nos lembrar n\u00e3o apenas a exist\u00eancia dessas brechas, mas tamb\u00e9m em alertar para a urg\u00eancia de intensificar sua travessia.<\/p>\n<hr>\n<p><sup>1 <\/sup>Sobre algumas das possibilidades de leitura dessa nova complexidade, ver: Bensusan, Hilan. O realismo especulativo e a metaf\u00edsica dos outros. <em>Revista Eco-P\u00f3s<\/em>, Rio de Janeiro, v. 21, n. 2, 2018, p. 94 -110.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> Sobre a maneira singular como a \u201cqueda do c\u00e9u\u201d \u00e9 abordada por Kopenawa e Albert, ver: VALENTIM, Marco Ant\u00f4nio. A vastid\u00e3o do vazio \u2013 Lucr\u00e9cio, Kant, Kopenawa. <em>Revista de Filosofia Moderna e Contempor\u00e2nea<\/em>, Bras\u00edlia, v. 9, n. 3, dez. 2021, p. 273-292.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> Teoria que, hoje, encontra resson\u00e2ncia entre alguns dos participantes do movimento MAGA (Make America Great Again), encabe\u00e7ado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e voltado \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de um suposto retorno a um pa\u00eds absolutista e triunfante. Tal projeto articula a pretens\u00e3o de submeter pa\u00edses e empresas estrangeiras a estrat\u00e9gias de controle de recursos naturais com uma expans\u00e3o pol\u00edtica ancorada na acelera\u00e7\u00e3o da am\u00e1lgama entre tecnologias de segmenta\u00e7\u00e3o e modula\u00e7\u00e3o de comportamentos, pol\u00edticas de controle e economia extrativa, numa fus\u00e3o entre <em>big techs <\/em>e Estado reacion\u00e1rio, os quais, em conjunto, apostam na produtividade\/imprevisibilidade de uma intelig\u00eancia artificial capaz de tornar os seres humanos obsoletos. Sobre isso, ver: <u>https:\/\/jacobin.com.br\/2025\/07\/o-iluminismo-das-trevas-esta-moldando-a-estrategia-<\/u> trumpista-inclusive-no-ataque-ao-brasil\/; https:\/\/jacobin.com.br\/2025\/01\/esqueca-steve-bannon-a-nova-figura-chave-de- trump-e-peter-thiel\/; <u>https:\/\/www.estadao.com.br\/link\/empresas\/criticos-da-ia-sao-o-anticristo-o-que-o-bilionario-peter-thiel-<\/u> <u>diz-em-suas-palestras-secretas\/?srsltid=AfmBOoraC1H2_gKzlFCx7TQUsy0OMsjbuqF6Wjwm7yy8coZdBwcdaJXq.<\/u> <\/p>\n<p><sup>4<\/sup>N\u00e3o podemos deixar de mencionar a refer\u00eancia feita \u00e0 ideia de <em>generalintellect<\/em>, desenvolvida por Marx nos Grundrisse (2011, p. 587-589).<\/p>\n<p><sup>5<\/sup>Conceito utilizado por Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari para descrever formas de funcionamento do desejo, bem como certas estrat\u00e9gias do capital na tentativa de capturar e vampirizar os fluxos livres do desejo e das rela\u00e7\u00f5es sociais que ainda n\u00e3o entraram nas modula\u00e7\u00f5es da axiom\u00e1tica capitalista, com seus valores e identidades. Ver, entre outros, de Deleuze e Guattari: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. Micropol\u00edtica e segmentariedade. <em>In<\/em>: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. <em>Milplat\u00f4s<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1999. v. 3.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup>S\u00f3 para citar uma esp\u00e9cie de marco, lembramos que, em 2013, o fil\u00f3sofo Vladimir Safatle j\u00e1 escrevia, em sua coluna no jornal <em>FolhadeS\u00e3oPaulo<\/em>, uma esp\u00e9cie de verbete sobre o populismo, em um contexto no qual a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre o tema j\u00e1 estava em curso e seguiu se expandindo posteriormente. Dispon\u00edvel em: <u>https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/opiniao\/99301-populista.shtml<\/u>. Acesso em: 3 abr. 2026.<\/p>\n<p> <sup>7<\/sup>A obra da economista Laura Carvalho \u00e9 especialmente relevante neste debate. A autora critica as escolhas associadas \u00e0 chamada \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d, sobretudo por sua ades\u00e3o \u00e0 agenda FIESP, e se posiciona contra as cr\u00edticas simplificadoras \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f4micas dos primeiros governos petistas, que privilegiaram o mercado interno e a distribui\u00e7\u00e3o de renda. Essa distin\u00e7\u00e3o abre caminho para uma vis\u00e3o mais complexa das decis\u00f5es dos diferentes governos e das formas pelas quais mercado interno e ind\u00fastria nacional foram articulados nas pol\u00edticas econ\u00f4micas do pa\u00eds.<\/p>\n<p> <sup>8<\/sup><sup> <\/sup>N\u00e3o foram poucos os analistas que identificaram, na ado\u00e7\u00e3o da chamada \u201cagenda da FIESP\u201d, um fator decisivo para a morte pol\u00edtica do segundo governo de Dilma Rousseff. N\u00e3o se pode deixar de mencionar a misoginia e o reacionarismo escancarados na vota\u00e7\u00e3o do <em>impeachment<\/em>, mas seria equivocado ignorar os efeitos da recess\u00e3o econ\u00f4mica e a forma como o governo respondeu a ela. Entre outras medidas, promoveu-se um ajuste fiscal que implicou corte de gastos e desonera\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias para empresas.<\/p>\n<p> <sup>9<\/sup>Os exemplos nos quais o fil\u00f3sofo destaca seu ponto de vista podem ser encontrados com facilidade. Citamos aqui esta entrevista por apresentar um desdobramento um pouco mais extenso: SAFATLE, Vladimir. Entrevista  de Vladimir Safatle concedida a Frederico Lyra. <em>CriseeCr\u00edtica,<\/em>v. 2, n. 2, 2019. Dispon\u00edvel em: <u>https:\/\/criseecritica.com\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/008-V2-N2-2019-CC.pdf<\/u>. Acesso em: 3 abr. 2026.<\/p>\n<p><sup>10<\/sup> A refer\u00eancia clara, embora n\u00e3o \u00fanica, em rela\u00e7\u00e3o a este debate \u00e9 o pensador italiano Ant\u00f4nio Negri. Ver, por exemplo: NEGRI, Ant\u00f4nio. Dispositivo metr\u00f3pole. A multid\u00e3o e a metr\u00f3pole. <em>LugarComum<\/em>, n. 25-26, p. 201- 208.<\/p>\n<p> <sup>11<\/sup> Acreditamos que as Jornadas de 2013 s\u00e3o, entre outras coisas, resultado desse erro. Sobre o tema, ver: CAVA, Bruno; COCCO, Giuseppe. <em>Amanh\u00e3vaisermaior<\/em>: o levante da multid\u00e3o no ano que n\u00e3o terminou. Rio de Janeiro: Annablume, 2014.<\/p>\n<p><sup>12<\/sup>Termo cunhado pelo pensador camaron\u00eas Achille Mbembe (2018) para designar um conjunto de estrat\u00e9gias que t\u00eam a morte como for\u00e7a central, seja no ato em si que produz genoc\u00eddios ou chacinas, seja no esgotamento sistem\u00e1tico das condi\u00e7\u00f5es de vida de determinadas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Elabora <i>bricolagens dist\u00f3picas<\/i>. Analisa novas formas de poder. 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