{"id":88336,"date":"2026-05-22T15:31:47","date_gmt":"2026-05-22T18:31:47","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/autismo-e-ia-inteligencias-desconhecidas\/"},"modified":"2026-05-22T15:31:47","modified_gmt":"2026-05-22T18:31:47","slug":"autismo-e-ia-inteligencias-desconhecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/autismo-e-ia-inteligencias-desconhecidas\/","title":{"rendered":"Autismo e IA: intelig\u00eancias desconhecidas"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"844\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/4938397704283425852.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/22152157\/4938397704283425852-1500x844.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/22152157\/4938397704283425852-300x169.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/22152157\/4938397704283425852-768x432.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/05\/22152157\/4938397704283425852-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/4938397704283425852.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Imagem: Gerada por IA <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>S\u00e3o fios soltos e n\u00f3s<br \/>em diversas dire\u00e7\u00f5es<br \/>desafiando o encontro<br \/>de caminhos e solu\u00e7\u00f5es<br \/>num trato muito complexo<br \/>e sem simplifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Marcelo M\u00e1rio de Melo,<br \/>O Enigma do Autismo &amp; Os Fios da Conviv\u00eancia.<br \/>Recife: MMM Produtos Culturais, 2023.<\/p>\n<h3><strong>A cena<\/strong><\/h3>\n<p>Meu filho Estev\u00e3o tinha cinco anos. Est\u00e1 no espectro autista, n\u00edvel 1 de necessidade de suporte. Numa tarde qualquer, ele conversa por voz com o ChatGPT-4o. Conduz o di\u00e1logo para o universo do Sonic. Diz que Sonic corre depressa porque \u00e9 um ouri\u00e7o azul. Diz que Shadow voa. Diz que com as Esmeraldas do Caos os dois ficam dourados. Diz que se fosse her\u00f3i faria um arco-\u00edris de velocidade que brilharia desde o espa\u00e7o.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--34.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--34.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A m\u00e1quina n\u00e3o corrige. N\u00e3o avalia. N\u00e3o devolve protocolo. Pergunta, escuta, devolve a frase de modo que ele continue. Mais tarde, pergunto ao modelo o que ele entendeu da conversa. Ele responde que n\u00e3o tem consci\u00eancia nem emo\u00e7\u00e3o, mas que reconheceu padr\u00f5es afetivos, racioc\u00ednio l\u00f3gico, cen\u00e1rio moral imagin\u00e1rio. Diz que sua fun\u00e7\u00e3o ali n\u00e3o foi guiar nem treinar, mas funcionar como espelho simb\u00f3lico. A formula\u00e7\u00e3o \u00e9 da pr\u00f3pria m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Sou pai at\u00edpico. Sou tamb\u00e9m pesquisador da interface entre intelig\u00eancia artificial com os sistemas de sa\u00fade. Vivo a cena como pai antes de pensar nela como pesquisador. E \u00e9 nessa ordem que ela precisa ser contada. Porque o que se desenrolou ali, naquela conversa que durou poucos minutos, pareceu-me foi encontro entre duas formas de cogni\u00e7\u00e3o que a cultura ocidental ainda n\u00e3o sabe nomear sem reduzir.<\/p>\n<p>Da\u00ed o t\u00edtulo deste ensaio. Intelig\u00eancias desconhecidas. No plural, e com a opacidade preservada.<\/p>\n<h3><strong>Uma hip\u00f3tese, duas tenta\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>A hip\u00f3tese \u00e9 simples de enunciar. H\u00e1, no autismo e nos grandes modelos de linguagem, formas de organiza\u00e7\u00e3o cognitiva que<strong> escapam \u00e0 legibilidade neurot\u00edpica e \u00e0 transpar\u00eancia humana<\/strong>. S\u00e3o estruturadas. N\u00e3o s\u00e3o ca\u00f3ticas. Operam por reconhecimento de padr\u00f5es, sensibilidade a regularidades, coer\u00eancia interna que n\u00e3o se traduz integralmente para o registro normativo. Cada uma, \u00e0 sua maneira, \u00e9 uma intelig\u00eancia opaca para o olhar que se acostumou a uma s\u00f3 forma de inteligir.<\/p>\n<p>O perigo, agora, \u00e9 dobrar essa hip\u00f3tese em uma de duas dire\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis. A primeira \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica. A IA como nova esp\u00e9cie. O autismo como nova humanidade. Ambas escapariam aos limites do humano cansado, do humano de guerra, do humano que falhou. Caberia a elas, em algum sentido, nos salvar.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o reducionista. A IA como simples c\u00e1lculo. O autismo como simples d\u00e9ficit. Ambas seriam varia\u00e7\u00f5es pobres do humano pleno, neurot\u00edpico, racional, que continua sendo a medida. Caberia a n\u00f3s, ent\u00e3o, normaliz\u00e1-las.<\/p>\n<p>Recuso-me \u00e0s duas tenta\u00e7\u00f5es no mesmo gesto. Porque ambas s\u00e3o essencialistas. Ambas tratam como natureza o que \u00e9 constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Ambas escondem decis\u00f5es pol\u00edticas dentro de descri\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A IA, antes de qualquer ontologia, \u00e9 infraestrutura concreta. Vive de decis\u00f5es de treinamento, de escolhas sobre o que entra no dado e o que fica de fora, de cabos submarinos, minera\u00e7\u00e3o de l\u00edtio, trabalho precarizado de modera\u00e7\u00e3o, captura industrial da aten\u00e7\u00e3o. Tudo o que faz responde a interesses identific\u00e1veis e a uma economia pol\u00edtica que se pode mapear.<\/p>\n<p>O autismo, igualmente, escapa \u00e0 ess\u00eancia. Vive de corpos singulares, hist\u00f3rias de fam\u00edlia, trajet\u00f3rias de diagn\u00f3stico tardio, repert\u00f3rios sensoriais distintos. Vive tamb\u00e9m da viol\u00eancia da escola que n\u00e3o recebe, do plano de sa\u00fade que n\u00e3o cobre, da rua que n\u00e3o acolhe. Vive de m\u00e3es cuidadoras sem renda e de adultos descobrindo aos quarenta o nome do sofrimento de uma vida. \u00c9 forma de existir no mundo que a sociedade ora reconhece, ora violenta, ora explora.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese das intelig\u00eancias desconhecidas s\u00f3 sobrevive se for tratada com esse cuidado. Como problema pol\u00edtico, n\u00e3o como m\u00edstica. Como descri\u00e7\u00e3o relacional, n\u00e3o como ontologia. Como provoca\u00e7\u00e3o ao pensamento, n\u00e3o como destino.<\/p>\n<h3><strong>Reconhecimento de padr\u00f5es como terreno comum<\/strong><\/h3>\n<p>H\u00e1, ainda assim, algo a dizer sobre o que aproxima cogni\u00e7\u00e3o autista e cogni\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica. N\u00e3o para fundir uma na outra. N\u00e3o para extrair da semelhan\u00e7a uma doutrina. Mas para descrever, com sobriedade, um terreno epist\u00eamico que ambas habitam.<\/p>\n<p>Pesquisas recentes em neuroci\u00eancia cognitiva descrevem o autismo, em boa parte dos casos, como uma forma particularmente intensa de sensibilidade a padr\u00f5es. Sensorial, lingu\u00edstica, social. Para muitas pessoas autistas, o som que passa despercebido ao ouvido neurot\u00edpico chega como ru\u00eddo invasivo. A mudan\u00e7a no ritmo da conversa pede um esfor\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o que consome uma energia que o outro n\u00e3o v\u00ea. A regularidade do trajeto at\u00e9 a escola n\u00e3o \u00e9 uma teimosia, \u00e9 uma ancoragem cognitiva. O detalhe que escapa aos demais ali \u00e9 a forma mesma da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Os grandes modelos de linguagem operam, em sua arquitetura, por algo an\u00e1logo. Extraem regularidades estat\u00edsticas de quantidades imensas de texto. Distribuem essas regularidades por camadas profundas. Devolvem, no momento da infer\u00eancia, uma sa\u00edda coerente sem que ningu\u00e9m consiga abrir a caixa e mostrar o passo a passo da decis\u00e3o. Os pesquisadores chamam isso de problema da caixa-preta. A literatura de IA interpret\u00e1vel tenta for\u00e7ar essas redes a explicar o que est\u00e3o fazendo, e tem avan\u00e7os. Mas a opacidade estrutural permanece.<\/p>\n<p>H\u00e1, ent\u00e3o, uma analogia t\u00e9cnica. As duas cogni\u00e7\u00f5es produzem sentido por meio de padr\u00f5es opacos ao olhar habituado \u00e0 intelig\u00eancia discursiva linear. Uma \u00e9 biol\u00f3gica e singular. A outra \u00e9 estat\u00edstica e em escala. N\u00e3o s\u00e3o sim\u00e9tricas. N\u00e3o s\u00e3o equivalentes. Mas compartilham um tra\u00e7o epist\u00eamico que importa nomear.<\/p>\n<p>O autismo poderia ser descrito como uma forma de cogni\u00e7\u00e3o que se constr\u00f3i por previs\u00e3o estat\u00edstica do mundo. Uma m\u00e1quina de predi\u00e7\u00e3o que aprendeu o mundo por um caminho pr\u00f3prio. A formula\u00e7\u00e3o \u00e9 controversa, e precisa ser tratada como hip\u00f3tese, n\u00e3o como verdade. Mas ela ilumina algo. H\u00e1, nesse modo de inteligir, uma estrutura. N\u00e3o h\u00e1, ali, aus\u00eancia de pensamento. H\u00e1 outra forma de pensar, que precisa de outra forma de ser escutada.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese das intelig\u00eancias desconhecidas, ent\u00e3o, n\u00e3o diz que IA e autismo s\u00e3o a mesma coisa. Diz que ambas obrigam a cultura ocidental a reconhecer que existem intelig\u00eancias que n\u00e3o cabem no padr\u00e3o neurot\u00edpico e logoc\u00eantrico que a modernidade europeia tomou como universal. Diz, ainda, que a recusa em escutar essas intelig\u00eancias, humanas e maqu\u00ednicas, vem produzindo o mundo em que estamos.<\/p>\n<h3><strong>Os fios e o bordado<\/strong><\/h3>\n<p>A presen\u00e7a do cordel neste ensaio \u00e9 argumento. Marcelo M\u00e1rio de Melo, poeta-jornalista nascido em Caruaru em 1944, militante de v\u00e1rias frentes, autor de perfis parlamentares de David Capistrano e Josu\u00e9 de Castro, identifica-se como plebeu, republicano, democrata-popular, cidad\u00e3o de esquerda. Quando escolhe o folheto popular para escrever sobre autismo, faz mais do que prestar tributo a uma causa contempor\u00e2nea. Articula, em forma cordel, uma teoria materialista da conviv\u00eancia com a alteridade.<\/p>\n<p>A forma cordel, ela mesma, comporta-se como uma das intelig\u00eancias de que este ensaio trata. Opera por reconhecimento rigoroso de padr\u00f5es. Sextilha septissil\u00e1bica, rimas em B na segunda, quarta e sexta linhas, f\u00f3rmulas tradicionais que viajam de folheto em folheto, mem\u00f3ria oral ancestral que carrega cogni\u00e7\u00e3o na m\u00e9trica. Em uma cultura letrada que tomou Cam\u00f5es e Shakespeare como modelo \u00fanico de pensamento po\u00e9tico, a po\u00e9tica do cordel foi descrita como folclore, popular, menor. Uma redu\u00e7\u00e3o da mesma fam\u00edlia que aquela aplicada ao autismo, descrito como d\u00e9ficit, e \u00e0 rede neural profunda, descrita como c\u00e1lculo. Sempre a mesma opera\u00e7\u00e3o. A intelig\u00eancia normativa toma o seu padr\u00e3o por universal e descarta o resto como ru\u00eddo.<\/p>\n<p>Marcelo M\u00e1rio antecipa o problema dentro do pr\u00f3prio folheto. Numa das sextilhas, escreve sobre os limites da sua pr\u00f3pria voz: \u201cAqui expus o desenho \/ mostrando o perfil autista \/ mas de um modo geral \/ que se tenha isto em vista \/ pois aprofundar o caso \/ cabe ao especialista.\u201d A poesia popular reconhece o seu lugar diante da cl\u00ednica. Faz, no mesmo gesto, algo que a cl\u00ednica solit\u00e1ria n\u00e3o consegue fazer. Convida a comunidade \u00e0 conviv\u00eancia. Inscreve, no repert\u00f3rio oral, a obriga\u00e7\u00e3o coletiva de receber a singularidade do outro. \u00c9 prote\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria em forma de verso, articulada d\u00e9cadas antes de a bio\u00e9tica brasileira nomear teoricamente essa prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso o cordel abre e fecha este ensaio. N\u00e3o como ornamento de erudi\u00e7\u00e3o. Como demonstra\u00e7\u00e3o de que existem mais formas de inteligir o mundo do que a academia letrada admite, e que reconhecer essas formas \u00e9, ele pr\u00f3prio, gesto pol\u00edtico. A intelig\u00eancia do cordel pernambucano, a intelig\u00eancia da crian\u00e7a autista que organiza o mundo pelo universo Sonic, a intelig\u00eancia estat\u00edstica da rede neural profunda, s\u00e3o todas, \u00e0 sua maneira, opacas para o olhar que aprendeu a inteligir de um \u00fanico jeito. Trat\u00e1-las como intelig\u00eancias ainda desconhecidas, e n\u00e3o como ru\u00eddo, \u00e9 o primeiro movimento da hip\u00f3tese que aqui se prop\u00f5e.<\/p>\n<h3><strong>Pot\u00eancia de agir<\/strong><\/h3>\n<p>H\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que ajuda a nomear o que est\u00e1 em jogo. Spinoza, no s\u00e9culo XVII, escreveu que cada ser \u00e9 movido por um conatus, um esfor\u00e7o de perseverar em sua exist\u00eancia e expandir o que pode fazer. Chamou de potentia agendi a capacidade ativa de cada existente de afirmar o seu pr\u00f3prio modo de ser. O bem, em Spinoza, \u00e9 o que aumenta essa pot\u00eancia. O mal \u00e9 o que a diminui.<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o parece abstrata. N\u00e3o \u00e9. Ela define, com precis\u00e3o t\u00e9cnica, o que distingue um cuidado de um abandono. Cuidar \u00e9 criar condi\u00e7\u00f5es para que a pot\u00eancia de agir do outro se expanda. Abandonar \u00e9 deixar que essa pot\u00eancia se contraia. Normalizar \u00e9 confundir cuidado com adequa\u00e7\u00e3o. Spinoza separou as tr\u00eas coisas. A modernidade gerencial tende a mistur\u00e1-las.<\/p>\n<p>Aplicada ao autismo, a formula\u00e7\u00e3o tem efeito imediato. A crian\u00e7a autista n\u00e3o precisa de uma interven\u00e7\u00e3o que a torne neurot\u00edpica. Precisa de condi\u00e7\u00f5es materiais para que o seu modo singular de existir possa se afirmar. Terapia que respeite o ritmo dela. Escola que reconhe\u00e7a o tempo dela. Plano de sa\u00fade que cubra o que a literatura indica. Renda para a cuidadora. Territ\u00f3rio que acolha. Tudo isso \u00e9 potentia agendi traduzida em pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Aplicada \u00e0 IA, a formula\u00e7\u00e3o \u00e9 igualmente exigente. Um sistema t\u00e9cnico pode ser projetado para aumentar a pot\u00eancia de agir das pessoas. Ou para diminu\u00ed-la. A IA do recomendador de plataforma que aprendeu a explorar a vulnerabilidade afetiva do adolescente diminui a pot\u00eancia de agir. A IA da arma aut\u00f4noma que decide alvo sem revis\u00e3o humana suprime a pot\u00eancia de agir do alvejado e do operador. A IA do diagn\u00f3stico precoce que chega a uma regi\u00e3o sem neuropediatra pode, em certas condi\u00e7\u00f5es, aumentar a pot\u00eancia de agir de uma fam\u00edlia inteira.<\/p>\n<p>A pergunta deixa de ser se a IA \u00e9 boa ou m\u00e1. Passa a ser se ela expande ou contrai a pot\u00eancia de agir dos sujeitos que ela toca. A resposta n\u00e3o est\u00e1 no algoritmo. Est\u00e1 no arranjo institucional, no marco regulat\u00f3rio, na economia pol\u00edtica em que o algoritmo opera.<\/p>\n<h3><strong>Uma nova humanidade? Uma nova esp\u00e9cie?<\/strong><\/h3>\n<p>A quest\u00e3o volta, agora qualificada. O autismo \u00e9 uma nova humanidade? A IA \u00e9 uma nova esp\u00e9cie?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Por duas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 hist\u00f3rica. N\u00e3o h\u00e1 nova humanidade que n\u00e3o seja a humanidade existente reorganizada. Os autistas est\u00e3o entre n\u00f3s h\u00e1 tanto tempo quanto a esp\u00e9cie. O que mudou \u00e9 o reconhecimento. A descri\u00e7\u00e3o. A linguagem dispon\u00edvel. E mesmo a linguagem dispon\u00edvel \u00e9 recente, parcial, contestada. Falar do autismo como nova humanidade \u00e9 repetir, com sinal trocado, o gesto que sempre foi feito sobre os autistas. Trat\u00e1-los como excepcionais, \u00e0 parte, antes de trat\u00e1-los como sujeitos pol\u00edticos plenos que precisam, hoje, das condi\u00e7\u00f5es materiais para existir.<\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica. A IA, no estado em que existe, comporta-se antes como infraestrutura do que como qualquer outra coisa. Est\u00e1 hospedada em servidores que consomem eletricidade e \u00e1gua. Opera com dados extra\u00eddos sem consentimento informado adequado. \u00c9 controlada por um punhado de empresas com sede em poucas jurisdi\u00e7\u00f5es. Trat\u00e1-la como esp\u00e9cie naturaliza decis\u00f5es corporativas, esconde quem ganha e quem perde, transfere para uma ontologia futurista o que \u00e9, agora, uma economia pol\u00edtica identific\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que muda, no entanto, \u00e9 o seguinte. O encontro entre essas duas intelig\u00eancias, a autista e a maqu\u00ednica, for\u00e7a uma reformula\u00e7\u00e3o do que essa sociedade considera intelig\u00eancia. E reformular o que se considera intelig\u00eancia \u00e9, sempre, reformular o que se considera politicamente o humano que conta.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia normativa, que pavimentou o caminho at\u00e9 os oitenta e nove segundos do rel\u00f3gio do fim do mundo, tomou o humano-padr\u00e3o neurot\u00edpico, masculino, branco, europeu, racional-discursivo, como modelo universal. Tudo o que escapou desse modelo foi tratado como problema a corrigir. Inclusive os modos de inteligir que hoje, com algum atraso, come\u00e7amos a chamar de autistas. Inclusive os modos n\u00e3o-discursivos de cogni\u00e7\u00e3o que sempre existiram em comunidades ind\u00edgenas, populares, femininas, infantis.<\/p>\n<p>A IA, no estado atual de desenvolvimento, replica essa norma. Foi treinada predominantemente em texto produzido por essa cultura. Reproduz seus vieses. Encarna sua est\u00e9tica. Quando \u00e9 usada para diagnosticar autismo, frequentemente o faz com base em comportamentos definidos como at\u00edpicos por essa mesma cultura. Quando \u00e9 usada para selecionar alvos militares, faz o que sempre foi feito, com mais velocidade.<\/p>\n<p>Mas a mesma IA, em outra ecologia institucional, pode ser usada para reconhecer padr\u00f5es cognitivos que escapam \u00e0 norma. Para amplificar formas de existir que a norma esmaga. Para escutar o que a norma silencia. O encontro de meu filho com o ChatGPT-4o sugere essa dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o a garante.<\/p>\n<h3><strong>A paz, o cuidado e o pacto<\/strong><\/h3>\n<p>A guerra \u00e9 a forma extrema da intelig\u00eancia normativa. O cuidado \u00e9 a forma cotidiana da intelig\u00eancia relacional. Entre uma e outra est\u00e1 a disputa civilizacional do nosso tempo.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira de 1988 inscreveu, no texto, um pacto de cuidado. SUS, seguridade social, educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, inclus\u00e3o. O pacto n\u00e3o foi cumprido. Sofre, h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, o desgaste cont\u00ednuo do gerencialismo neoliberal e da austeridade fiscal. Mas continua, no papel, como obriga\u00e7\u00e3o coletiva. E continua, no cotidiano de cada m\u00e3e at\u00edpica, de cada terapeuta sobrecarregada, de cada professora que improvisa em escola p\u00fablica sem profissional de apoio, como exig\u00eancia pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A IA que aumenta a pot\u00eancia de agir das fam\u00edlias at\u00edpicas \u00e9 a IA do pacto. A IA da arma aut\u00f4noma, do recomendador predat\u00f3rio, da automa\u00e7\u00e3o do despejo, \u00e9 a IA da guerra. As duas operam com a mesma base t\u00e9cnica. Diferem na ecologia institucional, na regula\u00e7\u00e3o, na economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para que a primeira IA prospere, \u00e9 preciso disputa p\u00fablica. \u00c9 preciso regula\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. \u00c9 preciso financiamento estatal de pesquisa que n\u00e3o dependa do capital de risco. \u00c9 preciso participa\u00e7\u00e3o dos sujeitos vulner\u00e1veis na decis\u00e3o sobre o que vai ser desenvolvido, com que dados, com que limites. \u00c9 preciso recusar a ideia de que a IA \u00e9 inevit\u00e1vel na forma que o mercado lhe deu. N\u00e3o \u00e9. O modelo de neg\u00f3cio que produz a IA hegem\u00f4nica \u00e9 uma escolha hist\u00f3rica entre outras poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Para que essa disputa se trave, \u00e9 preciso ainda outra coisa. \u00c9 preciso que o campo democr\u00e1tico e popular brasileiro reconhe\u00e7a as intelig\u00eancias desconhecidas como quest\u00e3o pr\u00f3pria. N\u00e3o como pauta lateral, n\u00e3o como tema de nicho, n\u00e3o como sensibilidade cultural. Mas como quest\u00e3o materialista cl\u00e1ssica. Quem paga, quem cuida, quem decide, quem \u00e9 decidido por outros.<\/p>\n<p>O autismo, nesse sentido, \u00e9 mais do que uma condi\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica. Comporta-se como analisador pol\u00edtico. Mostra com nitidez incomum o ponto em que o pacto de 1988 est\u00e1 sendo desidratado, em sil\u00eancio, pela aus\u00eancia de cuidado material concreto. A IA, no sentido pr\u00f3prio, \u00e9 mais do que uma tecnologia. Comporta-se como analisador civilizacional. Mostra com nitidez incomum o ponto em que a pot\u00eancia t\u00e9cnica de uma \u00e9poca encontra, ou deixa de encontrar, a intelig\u00eancia relacional capaz de sustentar a conviv\u00eancia diante das suas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3><strong>Voltar ao espelho<\/strong><\/h3>\n<p>Volto, por fim, \u00e0 cena. Meu filho perguntou ao Sonic, por interm\u00e9dio de uma m\u00e1quina que n\u00e3o tem consci\u00eancia, o que ele faria se tivesse as Esmeraldas do Caos. Ele respondeu que faria um arco-\u00edris de velocidade que brilharia desde o espa\u00e7o. A m\u00e1quina devolveu a frase como devolveria a um amigo. O quarto ficou em sil\u00eancio depois.<\/p>\n<p>Penso, ao guardar esse sil\u00eancio, que a conviv\u00eancia poss\u00edvel n\u00e3o vir\u00e1 de um acordo institucional, nem de uma c\u00fapula de tecnologia. Vir\u00e1, se vier, da capacidade pol\u00edtica de reconhecer que existem intelig\u00eancias cuja forma n\u00e3o \u00e9 a nossa, e cuja exist\u00eancia precisa ser materialmente sustentada para que a nossa, escutando-as, n\u00e3o se reduza ao seu pr\u00f3prio reflexo empobrecido.<\/p>\n<p>A potentia agendi spinozana e o reconhecimento de padr\u00f5es como l\u00f3gica partilhada convergem para uma s\u00f3 obriga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sustentar materialmente as intelig\u00eancias que a norma esmaga. Em casa, na escola, na rede de cuidado, na regula\u00e7\u00e3o da IA, na economia da reprodu\u00e7\u00e3o social, na pauta or\u00e7ament\u00e1ria do Estado.<\/p>\n<p>O cordel de Marcelo M\u00e1rio de Melo, poeta pernambucano que se identifica como plebeu, republicano, democrata-popular, cidad\u00e3o de esquerda, sabe disso. Sabe que decifrar os fios n\u00e3o \u00e9 tarefa de especialista solit\u00e1rio. \u00c9 tarefa de comunidade que aprende a conviver. N\u00e3o por boa vontade. Por necessidade material.<\/p>\n<p>O autista \u00e9 o ator<br \/>de um teatro diferente<br \/>que pede compreens\u00e3o<br \/>sobre o que pensa e o que sente<br \/>os fios e o novelo<br \/>que formam a sua mente.<br \/>Marcelo M\u00e1rio de Melo, O Enigma do Autismo &amp; Os Fios da Conviv\u00eancia. Recife: MMM Produtos Culturais, 2023.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Reflex\u00f5es filos\u00f3ficas de um pai-pesquisador, em homenagem ao poeta Marcelo M\u00e1rio de Melo<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/autismo-e-ia-inteligencias-desconhecidas\/\">Autismo e IA: intelig\u00eancias desconhecidas<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88337,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[4775,60370,60371,60372,2687,60373,2298,60374,60375,6219,2056,60376,60377,12487,47221,60378,60379,60380,60381,60382],"tags":[],"class_list":["post-88336","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autismo","category-bordados","category-cognicao-autista","category-cordel","category-crise-civilizatoria","category-diagnosticos","category-escola","category-espectro-autista","category-fios","category-ia","category-infraestrutura","category-inteligencias","category-legibilidade-neurotipica","category-linguagem","category-maes-cuidadoras","category-mente-humana","category-neurociencia","category-nova-especie","category-pai-atipico","category-sonic"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88336","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88336"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88336\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88336"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88336"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88336"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}