{"id":88428,"date":"2026-05-23T14:22:23","date_gmt":"2026-05-23T17:22:23","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/aluguel-retrato-de-um-sequestro-das-cidades\/"},"modified":"2026-05-23T14:22:23","modified_gmt":"2026-05-23T17:22:23","slug":"aluguel-retrato-de-um-sequestro-das-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/aluguel-retrato-de-um-sequestro-das-cidades\/","title":{"rendered":"Aluguel, retrato de um sequestro das cidades"},"content":{"rendered":"<figure><figcaption>Favela do Metr\u00f4-Mangueira (Rio de Janeiro). Foto: T\u00e2nia R\u00eago (Ag\u00eancia Brasil).<\/figcaption><\/figure>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Paula Santoro<\/strong> em entrevista a <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Pode ser o retrato silencioso de uma transi\u00e7\u00e3o habitacional? O sonho da casa pr\u00f3pria, ainda alimentado por nove em cada dez brasileiros sem im\u00f3vel, vem naufragando para dar lugar a uma nova realidade: o aluguel. Em nove anos, o pa\u00eds viu o n\u00famero de moradias alugadas saltar 54,1% \u2014 de 12,3 milh\u00f5es (18,4% do total), em 2016, para 18,9 milh\u00f5es (23,8%), em 2025. No mesmo per\u00edodo, a fatia dos im\u00f3veis pr\u00f3prios e quitados encolheu de 66,8% para 60,2%. A esperan\u00e7a de deixar o \u201cperrengue\u201d do aluguel e fincar ra\u00edzes na seguran\u00e7a da casa pr\u00f3pria afunda. Enquanto isso, nos \u00faltimos doze meses, o pre\u00e7o dos alugu\u00e9is subiu 13,5% \u2014 e s\u00f3 em janeiro de 2026, a alta foi o triplo da infla\u00e7\u00e3o. Os dados s\u00e3o da PNAD Cont\u00ednua deste ano.<\/p>\n<p>Muitos buscam explica\u00e7\u00f5es em planilhas: afinal, com a taxa Selic estratosf\u00e9rica, o cr\u00e9dito para financiar a casa pr\u00f3pria tornou-se inacess\u00edvel \u00e0 maioria das fam\u00edlias. \u00c9 verdade. Mas o problema exige um olhar para al\u00e9m da superf\u00edcie do economiqu\u00eas. Na \u00faltima d\u00e9cada, a precariza\u00e7\u00e3o da vida atingiu milh\u00f5es de brasileiros. O trabalho tempor\u00e1rio, a informalidade, a pejotiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o retratos de um mercado de trabalho; e mesmo com a redu\u00e7\u00e3o do desemprego no governo Lula 3, a \u201ccarteira-assinada\u201d ainda paga mal e explora demais. Numa casa sustentada por dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, por exemplo, alimenta\u00e7\u00e3o e aluguel consomem mais de 60% da renda. Sobram, ent\u00e3o, cerca de 900 reais para o resto: transporte, rem\u00e9dios, luz e \u00e1gua, lazer, g\u00e1s de cozinha, internet, material escolar, roupas, manuten\u00e7\u00e3o da casa\u2026 Como conciliar a conta zerada e tantos boletos chegando?<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--40.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--40.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Uma das consequ\u00eancias \u00e9 o endividamento. Ele flagela 80,4% das fam\u00edlias brasileiras \u2014 o maior \u00edndice da s\u00e9rie hist\u00f3rica da Pesquisa de Endividamento e Inadimpl\u00eancia do Consumidor (Peic). Hoje, 29,7% do or\u00e7amento familiar j\u00e1 est\u00e1 comprometido com o pagamento de d\u00edvidas. Nesse cen\u00e1rio, comprovar renda para dar entrada num im\u00f3vel \u00e9 simplesmente imposs\u00edvel. E, mesmo as fam\u00edlias que conseguem faz\u00ea-lo, tornam-se prisioneiras da hipoteca: acabam pagando, s\u00f3 em juros, quase o valor de outro im\u00f3vel; e as parcelas s\u00e3o grilh\u00f5es por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>As cidades brasileiras sempre foram marcadas pela grande concentra\u00e7\u00e3o patrimonial. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, dados de 2020 indicam que apenas 1% dos propriet\u00e1rios concentra 45% do valor imobili\u00e1rio da cidade. Sobre esse solo desigual, entrou em cena a financeiriza\u00e7\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o. Mas agora o mercado sacou algo novo: \u00e9 mais lucrativo alugar do que vender moradias. Muitos apartamentos novos j\u00e1 nascem n\u00e3o para morar, mas como ativos para investidores. Surgem modelos como o <em>multifamily <\/em>\u2014 pr\u00e9dios inteiros constru\u00eddos exclusivamente para alugar \u2014 e a gest\u00e3o por plataformas de aluguel tempor\u00e1rio, que buscam garantir renda fixa aos propriet\u00e1rios. Colocar um im\u00f3vel no Airbnb costuma gerar faturamento bruto 20% a 40% maior do que no aluguel tradicional, apesar de exigir mais trabalho de gest\u00e3o.<\/p>\n<p>O impacto \u00e9 enorme, pois esse novo modelo tensiona o mercado de loca\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o. Ele se concentra em \u00e1reas com boa infraestrutura \u2014 pr\u00f3ximas a turismo, hospitais, universidades \u2014 elevando o pre\u00e7o m\u00e9dio para todos e expulsando moradores locais. No Brasil, a regula\u00e7\u00e3o dessas plataformas ainda \u00e9 embrion\u00e1ria, sobretudo se comparada \u00e0 de cidades como Barcelona e Berlim, que j\u00e1 impuseram restri\u00e7\u00f5es para proteger seu parque habitacional permanente.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro fator. Em v\u00e1rios munic\u00edpios, programas habitacionais v\u00eam sendo substitu\u00eddos por Bolsa Aluguel \u2014 especialmente no contexto de cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas e remo\u00e7\u00f5es de \u00e1reas de risco. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, uma lei aprovada na gest\u00e3o Ricardo Nunes, em 2022, criou um mecanismo que acelera remo\u00e7\u00f5es ao oferecer indeniza\u00e7\u00f5es como \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d habitacional. Quatro anos depois, uma investiga\u00e7\u00e3o do LabCidade revelou: fam\u00edlias removidas de moradias consideradas irregulares \u2014 em \u00e1reas onde a Prefeitura planeja obras ou que a Defesa Civil classifica como de risco \u2014 recebem, como indeniza\u00e7\u00e3o, apenas um quarto do valor de uma unidade social adquirida pelo munic\u00edpio. E vem o absurdo: a lei prev\u00ea essa indeniza\u00e7\u00e3o como atendimento habitacional definitivo. Quem a recebe fica, portanto, para sempre impedido de voltar a receber aux\u00edlio-aluguel ou de se inscrever em qualquer programa habitacional \u2014 municipal, estadual ou federal. Diante da precariedade do aux\u00edlio-aluguel \u2014 hoje fixado entre 400 e 600 reais, insuficiente at\u00e9 mesmo para um aluguel nas favelas de S\u00e3o Paulo \u2014 e da longa espera por moradia, as fam\u00edlias acabam pressionadas a aceitar propostas insuficientes. As indeniza\u00e7\u00f5es, assim, operam como um mecanismo de redu\u00e7\u00e3o artificial da fila habitacional.\u00a0<\/p>\n<p>Como enfrentar esse cen\u00e1rio de crise? Seria poss\u00edvel desmercantilizar a moradia \u2014 transicionando da \u201cideologia da casa pr\u00f3pria\u201d para o conceito de habita\u00e7\u00e3o como servi\u00e7o p\u00fablico universal, como \u00e9 a sa\u00fade com o SUS? Afinal, a loca\u00e7\u00e3o social n\u00e3o deveria ser apenas uma alternativa \u201cmenos pior\u201d que a propriedade, mas sim um modelo no qual o Estado mant\u00e9m a posse do patrim\u00f4nio e garante alugu\u00e9is justos e para quem mais precisa, em vez de alimentar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Convidamos Paula Santoro, professora de Planejamento Urbano e Regional da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e uma das coordenadoras do LabCidade, para nos ajudar a compreender a profunda transforma\u00e7\u00e3o em curso no perfil da moradia no pa\u00eds: o avan\u00e7o do aluguel. Na entrevista, ela analisa como esse fen\u00f4meno \u00e9 impulsionado pela financeiriza\u00e7\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o, pela precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e pela insufici\u00eancia das pol\u00edticas p\u00fablicas \u2014 e discute poss\u00edveis sa\u00eddas para um dos grandes dramas do brasileiro: o aluguel que j\u00e1 n\u00e3o cabe no bolso.<\/p>\n<p><strong>Dados do IBGE indicam uma mudan\u00e7a significativa num pa\u00eds onde a casa pr\u00f3pria sempre foi um dos principais objetivos de vida: cada vez mais fam\u00edlias brasileiras vivem de aluguel. O que explica essa transforma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/HUCITEC-basaglia1-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/HUCITEC-basaglia1-3.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/11\/31182113\/HUCITEC-basaglia1-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O fato de as fam\u00edlias alugarem mais revela uma dificuldade de acesso ao mercado de compra e venda \u2014 e tamb\u00e9m ao financiamento. Isso mostra que o nosso quadro de necessidades habitacionais \u00e9, sobretudo, o das fam\u00edlias de menor renda, sem emprego. Estamos vivendo um mundo do trabalho que se alterou completamente. Essas fam\u00edlias j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam empregos fixos, mas trabalhos tempor\u00e1rios; ganham uma hora, outra n\u00e3o; t\u00eam dificuldade de comprovar renda. E s\u00e3o justamente essas fam\u00edlias que mais sofrem com o d\u00e9ficit habitacional. Na cidade de S\u00e3o Paulo, 87% das pessoas em d\u00e9ficit habitacional t\u00eam renda de zero a um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Quando falamos em pol\u00edtica habitacional, estamos falando de uma pol\u00edtica voltada para quem n\u00e3o necessariamente tem renda est\u00e1vel, mas precisa ter casa.<\/p>\n<p>Estas fam\u00edlias, em tese, n\u00e3o poderiam comprometer mais de 30% da renda com habita\u00e7\u00e3o, mas est\u00e3o gastando bem mais do que isso. \u00c9 claro que esse c\u00e1lculo \u00e9 um n\u00famero meio m\u00e1gico, do Norte colonizador, que fez uma conta matem\u00e1tica de quanto se gasta para comer, se vestir e se transportar, e definiu que o que sobrasse deveria dar conta da habita\u00e7\u00e3o. Mas, muitas vezes, essa conta n\u00e3o fecha: a pessoa deixa de comer para pagar o aluguel, ou vai se endividando. A realidade \u00e9 muito diferente da narrativa do mercado, que diz: \u201cas pessoas est\u00e3o alugando mais porque querem morar perto do trabalho\u201d. Como se fosse uma escolha. Mas o que vemos \u00e9 o contr\u00e1rio: as fam\u00edlias est\u00e3o sem escolha \u2014 e gastando muito com aluguel. O movimento de moradia costuma dizer que alugar \u00e9 um perrengue. E o aluguel aparece como fracasso por n\u00e3o ter conseguido comprar a casa pr\u00f3pria.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Como o mercado est\u00e1 atuando frente a este cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>O mercado est\u00e1 criando produtos imobili\u00e1rios voltados para o aluguel. A pr\u00f3pria classe m\u00e9dia passou a olhar esses produtos como forma de investimento. Quando visitamos estandes de venda, a pergunta \u00e9 direta: \u201c\u00c9 para morar ou para investir?\u201d Claramente, foi definido que existe um tipo de im\u00f3vel pensado para investimento \u2014 ou seja, para ser colocado em aluguel e gerar renda a partir dessa propriedade. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no mercado imobili\u00e1rio. H\u00e1 tamb\u00e9m muitas fam\u00edlias que viram no aluguel uma forma de complementar a renda, sobretudo entre as mais pobres. A pessoa j\u00e1 ganha muito mal, ent\u00e3o aluga a parte de tr\u00e1s da casa para conseguir um dinheiro extra. Ou se aposenta e tem no aluguel uma forma de complementa\u00e7\u00e3o de renda. O mercado est\u00e1 se ampliando!<\/p>\n<p>Isso \u00e9 percept\u00edvel nos microapartamentos caros no centro e no aluguel tempor\u00e1rio. O mercado vem se estruturando em uma esp\u00e9cie de renda fixa. Passou a lan\u00e7ar empreendimentos imobili\u00e1rios e, ao mesmo tempo, oferecer para quem comprasse a possibilidade de contratar uma gestora privada de alugu\u00e9is, que garante essa renda fixa ao propriet\u00e1rio que coloca seu im\u00f3vel nesse circuito: mesmo que o im\u00f3vel fique vazio, ele continua recebendo \u2014 e, muitas vezes, a propriedade \u00e9 destinada ao aluguel tempor\u00e1rio. Muitos im\u00f3veis em \u00e1reas tur\u00edsticas, pr\u00f3ximas a universidades e hospitais, por exemplo, est\u00e3o sendo sugados para o mercado de aluguel tempor\u00e1rio. Aqueles que antes eram destinados \u00e0 moradia passam a alimentar este circuito. Com isso, perdemos moradias. Isto ainda n\u00e3o virou pauta dos movimentos de moradia, mas deveria.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o do aluguel est\u00e1 ficando mais caro pela competi\u00e7\u00e3o com o aluguel tempor\u00e1rio, que cobra mais caro por per\u00edodos curtos \u2014 e consegue essa fluidez porque recebe estrangeiros e pessoas de fora. O mercado define o pre\u00e7o. E o pre\u00e7o do aluguel sobe para todo mundo.\u00a0<\/p>\n<p>Veja: estamos vendo surgir o modelo <em>multifamily<\/em>, em que as unidades n\u00e3o s\u00e3o feitas para vender para fam\u00edlias, mas para serem colocadas nas m\u00e3os de uma gestora e alugadas \u2014 e inacess\u00edveis para os mais pobres. \u00c9 a l\u00f3gica propriet\u00e1ria: \u201ctenho um im\u00f3vel, alugo e ganho renda\u201d. \u00c9 o oposto de uma pol\u00edtica baseada na desmercantiliza\u00e7\u00e3o da moradia: aluguel acess\u00edvel ou totalmente subsidiado pelo poder p\u00fablico para os mais pobres, fora dos pre\u00e7os definidos pelo mercado e com regula\u00e7\u00e3o do aluguel tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 um novo ciclo de investida rentista nas cidades?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos vendo uma expans\u00e3o do aluguel no \u00e2mbito das pol\u00edticas habitacionais. Durante muito tempo, tivemos pol\u00edticas que simplesmente n\u00e3o olhavam para o aluguel. De repente, o mercado imobili\u00e1rio diz: \u201ctive uma superprodu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estou conseguindo vender minhas unidades. Por que n\u00e3o abrir um programa de aluguel?\u201d E, assim, o pr\u00f3prio mercado vai desenhando as pol\u00edticas p\u00fablicas, em que o poder p\u00fablico entra com um subs\u00eddio, um <em>voucher<\/em>: R$ 600, por exemplo, e a fam\u00edlia precisa complementar o restante do pr\u00f3prio bolso. Quem \u00e9 dono do im\u00f3vel pode alug\u00e1-lo pelo pre\u00e7o de mercado \u2014 um valor que a fam\u00edlia, apenas com sua renda, n\u00e3o conseguiria pagar. Assim, a pol\u00edtica p\u00fablica acaba por garantir o pre\u00e7o de mercado.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica de <em>voucher<\/em>, a Bolsa Aluguel ou Aux\u00edlio Aluguel, se fortalece mais como assist\u00eancia social do que propriamente pol\u00edtica habitacional, j\u00e1 que n\u00e3o garante que a pessoa efetivamente conseguiu uma solu\u00e7\u00e3o de moradia, pois pode pegar o dinheiro e ir morar com familiares ou em outro lugar. N\u00e3o existe, de fato, um controle sobre esse recurso. Em S\u00e3o Paulo, cerca de 30 mil fam\u00edlias estiveram nessa situa\u00e7\u00e3o de aux\u00edlio aluguel, o que afetou, inclusive, o mercado nas \u00e1reas prec\u00e1rias. Funciona assim: remove-se uma favela, concede-se esse aux\u00edlio enquanto as fam\u00edlias n\u00e3o recebem a solu\u00e7\u00e3o definitiva. E para onde essas fam\u00edlias v\u00e3o? Como n\u00e3o precisam comprovar que est\u00e3o alugando um im\u00f3vel formal, acabam entrando no pr\u00f3prio mercado informal, geralmente em territ\u00f3rios pr\u00f3ximos de onde j\u00e1 viviam, o que acabou provocando uma eleva\u00e7\u00e3o dos valores dos alugu\u00e9is em ocupa\u00e7\u00f5es e favelas. Tem um caso estudado na FAU, onde dou aula, em Parais\u00f3polis, a partir de uma pesquisa do professor Jo\u00e3o Meirelles, que observou uma produ\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria nas \u00e1reas prec\u00e1rias voltada para aluguel. \u00c9 aquele modelo de t\u00e9rreo mais tr\u00eas andares, tudo colocado para alugar, acompanhado de uma transforma\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria do territ\u00f3rio: sai o barraco, entra um pr\u00e9dio; no t\u00e9rreo, com\u00e9rcio; em cima, casas e apartamentos.<\/p>\n<p><strong>E por que o aux\u00edlio-aluguel virou uma das principais pol\u00edticas habitacionais do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Essa solu\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria est\u00e1 muito disseminada nos munic\u00edpios brasileiros. Na \u00faltima pesquisa do IBGE, mais da metade dos munic\u00edpios afirmou ter algum tipo de pol\u00edtica de aluguel baseada em aux\u00edlio-aluguel. Ou seja, \u00e9 uma pol\u00edtica que se espalhou pelo pa\u00eds, pois tamb\u00e9m atende, por exemplo, situa\u00e7\u00f5es de desastre ambiental. O que fizeram em Porto Alegre [RS] e Tubar\u00e3o [ES]? Dar aux\u00edlio-aluguel para as fam\u00edlias irem procurar alguma solu\u00e7\u00e3o no mercado, sem uma pol\u00edtica habitacional articulada a esse instrumento. Precisaremos pensar em estrat\u00e9gias para construir um parque p\u00fablico de moradia. Sabemos que, como resultado das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, os desastres v\u00e3o acontecer \u2014 e j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 mais para \u201ca fam\u00edlia se virar\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Outra tend\u00eancia que est\u00e1 se ampliando nos governos \u00e9 o abono pecuni\u00e1rio \u2014 o dinheiro dado \u00e0s fam\u00edlias na forma de bolsa-aluguel, sem controle efetivo se \u00e9 destinado \u00e0 moradia. \u00c9 uma <em>assetiza\u00e7\u00e3o<\/em> das pol\u00edticas habitacionais, transformadas numa esp\u00e9cie de \u201crenda m\u00ednima\u201d. A pr\u00f3pria pol\u00edtica vira um ativo diante das crescentes demandas habitacionais. Em S\u00e3o Paulo, o maior programa habitacional hoje \u00e9 este aux\u00edlio prec\u00e1rio. \u00c9 um fen\u00f4meno novo, que articula pol\u00edticas p\u00fablicas e produ\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, tanto no mercado formal quanto informal, a partir do aluguel. O poder p\u00fablico diz estar dando uma solu\u00e7\u00e3o habitacional: remove fam\u00edlias, concede este aux\u00edlio, remove mais fam\u00edlias, mais aux\u00edlios, e assim sucessivamente. Quando o custo fica muito alto, restringe-se o programa: \u201cs\u00f3 receber\u00e1 por dois anos\u201d, \u201cvoc\u00ea precisa se recadastrar\u201d\u2026\u00a0<\/p>\n<p><strong>O aumento do aluguel parece estar conectado com a financeiriza\u00e7\u00e3o das cidades. Como esse processo funciona na pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 outro fen\u00f4meno, mais complexo, e tem a ver com a financeiriza\u00e7\u00e3o. Nossas cidades j\u00e1 n\u00e3o vivem mais do per\u00edodo industrial, da produ\u00e7\u00e3o, mas da gera\u00e7\u00e3o de rendas. E o capital imobili\u00e1rio ocupa um lugar privilegiado, sobretudo em cidades onde o pre\u00e7o da terra \u00e9 alto. Vemos o setor imobili\u00e1rio se transformar, de diferentes maneiras, numa frente de investimento.<\/p>\n<p>O rentismo tradicional baseia-se na propriedade como fonte de renda: ser dono j\u00e1 garante ganhos com a valoriza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel ao longo do tempo, mesmo que se more nele. H\u00e1 tamb\u00e9m o rentismo por aluguel: al\u00e9m da valoriza\u00e7\u00e3o, obt\u00e9m-se renda fixa com a loca\u00e7\u00e3o. O setor imobili\u00e1rio foi fortemente financeirizado \u2014 e isso n\u00e3o acontece apenas com o aluguel direto. \u00c9 poss\u00edvel colocar um im\u00f3vel em um fundo imobili\u00e1rio ou em uma gestora privada de aluguel e receber uma renda fixa. O im\u00f3vel se transforma, ent\u00e3o, em um investimento est\u00e1vel. Al\u00e9m disso, tanto os fundos quanto os contratos de aluguel, uma vez inseridos no mundo financeirizado, podem ser convertidos em d\u00edvida negoci\u00e1vel \u2014 como os Certificados de Receb\u00edveis Imobili\u00e1rios (CRI). Com isso, criam-se ganhos abstratos e produtos financeiros derivados do fluxo de renda gerado pelo capital imobili\u00e1rio. O papel privilegiado do aluguel tamb\u00e9m permite que, numa parceria p\u00fablico-privada, o concession\u00e1rio produza unidades habitacionais e, em vez de vend\u00ea-las, as coloque para aluguel, passando a ganhar renda tamb\u00e9m nessa parceria.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Como seria uma pol\u00edtica habitacional de aluguel social robusta e mais eficaz? Como o Estado poderia resolver essa quest\u00e3o fora da l\u00f3gica de captura pelo capital imobili\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Seria sair da l\u00f3gica propriet\u00e1ria, mas at\u00e9 as receitas para isso t\u00eam, contraditoriamente, os seus desafios. No caso das pol\u00edticas sociais, t\u00ednhamos programas habitacionais em que o poder p\u00fablico constru\u00eda as moradias, mantinha a propriedade e destinava essas unidades \u00e0s fam\u00edlias, muitas vezes por meio de concess\u00e3o de uso. H\u00e1 tamb\u00e9m o modelo de loca\u00e7\u00e3o social, como o de S\u00e3o Paulo: as fam\u00edlias pagam um aluguel abaixo do mercado, pensado para baixa renda, e podem morar ali indefinidamente, sem amea\u00e7a constante de remo\u00e7\u00e3o. Nos dois casos, a propriedade continua sendo p\u00fablica. Se a fam\u00edlia sai ou melhora de vida, o im\u00f3vel retorna ao poder p\u00fablico, que o destina a outra fam\u00edlia em situa\u00e7\u00e3o semelhante de necessidade.<\/p>\n<p>Outra frente \u00e9 pensar formas de propriedade e gest\u00e3o coletiva da moradia. J\u00e1 existe, com muitas aspas, um modelo de aluguel em pequenas unidades de \u00e1reas ocupadas \u2014 e ele costuma ser bastante inclusivo. Envolve movimentos de moradia e pessoas que n\u00e3o conseguem acessar o mercado formal. O aluguel informal \u00e9 essencial para quem est\u00e1 com a vida suspensa: egressos do sistema prisional, jovens que saem da Funda\u00e7\u00e3o Casa, imigrantes. Essas pessoas n\u00e3o conseguem alugar no mercado formal \u2014 ent\u00e3o alugam onde podem, muitas vezes em moradias de qualidade razo\u00e1vel. Existe, portanto, um mundo coletivo organizado em torno da moradia que poderia tamb\u00e9m organizar formas de aluguel \u2014 n\u00e3o apenas com pre\u00e7os acess\u00edveis, mas voltadas para fam\u00edlias que, por v\u00e1rios motivos, n\u00e3o conseguem acessar o mercado formal.<\/p>\n<p>Pensar a l\u00f3gica propriet\u00e1ria em contraste com a propriedade p\u00fablica e coletiva \u00e9 central para enfrentar a renda gerada pelo aluguel \u2014 j\u00e1 que essa renda se baseia justamente na l\u00f3gica propriet\u00e1ria. O problema \u00e9 que a pol\u00edtica habitacional atual tem refor\u00e7ado essa mesma l\u00f3gica. O maior programa habitacional de S\u00e3o Paulo hoje \u00e9 o \u201cPode Entrar Aquisi\u00e7\u00e3o\u201d, da Prefeitura, que compra im\u00f3veis diretamente no mercado \u2014 im\u00f3veis que o pr\u00f3prio mercado disponibiliza por meio de edital de chamamento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Estamos vendo gera\u00e7\u00f5es inteiras refinanciando hipotecas, com juros que saem de 6% e v\u00e3o para 17%, 18%. Ou seja, voc\u00ea passa a viver para pagar a hipoteca \u2014 aquilo que os norte-americanos chamam de \u201cprisioneiros da hipoteca\u201d. E a gente est\u00e1 ficando igual. Ontem mesmo vi uma not\u00edcia sobre os n\u00edveis de inadimpl\u00eancia e endividamento no Brasil, que s\u00e3o alt\u00edssimos. A gente refinancia uma coisa, v\u00eam mais juros, mais juros, e assim por diante. No fim, estamos pagando duas vezes pela habita\u00e7\u00e3o: pagamos uma vez pela casa e outra pelos juros.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, hoje, \u00e9 mais f\u00e1cil para a pol\u00edtica simplesmente comprar do mercado do que produzir moradia diretamente. Temos um Estado falido: ele n\u00e3o produz unidades habitacionais, mas tamb\u00e9m n\u00e3o regula, n\u00e3o garante qualidade e n\u00e3o controla o pre\u00e7o do aluguel ofertado. No Brasil, nunca vi isso de forma estruturada \u2014 embora j\u00e1 tenhamos tido experi\u00eancias importantes. Nos anos 1940, no governo Get\u00falio Vargas, houve congelamento de alugu\u00e9is, mostrando que a ideia n\u00e3o \u00e9 nova. Tamb\u00e9m j\u00e1 existiram pol\u00edticas que entendiam o aluguel como servi\u00e7o habitacional. No Rio de Janeiro, nos anos 1940, Carmen Portinho \u2014 arquiteta bastante estudada \u2014 coordenou experi\u00eancias que defendiam o aluguel como servi\u00e7o de moradia nos grandes conjuntos habitacionais p\u00fablicos. Ou seja, j\u00e1 houve ensaios relevantes. \u00c9 algo poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>As experi\u00eancias internacionais de movimento de inquilinos, como na Espanha, que busca frear alugu\u00e9is alt\u00edssimos, podem inspirar a\u00e7\u00f5es no Brasil? Qual seria o caminho para n\u00e3o deixar o capital imobili\u00e1rio livre e solto, e conter essa financeiriza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, o poder p\u00fablico opera como garantidor do mercado de aluguel e imobili\u00e1rio: \u201cN\u00e3o conseguiu vender? Eu compro. N\u00e3o conseguiu alugar? Crio uma pol\u00edtica e subsidio parte do aluguel para a fam\u00edlia conseguir pagar.\u201d Isso representa a substitui\u00e7\u00e3o da provis\u00e3o por uma monetiza\u00e7\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o. Uma l\u00f3gica contr\u00e1ria exigiria outra pergunta: o que \u00e9 considerado servi\u00e7o de moradia? H\u00e1 disputas te\u00f3ricas em torno disso.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o pode piorar \u2014 e os mundos de extrema-direita e neoliberais radicais podem levar a isso. Na Am\u00e9rica Latina, vemos retrocessos. Na Argentina, Milei cancelou a Lei do Inquilinato, que equilibrava a rela\u00e7\u00e3o entre propriet\u00e1rios e inquilinos. Ao deixar tudo nas m\u00e3os do mercado, voc\u00ea pode se mudar e logo depois ser for\u00e7ado a sair, ao bel-prazer do propriet\u00e1rio. \u00c9 um mega retrocesso. H\u00e1 hoje uma campanha muito forte para que a lei seja restaurada.<\/p>\n<p>Uma das lacunas \u00e9 a necessidade de regular bem o aluguel como um todo \u2014 n\u00e3o apenas o tempor\u00e1rio. \u00c0s vezes, a regula\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o tradicional que beneficia mais o propriet\u00e1rio do que o inquilino, como no caso chileno. \u00c9 preciso ter governos que entendam o equil\u00edbrio de interesses e o cuidado com quem vive nas propriedades. No Brasil, temos alguma regula\u00e7\u00e3o do aluguel tempor\u00e1rio e uma Lei do Inquilinato que todos tentam burlar, mas que ainda preserva um m\u00ednimo que conseguimos manter. As pautas incluem, por exemplo, a amplia\u00e7\u00e3o do parque imobili\u00e1rio destinado \u00e0 loca\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o. Outra reivindica\u00e7\u00e3o muito presente \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o das garantias aos inquilinos. Isso porque, no mercado atual, muitos inquilinos precisam at\u00e9 pegar empr\u00e9stimos para pagar cau\u00e7\u00e3o ou deixar tr\u00eas meses de aluguel adiantados. Esse dinheiro fica parado e \u00e0s vezes nem volta para o inquilino no final do contrato.<\/p>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 pensar uma regula\u00e7\u00e3o voltada para os inquilinos, porque esse universo de inquilinos provavelmente vai se ampliar \u2014 por causa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, dos abonos pecuni\u00e1rios que os governos oferecem como solu\u00e7\u00e3o habitacional ou da pr\u00f3pria dificuldade crescente de comprar um im\u00f3vel. A pol\u00edtica da casa pr\u00f3pria nunca foi para todo mundo, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acreditar que um dia ela chegar\u00e1 para todos, apesar de termos im\u00f3veis dispon\u00edveis. Nenhum pa\u00eds que eu conhe\u00e7a zerou seu d\u00e9ficit habitacional. Estamos falando de um mundo que j\u00e1 n\u00e3o atende a todos e que est\u00e1 se tornando cada vez mais inacess\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Mas e quanto \u00e0 regula\u00e7\u00e3o das plataformas?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 preciso entender que as plataformas de aluguel tempor\u00e1rio est\u00e3o, sim, alugando im\u00f3veis e, portanto, t\u00eam responsabilidade sobre esse aluguel. O argumento delas \u00e9 que oferecem um servi\u00e7o habitacional \u2014 e, sendo um servi\u00e7o, n\u00e3o seria exatamente habita\u00e7\u00e3o. Assim, h\u00e1 uma disputa em torno da ideia de \u201cservi\u00e7o\u201d, usada justamente para escapar da regula\u00e7\u00e3o. Hoje se discute se o aluguel tempor\u00e1rio deve ser enquadrado como aluguel, conforme define o C\u00f3digo Civil brasileiro.<\/p>\n<p>A segunda quest\u00e3o presente no debate \u00e9 como tributar esse aluguel. V\u00e1rias reformas tribut\u00e1rias tentaram fazer o \u201cmatch\u201d entre quem aluga, quem oferta o im\u00f3vel e quem \u00e9 inquilino \u2014 justamente para evitar evas\u00e3o fiscal. As plataformas t\u00eam um papel importante nisso: j\u00e1 operam sistemas de cobran\u00e7a e poderiam recolher e repassar os impostos, auxiliando no controle. No fundo, o que elas fazem s\u00e3o contratos at\u00edpicos \u2014 n\u00e3o \u00e9 loca\u00e7\u00e3o, nem hospedagem. Essa indefini\u00e7\u00e3o interessa muito tanto \u00e0s propriet\u00e1rias quanto \u00e0s plataformas.<\/p>\n<p>Mas, para al\u00e9m da regula\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, h\u00e1 um impacto urbano do aluguel tempor\u00e1rio. A oferta se concentra em determinadas \u00e1reas da cidade: regi\u00f5es tur\u00edsticas, pr\u00f3ximas a universidades, hospitais, locais de shows. Isso exige pensar em restri\u00e7\u00f5es, inclusive quantitativas. Por exemplo: limitar a quantidade de im\u00f3veis por anfitri\u00e3o, para evitar grande concentra\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de poucos propriet\u00e1rios \u2014 que acabam, assim, tendo poder para determinar os pre\u00e7os nesse mercado.<\/p>\n<p>Poderiam ser adotadas, por exemplo, restri\u00e7\u00f5es como a limita\u00e7\u00e3o da quantidade de dias ou de visitantes por ano \u2014 ou seja, quantas vezes uma habita\u00e7\u00e3o pode ser alugada. Estabelecer limites de oferta em determinadas \u00e1reas da cidade, impedindo novas unidades voltadas para esse tipo de aluguel. \u00c9 uma medida, claro, dif\u00edcil de gerir. E restri\u00e7\u00f5es qualitativas: definir o tipo de acomoda\u00e7\u00e3o, requisitos de seguran\u00e7a e outras condi\u00e7\u00f5es para esse tipo de oferta.<\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00f5es como estas est\u00e3o se tornando muito centrais nas cidades, especialmente na Europa.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Barcelona quer eliminar gradualmente as licen\u00e7as das plataformas at\u00e9 2028. Berlim proibiu totalmente em 2014 e retomou com restri\u00e7\u00f5es em 2018. Nova York permite apenas o aluguel de partes da casa com o propriet\u00e1rio presente. O olhar sobre o aluguel tempor\u00e1rio considera que ele pode ser interessante para a economia local e para as fam\u00edlias quando funciona como complemento de renda ou est\u00e1 em \u00e1reas sem oferta de hot\u00e9is. Al\u00e9m de regular o mercado de aluguel tempor\u00e1rio, \u00e9 preciso tamb\u00e9m controlar os pre\u00e7os, para que eles n\u00e3o afetem o mercado de estadia de longa dura\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 quando o aluguel tempor\u00e1rio vira um neg\u00f3cio concentrado nas m\u00e3os de propriet\u00e1rios que possuem muitas unidades \u2014 mais de dez im\u00f3veis, por exemplo. Em Londres, h\u00e1 empresas que controlam metade do mercado de aluguel. S\u00e3o as chamadas senhorias corporativas.<\/p>\n<p>Agora vemos Nova York discutindo o congelamento do aluguel, o chamado freeze the rent. Nova York \u00e9 um exemplo de como a moradia se transformou numa luta por direitos. O prefeito eleito Mandami tem feito coisas interessantes: colocado a sociedade civil para pensar o pre\u00e7o-teto do aluguel, tentado congelar o aluguel em algumas \u00e1reas e limitar a compra de unidades em massa por empresas. Tudo isso num contexto em que o aluguel est\u00e1 caro, existem poucos propriet\u00e1rios e eles tentam n\u00e3o diminuir o parque de aluguel controlado. Mas n\u00e3o \u00e9 porque o im\u00f3vel tem teto que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 segura para todos. Em Nova York, grande parte do aluguel privado \u00e9 paga com dinheiro p\u00fablico, por meio de vouchers para as fam\u00edlias. E a\u00ed vemos: quando o mercado quer ampliar o aluguel, ele corta o aquecimento central. H\u00e1 formas de despejo muito violentas. Isso parece um mundo ideal, um modelo norte-americano? N\u00e3o. Mesmo com pre\u00e7o controlado, a press\u00e3o sobre os inquilinos continua sendo muito forte.<\/p>\n<p><strong>O debate est\u00e1 avan\u00e7ando no Brasil ou ainda \u00e9 muito t\u00edmido?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1 tudo muito embrion\u00e1rio. O grande desafio \u00e9 transformar o debate sobre o impacto urban\u00edstico do aluguel tempor\u00e1rio numa luta por moradia \u2014 tirar essa discuss\u00e3o do campo da renda e recoloc\u00e1-la no campo do direito \u00e0 moradia. \u00c9 o movimento de moradia dizer: \u201cEstamos cansados de perder moradia no centro para o aluguel tempor\u00e1rio, para essa l\u00f3gica da renda.A gente quer morar, a gente quer viver.\u201d Vamos ter que entender \u2014 e isso \u00e9 muito dif\u00edcil, porque parece algo abstrato, distante da vida cotidiana, dif\u00edcil de mobilizar \u2014 que a expans\u00e3o do aluguel tempor\u00e1rio afeta diretamente o acesso \u00e0 moradia de quem precisa dela.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o movimento de moradia ainda concentra sua energia em conseguir algumas unidades habitacionais. Os governos est\u00e3o comprando im\u00f3veis no mercado. E parte dessas unidades tamb\u00e9m vai para os movimentos. Ent\u00e3o existe um certo apaziguamento da luta, na medida em que alguma coisa est\u00e1 sendo entregue. Mas onde est\u00e1 a luta contr\u00e1ria? Onde est\u00e1 o momento em que as pessoas percebem que isso afetou concretamente suas vidas e transformam isso em movimento? Est\u00e1 muito dif\u00edcil. Porque, em tese, ainda existe um Minha Casa Minha Vida Entidades. \u00c9 pouca coisa \u2014 poucas unidades, 1% do or\u00e7amento, poucos recursos \u2014, mas isso n\u00e3o se transformou em luta pol\u00edtica. Estamos num momento muito dif\u00edcil de perceber isso.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Aluguel, retrato de um sequestro das cidades appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/minha-casa-minha-vida-pode-contratar-21-282-novas-moradias-por-meio-do-entidades\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Minha Casa Minha Vida pode contratar 21.282 novas ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/manobra-de-partido-conservador-evita-impeachment-de-presidente-da-coreia-do-sul\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Manobra de partido conservador evita impeachment d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/combate-a-violencia-contra-a-mulher-conta-com-novos-espacos-e-plataforma-virtual-em-pernambuco\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher conta com novo...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/senador-rogerio-convoca-populacao-sergipana-para-ato-em-defesa-da-democracia-neste-domingo-21\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Senador Rog\u00e9rio convoca popula\u00e7\u00e3o sergipana para a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sonho da casa pr\u00f3pria desmorona no Brasil. Mercado come\u00e7a a ver mais lucros no aluguel que na venda. Im\u00f3veis viram ativos financeiros com plataformas como o Airbnb. E o poder p\u00fablico troca pol\u00edticas habitacionais por \u201caux\u00edlio aluguel\u201d prec\u00e1rio. Quais s\u00e3o os caminhos para resgatar o direito \u00e0 moradia digna?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/aluguel-retrato-de-um-sequestro-das-cidades\/\">Aluguel, retrato de um sequestro das cidades<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88429,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[47138,39761,20284,60564,60565,30105,60566,60567,60568],"tags":[],"class_list":["post-88428","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-aluguel","category-aluguel-social","category-auxilio-aluguel","category-direito-a-moradia-digna","category-logica-proprietaria","category-outras-cidades","category-politicas-habitacionais","category-precarizacao-da-vida","category-transicao-habitacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88428"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88428\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88429"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}