{"id":88718,"date":"2026-05-26T04:00:00","date_gmt":"2026-05-26T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-jornada-da-semente-e-a-economia-ainda-invisivel-da-restauracao-de-florestas-no-brasil\/"},"modified":"2026-05-26T04:00:00","modified_gmt":"2026-05-26T07:00:00","slug":"a-jornada-da-semente-e-a-economia-ainda-invisivel-da-restauracao-de-florestas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-jornada-da-semente-e-a-economia-ainda-invisivel-da-restauracao-de-florestas-no-brasil\/","title":{"rendered":"A jornada da semente e a economia ainda invis\u00edvel da restaura\u00e7\u00e3o de florestas no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil tem quatro anos para cumprir um grande compromisso internacional: plantar novas florestas. Muitas novas florestas. O pa\u00eds assumiu como uma de suas metas do Acordo de Paris, principal tratado global para enfrentar a crise clim\u00e1tica, recuperar a vegeta\u00e7\u00e3o nativa de 12 milh\u00f5es de hectares. Quase uma Inglaterra de novas matas. \u00c9 uma \u00e1rea equivalente \u00e0 soma dos estados de Pernambuco e Sergipe em campos e florestas. Passados nove anos desde o lan\u00e7amento do Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa, menos de 30% da meta foi cumprida at\u00e9 agora \u2013 s\u00e3o pelo menos 8,6 milh\u00f5es de hectares que ainda precisam ser plantados.<\/p>\n<p>Depois da conserva\u00e7\u00e3o de florestas em p\u00e9, a restaura\u00e7\u00e3o \u2013 ou recupera\u00e7\u00e3o \u2013 de \u00e1reas desmatadas e degradadas \u00e9 um dos meios mais eficazes e baratos de enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Com o tempo, as novas plantas fazem o trabalho indispens\u00e1vel de regular o clima e absorver o g\u00e1s carb\u00f4nico que aquece o planeta. A contribui\u00e7\u00e3o humana a esse processo ainda gera frutos como renda e emprego: pelo menos 42 postos de trabalho diretos s\u00e3o gerados a cada 100 hectares restaurados no Brasil, estima estudo de pesquisadores de universidades como Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicado na revista British Ecological Society, em 2022.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima (MMA) anunciou, em novembro de 2025, que o pa\u00eds conta com 3,4 milh\u00f5es de hectares em recupera\u00e7\u00e3o. No entanto, mais da metade (52%) se d\u00e1 pela regenera\u00e7\u00e3o natural e espont\u00e2nea da vegeta\u00e7\u00e3o em \u00e1reas protegidas, como terras ind\u00edgenas e unidades de conserva\u00e7\u00e3o. Por mais que a natureza fa\u00e7a a maior parte da m\u00e1gica sozinha, ainda h\u00e1 muito a ser plantado para cumprir o compromisso assumido h\u00e1 uma d\u00e9cada. Isso implica dar escala a iniciativas ainda muito localizadas, pouco articuladas e dispersas pelo pa\u00eds.<\/p>\n<div>\n<div>\n<h2>Por que isso importa?<\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<ul>\n<li>O Brasil tem menos de cinco anos para meta de reflorestamento, mas atual capacidade produtiva teria que ser multiplicada em quase 200 vezes para atingi-la. Entender os gargalos da cadeia joga luz sobre focos priorit\u00e1rios a serem desenvolvidos.<\/li>\n<\/ul><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 anos, o setor enfrenta um problema-raiz: a falta de demanda, que a lei, sozinha, n\u00e3o foi capaz de resolver. Desde 2012, pelo C\u00f3digo Florestal, as propriedades rurais devem manter parte da vegeta\u00e7\u00e3o nativa e, caso essa parcela obrigat\u00f3ria tenha sido desmatada, devem recuper\u00e1-la para fazer a regulariza\u00e7\u00e3o ambiental do im\u00f3vel. Muitos propriet\u00e1rios, no entanto, ainda n\u00e3o fizeram esse trabalho. Afinal, restaurar exige conhecimento t\u00e9cnico, custa caro, d\u00e1 trabalho e leva tempo.<\/p>\n<figure><figcaption>Primeiras plantas j\u00e1 come\u00e7aram a nascer na \u00e1rea restaurada com muvuca na propriedade de Helio Dias<\/figcaption><\/figure>\n<p>At\u00e9 2030, ainda h\u00e1 pelo menos 8,75 milh\u00f5es de hectares a serem restaurados em im\u00f3veis rurais, de um total de 10 milh\u00f5es, estipulados pela revis\u00e3o, em 2024, do Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa. Mas a \u00e1rea que deveria ser restaurada nas propriedades privadas pode ser ainda maior, j\u00e1 que, segundo o Observat\u00f3rio do C\u00f3digo Florestal, h\u00e1 pelo menos 20 milh\u00f5es de hectares que n\u00e3o est\u00e3o em acordo com a lei. \u201cO grande gargalo da restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 ter cliente\u201d, resume o fundador e diretor do viveiro Primaflora, Rafael Marinho Rocha, em Prado (BA). \u201cN\u00e3o adianta voc\u00ea coletar semente, produzir muda se n\u00e3o tiver sa\u00edda. E por mais que a gente esteja falando da D\u00e9cada da Restaura\u00e7\u00e3o [da ONU], a cadeia da restaura\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o est\u00e1 estruturada\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Na base dessa economia invis\u00edvel est\u00e3o grupos de coleta de sementes e viveiros de \u00e1rvores nativas que trabalham sem saber quanto, quando e para quem v\u00e3o vender. Sem contratos de longo prazo, eles lutam para se manter ano ap\u00f3s ano. A <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica <\/strong>ouviu 15 coletores, viveiristas, produtores, engenheiros florestais e especialistas para entender a dimens\u00e3o do problema.<\/p>\n<p>E tudo come\u00e7a pela semente.<\/p>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div data-id=\"5\"><\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div data-id=\"5\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<figure><\/figure>\n<h2><strong>1. Da \u00e1rvore para a m\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>A agricultora familiar Leila de C\u00e1ssia, 40, tinha pressa. Ela e a fam\u00edlia tinham aquele m\u00eas de agosto de 2025 para cumprir uma miss\u00e3o trabalhosa: coletar sementes de ita\u00faba. Era o per\u00edodo final de amadurecimento dos frutos da \u00e1rvore nativa da Amaz\u00f4nia, cujo nome em tupi significa \u201c\u00e1rvore-pedra\u201d, de madeira resistente muito usada na constru\u00e7\u00e3o civil \u2013 n\u00e3o \u00e0 toa classificada como vulner\u00e1vel na Lista Oficial de Esp\u00e9cies da Flora Brasileira Amea\u00e7adas de Extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<figure><figcaption>Sementes rec\u00e9m coletadas<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Perto da pequena propriedade da fam\u00edlia em Alvorada D\u2019Oeste (RO), onde cultiva caf\u00e9, cacau e castanha, ela identificou quatro ita\u00fabas com galhos baixos o suficiente para, com ajuda de varas, alcan\u00e7ar os frutos, pequenos e escuros, parecidos com azeitonas. Dentro deles, estavam as sementes que lhe interessavam. Pilar da floresta, a ita\u00faba prospera em \u00e1reas onde a floresta j\u00e1 est\u00e1 mais madura, por isso \u00e9 t\u00e3o importante para a restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As quatro, no caso, s\u00f3 tinham frutos em agosto, porque, al\u00e9m de terem crescido em um lugar que escapou das motosserras, tiveram florzinhas polinizadas por insetos meses antes. \u201cQuando diminuem os exemplares de \u00e1rvores de uma mesma esp\u00e9cie, temos menos diversidade gen\u00e9tica. Precisamos primeiro ter florestas conservadas para garantir diversidade e, assim, sementes de qualidade\u201d, explica o gerente de restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica na TNC Brasil (The Nature Conservancy), Rubens Benini, que tamb\u00e9m \u00e9 coordenador nacional do Pacto pela Restaura\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Leila, o marido, as filhas e o genro coletaram s\u00f3 alguns cachos \u2013 deixaram a maior parte para os morcegos, p\u00e1ssaros e formigas. Aquela era s\u00f3 a primeira etapa de um longo trabalho.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<h2><strong><em>2. <\/em>De m\u00e3o em m\u00e3o, no improviso<\/strong><\/h2>\n<div>\n<figure><figcaption>Leila durante treinamento de coleta fornecido pela Ecopor\u00e9<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Leila brinca que sementes exigem tantos cuidados quanto crian\u00e7as. Primeiro, os frutinhos ficam de molho na \u00e1gua por horas para amolecer o interior esverdeado e oleoso, como o do abacate. Depois, com as m\u00e3os, ela amassa cada um para extrair a polpa. Por fim, lava as sementes v\u00e1rias vezes, usando uma peneira de cozinha. Tudo com muita delicadeza para n\u00e3o furar a pel\u00edcula que envolve as sementes. S\u00f3 ent\u00e3o, as p\u00f5e para secar. Foram 14,5 kg de sementes de ita\u00faba, al\u00e9m de outros 50 kg de sementes de outras 13 esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica foi aprendida em um curso de coleta da Ecopor\u00e9, uma organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil de interesse p\u00fablico que atua em Rond\u00f4nia h\u00e1 38 anos com restaura\u00e7\u00e3o de ponta a ponta: capacita coletores, desenvolve mudas em viveiro pr\u00f3prio, trabalha com produtores rurais interessados em restaurar e tamb\u00e9m conduz projetos de restaura\u00e7\u00e3o em \u00e1reas p\u00fablicas.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cAgora, a gente faz um planejamento, pegamos as \u00e1rvores matrizes [das quais as sementes s\u00e3o coletadas] e fazemos um acompanhamento do tempo de flora\u00e7\u00e3o, quando os frutos v\u00e3o ficar bons\u201d, conta Leila, que se tornou uma entre 700 coletores \u2013 a maioria mulheres \u2013 da rede da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trabalhar com sementes requer improviso. Cada \u00e1rvore exige uma forma diferente de coletar, limpar e armazenar, e n\u00e3o h\u00e1 equipamentos espec\u00edficos para isso. \u201cAs pessoas v\u00e3o inovando. Eu at\u00e9 j\u00e1 recebi v\u00eddeos de coletor que colocou as sementes na m\u00e1quina de lavar para limpar\u201d, diz a engenheira florestal Aline Smychniuk, que coordena a rede da Ecopor\u00e9, que apenas em 2025 reuniu 67 toneladas de sementes, que renderam R$ 3 milh\u00f5es aos coletores.\u00a0<\/p>\n<p>Para a fam\u00edlia de Leila, o trabalho rendeu R$ 10 mil, que fizeram \u201cmuita diferen\u00e7a na renda\u201d ao ajudar a custear uma viagem, um eletrodom\u00e9stico e o tratamento dent\u00e1rio de uma das filhas. S\u00e3o ganhos repetidos Brasil afora nos 19 estados onde h\u00e1 redes estabelecidas, conforme o Red\u00e1rio, articula\u00e7\u00e3o que re\u00fane grupos e redes de coletores.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<h2><strong>3.<\/strong> <strong>A esperan\u00e7a que pega a estrada<\/strong><\/h2>\n<p>Uma vez preparadas, as sementes requerem um planejamento log\u00edstico complexo. J\u00e1 era novembro de 2025 quando Smychniuk organizou uma verdadeira opera\u00e7\u00e3o para fazer as compras na regi\u00e3o da fam\u00edlia de Leila, bem como outros coletores de munic\u00edpios num raio de 120 km de Rolim de Moura (RO), onde a sede da Ecopor\u00e9 centraliza essa etapa do processo. Al\u00e9m de caminh\u00f5es, antenas de internet m\u00f3vel, computadores e v\u00e1rios outros recursos, \u00e9 preciso tra\u00e7ar um longo caminho para visitar centenas de coletores, distribu\u00eddos em nove terras ind\u00edgenas, duas comunidades quilombolas e pequenas propriedades rurais.<\/p>\n<p>De posse das sementes, \u00e9 hora do preparo das receitas de muvuca. A t\u00e9cnica de plantio, inspirada na natureza e no conhecimento tradicional dos povos ind\u00edgenas, consiste em misturar sementes de v\u00e1rias esp\u00e9cies que t\u00eam diferentes tempos de crescimento e plant\u00e1-las de uma s\u00f3 vez diretamente no solo. \u201c\u00c9 como se fosse uma receita de bolo mesmo. Eu fa\u00e7o uma lista: vamos precisar de 50 quilos de feij\u00e3o-de-porco, 1 quilo de aroeira, e assim vai\u201d, pontua Smychniuk.<\/p>\n<p>Para essa receita funcionar, \u00e9 necess\u00e1ria uma grande quantidade de esp\u00e9cies de cobertura, como diferentes tipos de feij\u00e3o e gergelim, que s\u00e3o as primeiras a brotar. Elas cobrem o solo, criando um ambiente prop\u00edcio para que as chamadas \u00e1rvores pioneiras, de crescimento r\u00e1pido, possam nascer. Essas, por sua vez, fazem sombra para as esp\u00e9cies secund\u00e1rias e cl\u00edmax, \u00e1rvores de crescimento mais lento e tempo de vida mais longo, como a ita\u00faba.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a Ecopor\u00e9 estava abrindo os outros caminhos para viabilizar a restaura\u00e7\u00e3o. No viveiro, com capacidade de produ\u00e7\u00e3o de 500 mil mudas por ano, ela desenvolve as mudas de esp\u00e9cies cujas sementes n\u00e3o podem ser armazenadas e precisam ser plantadas imediatamente, usadas para restaurar \u00e1reas \u00famidas, que alagam, al\u00e9m das mudas de esp\u00e9cies para a restaura\u00e7\u00e3o produtiva, como cacau, cupua\u00e7u, castanha.<\/p>\n<p>\u201cQuando come\u00e7amos o nosso viveiro, nossa diversidade era de 25 esp\u00e9cies. Hoje, temos mais de 100 esp\u00e9cies. Foi a rede de sementes que impulsionou esse aumento\u201d, conta Marcelo Ferronato, h\u00e1 15 anos na Ecopor\u00e9 e secret\u00e1rio-executivo da Alian\u00e7a pela Restaura\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. \u201cDo ponto de vista biol\u00f3gico, \u00e9 importante para a restaura\u00e7\u00e3o ter ampla diversidade e evitar que as sementes transitem muito de um territ\u00f3rio para outro\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, a semente coletada em uma \u00e1rea deve ser plantada naquela mesma regi\u00e3o, o que representa outro desafio para escalar a restaura\u00e7\u00e3o no pa\u00eds: ter fornecedores de sementes e mudas espalhados por diferentes microrregi\u00f5es, o que ainda n\u00e3o \u00e9 uma realidade.<\/p>\n<p>Atualmente, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima (MMA) est\u00e1 trabalhando desde o in\u00edcio de 2026 em um mapeamento dos chamados \u201cterrit\u00f3rios da restaura\u00e7\u00e3o\u201d para justamente entender onde est\u00e3o coletores, viveiros, organiza\u00e7\u00f5es, produtores e empresas que j\u00e1 restauram.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<figure><figcaption>\u00c1rea \u00famida na beira do c\u00f3rrego foi cercada para realizar a restaura\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<figure><\/figure>\n<h2><strong>4. A busca por novos terrenos<\/strong><\/h2>\n<p>A 56 quil\u00f4metros de Alvorada D\u2019Oeste (RO), onde Leila e sua fam\u00edlia passaram meses coletando sementes, mais um caminho se abriu: o das fazendas. Em Castanheiras (RO), munic\u00edpio com nome de \u00e1rvore, o produtor de gado de corte e de leite Helio Dias, 62, foi um dos propriet\u00e1rios rurais que se convenceu a restaurar seu passivo ambiental \u2013 uma \u00e1rea que, segundo ele, foi desmatada h\u00e1 mais de 30 anos, antes de ele ser o propriet\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cMeu grande objetivo \u00e9 recuperar as nascentes para voltar \u00e1gua para a propriedade. A gente sabe que a cada dia est\u00e1 secando mais\u201d, afirma Dias. Sozinho, por\u00e9m, ele n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de fazer a restaura\u00e7\u00e3o. S\u00e3o v\u00e1rias as etapas: identificar qual a t\u00e9cnica de plantio mais adequada, encontrar os fornecedores de sementes e mudas mais pr\u00f3ximos, aprontar a \u00e1rea \u2013 eliminar o capim invasor, preparar o solo, construir cercas. Tudo isso exige recursos, tempo e conhecimento t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Segundo os viveiristas, \u00e9 comum ouvir de propriet\u00e1rios rurais que eles s\u00f3 v\u00e3o restaurar quando precisarem pegar cr\u00e9dito rural \u2013 ou quando s\u00e3o multados pelos \u00f3rg\u00e3os ambientais e obrigados a tomar uma atitude. \u201cMuitas vezes o propriet\u00e1rio rural olha para a restaura\u00e7\u00e3o como uma atividade que n\u00e3o gera divisas, n\u00e3o gera lucro\u201d, explica o diretor do Departamento de Florestas da Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA, Thiago Belote.<\/p>\n<p>Uma aposta para resolver esse problema \u00e9 o Pagamento por Servi\u00e7os Ambientais (PSA), que j\u00e1 \u00e9 realizado por alguns estados e programas e que, segundo Belote, o governo vai regulamentar ainda este ano. Outro incentivo \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o produtiva, possibilidade que animou Helio Dias. Ele recebeu mudas de a\u00e7a\u00ed e de cacau e espera que, em dois anos, elas j\u00e1 estejam dando frutos para diversificar suas fontes de renda.<\/p>\n<figure><figcaption>Helio Dias em meio \u00e0s primeiras plantas nascidas depois do plantio da muvuca.<\/figcaption><\/figure>\n<figure><\/figure>\n<h2><strong>5. Plantar e esperar brotar<\/strong><\/h2>\n<p>No come\u00e7o de dezembro, Helio Dias mobilizou quatro pessoas para fazer o plantio de 11 hectares. S\u00f3 na beira do c\u00f3rrego, foram 2,5 mil mudas, \u201cpara segurar a \u00e1gua e ajudar os passarinhos\u201d. E, no restante, toneladas de sementes plantadas por meio da muvuca.<\/p>\n<p>Agora, passados alguns meses do plantio, Dias j\u00e1 observa o feij\u00e3o-de-porco e o gergelim na \u00e1rea de muvuca e diz que os primeiros brotos de outras esp\u00e9cies j\u00e1 come\u00e7aram a nascer. \u201cEst\u00e1 muito bonito, terra boa, nasce bem, n\u00e9? \u00c9 bom demais. Daqui uns tr\u00eas anos eu te mando mais fotos\u201d, brinca.<\/p>\n<p>Trabalhar com restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 lidar com o tempo da natureza, t\u00e3o diferente do nosso. As etapas que envolvem humanos levam meses \u2013 para coletar as sementes de diferentes esp\u00e9cies, para desenvolver as mudas nos viveiros, para preparar o plantio, al\u00e9m de meses para acompanhar o resultado e evitar problemas, como invas\u00e3o de capim ou formigas.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure>\n<h2><strong>6. A hora da colheita<\/strong><\/h2>\n<p>Para um setor que lida com esses diferentes tempos e cujos resultados duram gera\u00e7\u00f5es, a previsibilidade da demanda \u00e9 essencial, mas ela ainda n\u00e3o se firmou. \u201cN\u00e3o tem compradores querendo mudas para restaurar nessa escala\u201d, afirma o diretor jur\u00eddico da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Produtores de Sementes e Mudas Nativas (Nativas), Renato Ximenes. \u201cOs viveiros trabalham muito perto das suas linhas de custo para sobreviver. \u00c9 raro um setor que assuma tanto risco\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para a Nativas, faltam contratos de longo prazo com compartilhamento maior do risco, algo que a associa\u00e7\u00e3o est\u00e1 trabalhando para mudar. Al\u00e9m da falta da demanda, outra dificuldade \u00e9 fazer com que o dinheiro hoje dispon\u00edvel para a restaura\u00e7\u00e3o, principalmente por meio de programas do BNDES e do Tesouro Nacional, chegue \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es certas, que j\u00e1 est\u00e3o com a m\u00e3o na terra.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>\u201c\u00c9 transformar essas pequenas empresas e pequenas organiza\u00e7\u00f5es do terceiro setor em m\u00e9dios e grandes empreendedores\u201d, diz Benini, que est\u00e1 trabalhando em uma iniciativa para destinar recursos para organiza\u00e7\u00f5es que j\u00e1 fazem projetos de restaura\u00e7\u00e3o na Mata Atl\u00e2ntica. \u201cPode ser um caminho para aumentar a demanda de quem est\u00e1 na ponta, por meio dessas organiza\u00e7\u00f5es que j\u00e1 abrem porteiras e convencem os produtores a restaurar. A gente teria 200 organiza\u00e7\u00f5es ao inv\u00e9s de meia d\u00fazia\u201d.<\/p>\n<p>Boa parte do trabalho ser\u00e1 feito pela pr\u00f3pria natureza. Em algumas d\u00e9cadas, ela ter\u00e1 transformado essa jornada em florestas. E isso parece n\u00e3o ter pre\u00e7o para pessoas que trabalham com restaura\u00e7\u00e3o, como Jos\u00e9 Francisco Azevedo J\u00fanior, um dos s\u00f3cios-fundadores do Grupo Ambiental Natureza Bela, que tem seis viveiros na Bahia: \u201c\u00c9 indescrit\u00edvel passar por um lugar que h\u00e1 20 anos era uma \u00e1rea completamente degradada, triste e sem vida e que hoje j\u00e1 \u00e9 uma floresta com mico, com tatu\u201d.<\/p>\n<p>E tudo come\u00e7a pequeno, como Leila de C\u00e1ssia resume bem: \u201cSemente \u00e9 vida\u201d.<\/p><\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/estado-anistia-e-pede-perdao-a-dilma-por-perseguicao-e-tortura-na-ditadura\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/dilma-militares-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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