{"id":88901,"date":"2026-05-26T16:59:17","date_gmt":"2026-05-26T19:59:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/caminhos-para-o-socialismo-em-tempos-de-ia\/"},"modified":"2026-05-26T16:59:17","modified_gmt":"2026-05-26T19:59:17","slug":"caminhos-para-o-socialismo-em-tempos-de-ia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/caminhos-para-o-socialismo-em-tempos-de-ia\/","title":{"rendered":"Caminhos para o socialismo em tempos de IA"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/4949814251342203897.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/4949814251342203897.jpg 1280w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/4949814251342203897-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/4949814251342203897-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Colateral MKT<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Reynaldo Aragon<\/strong>, no <em>C\u00f3digo Aberto<\/em><\/p>\n<h3><strong>O debate em seu ponto mais alto<\/strong><\/h3>\n<p>O debate sobre intelig\u00eancia artificial e socialismo entrou, nos \u00faltimos anos, em um patamar mais exigente. J\u00e1 n\u00e3o se trata de discutir apenas os efeitos da tecnologia, mas de reconhecer que a pr\u00f3pria t\u00e9cnica passou a ocupar um lugar estrutural na organiza\u00e7\u00e3o da vida social. Esse deslocamento obriga a abandonar de vez a ideia de neutralidade tecnol\u00f3gica e a enfrentar a quest\u00e3o em termos mais densos.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse terreno que se destacam as reflex\u00f5es de Evgeny Morozov e Aaron Benanav. Em registros distintos, ambos contribuem para afastar leituras simplificadoras. De um lado, ganha for\u00e7a a cr\u00edtica \u00e0 no\u00e7\u00e3o de que a tecnologia possa ser simplesmente apropriada e redirecionada sem que se considerem as formas de vida que ela engendra. A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o se limita a operar sobre o mundo social; ela participa da sua configura\u00e7\u00e3o, reorganizando pr\u00e1ticas, rotinas e possibilidades de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--38.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--38.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>De outro, reafirma-se algo que n\u00e3o pode ser contornado: o desenvolvimento tecnol\u00f3gico est\u00e1 inscrito em rela\u00e7\u00f5es concretas de poder. Investimento, infraestrutura, energia, trabalho qualificado e dire\u00e7\u00e3o social definem quais trajet\u00f3rias t\u00e9cnicas se consolidam e quais permanecem marginais. A quest\u00e3o da decis\u00e3o \u2014 quem decide, com base em quais crit\u00e9rios e com que horizonte \u2014 retorna ao centro do problema.<\/p>\n<p>Nesse ponto, o debate atinge um grau relevante de elabora\u00e7\u00e3o. A t\u00e9cnica deixa de ser pensada como mero instrumento e passa a ser compreendida como elemento constitutivo das rela\u00e7\u00f5es sociais, ao mesmo tempo em que se reconhece que sua dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 dada, mas depende de disputas e escolhas historicamente situadas. \u00c9 a partir desse n\u00edvel que se torna poss\u00edvel avan\u00e7ar.<\/p>\n<h3><strong>O limite comum: t\u00e9cnica e decis\u00e3o n\u00e3o esgotam o problema<\/strong><\/h3>\n<p>Esse avan\u00e7o te\u00f3rico, no entanto, carrega um limite que n\u00e3o \u00e9 imediatamente vis\u00edvel. Ao articular a cr\u00edtica \u00e0 neutralidade da t\u00e9cnica com a necessidade de coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o debate tende a se organizar em torno de dois polos: de um lado, a forma como a tecnologia estrutura o mundo social; de outro, a capacidade coletiva de orientar seus rumos. A disputa aparece, assim, como uma quest\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa formula\u00e7\u00e3o \u00e9 forte, mas parte de uma suposi\u00e7\u00e3o que permanece pouco interrogada. Sup\u00f5e-se, ainda que implicitamente, que o sujeito que percebe, avalia e decide mant\u00e9m uma certa estabilidade. A t\u00e9cnica pode reorganizar o contexto, o planejamento pode estruturar escolhas, mas a inst\u00e2ncia que julga essas escolhas continua a ser tratada como um dado relativamente preservado.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente aqui que o problema se estreita. Ao concentrar a an\u00e1lise na rela\u00e7\u00e3o entre infraestrutura tecnol\u00f3gica e decis\u00e3o institucional, perde-se de vista o modo como essas pr\u00f3prias capacidades de julgamento s\u00e3o formadas. N\u00e3o se trata apenas de perguntar quem decide ou o que \u00e9 decidido, mas de compreender em que condi\u00e7\u00f5es materiais se constitui a pr\u00f3pria possibilidade de decidir.<\/p>\n<p>Esse deslocamento n\u00e3o nega a centralidade da t\u00e9cnica nem a import\u00e2ncia do planejamento. Ele apenas indica que ambos se apoiam em uma dimens\u00e3o anterior, frequentemente naturalizada: a produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das formas de percep\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e escolha. \u00c9 nesse terreno que o debate precisa avan\u00e7ar.<\/p>\n<h3><strong>A quest\u00e3o decisiva: a produ\u00e7\u00e3o da subjetividade<\/strong><\/h3>\n<p>Se o debate avan\u00e7a ao reconhecer o peso da t\u00e9cnica e a necessidade de decis\u00e3o coletiva, h\u00e1 um ponto que come\u00e7a a se impor quase como um inc\u00f4modo. N\u00e3o d\u00e1 mais para tratar como evidente aquilo que, por muito tempo, foi tomado como dado: a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o do sujeito que percebe, avalia e decide.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/banner-outras-palavras_-02257-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/banner-outras-palavras_-02257-3.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/banner-outras-palavras_-02257-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Esse sujeito n\u00e3o est\u00e1 fora das rela\u00e7\u00f5es que estruturam a t\u00e9cnica. Ele se forma dentro delas. \u00c9 atravessado por dispositivos, por rotinas, por ambientes que organizam a experi\u00eancia antes mesmo que ela se torne consciente. O que se v\u00ea, o que chama aten\u00e7\u00e3o, o que parece relevante ou urgente n\u00e3o surge de forma espont\u00e2nea.<\/p>\n<p>Percep\u00e7\u00e3o, desejo e julgamento, nesse sentido, deixam de ser categorias naturais. Passam a aparecer como resultados de media\u00e7\u00f5es concretas, historicamente situadas. A intelig\u00eancia artificial, integrada a plataformas e sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o atua apenas reorganizando fluxos de informa\u00e7\u00e3o. Ela interv\u00e9m diretamente na forma como esses fluxos s\u00e3o percebidos, interpretados e incorporados \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso muda o problema de lugar. J\u00e1 n\u00e3o basta perguntar como a t\u00e9cnica molda o mundo social ou como a sociedade pode orient\u00e1-la. A quest\u00e3o se desloca: em que condi\u00e7\u00f5es se formam as capacidades que permitem essa orienta\u00e7\u00e3o? Como se produz, materialmente, a possibilidade de perceber, comparar e decidir?<\/p>\n<p>Quando essa dimens\u00e3o entra em cena, o debate muda de escala. A t\u00e9cnica deixa de ser apenas objeto de decis\u00e3o e passa a participar da constitui\u00e7\u00e3o daqueles que decidem. \u00c9 a\u00ed que o problema ganha densidade real.<\/p>\n<h3><strong>Fric\u00e7\u00e3o zero: a elimina\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia como forma de poder<\/strong><\/h3>\n<p>Quando se observa mais de perto como essa modula\u00e7\u00e3o ocorre, uma tend\u00eancia aparece com nitidez. N\u00e3o se trata apenas de organizar melhor a informa\u00e7\u00e3o ou tornar sistemas mais eficientes. O que se consolida \u00e9 uma l\u00f3gica orientada a reduzir ao m\u00e1ximo qualquer forma de atrito entre est\u00edmulo e resposta.<\/p>\n<p>A ideia de fric\u00e7\u00e3o zero ajuda a dar nome a esse movimento. Ela n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 facilidade de uso ou \u00e0 fluidez das interfaces. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a tentativa sistem\u00e1tica de encurtar o caminho entre a exposi\u00e7\u00e3o a um est\u00edmulo e a a\u00e7\u00e3o correspondente. Quanto menos tempo, menos d\u00favida, menos interrup\u00e7\u00e3o, melhor o desempenho do sistema.<\/p>\n<p>Isso vai muito al\u00e9m de conveni\u00eancia. Ambientes digitais s\u00e3o desenhados para evitar desvios, antecipar prefer\u00eancias e oferecer respostas antes mesmo que uma pergunta se consolide plenamente. A experi\u00eancia passa a ser conduzida de modo cont\u00ednuo, quase sem pausas, com poucas oportunidades reais de suspens\u00e3o ou recuo.<\/p>\n<p>Do ponto de vista comportamental, os mecanismos s\u00e3o conhecidos. Refor\u00e7o intermitente, expectativa de recompensa, simplifica\u00e7\u00e3o de escolhas, repeti\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es. O que muda \u00e9 a escala e a integra\u00e7\u00e3o desses elementos em sistemas que operam de forma permanente, ajustando-se em tempo real.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a fric\u00e7\u00e3o deixa de ser um obst\u00e1culo e passa a revelar seu valor. \u00c9 ela que abre espa\u00e7o para a d\u00favida, para o conflito interno, para a compara\u00e7\u00e3o entre alternativas. Quando desaparece, algo se altera na pr\u00f3pria estrutura da decis\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o continua existindo, mas ocorre dentro de um campo cada vez mais estreito.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que a t\u00e9cnica passa a operar de outra forma. N\u00e3o apenas como meio, mas como organiza\u00e7\u00e3o da conduta. A elimina\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um detalhe t\u00e9cnico. \u00c9 uma forma espec\u00edfica de exerc\u00edcio de poder, discreta, cont\u00ednua e profundamente eficaz.<\/p>\n<h3><strong>Metaintermedia\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica: a organiza\u00e7\u00e3o invis\u00edvel do real<\/strong><\/h3>\n<p>Mas esse processo n\u00e3o se limita ao momento da a\u00e7\u00e3o. Antes mesmo de qualquer escolha, j\u00e1 existe uma camada que organiza o campo no qual essa escolha vai acontecer. \u00c9 a\u00ed que a ideia de metaintermedia\u00e7\u00e3o ganha for\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata mais apenas de intermediar rela\u00e7\u00f5es entre pessoas, conte\u00fados ou servi\u00e7os. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 algo anterior: a defini\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sob as quais algo aparece, se torna vis\u00edvel, relevante ou sequer chega a existir como possibilidade.<\/p>\n<p>Plataformas digitais e sistemas de intelig\u00eancia artificial operam como filtros permanentes. Eles selecionam, ordenam, repetem, ocultam. O que circula n\u00e3o \u00e9 simplesmente o mundo tal como ele \u00e9, mas uma vers\u00e3o continuamente reorganizada a partir de crit\u00e9rios que combinam dados, objetivos econ\u00f4micos e padr\u00f5es de comportamento j\u00e1 identificados.<\/p>\n<p>Isso muda a natureza da media\u00e7\u00e3o. Ela deixa de ser um canal e passa a funcionar como infraestrutura. A experi\u00eancia cotidiana acontece dentro de um ambiente previamente estruturado, no qual certas informa\u00e7\u00f5es ganham centralidade enquanto outras desaparecem quase sem deixar rastro.<\/p>\n<p>O ponto decisivo est\u00e1 no fato de que essa organiza\u00e7\u00e3o ocorre antes da rela\u00e7\u00e3o direta entre sujeito e objeto. N\u00e3o se escolhe entre todas as op\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, mas entre aquelas que j\u00e1 foram previamente dispostas. A percep\u00e7\u00e3o, nesse sentido, n\u00e3o come\u00e7a do zero. Ela j\u00e1 chega orientada.<\/p>\n<p>Nada disso elimina completamente a ag\u00eancia individual. Mas a desloca. A a\u00e7\u00e3o continua existindo, s\u00f3 que dentro de um espa\u00e7o delimitado por sistemas que operam de forma cont\u00ednua e, muitas vezes, invis\u00edvel. \u00c9 nesse plano que a t\u00e9cnica passa a atuar n\u00e3o apenas como mediadora, mas como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do pr\u00f3prio real vivido.<\/p>\n<h3><strong>Economia pol\u00edtica do comportamento<\/strong><\/h3>\n<p>Quando se traz esse quadro para o terreno da economia pol\u00edtica, o que aparece \u00e9 um deslocamento importante. A modula\u00e7\u00e3o do comportamento deixa de ser algo perif\u00e9rico e passa a ocupar um lugar central na pr\u00f3pria din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A atividade dos indiv\u00edduos, aqui, n\u00e3o importa apenas enquanto trabalho direto. Ela passa a ter valor enquanto fonte cont\u00ednua de dados, padr\u00f5es e previsibilidade. Cada intera\u00e7\u00e3o, cada escolha, cada trajet\u00f3ria de navega\u00e7\u00e3o vai sendo incorporada como informa\u00e7\u00e3o que pode ser processada, comparada e, sobretudo, antecipada.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a aten\u00e7\u00e3o ganha outro estatuto. N\u00e3o \u00e9 apenas um recurso subjetivo, algo difuso. Torna-se algo disputado, capturado e organizado como vari\u00e1vel econ\u00f4mica. Manter algu\u00e9m engajado, prolongar sua perman\u00eancia, direcionar seu foco \u2014 tudo isso passa a ter implica\u00e7\u00f5es diretas na gera\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n<p>O comportamento, assim, entra no circuito produtivo de forma ampliada. N\u00e3o apenas como resposta a est\u00edmulos de mercado, mas como mat\u00e9ria-prima a partir da qual novos padr\u00f5es s\u00e3o constru\u00eddos. A previsibilidade torna-se um ativo. Quanto mais previs\u00edvel a conduta, maior a capacidade de orientar fluxos, ajustar ofertas e reduzir incertezas.<\/p>\n<p>Isso implica uma mudan\u00e7a de escala. A produ\u00e7\u00e3o de valor n\u00e3o se limita ao espa\u00e7o tradicional do trabalho. Ela se estende para a gest\u00e3o cont\u00ednua das condutas. Percep\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o e resposta passam a ser integradas em sistemas que operam em tempo real, convertendo experi\u00eancia em informa\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o em capacidade de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao colocar isso no plano das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, evita-se tanto a abstra\u00e7\u00e3o quanto a moraliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de dizer que h\u00e1 influ\u00eancia ou manipula\u00e7\u00e3o. Trata-se de reconhecer que a subjetividade entra, de forma material, no processo de valoriza\u00e7\u00e3o do capital. E isso muda o problema por completo.<\/p>\n<h3><strong>Guerra h\u00edbrida e disputa cognitiva<\/strong><\/h3>\n<p>Quando essa engrenagem \u00e9 observada fora do estritamente econ\u00f4mico, o quadro se amplia. As mesmas estruturas que organizam aten\u00e7\u00e3o e comportamento passam a operar tamb\u00e9m como instrumentos de influ\u00eancia em escala social. N\u00e3o h\u00e1 uma ruptura clara entre essas dimens\u00f5es. Elas se sobrep\u00f5em.<\/p>\n<p>Ambientes digitais baseados em intelig\u00eancia artificial oferecem condi\u00e7\u00f5es muito particulares para isso. Segmenta\u00e7\u00e3o fina de p\u00fablicos, teste constante de mensagens, acompanhamento de rea\u00e7\u00f5es quase em tempo real. O que antes exigia campanhas pontuais passa a ser conduzido de forma cont\u00ednua, incorporado ao pr\u00f3prio fluxo das intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas deixam de ser eventos excepcionais. Elas se diluem no cotidiano. N\u00e3o aparecem como algo externo, mas como parte do ambiente informacional no qual as pessoas vivem. A disputa n\u00e3o se restringe ao conte\u00fado de uma ideia, mas alcan\u00e7a os crit\u00e9rios pelos quais ela ser\u00e1 percebida como plaus\u00edvel, urgente ou irrelevante.<\/p>\n<p>Confian\u00e7a, credibilidade, familiaridade \u2014 tudo isso pode ser trabalhado tecnicamente. Pequenos deslocamentos acumulados ao longo do tempo tendem a produzir efeitos mais consistentes do que interven\u00e7\u00f5es abruptas. A percep\u00e7\u00e3o vai sendo ajustada de maneira gradual, quase impercept\u00edvel.<\/p>\n<p>A guerra h\u00edbrida, nesse contexto, ganha outro contorno. N\u00e3o se trata apenas da combina\u00e7\u00e3o de instrumentos militares, econ\u00f4micos e informacionais. Trata-se da capacidade de atuar sobre a forma\u00e7\u00e3o de ju\u00edzos, de influenciar o modo como a realidade \u00e9 interpretada e de orientar, por essa via, a a\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 um desvio da l\u00f3gica econ\u00f4mica. \u00c9 um desdobramento dela. A mesma infraestrutura que transforma comportamento em valor permite que esse comportamento seja mobilizado estrategicamente. Previsibilidade e influ\u00eancia passam a caminhar juntas. E \u00e9 nesse ponto que a t\u00e9cnica revela toda a sua dimens\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o se trata de exce\u00e7\u00e3o, mas de funcionamento normal.<\/p>\n<h3><strong>Sul Global e soberania informacional<\/strong><\/h3>\n<p>Observado a partir do Sul Global, esse processo ganha contornos mais duros. O que, em contextos centrais, pode aparecer como disputa interna sobre tecnologia e regula\u00e7\u00e3o, nas forma\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas se apresenta como problema estrutural de depend\u00eancia.<\/p>\n<p>A infraestrutura n\u00e3o \u00e9 neutra e tampouco est\u00e1 distribu\u00edda de forma equilibrada. Plataformas, centros de processamento, sistemas de armazenamento, modelos de intelig\u00eancia artificial \u2014 tudo isso tende a se concentrar em poucos polos. A maior parte dos pa\u00edses opera a partir de tecnologias que n\u00e3o controla e sobre as quais tem pouca margem de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso desloca o problema. A intelig\u00eancia artificial deixa de ser apenas uma quest\u00e3o de inova\u00e7\u00e3o ou efici\u00eancia produtiva. Passa a ser tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de soberania. Quem controla os dados, define os padr\u00f5es e organiza os fluxos de informa\u00e7\u00e3o acaba por influenciar diretamente as condi\u00e7\u00f5es sob as quais decis\u00f5es s\u00e3o tomadas.<\/p>\n<p>Essa depend\u00eancia n\u00e3o se restringe ao plano t\u00e9cnico. Ela atravessa a forma\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o. Ao operar dentro de ambientes estruturados externamente, os pr\u00f3prios crit\u00e9rios de relev\u00e2ncia, urg\u00eancia e verdade passam a ser mediados por l\u00f3gicas que n\u00e3o se originam no interior dessas sociedades.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma assimetria mais profunda do que a simples diferen\u00e7a de acesso \u00e0 tecnologia. Trata-se de uma diferen\u00e7a na capacidade de definir o que conta como realidade compartilhada. E isso tem implica\u00e7\u00f5es diretas sobre a pol\u00edtica, sobre a economia e sobre a pr\u00f3pria possibilidade de a\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Falar em soberania informacional, nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 um gesto abstrato. \u00c9 reconhecer a necessidade de construir capacidade pr\u00f3pria: infraestrutura, processamento, desenvolvimento de modelos, organiza\u00e7\u00e3o de dados. Sem isso, qualquer tentativa de reorientar a t\u00e9cnica esbarra em limites que n\u00e3o s\u00e3o apenas internos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o deixa de ser apenas \u201ccomo usar\u201d a tecnologia e passa a ser \u201cem que condi\u00e7\u00f5es essa tecnologia \u00e9 produzida, controlada e integrada \u00e0 vida social\u201d. \u00c9 nesse ponto que o problema se conecta diretamente com a ideia de autonomia.<\/p>\n<h3><strong>S\u00edntese: t\u00e9cnica, decis\u00e3o e subjetividade como totalidade<\/strong><\/h3>\n<p>Quando essas dimens\u00f5es s\u00e3o colocadas lado a lado, o quadro deixa de ser fragmentado. A discuss\u00e3o sobre a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o pode mais ser reduzida nem \u00e0 cr\u00edtica da t\u00e9cnica, nem \u00e0 defesa do planejamento. As duas continuam centrais, mas passam a exigir um n\u00edvel de articula\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica n\u00e3o apenas organiza processos produtivos, nem a decis\u00e3o pol\u00edtica se limita a orientar seus usos. Entre uma coisa e outra, h\u00e1 um campo inteiro em funcionamento: a produ\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sob as quais algo pode ser percebido, avaliado e transformado em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que o problema ganha consist\u00eancia. A modula\u00e7\u00e3o do comportamento, a filtragem algor\u00edtmica da experi\u00eancia e a organiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do campo perceptivo n\u00e3o operam isoladamente. Elas se integram \u00e0s din\u00e2micas de acumula\u00e7\u00e3o e \u00e0s disputas por dire\u00e7\u00e3o social, formando um mesmo movimento.<\/p>\n<p>Separar essas dimens\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o ajuda a compreender o que est\u00e1 em jogo. Produ\u00e7\u00e3o de valor, forma\u00e7\u00e3o de ju\u00edzo e orienta\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o coletiva passam a acontecer dentro de circuitos interligados, nos quais dados, modelos e infraestruturas t\u00e9cnicas desempenham papel decisivo.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o invalida as abordagens anteriores. Pelo contr\u00e1rio. A cr\u00edtica da t\u00e9cnica continua necess\u00e1ria para evitar qualquer ilus\u00e3o de neutralidade. A economia pol\u00edtica segue indispens\u00e1vel para compreender as rela\u00e7\u00f5es de poder que orientam o desenvolvimento tecnol\u00f3gico. O que muda \u00e9 que nenhuma delas, isoladamente, d\u00e1 conta do problema.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o da subjetividade n\u00e3o vem para substituir esses enfoques, mas para revelar aquilo que os atravessa. A decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um ato consciente sobre alternativas dispon\u00edveis. Ela depende de condi\u00e7\u00f5es materiais que organizam o que aparece como alternativa, o que parece desej\u00e1vel e o que se apresenta como poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse n\u00edvel que a discuss\u00e3o se torna mais exigente. N\u00e3o se trata apenas de decidir sobre a t\u00e9cnica, mas de compreender como a pr\u00f3pria capacidade de decis\u00e3o \u00e9 produzida dentro das mesmas estruturas que se pretende transformar.<\/p>\n<h3><strong>Conclus\u00e3o: a condi\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Quando se chega a esse ponto, a quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o pode ser formulada apenas em termos de controle da t\u00e9cnica ou de reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Isso continua sendo fundamental, mas n\u00e3o esgota o problema. A transforma\u00e7\u00e3o social passa a depender tamb\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es sob as quais a a\u00e7\u00e3o coletiva se torna poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o pode ser formulada apenas como decis\u00e3o sobre a t\u00e9cnica, mas de garantir que essa decis\u00e3o possa, de fato, existir como pr\u00e1tica efetiva. Isso implica ambientes nos quais percep\u00e7\u00e3o, julgamento e escolha n\u00e3o estejam integralmente condicionados por estruturas que operam fora do alcance da coletividade.<\/p>\n<p>A reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, n\u00e3o resolve esse impasse. Sem capacidade de compreender, interpretar e disputar o campo no qual a realidade se apresenta, qualquer projeto de transforma\u00e7\u00e3o tende a operar dentro de limites que n\u00e3o controla plenamente.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a quest\u00e3o da soberania precisa ser pensada de forma ampliada. T\u00e9cnica, informa\u00e7\u00e3o e cogni\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparecem como esferas separadas, mas como dimens\u00f5es interdependentes de um mesmo processo. A capacidade de desenvolver infraestrutura, organizar fluxos informacionais e sustentar formas pr\u00f3prias de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade torna-se parte integrante da possibilidade de orientar o futuro.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia artificial intensifica essa exig\u00eancia. Ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades, tamb\u00e9m aprofunda mecanismos de antecipa\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia. O sentido desses processos n\u00e3o est\u00e1 dado na t\u00e9cnica em si, mas nas rela\u00e7\u00f5es sociais que a estruturam e nas formas de poder que se consolidam a partir dela.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas o que fazer com a t\u00e9cnica, mas em que condi\u00e7\u00f5es esse \u201cfazer\u201d pode ser constru\u00eddo coletivamente. \u00c9 nesse terreno que a discuss\u00e3o sobre socialismo ap\u00f3s a intelig\u00eancia artificial encontra seu ponto mais exigente \u2014 e tamb\u00e9m mais decisivo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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A chave para enfrentar as big techs estaria na constru\u00e7\u00e3o de alternativas t\u00e9cnicas ou na reorienta\u00e7\u00e3o coletiva de seus rumos? Talvez o debate passe por outra ponto: a disputa cognitiva na Era Digital<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/caminhos-para-o-socialismo-em-tempos-de-ia\/\">Caminhos para o socialismo em tempos de IA<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88902,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[32388,10075,20699,16593,6835,6219,2056,44865,32420,2345,5604,61547,12007,627,1482,55902,35,5493,2221],"tags":[],"class_list":["post-88901","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ambientes-digitais","category-desenvolvimento-tecnologico","category-economia-politica","category-friccao-zero","category-guerra-hibrida","category-ia","category-infraestrutura","category-mundo-social","category-planejamento-democratico","category-plataformas-digitais","category-pos-capitalismo","category-relacoes-socias","category-soberania-informacional","category-socialismo","category-sul-global","category-tecnica","category-tecnologia","category-tecnologia-em-disputa","category-transformacao-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88901"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88901\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88902"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}