{"id":89111,"date":"2026-05-27T14:36:45","date_gmt":"2026-05-27T17:36:45","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-historia-e-a-cor-do-flagelo-climatico-nas-cidades\/"},"modified":"2026-05-27T14:36:45","modified_gmt":"2026-05-27T17:36:45","slug":"a-historia-e-a-cor-do-flagelo-climatico-nas-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-historia-e-a-cor-do-flagelo-climatico-nas-cidades\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria e a cor do flagelo clim\u00e1tico nas cidades"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"450\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4952011848668613724_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4952011848668613724_x.jpg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4952011848668613724_x-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4952011848668613724_x-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Imagem: Pilar Olivares\/Reuters<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto \u00e9 fruto de uma parceria entre o Outras Cidades e oBrCidades.<\/p>\n<p>As chuvas que caem sobre as cidades brasileiras enxurram o vocabul\u00e1rio da arena de debate p\u00fablico de palavras como trag\u00e9dia, desastre natural, fatalidade. \u00c9 uma forma de catarse para a simetria nacional de imagens de corpos retirados do barro, casas arrastadas, lugares submersos. O movimento narrativo subsequente do senso comum \u00e9 quase sempre privatizante da culpa: \u201cPor que essas pessoas escolheram morar l\u00e1?\u201d<\/p>\n<p>Por cat\u00e1rtica, trata-se de uma pergunta sistem\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--45.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/14--45.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nela est\u00e1 submerso um <em>locus<\/em> de interdi\u00e7\u00e3o da apropria\u00e7\u00e3o do solo no Brasil, uma interdi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, derivada de uma arquitetura jur\u00eddica que, por s\u00e9culos, organiza onde corpos negros e pobres podem viver. Em outras palavras, a produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de vulnerabilidade urbana \u00e9 processual\u00edstica \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o do capital e a crise clim\u00e1tica n\u00e3o inaugura a injusti\u00e7a territorial brasileira, ela a escancara. O risco de morrer por quest\u00f5es derivadas do clima tem por endere\u00e7o certo a chamada \u201ccidade informal\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia clim\u00e1tica catalisa nosso hist\u00f3rico racismo fundi\u00e1rio enquanto o maquin\u00e1rio de acumula\u00e7\u00e3o que nos trouxe at\u00e9 o presente de destrui\u00e7\u00e3o ambiental se atualiza a partir de \u201csolu\u00e7\u00f5es verdes\u201d de mercado, seguros clim\u00e1ticos, adapta\u00e7\u00e3o financeirizada, regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria cartorial.\u00a0<\/p>\n<p>Qualquer sa\u00edda para o quadro apresentado perpassa a compreens\u00e3o da l\u00f3gica incessante que recusa o direito \u00e0 terra urbanizada para a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>A pol\u00edtica urbana do inimigo<\/strong><\/h3>\n<p>O Estado atua como inst\u00e2ncia reguladora do processo institucionalizante da territorializa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Por isso, \u00e9 crucial entender e refletir sobre a pol\u00edtica urbana, \u00e9 por meio dela que o Estado desenvolve seu processo de territorializa\u00e7\u00e3o \u2014 o que refor\u00e7a a ideia de que a vulnerabilidade e as desigualdades urbanas n\u00e3o s\u00e3o acidentais, mas resultados de um processo cont\u00ednuo, mediado pelas pol\u00edticas p\u00fablicas e pela atua\u00e7\u00e3o estatal.\u00a0<\/p>\n<p>Um exemplo manifesto dessa din\u00e2mica \u00e9 a Lei de Terras de 1850. Promulgada estrategicamente \u00e0s v\u00e9speras do fim da escravatura com o sentido de transformar a terra em mercadoria, ela denota sen\u00e3o nossa passagem ao capitalismo racial. Nesse contexto, a favela n\u00e3o surge como um erro de planejamento urbano, mas como uma ferramenta estrutural: \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o espacial do capitalismo brasileiro para garantir m\u00e3o de obra barata \u00e0 \u201ccidade oficial\u201d, sem precisar incluir esses trabalhadores no mercado formal de terras. Assim, a cidade informal e suas comunidades encarnam a cidadania em negativo. Sob o r\u00f3tulo de \u201cinformais\u201d, esses territ\u00f3rios s\u00e3o estigmatizados e seus moradores s\u00e3o racializados, criando uma esp\u00e9cie de marca racial impressa, uma pele do solo.<\/p>\n<p>Talvez dessa compreens\u00e3o derive a faceta mais cruel do nosso urbanismo, uma persistente omiss\u00e3o te\u00f3rica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o racial. Longe de ser neutra, essa lacuna oculta o papel determinante da ra\u00e7a na forma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano e sustenta uma narrativa supostamente t\u00e9cnica, que retira o peso pol\u00edtico da desigualdade. Quando as pol\u00edticas p\u00fablicas ignoram essa realidade, geram-se graves consequ\u00eancias jur\u00eddicas: bloqueia-se a efetiva\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da igualdade garantido pelo artigo 5\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o e neutralizam-se ferramentas normativas como o Estatuto da Igualdade Racial (Lei n\u00ba 12.288\/2010), que seriam fundamentais para o combate ao racismo ambiental e para a exig\u00eancia de justi\u00e7a racial no planejamento das cidades.\u00a0<\/p>\n<p>Com isso, certa colonialidade do poder manifesta-se no estatuto do solo brasileiro atrav\u00e9s da perpetua\u00e7\u00e3o de hierarquias raciais que definem tr\u00eas aspectos fundamentais: quem pode apropriar-se do solo urbano, quais vidas s\u00e3o consideradas dignas de prote\u00e7\u00e3o e investimento p\u00fablico e quais territ\u00f3rios recebem recursos do Estado. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 a cont\u00ednua apropria\u00e7\u00e3o privada da riqueza urbana, violando frontalmente a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e da cidade, pilares que deveriam guiar as pol\u00edticas territoriais por for\u00e7a dos artigos 182 e 183 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal e do Estatuto da Cidade (Lei n\u00ba 10.257\/2001).\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"1456\" height=\"180\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O elo hist\u00f3rico entre o per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o e a express\u00e3o da racialidade na constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano fica evidente na manuten\u00e7\u00e3o de din\u00e2micas discriminat\u00f3rias. Mesmo sem respaldo legal, essas pr\u00e1ticas operam como determina\u00e7\u00f5es espaciais herdadas de um passado de segrega\u00e7\u00e3o. Trata-se de um sistema cont\u00ednuo que vai desde a proibi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do acesso \u00e0 terra at\u00e9 as atuais l\u00f3gicas financeiras da pol\u00edtica clim\u00e1tica. Essa m\u00e1quina se adapta e se alimenta constantemente, unindo exclus\u00e3o, precariedade e lucro sobre o territ\u00f3rio. Em suma, a vulnerabilidade n\u00e3o \u00e9 um mero efeito colateral da nossa sociedade, mas a pr\u00f3pria engrenagem que faz o capitalismo racial brasileiro funcionar nas cidades.<\/p>\n<h3><strong>Capitalismo clim\u00e1tico<\/strong><\/h3>\n<p>A estrat\u00e9gia do capital de expandir suas fronteiras geogr\u00e1ficas para superar crises de superacumula\u00e7\u00e3o, que Harvey (2005) define como \u201cspatial fix\u201d, tem hoje a sua mais nova encarna\u00e7\u00e3o: a adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica urbana, que converte a precariedade da cidade informal em oportunidade de lucro. O novo vocabul\u00e1rio dessa engrenagem de acumula\u00e7\u00e3o inclui o endividamento internacional sob lentes da \u201cresili\u00eancia\u201d, privatiza\u00e7\u00e3o da drenagem e saneamento, parcerias p\u00fablico-privadas (PPPs) de habita\u00e7\u00e3o, parques lineares que abrem vetores de reserva imobili\u00e1ria e valoriza\u00e7\u00e3o orientada por fundos imobili\u00e1rios.<\/p>\n<p>Assim, a resposta \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica instrumentaliza a precariedade hist\u00f3rica das periferias n\u00e3o para resolv\u00ea-la, mas para extrair valor e promover remo\u00e7\u00f5es, reiterando o bloqueio secular ao solo urbanizado. A l\u00f3gica estatal \u00e9 punitiva: as popula\u00e7\u00f5es negra e empobrecida s\u00e3o disciplinadas enquanto inimigas, pois \u201cn\u00e3o valem o ch\u00e3o que pisam\u201d ainda que o tenham aterrado e constru\u00eddo. Na requalifica\u00e7\u00e3o urbana \u00e0 brasileira, a regra \u00e9 a da rentabilidade do concession\u00e1rio, da remo\u00e7\u00e3o como colateral \u00e0 infraestrutura e da participa\u00e7\u00e3o popular teatralizada. A fazenda p\u00fablica, ao final, est\u00e1 a servi\u00e7o do rentismo.<\/p>\n<h3><strong>A regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e adapta\u00e7\u00e3o antirracista<\/strong><\/h3>\n<p>Nesse sentido, torna-se imposs\u00edvel debater a seguran\u00e7a da posse sem atrel\u00e1-la a uma agenda de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A lente do racismo ambiental permite compreender que a exposi\u00e7\u00e3o diferencial de popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas a riscos ambientais n\u00e3o \u00e9 acidental, mas resultado de processos hist\u00f3ricos de exclus\u00e3o territorial. Assumir essa realidade \u00e9 condi\u00e7\u00e3o inegoci\u00e1vel para a formula\u00e7\u00e3o de qualquer pol\u00edtica leg\u00edtima de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Construir uma adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica verdadeiramente antirracista exige, antes de tudo, admitir que a vulnerabilidade \u00e9 um projeto hist\u00f3rico, e n\u00e3o um acaso. A partir da\u00ed, \u00e9 urgente assegurar o poder de decis\u00e3o \u00e0s comunidades impactadas, direcionar os recursos do Estado para as periferias sempre negligenciadas e enfrentar, de frente, o racismo institucional que dita as regras de nossas pol\u00edticas de planejamento urbano.\u00a0<\/p>\n<p>Compatibilizar a garantia da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e da moradia com as urg\u00eancias da adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica constitui um intrincado desafio. Enquanto o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o foi al\u00e7ado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de direito social fundamental apenas no ano 2000 (via Emenda Constitucional n\u00ba 26), a justi\u00e7a clim\u00e1tica exige uma constru\u00e7\u00e3o interpretativa, extraindo seu fundamento normativo de princ\u00edpios constitucionais basilares, como a dignidade da pessoa humana, a mitiga\u00e7\u00e3o das assimetrias sociais e regionais e a salvaguarda do meio ambiente.\u00a0<\/p>\n<p>Vale ressaltar que a legisla\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 oferece mecanismos preventivos claros para essa realidade. O artigo 42-A do Estatuto da Cidade obriga as cidades com hist\u00f3rico de inunda\u00e7\u00f5es e deslizamentos a inclu\u00edrem estrat\u00e9gias adicionais e obrigat\u00f3rias em seus Planos Diretores. Na mesma linha, o artigo 42-B atua como uma trava de seguran\u00e7a: ele pro\u00edbe o alargamento dos per\u00edmetros urbanos sem um projeto rigoroso que identifique e bloqueie a urbaniza\u00e7\u00e3o em \u00e1reas amea\u00e7adas por desastres clim\u00e1ticos ou geol\u00f3gicos.\u00a0<\/p>\n<p>No \u00e2mbito das pol\u00edticas federais de habita\u00e7\u00e3o, a legisla\u00e7\u00e3o j\u00e1 assegura prefer\u00eancia de atendimento \u00e0s popula\u00e7\u00f5es expostas a perigos clim\u00e1ticos ou geol\u00f3gicos (conforme o art. 3\u00ba, III, da Lei n\u00ba 11.977\/2009, e o art. 4\u00ba, III, da Lei n\u00ba 14.118\/2021). Paralelamente, o marco regulat\u00f3rio da Reurb (Lei n\u00ba 13.465\/2017) estabelece, em seu art. 39, que a titula\u00e7\u00e3o de assentamentos informais sob amea\u00e7a de risco fica condicionada \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de estudos voltados a mitigar, corrigir ou gerenci\u00e1-los. A efetiva\u00e7\u00e3o dessas obras e medidas protetivas atua, portanto, como pressuposto legal inegoci\u00e1vel para a aprova\u00e7\u00e3o da regulariza\u00e7\u00e3o (\u00a7 1\u00ba).<\/p>\n<p>A Lei n\u00ba 13.465\/2017, contudo, resultante do golpe de 2016 \u00e0 presidenta Dilma, inaugurou a primazia da Regulariza\u00e7\u00e3o Fundi\u00e1ria Urbana de Interesse Espec\u00edfico (Reurb-E) de interesse espec\u00edfico. Essa via potencializou a sanha especulativa sobre a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria ao desloc\u00e1-la de um projeto real de urbaniza\u00e7\u00e3o, outorgando a prefeituras e cart\u00f3rios a chancela de uma titula\u00e7\u00e3o que apenas legitima a apropria\u00e7\u00e3o privada do territ\u00f3rio perif\u00e9rico. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as Zonas Especiais de Interesse Social, um dispositivo historicamente forjado para assegurar a perman\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es na cidade informal, t\u00eam sido reiteradamente flexibilizadas para atender ao mercado nas revis\u00f5es dos planos diretores.\u00a0<\/p>\n<p>Para a adapta\u00e7\u00e3o funcionar, o Brasil precisa de um pacto federativo pelo clima. Uni\u00e3o, estados e prefeituras devem tratar as cidades como prioridade, investindo pesado em solu\u00e7\u00f5es reais e duradouras: infraestrutura sustent\u00e1vel, preven\u00e7\u00e3o de desastres e habita\u00e7\u00e3o segura para quem mais precisa. \u00c9 inaceit\u00e1vel, sob essa \u00f3tica, que 17 das nossas capitais ainda n\u00e3o tenham um plano de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica para enfrentar a crise. A capta\u00e7\u00e3o de recursos precisa diversificar fontes nacionais e internacionais, mas, sem governan\u00e7a multin\u00edvel coesa e participa\u00e7\u00e3o popular direta, repete-se a captura especulativa da infraestrutura p\u00fablica.<\/p>\n<p>A verdadeira sa\u00edda, portanto, n\u00e3o ser\u00e1 ditada por bancos, ag\u00eancias financeiras ou consultorias estrangeiras com seus projetos subalternizantes. A solu\u00e7\u00e3o nasce da pr\u00f3pria periferia: brota das comunidades que historicamente lutam contra os despejos e das assessorias t\u00e9cnicas populares que combatem a entrega das cidades ao setor privado. O que se prop\u00f5e \u00e9 um projeto popular de supera\u00e7\u00e3o das vulnerabilidades, capaz de romper de vez com a heran\u00e7a colonial e racista que ergueu a \u201ccidade informal\u201d. Na pr\u00e1tica, isso significa: levar infraestrutura para onde o Estado sempre faltou como um ato de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e assegurar a posse da terra como um direito coletivo de permanecer, sustentado por uma democratiza\u00e7\u00e3o profunda e radical do espa\u00e7o urbano, do solo urbanizado e da habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram os movimentos de moradia que, a duras penas, conquistaram a Lei n\u00ba 11.124\/2005, fundando o Sistema Nacional de Habita\u00e7\u00e3o de Interesse Social. Foram as ocupa\u00e7\u00f5es, lado a lado com as assessorias t\u00e9cnicas populares, que garantiram no STF (via ADPF 828) o reconhecimento de que a nossa crise habitacional \u00e9 inconstitucional, barrando despejos em plena pandemia. E \u00e9 a resist\u00eancia di\u00e1ria das assessorias, da advocacia popular, dos terreiros, dos quilombos urbanos e dos coletivos de mulheres negras perif\u00e9ricas que mant\u00e9m viva a verdadeira regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. A \u00fanica regulariza\u00e7\u00e3o digna desse nome: aquela que n\u00e3o \u00e9 imposta de cima para baixo, mas constru\u00edda junto com o povo, a partir do seu pr\u00f3prio ch\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, a partilha de terras no Brasil funcionou como uma verdadeira condena\u00e7\u00e3o racial. A pol\u00edtica de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria do nosso tempo tem a obriga\u00e7\u00e3o inadi\u00e1vel de encarar essa verdade.\u00a0Ou cumpre sua fun\u00e7\u00e3o reparat\u00f3ria, ou colabora, sob discurso t\u00e9cnico, com mais um cap\u00edtulo da longa hist\u00f3ria brasileira de uma arquitetura jur\u00eddica onde o \u00fanico lugar permitido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e empobrecida \u00e9 o abismo hist\u00f3rico entre a terra escriturada e o solo urbanizado.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post A hist\u00f3ria e a cor do flagelo clim\u00e1tico nas cidades appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/palavra-de-ordem-do-pcdob-e-frente-ampla-para-isolar-a-extrema-direita-diz-luciana-santos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/congresso-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Palavra de ordem do PCdoB \u00e9 frente ampla para isol...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/milei-recua-e-argentina-assina-pacto-proposto-por-lula-no-g20\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Milei recua e Argentina assina pacto proposto por ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pf-pode-pedir-afastamento-de-ministro-especialista-explica-lacuna-legal-e-proximos-passos-no-caso-toffoli\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">PF pode pedir afastamento de ministro? 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E o mercado usa a narrativa de \u201cresili\u00eancia\u201d para promover despejos e especula\u00e7\u00e3o. H\u00e1 caminhos para a justi\u00e7a ambiental. O primeiro deles: encarar o racismo fundi\u00e1rio que estruturou nossas cidades<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/a-historia-e-a-cor-do-flagelo-climatico-nas-cidades\/\">A hist\u00f3ria e a cor do flagelo clim\u00e1tico nas cidades<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":89112,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1758,41016,61951,1501,61952,9568,5398,1895,3984,58976,30105,5872,39664,214,20870,48772,53540,2385,4972,61953,61954,38969,15,4211],"tags":[],"class_list":["post-89111","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antirracismo","category-capitalismo-racial","category-cidade-informal","category-clima","category-corpos-negros","category-desastre-natural","category-emergencia-climatica","category-favelas","category-justica-climatica","category-lei-de-terras","category-outras-cidades","category-planejamento-urbano","category-politica-urbana","category-politicas-publicas","category-populacao-negra","category-populacao-pobre","category-racialidade","category-regularizacao-fundiaria","category-rentismo","category-solucoes-verdes","category-territorializacao","category-trabalhador-brasileiro","category-tragedia","category-vulnerabilidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89111"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89111\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89112"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}