{"id":89456,"date":"2026-05-29T18:03:12","date_gmt":"2026-05-29T21:03:12","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/absolvicao-de-ex-presidente-da-udr-perpetua-28-anos-de-impunidade-e-expoe-manobra-juridica-no-pr\/"},"modified":"2026-05-29T18:03:12","modified_gmt":"2026-05-29T21:03:12","slug":"absolvicao-de-ex-presidente-da-udr-perpetua-28-anos-de-impunidade-e-expoe-manobra-juridica-no-pr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/absolvicao-de-ex-presidente-da-udr-perpetua-28-anos-de-impunidade-e-expoe-manobra-juridica-no-pr\/","title":{"rendered":"Absolvi\u00e7\u00e3o de ex-presidente da UDR perpetua 28 anos de impunidade e exp\u00f5e manobra jur\u00eddica no PR\u00a0"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"713\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Juri-Prochet-corte-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Juri-Prochet-corte-2-1024x713.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Juri-Prochet-corte-2-300x209.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Juri-Prochet-corte-2-768x534.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Juri-Prochet-corte-2-1536x1069.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Juri-Prochet-corte-2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Registro do julgamento de Marcos Prochet em 2016. Foto: arquivo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Lizely Borges (Terra de Direitos) e Ednubia Ghisi (MST-PR)<br \/>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>O Tribunal do J\u00fari de Curitiba absolveu o ruralista e ex-presidente da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR), Marcos Prochet, da acusa\u00e7\u00e3o de assassinato do trabalhador rural Sem\u00a0Terra Sebasti\u00e3o Camargo. O julgamento foi conclu\u00eddo na madrugada desta sexta-feira (29), na capital paranaense. Com um\u00a0resultado\u00a0apertado, o ruralista n\u00e3o foi responsabilizado pelo crime, ainda que sete testemunhas tenham reconhecido Prochet na cena do crime. Respons\u00e1vel pela acusa\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Paran\u00e1 relatou que deve avaliar se recorrer\u00e1 da decis\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>A batalha por justi\u00e7a, que j\u00e1 se arrasta por 28 anos desde o crime em 1998, exp\u00f5e duas realidades opostas. De um lado, a luta por justi\u00e7a com permanente den\u00fancia nacional e internacional contra a impunidade do latif\u00fandio. Exemplo disso foi a manifesta\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em 2009, que responsabilizou o Estado brasileiro pelo assassinato do trabalhador, criticando abertamente a lentid\u00e3o e a incapacidade do sistema de justi\u00e7a nacional em punir os envolvidos.\u00a0<\/p>\n<p>Por outro lado, o processo foi marcado por sucessivas estrat\u00e9gias processuais da defesa do ruralista, incluindo diversos pedidos de adiamento e uma s\u00e9rie de recursos acolhidos pelo Judici\u00e1rio que resultaram na anula\u00e7\u00e3o das condena\u00e7\u00f5es proferidas pelo Tribunal do J\u00fari. Em um cen\u00e1rio incomum na justi\u00e7a brasileira, <strong>Prochet chegou a ser condenado por tr\u00eas j\u00faris populares distintos como autor do disparo que matou Sebasti\u00e3o Camargo<\/strong>. As condena\u00e7\u00f5es, ocorridas em 2013, 2016 e 2021, acabaram sendo anuladas pelo Tribunal de Justi\u00e7a do Paran\u00e1. O caso tamb\u00e9m enfrentou epis\u00f3dios que contribu\u00edram para sua longa tramita\u00e7\u00e3o, como o extravio dos autos f\u00edsicos do processo.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"503\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/sebastiao11.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/sebastiao11-503x1024.jpg 503w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/sebastiao11-147x300.jpg 147w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/sebastiao11.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 503px) 100vw, 503px\"><figcaption><em>Sebasti\u00e3o Camargo foi assassinado aos 65 anos, durante um despejo violento realizado pela UDR, no noroeste do Paran\u00e1. Foto: Arquivo pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>E de modo ainda mais surpreendente,\u00a0a defesa apresentou\u00a0apenas no dia\u00a0do\u00a0j\u00fari\u00a0uma nova testemunha: Jair Firmino, conhecido como Borracha. Diante do j\u00fari, o pistoleiro assumiu a autoria do crime.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Entenda do caso\u00a0<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Camargo foi morto aos 65 anos com um tiro na cabe\u00e7a. O crime aconteceu em 7 de fevereiro de 1998, durante um despejo ilegal efetuado em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Fazenda Boa Sorte, em Marilena, no Noroeste do Paran\u00e1. Na \u00e1rea residiam 300 fam\u00edlias. Al\u00e9m do assassinato de Camargo, que deixou esposa e os filhos, outras 17 pessoas, incluindo crian\u00e7as, ficaram feridas no despejo.\u00a0<\/p>\n<p>A \u00e1rea ocupada pelo Movimento j\u00e1 estava em processo de desapropria\u00e7\u00e3o quando os ruralistas orquestraram o despejo ilegal. Vistoriada pelo Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), a fazenda foi considerada improdutiva.\u00a0Teissin\u00a0Tina, ent\u00e3o dono da fazenda, recebeu cerca de R$ 1,3 milh\u00e3o pela propriedade.\u00a0<\/p>\n<p>Messias Camargo tinha 15 anos quando seu pai foi assassinado. Neste 4\u00ba j\u00fari em que o acusado de assassinar seu pai estava no banco dos r\u00e9us, Messias acompanhou da primeira fila, vendo em primeiro plano dois filhos de Marcos Prochet, atuando como advogado de defesa do pai.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEles pregam tanto, como eles [a defesa de Prochet]\u00a0ontem falavam em fam\u00edlia, que s\u00e3o\u00a0fam\u00edlia. E da\u00ed a minha fam\u00edlia, como \u00e9 que sente? Como \u00e9 que fica a minha fam\u00edlia? Voc\u00ea n\u00e3o pode ter teu pai, n\u00e3o pode ver o\u00a0pai, criar os seus netos. Como \u00e9 que a gente sente? Ser\u00e1 que para eles \u00e9 fam\u00edlia, isso a\u00ed? E a minha fam\u00edlia? Minha fam\u00edlia ser\u00e1 que n\u00e3o sente? [\u2026]<strong>\u00a0Eles n\u00e3o mataram um cachorro, mataram um homem, mataram um pai de fam\u00edlia. \u00c9 muito tempo que a gente sente dor. A gente n\u00e3o \u00e9 ser humano que n\u00e3o tem cora\u00e7\u00e3o. Por que ser\u00e1 que o pobre \u00e9 um cachorro\u00a0pra\u00a0esse povo? Ser\u00e1 que n\u00e3o tem futuro, n\u00e3o tem valor?<\/strong>\u201d, desabafa o campon\u00eas.\u00a0<\/p>\n<p>Messias cresceu com os tr\u00eas irm\u00e3os em idades pr\u00f3ximas e a m\u00e3e, sempre trabalhando na ro\u00e7a. \u201cCom 16 anos j\u00e1 trabalhava no servi\u00e7o bruto.\u00a0N\u00e3o tive oportunidade de estudar, n\u00e3o tive oportunidade de nada. Enquanto ontem os filhos deles estavam l\u00e1, dois advogados,\u00a0defendendo ele\u00a0e brigando\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do MST, a sequ\u00eancia de recursos da defesa at\u00e9 culminar na absolvi\u00e7\u00e3o \u00e9 emblem\u00e1tica de como opera a arquitetura de manuten\u00e7\u00e3o da impunidade aos latifundi\u00e1rios. Nessa estrutura, as rela\u00e7\u00f5es de interfer\u00eancia e proximidade com o Executivo e o Judici\u00e1rio foram centrais para a n\u00e3o responsabiliza\u00e7\u00e3o e para o poder do ruralista.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Durante o j\u00fari, Prochet relatou que no per\u00edodo dos fatos \u201cs\u00f3 com Jaime Lerner [ent\u00e3o governador do Paran\u00e1] tive 52 agendas\u201d, ao relatar a incid\u00eancia pol\u00edtica para criminalizar e paralisar a\u00e7\u00f5es dos movimentos pela Reforma Agr\u00e1ria.\u00a0Mesmo sendo mencionado por testemunhas, o delegado da Comarca de Matel\u00e2ndia, Eduardo Barbosa, n\u00e3o determinou o depoimento de Marcos Prochet na \u00e9poca. Pouco tempo depois, o delegado foi condenado por corrup\u00e7\u00e3o e peculato.\u00a0<\/p>\n<p>Para Jo\u00e3o Fl\u00e1vio Borba, integrante da dire\u00e7\u00e3o do MST no Paran\u00e1 que acompanhou o\u00a0j\u00fari, o\u00a0resultado\u00a0registra\u00a0a injusti\u00e7a que marca a hist\u00f3ria do Brasil.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>A \u00eanfase \u00e9 do sentimento de impunidade, para quem conviveu por mais de 20 anos sabe o que significou toda a a\u00e7\u00e3o que a UDR, de uma forma ou outra, reprimiu com o resultado de mortes de pessoas e todo um clima de tens\u00e3o que existia dentro da regi\u00e3o [\u2026].\u00a0\u00c9 uma atualiza\u00e7\u00e3o da fotografia do Brasil como o pa\u00eds da impunidade, com os crimes cometidos contra os povos do campo, h\u00e1 mais de 500 anos\u201d.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Forte opositor da Reforma Agr\u00e1ria, Prochet teve seu v\u00ednculo e o da UDR com a contrata\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias rurais para a\u00e7\u00f5es violentas em ocupa\u00e7\u00f5es amplamente evidenciados pela acusa\u00e7\u00e3o ao longo do julgamento, em mat\u00e9rias nos ve\u00edculos de imprensa, nos testemunhos e mesmo na realiza\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Parlamentar Mista (CPMI) da Terra, ocorrida entre 2003 e 2005.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA gente quer fazer justi\u00e7a. N\u00e3o importa se \u00e9 rico, se \u00e9 pobre, preto, se \u00e9 Sem Terra, com terra, \u00e9 fazer justi\u00e7a. Depois de 28 anos \u00e9 mostrar que o Brasil n\u00e3o \u00e9 pa\u00eds da Primeira Rep\u00fablica, n\u00e3o \u00e9 Brasil dos coron\u00e9is, \u00e9 do povo\u201d, clamava o promotor do Minist\u00e9rio P\u00fablico, Andr\u00e9 Tiago Pasternak\u00a0Glitz, ao j\u00fari. \u201cO filho de Sebasti\u00e3o est\u00e1 aqui acompanhando mais um julgamento. Sebasti\u00e3o foi assassinado com um tiro na cabe\u00e7a, n\u00e3o d\u00e1 mais para tolerar. Depois de 28 anos, justi\u00e7a\u201d, complementa.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Terceiriza\u00e7\u00e3o da culpa e manobra de \u00faltima hora<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>A grande reviravolta do julgamento foi desenhada nos bastidores.\u00a0Apenas\u00a0no dia do\u00a0j\u00fari, a defesa de Prochet apresentou uma nova testemunha: o jagun\u00e7o Jair Firmino, conhecido como \u201cBorracha\u201d.\u00a0Diante do tribunal, o pistoleiro assumiu a autoria do crime e a classificou como um \u201cacidente\u201d. De acordo com o pr\u00f3prio depoimento de Firmino, os advogados e familiares do ruralista o procuraram na ter\u00e7a-feira desta semana e\u00a0disponibilizaram\u00a0o pagamento de deslocamento, hospedagem e um advogado pr\u00f3prio. \u201cO filho do Marcos me procurou e pediu para eu vir aqui. Foi na ter\u00e7a-feira\u201d, declarou.\u00a0<\/p>\n<p>A cena do depoimento chocou o plen\u00e1rio, com os advogados de defesa cercando a testemunha enquanto Firmino afirmava ser o autor do disparo contra Sebasti\u00e3o.\u00a0\u201cNunca vi o que aconteceu hoje. Vinte e oito anos depois aparece o verdadeiro criminoso, querendo expiar sua culpa. \u00c9 f\u00e1cil ele assumir agora que j\u00e1 n\u00e3o pode ser condenado\u201d, questionou o promotor, em refer\u00eancia \u00e0 impossibilidade de puni\u00e7\u00e3o de Borracha, j\u00e1 que o crime prescreveu para ele. \u201cDepois de 28\u00a0anos, a verdade n\u00e3o aparece por acaso na v\u00e9spera do julgamento\u201d, alerta.\u00a0<\/p>\n<p>O promotor ainda destacou que, embora Borracha alegue ter v\u00e1rias testemunhas de sua suposta culpa, o nome do jagun\u00e7o foi mencionado em pouqu\u00edssimas ocasi\u00f5es por apenas uma pessoa ao longo de quase tr\u00eas d\u00e9cadas de processo e oitivas: por Augusto Barbosa da Costa, acusado de integrar a mil\u00edcia que realizou o ataque contra o acampamento. E mesmo sendo referido logo no in\u00edcio do processo, em 1998, a defesa do r\u00e9u n\u00e3o o acionou ou sustentou em outros j\u00faris a culpa de Borracha. O nome do jagun\u00e7o surgiu em um depoimento \u201cinformal\u201d de Augusto ao delegado Eduardo Barbosa. \u201cAugusto dep\u00f5e e n\u00e3o diz nada sobre Borracha e depois, em relat\u00f3rio do delegado, ele insere o nome de Borracha e relata aqui, em plen\u00e1rio, que Augusto o mencionou como autor do disparo em depoimento informal\u201d, aponta o promotor. \u201cA verdade \u00e9 que estas pessoas estavam no bolso; \u00e9 mais uma vez o poder da grana comprando o nosso Estado\u201d, destaca.\u00a0<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico tamb\u00e9m contestou a motiva\u00e7\u00e3o do depoimento. A testemunha alegou que assumiu a culpa para \u201cevitar uma injusti\u00e7a\u201d, afirmando ter sido injusti\u00e7ado em outro caso. Em 2011, o Tribunal do J\u00fari do Paran\u00e1 condenou Jair Firmino pelo assassinato do trabalhador rural Eduardo\u00a0Anghinoni, ocorrido em 1999. Na ocasi\u00e3o, Borracha foi condenado e cumpriu 15 anos de pris\u00e3o respaldado por robusto conjunto de provas, o que desidrata seu argumento de erro judicial.\u00a0<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre o depoimento do ex-presidente da UDR e o hist\u00f3rico de rela\u00e7\u00e3o entre ele e o pistoleiro tamb\u00e9m ficou registrada na hist\u00f3ria: o pr\u00f3prio Marcos Prochet acompanhou pessoalmente o julgamento em que Borracha foi condenado por matar\u00a0Anghinoni. Ap\u00f3s a senten\u00e7a que deu 15 anos de cadeia ao pistoleiro, o ruralista saiu publicamente em sua defesa, em 2011: \u201cO Borracha \u00e9 trabalhador, n\u00e3o fez esse neg\u00f3cio\u201d. Anos depois, o mesmo aliado \u00e9 usado como pe\u00e7a de descarte para blindar o latif\u00fandio. J\u00e1 no j\u00fari desta quinta e sexta-feira, Prochet relatou que n\u00e3o conhecia Borracha.\u00a0<\/p>\n<p>Outro aspecto que se destaca \u00e9 o fato de Borracha e Marcos Prochet compartilharem a assessoria jur\u00eddica dos mesmos advogados. Durante o j\u00fari, Jair Firmino relatou que, ao longo dos 28 anos,\u00a0contou apenas ao advogado Itacir\u00a0Biazus\u00a0ser o autor do disparo que vitimou o campon\u00eas, e que foi acompanhado pelo advogado Ricardo Baggio quando foi preso em flagrante em 1998. Os mesmos advogados acompanharam Marcos Prochet em depoimentos \u00e0 delegacia\u00a0dias ap\u00f3s o crime.\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00c1libis forjados<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com a promotoria, o r\u00e9u constituiu, nos dias seguintes ao crime, uma agenda roteirizada de \u00e1libis que inclu\u00eda familiares, amigos e\u00a0funcion\u00e1rios.\u00a0Essa\u00a0constru\u00e7\u00e3o artificial resultou at\u00e9 mesmo na sobreposi\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios relatados pelos \u00e1libis como de encontros com Prochet.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s 9h ele estaria na casa do advogado; \u00e0s 9h15 Tarc\u00edsio relata que ligou para a casa de Prochet e conversou com o ruralista; entre 9h e 9h30 a esposa Regina diz que ele a deixou na loja; \u00e0s 9h30 ele chegou no trabalho\u201d, resgata o promotor de falas de testemunhas em depoimentos. \u201cEsse roteiro forjado criou a ilus\u00e3o da onipresen\u00e7a. A tentativa de criar um \u00e1libi \u00e9 t\u00e3o forte que ele [Prochet] faz o que a gente n\u00e3o consegue fazer, que \u00e9 estar em v\u00e1rios locais ao mesmo tempo\u201d, diz.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Testemunhas do crime\u00a0<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>A trabalhadora rural Ant\u00f4nia Fran\u00e7a \u00e9 uma das principais testemunhas do crime, e prestaria depoimento virtualmente, por\u00e9m, por\u00a0dificuldade de conex\u00e3o da internet,\u00a0teve\u00a0o\u00a0testemunho\u00a0prestado\u00a0ao longo do julgamento.\u00a0Ela estava deitada ao lado de\u00a0Sebasti\u00e3o Camargo quando ele levou o tiro na cabe\u00e7a, e foi atingida por fragmentos de p\u00f3lvora que lhe causa les\u00f5es.\u00a0Em\u00a0depoimento prestado em 1998, depois na\u00a0audi\u00eancia\u00a0de instru\u00e7\u00e3o que acarretou\u00a0na\u00a0den\u00fancia\u00a0do\u00a0Prochet, que ocorreu em mar\u00e7o de 2004,\u00a0quanto\u00a0em\u00a0todos os juris (2013, 2016 e 2021), ela disse as mesmas coisas, que reconheceu a voz e viu o Prochet\u00a0tirar o capuz.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEles falavam \u2018esse velho\u00a0t\u00e1\u00a0olhando, eu vou dar um tiro na cabe\u00e7a dele\u2019. Mas ele erguia a cabe\u00e7a porque tem problema na coluna\u201d, disse a testemunha.\u00a0 \u201cEu reconheci a voz dele, do Marcos Prochet. Eu\u00a0conhecia ele\u00a0da Fazenda Tr\u00eas C\u00f3rregos, ele sempre ia por l\u00e1 com a pol\u00edcia. Depois, ele tirou o capuz.\u201d\u00a0Antonia, em fevereiro de 1998, chegou a fazer exame de corpo delito, pois foi atingida por p\u00f3lvoras dos tiros.\u00a0<\/p>\n<p>Ela contou em seus depoimentos que todos os homens que estavam encapuzados correram, ap\u00f3s os tiros, at\u00e9 um caminh\u00e3o e muitos se dirigiam \u00e0 Prochet como \u201ccomandante\u201d.\u00a0Antonia\u00a0tamb\u00e9m citou que Prochet era o \u00fanico que vestia roupa diferente, com emblema da UDR. \u201cN\u00e3o me disseram que foi ele, eu vi que era ele\u201d,\u00a0disse aos advogados do r\u00e9u\u00a0no 3\u00ba\u00a0j\u00fari\u00a0popular.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Outras\u00a0duas\u00a0testemunhas\u00a0Aparecido e Gilson,\u00a0refor\u00e7am o reconhecimento\u00a0de Prochet pelo tipo f\u00edsico,\u00a0pela\u00a0voz\u00a0e\u00a0pela\u00a0vestimenta.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas condenados pelo assassinato de Sebasti\u00e3o Camargo<\/strong>\u00a0<br \/>O ex-presidente da UDR \u2013 associa\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rios rurais voltada \u00e0 \u201cdefesa do direito de propriedade\u201d \u2013 \u00e9 a quarta pessoa a ir a j\u00fari popular pelo assassinato de Sebasti\u00e3o Camargo.\u00a0Teissin\u00a0Tina recebeu condena\u00e7\u00e3o de seis anos de pris\u00e3o por homic\u00eddio simples; no entanto, n\u00e3o foi preso porque a pena prescreveu. J\u00e1 Osnir Sanches foi condenado a 13 anos de pris\u00e3o por homic\u00eddio qualificado e constitui\u00e7\u00e3o de empresa de seguran\u00e7a privada, utilizada para recrutar jagun\u00e7os e executar despejos ilegais. Ele cumpre pris\u00e3o domiciliar por quest\u00f5es de sa\u00fade. Augusto Barbosa da Costa, integrante da mil\u00edcia privada, tamb\u00e9m foi condenado, mas recorreu da decis\u00e3o.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Denunciado apenas em 2013, o ruralista Tarc\u00edsio Barbosa de Souza, presidente da Comiss\u00e3o Fundi\u00e1ria da Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura do Estado do Paran\u00e1 (FAEP), ligada \u00e0 Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil (CNA), tamb\u00e9m foi apontado como envolvido no crime, mas a decis\u00e3o judicial que determinava o julgamento de Tarc\u00edsio por j\u00fari popular foi anulada em 2019.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Reincid\u00eancia da injusti\u00e7a no Paran\u00e1<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o da impunidade acrescenta mais um epis\u00f3dio ao grave quadro de aus\u00eancia de responsabiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia do Estado e de latifundi\u00e1rios contra trabalhadores Sem Terra. Em 2024, o Estado brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) pela intensa viol\u00eancia e pela omiss\u00e3o da justi\u00e7a brasileira quanto ao assassinato do trabalhador rural Ant\u00f4nio Tavares, bem como pelas les\u00f5es sofridas por mais de 197 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por parte de agentes da Pol\u00edcia Militar do Paran\u00e1.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A viol\u00eancia ocorreu durante a repress\u00e3o, na Rodovia BR-227, em Campo Largo (PR), a uma marcha pela reforma agr\u00e1ria que ocorreria em 2 de maio de 2000, em Curitiba. Na repress\u00e3o, mulheres, crian\u00e7as e pessoas idosas tamb\u00e9m foram feridas.\u00a0<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o vinculado \u00e0 OEA j\u00e1 tinha condenado o pa\u00eds em mais dois casos. Em 2009, a Corte reconheceu o conjunto de viola\u00e7\u00f5es pela intercepta\u00e7\u00e3o, monitoramento e divulga\u00e7\u00e3o ilegais de conversas telef\u00f4nicas de associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores rurais pela Pol\u00edcia Militar do Paran\u00e1, no que ficou conhecido como Caso\u00a0Esher. No mesmo ano, o pa\u00eds foi condenado por n\u00e3o responsabilizar os envolvidos no assassinato do Sem Terra S\u00e9timo Garibaldi.\u00a0<\/p>\n<p>Em um epis\u00f3dio muito semelhante ao de Sebasti\u00e3o Camargo, na madrugada de 27 de novembro de 1998, um grupo de 20 homens encapuzados reprimiu as 50 fam\u00edlias vinculadas ao MST e ocupantes da Fazenda S\u00e3o Francisco, em Quer\u00eancia do Norte, localizada no noroeste do Paran\u00e1. Na opera\u00e7\u00e3o de desocupa\u00e7\u00e3o ilegal, com participa\u00e7\u00e3o do propriet\u00e1rio da fazenda,\u00a0Morival\u00a0Favoreto, o grupo efetuou disparos com armas de fogo, ordenou que as fam\u00edlias sa\u00edssem dos barracos e que se deitassem no ch\u00e3o. Logo que saiu do barraco, o campon\u00eas S\u00e9timo Garibaldi, de 52 anos, foi ferido na perna. Sem socorro ao campon\u00eas pelo bando, Garibaldi faleceu de hemorragia aguda.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cAs viol\u00eancias da UDR e do latif\u00fandio no estado Paran\u00e1 n\u00e3o podem permanecer impunes e n\u00f3s vamos seguir os caminhos em \u00e2mbito internacional para garantir que haja justi\u00e7a para Sebasti\u00e3o Camargo e todos os trabalhadores e trabalhadoras rurais que foram v\u00edtimas de viol\u00eancia e assassinato por parte dos agentes, dos representantes do latif\u00fandio\u201d, enfatiza Darci Frigo, da Terra de Direitos. A organiza\u00e7\u00e3o contribui no julgamento como assistente de acusa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rico de viol\u00eancia no governo Lerner<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>No per\u00edodo em que o Paran\u00e1 foi governado por Jaime Lerner, o estado registrou, al\u00e9m dos 16 assassinatos de\u00a0Sem Terra, 516 pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, 31 tentativas de homic\u00eddio, 49 amea\u00e7as de morte, 325 feridos em 134 a\u00e7\u00f5es de despejo e 7 casos de tortura, segundo dados da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT).\u00a0<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica em comum nesses casos \u00e9 a demora injustificada e a falta de isen\u00e7\u00e3o nas investiga\u00e7\u00f5es e processos judiciais. Exemplo disso, o Inqu\u00e9rito Policial que investigou o assassinato de Camargo demorou mais de dois anos para ser conclu\u00eddo, e o primeiro j\u00fari no caso s\u00f3 foi realizado 14 anos depois do crime.\u00a0<\/p>\n<p>Em apenas dois dos 16 casos houve condena\u00e7\u00e3o efetiva dos executores ou mandantes: em 2011, Jair Firmino Borracha foi condenado pelo assassinato de Eduardo\u00a0Anghinoni; entre 2012 e 2014, respectivamente,\u00a0Teissin\u00a0Tina, Osnir Sanches e Augusto Barbosa da Costa foram condenados pela morte de Sebasti\u00e3o Camargo. At\u00e9 o momento, por\u00e9m, nenhum deles permanece preso em regime fechado.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Sementes e frutos da luta pela terra\u00a0<\/strong>\u00a0<br \/>Neste per\u00edodo do conflito dos anos 1990, emergiram 40 assentamentos do\u00a0noroeste do\u00a0Paran\u00e1. As duas \u00e1reas em que ocorreram as a\u00e7\u00f5es das mil\u00edcias e que resultou na morte de Sebasti\u00e3o Camargo j\u00e1 haviam sido declaradas improdutivas e foram adquiridas pela Uni\u00e3o, e hoje s\u00e3o os assentamentos Santo \u00c2ngelo e assentamento Sebasti\u00e3o Camargo.\u00a0Mais de duas mil fam\u00edlias hoje est\u00e3o assentadas na regi\u00e3o noroeste.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Assentado da reforma agr\u00e1ria no oeste do Paran\u00e1,\u00a0Messias\u00a0resume o acesso \u00e0 terra como \u201csobreviv\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cHoje a maioria dos alimentos que vai para a escola \u00e9 dos assentamentos\u00a0[\u2026].\u00a0Hoje o povo consegue trabalhar e manter no col\u00e9gio, manter os filhos deles que est\u00e3o estudando, os netos que est\u00e3o estudando na escola\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>As fam\u00edlias\u00a0da regi\u00e3o noroeste\u00a0avan\u00e7aram na organiza\u00e7\u00e3o de tr\u00eas cooperativas para organizar a produ\u00e7\u00e3o e a comercializa\u00e7\u00e3o dos alimentos produzidos, e o munic\u00edpio de Quer\u00eancia do Norte \u00e9 destaque com o maior produtor de arroz do estado, especialmente vindos das \u00e1reas da reforma agr\u00e1ria.\u00a0<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Fl\u00e1vio Borba garante a continuidade da luta pela democratiza\u00e7\u00e3o da terra, enquanto houver\u00a0fam\u00edlias que queiram lutar por esse direito: \u201cN\u00f3s vamos continuar honrando a mem\u00f3ria daqueles que partiram, fazendo luta pela terra e construindo a reforma agr\u00e1ria\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Como mensagem sobre o que espera para o futuro, Messias deixa um apelo: \u201cN\u00e3o deixem acontecer isso, fa\u00e7am justi\u00e7a, porque o ser humano merece ter uma chance de sobreviver e de construir uma vida, ver os teus filhos se formar, estudar, n\u00e3o decepar a vida assim\u201d.\u00a0<\/p>\n<p><em>*Editado por Solange Engelmann<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/05\/29\/absolvicao-de-ex-presidente-da-udr-perpetua-28-anos-de-impunidade-e-expoe-manobra-juridica-no-pr\/\">Absolvi\u00e7\u00e3o de ex-presidente da UDR perpetua 28 anos de impunidade e exp\u00f5e manobra jur\u00eddica no PR\u00a0<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/china-se-prepara-para-celebrar-80-anos-da-vitoria-da-guerra-mundial-contra-o-fascismo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image_processing20240805-3906267-r0u76x-800x570-1-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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