{"id":89513,"date":"2026-05-29T16:31:17","date_gmt":"2026-05-29T19:31:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/amor-de-indio-cancao-anticapitalista\/"},"modified":"2026-05-29T16:31:17","modified_gmt":"2026-05-29T19:31:17","slug":"amor-de-indio-cancao-anticapitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/amor-de-indio-cancao-anticapitalista\/","title":{"rendered":"Amor de \u00edndio, can\u00e7\u00e3o anticapitalista?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"962\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/A2C52904B-2048x1314.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/A2C52904B-1500x962.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/A2C52904B-300x192.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/A2C52904B-768x493.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/A2C52904B-1536x985.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/A2C52904B-2048x1314.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Arte:<strong> <\/strong>\u201cLunch Break at the Building Site in the Van Diemenstraat in Amsterdam\u201d (Hora do Almo\u00e7o no Canteiro de Obras na Van Diemenstraat em Amsterd\u00e3) \u2013 George Hendrik Breitner. Reprodu\u00e7\u00e3o\/Wikimedia Commons.<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O Brasil tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de artistas engajados, em espa\u00e7os como literatura, m\u00fasica, cinema, teatro, emergindo nomes como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Chico Buarque, Glauber Rocha, entre outros. Contudo, houve tamb\u00e9m artistas que, mesmo sem ter um engajamento pol\u00edtico expl\u00edcito, tiveram posturas de cr\u00edtica social, como o grupo reunido em torno do projeto Clube da Esquina, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. Milton Nascimento, inclusive, realizou algumas frut\u00edferas parcerias com Chico Buarque, como na m\u00fasica \u201cC\u00e1lice\u201d, lan\u00e7ada em 1978.<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>Contudo, a despeito dos exemplos mais famosos, talvez uma das m\u00fasicas mais politizadas e cr\u00edticas da m\u00fasica popular brasileira seja a aparentemente singela \u201cAmor de \u00edndio\u201d, escrita por Beto Guedes e Ronaldo Bastos, lan\u00e7ada em 1978.Essa m\u00fasica acabou ficando mais conhecida na voz de Milton Nascimento, em interpreta\u00e7\u00f5es ao vivo, e, mais recentemente, teve uma nova vers\u00e3o, que fez parte da trilha sonora da refilmagem da novela <em>Pantanal<\/em>.<\/p>\n<p>Embora difundida como uma can\u00e7\u00e3o de amor \u2013 o que de fato \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o v\u00e1lida e coerente \u2013 pode ser vista como uma can\u00e7\u00e3o sobre a explora\u00e7\u00e3o capitalista, se constituindo em uma das mais belas met\u00e1foras sobre o trabalho. N\u00e3o h\u00e1 na m\u00fasica nada que explicite uma filia\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ou pol\u00edtica, mas apenas um conjunto de imagens que permite compreender a sociedade capitalista.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-43.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-43.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O trabalho \u00e9 apresentado em belas imagens, abrindo a possibilidade de reflex\u00f5es sobre o processo de explora\u00e7\u00e3o. Na segunda estrofe, encontra-se a seguinte passagem:<\/p>\n<p>Tudo viver a teu lado<br \/>Com o arco da promessa no azul pintado pra durar<br \/>A abelha fazendo o mel<br \/>Vale o tempo que n\u00e3o voou<\/p>\n<p>Essa passagem remete ao tempo gasto na produ\u00e7\u00e3o do mais valor, ou seja, ao tempo de trabalho dedicado ao que \u00e9 apropriado pelo propriet\u00e1rio privado dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Como a classe trabalhadora na sociedade capitalista, a abelha \u00e9 definida pelo \u201ctempo que n\u00e3o voou\u201d. Uma das passagens mais conhecidas de <em>O capital<\/em> \u00e9 aquela em que Marx diferencia o trabalho humano daquelas atividades realizadas pela aranha e pela abelha. Marx afirma:<\/p>\n<p>\u201cUma aranha executa opera\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s do tecel\u00e3o, e uma abelha envergonha muitos arquitetos com a estrutura de sua colmeia. Por\u00e9m, o que desde o in\u00edcio distingue o pior arquiteto da melhor abelha, \u00e9 o fato de que o primeiro tem a colmeia em sua mente antes de constru\u00ed-la com a cera. No final do processo de trabalho chega-se a um resultado que j\u00e1 estava presente na representa\u00e7\u00e3o do trabalhador no in\u00edcio do processo, portanto, um resultado que j\u00e1 existia idealmente\u201d.<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Essa men\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora aparece tamb\u00e9m na quinta estrofe da m\u00fasica, onde canta-se:<\/p>\n<p>Se todo amor \u00e9 sagrado<br \/>E o fruto do trabalho \u00e9 mais que sagrado, meu amor<br \/>A massa que faz o p\u00e3o<br \/>Vale a luz do teu suor<\/p>\n<p>Nessa imagem, a ideia de massa pode ser entendida de duas formas. Uma delas \u00e9 pr\u00f3prio produto do trabalho, realizado pelas m\u00e3os e marcada pelo suor provocado pelo esfor\u00e7o. Mas, tamb\u00e9m, pode remeter ao coletivo, na ideia de massa, que remete a um grupo que realizada determinada a\u00e7\u00e3o. Essa ideia de que algu\u00e9m que trabalha, que faz o p\u00e3o, permite tamb\u00e9m pensar que, na sociedade capitalista, \u201co valor da for\u00e7a de trabalho \u00e9 o valor dos meios de subsist\u00eancia necess\u00e1rios \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de seu possuidor\u201d.<sup>3<\/sup><\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Banner-fixo.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Banner-fixo.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Banner-fixo-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Reflete-se na m\u00fasica tamb\u00e9m sobre o tempo livre, na sexta estrofe, trazendo inclusive a ideia de utopia. Canta-se assim: \u201cLembra que o sono \u00e9 sagrado \/ E alimenta de horizontes o tempo acordado de viver\u201d. Na m\u00fasica, procura-se refletir como o tempo de trabalho, que deveria ser apenas uma parte da vida, torna-se instrumento de exaust\u00e3o. E o tempo livre, que deveria ser espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o, de encontro, de descanso, \u00e9 tomado pela l\u00f3gica produtiva do capital.<\/p>\n<p>Na l\u00f3gica do capital, o trabalho mostra-se como centro da sociabilidade e produ\u00e7\u00e3o do ser, se constituindo em fonte de sofrimento e de estranhamento. Segundo a m\u00fasica, o sono, por um lado, \u00e9 sagrado por ser momento de descanso, mas, tamb\u00e9m, por alimentar o horizonte, as utopias e expectativas, numa imagem que remete aos sonhos. O tempo livre \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para a vida, para a cultura, para a pol\u00edtica, para os sentimentos.<\/p>\n<p>Por fim, na s\u00e9tima estrofe, a m\u00fasica traz um olhar para esse sonho que se vislumbra no \u201ctempo acordado\u201d. Canta-se assim:<\/p>\n<p>No inverno, te proteger<br \/>No ver\u00e3o, sair pra pescar<br \/>No outono, te conhecer<br \/>Primavera, poder gostar<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o de forma expl\u00edcita, essa estrofe lembra bastante um famoso fragmento da obra <em>A ideologia alem\u00e3<\/em>, escrita por Marx e Engels no final da d\u00e9cada de 1840. Na obra dos fundadores do materialismo hist\u00f3rico, essa passagem \u00e9 um dos raros momentos em que descrevem o vislumbre a uma futura sociedade:<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] na sociedade comunista, onde cada um n\u00e3o tem um campo de atividade exclusivo, mas pode aperfei\u00e7oar-se em todos os ramos que lhe agradam, a sociedade regula a produ\u00e7\u00e3o geral e me confere, assim, a possibilidade de hoje fazer isto, amanh\u00e3 aquilo, de ca\u00e7ar pela manh\u00e3, pescar \u00e0 tarde, \u00e0 noite dedicar-me \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de gado, criticar ap\u00f3s o jantar, exatamente de acordo com a minha vontade, sem que eu jamais me torne ca\u00e7ador, pescador, pastor ou cr\u00edtico\u201d.<sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Portanto, a m\u00fasica de Beto Guedes e Ronaldo Bastos nos remete \u00e0 reflex\u00e3o sobre a sociedade capitalista, na qual explora\u00e7\u00e3o do trabalho garante a produ\u00e7\u00e3o do valor. O tempo livre, que deveria ser pleno, \u00e9 reduzido a um intervalo que n\u00e3o permite ao trabalhador sequer recuperar suas pr\u00f3prias for\u00e7as. O sono, que a can\u00e7\u00e3o diz ser sagrado, torna-se escasso, consumido pela necessidade de estar pronto para o pr\u00f3ximo turno.<\/p>\n<p>O fruto do trabalho, quando colhido sob explora\u00e7\u00e3o, perde seu brilho. O trabalho e seu produto ternam-se algo estranho e irreconhec\u00edvel. Conforme sugere a m\u00fasica, os momentos fora do trabalho n\u00e3o podem ser vistos como uma perda ou desperd\u00edcio, mas como tempo \u201cpara ser o que for \/ E ser tudo\u201d. Esse \u00e9 o ser pleno que se busca numa nova sociedade. Que o \u201cazul pintado pra durar\u201d n\u00e3o seja apenas promessa, mas uma realidade vivida, em dias que n\u00e3o sejam s\u00f3 de trabalho, mas de vida, de amor e de liberdade.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 Escrita em 1973, por Chico Buarque e Gilberto Gil, a m\u00fasica enfrentou longos anos de censura por parte da ditadura at\u00e9 conseguir ser finalmente lan\u00e7ada em um \u00e1lbum.<\/p>\n<p>2 Karl Marx. O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013, Livro I, p. 255-6<\/p>\n<p>3 Karl Marx. O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013, Livro I, p. 245.<\/p>\n<p>4 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alem\u00e3. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2007, p. 38.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Em belas imagens, canta que o \u201csono \u00e9 sagrado\u201d, mas torna-se escasso \u2013 e nele est\u00e3o os sonhos que alimentam horizonte de utopias\u2026<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/amor-de-indio-cancao-anticapitalista\/\">&lt;i&gt;Amor de \u00edndio&lt;\/i&gt;, can\u00e7\u00e3o anticapitalista?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":89514,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[19924,794,14698,62901,1014,42999,309,52385,62902,1886,31635,8,62903,9979,40455,2027,5499,18031,1976,2482,62904,20266,62905,377,12872,19053,25323],"tags":[],"class_list":["post-89513","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-amor","category-artistas","category-beto-guedes","category-cancao","category-classe-trabalhadora","category-critica-social","category-cultura","category-descanso","category-engajamamento-politico","category-justica-social","category-liberdade","category-literatura","category-logica-produtiva-do-capital","category-marx","category-materialismo-historico","category-o-capital","category-poeticas","category-povo-brasileiro","category-qualidade-de-vida","category-reducao-da-jornada","category-ronaldo-bastos","category-tempo-livre","category-tempo-sagrado","category-trabalho","category-utopia","category-vida","category-vida-alem-do-trabalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89513"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89513\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}